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sábado, julho 05, 2008

NO BRASIL, II

NO RIO, NA CINELÂNDIA
No Rio de Janeiro, a Cinelândia é um mundo. Um fascinante mundo com passado. Foi durante muitas décadas o centro nevrálgico da cidade, com teatros, cinemas, hotéis, cafés, restaurantes, comércio do mais fino e alguns edifícios institucionais. Cinelândia não é nome oficial, é cognome, mas toda a gente conhece o local por esse epíteto. Trata-se de uma zona central do Rio, que tem na base a bela Praça Floriano, e que engloba, segundo os roteiros turísticos, a área que vai desde a Avenida Rio Branco até a Rua Senador Dantas, e da Evaristo da Veiga até a Praça Mahatma Gandhi. Antigamente, no século XVIII, existia por ali o Convento da Ajuda, demolido no início do século XX. Ainda permanecem, lá no alto, resto de um convento de Santo António.

Foi nos anos 30 desse século que se pensou criar no Rio uma zona de lazer que fizesse concorrência à celebrada Times Square nova-iorquina. O mentor desta ideia foi um espanhol a viver no Brasil, Francisco Serrador, que aproveitou o nobilitado espaço da Praça Floriano, rodeado por edifícios magníficos, de estilos variegados, mas todos eles de sumptuosa inspiração. Há os ecléticos, como o Theatro Municipal, o Museu Nacional de Belas Artes, o antigo Supremo Tribunal Federal (actualmente Centro Cultural da Justiça Federal) e a Câmara de Vereadores. Há os Neoclássicos, como a Biblioteca Nacional. Há os de Art Noveau e Art Deco, bem representados pelos edifícios Wolfgang Amadeus Mozart (conhecido como o “Amarelinho” e que, no rés-do-chão, tem uma conhecida cervejaria, ao lado de outras de cores diferentes, a “Vermelhinha” e a “Verdinha”) e o Odéon, agora cinema e café. Mas o idealizador do espaço não fica incógnito e possuiu igualmente nesta área um originalíssimo edifício circular construído em 1944, que ostenta o seu nome, Francisco Serrador.
No centro da Praça, vê-se o monumento erigido em homenagem ao Marechal Floriano, inaugurado em 1910. Por isso, manifestações políticas e culturais nunca trocaram esta praça por nenhuma outra. Aqui se cristalizou grande parte da História do Brasil. Numa das ruas laterais, de nome Luís de Camões, pode ver-se o Real Gabinete Português de Leitura.
Um dos edifícios que recordam a opulência majestática dos tempos do Império, o Centro Cultural da Justiça Federal é um espaço agora dedicado ao turismo e ao lazer, com exposições de grande qualidade, tendo ao lado outros prédios igualmente dedicados a exposições. Andando pelas ruas da Cinelândia, com a Eduarda, e com a amiga Ida Rebelo a fazer de cicerone, descobri uma curiosa exposição sobre a “a descoberta do Brasil” em 1958, quando ganhou o campeonato do mundo, na Suécia. Pelé era a descoberta, mas muitos preferiram Garrincha. E não esquecem o Vavá que cá pelo burgo até deu nome a café, ainda hoje de tertúlias. Mas a exposição aposta na fotografia e no vídeo, e vai apresentando o tema, escadaria acima, com fotografias recortadas dos génios da bola. Não resisti a um encontro mais aproximado. Também por aqueles lados a exposição de uma artista plástico que trabalha com restos de lixo, cartão, papel, lata, materiais deste jaez, que encontra em buscas pelas ruas e depósitos. É dele a favela que servia de genérico a uma telenovela brasileira que agora terminou na Sic, “Duas Faces”. O seu trabalho reabilita o desperdício e os resíduos, apresenta uma originalidade pura, uma ternura certa, uma ironia que rodeia os mais desprotegidos e os acarinha. Vale a pena ver.
Depois, antes de ir ao velho teatro Rival, agora adaptado a café concerto, por onde passa o melhor da MPB, ouvir o Grupo “Mulheres de Hollanda”, homenagear o grande Chico Buarque, entrámos do também modernizado Odéon, onde no ecrã passa o filme sobre o mundial de 58 (os brasileiros em termos de futebol vivem agora do passado: enquanto lá estive perderam com a Venezuela, a Colômbia e empataram com a Argentina, em jogos péssimos!) e na esquina se encontra um simpático e acolhedor café, muito parisiense. A Ida pediu para fotografar parcialmente o cardápio escrito na louça. E aproveitar para captar uma recordação do encontro.
Mas, fabulosa, inigualável, sem palavras para ser descrita é a “Confeitaria Colombo”, na rua Gonçalves Dias. Ainda dizem mal dos comerciantes. Há alguns com indiscutível alma de artista. Os portugueses Joaquim Borges de Meireles e Manuel José Lebrão, que mandaram construir este espaço no ano de 1894, obedecendo ao estilo da “belle époque”, e hoje “tombado” Património Histórico e Artístico do Estado do Rio de Janeiro, são exemplos perfeitos de comerciantes exigentes que apostaram no melhor e por isso ainda hoje são lembrados. O edifício é espantoso. A folhinha que o “maître” me disponibiliza face ao meu entusiasmo, afirma que “a decoração art nouveau de 1913, os amplos salões com descomunais espelhos belgas, as molduras e vitrinas em madeira de jacarandá, as bancadas de mármore italiano e o mobiliário compõem um ambiente de “sofisticada beleza”. Verdade. Compreende-se que príncipes e aristocratas, políticos e intelectuais, escritores, poetas, músicos, artistas plásticos por ali se tenham perdido ou encontrado em tardes e noites de tertúlias admiravelmente emolduradas pelo brilho e a luz dos candeeiros e o resplandecer dos espelhos. Quando se entra, e não se é um cliente já habitual da casa, a entrada é de patego a olhar em redor de si. Fiquei numa mesa no centro, junto da coxia por onde entravam os clientes, muitos turistas. O olhar era maravilhado, quando o empregado, de negro vestido, lhes estendia a carta para escolherem o que queriam tomar e os conduzia ao lugar estabelecido. As pessoas avançam intimidadas, receosas, penetram num mundo de que desconheciam a existência. Parecem recear que tudo lhes tombe na cabeça. A um canto um pianista toca. Sucessos românticos. Idosas de uma abastada burguesia, solicitam com um gesto e um sussurro, um tema especial que lhes recorde que ainda estão vivas. Sorriem agradecidas. Os empregados de camisa branca e de aventais laranja cirandam entre as mesas, trazem-nos um chá magnífico e exemplares sortidos de pastelaria fina. Os aventais são laranja e nas vitrinas das portas, varias fotografias da recente visita do nosso Presidente Cavaco Silva. Um olhar sorridente e satisfeito. As mesas são de tampo de mármore e as cadeiras de madeira com as costas de palhinha. Tudo impecável. Pela sala enorme, um pouco de tudo. Dos veteranos aos neófitos. Velhinhas amparadas por vetustas empregadas ou familiares, casais de namorados, grupos de jovens de sorrisos abertos, administrativos a sair do emprego, artistas sempre, escritores, estudantes, jovens leitores – a minha frente um lê “Os favoritos da Fortuna”, de Colleen McCullough. Lê e por vezes olha em redor, saboreando a leitura e o ambiente. Pensa cruzar-se com Olavo Bilac. Não lê definitivamente “A Balada do Café Triste”, de Carson McCullers, apesar da atmosfera ter o seu quê de decadentista.
Na rua, os milhões que habitam o Rio, no cair da noite, avançam como formigueiro para as suas casas. Numa televisão do “verdinho” a Itália batia a França. No intervalo, os golos sofridos por Portugal da Suiça. Chove, uma aragem húmida que cai do céu. Ninguém usa chapéu-de-chuva. Estamos no Rio. De Janeiro. Que continua lindo. Apaixonei-me pela cidade na primeira vez que bordeei, ao fim da tarde, a lagoa Rodrigues de Freitas. Tinha acabado de descer do avião, em 1981, e o táxi conduzia-me a mim (e ao Fonseca e Costa) para o hotel. Havia uma Semana de Cinema Português com filmes nossos que íamos apresentar. No Rio, em São Paulo, em Brasília. Fiquei no Rio. Fico no Rio. Para sempre.

sábado, junho 28, 2008

NO BRASIL, I


SANTIAGO, de João Moreira Salles

Na última noite do festival de Goiás, durante o jantar no “Da Vinci”, perguntei a Jean Claude Bernardet, um dos mais lendários críticos e realizadores brasileiros, e a Lizandro Nogueira, consultor do FICA, quais os filmes brasileiros, recentemente estreados, que valia a pena ver, nos dias que iria passar no Rio. Ambos concordaram em dois títulos: “Jogo de Cena”, de Eduardo Coutinho, e “Santiago”, de João Moreira Salles.
Quando cheguei ao Rio e consultei o roteiro dos cinemas, só estava em exibição “Santiago”, que me apressei a ir ver. Por um capricho da sorte, estava em exibição no auditório da Instituto Moreira Salles, na Gávea. Só à saída da exibição do filme percebi quanto importante era este facto.
Para compreender o filme é preciso enquadrá-lo. Por exemplo: João Moreira Salles é irmão de Walter Salles, Jr. (autor de “Central do Brasil”, por exemplo), Pedro Moreira Salles (actual presidente do Unibanco), e ainda de Fernando Moreira Salles, o mais velho do grupo (editor e ultimamente também cineasta - tem para estreia nos ecrãs do Brasil uma nova longa metragem). Todos são filhos de Walther Moreira Salles, importante empresário, banqueiro e diplomata brasileiro, que foi ministro da Fazenda do Brasil, no governo João Goulart e fundou em 1975 um dos maiores conglomerados financeiros, que passou a chamar-se Unibanco. Mas foi sobretudo como embaixador que se notabilizou, duas vezes em Washington, na década de 1950, onde ganhou a admiração do presidente Juscelino Kubitschek, tendo sido um dos negociadores da dívida externa brasileira, em três ocasiões, nos governos de Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e Jânio Quadros. Falecido em 2001, tinha antes criado o Instituto Moreira Salles, uma entidade de assistência à cultura do país. Vivia na casa da Gávea, onde hoje está instalado o Instituto com o seu nome. Foi nessa casa apalaçada que viveram Fernando, Pedro, Walter e João, todos servidos por um mordomo argentino de nome Santiago Badariotti Merlo, homem de uma vivência riquíssima, um verdadeiro aristocrata pelos gostos, pela cultura, pela ambição de estilo de vida, pela sensibilidade.
Durante mais de 50 anos foi escrevendo 30.000 páginas de biografias das grandes famílias aristocratas, desde a Antiguidade Clássica até à actualidade. Páginas que coleccionava religiosamente num armário, agrupadas por temas e devidamente atadas por delicadas fitas. Olhava-as e dizia com um misto de comoção e algum fascínio, “Todos mortos!”
Santiago, mordomo, vivia mergulhado num mundo de sonho, por entre reis e imperadores, opulência e elegância, ia à ópera e ouvia música clássica (vestia smoking em casa para tocar Beethoven ao piano), frequentava exposições, conhecia a melhor literatura, cantava e tocava castanholas nas noites mais calmas do adormecido casarão e tinha o cinema como obsessão e Fred Astaire como figura máxima. Não é de estranhar que João Moreira Salles, e demais ninhada do senhor embaixador, tivesse uma admiração indisfarçável pelo mordomo que os viu crescer. Por isso se compreende também que João, sobretudo ele, o mais documentarista, se tenha lembrado de Santiago, em 1992, para sobre ele fazer um filme. Entrevistou-o, já não na Gávea, mas no pequeno apartamento para onde se mudara quando reformado e, durante cinco dias, recolheu nove horas de depoimento, que deixou adormecer em latas, até que descobriu o que fazer com ele. Muitos anos depois. As entrevistas tinham sido conduzidas por uma amiga, o fotógrafo tinha sido um mestre brasileiro, Walter Carvalho, e a voz off era a do irmão Fernando. Santiago estava perto de completar 80 anos, era frágil e dócil, deixando-se levar pelo antigo patrão (e actual realizador: como são parecidas certas funções!) que lhe perguntava o que queria e o orientava na forma de responder, de colocar a cabeça, de estender as mãos, de desenhar gestos no espaço. Num plano de conjunto, sempre rodeado dos seus objectos, na cozinha, na sala, sentado, em pé, quase sempre de corpo inteiro, a uma distância significativa da câmara, esta junto ao chão a relembrar Ozu, nunca a proximidade do grande plano, do rosto, mas quase sempre o plano de conjunto, Santiago fazendo parte de um cenário, um corpo inteiro, a recuperação de uma memória de menino. João Salles julgava estar a fazer um filme sobre Santiago, seu mordomo, mas estava a fazer um filme sobre ele, João, e a sua relação com Santiago, o mordomo. Só percebeu isso muitos anos depois e então abriu as caixas e regressou ao filme, acabando-o segundo um novo projecto. “Até hoje, foi o único filme que comecei e não terminei”, disse João Salles. Com o apoio dos montadores Eduardo Escorel (um dos mais criativos do Brasil) e Lívia Serpa reorganizou o material, e apresentou-nos uma obra-prima do moderno documentarismo.
Um filme sobre o fascínio de um mordomo pela aristocracia, um filme sobre o deslumbramento de um aristocrata pelo seu mordomo. Um filme de apaziguamento social, de demonstração de como se podem conciliar as classes? Afinal nada disso. João Moreira Salles dá-se conta de que filma o mordomo à distância, que o trata como seu empregado, e isso a câmara regista e disso fala o filme de forma muito discreta, secreta, insidiosa. Tão discreta que o realizador só dá por ela treze anos depois, e resolve tornar visível o invisível, tornar significativo o (aparentemente) insignificante. É o próprio realizador quem o confirma: “Não tinha a noção de que, na verdade, não fiz um filme sobre Santiago, mas sobre a minha relação com ele. Não havia ali uma relação de documentarista e de documentado. Havia uma relação de patrão e mordomo, de, em última instância, chefe e criado. (…) Nas entrevistas, não queria ouvir o que Santiago tinha a me dizer. Queria que ele dissesse o que eu queria ouvir, que ele se parecesse com o Santiago da minha infância, com o meu Santiago. Daí as ordens, os planos repetidos. Essa relação de patrão e empregado é também uma alegoria do que acontece em todo filme, entre o documentarista e o seu objecto. É preciso ter consciência disso, mesmo quando se filma o presidente, a palavra final sempre será de quem está com a câmara na mão.”
O filme transforma-se assim num ensaio sobre a relação de forças, entre chefe e criado, ao mesmo tempo que o é igualmente entre cineasta e intérprete. João Moreira Salles “encena” o seu intérprete, explica-lhe o que pode e não pode fazer (vai ao ponto de Santiago, obviamente homossexual, ir confessar a sua “maldição” e de o realizador, por interposta voz, negar-lhe a palavra, “Isso não Santiago, agora não, isso não interessa!”). Se o realizador não expusesse a metodologia, o filme seria eticamente reprovável. Expondo-a, torna-o um documento sobre a ética do olhar e do filmar.
Mas há muito mais a celebrar neste belíssimo filme, de uma austeridade rigorosa, rodado num preto e branco macerado, interrompido por uma ou outra sequência a cores que o transfiguram. Imagens de felicidade, em família, João, irmãos, pai e mãe na piscina da casa, “home vídeo” dos anos 50, mais adiante uma sequência de um bailado de Fred Astaire e Cyd Charisse, em "A Roda da Fortuna", onde um passeio em Central Park evolui tão naturalmente para a dança como se de um passe de magia se tratasse. Momentos de felicidade e plenitude, de um passado que é somente recordação, mas que o cineasta trata com uma mestria perfeita.
Assim evoluiu o filme, por entre registos sincopados, intercalados por “negros”, durante os quais se ouvem unicamente vozes off, marcado por avanços e retrocessos, por repetições, numa toada que nunca abandona a interrogação, colocando continuamente questões ao espectador e aos próprios responsáveis pelas filmagens. Ao próprio cinema. Um filme que avança, questionando-se, que se distancia do que foca, mesmo quando, como nas imagens iniciais, a câmara se vai aproximando de fotografias de Santiago, iniciando um “outro filme”, que logo se suspende para principiar um outro, que afinal é o mesmo, questionando-se a si mesmo. "Reflexão sobre o material bruto", afirma o cineasta, mas também reflexão sobre o acto de filmar, o acto de montar, o acto de mostrar ou ocultar, o acto de ver o tempo passar (“Se 13 anos se passam, você tem de incorporar a passagem do tempo. Na verdade, o que deu liga para o filme foram os 13 anos que ele ficou parado. Estranho seria se eu fizesse o mesmo filme que queria realizar em 1992. O que mudou no tempo? Mudei eu.”).
Há durante o filme uma outra frase que explica algo do processo criativo desta obra que mostra o outro lado da criação, em cinema, o que fica não dito, não visto, num filme tradicional. ), É uma citação de Werner Herzog: "O mais bonito é o que acontece depois do plano terminar". Quer dizer, o mais bonito é o não visto, o não mostrado, o não ouvido. João Moreira Salles procura ultrapassar o obstáculo, e mostrar algo do que é uso cortar antes do público ter acesso à obra. As hesitações, as repetições, a insatisfação, a insegurança (ficou bem?), o silêncio, os gestos imperfeitos.
Ao sair da sala de projecção, descobrimos que estamos no interior da casa onde tudo se passou, e a magia é completa, o circulo fecha-se, ouve-se Santiago passar e Beethoven ao longe, olham-se as exposições abertas ao público (“A Bahia de Jorge Amado”, magnifica) e sentem-se os fantasmas nos corredores, as castanholas e os gestos, a “maldição” a sobrevoar os espaços, a chegada dos embaixadores, as grandes noites de recepção, e, à beira da piscina, as gargalhadas dos miúdos, o sorriso da mãe, os braços fortes do pai… a memória de Fred Astaire dando a mão a Cyd Charice e ambos a voarem, planando sobre Central Park. Naquele tempo, tudo era perfeito, até ao dia que o Paraíso se perdeu, porque o homem começou a pensar.