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quarta-feira, janeiro 14, 2009

CINEMA: CONTRATO

CONTRATO
Confesso que fui para a antestreia com receio. Julgo que Nicolau Breyner é presentemente um dos melhores actores portugueses, o que tem demonstrado ao longo de vários filmes, muitos dos quais quase só valem pelo seu trabalho. Depois, Nicolau Breyner é um amigo e não gostaria de ter de fugir escada abaixo do S. Jorge logo que a palavra Fim se projectasse, para não ter de ser sincero com a personagem em causa. Quando não gosto, não gosto, seja amigo ou desconhecido. E aos amigos sobretudo não se pode mentir. Por isso às vezes o melhor mesmo é a piedosa fuga à realidade dos factos. Neste caso não foi preciso e fiquei com gosto até final para lhe dar um abraço de parabéns. “Contrato”, a sua estreia na realização, é um filme bastante interessante, e julgo que um dos melhores filmes abertamente comerciais que vi nos últimos anos saído dos estúdios portugueses.
"Contrato" é a adaptação de "Requiem para D.Quixote", policial de Dennis McShade (pseudónimo de Dinis Machado), segundo versão de Pedro Bandeira Freire, com argumento assinado por Álvaro Romão e Nicolau Breyner. Não será bem “policial”, mas “filme negro”, já que se trata de um ajuste de contas entre mafiosos do sub mundo do crime. Nada de muito intelectual, deliberadamente: um assassino profissional é contratado para matar um tal Giorgio Thanatos que gosta de arte e vive por vezes em Portugal (Sintra, mais precisamente). Nenhuma mensagem sub-reptícia, nenhuma denúncia de corrupção na polícia, na política ou nos clubes de futebol. Apenas acção: fulano de tal quer matar sicrano, por dinheiro, leva uma coça que o põe entre a vida e a morte nos braços de uma bela enfermeira, por quem se apaixona. Mas contrato é para se cumprir até ao fim. O que tenta fazer, para logo a seguir se embrenhar noutro contrato que Lourenço julga ser o derradeiro da sua vida. Lourenço teve uma infância difícil e passou as passas do Algarve na guerra. Nada mais. Este lado de filme sem pretensões de salvar o mundo, é simpático. Não engana. É o que é à vista desarmada. Claro que qualquer série “nobre” americana é melhor, tem outros meios, outras ambições. Mas até aqui “Contrato” se safa bem, dentro de género de filme de acção. Pobrezinha, mas honrada, o que faz, faz bem. A realização é escorreita, não inventa onde não tem de inventar, e consegue mesmo alguns excelentes momentos, quando tem actores pela frente. Há meia dúzia de cenas brilhantes, das melhores do cinema português, que deixam boas perspectivas para o Nicolau Breyner realizador: A cena com José Wallenstein, o travesti Sonny, é notável como representação e como realização, o mesmo se passando com Nicolau Breyner a dirigir Nicolau Breyner, numa demonstração plena de como se compõe uma personagem partindo do nada e dando-lhe uma autenticidade e densidade humana notáveis. Vítor Norte, José Raposo, Adelaide João são igualmente muito bons nos seus apontamentos, e sempre que aparecem actores o filme sobe e ganha uma força de tragédia humana invulgar neste tipo de filmes. Os miúdos que aparecem no filme são igualmente notáveis. Depois aparecem as fragilidades: um filme um pouco a mata cavalos com alguém a explicar o que ainda não se sabia, e alguns intérpretes (quase todos modelos) sem a consistência necessária. Pedro Lima, Cláudia Vieira e Sofia Aparício, por exemplo. Mas a estreante Cláudia Vieira é uma figura não só sensual, mas também simpática, integrando-se bem no lado despreconceituoso do filme.
O abraço de parabéns que dei no final a Nicolau Breyner foi sincero e gostoso. Esperemos por mais e melhor. Iniciar uma carreira aos 68 anos promete.

CONTRATO
Título original: Contrato
Realização: Nicolau Breyner (Portugal, 2009); Argumento: Pedro Bandeira-Freire, Álvaro Romão, Nicolau Breyner, segundo romance de Dinis Machado ("Requiem para D.Quixote", sob pseudónimo de Dennis McShade); Produção: Isabel Chaves; Fotografia (cor): José António Loureiro; Montagem: João Braz; Música: Elvis Veguinha, José Manuel Afonso; Decoração: Pedro Sá; Guarda-roupa: Joana Rodrigues; Assistente de realização: César Fernandes; Som: Quintino Bastos, Branko Neskov; Companhia de produção: Hora Mágica, TVI.
Intérpretes: Pedro Lima (Lourenço), Cláudia Vieira, Sofia Aparício, José Boavida, Nicolau Breyner (Giorgios Thanatos), Maria Dias, George Felner, Pedro Granger, Adelaide João, Joaquim Nicolau (Dr. Machado), Vítor Norte, Tiago Teotónio Pereira (António), José Raposo (o careca), José Wallenstein (Sonny), etc.
Duração: 100 minutos; Data de estreia: 15 de Janeiro de 2009 (Portugal); Classificação etária: M/ 12 anos; Distribuição: Hora Mágica.

sexta-feira, dezembro 12, 2008

EXPOSIÇÃO NO MUSEU DA IMPRENSA

EXPOSIÇÃO DA IMPRENSA
CINEMATOGRÁFICA PORTUGUESA
A convite de Luís Humberto, director do Museu da Imprensa, que há anos funciona (e bem!) ali para os lado do Freixo, no Porto, fui no passado dia 10 inaugurar uma Exposição da Imprensa Cinematográfica Portuguesa. O texto que então li, aqui fica como memória, mas sobretudo como homenagem a Manoel de Oliveira.
Não é por acaso que nos encontramos aqui hoje, a inaugurar uma exposição sobre a Imprensa Portuguesa de Cinema, neste Museu da Imprensa, na cidade do Porto. Claro que poderia ser por uma razão que tivesse a ver única e exclusivamente com a importância desta imprensa cinematográfica no contexto cultural português. Justificava-se por si só. Mas tudo leva a crer que inaugurar esta exposição um dia antes de Manuel de Oliveira completar cem anos, e dois dias antes dele ter sido registado na Conservatória quererá dizer alguma coisa. Obviamente que estamos na presença de uma homenagem ao mais conhecido, e reconhecido, cineasta português de toda a História do nosso cinema. A que gostosamente eu me associo, nestas curtas palavras que me solicitaram para dar por aberta ao público esta exposição.
O Cinema nasceu oficialmente em França em 1895. A 28 de Dezembro. Faz cento e treze anos daqui a poucos dias. A História do Cinema Português tem menos um ano, nasceu aqui, no Porto, quando Aurélio da Paz dos Reis filmou a saída da Fábrica Confiança, à semelhança do que um ano antes tinham feito os irmãos Lumière, na Fábrica Lumière. Oliveira não era ainda nascido, mas pouco faltava.
Curiosamente, em 1912, quando surge no Porto, a primeira revista de cinema de que se tem registo, a “Cine Revista”, dirigida por Lopes Teixeira, com edição de A. de Matos, Oliveira já deixara de gatinhar e possivelmente corria pelos corredores da casa dos pais com um carrinho de corridas de madeira, outra das suas paixões.
A história da Imprensa Cinematográfica Portuguesa não é particularmente brilhante e teve poucos momentos de certa importante. Curiosamente, ou não, a verdade é que sendo Portugal uma pequena cinematografia com muitos hiatos e raros períodos de florescimento, nada mais normal do que a sua imprensa especializada reflectir esse aspecto. Mas também se poderá ver o problema de forma inversa. Quase todos os países que tiveram e têm forte presença cinematográfica editaram grandes jornais, mas sobretudo revistas preponderantes, a promoverem essas cinematografias. Em França, “Cahiers du Cinema” e “Positif”, em Inglaterra “Sight and Sound”, em Itália, “Cinema Nuovo”, em Espanha, “Nuestro Cine” e “Primeiro Plano”, na América, “Variety” e tantas outras. Cada uma dessas revistas definiu-se como porta-voz de uma cinematografia de uma corrente estética, de um caminho que conheceu o triunfo, que se impôs e conseguiu impor cinematografias nacionais. Em Portugal nunca houve um revista que tenha conseguido furar o bloqueio exterior, que tenha ultrapassado fronteiras, que tenha ajudado a criar e a impor uma cinematografia. Fomos sempre mais dados a importar filmes estrangeiros e a publicitá-los bem nas nossas revistas, do que em fomentar uma indústria e uma arte e a exportá-la. Julgo que ambas as questões estão indissociavelmente ligadas: nunca houve imprensa forte porque nunca houve forte cinematografia; nunca houve cinematografia impositiva porque nunca existiu uma imprensa que a impusesse.
Mas houve alguns momentos em que os homens de cinema de certas épocas tentaram criar uma cinematografia e uma imprensa cinematográfica fortes e coesas, ambas a puxarem para o mesmo lado. Houve alturas ao longo da nossa história do cinema, em que se tentou ora criar uma indústria, ora impor uma cinematografia individualizada, personalizada e esteticamente distinta. Nessas alturas existiram revistas que procuram sublinhar esse aspecto e valorizá-lo junto dos seus criadores e técnicos, como junto do seu público. Na década de 20 do século passado, seria Manoel de Oliveira jovem e entusiástico espectadores de obras do mudo, que para sempre lhe marcaram a sensibilidade e o querer ser cineasta, no Porto, apareceu a Invicta Filmes que, com técnicos e artistas quase sempre importados de França e de Itália, tentou criar uma cinematografia portuguesa. O nosso “mudo” nunca foi particularmente excitante em termos artísticos, mas esta iniciativa marcou o seu tempo, Houve mesmo uma revista, que durou de 1923 a 1936, que se chamou “Invicta Cine”, que teve como directores sucessivamente Carlos Moreira e Roberto de Magalhães. Também no Porto, Rino Lupo, um dos estrangeirados que a Invicta acolheu, dirigiu “Arte Muda”, em 1928.
Em Lisboa, por essa época, multiplicando-se igualmente as tentativas: aparecia a primeira série de “Cinéfilo”, dirigida entre 1928 e 1939, por Avelino de Almeida, até 1932, e depois por Augusto Fraga. Seria um título a ter várias séries, e quase sempre com importante contributo, como iremos ver posteriormente. São ainda desse tempo, “Imagem”, de Chianca de Garcia, o inesquecível autor de “A Aldeia da Roupa Branca”, revista que iria de 1930 a 1935; “Kino”, uma primeira tentativa do talentoso António Lopes Ribeiro, que durou dois anos (1930-1931), “Cinema”, de Alberto Armando Pereira, outra vez no Porto). Andava Oliveira já na faina fluvial, apresentado “Douro”, a primeira obra que iria provocar polémica e hoje se pode considerar uma obra-prima indiscutível.
António Lopes Ribeiro, que desde cedo considerou, e muito, Oliveira, voltava à carga em 1933 com “Animatógrafo”, Fernando Fragosa tentava o “Cine Jornal”, entre 1935 e 40, Armando de Miranda lançava “O Espectáculo”, em 1937, e António Lopes Ribeiro voltava à carga com uma segunda série de “Animatógrafo”, iniciada em 1940 e prolongada até 1942, ano em que Manoel de Oliveira assinava a sua segunda obra-prima, um filme rodado no Porto, que prenunciava o neo-realismo, com catraios que brincavam ao “Aniki Bobo”.
“Filmagem” foi outra revista que teve influência certa na imprensa cinematográfica portuguesa. A segunda série surgiu entre 1943-44, dirigida por Raul Faria da Fonseca, a terceira foi de 1945 a 47, com direcção de A. Cardoso Lopes, que voltaria a orientá-la, numa quarta série, até 1948. Destas revistas todas só tomei conhecimento delas muitos anos depois em alfarrabistas. Ou então folheando um pequenino opúsculo que, anos mais tarde, o Henrique Alves Costa me ofereceu. Chamava-se “Breve História da Imprensa Cinematográfica Portuguesa”, edição do Cine Clube do Porto. Livrinho precioso.
Mas a partir dos anos 50, já eu comprava e guardava religiosamente algumas. A popular “Plateia”, que iniciou a publicação em 1951, foi dirigida inicialmente por Luís Miranda, depois António Feio e finalmente Baptista Rosa, sob a direcção do qual comecei a escrever textos e entrevistar personalidades. Atravessou décadas, numa segunda série que sobreviveu até meados dos anos 80. Mais exigente, era “Imagem”, que reunia gente dos cine clubes e da resistência, e que teve igualmente duas fases, uma de 50 a 53, sob direcção do mesmo Baptista Rosa, outra que duraria de 54 a 61. Revista popular, foi ainda “Estúdio”, impressa em rotogravura, que sobressaía pela tonalidade castanha e um certo alinhamento com a politica do Estado Novo. Durou de 1959 até 1975, então já sob direcção de Boavida Portugal.
Por estes anos, Oliveira rodava alguns belíssimos documentários, de “O Pintor e a Cidade”, ao “Pão”, culminando com um “Acto da Primavera” que se integrava numa nova geração de cineastas portugueses, aqueles que apareceram nos anos 60 e foram considerados a geração Gulbenkian, também chamada de “Cinema Novo Português”.
Nas revistas que apareceram a seguir, em muitas delas fui colaborando. No “Celulóide”, editada em Rio Maior, por Fernando Duarte, que organizava o Festival do Filme Agrícola de Santarém, e que estendeu a sua publicação mensal de 1957 a 1984. Em 1959, apareceu a “Filme”, dirigida pelo saudoso Luís de Pina, onde escrevi pela primeira vez um texto sobre Roger Corman, que nessa altura ninguém conhecia.
A actividade dos Cine Clubes era intensa e repercutia-se nas revistas: já referi a “Imagem”, mas há a assinalar várias outras, mais ou menos directamente ligadas ao movimento, como, por exemplo, “Cadernos de Cinema” (Universitário de Lisboa), “Plano” (dedicados a cinema e teatro) ou “Cine Clube” (Cine Clube do Porto).
De 1971, durando apenas três números, um dos quais dedicado a Manuel de Oliveira, é “Enquadramento”, a primeira das minhas tentativas (frustradas) para editar e manter um revista de cinema em Portugal. As outras foram “Isto é Espectáculo”, que teve oito números, entre 1976 e 77; “Isto é Cinema”, os primeiros 12 números da minha responsabilidade, e “Vídeo Som”, que apanhei em andamento e de que dirigi dezena e meia de números.
Entretanto, voltando atrás, entre 1973 e 74 surgiu uma nova série da revista “Cinéfilo”, desta feita com orientação editorial de Fernando Lopes. Teve um destacado papel no relançamento da geração de 60 e na consolidação da liberdade no pós-25 de Abril.
Por essa altura, Oliveira regressara em força, com “O Passado e o Presente”, “Benilde ou a Virgem Mãe”, “Amor de Perdição”, “Francisca”, etc. Conta-se que por essa altura sempre que apresentava um projecto e concorria a um subsídio, por exemplo através do Centro Português de Cinema, os realizadores mais novos perfilavam-se respeitosamente e comentavam entre si: “Deixem-no rodar mais este filme, está velhote, nunca se sabe…” Na verdade, nunca se sabe. Felizmente, depois desses rodou mais de três dezenas.
Voltando às revistas. Após 1974, não houve muitas, mas apareceram algumas muito curiosas. O Porto sempre a dar cartas: “Cinema Novo”, direcção de Mário Dorminsky, aparece em 1978, policopiada, estando na base do Fantasporto; “Cinema”, inicio em 1982, órgão da Federação Portuguesa de Cineclubes; “A Grande Ilusão”, outra vez o Porto, direcção de José Henrique de Barros, edição do Cine Clube do Norte; “Arte 7”, publicada em Lisboa por Manuel Costa e Silva, em 1991; “Senso - Revista de Estudos Fílmicos”, dirigida por Abílio Hernandez, uma edição da Sala de Estudos Cinematográficos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra; “Premiére”, uma versão portuguesa de uma revista internacional com edições em vários países, que, apesar das condições de que dispunha, encontrou alguma dificuldade e suspendeu a publicação no passado ano e agora retomou com nova orientação. Continua a ser dirigida por José Vieira Mendes. Entretanto, à média de um filme por ano, Oliveira vai construindo uma obra impar e a impor o nome de Portugal pelos cinco continentes.
Mudou, porém, completamente nos últimos anos o perfil das revistas de cinema.
O lado mais popular de algumas, que se ocupavam principalmente das vedetas, foi ocupado pelas revistas cor-de-rosa;
A dificuldade de conseguir um público que as mantenha continua a ser enorme, num país pequeno como o nosso, e com pouca apetência para revistas de cultura;
A concorrência da Internet, dos sites de cinema e dos blogues que proliferam, por vezes com excelentes comentários, reduz o campo de interesse dos potenciais leitores, que colhem lá fora notícias fresquinhas;
O cinema português, única realidade que poderia justificar uma revista de cinema em Portugal, para o discutir e o promover, quando tem interesse é muito elitista, quando é popular é pimba e o público que o vê, na sua generalidade, não quer saber de crítica, de história ou de ensaísmo cinematográfico. Quer consumir sem mais.
Logo, neste momento só vislumbro três hipóteses de subsistirem revistas de cinema em Portugal.
Uma é o exemplo da “Premiére”, uma “franchise” internacional que se destina essencialmente a veicular a predominante produção anglófona, ainda que seja de justiça referir que tem assegurado sempre páginas para a produção portuguesa;
A segunda é a existência de revistas de crítica e ensaísmo, que debatam, historiem, critiquem com uma profundidade incomportável na Internet, e destinadas obviamente a um público minoritário;
A terceira é a edição on line. Para dar um exemplo, em Portugal, nesta altura existe uma muito interessante, dirigida por José Soares, com o título “Take”, e o endereço
http://take.com.pt/.
Chegamos assim ao dia de hoje, 10 de Dezembro de 2008, neste Museu da Imprensa, na cidade do Porto, onde se inaugura esta Exposição de Imprensa Cinematográfica Portuguesa. Enquanto nós estamos aqui a recordar um pouco da História antiga, em Lisboa, um Senhor, à beira de completar cem anos, continua a filmar. “Singularidades de uma rapariga Loura”, segundo Eça de Queirós. Curiosamente uma novela que eu próprio tive contrato firmado com a RTP, em meados dos anos 80, para adaptar a telefilme, no interior de uma série chamada “Histórias de Mulheres” (que eram oito, de início, mas fui obrigado a reduzir a quatro, pois cada nova história me trazia um prejuízo de centenas de contas!).
Os que amam o cinema e os que amam a vida te saudamos daqui, do Porto, neste dia. Boa sorte, Oliveira, e parabéns.
Porto, Museu da Imprensa, pelas 16 horas do dia 10 de Dezembro de 2008
Fotos LA e MEC

segunda-feira, dezembro 08, 2008

CINEMA: "AMÁLIA"

AMÁLIA
“Amália”, de Carlos Coelho da Silva, coloca velhas questões. O cinema é arte e indústria, sempre. Tal como a literatura, a música, a pintura, o teatro, todas as formas de manifestação artística, comporta uma base industrial óbvia. Apenas nalguns casos, o factor artístico ultrapassa o lado industrial e comercial da questão. No caso de “Amália” esta dicotomia é gritante. Industrialmente este filme é um sucesso. Anunciado o projecto, programadas as filmagens, montado e sonorizado em tempo record, assume a estreia em 66 salas em Portugal no dia programado, tem prevista venda para diversos países. A produção é boa, a reconstituição formal dos espaços e do tempo em que decorreu a vida de Amália é cuidada, procura-se não haver anacronismos, o guarda-roupa respeita as épocas e as classes sociais, os adereços funcionam, os cenários estão certos. Parece que o orçamento foi o maior de sempre no cinema português. Dinheiro que procura multiplicar-se em vendas. Tudo certo segundo as regras do mercado. Nada a apontar.
Artisticamente o caso muda diametralmente de figura. “Amália” é, na minha opinião, um completo fracasso. Não há quase nada a sublinhar nesta obra sem respiração, sem fôlego, sem nervo, sem vibração. Dir-se-ia uma viagem por um (medíocre) museu de máscaras de cera (o que chega a ser aflitivo, nas sequencias de Amália em Nova Iorque). Mas se falamos em máscaras de cera não é só pela perturbante caracterização de algumas figuras (particularmente Amália), mas sobretudo porque o que vemos são manequins vestidos à época, sem qualquer densidade humana, sem nenhuma verdade. São títeres que evoluem, debitando um diálogo, movimentando-se, mas sem um sopro de existência plena. Uma vez ou outra o talento de alguns actores oferece um lampejo. Sandra Barata, na Amália na idade adulta, consegue defender bem a personagem (esqueça-se a Amália em Nova Iorque, de fugir! Não por culpa da actriz, diga-se). Carla Chambel não destoa em Celeste Rodrigues. Ricardo Carriço é um aceitável César Seabra. António Pedro Cerdeira é um bom Ricardo Espírito Santo. António Montez mostra que um actor é logo outra coisa. Maria João Abreu, Lourdes Norberto, Ana Padrão, Pedro Pinheiro não se pode dizer que vão mal, como alguns mais. Apenas lhes falta personagens.
Comecemos pelo argumento, assinado por Pedro Marta Santos e João Tordo. O que de melhor surge parece inspirado no musical “Amália”, de Filipe La Féria. Se os diálogos são fluentes e se ouvem bem, a estrutura da narrativa é de tal forma artificial e descosida que chega a irritar. A realização nada faz para a tornar plausível. Frenética, sincopada, não dando tréguas ao espectador, numa montagem com um ritmo vertiginoso transforma o filme em duas horas e meia de Le Mans. Nada é olhado com respeito, com atenção, com delicadeza. O resultado é uma estrutura de telenovela mexicana de terceira categoria, filmada com um olhar de abutre que não se cansa de espiar as personagens e os acontecimentos em picados de mau agoiro. Imensos planos são filmados de cima para baixo, sem qualquer tipo de intencionalidade. Faz-se assim, porque faz efeito, mostram que têm gruas e as utilizam. Os actores são os principais prejudicados com esta estética de maratona: não conseguem impor uma presença, não têm tempo para respirar, mal esboçam um gesto ou um olhar, corta e estamos já no plano seguinte.
De resto, este não é um filme que procure aprofundar nada. Apenas rentabilizar o nome de “Amália”. Vender bilhetes e cópias. Suporta-se porque há na banda sonora uns tantos fados cantados por Amália Rodrigues e vistos em “play back”. Mas o mito maior da música portuguesa merecia melhor sorte.

AMÁLIA
Título original: Amália
Realização: Carlos Coelho da Silva (Portugal, 2008); Argumento: Pedro Marta Santos, João Tordo; Produção: Manuel S. Fonseca, Ana Torres; Música (original): Nuno Malo (The Budapest Symphony Orchestra); Fotografia (cor): Carlos Santana; Direcção artística: Augusto Mayer; Maquilhagem: Aracelli Fuente; Direcção de produção : Gerardo Fernandes; Assistentes de realização: César Fernandes, Guilherme Pinto; Guarda-roupa: Silvia Meireles; Companhia produtora: VC Filmes;
Intérpretes: Sandra Barata (Amália), Carla Chambel (Celeste Rodrigues), Ricardo Carriço (César Seabra), José Fidalgo (Francisco da Cruz), António Pedro Cerdeira (Ricardo Espírito Santo), Ricardo Pereira (Eduardo Ricciardi), António Montez (Avô António), Maria João Abreu (Ercília Costa), Tina Barbosa, Adriano Carvalho (Sebastião Lima), Ana Marta Contente (Amália, jovem), Maria Emília Correia (Casimira), Beatriz Costa (Aninhas), Matilde Coelho da Silva (Detinha - 13 anos), Carla de Sá (Natália Correia), João Didelet (Ary dos Santos), Licinio França (Barman), Sofia Grilo (Mulher de Ricardo Espírito Santo), Philippe Leroux (Bruno Coquatrix), Eurico Lopes (Pai de Amália), Natália Luísa (Leonor), André Maia (Alain Oulman), Luís Mascarenhas (Martins), Susana Mendes (Filipina), Mariana Monteiro (Yoshabel), Miguel Monteiro (Jornalista RTP), Lourdes Norberto (Mãe de Ricciardi), Ana Padrão (Mãe de Amália), Carlos Pimenta (Rei Humberto), Pedro Pinheiro (Sr. Alfredo), Mário Redondo (Rui Valentim de Carvalho), Carla Salgueiro (Viscondessa Asseca), Janita Salomé (Alberto Janes), Carlos Sebastião (Médico), Leonor Seixas (Detinha), Jorge Sequerra (Agostinho Barbieri), Amélia Videira (Avó Amália), Carlos Vieira (Frederico Valério), etc.
Duração: 127 minutos; Distribuição em Portugal: Valentim de Carvalho - VC Multimedia; Classificação etária: M/12 anos; Data de estreia: 4 de Dezembro de 2008 (Portugal)

quarta-feira, novembro 05, 2008

MILÚ

Milú (Maria de Lurdes de Almeida Lemos)
(Lisboa, 24 de Abril de 1926 - cascais, 5 de Novembro de 2008)

Foi uma mulher lindíssima, uma actriz cujo talento chegava rápido ao público, uma personalidade encantadora. Hoje, no dia em que o seu corpo deixou de respirar, recordo-a a sentar-me aos seus pés, quando os meus pais a visitavam, tinha eu oito ou dez anos e ela era uma deslumbrante vedeta, uma "star" à proporção portuguesa, e eu a olhava com os olhos do encantamento mágico. Há um ano e uns meses, no São Luiz, foi homenageada e nessa altura escrevi umas palavras que agora recordo. Aqui. Como não deixarei de a recordar nunca, nem eu nem os portugueses que a continuarão a ver e ouvir nos filmes que a imortalizaram.

quarta-feira, janeiro 23, 2008

CINEMA: CRISTOVÃO COLOMBO- O ENIGMA

CRISTÓVÃO COLOMBO
- O ENIGMA
Quem vê com alguma abertura de olhar um filme como “Cristóvão Colombo – O Enigma” não pode deixar de ficar perplexo. Normalmente quando se olha ou ouve uma obra de arte a tendência é valorizá-la colocando-a em comparação com outras, idênticas. Eu julgo nunca ter visto um filme como este. É película e 24 imagens por segundo. Ok. Aí é igual a todo o filme que se projecta numa sala de cinema. Mas o paralelismo fica-se por ai. Se o colocarmos ao lado de uma obra de Hollywood, merece bola preta pela certa. Se o cotejarmos com as vanguardas mais actuais, nada a ver. Apetecer dizer uma enormidade: parece um filme de amador (“home vídeo”, dir-se-ia hoje), realizado por um autor genial, na época do mudo, mas com som. Só paradoxos inconciliáveis. É verdade. No espaço de minutos, oscilamos entre uma interpretação que, pelos modelos actuais, é catastrófica, e um plano cuja composição e respiração tem de ser de inspiração divina, seja o que for a divindade. Tudo isto feito por um homem com 98 anos (sim, a idade tem importância, não há nenhuma dúvida de que a idade tem a sua importância na devida apreciação e usufruto pessoal do espectador desta obra).
Este não é um filme realista, é um dos filmes mais evanescentes que já vi. É um filme de fantasmas. Fantasmas que perseguem fantasmas, e falamos aqui de fantasmas enquanto almas, espíritos, corpos que interiorizam e guardam forças estranhas, ânimos e indizíveis energias. Fala-se muito de uma segunda infância quando se ultrapassa a maturidade e se entra numa outra dimensão que é a velhice ou a sabedoria. “Cristóvão Colombo – o Enigma” tem a alegria e a inconsciência de uma criança que brinca enquanto aprende alguma coisa sobre um tal Cristóvão Colombo que uns quantos dizem ser genovês e alguns afirmam português, nascido em Cuba, Alentejo, e ter dai partido para o mundo e para a descoberta da América. Numa altura em que Portugal e a Espanha dividiam o mundo entre si: uma parte para mim, outra para ti, coisa de crianças também.
Não, não se pode gostar ou não gostar deste filme com base no argumento, nos diálogos, na interpretação, até (por vezes) na iluminação ou naqueles artifícios de narração a que estamos habituados. Este filme participa de um outro registo. Não se gosta ou não. Ama-se ou não se ama. Eu amei. Há muito que não me enternecia tanto vendo um filme. Já vi majestosas obras-primas e chorei de prazer. Não é raro chorar de tanta beleza à nossa frente. No caso do filme de Oliveira, a lágrima desponta por outras razões. Ou sem-razões, sei lá. É lindo (não outra palavra: é lindo) ver Oliveira e a mulher passear por Nova Iorque em busca de Colom, desbobinando diálogos de manual de História, mas com um olhar de princípio do mundo que desarma a alma mais empedernida. “Oh Manuel (ou será: Manoel?), tu gostas mesmo de mim, tu amas-me?”, pergunta a mulher ao marido num barco com a estátua da Liberdade ao fundo (depois de nos terem dado um dos mais gloriosos planos da América que vi em cinema: a estátua ao fundo e, um primeiro plano, a bandeira a dardejar ao vento – os americanos deviam imprimir aos milhares e distribuir pelo mundo!). Trata-se de um casal que já ultrapassou todas as idades, que tem os anos marcados no rosto, a pele curtida pelas intempéries da vida, mas que conserva uma vivacidade no olhar e um sorriso malandro em cada palavra que diz. E o Manoel abraça-a e o mundo tem uma razão de ser e tudo parece estar certo e o Colom ser português de Cuba.
Numa situação destas, não há crítica que resista, o Oliveira já passou para o outro lado de tudo o que se conhece, resta-nos olhar incrédulos para o milagre, abrir a boca de espanto, sorrir aparvalhados para a beleza do mar e do céu, ficar extasiado perante um plano em casa de Colom no Porto Santo, ouvir a voz de Luís Miguel Cintra, e entrar no Paraíso.
Se Deus existe, inspirou Manoel de Oliveira. Esta serenidade de olhar, esta doce e divertida forma de olhar o mundo, é o Além. Todo o enigma está aí. Cristóvão Colombo foi apenas o pretexto para o cineasta nos levar consigo a descobrir o inexpugnável. O indecifrável, o indescritível. Não sei se é cinema ou teatro, mau ou bom, nem me interessa. Entra-se na sala, sentamo-nos, começamos por ver aquelas coisas da publicidade e dos anúncios aos filmes futuros, e sim, está bem, alguns devem ser muito bons. Depois aparece a assinatura de Colom no ecrã e entra-se numa outra dimensão. Se ao fim de quinze minutos entrou nessa dimensão, é a viagem pelo maravilhoso. Se não entrou, o melhor é sair. Não tem nada a fazer lá dentro. Este filme não é para si. Mas repare: não digo que esteja errado. É outra “coisa apenas”.
Já agora: o filme tem uma história. Parte de uma obra escrita pelo médico e investigador histórico luso-americano Manuel Luciano da Silva e sua mulher, Sílvia Jorge de Silva, "Cristóvão Colon (Colombo) era Português", que defende a tese da origem portuguesa do descobridor da América. A vida do médico e a sua paixão pelos Descobrimentos são temas centrais do filme, em que, inicialmente, Ricardo Trepa interpreta o papel do jovem Luciano da Silva e Leonor Baldaque o de Sílvia Jorge da Silva. Posteriormente, em idade mais avançada, serão o próprio Manoel de Oliveira e sua mulher Maria Isabel de Oliveira, que se ocupam das mesmas personagens. "Não se trata nem de um filme científico ou histórico, nem de carácter propriamente biográfico, mas sim de uma ficção de teor romanesco, evocativa da grandiosa gesta dos Descobrimentos Marítimos", explicou Manoel de Oliveira num comunicado distribuído sobre a obra, onde acrescentou: “Irá apresentar, contudo, a novidade de que Cristóvão Colon era, afinal, de origem portuguesa, nascido na vila alentejana de Cuba, e ter por isso dado à maior ilha por ele descoberta no mar das Antilhas, o nome da sua terra natal, Cuba". Nos Estados Unidos, Manoel de Oliveira filmou no parque da Estátua da Liberdade, na praça nova-iorquina onde se ergue a estátua de Cristóvão Colombo, junto ao Central Park, no Dighton Rock Museum, na Vila de Berkeley, em Massachussetts, e na cidade de Newport, em Rhode Island. O filme encerra na ilha de Porto Santo, onde Manuel Luciano identifica as suas últimas conclusões no lugar onde, na realidade, Colombo viveu com sua mulher, D. Filipa de Perestrelo.
Mas antes, Oliveira traça o percurso de Manuel Luciano da Silva que, em 1946, parte para a América com seu irmão Hermínio (Ricardo e Jorge Trepa, netos de Oliveira). Nos EUA forma-se em medicina, e regressa a Portugal para casar com Sílvia (Leonor Baldaque, neta de Agustina Bessa Luís), e prosseguir pesquisas de forma a demonstrar que Cristóvão Colombo era português. Neste filme familiar, aparecem ainda Lourença Baldaque (que interpreta uma figura de anjo, trajando as cores nacionais), Luís Miguel Cintra e Leonor Silveira, estes dois últimos que, não sendo familiares directos, o serão mais que muitos outros, dadas as afinidades adquiridas ao longo de décadas de trabalho conjunto.
CRISTÓVÃO COLOMBO - O ENIGMA
Titulo original: Cristóvão Colombo - O Enigma ou Christopher Columbus, The Enigma
Realização: Manoel de Oliveira (Portugal, França, 2007); Argumento: Manoel de Oliveira, segundo obra de Manuel Luciano da Silva e Sílvia da Silva; Música, José Luís Borges Coelho; Fotografia (cor): Sabine Lancelin; Montagem: Valérie Loiseleux; Design de produção : Christian Marti; Guarda-roupa: Adelaide Trepa; Direcção de produção: Dorin Razam-Grunfeld, Michael Sledd; Assistente de realização: Olivier Bouffard, Patrick Huber, Greg Staley; Departamento de arte: Stephane Alberto, Gregory Kenney; Som: Jean-Pierre Laforce, Henri Maïkoff; Produção: Jacques Arhex, François d'Artemare; Companhias de produção: Filmes do Tejo, Fundação Calouste Gulbenkian, Fundação Luso-Americana, Les Filmes d'Après-midi, Manoel de Oliveira Filmes.
Intérpretes: Ricardo Trêpa (Manuel Luciano da Silva, jovem), Manoel de Oliveira (Manuel Luciano da Silva), Leonor Baldaque (Sílvia Jorge da Silva, jovem), Maria Isabel de Oliveira (Sílvia Jorge da Silva), Luís Miguel Cintra (Narrador, Director da casa dee Colombo, Porto santo), Lourença Baldaque (Anjo), Norberto Barroca (velho), Sam Masotto (emigrante), Leonor Silveira (mãe), Robert Gordon Spencer (emigrante), Adelaide Teixeira, Jorge Trêpa (Hermínio da Silva), etc.
Duração: 75 minutos; Distribuição em Portugal: Lusomundo; Classificação etária: M7 12 anos; Locais de Filmagem: Alentejo, Cuba, Évora, Castro Marim, Castelo, Alfeite, Almada, Algarve, Lisboa, Rua Augusta, Baixa, Porto Santo, Madeira, Porto, Sé, Vila Franca de Xira, Portugal, Berkeley, California, Massachusetts, New York, Newport, Rhode Island, EUA; Estreia em Portugal: 13 de Dezembro de 2007.

terça-feira, janeiro 01, 2008

CINEMA: CALL GIRL


CALL GIRL

“Call Girl”, de António Pedro Vasconcelos (o realizador de “Oxalá”, “Aqui D’ El Rey”, "O Lugar do Morto", “Jaime" ou “Os Imortais”, estes últimos alguns dos maiores sucessos do cinema português), volta a demonstrar o que já se sabia sobre o autor: bom director de actores e contador de histórias, homem apostado num cinema de fácil contacto com o público, pouco preocupado em questões de autoria ou de singularidades de um cinema ou de um autor. Critico radical e interveniente, de formação “cahierista” dos anos de capa amarela, APV não se converteu num realizador “autor”, mas sim num interessante “contador de histórias”, aparentemente mais ligado a aspirações de uma produção comercial continua do que a uma visão pessoal do cinema. “Call Girl” confirma-o. Não será, porém, preciso pugnar por um cinema de autor para se fazerem filmes de autor. Howard Hawks, Nicholas Ray, Jacques Tourneur, para só citar alguns nomes, nunca pensaram estarem a realizar “filmes de autor” quando rodavam “Ter ou não Ter”, “Party Girl” ou “Out of the Past” respectivamente. Acontece que tinham uma visão pessoal, única e inconfundível do mundo e do cinema e isso mesmo ficava à mostra nos seus filmes. Era não só cinema do melhor, denso, marcante, como obras carregadas de obsessões e fantasma de colheita própria.
Infelizmente ou não, o mesmo não se passa com APV. O seu cinema é eficaz, escorreito, tecnicamente correcto, mas pouco o distingue de uma qualquer produção televisiva de série B. Não falamos de “24”, “Ficheiros Secretos”, “CSI” ou “Prison Breack”. Falamos de banais séries americanas que conta uma história que se acompanha com algum suspense e pouco mais. É o caso de “Call Girl”.
Uma história aceitável: Carlos Meireles (Nicolau Breyner), presidente de uma autarquia alentejana, é homem incorruptível, tem lá pela terra uns sobreiros cobiçados por construtores de campos de “golf”, mas não cede ao interesse dos privados, em defesa do que sente ser o interesse público. Mas um empresário estrangeiro (Anton Skrzypiciel) não desarma enquanto o seu peão de brega, Mouros (Joaquim de Almeida), de conluio com o Ministro da Saúde (Virgílio Castelo), não lhe atira ao caminho uma prostituta de luxo, Maria (Soraia Chaves), que o deixa verdadeiramente obcecado. Entretanto, Madeira (Ivo Canelas) e Neves (José Raposo), polícias da Judiciária, cheiram no ar os fumos da corrupção e atiram-se ao assunto.
A investigação é do que consta o filme, bem condimentado com cenas de escaldante sedução por parte da “call girl”, que torna Meireles um sexodependente, e com diálogos recheados de vernáculos palavrões por parte da dupla de polícias, mas igualmente bem acompanhados por toda a gente que os rodeia. Entre seduções brejeiras em quartos de hotel e tonitruantes peixeiradas o filme conta a sua história e avança. Nada mau para um cinema que a pouco mais aspira.
Mas “Call Girl” merece atenção especial num outro aspecto, esse sim verdadeiramente fora de série. Refiro-me à interpretação, onde se destacam trabalhos notáveis de alguns actores. Desde logo o brilhante Nicolau Breyner, que chega a ser comovente, depois a fulgurante composição de Raúl Solnado, num trabalho genial, depois a dupla Ivo Canelas e José Raposo, que são igualmente notáveis na dupla de agentes da PJ. Joaquim de Almeida compõe com ironia e desenvoltura um mafioso gay que ilustra com especial sublinhado a sua filmografia. Virgílio Castelo destaca-se igualmente com um trabalho de composição divertido e saboroso. José Eduardo (Gomes), Maria João Abreu (Amália), Custódia Galego (Odete), Ana Padrão (Inês) e Luís Mascarenhas (Matos), entre muitos outros, cumprem com segurança o que lhes era pedido.
Falta uma última palavra para Soraia Chaves que, depois de ter dado nas vistas em "O Crime do Padre Amaro", voltar a sobressair nesta “Call Girl” escrita à sua medida. Digamos que neste tipo de trabalhos, onde expõe mais o corpo do que a alma, chega a ser convincente (sobretudo neste filme, onde APV a dirige muito bem). Resta saber o que se pode esperar mais desta bela e sensual mulher, quando for chamada a revelar mais a sua interioridade e menos a volptuosa aparência. Mas haverá muitos entre vós que me perguntam: e que interessa isso se o que hoje se vê é mais do que suficiente? Pois bem, interessa pouco para quem assim pensa, e “Call Girl” merece inteiramente uma visita, não tanto pela denúncia da corrupção (que se tornou um lugar comum que procura explicar tudo!), mas pelos actores brilhantes que lhe dão corpo. E pelo corpo que lhe dá corrupção.
Parece, pois, que depois de “Corrupção” e de “Call Girl”, o negócio da corrupção não vai tão cedo desaparecer do cinema nacional. Após a exploração dos “faits divers” no “vende-vende” dos jornais e na televisão, chegou a vez do cinema. A ameaça de uma longa fornada está eminente.

in "Conversas de Café"

quarta-feira, dezembro 12, 2007

99 ANOS DE MANOEL DE OLIVEIRA

Manoel de Oliveira - 99 anos
Manoel de Oliveira, que completou 99 anos, disse à agência Lusa que está determinado a realizar todos os filmes que ainda tem em projecto: "Continuo enquanto me deixarem e enquanto tiver saúde", disse Manoel de Oliveira, garantindo que quer realizar todos os projectos que tem, sem dar prioridade a nenhum em especial.
«Não quero chegar a parte nenhuma, [o cinema] foi só a minha paixão, foi quase que instintivo», afirmou o cineasta. Escusou-se a falar sobre o seu passado, sublinhando que está concentrado apenas nos planos para o futuro: "Não olho para os filmes que fiz", frisou.
Manoel de Oliveira nasceu no Porto em 11 de Dezembro de 1908, mas foi registado como se tivesse nascido no dia seguinte. Com 76 anos de cineasta e 99 de idade, Manoel de Oliveira é o mais velho realizador de cinema do mundo em actividade e o mais premiado do cinema português. «Douro, Faina Fluvial» (1931), «Aniki Bobó» (1942), «Benilde ou a Virgem Mãe» (1974), «Amor de Perdição» (1979), «Francisca» (1981), «Le Soulier de Satin» (1985), «Os Canibais» (1988), «Vale Abraão» (1993) e «O Quinto Império» (2004) são alguns dos mais de 40 filmes que realizou. «Belle Toujours» e «Cristóvão Colombo - O Enigma» (com estreia marcada para 10 de Janeiro) são as obras mais recentes de Manoel de Oliveira, que tem em projecto «O estranho caso de Angélica» e a adaptação para cinema do conto de Eça de Queiroz «Singularidades de uma rapariga loira». Estas foram as palavras recolhidas em "Diário Digital / Lusa".

De pessoal vai o meu maior abraço de profunda amizade para este homem que nos enche de orgulho, não direi só como portugueses, mas como "pessoas".
(esta semana estreia-se o seu último filme: "Cristovão colombo - O Enigma").

segunda-feira, novembro 19, 2007

CINEMA: CORRUPÇÃO

CORRUPÇÃO
À partida ia muito desconfiado para este filme cujas peripécias sabidas e amplamente publicitadas não auguravam nada de bom. Desde logo o livro donde parte, “Eu, Carolina”, de Carolina Salgado, não me merece qualquer credibilidade, muito embora o tenha comprado e lido (só assim cheguei á conclusão de não me merecer credibilidade). Por outro lado, os problemas que estalaram entre realizador e produtor são quase inéditos no nosso país, apesar de serem vulgares, até há pouco, um pouco por todo o lado onde a figura do produtor dispunha de poder de vida ou de morte sobre os filmes. Surge assim nas salas de cinema um filme não assinado pelo realizador (João Botelho), apesar de toda a gente saber quem é o realizador, após uma obsidiante campanha publicitária que martelou dia a dia a realização da obra junto dos olhos e dos ouvidos da população portuguesa. Dado o melindre da realização, esta campanha destinou-se, em parte, a tornar irreversível a produção do filme, é evidente e foi bem pensada e melhor executada.
E pronto, temos o filme em 55 salas portuguesas, com boas receitas. Talvez não tão boas como a produção esperasse. Não vai de certeza retirar o primeiro lugar no discreto “box office” português a filmes como “Capas Negras”, “Fado”, e alguns mais. Mas está a facturar bem. A ser visto, o que é muito bom para um filme português. Não sou, porém, daqueles que acha que se deve facturar a todo o preço. Um mau filme que facture e seja visto por muito público só desprestigia. Nada traz de significativo, a não ser para a conta do produtor.
Mas “Corrupção” não é um mau filme. Tem consigo a marca de João Botelho. Não sendo um mau filme, levanta contudo curiosas questões que será bom analisar. Comecemos pela adaptação do livro de Carolina Salgado, “Eu, Carolina” que passa a ser conhecido por “Eu, Sofia”. Uma nuance que, todavia, nada muda, a não ser em pormenores.
O filme segue, a par e passo, a carreira martiriológica de uma mulher jovem, bonita e bem feita, que para assegurar a sobrevivência de dois filhos trabalha no Porto, de dia num supermercado (actividade que nunca vemos), de noite numa afamada casa de alterne, onde leva uma vida pudica e recatada. Ela está ali “para beber, não para dormir”, e sempre que um cliente troca o copo de champanhe pela sua roliça perna, lá vem tempestade. Percebe-se. Nesta altura entra em cena um polícia incorrupto que quer provas para enterrar um dirigente desportivo que todos sabem corrupto, mas de quem ninguém consegue reunir provas suficientes para o entrincheiras atrás das grades. Falinhas mansas de um e outro, e a pequena acaba por cair nas garras do prepotente que a leva em romagem à Galiza e acaba por metê-la na cama na estalagem de Santiago de Compostela. A menina era tão distraída que nem levara roupa a condizer, nada que não fosse prontamente remediado num armazém galego.
Poderia nesta altura pensar-se então que a senhora sofria, na cama, com as arremetidas do verdugo, a bem da Pátria e da segurança nacional, mas tal não acontece: Sofia não se vende sob nenhum pretexto. Aceita uma chamada do polícia e informa-o para nunca mais telefonar: ela afinal apaixonou-se pelo “Presidente”. Enquanto o “romance” rola, vai descobrindo as trapaças que envolvem futebol, política, justiça, polícia, economia, etc. Juízes corruptos, árbitros vendidos, inspectores de polícia comprados, etc., etc. Mas Sofia lá vai mergulhando com prazer nas piscinas da putrefacção. Por amor. Até que um dia chega e se descobre trocada por outra, aí descarrila, o marido põe-a na rua à bofetada, e a “gestora” vê-se sozinha, com a cara feita num bolo (escuro). Regressa o polícia incorruptível, inicia-se a recolha de provas, os corruptos são chamados a depor, Sofia e o polícia partem, quem sabe?, em viagem de (segundas) núpcias. A vida de Sofia não acaba aqui, ameaça “continuar…” é o que nos diz a legenda final.
Não se trata bem de um filme sobre o tão falado “sistema”, a corrupção em Portugal, nem dos negócios obscuros do futebol e da restante sociedade, mas sim da história de uma mulher com pouca sorte na vida, mas resoluta para resolver e ultrapassar os problemas que se lhe colocam, que teve a infelicidade de tropeçar num (reparem “um”) “Presidente” que é corrupto. Se aquele prepotente, que ainda por cima põe a vida da mulher em permanente risco, ao mandá-la acender cigarros a toda hora, e já se sabe que o fumo mata!, se aquele prepotente, dizia, for dentro, fica o país livre de corrupção desportiva? Não fica. Este ajuste de contas pessoal não serve as intenções. Se aquele “presidente”, por um azar do carraças (para ele) fosse dentro, o polvo continuaria com os tentáculos bem estendidos, desde a Liga Bwin até aos distritais (veja-se o que aconteceu agora em Viseu, com árbitros e dirigentes desportivos de Tondela e Castro Daire). Uma “vendeta” pessoal não serve a ninguém. É o caso.
Agora o filme: como se sabe João Botelho é um dos mais conceituados realizadores portugueses. Tem atrás de si uma obra muito pessoal, de autor, onde a denúncia social é uma constante. Filmes belíssimos, ao lado de outros não tanto (não aprecio muito a sua veia satírica que ultimamente tem vincado alguns títulos). Acontece que julgo que o registo optado para “Corrupção” é dos que melhor o serve. Este “realismo” nocturno, inspirado nos “filmes negros” de Hollywood anos 40, é muito bem aproveitado para certas cenas do filme, reuniões mafiosas, cenas familiares, encontros a transpirarem clandestinidade quotidiana, viagens à Galiza ao som de ópera... Julgo que aqui se descobre do melhor João Botelho. O pior fica para as cenas de pequenas multidões, entradas e saídas de tribunais, etc., onde as movimentações da comunicação social e dos apoiantes são pífias e nada credíveis.
Quase sempre boa a fotografia, boa a iluminação, a rondar o expressionismo, aceitável criação de ambientes, muito boa no geral a interpretação, que vai do excepcional (Ruy de Carvalho, Nicolau Breyner e outros) até um ou outro malogro, mas quase sempre em curtos papeis não muito bem resolvidos. Margarida Vilanova, no papel de “Sofia” defende bem uma tarefa ingrata. É muito bonita, tem aquele ar arisco e sabido que convinha, deixa sempre antever que “sabe muito mais do que confessa” e que tem “uma outra vida” muito bem escondida, por detrás daquela que aparenta. Pode ir longe, se bem dirigida, como aqui foi.
Esperemos pela “director’s cut”, que se anuncia já nesta bem montada operação de marketing, para ver o que melhora ou piora em “Corrupção”.


CORRUPÇÃO
Realização: João Botelho (não creditado na versão estreada no cinema) (Portugal, 20007); Argumento: João Botelho, Leonor Pinhão, segundo livro de Carolina Salgado; Fotografia (cor): Orlando Alegria; Montagem: João Braz; Design de produção: Catarina Amaro; Guarda-roupa: Silvia Grabowski, Vera Midões, Catarina Rodrigues; Maquilhagem: Sano de Perpessac; Direcção de produção: Pedro Bento, Rita Simão; Assistentes de realização: João Fonseca, Tiago Almada, Iris Reis; Som: Branko Neskov, Francisco Veloso; Produção: Alexandre Valente; Produtor executivo: Rui Louro; Bruno Martins; Companhia de produção: Utopia Filmes.
Intérpretes: Nicolau Breyner (Sr. Presidente), Margarida Vila-Nova (Sofia), António Cerdeira (Inspector Luís), Alexandra Lencastre (Mãe de Sofia), André Gomes (Advogado do Presidente), António Cid (Banqueiro), Aulácio Costa Almeida (Amigo Figueira), Carlos Costa (Patrão do Bar), Dinarte Branco (Médico), Edmundo Rosa (Adepto), Eurico Lopes (TV Anchor), Filipe Vargas (Agente PJ), Francisco Cunha Leal (Amigo Figueira), João Brás (Editor 1), João Cabral (Editor 2); João Catarré (Fotógrafo), João Lagarto (Figueira), João Loy (Cliente), João Ricardo (Empresário), João Silvestre (Taxi Driver), Jorge Schnitzer (Amigo Figueira), Jorge Sequerra (Homem da Rua), José Eduardo (Almirante), José Raposo (Inspector da PJ), Luísa Ferreira (Fotógrafa), Luís Soveral (Deputado), Manuel Gregório (Árbitro 1), Maria Duarte (Vizinha 1), Miguel Guilherme (Presidente dos Árbitros), Miguel Monteiro (Director Polícia Judiciária), Nelson Veiga (Cavalheiro do Jantar), Paula Guedes (Criada Zulmira), Paula Lobo Antunes (Alternadeira), Paulo Filipe (Jornalista), Paulo Manso (Vendedor da Livraria), Pedro Valente (Polícia de Ruela), Rita Blanco (Esposa do General), Rui Morrison (Procurador), Rui Santiago (Jornalista Espancado), Ruy de Carvalho (Juiz Presidente), Sérgio Grilo (Membro da Claque), Sónia Balacó (Alternadeira 2), Suzana Borges (Magistrada), Teresa Ovídio (Secretária do Tribunal), Tina Barbosa (Vizinha 2), Virgílio Castelo (Vice-Presidente), Jorge Chança (Segurança do Bar), Adérito Lopes, Matilde (Alternadeira), Margarida Moreira (Alternadeira), Ana Murinello (Mulher do Deputado), Samantha (Alternadeira), Luís Teodoro (Barman), etc.
Duração: 93 minutos; Classificação etária: Portugal: M/16 anos; Distribuição em Portugal: Filmes Lusomundo; Locais de filmagem: Aroeira, Lisboa, Peniche, Porto, Seixal, Portugal; Santiago de Compostela, A Coruña, Galiza, Espanha.
“Corrupção” na imprensa
O realizador João Botelho disse à agência “Lusa” que abdica de todos os direitos de autor relativamente ao filme “Corrupção”. O filme baseado no livro de Carolina Salgado estreou esta quinta-feira em 55 salas de cinema do país. “Eu abdico dos meus direitos, sei que por lei tenho direito a eles, mas não os quero”, declarou.
Contactado pela “Lusa”, o Gabinete dos Direitos de Autor e da Propriedade Intelectual afirmou que “o realizador, enquanto autor da obra, assine-a ou não, tem sempre direito aos respectivos direitos de autor”.
A mesma fonte sublinhou que “todo o processo entre produtor e realizador é exterior à questão dos direitos de autor”.
Botelho, que assinou já a realização de mais de dez longas-metragens, afirmou que apenas lhe interessa agora fazer o “seu” filme, mesmo que “daqui a muito tempo”, escusando-se a dar outros pormenores.
A 4 de Outubro, o realizador anunciou em comunicado que não assinaria o filme porque a Utopia Filmes optara por “uma versão diferente de imagens e de sons” na qual não reconhecia a linha fundamental do argumento, de que é co-autor (com Leonor Pinhão), e o cinema que há 30 anos defende.
Por seu lado, o produtor Alexandre Valente, comentou na altura que as divergências com o realizador, nomeadamente sobre a montagem final e a banda sonora, já eram esperadas desde o início do projecto, e por isso celebrou “um contrato muito claro”.
Filmado em Lisboa, Porto e Santiago de Compostela, a longa-metragem é baseada no livro “Eu Carolina”, de Carolina Salgado, ex-companheira de Pinto da Costa, presidente do Futebol Clube do Porto, e tem nos principais papéis os actores Nicolau Breyner e Margarida Vilanova.
O seu filme de estreia, “Conversa acabada”, recebeu Prémio Glauber Rocha e uma Menção Especial do júri da Federação internacional da Imprensa Cinematográfica do Festival da Figueira em 1981 e o Grande Prémio do Festival de Cinema de Antuérpia em 1982.

sábado, maio 19, 2007

NA RTP:

HOMENAGEM A MILÚ
A RTP transmitiu hoje a homenagem a Milú, realizada há dias no Teatro São Luiz. Foi uma festa bonita, com alguns excelentes momentos ("Xutos e Pontapés" a tocarem emocionados "Minha Casinha", o depoimento apaixonado de Raul Solnado, o entusiasta de António Pedro Vasconcelos, o bem humorado de Artur Agostinho ou o vivíssimo de Carmen Dolorers, e até Cavaco Silva esteve bem a entregar a comenda). Muitos tiraram-me palavras da boca, mas acho que tive mais sorte que muitos deles. A Milú foi também uma paixão minha de juventude (quem não estava apaixonado pela Milú por essa altura?). Ela nasceu a 24 de Abril de 1926, eu em 1942, leva-me alguns anos de vantagem, quando eu tinha para aí 10 anos, estava ela no esplendor da sua glória, nos seus 26 anos fulgurantes, era uma star, e os meus pais que se davam com alguns nomes das artes plásticas, do teatro e do cinema, eram visitas frequentes da casa da Milú, que então vivia, ao que me recordo, para os lados da Almirante Reis (se a memória não me falha). O que não me falha de certeza na memória é a recordação da excitação absolutamente anormal de estar na presença na vedeta, dela me afagar os cabelos, de me dar ternos beijinhos de boas vindas e despedidas (oh!, como eu gostarias que aquelas visitas fossem continuas entradas e saías de casa!). Quando os meus pais encontravam o Manuel Paião ou o Eduardo Damas, ou o Manuel de Lima, com quem invariavelmente visitávamos Milú, para mim era dia grande. Depois comecei a vê-la com muito maior atenção no cinema, e nunca um filme era mau por causa dela. Ela dava sempre um raio de luz, de elegância, de alegria, de modernidade em todos os filmes onde aparecia. Muitos anos depois, um dos meus amigos diários foi o Manuel Guimarães que tinha pela Milú uma admiração enorme. Trabalhara com ela num filme tragicamente transfigurado pela censura, mas que, mesmo assim (ou também por causa disso), me emocionou muito (“Vidas Sem Rumo”, 1956). Muito falámos da Milú então.
Maria de Lurdes de Almeida Lemos apareceu no final, em palco, com radiosos 80 anos e a pose de diva que nunca perdeu. Lembrou Gloria Swanson a descer a escadaria da glória passada. Em vez de chamar por Cecil B. De Mille chamou por António-Pedro Vasconcelos, agradecendo o que o cineasta por ela fizera. Foi bonito.
Milú foi cançonetista, actriz de cinema e de teatro de revista, tendo-se estreado aos doze anos em "Aldeia da Roupa Branca", ao lado de Beatriz Costa. Em 1942, quando eu nasci, e enquanto Orson Welles dirigia “Citizen Kane”, nos EUA, Milú é a "Luisinha" de "O Costa do Castelo", de Artur Duarte, e a sua voz imortalizou a música "Minha Casinha" mais tarde recriada pelos "Xutos e Pontapés". Outro sucesso seu foi "Cantiga da Rua". Casou pela primeira vez, em Dezembro de 1943, aos dezassete anos, e dizem que “Lisboa se despovoou para ir ver a noiva à igreja de São Sebastião da Pedreira.” Interrompeu então a carreira, mas foi obrigada a regressar, para novos sucessos, "Cantiga da Rua","O Leão da Estrela", em 1947, "O Grande Elias", em 1950, entre outros. As revistas de cinema e quase todas as outras escolhiam-na para capa, pois a sua beleza deslumbrava. Fez teatro de revista no Teatro Avenida, nomeadamente em "Ó Rosa Arredonda a Saia" e no Teatro Variedades com "A Vida é Bela" e entrou em alguns filmes em Espanha, nos anos de 1943 e 1946. Casou, pela 2ª vez em 1960, com Luís Nobre Guedes, e viveu no Brasil até 1968, tendo actuado na televisão brasileira, esporadicamente. A sua última aparição deu-se em cinema, em "Kilas o Mau da Fita", de José Fonseca e Costa, em 1980.
Os filmes de Milú: Aldeia da Roupa Branca (1939), O Costa do Castelo (1943), Doce lunas de miel ou Doze Luas-de-Mel (1944), Barrio ou Viela (Rua Sem Sol) (1947), O Leão da Estrela (1947), A Volta de José do Telhado (1949), O Grande Elias (1950), Os Três da Vida Airada (1952), Agora É Que São Elas (1954), Vidas Sem Rumo (1956), Dois Dias no Paraíso (1958), O Diabo Era Outro (1969) e Kilas, o Mau da Fita (1981).