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quarta-feira, agosto 05, 2009

CINEMA: A VERDADE E SÓ A VERDADE

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A VERDADE E SÓ A VERDADE
Na realidade

“A Verdade e só a Verdade” (Nothing But The Truth), filme de Rod Lurie, aparece como sendo baseado em factos reais, mas que, apesar disso, não segue à letra nem factos nem personagens que lhe serviram de base. Compreende-se por quê depois de se saber um pouco mais sobre o caso em que se baseia.
Nos alicerces desta obra está a jornalista Judith Miller, nascida em 1948 em Nova Iorque, que se tornou uma polémica e contestada jornalista de investigação trabalhando no “New York Times”. Especialista em assuntos do Médio Oriente, de Árabes e de terrorismo internacional, nomeadamente bioterrorismo, Judith Miller desenvolveu várias reportagens sobre exilados políticos iraquianos que permaneciam nos EUA, tal como Ahmed Chalabi, que lhe serviam como fonte de informação privilegiada.
Em 2005, vê-se envolvida num caso controverso que abalou a América e que ficou conhecido pela designação “Cooper-Miller-Novak”. É especialmente este caso que serve de inspiração ao filme “Nothing But The Truth” que, neste caso, é tudo menos a verdade sobre o que então se passou e sobre a personalidade de Judith Miller.
Judith Miller começou a sua carreira de jornalista no “New York Times” em 1977. Em 1986 já era manifesta a sua simpatia pelos falcões americanos, ao escrever uma série de artigos sobre a Líbia de Mouammar Kadhafi, que muitos incluíram numa campanha de desinformação sobre aquele país, campanha essa orquestrada pelo almirante John Poindexter, depois caído em desgraça. Em 1993, casa com Jason Epstein, escritor e editor literário. Depois de 2000, Judith Miller vê-se sobrecarregada de acusações, todas elas com a mesma orientação política: ela servia os interesses da administração Bush.
Publica falsas informações sobre a existência de armas de destruição massiva no Iraque (mais tarde o jornal explica que cinco dos seus seis artigos continham informação falsa), descobre possível material (tubos metálicos) que se destinavam ao Iraque e que ela conota com a fabricação de armas atómicas (o que depois alguns cientistas contradizem), afirma ter recebido uma carta no seu escritório do NYT, contendo antrax, numa altura em que vários meios de comunicação social americanos receberam realmente cartas com antrax, como ABC News, CBS News, NBC News ou New York Post, todos em Nova Iorque, ou ainda o National Enquirer na Flórida. Ou os senadores Tom Daschle e Patrick Leahy, em Washington. Deste ataque resultaram 22 pessoas infectadas, das quais cinco morreram, mas, analisada a carta de Judith Miller, veio a verificar-se que não era antrax o que continha. Nesse ano ela recebe o Prémio Pulitzer sobre as suas investigações sobre a Al-Qaida e Oussama Bin Laden.
Aquando da morte de Yasser Arafat, dirigente palestiniano, a necrologia aparecida no NYT (11 de Novembro de 2004) continha gritantes erros, e fora redigida por Miller. Choveram mais críticas, o que voltaria a acontecer com o caso “Cooper-Miller-Novak”. Que se resume assim:
Judith Miller escreve no “New York Times”, que Valerie Plame, mulher do diplomata Joe Wilson, era agente da CIA. Pensa-se que foi a própria Casa Branca a espalhar a notícia como forma de manchar a honra de Joe Wilson e mulher, dado que o diplomata havia criticado a política da administração Bush, acusando-o de impor uma guerra sobre falsas informações. Em 6 de Julho de 2005, Judith Miller é presa porque se recusa a revelar as fontes em que se baseara para denunciar uma agente da CIA. Nos EUA denunciar um agente secreto é crime. Permanece algumas semanas em prisão, mas, em 30 de Setembro, admite depor, dado que a sua fonte aceitou levantar a confidencialidade. Em Novembro, depois de um acordo negociado entre a jornalista e o NYT, afasta-se do jornal e escreve um texto dirigido ao editor do NYT, onde explica a demissão.

A VERDADE E SÓ A VERDADE
Na óptica de Judith Miller
O Adeus de Judith Miller (9 de Novembro de 2005)

Ao editor:
Em 6 de Julho escolhi ir para a prisão para defender o meu direito de jornalista de proteger uma fonte confidencial, o mesmo direito que permite que advogados garantam a confidencialidade dos seus clientes, padres a de seus paroquianos e médicos ou psicoterapeutas a de seus pacientes. Embora 49 estados tenham estendido este privilégio a jornalistas, pois sem tal protecção a imprensa livre não pode existir, não há lei federal equivalente. Escolhi ir para a prisão não apenas para honrar meu juramento de confidencialidade, mas também para dramatizar a necessidade desta lei federal.
Após 85 dias, mais que o dobro de tempo que qualquer outro jornalista americano passou na cadeia por esta causa, concordei em testemunhar perante o grande júri do procurador especial Patrick J. Fitzgerald sobre as minhas conversas com a minha fonte, I. Lewis Libby Jr. Fiz isso somente depois de as minhas duas condições terem sido atendidas: primeiramente, o Sr. Libby libertou-me voluntariamente, por escrito e por telefone, da minha promessa de proteger as nossas conversas; e, em segundo, o procurador especial limitou as suas perguntas somente às questões relevantes ao caso Valerie Plame Wilson. Diferentemente do que afirmaram relatos inexactos, estes dois acordos não poderiam ter sido alcançados antes de eu ter ido para a prisão. Sem eles, eu ainda estaria na cadeia, talvez, advertiram os meus advogados, acusada de obstrução da justiça, um crime. Embora alguns colegas tivessem discordado da minha decisão de testemunhar, permanecer na cadeia após ver atendidas minhas condições pareceria um martírio autólatra ou pior, um esforço deliberado para obstruir a investigação sobre crimes sérios do procurador.
Em parte por essas objecções de alguns colegas, decidi-me, após 28 anos e com sentimentos misturados, deixar o Times. Sinto-me honrada por ter feito parte deste jornal extraordinário e orgulhosa de minhas realizações – um Pulitzer, um DuPont, um Emmy e outros prémios –, mas triste por deixar minha casa profissional.
Mas principalmente escolhi demitir-me porque nos últimos meses me transformei em notícia, algo que um repórter do New York Times nunca quer ser.
Mesmo antes de ir para a prisão eu já me tinha transformado num pára-raios da fúria pública sobre as falhas da área de informações que ajudaram a levar o nosso país para a guerra. Diversas matérias que escrevi ou co-escrevi foram baseadas nesta falha dos serviços secretos, e em Maio de 2004 o Times concluiu, em nota dos editores, que a cobertura deveria ter reflectido um cepticismo maior.
Num discurso que fiz no Barnard College em 2003, um ano antes da publicação desta nota, perguntei se as informações dos serviços secretos sobre armas de destruição em massa (ADM) eram meramente erradas, ou se eram exageradas ou mesmo falsificadas. Acreditei então, e ainda acredito, que a resposta à má informação é mais reportagem. Lamento que não me tenha sido permitido buscar respostas para as perguntas que levantei em Barnard. A falta das respostas continua a corroer a confiança na imprensa e no governo.
O direito de resposta e a obrigação de corrigir imprecisões são também marcas de uma imprensa livre e responsável. Estou satisfeita por Bill Keller, editor-executivo do Times, finalmente ter esclarecido as observações feitas por ele, sem apoio nos factos e pessoalmente dolorosas. Alguns de seus comentários sugeriram insubordinação da minha parte. Eu sempre escrevi as matérias que me cabiam de acordo com as normas éticas e de apuramento da verdade do jornal, e cooperei com as decisões editoriais, mesmo quando delas discordei.
Saúdo a página editorial do Times por advogar uma lei federal de protecção dos jornalistas antes, durante e depois da minha prisão e por apoiar recentemente, apenas duas semanas atrás, minha disposição de ir para a cadeia em defesa deste princípio vital. Quero agradecer sobretudo aos colegas que me apoiaram depois de ter sido criticada nessas páginas. A minha resposta a esta crítica pode ser lida na íntegra no meu site: JudithMiller.org.
Continuarei a defender uma lei federal de protecção do jornalista. Nos meus escritos futuros, pretendo chamar a atenção para as ameaças internas e externas às liberdades no nosso país – al-Qaida e outras formas de extremismo religioso, terrorismo convencional e com ADM e o sigilo crescente no governo em nome da segurança nacional –, assuntos que têm definido há muito tempo o meu trabalho. Saio sabendo também que o Times continuará a sua tradição de excelência que o tornou indispensável aos seus leitores, um padrão para os jornalistas e um reduto da democracia.”
A VERDADE E SÓ A VERDADE
No filme de Rod Lurie
Este é apenas mais um filme sobre jornalismo e os problemas que o mesmo encontra para levar as notícias ao público? Sim e não. É verdade que, por um lado, se trata precisamente disso, de como exercer a profissão de jornalista e de como enfrentar algumas das dificuldades que se levantam a essa prática. Mas, por outro lado, este filme (como por exemplo o também recente “Ligações Perigosas”), parece recuperar uma via liberal do cinema norte-americano (dos anos 30, 40, 50, retomada depois periodicamente por alguns cineastas isolados) onde se faz a defesa dos princípios e das virtudes democráticas. De certa forma, uma confissão de confiança no sistema e na sua regeneração através do quinto poder, a comunicação social.
Desta feita, o caso da jornalista Judith Miller e da sua polémica investigação ao serviço do “New York Times” serve não tanto para ser adaptada fielmente, mas como base para ficcionar um caso idêntico, mas curiosamente de sinal contrário. Enquanto Judith Miller era acusada de direitista e apologista de Bush, o que argumentista e realizador de “Nothing But The Truth” faz é rigorosamente algo de efeito oposto, um libelo na defesa de princípios e de comportamentos que defendem a liberdade de imprensa e do jornalista, lutando pela confidencialidade das fontes. E porquê? O jornalista vive muitas vezes de dicas “off de record”, que poderá utilizar caso não mencione as fontes. Esta prática é discutível, mas tem vantagens e desvantagens democráticas (ambas exemplificadas ou no caso verídico e ou no ficcionado de Judith Miller). Por mim, acho que o anonimato nunca foi bom conselheiro em democracia, mas a verdade é que se não fosse ele não teríamos tido conhecimento do Watergate, para só citar um exemplo do conhecimento geral.
Em “Nothing But The Truth” a jornalista em causa chama-se Rachel Armstrong (Kate Beckinsale) e é igualmente repórter num (fictício) jornal diário de grande tiragem na América. É ela que descobre que Erica Van Doren (Vera Farmiga), mulher de um diplomata norte-americano que escreveu um artigo contra a política externa da Casa Branca, pertence à CIA. Erica Van Doren viajou pela América Latina e investigou se a Venezuela estivera ou não associada ao assassinato de um presidente dos EUA. Retirou dessa investigação conclusões negativas, que o governo resolveu ignorar para poder actuar em território venezuelano. Dar a conhecer a identidade de agente secreta de Erica Van Doren pode ser uma manobra da própria administração Bush, para desprestigiar a sua investigação, ou simplesmente uma forma de pressão, sobre a comunicação social e sobre as “fontes informativas” anónimas. O governo, estribado numa lei que permite perseguir quem denuncie a identidade de agentes secretos, e servindo-se de uma outra lei, federal, que obriga à identificação de fontes, coloca Rachel Armstrong em tribunal, respondendo perante um grande júri, num processo dirigido pelo promotor público “especial” destacado para este caso, Patton Dubois (Matt Dillon).
O filme acompanha esta batalha jurídica, e a luta do elegante advogado Albert Burnside (Alan Alda), que, de início, parece mais interessado nos seus fatos de marca e na sua aparência cosmopolita, mas que finalmente, empolgado pela causa, tudo fará para ajudar Rachel Armstrong que se vê envolvida num escabroso processo, com direito a prisão (mais de 350 dias), humilhação pública, violenta tareia na cela, afastamento de marido e filho, críticas de colegas, levando mesmo ao assassinato de Erica Van Doren, executado por um demente extremista.
O filme é particularmente interessante, eficaz na sua narrativa, bem interpretado, com saliência para Kate Beckinsale, Matt Dillon (excelente em Patton Dubois, que ele interpreta como se fosse o “bom da fita”, segundo palavras do próprio), Angela Bassett e Alan Alda (bom regresso à ribalta num papel à sua medida). Não será obviamente um filme inesquecível, a sua construção é por demais banal a nível cinematográfico, mas não deixa de tratar um tema forte e importante, fazendo-o de forma interessante e inteligente, que permite relançar uma polémica que a todos diz respeito.
A VERDADE E SÓ A VERDADE
Título original: Nothing But The Truth
Realização: Rod Lurie (EUA, 2008); Argumento: Rod Lurie; Produção: Dennis Brown, Marc Frydman, David Glasser, William J. Immerman, Rod Lurie, James Spies, Bob Yari; Música: Larry Groupé; Fotografia (cor): Alik Sakharov; Montagem: Sarah Boyd; Casting: Mary Jo Slater; Design de produção: Eloise Crane Stammerjohn; Guarda-roupa: Lynn Falconer; Maquilhagem: Gloria Belz, Janice Byrd; Direcção de Produção: Ed Cathell III, Buddy Enright, Jill Greenblatt, Shana Fischer Huber, Linda L. Miller; Assistentes de realização: John Greenway, Thomas A. Reilly, Scott Rorie; Departamento de arte: Rachel Boulden, Frank Hendrick, Dane Moore; Som: Anna MacKenzie; Efeitos visuais: Daniel Kumiega, Curt Miller, Doug Spilatro; Companhias de produção: Battleplan Productions, Yari Film Group (YFG); Intérpretes: Kate Beckinsale (Rachel Armstrong), Matt Dillon (Patton Dubois), Angela Bassett (Bonnie Benjamin), Alan Alda (Alan Burnside), Vera Farmiga (Erica Van Doren), David Schwimmer (Ray Armstrong), Courtney B. Vance (Agente O'Hara), Noah Wyle (Avril Aaronson), Floyd Abrams (Juiz Hall), Preston Bailey (Timmy Armstrong), Kristen Bough (Allison Van Doren), Julie Ann Emery, Robert Harvey, Michael O'Neill, Kristen Shaw, Angelica Torn, Jamey Sheridan, Pamela Jones, Jennifer McCoy, David Bridgewater, Jenny Odle Madden, Rod Lurie (Larry), Janie Paris, Jim Palmer, Clay Chamberlin, Joseph Murphy, Ashley LeConte Campbell, Scott Williamson, Dan Abrams, Elizabeth Annewilson, Jon W. Sparks, Erin Dangler, Randall Hartzog, Craig Wright, Phil Darius Wallace, Kelly Holleman, Allen O. Battle III, Teri Itkin, Angie Gilbert, Antonio Morton, Blake Brooks, Carol Russell-Woloshin, Verda Davenport, Robert P. Campbell, Michael Detroit, Jeffrey W. Bailey, Garnet Brooks, William J. Immerman, D'Army Bailey, Lowell Perry, etc. Duração: 108 minutos; Distribuição em Portugal: Atalanta Filmes; Classificação etária: M/ 12 anos; Locais de filmagens: Memphis, Tennessee, EUA; Estreia em Portugal: 30 de Julho de 2009.

domingo, setembro 16, 2007

UTOPIA E REALIDADE

A minha amiga Ana Paula, do "Música do Acaso", publicou um post sobre "Sonho Versus realidade" , sobre o qual escrevi um comentário que lá deixei, mas o qual gostaria de colocar também aqui, pois julgo tratar-se de um tema de extrema actualidade a merecer reflexão. Também aqui o óptimo me parece inimigo do bom, também aqui a busca do absoluto anula não só a acção, como a progressão.


Cara Ana, não vale a pena ser pessimista. Há que ser realista. O mundo não vai piorando, acredita. Vai, dia a dia, melhorando. Quem estuda História sabe disso. O que acontece, hoje em dia, é que a informação, à escola global, é total e por vezes deliberadamente desmoralizante. Antes não se sabia o que acontecia a 10 quilómetros de nós. Hoje sabe-se tudo, em todo o lado, e o efeito desse conhecimento é deliberadamente amplificado pela comunicação social, para vender, unicamente para vender mais. Quantos biliões de Maddies não desapareceram no mundo desde que este é o que é? Quantos milhões não desapareceram em circunstâncias muito mais horrorosas do que as que aconteceram a esta infeliz Maddie (qualquer que seja o seu caso)? E, no entanto, esta atingiu proporções nunca vistas. Por ser um caso "diferente"? Não. Apenas por haver mais meios para colher e difundir a noticia e vendê-la pelo mundo. O que em si é mau, mas também terá os seus efeitos positivos, de vez em quando.
O importante é não embarcar em histerias que só são contraproducentes e olhar cada facto com a nossa experiência, a nossa sensibilidade, a nossa perspectiva crítica. Cada vez mais temos de ser menos ingénuos, é verdade. Mas o mundo não é um local tão tenebroso assim – Por cada caso Maddie quantos milhões de pessoas não tratam os filhos com cada vez maior atenção, desvelo e amor? Por cada crime, quanta boa acção ignorada, executada apenas porque se é bem constituído moralmente, apenas porque se procura o melhor para a Humanidade? Por cada acidente de carro, acidental ou criminoso, imagina os milhões que, minuto a minuto, se evitam somente porque as pessoas não são assassinos loucos deixados à solta das estradas.
A utopia pode ser muito realista: basta ir-se acrescentando, sempre que possível, um acto digno, um olhar de amor, um gesto, uma frase ao nosso quotidiano. Sem pensar no que se faz, sem olhar às consequências: apenas porque somos assim, e assim gostamos de continuar a ser.
O mundo é “humano”, não é perfeito, nunca o será, mas podemos ir contribuindo para o fazer cada vez mais habitável. Aqui onde vivemos, um país magnifico, de pessoas normalmente boas, belas paisagens, bem estar acima da média mundial, que vai devagarinho melhorando, mas também um pouco por todo o lado. Com acções, com palavras, com o combate diária ao egoísmo, ao fanatismo, ao terrorismo verbal, à continua maledicência. A utopia está ai: ao alcance da nossa mão. Não se faça da utopia algo inalcançável, porque só estaremos a contribuir para o desespero. A utopia ganha-se. É só acreditar e lutar por ela. Não fazer dela algo impossível de realizar, por assim a utopia só serve para nos tornar infelizes ou atar-nos de mãos e pés (se é inalcançável não vale a pena fazer nada!), mas olhá-la como algo que se vai atingido, minuto a minuto. E que, dia a dia, vai transformando o mundo. Beijos.

sábado, abril 14, 2007

JOSÉ SOCRATES E A DEMOCRACIA

Esta história do “engenheiro” já enjoa, e devo dizer que não tenho uma especial simpatia pessoal pelo engenheiro Sócrates. Nem antipatia também. Acho, todavia, que está a cumprir uma função e a está a cumprir o melhor que sabe, no caso até acho que a está a cumprir bem, a fazer o que nenhum outro até agora tinha tido poder ou coragem para o fazer.
É obvio que esta trapalhada da Universidade Independente e dos títulos académicos que o PM possui ou não possui legitimamente daria muito pano para muitas mangas, mas ninguém me tira da cabeça que a relação OPA falhada de Belmiro de Azevedo e o facto do “Público” (jornal de Belmiro de Azevedo) ter puxado pelo assunto é uma coincidência dos diabos. O que retira a toda esta questão qualquer consistência honesta e a atira para o pior que há da baixa política. Já tivemos tentativas de assassinato político desse senhor pelo menos por duas vezes, e quem saiu tostado foi quem levantou as questões da sua inclinação sexual, de uma vez, e de um caso de possível compadrio na zona protegida da Arrábida, ao que me lembro. Em ambos os casos, Sócrates saiu por cima. A baixa política por baixo. Mas a missão dos boatos venceu porque fica sempre no ar a dúvida.
Depois, quero lá saber se Sócrates é engenheiro ou não. Não está a construir casas, está a governar o País. Dizem-me: pois mas não é isso que está em causa, mas sim o facto de a licenciatura do senhor poder ser uma aldrabice e isso definir uma personalidade e um modo de agir. Nada de mais enganoso. Se houve anomalias na atribuição do grau académico, isso tem a ver com o funcionamento das universidades, não com os alunos. Já viram o que seria da classe política portuguesa se se fosse examinar “a passagem administrativa” de tantos e tantos? Todos os que passaram pelo ensino superior entre 1974 e 1980, e até mais tarde, podem ter esse labelo colado às costas. Ora bem, passaram, fizeram os cursos, desempenham actividades profissionais, o que há a fazer é saber se o fazem bem ou não. No campo onde se encontram.
Esta história do “Senhor Engenheiro” ser ou não ser “Engenheiro” enfim releva do maior provincianismo português e da mais descarada hipocrisia política. Podem crer que diria o mesmo, qualquer que fosse a cor partidária do “Engenheiro”. Já viram o que seria pedir o título universitário a José Saramago, para poder receber o Prémio Nobel?
Mas este caso levanta muitas outras questões, algumas delas essenciais para a vida política portuguesa. E não só. Também para o que se entende que deva ser a democracia. A democracia está em crise há muito. Em crise em virtude das suas próprias características e virtudes.
A democracia vive da liberdade. Liberdade de expressão, liberdade política, liberdade jurídica, liberdade económica. A liberdade de expressão assegura a liberdade a todos, inclusive aos que atentam contra a liberdade. Quem propõe uma ditadura exprime-se livremente em democracia. Em ditadura quem defende a liberdade de expressão é preso, perseguido, mesmo morto.
Ora o que se assiste de algum tempo a esta parte é não a uma tentativa de derrube da democracia, mas a um sistemático ataque às virtudes da democracia, para a desacreditar. Hoje é difícil impor na Europa ditaduras como as que existiram no mundo na primeira metade do século XX. A ditadura de hoje, muito mais sofisticada, é simplesmente económica, não tem ideologia, exerce-se nas multinacionais sem rosto, que tudo controlam em nome do lucro e que não têm pátria. Nem regime político. Veja-se o caso da China: diz-se comunista, mas é um mercado tremendo, logo serve os interesses. Por isso não só se fazem todos os negócios com a China, como se dá possibilidade ao regime de sobreviver, aceitando que invada mercados com os seus preços baixos e a sua mão-de-obra quase escrava. Não há nem moral, nem política que pare o interesse económico.
Nos países democráticos (não é só em Portugal, é a nível planetário!), a liberdade de expressão permite algo de perfeitamente perverso: destruir a democracia por dentro, ir corroendo lentamente as personagens e as instituições, até a opinião pública não acreditar em nada e se afastar do que considera a “politica”. A “porca política”.
Os meios de comunicação social tradicional estão hoje em dia todos na mão do capitalismo. Jornais como “A República” ou “O Diário de Lisboa” de há uns anos atrás, realmente desalinhados em relação ao sistema, são impossíveis de conceber presentemente. Todos se norteiam pelas tiragens, o lucro. Precisam de altas tiragens (que raros têm) e para as conseguir procuram o que vende. O que vende é a coscuvilhice no jet set, a certos níveis, e na política, nesses e noutros níveis. O que vende são os sucessivos “namorados” da Elsa Raposo ou a corrupção política. Logo, vamos a isso, e se não existirem casos reais significativos, inventam-se alguns ou descobrem-se miudezas para alimentar os tablóides. O que se disse de Sá Carneiro, o que se disse de Mário Soares, o que se disse de Paulo Portas, o que se disse de Guterres, o que se disse de Santana Lopes, o que se disse de José Sócrates, com e sem razão! Para só falar de alguns, porque dizer-se, disse-se de todos.
Que alguns anónimos da blogosfera espalhem boatos e digam o que lhes apetece sob o disfarce do nickname, compreende-se. Que se sirvam dessa cobardia perfidamente assassina para passar a jornais, rádios e televisões, isso já fia mais fino. Que se ataquem impunemente pessoas sem provas provadas do que se afirma ou se insinua é algo que não só pode “assassinar” civicamente o visado, como vai matando lentamente a democracia.
Este é um trabalho sistemático, planificado, organizado. A ideia final é demonstrar que toda a gente é corrupta, toda a gente só se serve a si próprio. O que incute no cidadão normal a ideia de que ninguém “serve o interesse comum”, todos “se servem”, logo o melhor é eu fazer o mesmo. Donde essa geração de tecnocratas sem alma que visa o proveito pessoal e nada mais. Logo cada vez mais essa sensação de total desencanto que só pode levar ao alheamento da política. Logo a instalação de uma terra de ninguém, onde o poder económico se instala sem critica e sem controlo. Logo essa ditadura sem rosto que actua a seu belo prazer, duplamente legitimada: se todos procuram o lucro, para quê criticar aqueles que vivem do lucro? Vivendo do lucro, conseguido de forma selvática, a ditadura económica não encontra oposição credível, pois esta foi destruída previamente. E ainda vai lucrando uns pozinhos com a comunicação social que detém e que a serve, beneficiando também duplamente com os escândalos: vendem papel e conseguem audiências, por um lado, e minam oposições, por outro. Para quê arranjar ditadores de outro género, se esta situação serve perfeitamente e ainda por cima dá a ilusão de se viver numa perfeita democracia? Em que ninguém está acima do poder controlador da comunicação social.
Ora bem, com todos os seus vícios, a democracia é ainda o melhor sistema político que conheço. Se não fosse ela não estava aqui a escrever o que escrevo, nem vocês aí a lerem-se, se for o caso. Mas para que isso aconteça, a democracia e a liberdade têm de encontrar os seus próprios mecanismos de defesa.
Mas isso ficará para um próximo texto.
Adenda:
Caros leitores deste blogue: Por norma sou totalmente contra comentários críticos, anónimos e que não estejam ligados a um blogue. É obvio que há comentários anónimos que não rejeito, sobretudo quando ligados a blogues, e se o tema do comentário não ofende ninguém. Quanto a comentários insultuosos para comigo, ou para com terceiros, não são publicados seguramente. Mesmo quando os temas são polémicos se exige alguma compostura.
É evidente que a blogosfera está infestada de energúmenos que a coberto de anonimato dizem o que entendem, sem respeito por nada nem ninguém. É óbvio que só idiotas, e idiotas mal intencionados, podem acreditar que esta forma de expressão é o que se chama “liberdade de expressão” ou qualquer forma de exercício da democracia. A essa vil forma de “expressão”, cobarde e sem carácter, nada mais se poderá chamar do que velhaca calúnia, qualquer que seja a sua justificação. Quem quer ataca e criticar que o faça a descoberto, usando o seu nome e o seu rosto. Quem não tiver coragem para o fazer assim, que se cale. Neste blogue não há lugar para cobardes.