sábado, junho 29, 2013

TEATRO: GRANDE REVISTA À PORTUGUESA


GRANDE REVISTA À PORTUGUESA

Os dois ou três últimos espectáculos de Filipe La Féria tinham-nos deixado um certo travo amargo na boca. Não eram maus, mas eram demasiado esforçados, percebia-se que lutava contra muitos entraves, que não eram bem aquilo que ele sonhava, mas apenas o que podia fazer para manter aberto o seu Politeama. Algumas vozes que ouvi consideravam mesmo que La Féria tinha perdido gás, já não era o que era, mas aí está a “Grande Revista à Portuguesa” para demonstrar que o ocaso foi mesmo ocasional, e que La Féria regressou ao seu melhor. Este é um trabalho magnífico, um daqueles espectáculos que os portugueses precisam nesta altura das suas tão amarguradas vidas. Ainda bem que assim é. Eu que, além de tudo o mais, sou amigo e um admirador confesso deste homem de teatro, fico satisfeito e feliz por este regresso em força e em magia.
Eu sei que encenar uma peça de teatro ou um musical não é o mesmo que encenar uma revista. São contextos diferentes e necessitam de aproximações diversificadas. Mas também posso dizer que há muito, possivelmente desde “Passa por Mim no Rossio”, que não via nada com a qualidade desta “Grande Revista à Portuguesa”. O texto é inteligente, bem escrito, crítico, politicamente incorrecto em todas as direcções, mas por isso mesmo eficaz, sem todavia ser derrotista, sem ser anti-democrático. Depois, cenários e guarda-roupa são deslumbrantes, os primeiros jogando quase sempre no apontamento desenhado (muito bem desenhado, diga-se), com uma ou outra apótese, o segundo de um bom gosto e de uma eficácia espectacular sem remoque. Nunca se excedem, sempre na dimensão exacta, sem novo-riquismos escusados. Repita-se: o guarda-roupa de José Costa Reis é daqueles que apetece trazer para casa, com uma combinação cromática e um desenho de formas que nos fazem sonhar. Tudo o resto acompanha a quase perfeição: o desenho de luzes, a coreografia de Marco Mercier (finalmente uma coreografia que não é pífia e pindérica, que é o que mais tem abundado por aí), os vídeos, as canções e a direcção musical.
Finalmente, os actores. Que elenco! Marina Mota, a quem eu um dia chamei “o Futre da revista à portuguesa”, quando o Figo era a Ivone Silva, e quando nós os dois eramos bastante mais novos, e ela dava os primeiros passos na profissão, agora atingiu o patamar de “Cristiano Ronaldo da revista à portuguesa”. Ela é portentosa de vitalidade, de garra, de talento, de graça, de entrega. O seu número do “polícia e do ladrão” fica na História, tal como o do “Prédio” onde ela se multiplica em diversas personagens. Mas tudo o que faz, faz bem.
João Baião é outro caso idêntico e quase poderia utilizar os mesmos adjectivos: vitalidade, garra, talento, graça, entrega, e mais alguns números ficam para a História da revista: ele é brilhante como “Tony Carteira”, como “Roberto”, como obcecado pelo “Facebook”, como “Sócrates”.
Depois, mais vitalidade, garra, talento, graça, entrega e estamos a falar da pequena bomba relógio que é Maria Vieira. Ela é “Ela”, é “Guia”, é a Madre Superiora do “Convento dos Segredos”, ela é “Fafá”, ela explode em cada aparição. Outro tanto se pode dizer de Ricardo Castro, notável como mordomo de Sócrates, como “Joana Vais Conhecê-los”, como “Lula”, como La Féria, num número que recorda a “Audição do Pedrinho”. Está ali um grande actor, na tradição de um Vasco Santana que por vezes relembra.
Maria Vieira, João Baião e Filipe Albuquerque (atenção a este nome!) oferecem-nos ainda um divertidíssimo quadro de “Angolanos às Compras”. Não me venham falar de resquícios de racismo, é puro humor crítico do melhor, que não poupa brancos, amarelos, vermelhos ou negros.
Há ainda Bruna Andrade, Rui Andrade, Vanessa, Patrícia Resende, Adriana Faria, corpo de baile, e etc. e tudo a correr sobre esferas. O número da “Marioneta” é bater numa tecla já gasta, poderia ter-se encontrado outra forma de mudar de cenário, mas é apenas um pormenor.
Que bom é ver actores no seu habitat natural, dando o melhor de si mesmo. Que pesaroso foi ver Marina nalguns episódios televisivos onde se percebia como desbaratava talento. Que bom é vê-la ali no palco, a regurgitar de vida.
Que bom é ir ao teatro e sair com esta sensação de plenitude, de fartura, mesmo neste tempo de vacas magras. La Féria consegue o milagre de fazer uma revista à portuguesa que poderia estar num palco de Paris, Londres ou Nova Ioque e continuar a ser muito boa. Que o público lhe não falte, pois todos quantos a conceberam e diariamente lhe dão vida bem o merecem.

O Teatro Politeama comemora agora 100 anos de existência. Não poderia ter melhor prenda de aniversário.


quarta-feira, junho 26, 2013

CINEMA: CAÇADORES DE CABEÇAS

JO NESBO 
E “CAÇADORES DE CABEÇAS”

1.JO NESBØ

Jo Nesbø é norueguês. Escritor de policiais, foi corrector de bolsa, jornalista, e ainda vocalista e compositor da banda pop Di Derre. Hoje em dia, é um dos escritores nórdicos de maior sucesso. Dele li tudo o que se encontra traduzido para português, e tornei-me num dos seus leitores compulsivos. Da série Harry Hole, um curioso inspector de polícia, cuja existência literária se inicia em 1997, com “Flaggermusmannen”, a que se segue, em 1998, “Kakerlakkene”, conheço “O Pássaro de Peito Vermelho” (Rødstrupe, 2000), “Vingança a Sangue-Frio” (Sorgenfri, 2000), “A Estrela do Diabo” (Marekors, 2003) e “O Redentor” (Frelseren, 2005), recentemente lançado em Portugal pela sua editora de sempre, a D. Quixote. Existem mais quatro volumes da mesma série a aguardar tradução: “Snømannen” (2007), “Panserhjerte” (2009), “Gjenferd” (2011) e “Politi” (2013). Para lá desta série policial, Jo Nesbø escreveu ainda livros infantis, integrados igualmente numa série, Doktor Proktor, de que se conhecem cinco títulos, e ainda outros romances e novelas, como “Karusellmusikk” (2001), “Det hvite hotellet” (2007), e “Caçadores de Cabeças” (“Hodejegerne”, em inglês “Headhunters”, 2008), este último igualmente policial, mas independente da série do inspector Harry Hole.            
Jo Nesbø é um excelente escritor, unanimemente considerado como tal. Não é só um talentoso escritor "de policiais", mas um romancista de têmpera, que levou o New York Times a dizer que a Noruega já tinha dado homens como Henrik Ibsen e Edvard Munch mas também o escritor de bestsellers Jo Nesbø”. A CNN, por seu lado, vai mais longe, mas na mesma perspectiva: “O próximo Munch ou Ibsen pode ser Jo Nesbø … e, se existir alguma justiça, um dia destes Harry Hole será tão grande como Harry Potter”. Como se pode perceber, trata-se de um escritor bem cotado, numa altura em que o policial nórdico impera no campo literário e começa a ombrear com as produções norte-americanas, no plano televisivo e cinematográfico.
A mãe era bibliotecária, o que certamente levou Nesbø a interessar-se desde muito cedo por literatura, mas os estudos não lhe corriam de feição, preferindo a prática de futebol, tendo-se tornado jogador profissional do Tottenham Hotspur FC e depois do Molde FC. Afastou-se do desporto quando alguns problemas do joelho o forçaram a abandonar a carreira. Cumpriu o serviço militar no norte da Noruega, enquanto estudava. Começou a tocar numa banda de garagem chamada I De Tusen Hjem, ingressando depois na banda Di Derre. Entretanto, iniciou a actividade como corrector da bolsa, de que se fartou rapidamente. Viajou para a Austrália, pouco tempo depois de uma editora o ter convidado a escrever um livro. Começou a escrever o romance “Flaggermusmannen” durante o voo para a Austrália e, quando regressou a Oslo, trazia a obra na bagagem. Enviou o manuscrito para a editora Aschehoug, sob o pseudónimo de Kim Erik Lokker, procurando que a sua relativa fama como músico não interferisse no processo de avaliação da obra. O livro foi um sucesso e alcançou prémios como “Rivertonprisen” (melhor romance policial da Noruega) e “Glassnøkkelen” (melhor romance policial da Escandinávia). Os seus sucessivos trabalhos ganharam diversos prestigiados galardões e uma popularidade imensa. “Snømannen”, por exemplo, vendeu 160 000 exemplares na primeira semana nas livrarias. Até meados de 2008, Nesbø tinha conseguido vender mais de meio milhão de livros só na Noruega e estava traduzido em cerca de quarenta línguas. Em 2009, Nesbø foi agraciado com o prémio de reconhecimento pelo público da revista “Dagbladet”, pois tinha três dos seus títulos no top da lista de romances mais vendidos na Noruega.

Tem recebido vários convites para a série Harry Hole ser adaptada ao cinema e à televisão, mas tem afirmado que não gostaria que isso acontecesse antes de a mesma estar concluída. “Caçadores de Cabeças”, todavia, não fazendo parte deste grupo acabou por ser realizado em 2010, por Morten Tyldum, com Aksel Hennie no papel principal. Curiosidade adicional: os direitos de autor do livro, bem assim como os lucros que o filme reúna, serão doados à Fundação Harry Hole, que ajuda crianças, em países em desenvolvimento, a aprender a ler e escrever.

2. ALGUNS ROMANCES DE JO NESBØ
O mais recente livro de Jo Nesbø a chegar a Portugal, em tradução, é “O Redentor”. Como (quase sempre) passado em Oslo, desta feita durante um inverno gelado. Numa movimentada rua da capital norueguesa, o Exército de Salvação dá um concerto de Natal, quando subitamente se ouve um estrondo e um dos elementos do Exército cai, fulminado por um tiro à queima-roupa. Harry Hole, o inspector, é chamado ao local, com a sua equipa, e não encontra nada a que se agarrar, nem suspeito, nem arma do crime, nem móbil. Em paralelo, vamos acompanhando a fuga do assassino, que rapidamente percebe que não acertou em quem devia, mas sim num irmão com muitas semelhanças. Sabe-se que vem da Sérvia, a guerra da Bósnia paira sobre todo este ambiente pesado e, à medida que se vê cada vez mais cercado, o fugitivo enfrenta as agruras do frio nórdico, da ausência de dinheiro, da falta de um local para se abrigar, da solidão, da presença cada vez mais próxima do perspicaz Harry Hole. 
Mais uma vez o crime, a política internacional, as instituições religiosas estão na base deste trabalho empolgante, onde perpassa igualmente um curioso retrato da sociedade norueguesa. 

Os outros títulos da série Harry Hole já traduzidos para português são “O Pássaro de Peito Vermelho”  (2000), “Vingança a Sangue-Frio” (2000) e “A Estrela do Diabo” (2003). No primeiro destes três a acção volta a decorrer em Oslo, mas Harry Hole, que se percebe ter sido um alcoólico, em recuperação e recentemente transferido para o Serviço de Segurança Pública, é encarregue de vigiar Sverre Olsen, um neonazi corrupto que escapou à condenação devido a um pormenor técnico, o que transporta a intriga para os derradeiros dias da II Guerra Mundial. Por entre traições, vinganças, assassinatos que ameaçam multiplicarem-se, confundindo tempos históricos, a batalha de Leninegrado, os nazis noruegueses e os skinhead da actualidade. 

“Vingança a Sangue Frio” mantém o mesmo tipo de intensidade dramática e o suspense que caracteriza a escrita de Nesbø. Desta feita, tudo começa com um “hold up” invulgarmente violento: através das imagens das câmaras de vigilância vê-se um homem a entrar num banco de Oslo e a apontar uma arma à cabeça da mulher que se encontrava na caixa, exigindo que esta conte até vinte e cinco. Como não consegue o dinheiro a tempo, executa friamente a jovem caixa, e leva consigo dois milhões de coroas norueguesas. O inspector Harry Hole é o elemento destacado para investigar o caso. Entretanto, Harry debate-se com problemas pessoais. Enquanto a namorada viaja até à Rússia, uma antiga paixão regressa e entra em contacto com ele. Anna Bethsen, artista que enfrentava dificuldades financeiras, convida Hole para jantar, este não consegue resistir ao convite, mas a noite termina de uma forma estranha e, ao acordar, Hole sente uma fortíssima dor de cabeça, descobre o seu telemóvel desaparecido, e perdeu a memória do que se passou nas últimas doze horas. Para agravar a situação, Anna é encontrada morta na sua cama, com um tiro na cabeça, e o inspector recebe e-mails ameaçadores. Obviamente alguém está a tentar culpá-lo por esta morte inexplicável, enquanto os assaltos a bancos prosseguem com incomparável brutalidade.

Ainda da série Harry Holle é “A Estrela do Diabo”, com Oslo a sufocar numa onda de calor. Neste verão tórrido, uma jovem é assassinada no seu apartamento, apresentando um dedo cortado e, debaixo de uma pálpebra, descobre-se um pequenino diamante vermelho com o formato de um pentagrama. Harry Hole e Tom Waaler, um colega em quem ele não confia, são chamados para tomar conta do caso. Tom faz jogo duplo, trabalha para um bando de traficantes de armas, e Harry desconfia que está implicado no assassinato da sua antiga parceira de armas. Harry continua com problemas com o álcool, debate-se com os seus superiores, e este caso é uma bóia de salvação. Dias depois, outra mulher é dada como desaparecida, surgindo um dedo dela cortado e adornado com um diamante vermelho com a forma de uma estrela. Percebe-se que há um serial-killer à solta. Desmascarar Tom Waaler, e deitar a mão ao assassino são duas prioridades que se descobrem interligadas e que põem em risco de vida o próprio inspector. 



3. HEADHUNTERS - CAÇADORES DE CABEÇAS


Finalmente, o derradeiro romance de Nesby em edição portuguesa é “Caçadores de Cabeças”, que não tem Harry Hole como protagonista, mas sim Roger Brown, um “caçador de cabeças”, ou seja de talentos que descobre para colocar em empresas de sucesso. Mas é também um sedutor ladrão de obras de arte. Casado com Diana, uma “belíssima, alta e elegante” dona de uma galeria de arte, vive num apartamento luxuoso, leva uma vida bem acima das suas posses, e aproveita-se dos conhecimentos da mulher e dos contactos que faz para engendrar a troca de originais preciosos por cópias sem valor.
Numa inauguração da galeria, a mulher apresenta-o a Clas Greve, um holandês riquíssimo e bem colocado na vida, e Harry percebe que não pode deixar escapar aquela oportunidade. Clas Greve não é apenas o candidato perfeito ao cargo de director-geral que ele tem de recrutar para a Pathfinder, como ainda tem em seu poder o famoso quadro de Rubens, “A Caça ao Javali de Caledónia”. Este seria um golpe que o deixaria independente economicamente. Mas nem tudo corre bem e Jo Nesbø oferece-nos uma perturbadora panorâmica sobre o mundo da alta finança, das grandes empresas, da elite industrial e de um submundo larvar de assassinos contratados e burlões.


“Caçadores de Cabeças” é a única adaptação ao cinema que conhecemos de uma obra de Jo Nesbø, apesar de já existirem outras e de se anunciar que um remake desta mesma está já a ser produzido por estúdios norte-americanos, para ser dirigido pelo inglês Sacha Gervasi, o mesmo que escreveu o argumento de “Terminal de Aeroporto”, de Spielberg, e que realizou o recente “Hitchcock”. Fala-se igualmente na possibilidade Martin Scorsese vir a rodar um filme retirado de uma outra obra de Nesbø.
“Headhunters”, realizado por Morten Tyldum, numa produção da Noruega e da Alemanha, conta com Aksel Hennie como intérprete da personagem de Roger Brown, um excelente actor que consegue dar espessura e credibilidade à figura e erguer sobre ela este policial que, não sendo uma obra-prima, se mostra todavia bastante eficaz de um ponto de vista de escrita, bem doseado em suspense e habilmente fotografado, fazendo sobressair a luz fria dos países nórdicos, que confere ao mesmo uma tonalidade azulada e metálica que se coaduna bem com o ambiente pretendido.
O filme não consegue a qualidade do romance, sobretudo no tom de discreta mas verrinosa ironia anti-établissement que Jo Nesbø lhe inculca, mas satisfaz as necessidades do entretenimento inteligente e elegante, muito embora algumas cenas mais sangrentas de um epílogo um pouco fantasioso, mas vibrante. Outros actores, como Nikolaj Coster-Waldau (Clas Greve) e Synnøve Macody Lund (Diana Brown), asseguram uma competência de representação muito boa, o que só vem dignificar a qualidade dos trabalhos oriundo deste país, e que ombreiam com outros de diversos países nórdicos.
Se a literatura policial por estas bandas desencadeou um boom de interesse público a nível mundial, não é menos verdade que as suas cinematografias conseguem acompanhar este entusiasmo num nível de produção industrial que nada fica a dever à dos países anglo-saxónicos. Para já não falar da produção cinematográfica de autor, que é bastante importante e significativa nesta última década, com a revelação de novos nomes e de obras extremamente sugestivas. 

4. FILMES RETIRADOS DE OBRAS DE JO NESBØ:

DEADLINE TORP (TV) 
Realização: Nils Gaup (Noruega, 2005); Argumento: Nils Gaup, Håkan Lindhe, Jo Nesbø, Segundo ideia de Dag Erik Pedersen; com Danilo Bejarano, Emil Forselius, Jørgen Langhelle, Sverre Anker Ousdal, etc.

FERDIG MANN
Realização: Søren Kragh-Jacobsen (Dinamarca, Noruega, 2010); Argumento: Jo Nesbø (poema); com  Abdulahi Abdikafi, Mohammad Abdullah, Mohamed Adel, etc. 6 minutos.


HEADHUNTERS - CAÇADORES DE CABEÇAS
Título original: Hodejegerne
Realização: Morten Tyldum (Noruega, Alemanha, 2011); Argumento: Lars Gudmestad, Ulf Ryberg, segundoo romance de Jo Nesbø; Produção: Anni Faurbye Fernandez, Marianne Gray, Lone Korslund, Christian Fredrik Martin, Paul Røed, Asle Vatn, Mikael Wallen; Música: Trond Bjerknes, Jeppe Kaas; Fotografia (cor): John Andreas Andersen; Montagem: Vidar Flataukan; Casting: Jannecke Bervel; Design de produção: Nina Bjerch Andresen; Guarda-roupa: Karen Fabritius Gram; Maquilhagem: Stuart Conran, Rick Marr, Jim Udenberg; Direcção de produção: Trond Mjøs; Assistentes de realização: Martin Ersgård, Nina Samdal; Departamento de arte: Monja Wiik; Som: Tormod Ringnes; Efeitos especiais: Mark Hedegaard, Hummer Høimark, Claus Nørregård; Efeitos visuais: Lars Erik Hansen; Companhias de produção: Friland, Yellow Bird Films, Nordisk Film, ARD Degeto Film; Release Date: Intérpretes: Aksel Hennie (Roger Brown), Nikolaj Coster-Waldau (Clas Greve), Synnøve Macody Lund (Diana Brown), Eivind Sander (Ove Kjikerud), Julie R. Ølgaard (Lotte), Kyrre Haugen Sydness (Jeremias Lander), Valentina Alexeeva (Natasja), Reidar Sørensen (Brede Sperre), Nils Jørgen Kaalstad (Stig), Joachim Rafaelsen, Mats Mogeland, Gunnar Skramstad Johnsen, Lars Skramstad Johnsen, Signe Tynning, Nils Gunnar Lie, Baard Owe, Sondre Abel, Morten Hennie, Irina Eidsvold, Kyrre Mosleth, Martin Furulund, Mattis Herman Nyquist, Torgrim Mellum Stene, Camilla Augusta Hallan, Anjum Salwan, etc. Duração: 100 minutos; Distyribuição em Portugal: Vendetta Filmes; Classficação etária: M/ 16 anos, Estreia em Portugal: 13 de Junho de 2013.

ARME RIDDERE
Realização: Magnus Martens (Noruega, 2011); Argumento: Magnus Martens, segundo ideia de Jo Nesbø; com Kyrre Hellum, Mads Ousdal, Henrik Mestad, etc.

I AM VICTOR (TV) 
Realização: ??; (EUA, 2013)
Argumento: Mark Goffman, segundo romance de Jo Nesbø; com John Stamos, Matthew Lillard, Josh Zuckerman, Lorenza Izzo, etc. (em produção).

DOKTOR PROKTORS PROMPEPULVER

Realização: Arild Fröhlich (Noruega, 2014); Argumento: Johan Bogaeus, segundo obra de Jo Nesbø; com Eilif Hellum Noraker, etc. (em produção).

quarta-feira, junho 12, 2013

CINEMA: GANGSTERS DA VELHA GUARDA



GANGSTERS DA VELHA GUARDA
 
Val (Al Pacino) sai da cadeia depois de cumprir 28 anos de pena. À porta, tem um antigo companheiro de armas, Doc (Christopher Walken). Ambos são velhos gangsters, com a idade bem estampada no rosto e o corpo sem a desenvoltura de outrora. Depois de umas horas passadas entre um bordel e um pequeno restaurante, com uma ida a uma farmácia onde se abastecem fraudulentamente de remédios e afrodisíacos, e depois de cumpridas algumas obrigações e devoções, resolvem ir às quatro da manhã buscar o terceiro elemento do antigo gang, Hirsch (Alan Arkin), que ainda está pior que eles, mas continua um ás a conduzir pelas avenidas de Los Angeles.
Parece o reencontro de amigos, velhos amigos neste caso, na linha de um “A Ressaca”, desta feita não a comemorarem a despedida de solteiro e a proximidade do casamento, mas a celebrarem uma truculenta saída nocturna de um lar de terceira idade. Cada um deles está mais afanado que os outros, mas há um problema complexo a nublar o ambiente: Doc foi incumbido, por um sinistro gangster, de matar Val nas próximas vinte e quatro horas. E todos sabem disso, mas resolvem aproveitar o tempo que resta até às dez horas da manhã seguinte. Usufruir do tempo e da amizade que sobrevive. Que acontecerá?, eis o que a película nos irá desvendar. Mas percebe-se que estamos no campo do filme de gangsteres e no velho esquema de glorificar um tipo de conduta que respeita regras e códigos de honra.
 

 
A tradição deste estilo de obras é longa e honorável. Basta relembrar alguns títulos do francês Jean Pierre Melville, tão injustamente esquecido e que foi mestre neste género. Mas há vários outros exemplos a seguir, e não só no campo do filme de gangster, também, por exemplo, no western. “A Quadrilha Sevagem”, de Sam Pechinpah, “Dois Homens e Um Destino”, de George Roy Hill, são alguns bons exemplos desse código de honra que une pela amizade foras-da-lei com ética.
O mesmo se poderá dizer do aproveitamento de velhas glórias do cinema, emparceiradas em duplas nostálgicas. Que me lembre, assim de repente, há “Os Duros”, de Jeff Kanew, com Burt Lancaster e Kirk Douglas, “Como Pescar Uma Italiana Sem Partir a Cana”, de Howard Deutch, ou “Dois Novos Rabugentos”, de Donald Petrie, ambos com Jack Lemmon e Walter Matthau, “Desafio de Gigantes”, de Robert Aldrich, com Lee Marvin e Ernest Borgnine, para só citar alguns. Curiosamente, ou são rabugentos ou procuram demonstrar que mantêm a virilidade bem a postos, digna de uma boa disputa, quer seja aos murros entre homens ou em contendas mais íntimas, por entre lençóis. Que o diga Alan Arkin, neste “Stand Up Guys”, que segreda aos ouvidos das miúdas que o levam para uma “ménage à trois” algo de profundamente excitante, que nós nunca saberemos o que é, tal como na “Belle de Jour”, de Buñuel, mas que torna a noite inesquecível. Uma cena bem divertida, nesta obra irregular, assinada por um Fisher Stevens um pouco molengão, mas eficaz, que conduz pastosamente a primeira parte deste filme, para lhe imprimir alguma vitalidade na segunda.
 

 
Bem fotografado e iluminado, orquestrado de forma inspirada, não será um grande filme, mas permite um contacto sempre bem-vindo com três veteranos (Al Pacino, Christopher Walker e Alan Arkin), que se devem ter divertido um pouco a interpretar esta escapada nocturna, bem acompanhados por um naipe de miúdas giras e talentosas (Julianna Margulies, Lucy Punch, Addison Timlin, Vanessa Ferlito e Katheryn Winnick). Se estivéssemos no Verão, seria uma boa hipótese de passar umas horas de verão. Mas como a tróica até o Verão levou, é um filme de meia estação que não entusiasma, mas também não deslustra.
 

GANGSTERS DA VELHA GUARDA
Título original: Stand Up Guys
Realização: Fisher Stevens (EUA, 2012); Argumento: Noah Haidle; Produção: Matt Berenson, Ted Gidlow, Sidney Kimmel, Gary Lucchesi, Bingham Ray, Eric Reid, Tom Rosenberg, Jim Tauber, Bruce Toll; Música: Lyle Workman; Fotografia (cor): Michael Grady; Montagem: Mark Livolsi; Casting: Deborah Aquila, Tricia Wood; Design de produção: Maher Ahmad; Direcção artística: Thomas T. Taylor; Decoração: Kathy Lucas; Gurda-roupa: Lindsay McKay; Maquilhage: Kim Ayers, Bill Corso, Robert Wilson; Direção de produção: Ted Gidlow, Valerie Bleth Sharp; Assistentes de realização: Matthew Heffernan, Casey Mako, Darrin Prescott, Scott Andrew Robertson, Jonas Spaccarotelli; Departamento de arte: Brett McKenzie; Som: Derek Vanderhorst, Mandell Winter; Efeitos especiais: Bart Dion; Efeitos visuais: Thomas Duval; Companhias de produção: Lionsgate, Sidney Kimmel Entertainment, Lakeshore Entertainment; Intérpretes: Al Pacino (Val), Christopher Walken (Doc), Alan Arkin (Hirsch), Julianna Margulies (Nina Hirsch), Mark Margolis (Claphands), Lucy Punch (Wendy), Addison Timlin (Alex), Vanessa Ferlito (Sylvia), Katheryn Winnick (Oxana), Bill Burr (Larry), Craig Sheffer, Yorgo Constantine, Weronika Rosati, Courtney Galiano, Lauriane Gilliéron, Arjun Gupta, Aliya Astaphan, Brandon Scott, Roland Feliciano, Andrew Staes, Jeffrey Cole, Eric Etebari, Susann Fletcher, Earl Carroll, Eve Brenner, Jay Bulger, Donnie Smith, Sam Upton, Buster Reeves, Rick Gomez, Sami Samvod, etc. Duração: 95 minutos; Distribuição em, Portugal: Zon Audiovisuais; Classificação etária: M/12 anos; Data de estreia em Portugal: 6 de Junho de 2013.

terça-feira, junho 11, 2013

TEATRO: O CAMPEÃO DO MUNDO OCIDENTAL



 
O CAMPEÃO DO MUNDO OCIDENTAL
 
"Sempre gostei das peças em que se abre uma porta. Aqui, quem entra pouco depois de se levantar o pano, é mesmo inesperado. Atrapalhado, tímido, receoso, inseguro, olhando para todos os lados, aquele rapaz roto e sujo traz consigo mentiras, fantasias, histórias que vai inventando à nossa frente. Não é isso a vida, histórias que vamos inventando para sobreviver à dureza dos dias, à sujidade das nossas correrias? É pelo menos isso o que penso que pode ser o teatro: uma porta de onde nos chega a vida, as mentiras, os sonhos de grandeza, a sedução, o irreprimível desejo. Ao querer fazer este texto vibrante que iniciou o teatro europeu do século XX (estreou em 1907 e ainda não deixou de marcar o que se faz), quero, com os maravilhosos actores que agora há, voltar a pensar que realismo e poesia, invenção e atenção confluem sempre no teatro, sempre frágil. E, tal como nos disse um dia o grande dramaturgo grego Dimitris Dimitriadis (que ainda não conseguimos estrear), 'voltar a contar histórias, voltar a fazer entrar personagens nos palcos que Samuel Beckett esvaziou para sempre'. Sabe tão bem voltar ao teatro. E fazer aquela coisa tão difícil: rir e enternecer-se." - Jorge Silva Melo
 

Foi na última representação que tive oportunidade de ver “O Campeão do Mundo Ocidental”, do irlandês Edmund John Millington Synge (16 de Abril de 1871 – 24 de Março de 1909), mais conhecido por J. M. Synge, que Jorge da Silva Melo encenou no Teatro Nacional D. Maria II, num espectáculo belíssimo. Esta que é considerada a mais importante criação dramática do autor teve a sua estreia em Janeiro de 1907, no Abbye Theatre, em Dublin, com uma recepção inicial violentamente adversa, nela incluindo a do líder nacionalista Arthur Griffith, que achou a obra pouco política, corriqueira em demasia na sua linguagem, oferecendo mesmo uma imagem degradante da situação moral da Irlanda. Mas o grande poeta Yeats, no dia seguinte, insurgiu-se contra os manifestantes e os protestos pararam. Mas a obra, entre a comédia e o drama, de difícil catalogação e de não fácil interpretação, apesar de percepção escorreita, ainda hoje foge a um enquadramento tranquilizador, o que faz parte da sua sedução.

A acção decorre numa aldeia irlandesa, Aran (há que ver “O Homem de Aran”, par se perceber a aridez trágica da paisagem e a dureza da vida dos habitantes que vivem no alto de ravinas com o mar aos pés), e o cenário é único: uma taberna local onde, por essa porta de que fala Jorge Silva Melo, entra um jovem aparentemente tresloucado, “atrapalhado, tímido, receoso, inseguro, olhando para todos os lados”, contando uma história bizarra: acabara de matar o pai com um golpe de sachola na cabeça. A filha do dono da loja, o pai e os amigos, as raparigas da aldeia, as mulheres e os homens do burgo fazem-no, desde logo, herói, mesmo “campeão”, quando algum tempo depois ganha todas as provas disputadas entre os habitantes lá da terra. Não há condenação moral, há mesmo uma forte cumplicidade geral para o esconder e ajudar à sobrevivência. As raparigas e as mulheres disputam o seu amor, a demonstração de virilidade, o casamento. Infelizmente, um dia o pai chega, com uma ligadura à volta da cabeça a encobrir o galo que afinal não fora fatal, e a auréola do “campeão” esbate-se num ápice. De herói para a cobarde e mentiroso. A ironia é feroz, o ritmo empolgante, a sucessão de cenas deixa o espectador suspenso da inquietação e de uma certa incomodidade.
 

Com belíssima cenografia e excelentes figurinos de Rita Lopes Alves, que nos restituem o clima, isolado e denso, do interior da taberna e nos deixam adivinhar a vertigem do exterior, "O Campeão do Mundo Ocidental" impõe-se ainda pelo magnífico trabalho de actores de um sólido elenco, onde será justo destacar as interpretações de Elmano Sancho, Maria João Pinho, Américo Silva e Maria João Falcão.
Em conversa, no final do espectáculo, Jorge Silva Melo chamou-me a atenção para um facto interessante: esta peça, e o teatro de J. M. Synge, terão tido, por diversas vias, influência directa nas obras de John Ford (americano por nascimento, mas irlandês de coração, veja-se “A Taberna do irlandês”) e Charlie Chaplin (inclusive na criação da personagem de Charlot). Mesmo o britânico Hitchcock, que trabalhou com várias actrizes que interpretaram “The Playboy of the Western World”, não terá sido alheio a alguma sugestão.
Última curiosidade: com o título “O Valentão do Mundo Ocidental”, António Pedro encenou esta peça, no Teatro Experimental do Porto, em 1958, com Dalila Rocha, Vasco de Lima Couto, José Pina, Égito Gonçalves, Baptista Fernandes, João Guedes, entre outros. Mais tarde, o Teatro da Malaposta, em 1994, voltou a produzir o espectáculo, com José Airosa e Ana Nave nos protagonistas, com encenação de Rui Mendes. Em 2007, o Cendrev, no Teatro Garcia de Resende, de Évora, recriou a peça, numa nova encenação de José Russo, com Nelson Boggio na figura de Christy.  

O Campeão do Mundo Ocidental (The The Playboy of the Western World) - Texto de J. M. Synge; tradução Joana Frazão, com apoio à tradução de Ireland Literature Exchange; encenação Jorge Silva Melo; cenografia e figurinos de Rita Lopes Alves; coreógrafo de lutas: Sérgio Grilo; luz de Pedro Domingos; produção de João Meireles; assistente de encenação: Mirró Pereira e Américo Silva; co-produção: TNDM II / Artistas Unidos; Intérpretes: Elmano Sancho, Maria João Pinho, Américo Silva, Maria João Falcão, Rúben Gomes, João Vaz, António Simão, Nuno Pardal, João Delgado, e os estudantes da ESTC Rita Cabaço, Isac Graça, Catarina Campos Costa, Nídia Roque, Daniela Silva, João Reixa, Bernardo Souto, Nuno Geraldo.

domingo, junho 09, 2013

UM DIA PELA "LINHA"

7 DE JUNHO DE 2013
11 horas da manhã

O dia 7 de Junho foi feriado municipal em Oeiras e Cascais. Por razões que facilmente se percebem, por ali andei, pela chamada marginal, ou “linha”, de manhã à noite. Dia madrugador para mim, pois tinha que estar no Auditório Eunice Muñoz por volta das 10,30 h, para integrar a Sessão Solene Comemorativa do Dia do Município, com início marcado para as 11 da manhã. Em virtude das minhas actividades cinematográficas, nomeadamente as três masterclasses que tenho dirigido nos últimos anos, no auditório César Batalha, o município resolveu atribuir-me a Medalha de Mérito Municipal de Grau Ouro. Recompensa que muito agradeço, tanto mais que é atribuída em vida (graça a Deus e/ou aos avanços da medicina que tanto incomoda os responsáveis pela Segurança Social!), e se refere a uma actividade a que me dedico intensamente desde que me conheço e re-conheço, mais ou menos há 50 e tal anos.

Gostei muito de ver a meu lado a Drª: Maria do Rosário Carneiro, a fadista Esmeralda Amoedo e o meu ídolo de infância, o ciclista Alves Barbosa, que saudei emocionado, entre muitos outros que “por obras valerosas” fizeram jus a estar ali.
Inclusive uma dona de restaurante, iraniana, instalada há anos no nosso país, que diariamente oferece doze refeições aos mais necessitados do concelho.
Em boa companhia, portanto, ali estive e continuei.

13 horas
O Dia do Município de Oeiras continuou com a inauguração da Adega do Palácio do Marquês, seguida de uma refeição volante e do lançamento (melhor dizendo relançamento) de uma reedição do livro “Memórias da Linha de Cascais”, da autoria de Branca de Gonta Colaço e de Maria Archer, uma edição da Parceria António Maria Pereira, com apoio das Câmaras de Oeiras e Cascais.  A primeira edição desta obra data de 1943, mas o álbum que agora surge vê enriquecida a sua qualidade literária e a importância histórica com uma vasta e brilhante iconografia, que transforma o livro num irresistível must que, obviamente, trouxe para casa.
A reunião permitiu rever amigos e companheiros de há longa data, que não via há anos, o que é sempre reconfortante. Entre eles, a Antónia Maria Pereira e o Carlos Pina Cabral, ligados à reedição.


17 horas

Inauguração oficial do Hotel Vila Galé Palácio dos Arcos, cinco estrelas, dedicado à poesia, certamente por ter ali mesmo ao pé da porta o Parque dos Poetas. A adaptação e reabilitação integral do Palácio dos Arcos numa unidade hoteleira é um acontecimento que merece a publicidade gratuita. A decoração é magnífica e os poemas dispersos pelos corredores, salas e quartos é de extremo bom gosto, bem como a privilegiada localização, sobranceira ao rio Tejo. Os jardins contam com estátuas e um conjunto em bronze, um almoço de escritores, que justifica plenamente a visita. Não será para todas as bolsas, é certo, mas é bom haver no país estabelecimentos desta qualidade. 


18, 30 horas

No Centro Cultural de Cascais, inauguração de uma fabulosa exposição de fotografias da colecção John Kobal. Organizada pela Fundação D. Luís I e o Santa Barbara Museum of Art, com produção em Portugal de Terra Esplêndida, a mostra agrupa um conjunto de noventa originais vintage, dos mais importantes fotógrafos que trabalharam em Hollywood, entre 1920 e 1960. São fotos que aparecem incluídas num álbum absolutamente notável (“Glamour of the Gods”) também à venda no Centro, e que ajudaram a criar a envolvência mágica das estrelas que habitaram por essas décadas o céu de Hollywood. As estrelas não eram perfeitas, o paraíso não era ali, mas o que nos reservam estas imagens que vão desde os tempos do cinema mudo até ao final do “studio system”, é essa imagem utópica de uma corte celestial. Quem gosta de cinema e não se importa de ser manipulado por essa beleza intocável, esta é uma viagem impossível de ignorar.


Oportunidade ainda para rever bons e velhos amigos, O José Matos Cruz e a Fátima, o Salvato Telles de Meneses. Amigos no céu das estrelas, que mais se pode desejar.  (sobre o Matos Cruz, falo a seguir)


20 horas

Jantar, um belo bife, com televisão ao pé, para ver Portugal 1, Rússia 0. Tal como as estrelas de Hollywood, um dia (quase) perfeito.

quarta-feira, junho 05, 2013

OEIRAS HOMENAGEIA

Dia do Município de Oeiras – 7 de Junho 
 
Data Início:
07-06-2013 
Data Fim:
07-06-2013 

Local:
Vários Locais no Concelho de Oeiras 


Outras
Informações:
Celebrado com três inaugurações  

O Dia do Município de Oeiras, 7 de junho, é este ano celebrado com três inaugurações (Adega do Palácio do Marquês, Monumento de Homenagem à Paz e à Concórdia entre os Povos e Hotel Vila Galé – Collection), o lançamento de um livro e a Sessão Solene, a qual é antecedida pelo Hastear das bandeiras e uma Missa Solene.
Na Sessão Solene, liderada pelo presidente da Câmara Municipal de Oeiras, Paulo Vista, são atribuídas Medalhas de Mérito Municipal a cidadãos e a entidades que se tenham destacado e contribuído para tornar Oeiras num Município de excelência.
Lauro António, Maria do Rosário Carneiro, Álvaro Santos, Coronel José Ataíde Montez, Esmeralda Amoedo e General Carlos Manuel Mourato Nunes, são algumas das individualidades homenageadas nesta cerimónia, que tem lugar às 11H00, no Auditório Municipal Eunice Muñoz, em Oeiras. Refira-se também a distinção a algumas empresas e associações sedeadas no concelho, tais como a Impresa, o Atelier de Construção de Guitarra Portuguesa Cooperativa Nova Morada, a Associação Apoio e a Associação Coração Amarelo, entre outras.
A inauguração da Adega do Palácio Marquês de Pombal, que inclui o lançamento do livro “Memórias da Linha de cascais, está marcada para as 13H00.
A primeira inauguração da tarde é a do Monumento de Homenagem à Paz e à Concórdia entre os Povos, às 16H00, na Av. Duque de Loulé, em Linda-a-Velha.
Refira-se que a criação deste Monumento, na sequência de uma solicitação da Embaixada da Turquia, resulta do facto da Câmara Municipal de Oeiras ter decidido associar-se à celebração do triste acontecimento ocorrido em 7 de Junho de 1985, em Linda-a-Velha, com um atentado a dois Diplomatas Turcos residentes naquela localidade. Entendeu todavia esta Autarquia que, mais do que homenagear os representantes da embaixada Turca assassinados no nosso país deveria ser evocada, através da colocação de um monumento, a Paz e a Concórdia entre os Povos. Aliando-se também à iniciativa, o Mestre Francisco Simões concebeu de forma graciosa, um conjunto escultórico para assinalar a efeméride.
O programa oficial do Dia do Município encerra com a inauguração do Hotel Vila Galé – Collection, às 17H30, em Paço de Arcos.

PROGRAMA:
09H30 – Hastear das Bandeiras | frente aos Paços do Concelho
10H00 – Missa Solene | Igreja Matriz de Oeiras
11H00 – Sessão Solene Comemorativa do Dia do Município, no Auditório Municipal Eunice Muñoz, Oeiras
13H00 – Inauguração da Adega do Palácio Marquês de Pombal, Oeiras
                 Com lançamento da reedição do livro “Memórias da Linha de Cascais”
16H00 – Inauguração do Monumento de Homenagem à Paz e à Concórdia entre os Povos, na Av. Duque de Loulé,   
                 em   Linda-a-Velha
17H30 – Inauguração do Hotel Vila Galé Collection | Paço de Arcos
Informação também disponível no facebook do Município de Oeiras

LISBOA NO CINEMA

OPEN NIGHT LITERÁRIA
 

Dia 6, na Livraria Barata, na Av. de Roma,
open night para se falar de muita coisa,
entre elas de cineastas, filmes e Lisboa.

CINEMA: NOME DE CÓDIGO:PAULETTE



NOME DE CÓDIGO: PAULETTE


Setembro de 1974. Estávamos em plena euforia revolucionária. Eu dirigia a programação do Estúdio Apolo 70. Pouco tempo antes, tinha ido a Paris escolher alguns filmes para estrear na sala que era explorada comercialmente por Filmes Lusomundo. Entre os vários títulos visionados e comprados estavam “Chove sobre Santiago”, “Angela” e “La Fiancée du Pirate”. Era este último, uma realização de Nelly Kaplan, que se estreava em Lisboa, precisamente no dia 12 de Setembro. Um filme “insolente e feroz”, como muita crítica o classificou nessa altura, e que tinha como figura central uma jovem actriz que por essa época fazia furor no cinema francês, sobretudo nos primeiros filmes de Claude Chabrol (“Um Vinho Difícil”, “Pedido de Divórcio”, “As Boas Mulheres”…): Bernardette Lafont.

 
Nascida a 26 de Outubro de 1938, em Nîmes, França, Bernardette lançara-se no cinema com uns radiosos 20 anos e quando protagonizou “A Noiva do Pirata” rondava os trinta e aprimorara a arte da rebeldia e o talento da fotogenia. Ela era um espanto a revolucionar a pequena aldeia de Tellier, onde resolvera instalar a prostituição por conta própria e com ela fazer rebentar os maus costumes de uma sociedade puritana e hipócrita que lhe matara o único ser que ela amava, um bode que lhe fazia companhia, após a morte da mãe.
Depois disso, Bernardette Laffont não parou de trabalhar, vai agora com 74 anos e quase duas centenas de filmes no activo. Um dos últimos uma comédia divertida, “Paulette” (em português “Nome de Código: Paulette”), dirigida por um recém-chegado ao cinema, depois de carreira feita em séries de televisão, Jérôme Enrico. Foi o filme que abriu a 13ª Festa do Cinema Francês, no cinema São Jorge, em Lisboa, jogando com um bom acolhimento da crítica internacional e uma excepcional recepção de público que, só em França, na estreia, fez mais de 500 mil espectadores. Números importantes, dada a crise que se vive um pouco por todo o lado e dado ainda o facto de ser um filme francês, uma produção relativamente barata, que fez frente aos grandes blockbusters americanos.

 
E, apesar de não ser um filme excepcional cinematograficamente falando, “Nome de Código: Paulette” diverte, faz pensar qb nalguns problemas da nossa sociedade actual, mostra um realizador eficaz e sóbrio, que conta uma história com desenvoltura e cria mesmo um certo clima e mostra uma Bernardette Lafont com 73 anos, ainda insolente, ainda fotogénica, e sempre iconoclasta.
Paulette é uma viúva que habita numa problemática zona suburbana de Paris, sobrevive com reforma mínima, vasculha os caixotes do lixo para arranjar um ramo de flores ou um candeeiro abandonado, janta com o retrato do seu falecido marido do outro lado da mesa, gosta do seu copo de vinho, ainda desperta os apetites do seu vizinho do lado, mas vê os seus móveis saírem pela porta fora à ordem do juiz. Revoltada, e num momento de sorte, percebe como se vende droga no bairro, haxixe, para ser mais preciso, e resolve ir oferecer os seus préstimos ao chefe do gang para integrar o negócio. Depois descobre que bolinhos com droga dentro são ainda mais apelativos e cria uma indústria caseira.


Sobre o que vem a seguir mais não digo, para não tirar o efeito de surpresa, mas nenhuma surpresa constituirá a exibição desse talento nato que é o de Bernardette Lafont. Ela consegue ser horrenda no seu racismo mais primário (diz ao neto: “Não me chames avó, porque és preto!”) e simultaneamente enternecedora na forma como se transforma numa empreendedora de sucesso. Um bom exemplo para os governantes que querem eficiência a toda a prova e não olham a meios para conseguir resultados. Pelo paradoxo, “Paulette” critica a teoria, expondo a prática. Para fugir à pobreza e manter um certo nível de vida, nada melhor do que socorrer-se da economia paralela e enveredar pelo crime. A receita está dada. Por Bernardette Lafont e as suas três amigas, interpretadas por Carmen Maura, Dominique Lavanant e Françoise Bertin, com saborosas participações.  

 
NOME DE CÓDIGO: PAULETTE
Titulo original: Paulette
Realização: Jérôme Enrico (França, 2012); Argumento: Laurie Aubanel, Jérôme Enrico, Bianca Olsen, Cyril Rambour; Produção: Alain Goldman; Montagem: Antoine Vareille; Casting: Coralie Amedeo; Maquilhagem: Frédéric Zaid; Direcção de produção: Sylvain Bouladoux, Abraham Goldblat, Cathy Lemeslif; Assistentes de realização: César Chabrol, Julie-Anne Simon; Departamento de arte: Julien Rondeau; Som: Jean-Luc Rault-Cheynet; Efeitos visuais: Thomas Duval; Companhias de produção: Légende Films, Gaumont, France 2 Cinéma, Canal+, Ciné+; Intérpretes: Bernadette Lafont (Paulette), Carmen Maura (Maria), Dominique Lavanant (Lucienne), Françoise Bertin (Renée), André Penvern (Walter), Ismaël Dramé (Léo), Jean-Baptiste Anoumon (Ousmane), Axelle Laffont (Agnès), Paco Boublard (Vito), Mahamadou Coulibaly (Idriss), Kamel Laadaili, Aymen Saïdi, Soufiane Guerrab, Samir Trabelsi, Alexandre Aubry, Pascal N'Zonzi, Lionnel Astier, Mathias Melloul, Miglen Mirtchev, Philippe du Janerand, Schemci Lauth, Marc Samuel, Brigitte Boucher, etc. Duração: 87 minutos; Classificação etária: M/12anso; Distribuição em Portugal: Zon Audiovisuais; Data de estreia em Portugal: 18 de Abril de 2013.

     homenagem a Bernardette Lafont.

domingo, junho 02, 2013

CLARICE LISPECTOR: CONFISSÃO DE AMOR



Esta é uma confissão de amor: amo a língua portuguesa. Ela não é fácil. Não é maleável. E, como não foi profundamente trabalhada pelo pensamento, a sua tendência é a de não ter sutilezas e de reagir às vezes com um verdadeiro pontapé contra os que temerariamente ousam transformá-la numa linguagem de sentimento e de alerteza. E de amor. A língua portuguesa é um verdadeiro desafio para quem escreve. Sobretudo para quem escreve tirando das coisas e das pessoas a primeira capa de superficialismo.
Às vezes ela reage diante de um pensamento mais complicado. Às vezes se assusta com o imprevisível de uma frase. Eu gosto de manejá-la – como gostava de estar montada num cavalo e guiá-lo pelas rédeas, às vezes lentamente, às vezes a galope.
Eu queria que a língua portuguesa chegasse ao máximo nas minhas mãos. E este desejo todos os que escrevem têm. Um Camões e outros iguais não bastaram para nos dar para sempre uma herança da língua já feita. Todos nós que escrevemos estamos fazendo do túmulo do pensamento alguma coisa que lhe dê vida.
Essas dificuldades, nós as temos. Mas não falei do encantamento de lidar com uma língua que não foi aprofundada. O que recebi de herança não me chega.
Se eu fosse muda, e também não pudesse escrever, e me perguntassem a que língua eu queria pertencer, eu diria: inglês, que é preciso e belo. Mas como não nasci muda e pude escrever, tornou-se absolutamente claro para mim que eu queria mesmo era escrever em português. Eu até queria não ter aprendido outras línguas: só para que a minha abordagem do português fosse virgem e límpida.



Clarice Lispector