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segunda-feira, março 23, 2015

TEATRO: PIRANDELO


PIRANDELLO

Afirma a companhia “mala voadora”: “Pirandello” não é um espectáculo de Pirandello. Quer isto dizer: não é uma encenação de uma peça de teatro escrita por Pirandello. E, apesar de o seu nome dar título ao espectáculo, também não se trata de uma biografia do italiano Luigi Pirandello que nasceu em 1867 e morreu em 1936, autor multifacetado e distinguido com o Prémio Nobel da Literatura em 1934. Mas é a história de uma vida que vamos contar – a de um homem inventado por Pirandello no livro “Ele Foi Mattia Pascal”, ou “O Falecido Mattia Pascal”. Na verdade, não é bem essa história, mas uma parecida... Na verdade, a história que a mala voadora vai contar é a de Albano Jerónimo. O Falecido Albano Jerónimo”.
Aparentemente está tudo dito quanto ao texto que se apresenta como “Pirandello”. Tanto podia chamar-se “Pirandello” como “Shakespeare”, “Gil Vicente” ou “José Saramago”. Agarra-se numa obra de um autor, reduz-se a uma anedota, pega-se nessa anedota e constrói-se com ela um espectáculo essencialmente divertido, inventivo, graficamente de boa qualidade, muito bem interpretado e ponto.
Ainda o texto da “mala voadora”: “Pirandello”, um elogio da ficção, é um laboratório de meta-teatralidade em torno de um texto não-dramático do dramaturgo mais meta-teatral do século XX. Sobrepõe-se, ao abismo ficcional que caracteriza o romance, uma meta-teatralidade que não é aquela que Pirandello usa nos seus próprios textos dramáticos, mas uma outra, inventada a partir da narrativa não-dramática”. Com este texto fica-se a perceber o que foi pretendido. Apesar de um certo pretensiosismo de linguagem. Ou seja, o que se tenta é reduzir a narrativa dramática a uma não narrativa não dramática.
Uma visão moderna, sim, moderna, inscrevendo-se numa linha que tem vindo a vingar junto de certos grupos teatrais mais recentes, a estética de “mala voadora” é de uma grande coerência. Quem procura mais do que “espectáculo” não encontra. O vaudeville de Georges Feydeau é muito mais consistente. Aqui, o que funciona é a aparência. Os cenários de José Capela parecem construções de legos, passados pela imaginação de Robert Wilson, são muito bonitos e funcionam muito bem. Guarda-roupa a condizer. Tecnicamente há que dizer que tudo rola eficazmente, luz, som, etc. A interpretação é muito boa, quase não apetecendo sublinhar ninguém, ainda que Albano Jerónimo e Custódia Gallego o possam merecer, mas a verdade é que Anabela Almeida, David Cabecinha, David Pereira Bastos, Marco Paiva, Maria Ana Filipe, Mónica Garnel, Tânia Alves e Joana Costa Santos vão muito bem no registo escolhido. A encenação de Jorge Andrade é realmente muito imaginativa, cheia de achados de linguagem e de situações, o que transforma “Pirandello” num passatempo que se vê bem e se desfruta como uma taça de champanhe. A metáfora, porém, não funciona com todos. Eu, por exemplo, não gosto de champanhe, o que não quer dizer que não tenha gostado de ver o espectáculo. Mas chamar-lhe “Pirandello”, custa um bocado…

PIRANDELO

a partir de “Ele Foi Mattia Pascal”, de Luigi Pirandello; dramaturgia Jorge Andrade com David Cabecinha, Fernando Villas-Boas; direcção Jorge Andrade; cenografia José Capela com edição de imagem de António MV e José Carlos Duarte; figurinos José Capela; desenho de luz João d’Almeida; banda sonora Rui Lima e Sérgio Martins com a participação de alunos da Escola de Música do Conservatório Nacional; cabelos Carla Henriques; interpretação: Albano Jerónimo, Anabela Almeida, Custódia Gallego, David Cabecinha, David Pereira Bastos, Marco Paiva, Maria Ana Filipe, Mónica Garnel, Tânia Alves e Joana Costa Santos; produção mala voadora Manuel Poças e Joana Costa Santos; assessoria gestão/programação mala voadora: Vânia Rodrigues; coprodução TNDM II, Mala Voadora; M/12 anos; duração: 90 minutos; de 12 de Março a 4 de Abril de 2015.

segunda-feira, janeiro 12, 2015

TEATRO: CYRANO DE BERGERAC

CYRANO DE BERGERAC

Edmond Rostand escreveu a peça em 1897. Recuperava em tons românticos a vida aventurosa e amorosa de Cyrano de Bergerac, que foi um pouco de tudo, de poeta a espadachim, de dramaturgo a cientista, filósofo e um valeroso escritor de cartas de amor, apaixonadas, sensíveis, enternecedoras. Não as usava em proveito próprio, porque pensava que ninguém seria capaz de o amar, dada a volumetria do seu nariz, mas escrevia-as e enviava-as em nome de Christian, à amada de ambos, Roxanne. Cyrano privava-se assim do amor da sua bem amada prima, para a oferecer a Christian, seu alter ego em questões amorosas. Esta é uma bela história de amor por interposta pessoa e a peça teatral dela retirada, com raro sentido poético, intrepidez e galanteria, seria alvo de várias encenações ao longo dos tempos. No cinema também não foram poucas as adaptações, sendo as mais célebres a de Jose Ferrer, uma produção de Stanley Kramer, com realização de Michael Gordon (1959) e a de Gerard Depardieu, com direcção do francês Jean-Paul Rappeneau (1990). Será de citar ainda uma comédia norte-americana, assinada por Fred Schepisi em 1987, e que chamava a primeiro plano o objecto da paixão de Cyrano, Roxanne. Os intérpretes eram  Steve Martin e Daryl Hannah. Por Portugal esta peça tem conhecido igualmente várias encenações, a última das quais estreou há dias no Teatro Nacional de D. Maria II. Diga-se desde já que com resultados brilhantes.


Se a peça é excelente, complexa e densa, mas profundamente popular, escrita em saborosos e límpidos versos, que a tradução de Nuno Júdice serve de forma magnífica, e a adaptação de João Maria André conserva, tudo o mais não fica a dever nada ao original. A encenação de João Mota (que deixa agora a direcção do Teatro Nacional de D. Maria II) é modelar em muitos aspectos, jogando com a espectacularidade e o intimismo com acerto. Os cenários de José Manuel Castanheira são sumptuosos e plasticamente muito bonitos, e o guarda-roupa da equipa Storytailors está à altura, com belíssimos figurinos. Muito bons ainda o desenho de luz de P. Graça e desenho de som e sonoplastia de Pedro Costa, Rui Dâmaso e Sérgio Henriques. A música de Pedro Carneiro é inspiradíssima, conjugando bem com a sonoplastia. Finalmente, o elenco vastíssimo, mas de grande homogeneidade, onde imperam dois actores magníficos: Diogo Infante como Cyrano, não ficando em nada atrás dos monstros sagrados que o antecederam a compor a figura, e a belíssima Sara Carinhas, uma doce e empreendedora Roxanne, a que a actriz empresta uma modernidade de tom que surpreende e sabe bem.
Um espectáculo a não perder, que se arrisca a ter casas cheias, mostrando que afinal o teatro “quando é bom” é mesmo bom e o público sabe corresponder. Grande despedida de João Mota do Nacional D. Maria II.



CYRANO DE BERGERAC, de Edmond Rostand; tradução: Nuno Júdice; Adaptação: João Maria André; versão cénica e encenação: João Mota; cenografia: José Manuel Castanheira; figurinos: Storytailors; desenho de luz: P. Graça; música: Pedro Carneiro; desenho de som e sonoplastia: Pedro Costa, Rui Dâmaso, Sérgio Henriques; mestre de esgrima: Miguel de Andrade Gomes; caracterização: Nuno Elias; Cabelos: Helena Vaz Pereira para Griffe Hair Style; Maquilhagem: Carla Pinho; assistentes de encenação: Fábio Vaz (estagiário da ESTC); assistente de cenografia: Luna Rebelo (estagiária); Intérpretes: Diogo Infante, Virgílio Castelo, Sara Carinhas, João Jesus, João Grosso, José Neves, Lúcia Maria, Manuel Coelho, Maria Amélia Matta, Paula Mora, Alberto Villar, Bernardo Chatillon, Celestino Silva, Frederico Coutinho, Joana Cotrim, Jorge Albuquerque, Lita Pedreira, Luis Geraldo, Marco Paiva, Nídia Roque, Rita Figueiredo, Simon Frankel e Bernardo Souto, José Sotero; produção TNDM II; duração 2h25 (com intervalo); M/12 anos; 

domingo, julho 13, 2014

TEATRO: TRÊS MULHERES ALTAS



TRÊS MULHERES ALTAS


“Três Mulheres Altas”, de Edward Albee, é considerada uma das peças mais pessoais, mesmo autobiográficas em muito do seu traçado, do autor de “Quem Tem Medo de Virgínia Woolf?” que a escreveu pouco tempo após a morte da sua mãe adoptiva. É também dos seus trabalhos menos conhecidos e ainda bem que o Teatro Nacional de D. Maria II a deu a conhecer agora, pois se trata de um trabalho extremamente interessante, uma obra cénica de notável concepção, interligando em palco o discurso de três mulheres, em três fases distintas da sua vida, juventude, maturidade e velhice, que rapidamente se descobre serem a mesma pessoa, justapondo momentos diferentes da sua existência que dialogam entre si.
Esta dolorosa, e por vezes divertida, meditação sobre a vida (e a morte), sobre as relações humanas (aqui uma especial referência às relações com o filho, quase sempre ausente, seguramente uma das “culpas” a espiar por Albee), é um discurso intimista de uma agudeza de análise e de um humanismo que raras vezes se vê em palcos, com tal profundidade e clareza. Por entre um certo desespero, algum conformismo que roça também a revolta, e uma esperança sempre presente, “Três Mulheres Altas” ficará certamente como um dos bons espectáculos deste ano de 2014, servido por uma inteligente e límpida encenação de Manuel Coelho, inscrita num bom cenário de F. Ribeiro, plasticamente bonito e cenicamente eficaz.  As três mulheres oferecem matéria para Catarina Avelar brilhar num desempenho magnífico, Inês Castel-Branco demonstrar todas as suas qualidades e potencialidades e Paula Mora marcar igualmente uma boa presença. Um bom espectáculo, portanto, que se saúda



TRÊS MULHERES ALTAS (Three Tall Women), de Edward Albee; tradução Marta Mendonça; encenação Manuel Coelho; cenografia F. Ribeiro; figurinos Dino Alves; música original José Salgueiro; desenho de luz José Carlos Nascimento; cabelos e maquilhagem Carla Pinho; assistência de encenação José Neves; Intérpretes: Catarina Avelar, Inês Castel-Branco, Paula Mora e José Neves; produção TNDM II; M/16 anos. 

sábado, junho 28, 2014

TEATRO: TOMORROW MORNING


TOMORROW MORNING

“Tomorrow Morning” é um musical que recentemente subiu aos palcos mundiais, com origem em Inglaterra. Passou depois por alguns dos maiores teatros de países como os EUA, a Austrália,  Coreia do Sul e outros. Chegou agora a Portugal, abrindo, no Auditório dos Oceanos, no Casino de Lisboa, uma temporada curta, entre 4 e 29 de Junho.
“Tomorrow Morning” tem letra e música do compositor e escritor britânico, Laurence Mark Wythe, tendo estreado no New End Theatre, em Londres, em 2006. Quando se esteou em Chicago, o texto e a estrutura foram rectificados. A versão que chega até nós acompanha a de Chicago e tem tradução e adaptação de Ana Cardoso Pires, Miguel Dias e Eduardo Barreto, e encenação deste último.
Em palco, numa caixa que se abre para revelar os segredos de dois casais, uma historieta não muito original: um casal que já passou os 40 e se prepara para o divórcio, e um casal próximo dos 30 que organiza o próximo casamento. 
Os mais novos são Jonny (Ruben Madureira) e Kati (Sissi Martins) e os veteranos João (Mário Redondo) e Catarina (Wanda Stuart). A partir de certa altura, percebe-se claramente que os dois casais são um só, mas em tempos diferentes das suas vidas. Enfim, o amor, o casamento, as traições, a culpa, o perdão, a esperança. A vida. Nada de muito novo e, sobretudo, nada de surpreendente. Nem no assunto, nem na forma deste ser abordado. 

Mas a banda sonora, muito na tradição do musical britânico, ouve-se com agrado, a encenação é cuidadosa e revela alguma imaginação, e os quatro actores/cantores são de qualidade acima da média, e defendem bem as suas personagens. São eles basicamente quem sustenta o possível sucesso deste musical por terras lusitanas, mostrando mais uma vez que o musical é possível entre nós. Talento existe.
   

domingo, maio 11, 2014

TEATRO: 8 MULHERES

8 MULHERES

“8 Mulheres” é uma peça teatral do francês Robert Thomas que mistura com alguma agilidade a comédia e o policial. Tudo se passa no salão de uma casa senhorial na província francesa, na época do Natal, com muita neve a isolar oito mulheres, seis da família e duas empregadas. É manhã, e todas esperam que o único homem da casa acorde, para tomar o pequeno almoço, mas este não sai do quarto. Vão descobrir que o corpo do mesmo  se encontra na cama, envolto em sangue, com o cabo de uma faca a sair-lhe das costas. Crime!, dizem elas. E uma das oito mulheres será a criminosa, pois todas têm algum motivo para o ajuste de contas e nenhuma delas tem um alibi muito forte. A estrutura policial baseia-se nesta curiosidade de saber quem poderia ter assassinado o homem da casa, a comédia vem sobretudo do facto de toda a gente ter algo a esconder. Divertido, um pouco na linha de Agatha Christie e dos “Ten Little Niggers”.
A peça teve sucesso e múltiplas encenações por todo o mundo, mas o êxito veio-lhe sobretudo de uma excelente adaptação para cinema assinada por François Ozon, com oito mulheres de luxo a integrarem o elenco: Catherine Deneuve, Isabelle Huppert, Emmanuelle Béart , Fanny Ardant, Virgine Ledoyen, Danielle Darrieux, Firmine Richard e Ludivine Sagnier.  Ozon, que é definitivamente um dos mais interessantes cineastas franceses no activo, introduz uma novidade de peso: cada personagem tem direito a uma canção mais ou menos conhecida do reportório francês, e o talento narrativo do cineasta, aliado à genialidade de algumas das actrizes e à intensidade dos momentos musicais faz do filme um clássico.  
Agora, o grupo “Tenda”, com encenação de Hélder Gamboa, leva à cena no Teatro da Trindade, “8 Mulheres”, com um elenco interessante, onde se podem ver Ângela Pinto, Carmen Santos, Catarina Mago, Custódia Gallego, Inês Castel-Branco, Joana Brandão, Paula Guedes e Victoria Guerra. A qualidade é irregular, mas de um modo geral é agradável e eficaz, com relevo para Custódia Gallego e Inês Castel-Branco, Paula Guedes e Ângela Pinto. Mas o mais evidente é que a direcção de actores não foi muito exigente e cada actriz funciona em registo livre.
A encenação é o mais discutível do espectáculo. O cenário não é brilhante, a utilização de elementos de outros espectáculos não ajudou, mas sobretudo há incoerências que tornam frágil a globalidade. Por exemplo: porquê nomes portugueses e franceses nas personagens? Porquê a utilização de duas canções na versão teatral, sem qualquer justificação? Por quê a mescla de guarda-roupa, que não define nem época nem personagem? Mesmo ao nível das marcações e da movimentação das actrizes ressalta um certo primarismo.
Mas, neste momento da vida nacional, em que resistir é importante, tudo o que se faça para manter teatros a funcionar, actores e técnicos a trabalhar e público a frequentar as salas, será bem-vindo. De resto, apesar alguns reparos, “8 Mulheres” merece uma visita.

8 MULHERES (8 Femmes)
Texto de Robert Thomas; encenação Hélder Gamboa; produção musical Fernando Martins; coreografia Paulo Jesus; cenografia Eurico Lopes; guarda-roupa Sandra Rodrigues; assistente de encenação Gonçalo Ferreira; desenho de Luz Paulo Sabino; produção executiva Miguel Manaças: produção Tenda; Intérpretes: Ângela Pinto, Carmen Santos, Catarina Mago, Custódia Gallego, Inês Castel-Branco, Joana Brandão, Paula Guedes e Vitória Guerra; Teatro da Trindade, até 1 Junho;  4ª feira a sáb. 21h30, domingo 18h; M / 12 anos.

segunda-feira, abril 28, 2014

TEATRO: BOEING, BOEING


BOEING, BOEING

O teatro tem muitas formas de se exprimir e uma comédia de costumes (ou de maus costumes) ou vaudeville, também é teatro. Normalmente são comédias populares, relativamente simples nos seus propósitos e construção, sem grandes estudos psicológicos ou subtextos sociais ou políticos. Digamos que pode este género pode ir ligar-se ao teatro de boulevard que surgiu em França no século XVI, nas grandes feiras da cidade, e que posteriormente se foi aburguesando, desviado dos recintos populares para as salas dos boulevards parisienses.   
Tem uma construção relativamente simples, vive de casos amorosos, normalmente de adultérios, e costuma ter muitas portas no cenário, por onde saem e entram personagens que não convém encontrarem-se no mesmo tempo e local. Quando isso acontece, é a tragédia em forma de comédia. No seculo XIX teve uma grande vivacidade em França, com excelentes autores como Georges Feydeau, Eugène Scribe, Eugène Labiche, Georges Courteline, entre outros, que ainda se encenam um pouco por todo o lado com evidente sucesso e agrado público.
Já no século XX, Marc Camoletti, nascido em Genebra, mas a trabalhar em França desde cedo, foi um dramaturgo e encenador dos mais populares, sobretudo e precisamente pelos seus vaudevilles adaptados ao seu tempo. Foi ele que escreveu “Boeing-Boeing”, que o “Guiness Book of Records” considera “a peça francesa mais representada no mundo inteiro”, com mais de 10 000 representações mundiais. Mas Camoletti deu à luz mais de quarenta peças, encenadas em mais de 55 países, com dezena e meia adaptada ao cinema e à televisão. “Boeing-Boeing” foi uma delas, realizada por John Rich, e interpretada por Tony Curtis e Jerry Lewis, ao lado de Christiane Schmidtmer, Dany Saval, Suzanna Leigh e ainda a inigualável Thelma Ritter. Não é das melhores comédias de Jerry Lewis, para mim um génio do humor, mas é o suficiente para muitos gostarem muito, entre os quais Quentin Tarantino, que seleccionou o filme para o seu primeiro Quentin Tarantino Film Fest, em Austin, Texas, em 1996.
A peça chegou a Lisboa e teve temporada no Trindade, com enorme sucesso de público (mais de 10.000 espectadores), e prepara-se, segundo sei, para partir em tournée. Vale a pena falar sobre ela, pois se trata de um espectáculo muito divertido, bem encenado num cenário único, de uma brancura esmerada, paredes interrompidas por várias portas que conduzem a quartos (muitos), casas de banhos (uma), cozinha, e obviamente um recheio pejado de trocadilhos que terminam num engarrafamento de trânsito aéreo invulgar. Na peça francesa, o pinga amores é arquitecto, por cá é jornalista, mas para o caso não interessa. O que conta é que possui um apartamento muito movimentado com entradas e saídas de hospedeiras de bordo, que o jornalista controla ao minuto: sai uma agora, entra a outra, levanta voo a seguinte e aterra uma nova, para ninguém colidir com ninguém. A hospedeira francesa, a inglesa e a alemã (no original, em Portugal aparece uma brasileira a substituir a inglesa, e uma italiana em vez da francesa) estão todas noivas do mesmo homem, que não pensa casar com nenhuma. Até ao dia em que surge nos ares o Boeing 747, que torna as viagens muito mais rápidas e as escalas impossíveis de coordenar. Desponta assim o frenesim das portas que se abrem e fecham e a diversão promete, bem assim como a moralidade final. Há hospedeiras para todos, nenhuma fica apeada e o sacrossanto casamento não deixa de ser salvo. Mas a coisa tem graça, é bastante divertida, requer um savoir faire de ritmo invulgar (encenação de Claudio Hochman), e os actores (Luís Esparteiro e João Didelet) cumprem e as actrizes sobressaem sob todos os pontos de vista (Elsa Galvão, a empregada, tem muita graça a transformar a casa a cada nova partida e chegada, Sofia Ribeiro, Patrícia Tavares, Melânia Gomes, as hospedeiras, cada uma no seu estilo, dominam a cena).
Posto isto, “Boeing, Boeing” anda no ar, e prepara-se por aterrar por aí. Estejam atentos. É uma comédia despretensiosa, sem grandes preocupações, a não ser fazer rir e sorrir. O teatro também é isso. E às vezes mais vale uma comédia assim que um presunçoso e falhado espectáculo de teatro “vanguardista” que só procura atirar areia para os olhos. A versão da Broadway foi galardoada com os Tonys, um para Melhor Peça e outro para Melhor Actor.




Boeing, Boeing – Texto: Marc Camoletti; tradução Marc Xavier; adaptação Paulo Sousa Costa; encenação Cláudio Hochman; produção Yellow Star Company; Intérpretes: Luis Esparteiro, João Didelet, Elsa Galvão, Sofia Ribeiro, Patrícia Tavares, Melânia Gomes.

terça-feira, abril 15, 2014

TEATRO: O INSPECTOR GERAL


“O INSPECTOR GERAL” NO CARTAXO

“O Inspector Geral”, de Nikolai Gogol, uma peça escrita em 1836, falando da Ucrânia natal do escritor, ou da Rússia em cuja língua Gogol sempre escreveu, ou de qualquer outro país onde se possa adaptar a crítica (infelizmente, a todos), é uma obra universal que parece ter desenvolvido polémica ao longo dos tempos, sem que se perceba porquê. “O Inspector Geral” é uma peça política, local e mundial, que nos fala não tanto de uns certos políticos (que os há, oh se há!, mas não são todos!), mas sobretudo da condição humana que, quer queiramos ou não, permanece imutável com o rolar do séculos. Na verdade há muita gente que se procura aproveitar das situações e dos postos que ocupa, há muito traste corrupto, muita inveja, muita snobeira, muita intriga, muito oportunista, muito arrivista, e a História da Humanidade tem sido um confronto constante entre Maus e Bons, com uma alta percentagem de Assim-Assins pelo meio, que lá vão fazendo progredir lentamente a roda da História. Gogol serve-se de uma anedota, desenvolvida com mestria, para apontar o dedo na direcção certa.
Curiosamente a peça tem milhares de representações pelo mundo fora e algumas adaptadas às realidades de outros países. Em Portugal, Raúl Solnado inaugurou o seu Teatro Villaret (1965) com uma encenação memorável; aqui não há muitos anos (2009) a Maria do Céu Guerra deu-nos outra excelente versão, na Barraca (ver aqui), e no cinema ficou célebre a adaptação, realizada por Henry Koster, em 1949, com Danny Kaye no protagonista.


A história é muito simples: as autoridades de uma pequena localidade descobrem, por vias travessas, que um inspector dos serviços centrais está para chegar à povoação para inspeccionar o funcionamento local. Com culpas no cartório e muitos segredos na manga, o edil e outros responsáveis procuram localizar o inspector antes de ele se anunciar e cortejá-lo de forma a domesticar a inspecção. Se necessário, com benesses várias, notas, muitas notas entregues por debaixo da mesa, ofertas diversificadas, que vão até à sedução da mulher e da filha do presidente. Desgraçadamente, enganam-se no figurão, e passam uns dias a cumular de prendas não o inspector geral, mas um aldrabão que se aproveita da situação.
Depois de terem encenado Oscar Wilde (“Um Marido Ideal”), Bernardo Santareno (“O Crime de Aldeia Velha”), William Shakespeare (“As Alegres Comadres de Windsor”), Eduardo De Filippo (“Nápoles Milionária”), um original (“Pânico”), e Alice Vieira (“Trisavó de Pistola à Cinta”), a Área de Serviço, uma companhia de teatro comunitário, criada no Cartaxo, e que tem em Frederico Corado o seu encenador e impulsionador desde a primeira hora, levou agora à cena, no Centro Cultural do Cartaxo, uma nova versão de “O Inspector Geral”, adaptada a Portugal e a este período de austeridade troiqueana.
Este espectáculo deve ser visto sob vários aspectos. Esteticamente é muito conseguido, com cenários económicos (a companhia não tem subsídios, vive de si própria e dos pequenos apoios locais), mas muito bonitos e eficazes, numa encenação inventiva, e um tratamento técnico que não fica nada a dever aos profissionais (sim, toda a companhia é amadora, trabalha pelo prazer de fazer teatro, bom teatro, veja-se a escolha intransigente dos autores). Quanto ao grupo de actores, que já chegou a ter em palco mais de 60 intervenientes, os progressos são evidentes. A rodagem vai trazendo experiência e há já muito boas surpresas e um nível global que não envergonha ninguém. O resultado final é muito divertido, contundente, não procura o riso fácil, nem o êxito a todo o custo. As salas do Centro Cultural do Cartaxo estão sempre cheias (esgotadas ou quase) e o trabalho da companhia é saudado por todos quantos ali se deslocam.
Mas há um outro aspecto particularmente relevante nesta companhia. Os mais de 40 elementos que a integram regularmente são trabalhadores, estudantes, reformados e encontram ali um refúgio para as suas frustrações pessoais, aspirações, solidão, crises emocionais, problemas profissionais, etc. Num momento tão dramático da nossa vida colectiva, a existência de grupos como este é não só um estímulo cultural notável, como uma benesse social de invulgar significado. É altura de os poderes locais e nacionais encararem esta iniciativa com outro olhar e sobretudo que a comunicação social lhe empreste a visibilidade que merece. Se “O Inspector Geral” nos fala dos trafulhas, esta companhia comunitária mostra-nos o outro lado da sociedade, aquele que deve ser acarinhado e aplaudido.
observação: para os devidos efeitos tenho a declarar que o Frederico Corado é meu filho. Pode dar-se o caso de haver alguma parcialidade, que tento sempre contrariar. Mas, ficam a saber.  


Fotos : Neno Photo e Germano Campos, que agradeço.
O INSPECTOR GERAL, de Nikolai Gogol; Encenação e Adaptação: Frederico Corado; Concepção e Execução Cenográfica: Frederico Corado, Carlos Ouro e Mário Júlio; Produção CCC: Marco Guerra e Carlos Ouro; Produção Área de Serviço: Frederico Corado, Florbela Silva e Vânia Calado com a assistência de Pedro Ouro, Carolina Viana, Rita Correia Alves; Grafismo: Cátia Garcia; Assistente de Encenação: Florbela Silva, Maria Ramalho e Rita Correia Alves; Desenho de Luz: Ricardo Campos; Direcção Musical: Maestro Nuno Mesquita com a Banda da Sociedade Cultural e Recreativa de Vale da Pinta; Direcção de Cena: Mário Júlio; Contra-Regra: Filipe Falua; Fotografia: Vitor Neno; Montagem: Mário Júlio e Vitor Lima; Intérpretes: André Diogo, João Nunes, Sara Xavier, Vânia Calado, Mauro Cebolo, Mário Júlio, Pedro Ouro, Pedro Lino, Júlio Cardoso, Norberto Sousa, Luís Rosa Mendes, Paulo Cabral, Daniel Mateus, Constança Lopes, Ana Rita Oliveira, Carolina Viana, José Manuel Rodrigues, Miguel Viegas, André Vieira, José Ribeiro, Rosário Narciso, Mena Caetano, Jeanine Steuve, Isabel Coelho, José Falagueira, Maria Cerqueira, Bruna Diogo Santos, Amélia Martins, César Cordeiro, Susana Pais, Carlos Ramos, Guilherme Vicente, Inês Perdigão, Andreia Lourenço e Inês Barbosa; Uma Produção do Área de Serviço com o Centro Cultural do Cartaxo e a Mosaico e Entrar Em Palco; Bilhetes: 4€ •• M12 anos; Próximo espectáculo: dia 25 de Abril. 

domingo, março 02, 2014

TEATRO: “PÂNICO”


“PÂNICO” NO CARTAXO

Os ingleses têm uma palavra que quer dizer muita coisa. Play. Pode ser, por exemplo, brincar, jogar ou interpretar. Estes três conceitos andam por vezes ligados, e quando se assiste a uma peça de teatro, os actores interpretam, jogam e brincam, quando o significado de brincar é o desenvolver uma actividade que lhes dá prazer.
No Cartaxo, no edifício de uma escola há pouco tempo desactivada, o colectivo teatral “Área de Serviço” procura isso mesmo, surpreendendo todos os que ousarem desafiar o desconhecido. Eles apresentam a ideia assim: “Há quem tenha medo de tudo. E quem não tenha medo de nada. Mas ninguém resiste a ver até onde vai o seu limite. E no limite está o PÂNICO”.
Numa escola fora de serviço do Cartaxo, uma equipa de televisão de um programa dedicado a casos paranormais, procura saber por que  circula o boato (será boato?) que aquele edifício está assombrado, possuído por seres do outro mundo, espíritos maléficos. Será herança de um padre que executou mais de duzentos exorcismos? De sala em sala vão procurando a solução para o mistério, mas só vão encontrando mais certezas trágicas.
Medo, muito medo? Enfim, há muitos momentos de frison, mas o que há sobretudo é um divertimento cheio de graça, de invenção, parodiando vários estereótipos de filmes de terror, com os actores a gozarem as situações imaginadas, juntamente com os espectadores que os acompanham neste “trágico” percurso. O elenco é de amadores, daqueles que “amam” o que fazem nas horas vagas, uma companhia de teatro comunitário que já nos deu Oscar Wilde, William Shakespeare, Bernardo Santareno e Eduardo de Fillipo e que agora resolveu divertir-se e divertir-nos. São eles João Nunes, Vânia Calado, Pedro Lino, Pedro Ouro, Constança Lopes, Mauro Cebolo, Ana Rita Oliveira, Carolina Viana, Jeanine Steuve, José Falagueira, Maria Cerqueira e Alexandre Amendoeira. A ideia, texto e encenação é do Frederico Corado, com colaboração no texto de Vânia Calado, sendo a concepção e execução cenográfica de Frederico Corado e Mário Júlio, a produção da Área de Serviço (Frederico Corado, Florbela Silva e Vânia Calado), o design de Cátia Garcia, o desenho de luz de Ricardo Campos, tendo como assistente de encenação Florbela Silva, Rita Correia Alves, Pedro Ouro e Maria Ramalho. Desenho de som e ambientes sonoros é de Pedro Bona, a fotografia de Vitor Neno, a montagem de Mário Júlio e o contra-regra chama-se Henrique Carvalho. Esta é uma produção da “Área de Serviço” com a colaboração do Centro Cultural do Cartaxo e “Entrar em Palco”. A estreia aconteceu a 28 de Fevereiro, com duas sessões, e continua a 1, 2, 3 e 4 de Março às 21h30 e 23h00.

Posto isto, eu diverti-me imenso no ensaio geral. Mas é conveniente acrescentar que o brincalhão mor deste “Pânico” é o meu filho Frederico Corado. Fica a ressalva. Eu estou muito orgulhoso das suas façanhas cénicas, mas, já se sabe, pai é pai. Mas, com a maior imparcialidade, creio que vale mesmo a pena.


sábado, dezembro 14, 2013

TEATRO: ROBIN DOS BOSQUES


ROBIN DOS BOSQUES

Filipe La Féria continua a não descurar o seu público mais jovem e voltou a encenar uma peça baseada num herói mítico que tem acompanhado diversas gerações e cujo regresso a cena se saúda, numa altura em que muitos proclamam, pela Europa fora (e em Portugal, em particular), que fazia falta um (ou vários) Robins dos Bosques para imporem alguma justiça neste regabofe de impunidade contributiva que faz lembrar os tempos negros do Xerife de Nottingham e do famigerado Príncipe João.
Pois bem, o Robin Hood da floresta de Sherwood aí está numa divertida encenação com o toque mágico de Filipe La Féria (uma encenação que, dir-se-ia, possui um vestígio de teatro épico e didáctico de Brecht), com um equilibrado elenco e um bom aproveitamento das condições do Teatro Politeama. O enredo segue mais ou menos as tradicionais baladas medievais que exaltavam a figura do bandoleiro que roubava aos ricos para dar aos pobres, e introduz mesmo algumas variantes que fazem vibrar os mais novos, como a bruxa Camafeu e um terrível dragão.
Ricardo Soler é o Robin dos Bosques, “Príncipe dos Ladrões” e paladino da justiça social,  Sara Cabeleira é Lady Marian,  e Ana Sofia Cruz a Aia Briolanja. No bando de Robin dos Bosques surgem ainda João Pequeno (Bruno Xavier), Piolho (David Mesquita), Pitosga (Jonas Cardoso), Trovador (Pedro Bandeira) e Pastelão (Paulo Ferreira), todos eles em luta contra os roubos e os impostos mirabolantes decretados pelo Príncipe João (Sérgio Lucas) e brutalmente impostos pelo Xerife de Nottingham (Tiago Isidro). A Bruxa Camafeu (Vânia Naia) tem uma breve mas explosiva aparição.
O espectáculo tem sessões no Teatro Politeama, às 11h da manhã e às 14 horas de Terça a Sexta-feira e aos Sábados e Domingos, às 15 horas.

A miudagem delira com mais este musical. Eu assisti e comprovo.  

TEATRO: OS JURAMENTOS INDISCRETOS


OS JURAMENTOS INDISCRETOS

O teatro de Marivaux atravessa toda a primeira metade do século XVIII numa toada de discreta comédia de costumes, onde o amor é o tema central, e os seus infortúnios a base da trama. Em “Os Juramentos Indiscretos”, escrito em 1732, não se foge à regra deste teatro que não direi de excepção, mas que está longe de ser negligenciado. Marivaux sabia construir e sustentar uma comédia de enganos e equívocos, que daria depois lugar à comédia de boulevard de inspiração francesa, e que terá tido como influência directa a commedia dell'arte italiana e de alguma forma Molière, ainda que este fosse bem mais demolidor na sua crítica social.
Em “Os Juramentos Indiscretos”, temos uma ténue intriga: Orgon e Ergaste são pais de Lucile e Phénice, o primeiro, e de  Damis, o segundo. Como era uso e costume na época, resolvem selar a amizade que os liga e os interesses que os unem organizando o casamento de Damis com Lucile. Mas os jovens não estão pelos ajustes e, antes mesmo de se conhecerem, resolvem impugnar a decisão paterna. Ela não quer casar, ele tem horror ao casamento. Até que se encontram, se apaixonam, mas resolvem estabelecer um pacto de nunca se casarem um com o outro. À falta de Lucile, salta para a cena Phénice, a irmã de Lucile, e afinal o casamento com Damis é marcado. Para lá desta intriga, lateralmente, surgem Lisette, e Frontin, criados de Lucile e de Damis, respectivamente, que assumem os desejos dos seus jovens patrões, inclusive por calculismo, para manterem os bons empregos. Mas Lucile torna-se uma obsessão para Damis, e este um secreto desgosto para Lucile. Mas, como estamos no domínio da comédia de sentimentos em que o amor triunfa sempre, lá chegará a altura de tudo se compor. Afinal triunfa o amor e a estabilidade social e os pais até tinham razão.
Mas a peça é bem construída, os cordelinhos bem oleados, a graça é discreta e sensível, a elegância mantém-se de princípio até ao fim, e serve perfeitamente para um bom exercício de encenação e representação pelo Teatro dos Aloés. O cenário é muito bonito e engenhoso, a encenação de José Peixoto é delicada e inteligente, um verdadeiro trabalho de miniaturista, atenta a todos os pormenores, movimentando com alegria e vivacidade as personagens no espaço cénico, e trabalhando com eficácia cada frase, cada gesto. O elenco (Adriana Moniz, Carla Chambel, Carlos Malvarez, Jorge Silva, José Peixoto, Nuno Nunes e Sara Cipriano) é globalmente bastante competente e deixa-se contaminar pela graça festiva do texto, a iluminação é excelente, tirando bom partido do cenário, e o acompanhamento musical inspirado.
Se a peça não arrasa, o divertimento que provoca é salutar e demonstra o bom momento do Teatro dos Aloés, que se saúda. (Até domingo, 15, no Teatro D. Maria II).


OS JURAMENTOS INDISCRETOS (Les Serments Indiscrets), de Marivaux; tradução Maria João Brilhante; encenação José Peixoto; cenografia Marta Carreiras; conceito de figurinos Marta Carreiras a partir dos figurinos do espólio do TNDM II de Abílio Matos e Silva, Catarina Amaro, Nuno Carinhas, Octávio Clérigo, Ruy de Matos; desenho de luz Jochen Pasternacki; música Luís Cília; Assistência de encenação Anna Eremin; Intérpretes:  Adriana Moniz, Carla Chambel, Carlos Malvarez, Jorge Silva, José Peixoto, Nuno Nunes, Sara Cipriano; coprodução Teatro dos Aloés, TNSJ. M/12 anos. 

sexta-feira, novembro 29, 2013

TEATRO: EM DIRECÇÃO AOS CÉUS


EM DIRECÇÃO AOS CÉUS
“Em Direcção aos Céus”, escrita por Ödön von Horváth (1901–1938), é, no entender do autor, “uma comédia sem truques de magia: dado o momento que vivemos, creio que este tipo de teatro pode ser bastante útil, uma vez que nos permite abordar temas de que não nos seria possível falar de outra forma”. Datada de 1934, a peça ressente-se já do ambiente vivido na Alemanha (e na Áustria, onde seria estreada). Edmund Josef von Horváth nascera em Sušak, Rijeka, no então Império Austro-húngaro (hoje Croácia) e viria a falecer novo, com 37 anos, em Paris. Para assinar os seus trabalhos teatrais e literários assumiu o seu nome húngaro, Ödön von Horváth, dado que habitou Budapeste durante alguns anos da sua juventude. Com um pai diplomata, viajou muito, passando por Belgrado (1902-1908), Budapeste (1908–1913), Munique (1913-1916), Bratislava (1916-1918), Viena (1919) e de novo Munique, onde começou os estudos literários na Universidade. Começou a escrever cedo, raros romances e um número avultado de peças de teatro, que os seus estudiosos dividem em duas fases: uma até 1933, altura em que foge da Alemanha em crescente nazificação, outra a partir dai, com obras escritas quer em Viena de Áustria, quer em Paris. Inicialmente, dir-se-ia um autor mais directamente politizado e crítico, depois seria lido como um dramaturgo metafórico e algo metafísico. Terá sido a forma por si encontrada para “abordar temas de que não nos seria possível falar de outra forma”. Mas permanece popular e crítico, efabulador e satírico.
Da primeira fase são as obras mais conhecidas do público português: "Casimiro e Carolina", encenada por Luís Miguel Cintra, Cristina Reis e Jorge Silva Melo, na Cornucópia, em 1977, "A Noite Italiana", dirigida por Mário Barradas, em Évora, em 1995, ou "Histórias do Bosque de Viena", prémio Kleist, da República de Weimar, em 1931, encenada pelo colectivo Truta.
“Em Direcção aos Céus” fala de teatro, de uma jovem cantora que permanece várias semanas à porta de um teatro, à espera de uma audição, quando a mãe morre e vai para o Céu, e o pai morre e vai para o Inferno. O palco divide-se em três zonas, no centro o teatro (exterior), na direita a entrada do Céu, na esquerda a descida ao Inferno. De um lado, São Pedro, do outro, o Diabo, ambos transaccionando almas. Para ser uma grande diva, Luísa Steinthaler aceita vender a alma ao director da companhia, que por sua vez a revende ao Diabo, para ter uma vida de sucesso. O resto decorre daqui, é divertido e instrutivo, tendo as canções da época e as áreas das óperas cantadas por Luísa como banda sonora.
A escolha da peça para o reportório do Teatro Municipal Joaquim Benite, de Almada, parece-me feliz, por ser uma obra simultaneamente popular e exigente, e conta com uma encenação segura, sóbria e inventiva de Rodrigo Francisco. A cenografia de Jean-Guy Lecat é particularmente feliz, e os figurinos de Ana Paula Rocha muito sugestivos. Globalmente, a representação é toda ela muito homogénea, mas há que sublinhar o trabalho de Ana Cris, André Alves, André Gomes, Joana Francampos, Luís Vicente, Marques d'Arede ou Teresa Gafeira.



EM DIRECÇÃO AOS CÉUS

Texto de Ödön von Horváth; Tradução Maria Gabriela Fragoso; Encenação: Rodrigo Francisco; Cenografia Jean-Guy Lecat; Figurinos Ana Paula Rocha; Luz Guilherme Frazão; Voz e elocução Luís Madureira; Som Miguel Laureano; Movimento Catarina Câmara; Intérpretes Ana Cris, André Alves, André Gomes, Carlos Pereira, Catarina Reis, Celestino Silva, Duarte Guimarães, Joana Francampos, João Farraia, Luís Vicente, Manuel Mendonça, Marques D’Arede, Miguel Martins, Paulo Guerreiro, Pedro Walter e Teresa Gafeira e os estagiários Alexandre Silva, Ana Rita Trino e Rute Guerreiro; Sala Principal, de 2 a 30 de Novembro; de quarta a sábado, às 21H30, domingo, às 16H00; Duração: 2H00 com Intervalo; M/12 anos. 

quinta-feira, setembro 05, 2013

TEATRO: LAR, DOCE LAR


LAR, DOCE LAR

Uma comédia não é material de segunda. Alguns pensam assim, e pensam mal. Realmente há muita gente que faz más comédias (o que, diga-se!, acontece com qualquer género), mas uma boa comédia é normalmente um trabalho de grande qualidade. Que o digam Gil Vicente, Goldoni, Molière, e por aí fora, até à actualidade. Depois, há grandes actores cómicos que fizeram peças boas, más e assim-assim, filmes admiráveis, fracos e que seriam horríveis sem a sua presença. Chaplin e Buster Keaton nunca erraram (Keaton teve de aceitar certos trabalhos, no final da carreira, para se alimentar). Totó, para mim um dos maiores actores cómicos de sempre, fez de tudo e a tudo vale a pena assistir só para o ver a ele, mas por vezes é de arrepelar os cabelos vê-lo desbaratar aquele talento imenso em coisas tão medíocres.
 Mas a comédia é um género muito difícil e é raro acertar-se numa grande comédia. E o que é isso? É um espectáculo em que o texto tem qualidade, é inteligente, sensível, crítico, tem ritmo, não amolece pelo caminho, nem se atropela, é servido por bons actores, que retiram das palavras tudo quanto elas encerram e, se possível, as favorecem, e depois, falando do teatro, o cenário é justo, o trabalho dos técnicos é competente, e o encenador movimenta todos os cordelinhos para o resultado final ser um sucesso. Houve épocas gloriosas da comédia, mas é um género em equilíbrio instável. Nos últimos anos, há tanta mixórdia servida como prato forte, muitas vezes com sucesso público, que espanta como se desceu tão baixo. No cinema, as comédias americanas, por exemplo, entraram numa decadência tal que se salva uma entre uma centena, com um público cada vez mais boçal a rir de imbecilidades sem nome.
Por isso se deve sublinhar devidamente uma comédia portuguesa que anda há um ano a correr o país, que bate records de audiência e que agora regressou a Lisboa, ao palco do Tivoli. “Lar, Doce Lar” parte de “O Que Importa É Que Sejam Felizes”, de Luísa Costa Gomes, e consegue ser um trabalho invulgar. O texto é muito bem escrito, com um ritmo inusitado, muito bons gags, de situação e de trocadilhos, abordando um tema que já tem servido para várias comédias, mas que resulta original e mesmo um pouco iconoclasta: a velhice passada num lar de luxo para a terceira idade, a residência Antúrios Dourados para Seniores de Qualidade. Um bom texto é sempre um bom ponto de partida e aqui Luísa Costa Gomes acerta em toda a linha, sendo popular sem que isso signifique ser idiota, muito pelo contrário. Depois os actores são magníficos. Maria Rueff e Joaquim Monchique multiplicam-se em papéis e conferem ao espectáculo um ritmo estonteante. Só predestinados conseguem fazer o que eles fazem durante quase duas horas endiabradas, em que as personagens oscilam entre travestis de velhas, jovens, enfermeiras, médicos, e etc. O entrar e sair do eficaz cenário de F. Ribeiro deixa o público sem respiração. O que fará os actores!
A encenação de António Pires é igualmente eficaz, o que também não é difícil com actores a seu lado com a experiência cénica dos dois aqui reunidos. A importância de encontrar no palco o espaço e o tempo certos é essencial para o bom desempenho e eles sabem-na toda.
Posto isto: crise? Claro que há crise, mas uma boa comédia ajuda muito a suportar as agruras que os economistas e os políticos nos impingem diariamente. Não perca “Lar, Doce Lar”. É um excelente antídoto contra o desespero. E depois, um produto natural dá sempre boa disposição, como no-lo dizem as velhinhas, as idosas, as seniores ou os elementos da terceira idade.

LAR, DOCE LAR

Texto: Luísa Costa Gomes; Encenação: António Pires; Cenografia: F. Ribeiro; Desenho de luz: Paulo Sabino; Figurinos: Dino Alves; Intérpretes: Joaquim Monchique, Maria Rueff; Produção: UAU; Teatro Tivoli (de 4 de Setembro a 6 de Outubro, quartas, quintas, sextas, sábados e domingos). 

domingo, setembro 01, 2013

TEATRO: A ESTALAJADEIRA

A ESTALAJADEIRA


“A Estalajadeira”, de Carlo Goldoni, na sua versão encenada por Jorge Silva Melo (que só agora vi, no Luísa Todi, em Setúbal), coloca curiosas questões que sabe bem discutir. Diga-se desde já que a encenação é sóbria, enxuta, movimentando-se com agilidade num cenário frugal, discreto, dispondo apenas dos elementos indispensáveis para o essencial da acção. Escolheu-se um tempo neutro, fala-se de cavaleiros e condes, de estalajadeiras e de outras miudezas do século XVIII, mas bem se podia estar na actualidade. Essa intemporalidade é intencional, e tem a graça de poder também ser obra do século XVIII, como é. Jorge Silva Melo está numa fase da sua vida e da sua arte em que parece que fundamental para si são as palavras dos autores e o corpo e as vozes dos actores. Gosta do clássico que é ainda novo, e do actual que já se apresta a ser clássico. Ainda bem. Assim ninguém se engana com piruetas desnecessárias e vamos ali para ver o que é bom. Os últimos espectáculos dos Artistas Unidos são garantia de que na casa ninguém vende gato por lebre, quando gatos há por aí tantos, anunciados como pitéus de uma iguaria vanguardista que disso só tem o nome.
Posto isto, e prolongando a lógica do que atrás ficou dito, acrescente-se que o trabalho dos actores é globalmente muito bom. Os Artistas Unidos fazem escola, a começar desde logo pela escola de bem dizer. Tudo se ouve e bem, o que não será de somenos quando por aí existe tanta excelência que mal se ouve, que entaramela as sílabas e come as vogais. É norma nalgumas plateias ouvirem-se os espectadores segredarem entre si: o que é que ele/ela disse? Claro que pode ser a estética do “indizível”, porque há justificações para tudo, mas acredito que uma boa dicção ajuda muito, sobretudo se há talento por detrás. Noutras ocasiões, junta-se a falta de talento à deficiente dicção e dormir será mesmo o melhor remédio para ajudar a passar a soirée. No caso dos Artistas Unidos os elencos são preparados com cuidado extremo, e apesar de jovens portam-se muito bem. No caso de “A Estalajadeira”, Américo Silva, António Simão, Catarina Wallenstein, Elmano Sancho, Rúben Gomes, Maria João Falcão, Maria João Pinho, João Delgado e Tiago Nogueira não só estão à altura como nos dão uma lição de representar modernamente. Representam com a voz, mas também com todo o corpo. Vê-los evoluir no palco é algo de reconfortante. Catarina Wallenstein e Elmano Sancho são excepcionais.
Dito o que me parecia importante sobre o espectáculo, resta-me abordar um tema que julgo muito curioso e que se prende com a forma como se adaptam clássicos à actualidade. Há quem diga que os clássicos estão velhos e caducos e que ninguém tem paciência para eles. Portanto, Bach ou Mozart só se aproveitam tocados em punk, Vitor Hugo e Dickens o melhor mesmo é reescrevê-los sob a forma de manifestos vanguardistas, ou então em versão light, e Ibsen ou Tchekov não se vêem se não disserem precisamente o contrário do que diziam, ou vice-versa. O que vale é que há tantos génios a pulular por aí que qualquer deles agarra num clássico e o transforma num ápice numa brilhante peça de desconstrução contemporânea.
Goldoni escreveu “A Estalajadeira” em meados do século XVIII e preparou uma introdução sobre o significado da peça. Texto magnífico, que não precisa de actualização para se perceber e que, através dele, se entender igualmente a mentalidade da época. A sua comédia amável mas corrosiva destinava-se a criticar alguns usos e abusos do tempo, desde os aristocratas falidos que tentam comprar o amor de belas estalajadeiras através do dinheiro ou das honrarias, até às estalajadeiras que descobrem certas fraquezas dos homens e os lisonjeiam e manipulam até os terem a seus pés estendidos (também pode ser ao contrário: elas estenderem-se desmaiadas aos pés dos homens que desejam conquistar, para alcançarem o fim pretendido). 


Goldoni cria uma personagem soberba, Mirandolina, cobiçada por condes, barões, marqueses, cavaleiros e criados, que ela vai pondo e dispondo à distância. Um deles, porém, Ripafratta, acha que mulheres só à distância, não querendo nada com esse sexo dito fraco, que aqui faz das fraquezas forças e mostra que, afinal, quem desdenha quer comprar. Esta a lógica da peça que, no entender de Goldoni, é um severo aviso às mulheres. Com alguma ironia discreta escreve: “Não sabia o que havia de fazer ao terceiro acto, mas, vindo-me à mente que costumam estas aduladoras mulheres, quando os vêem caídos nos seus laços, tratar asperamente os amantes, quis dar um exemplo desta bárbara crueldade, deste injurioso desprezo com que se riem dos desgraçados que venceram, para mostrar o horror da escravidão que esses infelizes procuram e tornar odioso o carácter das encantadoras sereias. (…) Basta que alguém me fique grato pela lição que lhe ofereço. As mulheres que são honradas rejubilarão também por se desmascararem estas simuladoras que desonram o seu sexo, e essas mulheres aduladoras corarão ao encontrarem-me e não me importa que me digam: maldito sejas tu!”
Percebe-se, portanto, que ao escrever “A Estalajadeira” Goldoni, entre outras, pretendia criticar a personalidade da estalajadeira, essa “aduladora sereia”, de “práticas bárbaras”. Estávamos no século XVIII a crítica seria pertinente nesse contexto. Hoje, a personagem da estalajadeira adquire um outro significado, que a encenação de Jorge Silva Melo e a interpretação de Catarina Wallenstein acentuam subtilmente: hoje essa mulher é vista como uma personalidade forte que sabe o que quer, que não se deixa levar pelas lisonjas, que escolhe com quem casa e que se atreve a demonstrar pelo absurdo a falácia do extravagante Ripafratta. A peça adquire um outro significado não por terem desvirtuado o seu teor, mas simplesmente porque os tempos mudaram e o que poderia ser criticável há três seculos é hoje elogiável. Fazer sobressair essas nuances é dever de uma encenação inteligente e atenta aos ares dos tempos.

Pelo que julgo não ser necessário atraiçoar os clássicos para os tornar actuais. Basta apenas ser-se inteligente e retirar deles o que de actual todos conservam. 

sexta-feira, agosto 23, 2013

TEATRO: A VOZ HUMANA

A VOZ HUMANA

Jean Cocteau escreveu, em 1930, um monólogo teatral a que deu o título "La voix humaine". Na Comédie Française, Berthe Bovy viveu em estreia esta tragédia de uma mulher solitária, ligada pelo fio de telefone a alguém que é já passado e que ela tenta por todos os meios fazer reviver. Sem sucesso. Nos anos 40, Rossellini, no cinema, filmou Anna Magnani, numa interpretação soberba. Em Portugal, Maria Barroso, Eunice Muñoz, Isabel de Castro criaram grandes composições que se recordarão sempre. Para interpretar este monólogo de desespero são necessárias grandes actrizes e personalidades fortes que consigam encher um palco durante quarenta a sessenta minutos de dor e sofrimento, sem parceiro visível. Não é o caso de Carmen Santos, que é nitidamente um caso de erro de casting para este papel. Numa encenação de Vicente Alves do Ó (que tão bem dirigira Dalila Carmo, em “Florbela”, no cinema), numa bonita cenografia de Eurico Lopes, Carmen Santos perde-se no palco do Trindade, com uma deficiente dicção, que torna imperceptíveis as palavras (aqui tão importantes!) e não consegue nunca dar força e emoção à personagem. Curiosa a deriva na forma como se desvia o texto do seu significado original, ganhando uma interpretação diversa, mesmo contrária, à ideia de Cocteau. Mas mesmo neste aspecto, o espectáculo necessitava de uma actriz com uma outra perversidade. Fica a intenção e o arrojo de se lançar neste projecto. Infelizmente, quanto a mim, falhado. 

A VOZ HUMANA
Texto de Jean Cocteau; Encenação: Vicente Alves do Ó; Música original: João Gomes; Cenografia: Eurico Lopes; Intérprete: Cármen Santos; Produção: BS-Produção Activa; Teatro da Trindade (de 22 de Agosto a 8 de Setembro).


segunda-feira, agosto 12, 2013

TEATRO: MARAT-SADE NO TEC

MARAT-SADE

O Teatro Experimental de Cascais tem em cena “Marat-Sade” de Peter Weiss, numa encenação de Carlos Avilez, com um elenco de várias dezenas de intérpretes, entre actores da companhia e alunos do curso de teatro. São cerca de 90 pessoas a intervir, um acontecimento “impossível” de acontecer num teatro em Portugal, actualmente, senão em circunstâncias muito especiais, como é o caso. 
“Marat-Sade: a perseguição e assassinato de Marat tal como representado pelos pacientes do Hospício de Charenton sob a direcção de Marquês de Sade” (em alemão Die Verfolgung und Ermordung Jean Paul Marats dargestellt durch die Schauspielgruppe des Hospizes zu Charenton unter Anleitung des Herrn de Sade) foi escrita pelo alemão Peter Weiss, em 1963, e desde logo conheceu grande sucesso e provocou larga polémica. A acção decorre no ano de 1808, em tempo napoleónico, quinze anos depois do assassinato de Marat, às mãos de Charlotte Corday, em 1793. Estamos numa época pós-revolucionária, onde existem revolucionários para todos os gostos e tendências, quase todos vítimas das suas próprias acções e palavras: Marat, Robespierre, Danton, o próprio Sade. A peça coloca frente a frente Sade e Marat, numa discussão filosófica e política sobre a revolução, vista de um prisma individual (Sade) e de uma óptica social radical (Marat). A ideia é que a peça a que assistimos, na sala de banhos do hospício, foi escrita e encenada por Sade, e está a ser representada pelos loucos ali internados. Há entrechoque de interesses e de perspectivas diversas, o que torna aliciante este teatro épico, que fica a dever muito ao teatro da crueldade de Artaud e ao distanciamento de Brecht.


O conceito é brilhante, o seu desenvolvimento notável, de uma inteligência e actualidade gritantes, e o espectáculo erguido na sala do Teatro Municipal Mirita Casimiro não deixa de ser um acontecimento a merecer os maiores encómios, quer pela encenação imaginativa e lúcida de Avilez, como pela direcção de um elenco muito jovem na sua maioria que, sabiamente dirigido, consegue fazer esquecer que quase todos são alunos de uma escola de teatro. Assisti a uma representação onde estava presente o primeiro elenco (existiram três durante a sua representação) e devo dizer que, apesar de ser difícil identificar nomes no meio de um tal grupo, não poderei deixar de salientar a presença de David Esteves, em Marat, Laura Stone, em Simonne, Pedro Caeiro, em Coulmier, Jani Zhao, em Arauto (apesar de algum excesso de voz, por vezes), ou o mais tarimbado António Marques, em Sade, entre muitos outros. David Esteves é mesmo uma revelação, com excelente presença, magnífica dicção e uma desenvoltura que faz adivinhar um grande actor.
A mescla de dança, música, entremez, representação funciona muito bem, relembrando aqui e ali a concepção de 1966, de Peter Brooks, que encenou a peça em teatro e, posteriormente, dirigiu uma versão cinematográfica notável.
A sala do TEC tem estado esgotada e a última sessão acontece terça, 13 de Agosto. A não perder.


“Marat-Sade: a perseguição e assassinato de Marat tal como representado pelos pacientes do Hospício de Charenton sob a direcção de Marquês de Sade” (Die Verfolgung und Ermordung Jean Paul Marats dargestellt durch die Schauspielgruppe des Hospizes zu Charenton unter Anleitung des Herrn de Sade), de Peter Weiss.

Versão e Dramaturgia: Miguel Graça; Encenação: Carlos Avilez; Cenografia e Figurinos: Fernando Alvarez; Música original: R. C. Peaslee; Coreografia: Natasha Tchitcherova; Apoio vocal: Ana Ester Neves; Apoio contexto histórico: Ana Coelho; Apoio às patologias: Cristina Rego; Direcção Musical: Maestro Hugo Neves Reis; Assistência de direcção musical: Pedro Sousa; Músicos: Alexandre Andrade, trompete | André Mota, percussão | Bernardo Marques, harmónio | Dina Hernandez, flauta | Gil Gonçalves, tuba | Hugo Reis, guitarra e percussão | Pedro Sousa, contrabaixo; Gravação e Edição da Banda Sonora: Maestro Hugo Neves Reis e Pedro Sousa; Direcção de montagem: Manuel Amorim; Montagem e Sonoplastia: Augusto Loureiro; Montagem e Contra-regra: Rui Casares; Assistência de encenação: Pedro Caeiro e Renato Pino; Assistência de ensaios e Operação de luz: Jorge Saraiva; Produção e Comunicação: Elsa Barão; Secretariado: Inácia Marques; Contabilidade: Ana Landeiroto; Cabeleiras: Gena Ramos; Toucados: Virgínia Rico; Interpretação: António Marques, Fernanda Neves, Luiz Rizo, Pedro Caeiro, Renato Pino, Sérgio Silva, Teresa Côrte-Real, Ana Fernandes, Andreia Valles, Beatriz Bonzinho, Brandão de Mello,  Bruno Bernardo, Carlos Braz, Carlos Trindade, Miguel Ferraria, Carolina Evaristo, Catarina Névoa, Cláudia Barbosa, David Esteves, David Filipe Fernandes, Gonçalo Lucas, Inês Frias Moreira, Inês Realista, Jani Zhao, Joana Lobo, Joana Caetano Calado, João Cachola, João de Vasconcelos, Laura Stone, Mariana Graça, Matilde Oliveira, Patrícia Godinho, Pedro Jorge, Rafael Costa, Raquel Rosado, Rita Correia, Rita Silvestre, Rui Lemos, Rui Westermann, Sílvia Braga, Simão Vaz, Simão Soveral Rodrigues, Tatiana Freire, Teresa Alves e alunos dos 1º e 2º anos da Escola Profissional de Teatro de Cascais; Teatro Experimental de Cascais; Teatro Municipal Mirita Casimiro, Estoril; Classificação: maiores de 16 anos.  

segunda-feira, julho 29, 2013

TEATRO: MENINO DE SUA AVÓ

MENINO DE SUA AVÓ

“Menino de Sua Avó”, de Armando Nascimento Rosa, é uma boa surpresa. Escrita propositadamente para ser interpretada por Maria do Céu Guerra, que ao subir ao palco de “A Barraca” se faz acompanhar pelo actor Adérito Lopes, a peça divaga sobre uma possível relação muito estreita entre Fernando Pessoa e a sua avó Dionísia Estrela Seabra, que existiu de verdade, mas de que se não sabe, por ciência exacta, se manteve ou não com o poeta o tipo de relacionamento que a peça imagina. Para o caso não é importante. A avó Dionísia era louca, teve épocas passadas em Rilhafoles, e não será muito estranho que o poeta tenha sentido por essa personagem afecto e admiração. A primeira parte da obra é de uma grande coerência e interesse, com as conversas de Fernando Pessoa e Dionísia, em vida de ambos. Pessoa é ainda jovem, descobre a poesia e a vida, e anda ainda emerso no seu primeiro heterónimo, Alexander Search, que escrevia em inglês.
Menos conseguida é a segunda parte, sobretudo o início, quando Dionísia morre, o seu fantasma aparece a Fernando Pessoa, este se vai multiplicando em heterónimos e pseudónimos, prosseguindo o diálogo entre ambas as figuras, já depois da morte do poeta, mesmo depois da transladação dos seus restos mortais para os Jerónimos, e culminando na actualidade. O final é muito bem desenredado, com os actores a deixarem o palco e a instalarem-se na plateia para assistirem à peça que vai terminar para nós, espectadores mortais (e iniciar-se para eles).
O diálogo é inteligente e divertido, mesmo tendo em conta as situações referidas, o que, de certo modo, conduz a obra pelos terrenos de um discreto humor negro.
Portanto, a peça vale a pena. É uma boa revelação portuguesa, o que diga-se de passagem, é muito raro. Passemos à sua concretização em palco. Minimalista, sim, mas extremamente eficaz, sem deslumbramentos vanguardistas que muitas vezes resultam penosos. José Costa Reis assina a realização plástica e os respectivos figurinos, tudo de bom gosto e sobretudo de eficácia cénica. António Victorino d'Almeida compôs e interpretou temas originais para a banda sonora que se colam muito bem ao desenrolar do espectáculo, o que não é de espantar no maestro. Finalmente, falemos da interpretação. Adérito Lopes compõe Fernando Pessoa e derivados com graça e justeza. Não é fácil o seu trabalho, necessita de registos diversos, as mutações são discretas e sábio o resultado final. Maria do Céu Guerra está magnífica. Ela é, indiscutivelmente, uma das grandes actrizes da cena portuguesa, e aqui encontra-se no seu elemento natural, sensível e ligeiramente irónica, saboreando com graça e uma desenvoltura muito sua a loucura desta avó que faria as delícias de qualquer neto. Na primeira parte ela chega a ser sublime. Sabem aquela sensação que por vezes se tem, quando estamos sentados numa plateia, e nos apetece saltar para o palco e abraçar os actores? Pois bem, tive de esperar pelo final, para não parecer mal.
A peça terminou hoje a sua carreira n’ A Barraca, mas não desesperem, creio que vai voltar lá para Setembro. Merece-o.

O MENINO DE SUA AVÓ

Texto inédito de Armando Nascimento Rosa; Criação de Maria do Céu Guerra (em Dionísia Seabra Pessoa) e Adérito Lopes (em Fernando Pessoa); Encenação Partilhada; Apoio Rita Lello; Música original António Victorino d'Almeida; Harpa Ana Dias; Cenografia e figurinos José Costa Reis; Aderecista Marta Fernandes da Silva; Mestra Costureira Alda Cabrita; Montagem Mário Dias; Assistência Marta Soares; Vídeo Paulo Vargues; Sonoplastia Ricardo Santos; Iluminação Fernando Belo; Produção Executiva Paula Coelho e Inês Costa.