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quarta-feira, fevereiro 01, 2017

TEATRO: A NOITE DE IGUANA



JORGE SILVA MELO: 

A NOITE DE IGUANA



Há já alguns anos vi no Teatro Maria Matos, numa encenação de João Paulo Costa, "A Noite da Iguana", peça de Tennessee Williams, numa produção conjunta daquele teatro e do ACE/Teatro do Bolhão. Nessa altura escrevi sobre a peça: “Não me parece que “The Night of Iguana” seja uma das melhores peças de Tennessee Williams, mas sei que deu um belíssimo e intenso filme com a assinatura de John Huston e desempenhos memoráveis de Richard Burton, Ava Gadner, Sue Lyon e, sobretudo, dessa espantosa Deborah Kerr. Era um elenco explosivo. Conta-se que o velho e divertido cineasta (um dos meus preferidos!), antes de iniciar as filmagens com tão “poderoso” elenco (e ainda com a presença de Elisabeth Taylor, a “controlar” o seu então marido) resolveu presentear os protagonistas, e também Elisabeth Taylor, com uma pistola e quatro balas douradas onde haviam sido previamente gravados os nomes dos demais actores. Felizmente, ninguém chegou a precisar de usá-las. Mas isto dizia bem, ainda que de forma irónica, do grau de tensão que existia entre o elenco. O mesmo se verificou entre as personagens, no resultado final.
A intriga não tem muito que contar. Lawrence Shannon (Richard Burton), ex-pastor protestante e admirador de uma boa bebida, trabalha agora como guia turístico, e dirige uma excursão formada por professoras bem entradotas na idade, que se fazem acompanhar por uma jovem, Charlotte Goodall (Sue Lyon, a “Lolita” de Kubrick), obcecada em seduzir o ex-sacerdote.


Tudo se irá concentrar numa perdida aldeia da costa mexicana, num motel a cair de podre, com uma vista soberba, dirigido por uma viúva que se faz acompanhar nos seus banhos nocturnos por dois efebos a tocar marimbar (é o mínimo que se pode antever). Aí se juntam em refúgio Lawrence Shannon, mais o grupo de excursionistas enraivecidas, dirigidas por uma recalcada e puritana Miss Fellowes (Grayson Hall), que não perdoa a Lawrence ter seduzido, ou ter sido seduzido, pela jovem Charlotte. Para culminar surge uma outra dupla extravagante e falida, composta por Hannah Jelkes (Deborah Kerr) uma pintora empreendedora, e o seu avô, poeta, que arrasta os seus muitos anos numa cadeira de rodas.
O ex-padre ressente-se da fé abalada, esforça-se para juntar os pedaços de uma vida despedaçada, e vê-se encurralado por três mulheres que o cortejam cada uma à sua maneira. Neste jogo de vida ou de morte, de salvação ou perdição, Huston conseguia alguns bons momentos de quente sensualidade na tumultuosa paisagem mexicana. Os actores ajudavam bastante a retirar tensão dramática neste embate de destroços, mas o talento de Huston apadrinhava muito na direcção de actores, e no aproveitamento das suas potencialidades, enquadrando-os em excelentes cenários, fabulosamente fotografados a preto e branco. Nos Óscares do ano ganharia um para o melhor guarda-roupa, Dorothy Jeakins, e foi nomeado para outros três que não venceu, melhor actriz secundária, Grayson Hall, melhor direcção artística, Stephen B. Grimes, e melhor fotografia, para mestre Gabriel Figueroa”.
Quando abordava aqui a encenação então vista, acrescentava: “deve dizer-se que a cenografia de Paulo Oliveira é bonita e funcional, os figurinos de Ana Teresa Castelo interessantes, a iluminação eficaz, mas tudo o resto deixa algo a desejar”.  
Surge agora uma nova versão encenada por Jorge Silva Melo, uma co-produção dos Artistas Unidos/SLTM/TNSJ e a minha apreciação é totalmente diversa. A encenação de Jorge Silva Melo é, como se esperaria, muito interessante, criando momentos de tensão, sublinhando aspectos importantes da obra teatral, mantendo um ritmo certo e ajustado, cuidando da interpretação dos actores, alguns dos quais bastante bons, destaques especiais para Nuno Lopes (Lawrence Shannon), Maria João Luís (Maxine Faulk), Catarina Wallenstein (Charlotte Goodall) e, para mim uma revelação, Joana Bárcia (Hannah Jelkes), mas com duas ou três reservas, que lamento. Não gosto muito do cenário de Rita Lopes Alves e Luz Pedro Domingos, que me parece pobre e pouco adequado à obra, sobretudo as paredes frontais da pensão, pobre mas ao tanto!, e julgo as aparições do grupo de estouvados jovens para-nazis um pouco “garridas” demais, digamos assim, quebrando (era isso que se pretendia, eu sei) o clima de algumas cenas. Mas parecem-me excessivas e não muito consentâneas com os propósitos.
De resto, e apesar de continuar a achar esta peça menos interessante que outras do mesmo autor, como “A Gata em Telhado de Zinco Quente” ou “O Doce Pássaro da Juventude”, trata-se obviamente de uma obra a considerar, o que me leva a agradecer a Jorge Silva Melo a sua opção por colocar à disposição do público português este magnífico ciclo Tennessee William (onde ainda coube “Jardim Zoológico de Vidro”). Ficamos à espera de “Subitamente no Verão Passado” e, sobretudo, “Um Eléctrico Chamado Desejo”.


A NOITE DA IGUANA. Texto de Tennessee Williams; Tradução Dulce Fernandes; Cenografia e Figurinos Rita Lopes Alves, Luz Pedro Domingos; Som André Pires; Coordenação Técnica João Chicó; Produção João Meireles; Assistência de Encenação Nuno Gonçalo Rodrigues e Bernardo Alves; Encenação Jorge Silva Melo; Uma produção Artistas Unidos/SLTM/TNSJ; Intérpretes: Nuno Lopes (Lawrence Shannon), Maria João Luís (Maxine Faulk), Isabel Muñoz Cardoso (Judith Fellowes), Joana Bárcia (Hannah Jelkes), Pedro Carraca (Hank Prosner), Tiago Matias (JakeLatta), João Meireles (Herr Fahrenkopf), Vânia Rodrigues (Frau Fahrenkopf), Pedro Gabriel Marques (Pancho), Catarina Wallenstein (Charlotte Goodall), Américo Silva (Nonno), João Delgado (Pedro), Bruno Xavier (Wolfgang) Ana Amaral (Hilda). Em exibição no São Luiz Teatro Municipal, Lisboa, até 5 de Fevereiro; no Teatro Nacional de São João, Porto, de 9 a 26 de Fevereiro de 2017.

sexta-feira, abril 24, 2015

TEATRO: DOCE PÁSSARO DA JUVENTUDE


DOCE PÁSSARO DA JUVENTUDE

“Sweet Bird of Youth” é mais uma peça de Tennessee Williams a ser apresentada pelos Artistas Unidos, com encenação de Jorge Silva Melo, depois de no ano passado terem levado à cena “Gata em Telhado de Zinco Quente”. Deve dizer-se que se trata de um excelente espectáculo, com eficaz e justa encenação, belos cenários, e magnífica interpretação de Maria João Luís e Rúben Gomes, à frente de um consistente e homogéneo elenco. A peça, tal como quase todas a deste dramaturgo norte-americano, teve uma versão cinematográfica muito boa, com a assinatura de Richard Brooks, e interpretação a cargo de Geraldine Page e Paul Newman e, se esse trabalho era inesquecível, deve dizer-se que Maria João Luís e Rúben Gomes não os fazem esquecer, mas também não os fazem recordar.
O próprio Jorge Silva Melo evoca de forma muito sucinta o entrecho da peça: “Uma actriz enfrenta o desastre de uma vida, longe dos doces anos da sua juventude. Um rapaz, Chance Wayne, de regresso à terra de onde partiu há anos à conquista do mundo. É Páscoa, mas não haverá ressurreição. Todos procuram voltar a um passado que imaginaram feliz. Enquanto decorre uma sórdida manobra política”.
Passa por aqui um clima de decadência e de desesperada solidão que recorda obviamente “Sunset Boulevard”, tendo como pano de fundo questões políticas e sociais relevantes. A encenação de Jorge Silva Melo é sóbria mas suficientemente clara para por a descoberto toda esta teia de relações viciadas e o trabalho dos actores faz o resto, conferindo densidade e dramatismo às personagens. Um belíssimo espectáculo.

DOCE PÁSSARO DA JUVENTUDE

Texto (Sweet Bird of Youth) de Tennessee Williams; Tradução: José Agostinho Baptista; Encenação: Jorge Silva Melo; Assistência: Leonor Carpinteiro e Nuno Gonçalo Rodrigues; Cenografia e figurinos: Rita Lopes Alves; Som: André Pires; Luz: Pedro Domingos; Produção executiva: João Meireles; Interpretação: Maria João Luís, Rúben Gomes, Américo Silva, Catarina Wallenstein, Isabel Muñoz Cardoso, Mauro Hermínio, Nuno Pardal, Pedro Carraca, Pedro Gabriel Marques, Rui Rebelo,  Simon Frankel, Tiago Matias, Vânia Rodrigues, Eugeniu Ilco, Alexandra Pato, André Loubet, Francisco Lobo Faria, João Estima, Mia Tomé, Tiago Filipe e a participação de João Vaz; Uma produção: Artistas Unidos, Teatro Nacional de São João e São Luiz Teatro Municipal; últimos dias: Sexta e Sábado às 21h00; Domingo às 17h30; Sala Principal; M/14 anos; €12 A €15 (com descontos €5 a 10,50); Duração: 2h. 


domingo, julho 07, 2013

FESTIVAL DE ALMADA: SALA VIP



SALA VIP

“Sala Vip” é um texto de Jorge Silva Melo, encenado por Pedro Gil. A peça é uma notável declaração de amor à vida, ao teatro, ao amor. A encenação é magnífica de sensibilidade, de criatividade, numa ligação entre o trágico e o humor, trespassada por um lirismo ácido.
Seis personagens numa sala de espera de um aeroporto. Pertencem todas a uma companhia de ópera. Perderam um voo, uma ligação, o que quer que seja. Perderam um contacto com quem tentam desesperadamente estabelecer uma ligação telefónica. Esperam. Perderam. “Sala Vip” é um lamento sobre a perda, a perda do amor, da juventude, da voz, das ilusões, alguém não volta a encontrar aquelas “deliciosas bolinhas de chocolate com Ovomaltine dentro”. ”Oh, baby, baby, it’s a wild world”, canta-se repetidamente. Perdeu-se o teatro. Perdeu-se a ópera. Perde-se a vida. ”Oh, baby, baby, it’s a wild world”. A sensação de perda avoluma-se, à medida que as personagens mudam de espaço, mas não alteram o desespero. O medo. Medo de tudo. De azeitonas, também.
Escreveu Pedro Gil: “Depois faremos das palavras do Jorge as nossas perguntas: e depois do sucesso? do dinheiro? do orgasmo? do amor? da juventude? E depois do teatro?”. Um mundo desaparece, “desaparece-me”, diz Jorge da Silva Melo. 
Neste panorama negro de desespero é, todavia, possível encontrar essa envolvente declaração de amor à vida, ao teatro, ao amor. Porque a peça é isso mesmo que transmite, porque a encenação é isso mesmo que sublinha, porque os actores é isso mesmo que encarnam. Num mundo em perda constante, temos ali à nossa frente a prova perfeita de que o teatro existe, o amor existe, a vida existe. E tenhamos esperança, haverá algures essas “deliciosas bolinhas de chocolate com Ovomaltine dentro.”
Se o texto é forte, intenso, poético, brutal por vezes, sensível sempre, a encenação é uma demonstração perfeita de maturidade, marcada no ritmo certo, com uma soberba direcção de actores, brilhante no pormenor. Jorge Silva Melo conseguiu encontrar em Pedro Gil o cúmplice perfeito. A mescla de trágico lirismo e de ironia prolonga-se por situações e citações invulgarmente bem conseguidas, desde à invocação do Dr. House à citação “actualizada” do mais célebre diálogo de “Johnny Guitar”. Aliás, as referências cinematográficas são contínuas e como me lembrei de “Violência e Paixão”, de Visconti, ao assistir à representação.
Do elenco fazem parte Andreia Bento, Maria João Falcão, Elmano Sancho, António Simão e João Pedro Mamede, todos eles brilhantes na sua apaixonante fragilidade, construída com uma força, um nervo, uma entrega notáveis. Quantos e tão bons actores há hoje em dia em Portugal!
Não errarei muito se disser que este será seguramente um dos melhores espectáculos de teatro levados à cena este ano em Portugal.

SALA VIP

Texto Jorge Silva Melo; Encenação Pedro Gil; Cenografia e Figurinos Rita Lopes Alves; Músico João Aboim; Luz Pedro Domingos; Com Andreia Bento, Maria João Falcão, Elmano Sancho, António Simão e João Pedro Mamede; Uma produção Pedro Gil, Artistas Unidos e Culturgest. Na Culturgest, de 6 a 9 de Julho. M / 16 anos. 

terça-feira, junho 11, 2013

TEATRO: O CAMPEÃO DO MUNDO OCIDENTAL



 
O CAMPEÃO DO MUNDO OCIDENTAL
 
"Sempre gostei das peças em que se abre uma porta. Aqui, quem entra pouco depois de se levantar o pano, é mesmo inesperado. Atrapalhado, tímido, receoso, inseguro, olhando para todos os lados, aquele rapaz roto e sujo traz consigo mentiras, fantasias, histórias que vai inventando à nossa frente. Não é isso a vida, histórias que vamos inventando para sobreviver à dureza dos dias, à sujidade das nossas correrias? É pelo menos isso o que penso que pode ser o teatro: uma porta de onde nos chega a vida, as mentiras, os sonhos de grandeza, a sedução, o irreprimível desejo. Ao querer fazer este texto vibrante que iniciou o teatro europeu do século XX (estreou em 1907 e ainda não deixou de marcar o que se faz), quero, com os maravilhosos actores que agora há, voltar a pensar que realismo e poesia, invenção e atenção confluem sempre no teatro, sempre frágil. E, tal como nos disse um dia o grande dramaturgo grego Dimitris Dimitriadis (que ainda não conseguimos estrear), 'voltar a contar histórias, voltar a fazer entrar personagens nos palcos que Samuel Beckett esvaziou para sempre'. Sabe tão bem voltar ao teatro. E fazer aquela coisa tão difícil: rir e enternecer-se." - Jorge Silva Melo
 

Foi na última representação que tive oportunidade de ver “O Campeão do Mundo Ocidental”, do irlandês Edmund John Millington Synge (16 de Abril de 1871 – 24 de Março de 1909), mais conhecido por J. M. Synge, que Jorge da Silva Melo encenou no Teatro Nacional D. Maria II, num espectáculo belíssimo. Esta que é considerada a mais importante criação dramática do autor teve a sua estreia em Janeiro de 1907, no Abbye Theatre, em Dublin, com uma recepção inicial violentamente adversa, nela incluindo a do líder nacionalista Arthur Griffith, que achou a obra pouco política, corriqueira em demasia na sua linguagem, oferecendo mesmo uma imagem degradante da situação moral da Irlanda. Mas o grande poeta Yeats, no dia seguinte, insurgiu-se contra os manifestantes e os protestos pararam. Mas a obra, entre a comédia e o drama, de difícil catalogação e de não fácil interpretação, apesar de percepção escorreita, ainda hoje foge a um enquadramento tranquilizador, o que faz parte da sua sedução.

A acção decorre numa aldeia irlandesa, Aran (há que ver “O Homem de Aran”, par se perceber a aridez trágica da paisagem e a dureza da vida dos habitantes que vivem no alto de ravinas com o mar aos pés), e o cenário é único: uma taberna local onde, por essa porta de que fala Jorge Silva Melo, entra um jovem aparentemente tresloucado, “atrapalhado, tímido, receoso, inseguro, olhando para todos os lados”, contando uma história bizarra: acabara de matar o pai com um golpe de sachola na cabeça. A filha do dono da loja, o pai e os amigos, as raparigas da aldeia, as mulheres e os homens do burgo fazem-no, desde logo, herói, mesmo “campeão”, quando algum tempo depois ganha todas as provas disputadas entre os habitantes lá da terra. Não há condenação moral, há mesmo uma forte cumplicidade geral para o esconder e ajudar à sobrevivência. As raparigas e as mulheres disputam o seu amor, a demonstração de virilidade, o casamento. Infelizmente, um dia o pai chega, com uma ligadura à volta da cabeça a encobrir o galo que afinal não fora fatal, e a auréola do “campeão” esbate-se num ápice. De herói para a cobarde e mentiroso. A ironia é feroz, o ritmo empolgante, a sucessão de cenas deixa o espectador suspenso da inquietação e de uma certa incomodidade.
 

Com belíssima cenografia e excelentes figurinos de Rita Lopes Alves, que nos restituem o clima, isolado e denso, do interior da taberna e nos deixam adivinhar a vertigem do exterior, "O Campeão do Mundo Ocidental" impõe-se ainda pelo magnífico trabalho de actores de um sólido elenco, onde será justo destacar as interpretações de Elmano Sancho, Maria João Pinho, Américo Silva e Maria João Falcão.
Em conversa, no final do espectáculo, Jorge Silva Melo chamou-me a atenção para um facto interessante: esta peça, e o teatro de J. M. Synge, terão tido, por diversas vias, influência directa nas obras de John Ford (americano por nascimento, mas irlandês de coração, veja-se “A Taberna do irlandês”) e Charlie Chaplin (inclusive na criação da personagem de Charlot). Mesmo o britânico Hitchcock, que trabalhou com várias actrizes que interpretaram “The Playboy of the Western World”, não terá sido alheio a alguma sugestão.
Última curiosidade: com o título “O Valentão do Mundo Ocidental”, António Pedro encenou esta peça, no Teatro Experimental do Porto, em 1958, com Dalila Rocha, Vasco de Lima Couto, José Pina, Égito Gonçalves, Baptista Fernandes, João Guedes, entre outros. Mais tarde, o Teatro da Malaposta, em 1994, voltou a produzir o espectáculo, com José Airosa e Ana Nave nos protagonistas, com encenação de Rui Mendes. Em 2007, o Cendrev, no Teatro Garcia de Resende, de Évora, recriou a peça, numa nova encenação de José Russo, com Nelson Boggio na figura de Christy.  

O Campeão do Mundo Ocidental (The The Playboy of the Western World) - Texto de J. M. Synge; tradução Joana Frazão, com apoio à tradução de Ireland Literature Exchange; encenação Jorge Silva Melo; cenografia e figurinos de Rita Lopes Alves; coreógrafo de lutas: Sérgio Grilo; luz de Pedro Domingos; produção de João Meireles; assistente de encenação: Mirró Pereira e Américo Silva; co-produção: TNDM II / Artistas Unidos; Intérpretes: Elmano Sancho, Maria João Pinho, Américo Silva, Maria João Falcão, Rúben Gomes, João Vaz, António Simão, Nuno Pardal, João Delgado, e os estudantes da ESTC Rita Cabaço, Isac Graça, Catarina Campos Costa, Nídia Roque, Daniela Silva, João Reixa, Bernardo Souto, Nuno Geraldo.

sábado, janeiro 21, 2012

TEATRO: DIAS DE VINHO E ROSAS

:
DIAS DE VINHO E ROSAS

They are not long, the days of wine and roses:
Out of a misty dream
Our path emerges for a while, then closes
Within a dream.
Ernest Dowson (1867-1900)

Principiemos pelo que ainda aqui não foi dito. Os Artistas Unidos, que durante alguns anos andaram com a casa às costas, têm agora um belo espaço, o Teatro da Politécnica, obviamente situado na Rua da Escola Politécnica, em Lisboa, um edifício recuperado para o efeito, à entrada de uma das alamedas que dá acesso ao Jardim Botânico. O sistemático trabalho de Jorge da Silva Melo e da sua equipa bem merecereu este reconhecimento.
Agora estrearam “Dias de Vinho e Rosas” (Days of Wine and Roses), um texto originalmente escrito para televisão pelo norte-americano J.P. Miller, que depois conheceu uma versão teatral do irlandês Owen McCafferty, e apresentado no palco do Teatro da Politécnica numa tradução de Joana Frazão.
JP Miller
James Pinckney Miller (1919-2001), que começou a escrever e publicar aos 17 anos contos do “wild west”, foi boxeur profissional, usando o nome de “Tex Frontier”, jornalista no “Houston Post”, estudante de escultura na “La Escuela de Artes Plásticas”, na cidade do México, marinheiro no Sul do Pacífico, durante a II Guerra Mundial, onde assumiu o seu nome de combate literário, JP Miller. Estudou escrita e teatro na Yale Drama School, mudou-se para Nova Iorque, onde vendeu ar condicionado para viver e passava o resto do tempo e as noites nos teatros, nos estúdios de televisão e em aulas no American Theater Wing
O primeiro telefilme que escreveu foi “The Polecat Shakedown”, 30 minutos de chantagem num restaurante que haveria de passar no programa “Man Against Crime”. Abandonou tudo o mais e dedicou-se à escrita para televisão. Em 1954 já tinha cinco trabalhos produzidos para TV, tornando-se num dos mais prestigiados autores de telefilmes da “Idade de Ouro da Televisão”. Em 1955, triunfaria com “The Rabbit Trap”, apresentado na “Goodyear Television Playhouse”. Mas o seu grande sucesso seria “Days of Wine and Roses”, realizado em televisão pelo então jovem prometedor John Frankenheimer, para “Playhouse 90” e emitido a 2 de Outubro de 1958. Recebeu três nomeações para os Emmys do ano.
A direcção era brilhante, no dizer da crítica da época, e o elenco notável, Cliff Robertson (Joe Clay), Piper Laurie (Kirsten Arnesen Clay), Charles Bickford (Ellis Arnesen), Marc Lawrence (Scarface), entre outros. Quatro anos depois, passaria a cinema pela mão de Blake Edwards, num filme memorável, que o “The New York Times” coloca na lista dos 1000 melhores filmes de sempre. Jack Lemmon, Lee Remick, Charles Bickford e Jack Klugman foram os protagonistas mas as críticas da época, apesar de reconhecerem os méritos ao filme, faziam sobressair as virtudes do telefilme, que o próprio escritor preferia: “a versão televisiva estava mais perto do meu coração, porque estava mais perto da minha imagem original”.
No filme, Joe Clay (Jack Lemmon) é um relações-públicas, jovem, que se apaixona por Kirsten (Lee Remick), uma colega de trabalho, com quem casa. Mas a pressão profissional empurra-os para momentos de rápida euforia provada pelo álcool, e daí ao descalabro das suas vidas é um passo que percorrem dramaticamente. Sem retorno, apesar das tentativas em contrário. As actuações de Jack Lemmon e Lee Remick são brilhantes e o filme teve algumas dificuldades para manter o tom desesperado com que acaba. Blake Edwards resistiu até ao fim, contra a tentativa de tornar mais macio o final e Jack Lemmon precipitou a sua viagem para a rodagem de um outro filme, a fim de não tornar possíveis as filmagens de novos planos para uma remontagem.
Em 2002, Owen McCafferty, dramaturgo irlandês, adapta a teatro o telefilme de JP Miller, aproveitando somente o esqueleto da obra e alterando-a profundamente. A América passa para a Belfast (Irlanda) e Londres (Inglaterra), mantendo apenas como protagonistas o casal Donal e Dona. 
Nascido em Belfast, em 1961, Owen McCafferty é considerado actualmente um dos grandes dramaturgos e encenadores daquele país, tendo conseguido criar a reputação de um escritor capaz de desenvolver uma linguagem teatral tipicamente irlandesa, através dos seus diálogos fortes, curtos e incisivos, bem enraizados na realidade do seu país. Escreveu várias peças, entre as quais “Cenas da Grande Panorâmica” (Scenes from the Big Picture), 2003 (agora editada conjuntamente com “Dias de Vinho e Rosas”, na colecção “Livrinhos de Teatro”, uma publicação conjunta “Artistas Unidos-Livros Cotovia”), “The Waiting List”, 1994, “Freefalling”, 1996, “Shoot the Crow”, 1997, “Closing Time”, 2002, ou “Mojo Mickybo”, uma das suas obras de maior sucesso. 
A estreia da versão de Owen McCafferty acontece-se em Londres, em 2002, no Donmar Warehouse, numa produção de Sam Mendes, com encenação de Peter Gill, com interpretação de Anne-Marie Duff e Peter McDonald. No ano seguinte, Rachel Wood dirige uma versão off-Broadway de “Days of Wine and Roses”, com a Boomerang Theatre Company. É esta versão que surge agora no palco dos Artistas Unidos, numa encenação de Jorge Silva Melo, com cenário e figurinos de Rita Lopes Alves. Excelente texto, excelente espectáculo, com magníficas interpretações de Maria João Falcão e Rúben Gomes. 
Donal e Dona conhecem-se no aeroporto de Belfast. Ambos são jovens e partem para Londres, um em busca de um emprego prometido nas empresas de apostas de cavalos, ela à procura da novidade das luzes da grande cidade. Começam a trocar palavras e acabam trocando uma bebida. Dona nunca bebera, mas aceita um drink. Já em Londres, bebem socialmente e lentamente resvalam para o alcoolismo, a degradação pessoal. Casados e pais de um filho, procuram recuperar, mas afundam-se a cada nova tentativa. Ele frequenta os “Alcoólicos Anónimos”, ela anda de bar em bar e cai na prostituição. O facto da peça se concentrar nas duas personagens, acaba por intimizar o conflito, torná-lo menos uma consequência social e mais uma irreversibilidade pessoal. Ambos caminham para o abismo porque mais um copo ajuda-os a enfrentar a solidão, o desconforto, as asperezas da vida. Depois de um dia de trabalho, o casal troca brindes até adormecerem caídos no chão ou enrolados num sofá.
Maria João Falcão e Rúben Gomes iniciam o diálogo em Belfast, ainda a medo, mas vão ganhando fôlego à medida que a peça se desenvolve, gozando com pequenos aspectos da encenação, revertendo-os a favor das personagens, utilizando com argúcia os adereços, e os gestos mais anódinos (ela coloca um pé descalço sobre o pé descalço dele, por exemplo, numa carícia secreta que resulta magnificamente).
A encenação é quase imperceptível, o que neste caso é uma virtude, serve o texto e as situações, ergue figuras que permanecem para lá das duas horas do espectáculo. Com pequenos apontamentos que ajudam a criar o ambiente e a impor o desespero – uma porta que se abre sobre um quarto, de que se vislumbra apenas uma parte de uma cama com Dona deitada. O cenário é eficaz e sóbrio, bem servido por luz e som.

Dias de Vinho e Rosas (Days of Wine and Roses). Texto de Owen McCafferty. Tradução de Joana Frazão; Encenação: Jorge Silva Melo; Cenário e figurinos: Rita Lopes Alves; Luz: Pedro Domingos; Músico: Paulo Curado; Sonoplastia; Rui Rebelo; Imagens: Bartolomeu Cid dos Santos; Assistência: Vânia Rodrigues. No Teatro da Politécnica de 18 de Janeiro a 25 de Fevereiro de 2012.