domingo, janeiro 29, 2012

CINEMA: O ARTISTA

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O ARTISTA

“O Artista” foi uma das grandes surpresas do ano passado e encontra-se agora a disputar todos os grandes prémios internacionais, dos Globos aos Oscars, depois de ter passado fulgurantemente pelo Festival de Cannes. Trata-se de uma produção franco-belga, em grande parte rodada nos EUA, que tem tudo para agradar ao público americano, desde uma sensibilidade à flor da pele, um bom gosto indesmentível, uma toada nostálgica sobre a década de 30 (curiosamente ou talvez não, a da grande crise do pós “Crash” de 1929, que tanto tem a ver com os nossos dias, e também aquela que, em termos cinematográficos, assistiu à passagem do “mudo” para o “sonoro”), um humor discreto mas saudável, um “happy end” meio amoroso, meio laboral, que mostra que quem não desiste arranja sempre uma forma de suplantar as dificuldades, e ainda muito bons aspectos técnicos, e um elenco de superior qualidade. Tudo resumido, resulta num excelente divertimento, um entretenimento que sabe bem saborear, mas muito pouco mais.
Comecemos pelas novidades. Nenhumas ou muito poucas. Em 1976, Mel Brooks já tinha realizado um filme “mudo”, precisamente “A Última Loucura” (Silent Movie), no qual um realizador norte-americano procurava dirigir uma longa-metragem “muda”, em época de “sonoro” avançado. Curiosamente, o único que dizia uma palavra durante toda a obra, era um mimo, Marcel Marceau, que nos seus espectáculos nunca falava. Ali invertiam-se os papéis. Muito divertido e engenhoso, com Mel Brooks, Marty Feldman e Dom DeLuise em grande forma.
Também a homenagem a grandes filmes da história do cinema tem sido pano para muitas mangas, e recordo uma bem interessante, a divertida comédia detectivesca de Carl Reiner, em 1982, “Cliente Morto Não Paga a Conta” (Dead Men Don't Wear Plaid), onde se procurava homenagear o policial e o “filme negro”, com a recuperação de muitos dos estereótipos e ícones do género. A ligação entre cenas dos próprios filmes citados e as recreadas era brilhante e Steve Martin deu um salto qualitativo na sua carreira com esta interpretação. “O Artista”, em muitos aspectos, fez-me recordar este filme.
“O Artista” tenta uma evocação dos tempos gloriosos do “mudo” e, simultaneamente, recordar as provações a que estiveram submetidas algumas das grandes vedetas do cinema silencioso, quando apareceu o som síncrono no ecrã. Já o víramos de forma absolutamente notável na obra-prima de Stanley Donen e Gene Kelly, “Serenata à Chuva” (Singing the Rain), de 1952. Nesse aspecto, “O Artista” é um quase “remake” desse musical admirável, como Gene Kelly, Debbie Reynold e Donald O´Connor. “The Artist” conta-nos a história de uma grande vedeta do cinema mudo, George Valentin (Jean Dujardin), que um dia ajuda a singrar no cinema uma jovem pretendente a actriz, que aparece como figurante em pequenas cenas de dança, Peppy Miller (Bérénice Bejo), precisamente nos anos charneira em que a industria vai abandonar o cinema mudo e lançar-se no cinema sonoro. A estreia oficial do filme que Valentin acaba de rodar, logo nas cenas iniciais, não pode ser mais idêntica à sequência final de “Singing the Rain”, com a actriz medíocre a ser subalternizada no palco pelo galã que dirige as operações. Valentin tem nome de Rudolfo, mas filmes de Douglas Fairbanks (aquelas cenas de aventura trepidante, onde só muda o cenário, “A Russian Affair” logo seguido por “A German Affair” são bem uma referência óbvia). Depois há um pouco de tudo como homenagem a grandes clássicos do mudo, mas também do sonoro. Logo a abrir, o grito durante a tortura, é uma evocação de “O Couraçado Potemkine”, mais adiante os eléctrodos lembram “Metropolis”, a luz vinda da janela durante as reuniões remetem para “O Mundo a seus Pés”, bem assim como a sucessão de planos de pequenos almoços que vão assinalando o esmorecer da relação do actor com a mulher, o bailado final recupera outros de Fred Astaire e Ginger Rogers, e por aí fora.
Michel Hazanavicius, o realizador de “O Artista”, é um cinéfilo, um apaixonado pelo cinema e conhece bem os clássicos. Anteriormente, tinha rodado duas paródias aos filmes de espionagem que são muito divertidas e que já utilizavam o mesmo princípio de evocação-homenagem: “Agente 117” (2006) e “OSS 117: Rio ne Répond Plus” (2009), curiosamente com o mesmo protagonista, Jean Dujardin. 
Ora bem, onde é que esta obra de Hazanavicius me parece mais interessante, ganhando algum relevo? Precisamente na forma como se relaciona com o “mudo”. George Valentin é um actor mudo, o próprio nome diz-nos que deve ser de origem francesa, logo não fala muito bem o inglês (um óbice fatal, quando se passa para o sonoro), mas durante todo o filme ele (ou as suas personagens) recusa falar. Logo no início, o herói por si vivido no ecrã é torturado para falar e “não fala”, depois a mulher (na vida real) deixa-lhe um recado, “Precisamos falar. Por que não falas?”, and so on, and so on.
George Valentin não é homem de palavras, não quer falar, e vai manter-se irredutível. Quando o produtor Al Zimmer (excelente John Goodman), dos Kiograph Studios,  lhe diz que o cinema a partir daquela altura tinha som, ele responde, “Fique com os seus filmes sonoros, eu fico com as minhas obras-primas” e, qual Griffith ou Chaplin, roda um novo “mudo”, “Tears of Love”, que irá arruiná-lo por completo. Ele é o “Lonely Star” que vemos anunciado num cinema ao longe, mas irá ter o seu “Guardian Angel”, outro título visível numa sala quando sabemos que Peppy Miller corre em seu auxílio.
Valentin sente os ruídos à sua volta, os copos a tilintar, uma pena a esvoaçar que cai no chão com o barulho de um trovão, e esse som incomoda-o visivelmente. Atormenta-o. Marca a sua queda. A ruína. O incêndio, onde o vemos, qual Citizen Kane, em cima das bobines dos seus velhos filmes que ele destrói, aparentemente dominando a situação, mas na realidade sendo consumido pela decadência inexorável, é igualmente retrato de uma solidão suicida que só não vai avante pelos esforços combinados do seu fiel cão, Uggie, do seu não menos devotado mordomo e motorista, Clifton (magnífico James Cromwell), e da sua apaixonada Peppy Miller.
A única vez que George Valentin fala é no final, para agradecer um cumprimento do produtor, e percebe-se por que foi afastado no “sonoro”: nem a voz é agradável, nem o sotaque é possível. Ele, como muitos outros, será uma vítima das conquistas da tecnologia. O seu tempo de grande vedeta pertence ao passado, a menos que o seu sapateado mereça ser colocado ao lado do de Fred Astaire. Mas este também cantava. O futuro não deixa grande margem para optimismo, apesar do aparente “happy end”.
Grande filme? Não tanto. Mas uma obra que se vê com agrado, num magnífico preto e branco, com uma reconstituição de época notável, e um elenco que merece todos os encómios, onde se destacam o francês Jean Dujardin e a argentina Bérénice Bejo, um belíssimo par romântico, com um ironia fina que se auto parodia com inteligência. Hazanavicius já era um realizador a seguir com atenção. Agora redobradamente.
O ARTISTA
Título original: The Artist
Realização:
Michel Hazanavicius (França, Bélgica, 2011); Argumento: Michel Hazanavicius; Produção: Jeremy Burdek, Antoine de Cazotte, Daniel Delume, Nadia Khamlichi, Thomas Langmann, Richard Middleton, Emmanuel Montamat, Adrian Politowski, Gilles Waterkeyn; Música: Ludovic Bource; Fotografia (p/b): Guillaume Schiffman; Montagem: Anne-Sophie Bion, Michel Hazanavicius; Casting: Heidi Levitt; Design de produção: Laurence Bennett; Direcção artística: Gregory S. Hooper; Decoração: Austin Buchinsky, Robert Gould; Guarda-roupa: Mark Bridges; Maquilhagem: Cydney Cornell, Julie Hewett; Direcção de Produção: Antoine de Cazotte, Segolene Fleury-Slimane, Varujan Gumusel, Frank Mettre, Christina Lee Storm; Assistentes de realização: James Canal, David Allen Cluck, David Paige, Lou Salomé Piron; Departamento de arte: Martin Charles, Carol Kiefer, Adam Mull; Som: Valeria Ghiran, Nadine Muse;  Efeitos especiais: David Waine; Efeitos visuais: Seif Boutella, Amandine Moulinet, Romain Moussel ; Companhias de produção: La Petite Reine, La Classe Américaine, JD Prod, France 3 Cinéma, Jouror Productions, uFilm, Canal+, CinéCinéma, France Télévision, Le Tax Shelter du Gouvernement Fédéral de Belgique; Intérpretes: Jean Dujardin (George Valentin), Bérénice Bejo (Peppy Miller), John Goodman (Al Zimmer), James Cromwell (Clifton), Penelope Ann Miller (Doris), Missi Pyle (Constance), Malcolm McDowell, Beth Grant, Ed Lauter, Joel Murray, Bitsie Tulloch, Ken Davitian, Basil Hoffman, Bill Fagerbakke, Nina Siemaszko, Stephen Mendillo, Dash Pomerantz, Beau Nelson, Alex Holliday, Wiley M. Pickett, Ben Kurland, Katie Nisa, Katie Wallack, Hal Landon Jr., Cleto Augusto, etc. Duração: 100 minutos; Distribuição em Portugal: PepperView Entertainment; Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal: 2 de Fevereiro de 2012.

sábado, janeiro 28, 2012

TEATRO: JUDY GARLAND - O FIM DO ARCO-ÍRIS

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JUDY GARLAND - O FIM DO ARCO-ÍRIS


Depois de ter tratado sempre com grande amor e entusiasmo os casos de divas como Amália, Maria Callas ou Edith Piaf, Filipe La Féria lança-se na evocação de Judy Garland, através da encenação do musical “Judy Garland - O fim do arco-íris”, um original de Peter Quilter, que tem sido bem recebido nos palcos de todo o mundo e agora sobe à cena no Teatro Politeama de Lisboa.
Inglês de nascimento (Colchester), Peter Quilter estudou na Universidade de Leeds, emigrando depois para as Ilhas Canárias, onde reside. Iniciou a carreira como apresentador de televisão, na BBC, e estreou-se como dramaturgo com uma comédia, “Respecting Your Piers”, mais tarde rebaptizada como "Curtain Up", a que se seguiram uma adaptação de Oscar Wilde, “The Canterville Ghost”, o musical, e uma nova comédia, “BoyBand”. O seu primeiro grande sucesso internacional seria, todavia, em 2005, “End of the Rainbow”, que se estreou na Sydney Opera House, na Austrália. Em Inglaterra, surgiu no Royal Theatre de Northampton, com encenação de Terry Johnson, e interpretação de Tracie Bennett. Chegou ao West End londrino, para se instalar no Trafalgar Studios, tendo recebido quatro nomeações para os “Laurence Olivier Awards”, melhor nova peça, melhor actriz, melhor actriz num papel secundário, melhor som. A sua carreira prosseguiu em Madrid, Hamburgo, Rio de Janeiro, e vai estrear nos EUA, a caminho da Broadway, onde conta chegar a 19 de Março deste ano.
Outro musical de grande sucesso do mesmo autor é “Glorious!”, contando-se ainda no seu reportório obras como “Celebrity”, “Just the Ticket”, “Curtain Up!”, “The Nightingales” ou “The Morning After”.
“Judy Garland - O fim do arco-íris” é, como se calcula, uma homenagem à lendária actriz e cantora que nos legou, entre outros, filmes como “O Feiticeiro de Oz” ou “Não Há Como a Nossa Casa”, “O Pirata dos Meus Sonhos” ou “Assim Nasce Uma Estrela”, para só citar alguns.
Judy Garland nasceu com o nome de Frances Ethel Gumm, a 10 de Junho de 1922, em Grand Rapids, Minnesota, nos EUA, e viria a falecer muito jovem ainda, aos 47 anos, em Londres, a 22 de Junho de 1969. Desde muito nova que se entregou ao espectáculo, os pais eram artistas de variedades e cantores, Francis Avent "Frank" Gumm (1886-1935) e Ethel Marion Milne (1893-1953), e formou com duas outras irmãs mais velhas, Mary Jane "Suzy" Gumm (1915-64) e Dorothy Virgínia "Jimmie" Gumm (1917-77), um trio a que deram o nome “The Sisters Gumm”, que, depois de muitos espectáculos de teatro de “vaudeville”, se estreou no cinema, em 1929, em “Revue Big”. A última aparição de “The Sisters Gumm” no ecrã surgiu em 1935, em “La Fiesta de Santa Barbara”, uma curta-metragem musical. Passaram então a chamar-se “The Garland Sisters”, dado que Gummo não era nome que soasse bem. Mas o trio não durou muito. Suzanne Garland casou, abandonou a carreira, e também Frances Ethel Gumm foi substituída por Judy Garland. "Judy", como homenagem a uma popular canção de Hoagy Carmichael, e Garland, aí as explicações fiam mais fino e há várias, para todos os gostos, desde uma influência da personagem de Carole Lombard (Lily Garland), até um elogio recebido por telegrama da actriz Judith Anderson, onde se referia a palavra "Garland" (grinalda). É já como Judy Garland que assina o seu primeiro contrato a solo com a MGM. Estávamos em 1935, ela tinha treze, catorze anos 1, 64 m de altura, , o pai morrera pouco antes, vítima de meningite, e a “,Babe”, como era chamada pelos familiares e amigos, logo passou a “filha da MGM”, onde dominava Louis Mayer, que tinha por hábito alimentar-se sexualmente de todas as suas actrizes.
A seu lado, tinha as “vedetas” da casa, entre as quais Ava Gardner, Lana Turner ou Elizabeth Taylor, e Garland não era o que se pode chamar o “glamour” em pessoa, a uma primeira vista. Na sua idade, não era nem carne nem peixe, e Louis B. Mayer, uma vez recusados os avanços, ao que consta, referia-se a ela como a "pequena corcunda". Mas a popularidade da jovem actriz era muita, sobretudo desde que cantara “You Made Me Love You”, no aniversário de Clark Gable, e posteriormente no “All-Star Extravaganza Broadway Melody” de 1938, desta feita perante a fotografia do actor. A MGM inventou então a parelha Judy Garland - Mickey Rooney, que apareceu numa série de musicais para adolescentes. O primeiro data de 1940, “Thoroughbreds B Don't Cry”, a que se seguiram mais oito. Mas foi “O Feiticeiro de Oz”, de 1939, que marcaria para sempre a sua carreira e a tornaria imortal, sobretudo através do êxito sem precedentes que foi a sua interpretação do clássico tema “Over the Rainbow”.
 
Rapidamente Judy Garland se torna dependente de medicamentos e drogas, de álcool e tabaco. Afirma-se que Louis Mayer, “para melhor rentabilizar os serviços da jovem” lhe administrava anfetaminas para a estimular e, depois, barbitúricos para que dormisse quando já não era necessária”.
A sua vida torna-se um carrossel com altos e baixos cíclicos. Profissionalmente é uma das mais celebradas vedetas dessas décadas de ouro do musical, aparecendo nalguns dos grandes filmes que assinalaram o género. Mas, em simultâneo, a dependência torna-se uma constante, as crises multiplicavam-se, com tentativas de suicídio regulares, e os seus efeitos sobre o trabalho também, com atrasos e ausências a filmagens. Começou várias obras que não terminou, sendo despedida e substituída por outra actriz. Particularmente, a sua vida sentimental era instável. Casou com David Rose (1941-1944), com o cineasta Vincente Minnelli, de cuja ligação nasceu Liza Minnelli, (1945-1951), Sidney Luft (1952-1965), Mark Herron (1965-1967), e Mickey Deans (1969), que a encontrou morta na banheira do seu apartamento, num hotel da capital inglesa.
Em 1999, o “American Film Institute”, numa sondagem entre os seus membros, colocou-a em oitavo lugar, entre as dez maiores estrelas femininas da história do cinema americano. Desde a sua morte, cujo enterro foi acompanhado por mais de 22 mil pessoas, que é um ícone da história do cinema e do espectáculo.
Foi esta personagem singular, mas não tão singular assim, quando olhamos a história do espectáculo mundial, onde exemplos similares são frequentes, que serviu de base à peça de Peter Quilter, que se centra somente nas últimas semanas de vida da actriz, quando em Londres se encontra a actuar no “Talk of the Town”. A peça mostra o mau feitio da actriz, no seu relacionamento com o seu dedicado pianista, Anthony (Carlos Quintas), e com o seu quinto marido, Mickey Deand (Hugo Rendas), mas, de certa forma, tenta fazer compreender esse génio desesperado pelos amargos de boca por que a actriz passou ao longo de toda a vida. De qualquer forma, este tipo de trabalhos deixa sempre uma certa sensação de ligeira hipocrisia e de aproveitamento pós-mortem. É verdade que Judy Garland, como muitas outras e outros, tiveram vidas sacrificadas, mas também não o é menos que deveria ser muito traumatizante trabalhar com ela, sujeito a todos os seus estados de espírito. Mas a peça parece uma sincera homenagem, não muito brilhante enquanto escrita teatral, mas suficientemente interessante para se acompanhar com agrado.


Filipe La Féria, tal como o país, vive um período de vacas magras, e não se nota em “Judy Garland - O Fim do Arco-Íris” aquele arrojo espectacular que costuma ser seu timbre. A encenação oscila entre dois cenários, o quarto de hotel e o palco do “Talk of the Town”, sendo que é aqui que se passam os momentos mais exaltantes, com a interpretação de Vanessa Silva, como Judy Garland, uma bonita e poderosa voz e uma interpretação que, na noite da estreia, começou naturalmente nervosa e lentamente foi ganhando o palco e admiração dos espectadores. Carlos Quintas e Hugo Rendas cumprem com a habitual dedicação.

VAVADIANDO COM RITA RIBEIRO. DIA 4 DE FEVEREIIRO

quinta-feira, janeiro 26, 2012

THEO ANGELOPOULOS, A MINHA HOMENAGEM


A MINHA HOMENAGEM

Há uns meses, para um ciclo sobre cinema europeu,escrevi sobre Theo Angelopoulos e o seu filme "O Olhar de Ulisses": Aqui fica como homenagem a um dos mestres do cinema contemporâneo. 
THEODOROS ANGELOPOULOS
Theodoros Angelopoulos (em grego: Θεόδωρος Αγγελόπουλος) nasceu a 27 de Abril de 1935, em Atenas, Grécia. Estudou direito na Universidade de Atenas. Após o serviço miliar viajou até Paris estudando na Sorbonne e matriculando-se depois no IDHEC (Instituto de Altos Estudos Cinematográficos), regressando depois a Atenas, onde iniciou uma carreira como jornalista e crítico de cinema.
Começou a sua obra cinematográfica na curta-metragem, em 1967, durante a Ditadura dos Coronéis. As suas primeiras longas-metragens ostentam um cunho profundamente político, analisando a Grécia moderna: Days of '36 (Meres Tou 36, 1972), The Travelling Players (O Thiassos, 1975) ou The Hunters (I Kynighoi, 1977). Estabelece uma equipa com quem colabora regularmente: o director de fotografia Giorgos Arvanitis, o argumentista Tonino Guerra ou o compositor Eleni Karaindrou. Uma narrativa ambígua, um tempo lento e saboreado da imagem, sequências longas em planos fixos coreografando diversas personagens, uma estrutura narrativa hábil e rigorosa, intelectualizada e filosófica na sua riqueza fazem de Angelopoulos um dos mais importantes realizadores vivos. Em 1978, foi membro do Júri do 28º Festival de Cinema de Berlim. Os seus filmes foram presença regular nos primeiros anos do extinto Festival de Cinema da Figueira da Foz.

Filmografia
Como realizador:
1958: E EKPOMBEI (The Broadcast) (curta-metragem)
1970: ANAPARASTASI (Reconstrução)
1972: MERES TOU '36 (Dias de ‘36)
1975: O THIASSOS (A Viagem dos Artistas) 
1977: E KENEGE (Os Caçadores)
1980: O MEGALEXANDROS (Alexandre, o Grande)
1981: CHORIO ENA, KATEKOS ENAS… (One Village, One Villager) (TV)
1983: ATHINA, EPISTROFI STIN AKROPOLI (Atenas) (TV)
1984: TAXIDI STIN KYTHIRA (Viagem a Citara) 
1986: O MELISSOKOMOS (The Beekeeper)
1983: TOPO STIN OMICHLI (Paisagem no Nevoeiro)
1991: TO METEORO VIMA TOU PELARGOU (O Passo Suspenso da Cegonha)
1995: TO VLEMMA TOU ODYSSEA (O Olhar de Ulisses)
1995: LUMIERE ET COMPAGNIE (um episódio)
1998: MIA EONIOTITA KE MIA MERA (A Eternidade e Um Dia) 
2007: CHACUN SON CINÉMA (A Cada um o seu Cinema) (um episódio)
2004: TRILOGIA I: TO LIVADI POU DAKRYZEI (The Weeping Meadow)
2009: I SKONI TOU CHRONOU (A Poeira do Tempo)  
O OLHAR DE ULISSES
“Também a alma, se quer reconhecer-se, deve olhar para a outra alma.” Platão.
Com esta citação abre o brilhante trabalho de Theo Angelopoulos a que deu o nome “O Olhar de Ulisses” e com o qual procura uma inteligente e invulgar actualização da viagem de Ulisses, retratada na “Odisseia”, de Homero.
Estamos em 1994-95 (o filme estreou em 95). Um realizador grego, exilado nos EUA (Harvey Keitel), regressa à sua aldeia natal para apresentar uma polémica obra sua, que cria alguns atritos aquando da sua exibição. A sala de cinema sofre pressões e recusa a sua passagem, e o cine clube local resolve projectá-lo numa praça da cidade, à chuva, gerando confrontos entre facções contra e a favor. O cineasta não parece muito preocuapado com o facto, e percebe-se rapidamente de que este regresso à Grécia é apenas um pretexto para uma outra aventura. Ele anda a investigar o que aconteceu a três bobines de um filme rodado nos primórdios do cinema (terá sido mesmo o primeiro filme rodado na Grécia e nos Balcãs) pelos irmãos Manakis, e que foram dadas como desaparecidas. Julga-se mesmo que nunca terão sido reveladas e não se sabe do seu paradeiro. Será que existem? Serão apenas um mito bem propagado?
O cineasta despede-se da Grécia e parte para a sua viagem pessoal, um périplo pelos países balcânicos. Toma um táxi e viaja até à Albânia. Na data em que decorre o filme, estes países acabam de sair da época de influência soviética e experimentam um caminho novo, com liberdade, mas ameaças latentes, um pouco a cada esquina. O motorista também tem o seu lado filosófico: “A Grécia morreu. Vivemos três mil anos entre estátuas.” O realizador começa a perceber igualmente que a realidade que vai conhecer (ou reconhecer, pois alguma já a viveu quarenta anos antes) está muito mudada: “A realidade dos Balcãs é muito mais difícil do que a da América.”
A viagem inicia-se pela fronteira com a Albânia, mas continuará a ser intercalada com imagens de um filme mudo, de 1909, onde se vêem fiandeiras. Irão funcionar como um refrão ao longo da obra, um reavivar de um olhar perdido no tempo. Afinal este é um filme sobre o olhar, o olhar de Ulisses em busca de um outro olhar, de um outro cineasta, olhar perdido no tempo e preservado em três caixas metálicas que nunca chegaram a conhecer a luz do dia, ou a luz do projector que lhes restituiria a vida. Ele sabe que os irmãos Manakis não se interessavam particularmente por política ou questões rácicas. Eles fotografavam pessoas. Registavam tudo. Todas as transformações, todos os contrastes. É esse olhar que o cineasta procura. O primeiro olhar. A inocência perdida.
A viagem continua. Skopie. Sofia. Bucareste. Encontra uma mulher, a mulher (Maia Morgenstern), Penélope que irá deixando em cada cidade. Ele conta do seu impasse. Ele fotografa mas era como se já não tivesse olhar. Os negativos revelados saíam negros.
Segue-se uma das cenas mais impressionantes do filme e bem reveladoras do estilo de Theo Angelopoulos: em plano único, numa sala de um palacete, apenas com a deslocação das personagens, numa encenação brilhante e com marcações de um virtuosismo notável, assiste-se à passagem do ano de1945, com o regresso do pai de um campo de concentração, passando depois a uma nova passagem de ano, 1948, em que o pai é preso pelas novas autoridades comunistas, saltando-se depois para o ano de 1950, com a requisição da casa pelas mesmas autoridades, até se chegar à fotografia de família, onde se integra o cineasta quando jovem.
Corte e vemos o cineasta acordar num quarto de hotel, dando ligação a uma nova sequência absolutamente genial: um guindaste com uma majestosa cabeça de Lenine coloca-a numa barcaça onde já se encontram os restos da mesma estátua, que irá subir o Danúbio rumo à Alemanha e à colecção privada de um coleccionador. A enorme estátua, vestígio de outros tempos, caídos em desgraça, sobe o rio deitada na barcaça. É uma imagem de derrota, de despojo, recordação que vai repousar adormecida num museu particular de um milionário alemão. Ironia do destino.
A viagem é escoltada por milhares de olhos que a acompanham nas margens do rio. Curiosidade mórbida? Homenagem? Adeus? Certeza de uma partida sem retorno?
O cineasta recorda de novo os irmãos Manakis e o seu entusiasmo pelo cinema. Em 1905, em Bucareste, disseram-lhes que vendiam máquinas de filmar em Londres. Foi aí que compraram a máquina que rodou os três rolos míticos que se tornaram um enigma.
Em Belgrado, procura na Cinemateca. “Deus criou o mundo, a viagem, a nostalgia”, pensa. Mas daí enviam-no para Sarajevo sitiada, em plena guerra da Bósnia. Um nova cinemateca onde Ivo Levi, o velho director (o bergmaniano Erland Josephson) vai guardando momentos belos da história do mundo, da civilização, da cultura. Ali se encontram, escondidos das balas e das explosões, tesouros, uma memória que urge preservar: Murnau, Dreyer, Orson Welles, Bergman, Eisenstein… O pesadelo abateu-se sobre o mundo. “Adormecemos num mundo e acordámos estremunhados noutro.”
A entrada na cinemateca meia esventrada é um ritual sagrado. Uma máquina de projectar envolta e plástico branco, assemelha-se a uma imagem num altar. Numa cidade de sombras, de pessoas que correm pelas ruas como animais foragidos, que aproveitam o nevoeiro para viverem normalmente, mas onde a música invade as ruas estilhaçadas e os prédios bombardeados, onde a mulher reaparece mostrando que o amor é possível, mas onde a crueldade do homem tudo parece derrotar, alguém luta por fazer sair da obscuridade um olhar. Ivo Levi explica-se: “Sou um coleccionador de olhares desaparecidos”. Que por fim ganham corpo, e luz.
Uma citação de Homero encerra este “Olhar”: “Quando regressar, virei com outro nome e com um outro fato. Voltarei. Esta é história da humanidade. Uma história que não termina”.
“O Olhar de Ulisses”: uma obra-prima do cinema. Um olhar grandioso sobre a viagem do homem sobre a terra. A inteligência, a sensibilidade, a beleza em cada fotograma, em cada cena, em cada olhar.
O OLHAR DE ULISSES
Título original: To Vlemma tou Odyssea ou Ulysses' Gaze (versão inglesa)
Realização: Theodoros Angelopoulos (Grécia, França, Itália, Alemanha, Inglaterra, República Federal da Jugoslávia, Bósnia e Herzegovina, Albânia, Roménia, 1995); Argumento: Theodoros Angelopoulos, Tonino Guerra, Petros Markaris, Giorgio Silvagni, segundo poema de Homero; Produção: Theodoros Angelopoulos, Phoebe Economopoulos, Eric Heumann, Dragan Ivanovic, Herbert G. Kloiber, Saimir Kumbaro, Piro Milkani, Ivan Milovanovic, Amedeo Pagani, Lucian Pricop, Giorgio Silvagni; Música: Eleni Karaindrou; Fotografia (cor): Giorgos Arvanitis, Andreas Sinanos; Montagem: Takis Koumoundouros, Yannis Tsitsopoulos; Casting: Alexandros Labridis, Margarita Manda, Dinko Tucakovic; Design de produção: Dinos Katsouridis; Decoração: Miodrag Nikolic, Giorgos Patsas; Guarda-roupa: Giorgos Ziakas; Maquilhagem: Fani Alexaki, Filippas Kapsalis, Katerina Moletti, Athina Tseregof; Direcção de Produção: Kostas Lambropoulos, Slobodan Pavicevic; Assistentes de realização: Pere Alberto, Lakis Antonakos, Angelos Frantzis, Takis Katselis, Alexandros Labridis, Panayiotis Portokalakis, Sasa Radojevic, Stratis Vouyoukas, Nenad Dizdarevic; Departamento de arte: Hristos Goutis, Thodoros Mourtas; Som: Thanassis Arvanitis, Yannis Haralambidis, Marton Jankov-Tomica; Efeitos especiais: Pino Carozza, Srba Kabadajic, Nenad Pukmajster, Olivier Zenenski, Dusan Zivkovic; Companhias de produção: Paradis Films, Basic Cinematografica, Istituto Luce, Th. Angelopoulos Productions, Tele München Fernseh Produktionsgesellschaft (TMG), Channel 4, Concorde Film, La Générale d'Images, La Sept-Arte, Radiotelevisione Italiana (RAI), Mega Channel, Canal+, Greek Film Center, Centre National de la Cinématographie (CNC), Euroimages Fund of the Council of Europe; Intérpretes: Harvey Keitel (A), Erland Josephson (S., Director da Cinemateca), Maia Morgenstern(a mulher de 'Ulysses'), Thanasis Vengos (taxista), Giorgos Mihalakopoulos (amigo e jornalista), Costas Santas, Dora Volanaki (velha senhora), Mania Papadimitriou, Giorgos Konstas, Thanos Grammenos, Alekos Oudinotis, Angel Ivanof, Ljuba Tadic, Vaggelis Liodakis, Gert Llanaj, Agni Vlahou, Giannis Zavradinos, Vangelis Kazan, Mirka Kalatzopoulou, Dimitris Kaberidis, Eva Kotamanidou, Miranda Kounelaki, Natalia Mihailidou, Nikos Kouros, Nadia Mourouzi, Vasilis Bouyiouklakis, Christoforos Nezer, Tania Palaiologou, Stratos Pahis, Jenny Roussea, Stratos Tzortzoglou, Giannis Fyrios, Dora Hrisikou, etc. Duração: 176 minutos; Distribuição em Portugal: Atalanta Filmes; Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal: 25 de Abril de 1996.

MORRE THEO ANGELOPOULOS, AOS 76 ANOS

Notícia recebida:


Realizador de 76 anos 
não resistiu aos ferimentos do atropelamento

O cineasta grego Theo Angelopoulos, vencedor em 1998 da Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes e do Leão de Ouro, em Vezena (1980), morreu na noite desta terça-feira, na sequência dos ferimentos que sofreu num atropelamento, horas antes, perto de Atenas.
Angelopoulos foi atropelado por uma moto ao final da tarde de terça-feira, em Pireu, junto à capital grega. O realizador, de 76 anos, foi hospitalizado com ferimentos considerados graves, acabando por morrer quatro horas depois devido a uma hemorragia interna, noticia nesta quarta-feira a agência de notícias AFP, citando fonte do hospital.
Com uma carreira de mais de 40 anos, Theo Angelopoulos foi o realizador que conseguiu que a cinematografia grega atingisse audiências internacionais, destacando-se geralmente nos festivais europeus.
Em 1995, venceu o Grande Prémio do Júri do Festival de Cannes, com o filme “O Olhar de Ulisses”, protagonizado pelo actor norte-americano Harvey Keitel, e três anos depois, em 1998, conseguiu o prémio principal do festival, a Palma de Ouro, com “A Eternidade e um Dia Antes”, sobre um escritor que tem o seu último dia de liberdade antes de ser internado no hospital. Antes, em 1980, recebera o Leão de Ouro com “Alexandre, o Grande”.
Nascido a 27 de Abril de 1935 em Atenas, Angelopoulos viveu na Grécia durante os seus períodos mais conturbados. Enfrentou a ocupação nazi durante a Segunda Guerra Mundial e passou depois pela Guerra Civil Grega, entre 1946 e 1949, acontecimentos que acabaram por marcar a sua cinematografia, que abordava geralmente temas políticos. A imigração e o exílio também foram temas recorrentes nos filmes do realizador.
Nascido a 27 de Abril de 1935 em Atenas, Theo Angelopoulos não descobriu logo a sua paixão pelo cinema, mas apenas no final dos anos 1960. Licenciado em direito, foi depois de se mudar para Paris, onde estudou no Instituto de Estudos Cinematográficos de Paris, que percebeu que a advocacia não era carreira para si. Já com novo curso, decide então voltar a Atenas e envereda pelo jornalismo, dedicando-se à crítica de cinema. Estava assim descoberta a sua grande vocação, o cinema.
A Paris voltou depois muitas vezes, deixando a sua marca no cinema francês. Representante da “nova vaga” do cinema grego dos anos 1970 e 1980, os críticos consideram que influenciou consideravelmente o cinema que se fazia em França naquela época.
Os seus filmes ficaram caracterizados pelas paisagens sombrias, o ritmo lento e os longos períodos sem qualquer fala, características que nem sempre conseguiram agradar ao público e à crítica. “Sou um homem pessimista”, dizia muitas vezes o realizador.
Por terminar ficou a sua trilogia sobre a Grécia e o século XX. O primeiro filme, “The Weeping Meadow”, saiu em 2004, e remontava a 1919, com a chegada à Grécia dos refugiados de Odessa, terminando em 1949, no rescaldo da II Guerra Mundial.
O segundo filme, “The Third Wing” (2008), começa no dia da morte de Estaline, em 1953, e termina em 1974. Ficou a faltar “Return”, que começaria nos finais século XX e terminava nos nossos dias.
O Huffington Post lembra ainda uma entrevista televisiva recente do realizador, no ano passado, na qual Angelopoulos revelou alguns dos seus planos para um próximo filme, explicando que seria sobre a actual grande crise financeira que a Grécia enfrenta.
Actualmente estava a trabalhar o seu próximo filme, que deveria chegar aos cinemas este ano, “The Other Sea”.

CINEMA: A TOUPEIRA

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 A TOUPEIRA
É sabido que os admiráveis romances de espionagem de John le Carré são não só extremamente bem escritos e sufocantes de intensidade, como muito complexos e intrincados na forma como são construídos. “A Toupeira” (Tinker Tailor Soldier Spy), escrito em 1974, é o primeiro tomo de uma trilogia dedicada a Smiley, concluída com “The Honourable Schoolboy”, 1977, e “A vingança de Smiley” (Smiley's People, 1979). Segundo o próprio escritor, a ideia inicial desta série dedicada a Smiley era uma obra de dez ou quinze romances, uma espécie de “Comédie Humaine” da Guerra Fria, contada em termos de espionagem mútua”. Mas o evoluir dos tempos e da própria personagem ditaram o cancelamento do projecto.
Em 1982, o próprio John le Carré, conjuntamente com John Hopkins, escreveram uma adaptação para televisão, numa mini série inglesa, em seis episódios, dirigida por Simon Langton, a que deram o título de "Smiley's People". Alec Guinness compunha um extraordinário George Smiley, num elenco de que faziam parte Eileen Atkins, Bill Paterson, Vladek Sheybal, Andy Bradford, Bernard Hepton, Michael Byrne, Anthony Bate, Tusse Silberg     e Germaine Delbat, entre outros. John Le Carré confessa que Alec Guiness era tão bom na interpretação que a partir daí ele passou a ser George Smiley. Certamente uma dor de cabeça para qualquer actor que voltasse a cair na tentação de encarnar a personagem. Aconteceu a Gary Oldman, que se sai do empreendimento de forma brilhante. Com comparação ou sem ela.
De resto, esta nova adaptação de “Tinker Tailor Soldier Spy” deve ter tido todo o apoio do escritor, apesar da adaptação não lhe ter passado pelas mãos, e ser da responsabilidade de Bridget O'Connor e Peter Straughan. Mas Le Carré é um dos produtores desta co-produção europeia que reúne França, Inglaterra e Alemanha, e foi rodada não só na Grã-Bretanha, como ainda na Hungria e na Turquia, sendo que as filmagens em Budapeste levaram a alguma alteração do argumento (no romance essas cenas passavam-se na Checoslováquia). Mais, numa das cenas, que recupera uma festa de Natal, John Le Carré surge como figurante, o que é outro sinal da sua aprovação plena.
O realizador é o sueco Tomas Alfredson que nos deslumbrara em 2008 com o seu magnífico “Deixa-me Entrar”. Aqui volta a causar boa impressão na forma como encena esta intrigante história de espionagem múltipla, este jogo de espelhos entre a URSS e a Inglaterra e a América, pelo controle da informação criptada, com agentes duplos pelo meio e a criação de um ambiente de soturna solidão e desconfiança permanente, com a violência física e psicológica e a morte sempre à espreita. Os cenários são de uma infinita tristeza e hostilidade, as cores são mortiças, os sons abafados, as palavras ciciadas, a melancolia é plangente, a ausência de emoções gera uma frieza de trato, só aqui e ali quebrada por uma discreta confissão de amor, logo desmentida por um acto de violência sem igual. O todo é opressivo e derrotante. John le Carré sabe do que fala pois integrou, durante alguns anos, o MI6, um dos departamentos dos serviços secretos ingleses, tarefa de que se afastou quando Kim Philby, o agente duplo britânico, denunciou a identidade de dezenas de espiões ocidentais ao KGB.
Se o romance se alicerça numa estrutura complexa, o filme não lhe fica atrás. Principia em Budapeste, quando o agente Jim Prideaux (Mark Strong) persegue preciosas informações de um agente e é assassinado em plena rua, à luz do dia. Jim Prideaux cumpria ordens do chefe do MI6, Control (John Hurt), e o falhanço da missão leva ao afastamento de Control e também de George Smiley (Gary Oldman), seu braço direito. A direcção do MI6 passa a ser dominada por Percy Alleline (Toby Jones), Bill Haydon (Colin Firth), Roy Bland (Ciarán Hinds) e Toby Esterhase (David Dencik). Mas, pouco depois, Smiley é convidado a regressar ao MI6 para investigar a existência de um traidor. Ou para confirmarem ser ele próprio esse agente duplo?
A realização é talvez demasiado cerrada, exigindo uma atenção absoluta, mas o tom que impõe é notável, com uma direcção artística notável de coerência e rigor, uma belíssima fotografia e um desempenho invulgar na contenção e severidade. Gary Oldman é brilhante e a nomeação para o Oscar justíssima. Sério concorrente para George Clooney.
A TOUPEIRA
Título original: Tinker Tailor Soldier Spy
Realização: Tomas Alfredson (França, Inglaterra, Alemanha, 2011); Argumento: Bridget O'Connor, Peter Straughan, segundo romance de John le Carré; Produção: Tim Bevan, Liza Chasin, Eric Fellner, Alexandra Ferguson, Ron Halpern, Debra Hayward, John le Carré, Peter Morgan, Artist W. Robinson, Robyn Slovo, Alex Sutherland, Douglas Urbanski; Música: Alberto Iglesias; Fotografia (cor): Hoyte Van Hoytema; Montagem: Dino Jonsäter; Casting: Jina Jay; Design de produção: Maria Djurkovic; Direcção artística: Tom Brown, Zsuzsa Kismarty-Lechner; Guarda-roupa: Jacqueline Durran; Maquilhagem: Felicity Bowring; Direcção de Produção: Tania Blunden, Deborah Harding, Zeynep Santiroglu, György Sánta, Tim Wellspring; Assistentes de realização: Yagiz Alp Akaydin, Zoltán Bonta, Mark Hopkins, Robert Karn, Zoe Liang, Mikael Marcimain, Alex Oakley; Departamento de arte: Deniz Göktürk, Felicity Hickson, Julianna Kasza, Zsuzsa Mihalek; Som: Andy Botham, Stephen Griffiths, Andy Shelley; Efeitos especiais: Dean Ford, Mark Holt, Gabor Kiszelly; Efeitos visuais: Nick King, Oskar Larsson, Olle Petersson; Companhias de produção: Studio Canal, Karla Films, Paradis Films, Kinowelt Filmproduktion, Working Title Films, Canal+, CinéCinéma; Intérpretes: Gary Oldman (George Smiley), Colin Firth (Bill Haydon), John Hurt (Control), Benedict Cumberbatch (Peter Guillam), Stephen Graham (Jerry Westerby), Mark Strong (Jim Prideaux), David Dencik (Toby Esterhase), Ciarán Hinds (Roy Bland), Tom Hardy (Ricki Tarr), Zoltán Mucsi, Péter Kálloy Molnár, Ilona Kassai, Imre Csuja, Kathy Burke, Arthur Nightingale, Simon McBurney, Amanda Fairbank-Hynes, Peter O'Connor, Roger Lloyd-Pack, Toby Jones,  Matyelok Gibbs, Phillip Hill-Pearson, Jamie Thomas King, Stuart Graham, Konstantin Khabenskiy, Sarah Jane Wright, Katrina Vasilieva, Linda Marlowe, William Haddock, Erksine Wylie, Philip Martin Brown, Tomasz Kowalski, Svetlana Khodchenkova, Denis Khoroshko, Oleg Dzhabrailov, Nick Hopper, Laura Carmichael, Rupert Procter, John le Carré (convidado na festa de Natal), Michael Sarne, Christian McKay, Tom Stuart, etc. Duração: 127 minutos; Distribuição em Portugal: Zon Lusomundo Audiovisuais; Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal: 22 de Dezembro de 2011.  

terça-feira, janeiro 24, 2012

OSCARS 2012: AS NOMEAÇÕES

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 AS NOMEAÇÕES PARA OS OSCARS DE 2012

Anunciadas as nomeações para os Oscars de 2012, relativos ao ano de 2011, aqui ficam proclamados os felizes contemplados.  Nada de muito surpreendente, nem sequer a ausência de Clint Eastwood em todas as categorias (para que é que se foi meter com a suspeita figura de Hoover e o FBI?).
Ainda não vi todos os (principais) nomeados, por isso me abstenho desde já de previsões. Mas haverá como sempre duas listas: a dos que eu gostava que ganhassem e aquela dos que julgo que vão ganhar. La mais para diante. No dia 26 de Fevereiro, Eddie Murphy será o mestre de cerimónia. Ao lado dos Muppets. Até lá…

Melhor filme
    The Artist / Thomas Langmann
    The Descendants /Jim Burke, Alexander Payne e Jim Taylor
    Extremely Loud & Incredibly Close / Scott Rudin
    The Help / Brunson Green, Chris Columbus e Michael Barnathan
    Hugo / Graham King e Martin Scorsese
    Midnight in Paris / Letty Aronson e Stephen Tenenbaum
    Moneyball / Michael De Luca, Rachael Horovitz e Brad Pitt
    The Tree of Life / produtor a determinar
    War Horse / Steven Spielberg e Kathleen Kennedy

Melhor realização
    The Artist / Michel Hazanavicius
    The Descendants / Alexander Payne
    Hugo / Martin Scorsese
    Midnight in Paris / Woody Allen
    The Tree of Life / Terrence Malick

Melhor argumento adaptado
        The Descendants / Alexander Payne e Nat Faxon & Jim Rash
        Hugo / John Logan
        The Ides of March / George Clooney & Grant Heslov e Beau Willimon
        Moneyball / Steven Zaillian  eAaron Sorkin.  História de Stan Chervin
        Tinker Tailor Soldier Spy / Bridget O'Connor & Peter Straughan

Melhor argumento original
        The Artist / Michel Hazanavicius
        Bridesmaids / Annie Mumolo e Kristen Wiig
        Margin Call / J.C. Chandor
        Midnight in Paris / Woody Allen
        A Separation / Asghar Farhadi

Melhor actor
    Demián Bichir / A Better Life
    George Clooney / The Descendants
    Jean Dujardin / The Artist
    Gary Oldman / Tinker Tailor Soldier Spy
    Brad Pitt / Moneyball

Melhor actriz
    Glenn Close / Albert Nobbs
    Viola Davis / The Help
    Rooney Mara / The Girl with the Dragon Tattoo
    Meryl Streep / The Iron Lady
    Michelle Williams / My Week With Marilyn

Melhor actor num papel secundário
    Kenneth Branagh / My Week With Marilyn
    Jonah Hill / Moneyball
    Nick Nolte / Warrior
    Christopher Plummer / Beginners
    Max von Sydow / Extremely Loud & Incredibly Close

Melhor actriz num papel secundário
    Bérénice Bejo / The Artist
    Jessica Chastain / The Help
    Melissa McCarthy / Bridesmaids
    Janet McTeer / Albert Nobbs
    Octavia Spencer / The Help

Melhor filme em língua não inglesa
    Bélgica, "Bullhead" / Michael R. Roskam
    Canadá, "Monsieur Lazhar" / Philippe Falardeau
    Irão, "A Separation" / Asghar Farhadi
    Israel, "Footnote" / Joseph Cedar
    Polónia, "In Darkness" / Agnieszka Holland

Melhor filme de animação
    A Cat in Paris  / Alain Gagnol e Jean-Loup Felicioli
    Chico & Rita / Fernando Trueba e Javier Mariscal
    Kung Fu Panda 2 / Jennifer Yuh Nelson
    Puss in Boots / Chris Miller
    Rango / Gore Verbinski

Melhor fotografia
    The Artist / Guillaume Schiffman
    The Girl With The Dragon Tattoo / Jeff Cronenweth
    Hugo / Robert Richardson
    The Tree of Life / Emmanuel Lubezki
    War Horse / Janusz Kaminski

Melhor montagem
    The Artist / Anne-Sophie Bion e Michel Hazanavicius
    The Descendants / Kevin Tent
    The Girl with the Dragon Tattoo / Kirk Baxter e Angus Wall
    Hugo / Thelma Schoonmaker
    Moneyball / Christopher Tellefsen

Melhor direcção artística
    The Artist /Laurence Bennett (Design de produção); Robert Gould (Decoração)
    Harry Potter and the Deathly Hallows Part 2 / Stuart Craig (Design de produção); Stephenie McMillan (Decoração)
    Hugo / Dante Ferretti (Design de produção); Francesca Lo Schiavo (Decoração)
    Midnight in Paris / Anne Seibel (Design de produção); Hélène Dubreuil (Decoração)
    War Horse /Rick Carter (Design de produção); Lee Sandales (Decoração)

Melhor guarda-roupa
    Anonymous / Lisy Christl
    The Artist / Mark Bridges
    Hugo / Sandy Powell
    Jane Eyre / Michael O'Connor
    W.E. / Arianne Phillips

Melhor música original
    The Adventures of Tintin / John Williams
    The Artist / Ludovic Bource
    Hugo / Howard Shore
    Tinker Tailor Soldier Spy / Alberto Iglesias
    War Horse / John Williams

Melhor canção original
    "Man or Muppet", de “The Muppets” / Música e poema de Bret McKenzie
    “Real in Rio”, de “Rio” /  Música de Sergio Mendes e Carlinhos Brown; poema de Siedah Garrett

Melhor som
    Drive / Lon Bender e Victor Ray Ennis
    The Girl with the Dragon Tattoo / Ren Klyce
    Hugo / Philip Stockton e Eugene Gearty
    Transformers: Dark of the Moon / Ethan Van der Ryn e Erik Aadahl
    War Horse / Richard Hymns e Gary Rydstrom

Melhor sonoplastia
    The Girl with the Dragon Tattoo / David Parker, Michael Semanick, Ren Klyce e Bo Persson
    Hugo / Tom Fleischman e John Midgley
    Moneyball / Deb Adair, Ron Bochar, Dave Giammarco e Ed Novick
    Transformers: Dark of the Moon / Greg P. Russell, Gary Summers, Jeffrey J. Haboush e Peter J. Devlin
    War Horse / Gary Rydstrom, Andy Nelson, Tom Johnson e Stuart Wilson

Melhor maquilhagem
    Albert Nobbs / Martial Corneville, Lynn Johnston and Matthew W. Mungle
    Harry Potter and the Deathly Hallows Part 2 / Nick Dudman, Amanda Knight and Lisa Tomblin
    The Iron Lady / Mark Coulier and J. Roy Helland

Melhores efeitos visuais
    Harry Potter and the Deathly Hallows Part 2 / Tim Burke, David Vickery, Greg Butler e John Richardson
    Hugo / Rob Legato, Joss Williams, Ben Grossman e Alex Henning
    Real Steel / Erik Nash, John Rosengrant, Dan Taylor e Swen Gillberg
    Rise of the Planet of the Apes / Joe Letteri, Dan Lemmon, R. Christopher White e Daniel Barrett
    Transformers: Dark of the Moon / Dan Glass, Brad Friedman, Douglas Trumbull e Michael Fink

Melhor longa-metragem documental
    Hell and Back Again / Danfung Dennis e Mike Lerner
    If a Tree Falls: A Story of the Earth Liberation Front / Marshall Curry e Sam Cullman
    Paradise Lost 3: Purgatory / Joe Berlinger e Bruce Sinofsky
    Pina / Wim Wenders e Gian-Piero Ringel
    Undefeated / TJ Martin, Dan Lindsay e Richard Middlemas

Melhor curta-metragem documental
    The Barber of Birmingham: Foot Soldier of the Civil Rights Movement / Robin Fryday e Gail Dolgin
    God is the Bigger Elvis / Rebecca Cammisa e Julie Anderson
    Incident in New Baghdad / James Spione
    Saving Face / Daniel Junge e Sharmeen Obaid-Chinoy
    The Tsunami and the Cherry Blossom / Lucy Walker e Kira Carstensen

Melhor curta-metragem de animação
    Dimanche/Sunday / Patrick Doyon
    The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore / William Joyce e Brandon Oldenburg
    La Luna / Enrico Casarosa
    A Morning Stroll / Grant Orchard e Sue Goffe
    Wild Life / Amanda Forbis e Wendy Tilby

Melhor curta-metragem de ficção
    Pentecost / Peter McDonald e Eimear O'Kane
    Raju / Max Zähle e Stefan Gieren
    The Shore / Terry George e Oorlagh George
    Time Freak / Andrew Bowler e Gigi Causey
    Tuba Atlantic / Hallvar Witzø

CINEMA: OS DESCENDENTES

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OS DESCENDENTES
   
Alexander Payne é realmente um cineasta invulgar. Pelos temas escolhidos, mas sobretudo pelo tom em que os consegue manter.
Nascido em 10 de Fevereiro de 1961, em Omaha, no Nebraska, de uma família de origem grega, Alexander Constantine Papadopoulos, depois Payne por opção, estudou na Universidade de Stanford, mais tarde formou-se em “Theater Arts”, pela “UCLA Filmschool” (1990), tendo, entretanto, andado pela Europa, onde estudou em Salamanca, Espanha.
Começou a sua carreira cinematográfica com uma curta, “Cármen”, 1985, alguns vídeos, “Inside Out”, com o episódio "My Secret Moments", 1991, e “Inside Out III”, 1992, e passou à realização de longas-metragens, com “The Passion of Martin”, 1991, “Citizen Ruth”, 1996, “Eleição” (Election, 1999), revelando-se completamente a partir de “As Confissões de Schmidt” (2002), e, sobretudo, “Sideways” (2004). Antes de “Os Descendentes”, participou ainda num episódio de “Paris, je t'Aime” ("14e Arrondissement", 2006) e no episódio piloto da série “Hung” (2009). Não muita obra, mas a suficiente para se perceber estarmos perante um verdadeiro autor, com uma voz própria e uma temática e um estilo muito originais. Inconfundíveis, até. “As Confissões de Schmidt”, “Sideways” e agora este “Os Descendentes” criam uma mesma atmosfera envolvente, um clima de intimidade invulgar, um certo tom de viagem ao sabor do tempo, descontraída, plausível, autêntica, sem efeitos nem rebuscamentos. As paisagens são as de uma cuidada viagem em “home vídeo”, os actores actuam como se estivessem ainda nos ensaios e não já a representar, o guarda-roupa é o de todos os dias, os cenários sentem-se vividos como poucos, não há poses estudadas, nem artifícios estéticos para causar bom efeitos. O bom efeito, todavia, está lá, nessa apetência de autenticidade. Cada filme seu é um convite para entrar na privacidade de uns quantos seres com os seus problemas, alguns graves, outros risíveis, mas confraternizamos com eles sem confrangimentos, como velhos amigos que conhecemos há muito. E com quem não se faz cerimónia. Em “Os Descendestes”, há uma cena em que Clooney entra pela casa dentro de um casal amigo, sem se fazer anunciar, a não ser quando já está bem dentro da sala. Entramos nos filmes de Alexander Payne da mesma forma, sem aviso prévio, somos familiares ou amigos convidados a partilhar pedaços de algumas existências.
Em “The Descendants”, o protagonista é Matt King (George Clooney), um advogado que mora no Havai, cuja mulher se encontra em coma no hospital local, depois de um acidente com um barco, enquanto fazia sky aquático. Tem duas filhas, um impressionante número de familiares, negócios a tratar, um belíssimo terreno herdado, pronto para ser vendido a um grande empreendimento turístico, e a mulher a morrer, sem esperança de salvação. É um daqueles momentos em que cai tudo sobre a cabeça de um homem, sobretudo porque as filhas, uma de 10 e outra de 17, se mostram rebeldes, e ainda por cima a mais velha resolve trazer a reboque um emplastro meio aparvalhado. Depois, Matt King faz uma descoberta desconcertante: a sua apaixonada esposa era-lhe infiel e preparava-se para pedir o divórcio, antes de sofrer o acidente que a atirou para a cama do hospital, em estado vegetativo.
Matt King está nos antípodas do que costumam ser os personagens interpretados por Clooney. Ele é um ser desamparado, aparentemente desorientado, vestido com umas camisas havaianas não muito recomendáveis, desajeitado a correr, sem saber muito bem para que lado se voltar. A vida tem destas ocasiões, e há que enfrentar as crises. Matt King oscila entre o torpor e a explosão de violência benigna, até encontrar o seu rumo e consigo levar a família, afinal todos envolvidos no mesmo drama ou, se preferirem, no mesmo cobertor.
Muito interessante é a forma anti-turística como nos é apresentado o Havai, uma zona que nos é quase sempre servida através dos mais estafados clichés e que o cineasta afasta para nos mostrar o país profundo, não a zona turística da beira-mar, mas o interior ou as praias isoladas, as casas dos autóctones e o dia a dia despojado, sem o charme dos grandes hotéis de luxo, mas com o secreto encanto e a dolorosa presença dos pequenos e grandes dramas e alegrias do comum dos mortais.
Lídimo representando do cinema “independente” norte-americano, mesmo quando já enquadrado na grande indústria, Alexander Payne deixa-se levar numa tocante melopeia que roça o melodrama e a comédia, abordando de uma maneira discreta, subtil e comovente alguns dos grandes problemas da vida, do amor à morte, do ciúme à compreensão, da educação à ecologia.
Ou me engano muito ou, mesmo havendo outros fortes candidatos ao Oscar de melhor filme do ano, este o vai recolher sem grande margem para conflitualidade. É o típico filme para o Oscar. Também George Cloooney me parece bem orientado para receber o almejado Oscar de melhor actor. E Shailene Woodley pode ser uma surpresa entre as secundárias. Interessante referir que Kaui Hart Hemmings, a autora havaiana do celebrado romance – primeira obra – donde parte o filme, se encontra entre os actores, num pequeno papel a contracenar com Clooney.   
OS DESCENDENTES
Título original: The Descendants
Realização: Alexander Payne (EUA, 2011); Argumento: Alexander Payne, Nat Faxon, Jim Rash, segundo romance de Kaui Hart Hemmings; Produção: Tracy Boyd, Jim Burke, George Parra, Alexander Payne, Jim Taylor; Fotografia (cor): Phedon Papamichael; Montagem: Kevin Tent; Casting: John Jackson; Design de produção: Jane Ann Stewart; Direcção artística: T.K. Kirkpatrick; Decoração: Matt Callahan; Guarda-roupa: Wendy Chuck; Direcção de produção: Renee Confair, George Parra; Assistentes de realização: Scott August, Tracy Boyd, Richard L. Fox; Departamento de arte: Serena Rios Flores; Som: Frank Gaeta; Efeitos visuais: Mark Dornfeld, Michele Ferrone, Paulina Kuszta; Companhias de produção: Ad Hominem Enterprises; Intérpretes: George Clooney (Matt King), Shailene Woodley (Alexandra King), Amara Miller (Scottie King), Nick Krause (Sid), Patricia Hastie (Elizabeth King), Grace A. Cruz (Professora de Scottie), Kim Gennaula, Karen Kuioka Hironaga, Carmen Kaichi, Kaui Hart Hemmings, Beau Bridges, Matt Corboy, Matt Esecson, Michael Ontkean, Stanton Johnston, Jon McManus, Hugh Foster, Tiare R. Finney, Tom McTigue, Milt Kogan, Mary Birdsong, Rob Huebel, Laird John Hamilton, Aileen 'Boo' Arnold, etc. Duração: 115 minutos; Distribuição em Portugal: Big Picture 2 Films; Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal: 19 de Janeiro de 2012. 

segunda-feira, janeiro 23, 2012

TEATRO: BACANTES, NO S. LUIZ

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 BACANTES
“Bacantes”, tragicomediorgya, da responsabilidade de Zé Celso Correa, principal responsável pelo “Teat®o Oficina”, da Uzyna Uzona, de São Paulo, aterrou no S. Luiz durante três dias, vinda de Liége, Bélgica (onde encerrou a Europália). Foram três sessões de cinco/seis horas cada, esgotantes para a vasta companhia, com mais de 55 elementos, entre intérpretes, músicos e técnicos, e que deixaram em delírio as salas esgotadas da casa da Rua António Maria Cardoso.
Atrevo-me a dizer que o grande acontecimento teatral de 2012 em Portugal já aconteceu, logo no mês de Janeiro. Não que o espectáculo seja perfeito (uma das suas virtudes será possivelmente essa imperfeição, o lado inacabado, ou “em progresso”), mas é seguramente o mais (ou um dos mais, dê-se o benefício da dúvida) sugestivo, exaltante e estimulante espectáculo que poderemos ver em Portugal.
“As Bacantes” é uma peça de Eurípedes, um dramaturgo da Grécia clássica, cuja trama foi adaptada à actualidade e fundamentalmente ao Brasil. A peça estreou em 1995 e tem continuado a carreira de forma espaçada, quer no interior do seu país, quer no estrangeiro. Pode dizer-se, sem exagero, que mais de noventa por cento das cinco horas em cena são passados com o elenco nu, invocando os deuses Dionísios, Baco e afins, numa exaltação do vinho, do prazer, do amor, e da foda, assim mesmo invocada, sem subterfúgios (o palco é inclusive classificado de fododromo). Claro que estas premissas nos levam até ao Living Theatre, do célebre Julian Beck, dos anos 60, mas é um Living completamente submergido pelo samba e, sobretudo, pelas teorias do tropicalismo e da antropofagia, que nasceram com o modernismo literário e musical de Oswald de Andrade ou Villa Lobos, continuado e aprofundado pelo cinema de Glauber Rocha e companheiros do cinema novo. Algo de profundamente visceral, que transforma o palco (que aliás não existe) num espaço de profunda interacção com a plateia, levando actores e espectadores a colaborarem na mesma celebração da vida, da morte e da ressurreição. Não a usual ressurreição católica, mas a pagã dionísiaca, que se afirma inesgotável e cada vez mais actual, sobretudo para contrair momentos de crise e proclamações da troika. A companhia explica que é “para festejar a ideia de que paga caro quem acaba com a festa e se dá bem quem inventa um jeito novo de ser feliz”.  Ou num português mais daqui, “tristezas não pagam dividas”.
É a própria companhia que assim enuncia a génese do espectáculo: “Bacantes” é uma das mais conhecidas obras do “Teat®o Oficina”. Ela reconstitui o ritual da origem do Teatro em 25 cantos e cinco episódios. Com música composta por Zé Celso (que também assina a autoria e encenação) e direcção musical de Marcelo Pellegrini, a última tragédia grega conhecida – “Bakxai”, de Eurípides – é encenada como uma ópera de Carnaval para cantar o nascimento, morte e renascimento de Dionísios, Deus do Teatro, do vinho e do carnaval. O ritual vive a chegada de Dionísios (Marcelo Drummond), filho de Zeus (Hector Othon) e da mortal Semelle (Anna Guilhermina), à sua cidade natal, TebaSP, que não o reconhece como Deus. Trava-se o confronto entre o prefeito de Tebas, Penteu (Fred Steffen), filho de Agave (Sylvia Prado), que tenta proibir a realização do Teatro dos Ritos Báquicos oficiados por Dionísios e o Coro de Satyros e Bacantes nos morros da capital, governada por Kadmos Fidel Castro (Hector Othon) – mudando para sempre a história daquela cidade”.
Como se vê Tebas passa a TebasSP, um abrasileirar da Grécia, passando a cidade para SP, São Paulo, com as necessárias actualizações. Mas como o projecto está em contínuo progresso, no S. Luiz muito se adaptou aos tempos portugueses e europeus, sendo que assim o espectáculo se assumiu como exorcismo e catarse das calamidades que pairam no horizonte. Veneração “do amor mortal, do imortal, mas também do brutal”, antes da mulher morder a maçã, não isento de muito humor (“o amor é cego, então o negócio é apalpar”) e crítica social e política (dos políticos europeus à Dilma brasileira, passando pela proposta do derrube do capitalismo e por instauração de democracias em Cuba e na Coreia do Norte), “Bacantes” abre e a experiência única inicia-se de forma inebriante, entontecedora, orgíaca, levados por uma turba de movimentos e sons, de música e frenético samba (onde aparece, como não podia deixar de ser a “nossa” Carmen Miranda, como ícone inesquecível), de cores garridas e em ecrãs múltiplos, onde se reproduzem as acções do próprio espectáculo. É difícil de acompanhar, mas irresistível para participar.
Este não é teatro para ver somente, mas uma experiência para se viver. Enfim, um acontecimento inesquecível. Uma encenação original e criativa, um elenco transbordante de ritmo e vivacidade, a cimentar bem lá no fundo a vontade de morder a maçã da vida.
 

sábado, janeiro 21, 2012

TEATRO: DIAS DE VINHO E ROSAS

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DIAS DE VINHO E ROSAS

They are not long, the days of wine and roses:
Out of a misty dream
Our path emerges for a while, then closes
Within a dream.
Ernest Dowson (1867-1900)

Principiemos pelo que ainda aqui não foi dito. Os Artistas Unidos, que durante alguns anos andaram com a casa às costas, têm agora um belo espaço, o Teatro da Politécnica, obviamente situado na Rua da Escola Politécnica, em Lisboa, um edifício recuperado para o efeito, à entrada de uma das alamedas que dá acesso ao Jardim Botânico. O sistemático trabalho de Jorge da Silva Melo e da sua equipa bem merecereu este reconhecimento.
Agora estrearam “Dias de Vinho e Rosas” (Days of Wine and Roses), um texto originalmente escrito para televisão pelo norte-americano J.P. Miller, que depois conheceu uma versão teatral do irlandês Owen McCafferty, e apresentado no palco do Teatro da Politécnica numa tradução de Joana Frazão.
JP Miller
James Pinckney Miller (1919-2001), que começou a escrever e publicar aos 17 anos contos do “wild west”, foi boxeur profissional, usando o nome de “Tex Frontier”, jornalista no “Houston Post”, estudante de escultura na “La Escuela de Artes Plásticas”, na cidade do México, marinheiro no Sul do Pacífico, durante a II Guerra Mundial, onde assumiu o seu nome de combate literário, JP Miller. Estudou escrita e teatro na Yale Drama School, mudou-se para Nova Iorque, onde vendeu ar condicionado para viver e passava o resto do tempo e as noites nos teatros, nos estúdios de televisão e em aulas no American Theater Wing
O primeiro telefilme que escreveu foi “The Polecat Shakedown”, 30 minutos de chantagem num restaurante que haveria de passar no programa “Man Against Crime”. Abandonou tudo o mais e dedicou-se à escrita para televisão. Em 1954 já tinha cinco trabalhos produzidos para TV, tornando-se num dos mais prestigiados autores de telefilmes da “Idade de Ouro da Televisão”. Em 1955, triunfaria com “The Rabbit Trap”, apresentado na “Goodyear Television Playhouse”. Mas o seu grande sucesso seria “Days of Wine and Roses”, realizado em televisão pelo então jovem prometedor John Frankenheimer, para “Playhouse 90” e emitido a 2 de Outubro de 1958. Recebeu três nomeações para os Emmys do ano.
A direcção era brilhante, no dizer da crítica da época, e o elenco notável, Cliff Robertson (Joe Clay), Piper Laurie (Kirsten Arnesen Clay), Charles Bickford (Ellis Arnesen), Marc Lawrence (Scarface), entre outros. Quatro anos depois, passaria a cinema pela mão de Blake Edwards, num filme memorável, que o “The New York Times” coloca na lista dos 1000 melhores filmes de sempre. Jack Lemmon, Lee Remick, Charles Bickford e Jack Klugman foram os protagonistas mas as críticas da época, apesar de reconhecerem os méritos ao filme, faziam sobressair as virtudes do telefilme, que o próprio escritor preferia: “a versão televisiva estava mais perto do meu coração, porque estava mais perto da minha imagem original”.
No filme, Joe Clay (Jack Lemmon) é um relações-públicas, jovem, que se apaixona por Kirsten (Lee Remick), uma colega de trabalho, com quem casa. Mas a pressão profissional empurra-os para momentos de rápida euforia provada pelo álcool, e daí ao descalabro das suas vidas é um passo que percorrem dramaticamente. Sem retorno, apesar das tentativas em contrário. As actuações de Jack Lemmon e Lee Remick são brilhantes e o filme teve algumas dificuldades para manter o tom desesperado com que acaba. Blake Edwards resistiu até ao fim, contra a tentativa de tornar mais macio o final e Jack Lemmon precipitou a sua viagem para a rodagem de um outro filme, a fim de não tornar possíveis as filmagens de novos planos para uma remontagem.
Em 2002, Owen McCafferty, dramaturgo irlandês, adapta a teatro o telefilme de JP Miller, aproveitando somente o esqueleto da obra e alterando-a profundamente. A América passa para a Belfast (Irlanda) e Londres (Inglaterra), mantendo apenas como protagonistas o casal Donal e Dona. 
Nascido em Belfast, em 1961, Owen McCafferty é considerado actualmente um dos grandes dramaturgos e encenadores daquele país, tendo conseguido criar a reputação de um escritor capaz de desenvolver uma linguagem teatral tipicamente irlandesa, através dos seus diálogos fortes, curtos e incisivos, bem enraizados na realidade do seu país. Escreveu várias peças, entre as quais “Cenas da Grande Panorâmica” (Scenes from the Big Picture), 2003 (agora editada conjuntamente com “Dias de Vinho e Rosas”, na colecção “Livrinhos de Teatro”, uma publicação conjunta “Artistas Unidos-Livros Cotovia”), “The Waiting List”, 1994, “Freefalling”, 1996, “Shoot the Crow”, 1997, “Closing Time”, 2002, ou “Mojo Mickybo”, uma das suas obras de maior sucesso. 
A estreia da versão de Owen McCafferty acontece-se em Londres, em 2002, no Donmar Warehouse, numa produção de Sam Mendes, com encenação de Peter Gill, com interpretação de Anne-Marie Duff e Peter McDonald. No ano seguinte, Rachel Wood dirige uma versão off-Broadway de “Days of Wine and Roses”, com a Boomerang Theatre Company. É esta versão que surge agora no palco dos Artistas Unidos, numa encenação de Jorge Silva Melo, com cenário e figurinos de Rita Lopes Alves. Excelente texto, excelente espectáculo, com magníficas interpretações de Maria João Falcão e Rúben Gomes. 
Donal e Dona conhecem-se no aeroporto de Belfast. Ambos são jovens e partem para Londres, um em busca de um emprego prometido nas empresas de apostas de cavalos, ela à procura da novidade das luzes da grande cidade. Começam a trocar palavras e acabam trocando uma bebida. Dona nunca bebera, mas aceita um drink. Já em Londres, bebem socialmente e lentamente resvalam para o alcoolismo, a degradação pessoal. Casados e pais de um filho, procuram recuperar, mas afundam-se a cada nova tentativa. Ele frequenta os “Alcoólicos Anónimos”, ela anda de bar em bar e cai na prostituição. O facto da peça se concentrar nas duas personagens, acaba por intimizar o conflito, torná-lo menos uma consequência social e mais uma irreversibilidade pessoal. Ambos caminham para o abismo porque mais um copo ajuda-os a enfrentar a solidão, o desconforto, as asperezas da vida. Depois de um dia de trabalho, o casal troca brindes até adormecerem caídos no chão ou enrolados num sofá.
Maria João Falcão e Rúben Gomes iniciam o diálogo em Belfast, ainda a medo, mas vão ganhando fôlego à medida que a peça se desenvolve, gozando com pequenos aspectos da encenação, revertendo-os a favor das personagens, utilizando com argúcia os adereços, e os gestos mais anódinos (ela coloca um pé descalço sobre o pé descalço dele, por exemplo, numa carícia secreta que resulta magnificamente).
A encenação é quase imperceptível, o que neste caso é uma virtude, serve o texto e as situações, ergue figuras que permanecem para lá das duas horas do espectáculo. Com pequenos apontamentos que ajudam a criar o ambiente e a impor o desespero – uma porta que se abre sobre um quarto, de que se vislumbra apenas uma parte de uma cama com Dona deitada. O cenário é eficaz e sóbrio, bem servido por luz e som.

Dias de Vinho e Rosas (Days of Wine and Roses). Texto de Owen McCafferty. Tradução de Joana Frazão; Encenação: Jorge Silva Melo; Cenário e figurinos: Rita Lopes Alves; Luz: Pedro Domingos; Músico: Paulo Curado; Sonoplastia; Rui Rebelo; Imagens: Bartolomeu Cid dos Santos; Assistência: Vânia Rodrigues. No Teatro da Politécnica de 18 de Janeiro a 25 de Fevereiro de 2012.

quarta-feira, janeiro 18, 2012

CASA ARRUMADA


Um amigo português que vive em valência enviou-me um poema. Recordado certamente a minha casa, onde muitas vezes vem, e poucas encontra lugar para se arrumar comodamente. O que sempre se arranja por entre livros e jornais. Gosto do poeta. Gostei do poema. Obrigado Zé.

Casa arrumada

Um lugar organizado, limpo, com espaço livre pra circulação e uma boa
entrada de luz.
Mas casa, pra mim, tem que ser casa e não um centro cirúrgico, um
cenário de novela.
Tem gente que gasta muito tempo limpando, esterilizando, ajeitando os
móveis, afofando as almofadas...
Não, eu prefiro viver numa casa onde eu bato o olho e percebo logo:
Aqui tem vida...
Casa com vida, pra mim, é aquela em que os livros saem das prateleiras
e os enfeites brincam de trocar de lugar.
Casa com vida tem fogão gasto pelo uso, pelo abuso das refeições
fartas, que chamam todo mundo pra mesa da cozinha.
Sofá sem mancha?
Tapete sem fio puxado?
Mesa sem marca de copo?
Tá na cara que é casa sem festa.
E se o piso não tem arranhão, é porque ali ninguém dança.
Casa com vida, pra mim, tem banheiro com vapor perfumado no meio da tarde.
Tem gaveta de entulho, daquelas que a gente guarda barbante,
passaporte e vela de aniversário, tudo junto...
Casa com vida é aquela em que a gente entra e se sente bem-vinda.
A que está sempre pronta pros amigos, filhos...
Netos, pros vizinhos...
E nos quartos, se possível, tem lençóis revirados por gente que brinca
ou namora a qualquer hora do dia.
Casa com vida é aquela que a gente arruma pra ficar com a cara da gente.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)