Mostrar mensagens com a etiqueta Critica de cinema. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Critica de cinema. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, agosto 03, 2009

CRITICA EM CRISE OU EM MUDANÇA?

The Critic, de Arthur Dove
Críticos em extinção?

Levantamento do jornal "The Salt Lake Tribune" indica que ao menos 55 críticos de cinema foram demitidos ou mudaram de área na imprensa americana desde 2006. O dado, citado em reportagem na edição dominical do New York Times, ilumina um aspecto da crise que afeta os jornais americanos e, em particular, ajuda a compreender uma mudança significativa que vem ocorrendo na relação de Hollywood com a imprensa.

O New York Times dedica-se a tentar entender a perda de importância dos jornais ― e o crescimento da influência dos blogs ― no processo de divulgação dos filmes pelos grandes estúdios. O sinal mais aparente deste fenômeno ― importante pelo volume de recursos que Hollywood movimenta em marketing ― é que os jornais contribuem cada vez menos com aquelas publicidades repletas de frases retiradas de críticas. Uma das mais antigas ferramentas de marketing de um filme, a citação tirada de uma crítica de cinema (coisas como "eletrizante" "imperdível", "muito engraçado", "ri do início ao fim") já foi motivo de muita polêmica. Há alguns anos, descobriu-se que um estúdio, a Sony, havia publicado um anúncio com uma frase inventada, dita por um crítico que não existia. Também é comum tirar palavras ou frases de contexto, mudando o sentido do que o crítico quis dizer para realçar qualidades inexistentes de um filme. O que inquieta o New York Times agora é o fato de que os grandes estúdios de Hollywood preferem recorrer a críticas publicadas em blogs do que em jornais. Escreve o diário: "Os seis grandes estúdios gostam de ir à internet em busca de frases para usar em publicidade porque há uma variedade muito grande de sites de onde tirar a palavra ou a frase certa. Alguns sites, é claro, são sérios. Outros, incluindo sites como Ain't It Cool News, não fazem segredo do seu olhar de 'animador de torcida' em relação a alguns gêneros de filmes". Em outras palavras, raciocina o New York Times, os estúdios preferem recorrer a sites e blogs porque eles tratam os filmes de forma mais generosa e complacente que os jornais. O grande diário americano está, evidentemente, fazendo uma generalização injusta, já que há também muitos críticos em jornais que funcionam mais como "animadores de torcida" do que, propriamente, como analistas sérios e isentos. Em todo caso, dois entrevistados do jornal reforçam a tendência de recorrer a sites e blogs no lugar dos jornais na leitura das críticas de cinema. Um vice-presidente da Universal, Michael Moss, diz ao jornal: "Alguns dos melhores críticos de cinema e a maioria das boas críticas são encontradas on-line". Já Mike Vollman, presidente de marketing da MGM e United Artists, afirma que vai preferir se basear mais em blogs do que na revista Time para promover o remake do filme Fama. "A realidade, e lamento dizer isso para você, é que os jovens que vão ao cinema são mais influenciáveis por um blog do que por um crítico de jornal". A reportagem, em resumo, confirma as previsões mais pessimistas dos que enxergam na revolução promovida pela nova mídia um sinal de empobrecimento e decadência cultural. Ainda assim, o próprio New York Times reconhece que há sites "sérios", publicando textos sobre cinema com o mesmo grau de rigor que os jornais ditos de prestígio.

E o Brasil? ― algum leitor perguntará. O problema, ainda que em grau menor, até porque a indústria de cinema nacional é minúscula comparada a Hollywood, já aparece por aqui. Ainda estamos, pelo que observo, numa etapa anterior. Há um crescimento impressionante de sites e blogs dedicados ao cinema, mas o mercado ainda observa com desconfiança, procurando entender ― e separar o joio do trigo de toda essa movimentação. Em todo caso, é possível observar que alguns produtores já utilizam frases retiradas de sites e blogs para divulgação de seus filmes.


Nota do Editor: Texto gentilmente cedido pelo autor.
Originalmente publicado no blog de Mauricio Stycer, que integra o portal iG, em 08 de junho de 2009.
Mauricio Stycer São Paulo, 22/6/2009.
Transcrito do site Digestivo.com.br. Mantida a grafia de português do Brasil.

sexta-feira, junho 19, 2009

PEDRO RUELLA RAMOS

:
DIRECTOR DO "DIÁRIO DE LISBOA"
Morreu António Pedro Ruella Ramos. Contava 70 anos. Nascido em 1938, Ruella Ramos era actualmente administrador da gráfica Lisgráfica, mas ficou mais conhecido por ter sido director do extinto "Diário de Lisboa", propriedade da sua família. O "Diário de Lisboa" saiu para as bancas pela primeira vez a 21 de Abril de 1921 e acabou a 30 de Novembro de 1990, sendo considerado um jornal de referência durante sete décadas, cobrindo assim uma parte importante da História de Portugal e do Mundo do século XX. Francisco Manso foi um dos seus directores, a que se seguiu Norberto Lopes até 1967, e Ruella Ramos depois.
Tive o privilégio de ter sido colaborador do "Diário de Lisboa" durante o período áureo da sua publicação. Durante a ditadura. Entrei em 1968, com o Eduardo Prado Coelho, ambos como críticos diários de cinema, actividade que até aí era desconhecido nos jornais portugueses. Antes disso havia alguns velhos jornalistas que iam de sala em sala de cinema recolher os programas impressos, onde se podia ler uma ficha técnica reduzida e uma sinopse do filme em estreia,, e depois remendavam textos laudatórios que apareciam no dia seguinte. Não havia filmes maus.
As nossas críticas levantaram desde cedo protestos nos empresários, mal habituados a opinião livre. A Cineasso, que agrupava várias salas de cinema de Lisboa, escreveu à direcção do jornal, informando que cortava toda a publicidade “enquanto se mantivessem esses críticos em actividade”. O jornal, em lugar de se encolher e de fazer o jogo do capital e da censura, escarranchou a carta na primeira página da edição seguinte, e a censura oficial deixou passar. De um dia para o outro, os críticos de cinema do DL e o jornal foram arvorados em heróis nacionais, defensores da liberdade de impressa. Durante cerca de quinze dias choveram cartas, telegramas, telefonemas, artigos em defesa dessa liberdade que não existia em Portugal. O DL foi publicando na primeira página esses testemunhos e Ruella Ramos aguentou firme na defensa de um direito tão vilipendiado no nosso país durante a vigência do Estado Novo, e defendendo igualmente a integridade de opinião de dois jovens recem chegados a estas lides.
Durante cerca de oito anos permaneci por ali. Atravessei o 25 de Abril e, em pleno "período revolucionário em curso", como continuei a defender algum cinema americano, começaram a aparecer na redacção do DL cartas, mais ou menos anónimas, a acusarem-me de reaccionário (cá fora, o MRPP acusava-me, no jornal do partido, de ser “social fascista”, isto é comunista!). Eu que sempre lutara pela liberdade de expressão, comecei a achar o ambiente um pouco opressivo e saí. Fui para o “Diário de Noticias”. Mas anos depois, o Mário Mesquita tentou reabilitar o saudoso DL e convidou-me para voltar a assinar críticas nesse regresso não muito bem sucedido. Mas foi uma aventura inesquecível e uma honra ter estado ao lado de um grupo de jornalistas e de colaboradores hoje em dia impensável de reunir num mesmo jornal.
Ruella Ramos (e Lopes do Sotto, o homem das massas, a quem um dia eu e o Eduardo pedimos uma reunião para reivindicar aumento de salário – estávamos a receber 2,50 escudos por crónica, saímos da reunião a receber 5 escudos!!) foi um bom patrão e um bom estimulo. O jornal tinha a sua marca e o espírito dos que nele colaboravam.
Saudades de si, Pedro Ruella Ramos!
Mas, mais dia menos dias, tem junto de si a mesma equipa e pode já ir pensando num “Diário do Céu”. Se não tiver critico para os filmes projectados nas nuvens, conte comigo, mas vá guardando o lugar o mais tempo que possa. Não se apresse comigo. Um abraço amigo.