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VIRTUDE FÁCIL

VIRTUDE FÁCIL
VÁRIAS OPINIÕES PARA O MESMO FILME?
CONTRATO
Título original: Contrato
Realização: Nicolau Breyner (Portugal, 2009); Argumento: Pedro Bandeira-Freire, Álvaro Romão, Nicolau Breyner, segundo romance de Dinis Machado ("Requiem para D.Quixote", sob pseudónimo de Dennis McShade); Produção: Isabel Chaves; Fotografia (cor): José António Loureiro; Montagem: João Braz; Música: Elvis Veguinha, José Manuel Afonso; Decoração: Pedro Sá; Guarda-roupa: Joana Rodrigues; Assistente de realização: César Fernandes; Som: Quintino Bastos, Branko Neskov; Companhia de produção: Hora Mágica, TVI.
Intérpretes: Pedro Lima (Lourenço), Cláudia Vieira, Sofia Aparício, José Boavida, Nicolau Breyner (Giorgios Thanatos), Maria Dias, George Felner, Pedro Granger, Adelaide João, Joaquim Nicolau (Dr. Machado), Vítor Norte, Tiago Teotónio Pereira (António), José Raposo (o careca), José Wallenstein (Sonny), etc.
Duração: 100 minutos; Data de estreia: 15 de Janeiro de 2009 (Portugal); Classificação etária: M/ 12 anos; Distribuição: Hora Mágica.
A TURMA


François Bégaudeau escreveu o romance que, conjuntamente com Robin Campillo e Laurent Cantet, adaptou ao cinema, tendo este último realizado o filme, enquanto o primeiro ficava com a interpretação do protagonista, o professor de francês François Marin, a leccionar numa escola de Paris, onde, numa turma do 9º ano, se misturam jovens entre os treze e os quinze anos, de origens diversas, apesar do todos franceses (ainda que a designação de “franceses”, neste caso, pouco queira dizer). Árabes, negros, mestiços, brancos, chineses, etc. são a massa nada uniforme dos jovens das grandes cidades, quer se trate de Paris, de Lisboa, de Madrid, de Londres ou de Nova Iorque. Esta miscigenação que as grandes emigrações acarretaram traz problemas delicados à escola pública (e “republicana”, como se afirma a escola francesa). Esse é o tema de “Entre les Murs”, um filme extremamente curioso que demonstra como é falsa a teoria de que um filme adaptado de um romance é normalmente inferior à obra de origem: aqui passa-se precisamente o contrário. O romance é interessante, mas o filme é bastante superior, talvez por ter condensado de forma muito hábil tudo quanto de importante o romance continha, dando-lhe uma maior consistência e coerência. Depois, a densidade psicológica e humana das personagens ganha com a sua representação (o filme é todo ele magnificamente interpretado por jovens e adultos, os alunos são espantosos de autenticidade e presença, os professores são muito bons na forma como desenham personagens de certa complexidade comportamental, em raras aparições). Há sobretudo na obra uma definitiva negação de todo o tipo de maniqueísmo, de simplificação de análise, de olhar a preto e branco a realidade. Todas as figuras merecem uma atenção especial, sem paternalismos escusados e despropositados, nem com uma compreensão exagerada, ainda que se note em toda a obra um olhar de simpatia e sincera emoção que se transmite ao espectador. Todas aquelas personagens, nos seus desencontros e querelas, estão marcadas por destinos sociais, por registos humanos, por parâmetros económicos, por definições conjunturais, por aprendizagens culturais, que os limitam nos movimentos e na sua forma de expressão. A aula é de francês e poucos sabem exprimir-se correctamente nessa língua, muito embora todos (ou quase todos) tenham nascido e habitem Paris, capital de França. Muito estão ali porque os pais para ali vieram trabalhar, mas não se sentem franceses, sentem-se perdidos das origens e náufragos num oceano inóspito. Reagem enquanto tal, mas o professor pretende não só pô-los a falar francês, ensinar-lhes o significado de certas palavras e a conjugação os verbos, como sobretudo quer levá-los a pensar, a agir, a tornarem-se cidadãos com direitos e deveres. A educação, diga-se o que se disser, é isso mesmo: o ensino da integração de “rebeldes” sem civilidade numa sociedade organizada, onde existem regras. Tal como domar um potro selvagem, até que ele obedeça às vozes de comando. A educação pode ser mais ou menos “moderna”, mais ou menos liberta de amarras, mas nunca será outra coisa, porque essa é a sua essência. E a sua necessidade intrínseca. A sociedade só vinga se integrar. Qualquer sociedade. Pretender o contrário é ingenuidade. O que a escola pode e deve fazer é não assassinar dentro de cada um a sua personalidade, enquanto a integra no conjunto, na sociedade. Deve ensinar as regras de convivialidade para que posteriormente cada um escolha o seu caminho, até o da “desintegração”, se acaso for esse o seu desejo.
François Bégaudeau nasceu a 10 julho de 1971 em Luçon, França. Os pais eram professores. Estuda no liceu Jules-Verne, em Nantes. Tirou o bacharelato, jogou futebol (no Mangin-Beaulieu e até um selecções nacionais de federados), o que lhe deixa uma forte ligação ao desporto. O seu primeiro romance chama-se “Jouer Juste”, dirigiu uma obra colectiva “Le Sport par les Gestes”, e durante um ano comentou o campeonato francês no “Le Monde”. Foi professor no liceu Guist'hau em 1989, depois tira a licenciatura em “Letras Modernas”, na Universidade de Nantes. Funda um grupo de rock punk, “Zabriskie Point”, de que era vocalista. Volta à escola, como professor de francês, em Dreux (Lycée technique Edouard Branly), e depois no Colégio Mozart, em Paris. Dedica-se à escrita, como crítico de cinema nos “Cahiers du Cinéma” e, em 2003, publica o primeiro romance, o já citado “Jouer Juste”. Em 2004, funda a revista “Inculte”, juntamente com outros escritores e filósofos. Outras obras : “Dans la Diagonale” (2005), “Un Démocrate, Mick Jagger 1960-1969” (2006), “Entre les Murs” (Prix France Culture/Télérama) e, finalmente, “Fin de l'Hstoire”, consagrado a Florence Aubenas. Interveio em diversas obras colectivas como “Débuter dans l'enseignement: Témoignages d'Enseignants, Conseils d'Experts” (2006), ou “Collaboration à Devenirs du Roman” (2007). Escreveu ainda peças de teatro, crónicas de televisão e artigos. Em 2008, “Entre les Murs” passa a filme e François Bégaudeau estreia-se como actor, interpretando a personagem principal desta obra que haveria de ganhar a “Palma de Ouro”, do Festival de Cannes. Em Outubro de 2008 anuncia a pretensão de comprar o clube de futebol, FC Nantes, de que é sócio há muito.




O HÓSPEDE
Entre a pacifica existência do “dentro de casa”, e a assustadora realidade do “lá fora”, se prolonga a escrita engenhosa na sua estrutura dramática, elegante, precisa, envolvente, misteriosa de Marie Belloc Lowndes, uma escritora inglesa de policiais (e outros romances mais) que Portugal não conhecia (apesar de muita da sua família viver em Portugal) e que a editora Quidnovi agora lançou (em boa hora). Trata-se de um belíssimo policial, que está na origem de diversas adaptações cinematográficas (entre as quais uma de Alfred Hitchcock, de 1927, “The Lodger, a Story of the London Fog”, que quero agora muito rever, bem como algumas outras versões de que mais tarde darei conta). 
VAMOS FALAR DE MÚSICA
GRANDE GALA STRAUSS
AUSTRÁLIA
A seguir vem a história que Baz Luhrmann quer contar, o que pode ser observado sob vários pontos de vista. Mas há um que sobressai sobre todos os outros: Baz Luhrmann é australiano e ama a sua terra, a cor da paisagem, o pó dessa terra vermelha, ensanguentada, os pores-do-sol, a água que jorra em cascatas infinitas, as montanhas rasgadas a pique sobre desfiladeiros ou planícies, ama as vacas e os cavalos selvagens, ama a vida livre e selvagem, ama os mágicos que se sustentam do alto das montanhas só sobre um pé, ama as crianças que acreditam nos poderes sobrenaturais, ama os actores e os técnicos do seu país (o filme é quase integralmente criado por um elenco e uma equipa técnica australiana) e consegue transmitir-nos esse enorme amor a uma terra, uma cultura, uma história, uma realidade presente (que se torna “presente” através de uma história do passado recente). Fá-lo não de forma pretensiosa, mas com uma sinceridade que surpreende. Nada no filme soa a falso, nada faz lembrar um frete de encomenda (apesar do governo da Austrália, ao que se sabe, ter subsidiado em grande o filme, para fazer dele um cartão de visitas condigno). É, pois, uma parte da história da Austrália que Baz Luhrmann quer contar, ou, como confessou numa entrevista, “explicar aos filhos porque eles se devem orgulhar da sua terra.” Aos seus filhos e aos filhos de todo o mundo que olham esta gesta e se devem sentir ufanos não só de serem australianos, mas humanos. Porque esta é também uma história sobre a grandeza do homem. De um homem que para ser grande tem de ultrapassar barreiras ignóbeis criadas pelo próprio homem. Essa é já uma outra parte da história.
Uma mulher “de rendas”, vinda do velho continente, que surpreende dentro de si as forças necessárias para levar a sua tarefa até ao fim, um condutor de gado que não aceita amarras nem conluios, uma criança que gosta de ouvir histórias, e à volta de tudo isto, exploradores de gado gananciosos, assassinos a soldo, padres vendidos, missões transformadas em bases de recrutamento de mão de obra escrava, preconceitos de raça, de sexo e de casta financeira, brancos, pretos e nem uma coisa nem outra, aborígenes que lentamente foram sendo dizimados, e a II Guerra Mundial a estoirar no centro das suas vidas. Uma história e tanto!
Romântico até dizer chega (o par em contraluz numa baía de sonho, à noite, com as luzes da cidade a reflectirem-se na água), melodramático até às lágrimas (o reencontro final não deixa ninguém indiferente), bem intencionado até à medula (com a defesa dos fracos e dos oprimidos, dos negros e dos aborígenes, das mulheres e das crianças, e da liberdade do mundo), “Austrália” consegue ser tudo isso de uma forma tão galvanizante que, partindo da mentira do espectáculo que todos descobrem ser falso, acaba por atingir a verdade. A verdade dos travellings de Baz Luhrmann sobrevoando aquela terra mágica com uma beleza selvagem e pura. A verdade de um elenco extremamente bem dirigido, onde os momentos míticos, na linha do mais puro cinema clássico americano, surgem fulgurantes (deixemos de lado a presença de Nicole Kidman, que já conhecemos, e que se mantém igual a si própria, ou seja excelente sob todos os pontos de vista, e atentemos nas “aparições” do novo sex symbol do cinema, Hugh Jackman, que são escolhidas a preceito: toma banho para valorizar o tronco, numa cena certamente das mais épicas para o público feminino – e algum masculino; surge de súbito no cimo de uma escadaria, em impoluto fato branco, deslumbrando pelo inesperado; embrenhar-se nalguns dos beijos mais sensuais do cinema dos últimos anos; etc.). Depois temos a referência constante a “O Feiticeiro de Oz”, ao seu universo mágico, e ao prazer inesquecível de “regressar a casa”, depois da aventura e da tormenta. Todos, no filme, regressam a casa, a essa Austrália que os viu nascer e que os lançou no cinema mundial. Agora regressam agradecidos.
AUSTRÁLIA
A VIAGEM DO ELEFANTE
E assim escreve José Saramago, lá pelos meios do romance: