quinta-feira, dezembro 04, 2008

TEATRO: O DOCE PÁSSARO DA JUVENTUDE

“SWEET BIRD OF YOUTH”
Uma das peças mais carismáticas de Tennessee Williams sobe agora ao palco do Teatro Mirita Casimiro, no Teatro Experimental de Cascais. Uma encenação de Thiago Justino, com a surpresa de se ver Lili Caneças a interpretar o principal papel, o da decadente actriz Alexandra Del Lago. Antes de falar da peça, e da sua estreia na noite do dia 3, recordemos o filme.

"CORAÇÕES NA PENUMBRA"
Richard Brooks dirigiu, em 1962, “Corações na Penumbra” (título português, no cinema, para “Sweet Bird of Youth”), uma das duas adaptações de peças teatrais de Tennessee Williams que o cineasta levou para o écran (a outra tinha sido, poucos anos antes, “Gata em Telhado de Zinco Quente”, igualmente com Paul Newman, mas aí contracenando com Elisabeth Taylor). Uma adaptação que trouxe igualmente para o cinema grande parte do genial elenco que havia interpretado a peça na Broadway: Paul Newman, Geraldine Page, Madeleine Shewood e Rip Torn repetem a criação de personagens que haviam sido dirigidas pelo encenador Elia Kazan. O espectáculo teatral estreara-se a 10 de Março de 1959, no Martin Beck Theatre, onde permaneceu durante 375 representações.
O início de carreira de Richard Brooks como jornalista e a sua profunda formação literária, levaram naturalmente o cineasta a aproximar-se de obras literárias, por diversas vezes, ao longo de toda a sua filmografia. Desde Scott Fitzgerald, Evan Hunter, Paddy Chayefsky, Dostoievsky, Sinclair Lewis, Joseph Conrad, Truman Capote até Tennessee Williams, vários foram os autores que Brooks se encarregou se adaptar ao cinema, com resultados desiguais, mas sempre com seriedade de processos e uma dupla preocupação bem patente: ser fiel à obra de que partia, sendo fiel a si próprio e ao novo meio expressivo.
O caso de “Corações na Penumbra” é muito significativo. Aí está o universo do dramaturgo, carregado de fantasmas e obsessões muito próprias, numa análise psicanalítica e muito freudiana do comportamento do americano médio, mas aí está também o tema da "segunda oportunidade" tão caro a Brooks, aí está igualmente uma forte componente social e política, aliás um aspecto que se é normal em Tennessee Williams, raras vezes o é com a acutilância crítica e o tom vigoroso aqui manifestados.
Há, aliás, situações e figuras que passam de filme para filme, demonstrando bem que Brooks é um verdadeiro autor, um artista com um universo próprio. Por exemplo, a personagem interpretada por Ed Begley, em “Corações na Penumbra”, um americano que se faz a si próprio e se transforma num ditador sem escrupulos, é prolongada obviamente noutros retratos, em obras posteriores, como o de James Mason, em “Lord Jim”, ou de Ralph Bellamy, em “Os Profissionais”. O tema da "segunda oportunidade" aparece inscrito igualmente em qualquer destes três filmes, de forma mais ou menos evidente.
Chance Wayne, o protagonista, deixou a sua cidade natal, por ordem do potentado local, que não via com bons olhos o seu "romance" com a filha. Mas Chance regressa, tempos depois, como protector de Alexandra Del Lago, uma actriz em declínio, encharcada em álcool e drogas. O que será o bastante para incendiar aquela pequena comunidade sulista, sufocada pelo calor e pelo entrelaçar de paixões, ditas e interditas, clima de um fascismo quotidiano muito semelhante ao de uma outra onde, dois anos depois deste filme se ter estreado, John Fitzgerald Kennedy seria baleado.
Para lá da imposição dos ambientes bem representativos de Tennessee Williams, a violência nas relações, as frustrações sexuais, há, em “Corações na Penumbra”, um clima geográfico e uma densidade humana notáveis, surpreendendo pela convicção com que são descritos e restituídos em imagens.
Richard Brooks estava nesta altura no apogeu do seu talento de narrador, um talento que curiosamente seria "descoberto" por John Huston, para quem Brooks, no início da carrreira, escreveu vários argumentos e com quem mantém muitas e curiosas afinidades temáticas e de estilo.
“O DOCE PÁSSARO DA JUVENTUDE”
Passemos agora à versão estreada agora no Teatro Mirita Casimiro, numa concretização do Teatro Multiculturas, que surgiu em 1998, por iniciativa do actor Thiago Justino (ao lado de Alexandra Solnado), baseado na sua experiência profissional como actor, formador, animador cultural e nos seus 25 anos de carreira dedicados ao Teatro, Cinema e Televisão. Citando a companhia: “Para esse efeito contou com o apoio de diversas personalidades do meio cultural português, de onde se destacam Raul Solnado, Eunice Muñoz, Diogo Infante, Maria do Céu Guerra e Bárbara Guimarães. Todos deram o seu contributo artístico para a concretização de um projecto que visa dar voz ao ideal da lusofonia como linguagem artística e processo de integração dos povos e culturas que residem actualmente em Portugal.”
Com este novo espectáculo, o Teatro Multiculturas apresenta “a estreia da Companhia Performática, formada não só por actores, mas também por pessoas comuns que buscam através do teatro contribuir culturalmente para a sociedade.” E explicam: “Esta versão da peça de Tennessee Williams sofreu uma desconstrução, misturando teatro e música e dança, aproximando-se de uma linguagem mais apelativa para a juventude actual. “Doce Pássaro da Juventude” (ou “Ensaio sobre a Juventude”) reune num plateau de cinema uma velha actriz em decadência e um jovem aspirante a actor, que, para convencê-la do seu talento, transforma o espectáculo numa grande audição, na qual a realidade se mistura com a ficção.”
Ora bem, um dos aspectos que me agrada no teatro de texto, é precisamente a qualidade do texto e “desconstruir” por “desconstruir” o texto de uma peça não vejo que interesse extra possa trazer. Neste caso, e pela minha perspectiva, nenhuma virtude se acrescentou, e muitos defeitos surgiram desta “modernice” sem intenção. Eu que já vira espectáculos com o actor Thiago Justino de que gostara muito (“Miss Daisy”, por exemplo), acho que este, tanto quanto ao texto, como quanto à encenação, nada me trouxe de especial.
Parece que era intenção, “depois de oito meses de ensaios”, descobrir e explorar “partituras, dinâmicas, canções, teatro-dança, monólogos e recentemente a ideia de um DJ e um VJ, mais dois percussionistas”, na ideia de que “todas as artes podem ser aproveitadas para passar a mensagem que se pretende com esta encenação ousada do “Doce Pássaro da Juventude”. Importava “que essa linguagem fosse próxima dos tempos de hoje, da juventude. Importava que cada um se revisse em algum elemento, em alguma cena, em alguma problemática, em algum ritmo. Essa é a força da performance, a sua versatilidade.”
Se as intenções eram essas, porque não escolher outra peça e deixar “Sweet Bird of Youth” sossegadinha e em paz? A peça de Tennessee Williams claro que aborda o tema da juventude, mas não é esse o essencial da obra que centraliza a sua atenção sobre duas figuras de actores, uma velha actriz em declínio, um jovem candidato a actor em ascensão, que se confrontam numa cidade sulista, dominada por um fascista que põe e dispõe das pessoas a seu belo prazer. Muita desta temática esfarela-se nessa tal “desconstrução” da peça, que me parece totalmente descabida.
Depois, há excelentes vídeos a acompanhar o espectáculo, mas muitas vezes deslocados (por quê Luter King e “I have a Dream”?, por quê a homenagem a Paul Newman, por ter falecido e ter sido o actor do filme? Haveria muitos outros a homengear então). Há um cenário e adereços curiosos, num conujnto negro, branco, vermelho, de curiosos efeitos, mas que nada tem a ver com o sol sulista, o suor a escorrer, o tresandar do sexo, as palmeiras e a ondulação do mar. No elenco, a destacar a presença e a voz da actriz cantora, o esforço do actor que interpreta a figura de Chance Wayne, e finalmente a estreia de Lili Caneças, em Alexandra Del Lago. Confesso que ia com medo de uma catástrofe, ainda que desde sempre Lili Caneças seja uma actriz. Uma mulher que compôs uma personagem há anos e que alimenta a imprensa rosa com essa figura. Sempre achei Lili Caneças muito mais interessante e inteligente do que o comum das pessoas julga. E tiro o chapéu à sua coragem e à forma como responde a desafios. Este foi um desafio que galhardamente aceitou e ganhou. Não é, obviamente, Geraldine Page, não, não é. Mas compõe com algum fulgor e talento uma personagem e alimenta com a sua chama o palco do TEC. É uma mulher de fibra, com 64 anos, a alimentar um sonho. Palmas. Agora quero vê-la a fazer de Gloria Swanson a descer as escadas de “Sunset Boulevard”. Adorava dirigi-la com um bom elenco e respeitando o texto. Sem “desconstruções”.

NATAL, 2

quarta-feira, dezembro 03, 2008

NATAL, 1

THE RAVEN, 2 VERSÕES e 4 TRADUÇÕES

THE RAVEN
"O Corvo", o mais célebre poema de Edgar Allan Poe, teve duas versões e inúmeras traduções. Reunimos no blogue "Meia Noite Fantástica" as duas versões do autor e quatro traduções brilhantes, todavia, cada uma delas tão representativa de Edgar Allan Poe como de cada um dos escritores que as traduziram (Baudelaire, Malharmé, Fernando Pessoa e Machado de Assis). O que demonstra bem que quem lê, o faz segundo a sua experiência e sensibilidade, pelo que não há duas "leituras" iguais, e que quem traduz pode não trair, mas nunca reproduz a experiência do original.

THE RAVEN

Once upon a midnight dreary, while I pondered, weak and weary,
Over many a quaint and curious volume of forgotten lore,
While I nodded, nearly napping, suddenly there came a tapping,
As of some one gently rapping, rapping at my chamber door.
" 'Tis some visiter," I muttered, "tapping at my chamber door —
Only this, and nothing more."

Ah, distinctly I remember it was in the bleak December,
And each separate dying ember wrought its ghost upon the floor.
Eagerly I wished the morrow; — vainly I had tried to borrow
From my books surcease of sorrow — sorrow for the lost Lenore —
For the rare and radiant maiden whom the angels name Lenore —
Nameless here for evermore.

(...)

(continua AQUI)
(imagem "roubada" a IMF)


terça-feira, dezembro 02, 2008

UM VOTO NA DEMOCRACIA

Excerto de uma foto do DN, sobre o Congresso do PCP. Eis por que acredito que a democracia é o melhor sistema político que conheço. O único onde, como acusam, "apesar da televisão não mostrar e os jornais não dizerem", ainda há a hipótese de se discutirem, por outras vias legais, os problemas sob diversos pontos de vista. Na URSS e nas "democracias" de Leste, na China ou na Coreia do Norte não seria assim, certamente.

sábado, novembro 29, 2008

TEATRO: WEST SIDE STORY

WEST SIDE STORY NO POLITEAMA
Ante-estreou, no Politeama, o “West Side Story”, versão portuguesa, com a assinatura de Filipe La Féria. Não seria de esperar senão um novo triunfo para a companhia, se bem que este não seja, para mim, o melhor La Féria, enfermando de um ou outro aspecto não muito logrado. Mas não é “West Side Story”- o filme, uma obra-prima do cinema, apesar da presença do canastrão Richard Beymer, e mesmo da não muito inspirada Natalie Wood?
Pois bem, vamos ao que me satisfez por completo: toda a montagem cenográfica é magnífica, sobretudo tudo o que se passa em exteriores, com a ponte de Brooklyn ao fundo, as luzes e os arranha-céus de NY no horizonte, e estruturas fechadas de edifícios de paredes de tijolo vermelho ou gradeamento de parques de jogos em primeiro plano. Excelente grafismo plástico, eficaz no plano da mudança de cenas, espectacular logo desde o seu aparecimento, bem iluminado e colorido. Bom o guarda-roupa.
O texto: globalmente uma muito boa adaptação ao português, quer de texto, quer de canções, o que de início me levantava algumas dúvidas, dado o tipo de linguagem utilizado no original, de difícil transição. Mas as palavras correm soltas, e quase nunca notei que estávamos em presença de um texto adaptado (reparei na mítica canção “Cool”, onde o “Calma contigo, meu!” não me soou tão bem). Mas, como disse, no conjunto uma boa versão.
Coreografia: este é um musical que vive essencialmente da coreografia, nervosa, ritmada, constante, hipnótica. No filme de Robert Wise e Jerome Robbins é algo de decisivo. Obviamente que os bailarinos portugueses que actuam no palco do Politeama não são da mesma qualidade dos americanos (voltamos a “Cool”, onde se sente mais a diferença: falta aos nossos aquela suspensão de voo que transformava o bailado num movimento etéreo, que oscilava entre a violência e a leveza), mas o resultado final é bom, surpreendentemente bom para a nossa realidade.
A interpretação nos espectáculos dirigidos por La Féria consegue sempre um nivelamento geral bastante agradável, sabendo-se que o encenador recorre muito a jovens actores e segundas figuras, bastando-lhe duas ou três estrelas para enfeitar o bolo. Acontece o mesmo aqui, mas o resultado nem sempre é tão homogéneo como habitualmente. Obviamente que um musical é um espectáculo muito difícil de atingir um nível geral muito alto: é muito difícil ter-se bons actores, que sejam bons cantores e tenham a aparência requerida. No cinema, como é sabido, esse aspecto é ultrapassado colocando actores dobrados por cantores. No palco essa artimanha é mais difícil de concretizar.
Na versão portuguesa de “West Side Story” há, portanto, de tudo. Excelentes trabalhos (Carlos Quintas no tenente Schrank vai muito bem, Anabela é uma convincente Anita, Pedro Bargado e Tiago Diogo são chefes de gangs de vincada personalidade, Alberto Vilar é um comovente Doc, Cátia Garcia é uma surpreendente Anybodys), e algumas incertezas. Por exemplo, no dia da ante-estreia a que assisti, os protagonistas foram Bárbara Barradas (Maria), excelente voz e boa intérprete, mas deficiente sempre que lhe pedem representação, e Rui Andrade, num Tony sem muita convicção, nem como cantor, nem como actor. De resto, o restante elenco cumpre sem sobressaltos, assegurando a tal qualidade média que caracteriza a boa direcção de actores de La Féria.
Finalizando (e enquanto não tiver oportunidade de ver o “segundo elenco” em actividade, com Lúcia Moniz, em Anita, Cátia Tavares, em Maria, e Ricardo Soler, em Tony), pode afirmar-se que La Féria conseguiu mais um grande espectáculo para o seu teatro na rua das Portas de Santo Antão, com um ou outro tropeção de somenos. Neste particular há ainda a referir uma cena de que não gosto nada, esteticamente de efeito mais que duvidoso – a noite de amor de Maria e Tony, com um bailado que pouco tem a ver com a estética do restante espectáculo. Mas estávamos numa ante-estreia, nervos à flor da pele, início de rodagem com público, e muito poderá ser melhorado nos próximos dias.
Sobre a passagem do musical da Broadway para o cinema já aqui falámos, num texto que aparece no programa do espectáculo do Politeama e que pode ser repescado AQUI.

sexta-feira, novembro 28, 2008

MISHIMA E KAWABATA, CORRESPONDÊNCIA


“COM OS MEUS RESPEITOSOS CUMPRIMENTOS…”
Correspondência entre Yukio Mishima e Yasunari Kawabata
No dia 25 de Novembro de 2008, no pequeno auditório do CCB, decorreu, em sessão única, para raros eleitos, um espectáculo invulgar. Uma leitura encenada de alguma da correspondência que, ao longo de décadas (de 1945 a 1970), se estabeleceu entre Yukio Mishima e Yasunari Kawabata, indiscutivelmente dois dos maiores escritores japoneses do século XX. Yasunari Kawabata (1899-1972), único Nobel japonês, de que conheço apenas “Terra de Neve”, “Chá e Amor”, “A Dançarina de Izu” e “A Casa das Belas Adormecidas”, é um escritor de palavra fina e delicada, um observador atento da psicologia humana, que retrata de forma miniaturista, discreta, secreta, intimista. Era muito admirado por Yukio Mishima (1925-1970), defensor das tradições e da obediência ao Imperador, um autor de escrita delicada é certo, mas abrasante, sensual e voluptuosa, arrogante e ostensiva, impositiva mesmo. Dele retenho livros admiráveis como “Confissões de uma Máscara” ou “O Marinheiro que Perdeu as Graças do Mar”, “Morte no Verão” ou “O Tumulto das Ondas”, “O Templo da Aurora ou “A Ruína do Anjo”. Ambos mantiveram correspondência regular onde demonstravam mutuamente enorme respeito e estima. Uma troca de cartas que reflecte não só pontos de vista políticos, sociais, literários, humanos, como sobretudo um enorme afecto pessoal. Num palco despojado, numa encenação minimalista que conferia sobretudo importância à palavra, Luís Madureira e José Manuel Mendes encheram o espaço com a recatada magia de um texto delicadamente trabalhado sem afecção, que se ouvia com prazer e se entendia por vezes com paixão. A descoberta da relação de amizade e assombro que existiu entre dois escritores e dois homens com tanto de diferente entre si. A leitura foi encenada por António Mega Ferreira, um dos especialistas em Mishima em Portugal. Muito pouco público para uma hora de bailado de palavras. A repor?
(A tradução das cartas era da Maria Eduarda e soou lindamente. Parabéns!)

ASSIM VAI O FUTEBOL PORTUGUÊS

Só para trazer por casa?

ARSENAL 4, PORTO 0
BRASIL 6, PORTUGAL 2
SPORTING 2, BARCELONA 5
OLYMPIAKOS 5, BENFICA 1 (Olympiakos!!!)
ELES 20, NÓS 5

UM AMOR ATREVIDO

"De nada me valeram, os que vieram depois do que entre nós não houve. Por tua causa perdi o olfacto e o paladar e todos os homens me sabem ao mesmo. Procurei-os nos antípodas de ti e cuidei de escolher formatos e feitios que não os teus, numa fuga em frente, como se. Nuns casos, diverti-me; noutros, arrependi-me, mas sempre a porcaria do coração aos solavancos, a malbaratar-me em entusiasmos pré-fabricados, que cansaço. Quiseram-me muito e tratam-me bem, mas vai dar ao mesmo porque não tenho escolha: passados dias, e a minha carne rejeita-os como se o transplante falhado de um órgão estranho.(…)Quanto ao resto, amo-te sem o menor indício de desespero; apenas deixo que a tristeza me faça cócegas numa ou outra lua nova, e é se me distraio. Não tenho qualquer esperança de que tu um dia qualquer coisa, pois foges de mim como o diabo da cruz e é assim que deve ser. Quem sabe só me interessas enquanto obstáculo intransponível contra o qual gostaria de chocar, esparvoada, algures ainda neste tempo de vida. És um empata, o meu empecilho de estimação, um chove não molha que me embaraça e me troca as voltas, mas eu já não saberia viver de outra maneira. Tenho cá dentro a persistência devota de uma mulher de província, enganada pela lábia de um caixeiro-viajante, que gasta as horas num desvelo obsessivo para com o filho ranhoso que é a cara do pai."
*
"Desde o dia em que me deixaste que me fazes mal, um mal danado. Quando de noite me chegas à pele, a reboque do silêncio que rasteja pela calçada e trepa pelos muros, sabes-me a azedo, a coisa estragada, (quis escrever travo amargo, mas tu não te ficas pela minha boca como um refluxo qualquer; antes, espalhas-te pelo meu corpo, subitamente acometido de uma paralisia de bondade e de luz). Mesmo assim, deixo sempre que te enterres em mim como um prego enferrujado e que me magoes aqui de lado quando ando e respiro ou tento saltar. Desde o dia em que me olhaste através e não me viste, que trazes contigo aquele sobressalto desagradável de quando se tropeça no passeio e se dá um passo em falso, um mergulho no vazio, o coração colado às costas. Tenho-te ainda à boca do estômago, mal digerido, uma pontada, uma dor de burro, uma dormência nos dedos, razão pela qual fecho os olhos e respiro fundo a tentar expulsar-te para longe. És-me incómodo, desaprazível, molesto. És o vizinho barulhento, o cobrador que bate à porta; és a criança que chora, o cão que ladra, a torneira que pinga, a janela que não veda num dia frio de Inverno. Tenho alturas em que rondas o desastre e o infortúnio mas depois passa, com a lenga-lenga reconfortante dos refrãos matinais dentro de portas. No entanto, nada evita que sinta o espírito corcunda e encurvado, esmagado pelo peso de tanto sempre tu, independentemente das estações do ano, do índice da bolsa, da fome no mundo ou de estares a milhas. Nem que eu seja absolutamente consciente da tua pessoa, ao ponto de nos acotovelarmos no espaço onde estou e de quase jurar que me empurras (como sempre fizeste, afinal). Fazes-me mal, um mal danado, desde o dia em que nos desentranhámos e dividimos em dois: dois seres estranhos sem nada mais em comum do que o facto de nenhum de nós poder viver sem o teu corpo."

Devo dizer que gosto muito deste blogue, da sua escrita e das suas referências cinematográficas. Já o tinha dito há uns tempos largos, volto a sublinhá-lo. Para quando a edição em livro? este vale mesmo a pena ser lido. Assina uma supostamente Sofia Vieira. Pode ser lido aqui: http://umamoratrevido.blogspot.com/

quinta-feira, novembro 27, 2008

AUTO-AVALIAÇÂO

Finalmente temos a versão dos sindicatos (Fenprof) para a avaliação dos professores. Esperava-se algo de moderno e inspirador. Veio finalmente o tão esperado projecto, primeiro de auto-avaliação, depois de co-avaliação. É por isso que 120.000 professores se batam nas ruas? Por serem eles próprios a dizerem que são muito bons? Enfim, este processo arrasta-se para vergonha de qualquer pessoa de bom senso. A instrumentalização é total, o descrédito da classe é progressivo, o espaço deste sindicalismo de pacotilha é cada vez menor. Tudo para mal do País.

Olhando para este ante-projecto da Fenprof que dizem os 120.000 profs? Podem-no ler aqui. E se corarem de vergonha, não vos fica mal. Ou então passamos todos a ser auto-avaliados. Ou há justiça, ou comem todos.

Há umas décadas estreou-se em Portugal um filme que se chamava "Ainda há Ciganos Felizes!" Bom filme, por sinal. Plagiando o título asseguro que "Ainda há Bons Professores em Portugal!" Mais, asseguro que ainda há muito bons professores justificadamente críticos em relação a algumas medidas (e sobretudo certas atitudes) do Ministério da Educação. Mas uma coisa é estar crítico e protestar e tentar modificar o que se julga sinceramente mal, outra muito diferente é este clima de insurreição que se instalou nas escolas. Parece que regressámos ao Verão Quente de 75. É essa a intenção?

terça-feira, novembro 25, 2008

PELAS ALDEIAS HISTÓRICAS

foto MEC
SAINDO DO FUNDÃO, CASTELO NOVO,
PÓVOA DA ATALAIA, MONSANTO,
IDANHA-A-VELHA
E OUTRA VEZ CASTELO NOVO,
EM TERTÚLIA
Sempre na companhia de professores do Agrupamento de Escolas da Serra da Gardunha, de quem éramos convidados, partimos manhã cedo, de autocarro, numa longa viagem por algumas das aldeias históricas da região da Beira Baixa. A primeira paragem foi em Castelo Novo, entrando-se pelo largo da Bicas, subindo até ao castelo, que remota ao século XII, sendo citado pela primeira vez como “Castelo Novo” em 1203, quando a terra foi doada aos Templários. Em 1801, sabe-se que contabilizava quase 3.000 habitantes, hoje terá 300. Mas é rica em historial, ruas estreitas de casas em granito alourado, uma pequena igreja da Misericórdia com imagens para recordar sempre, um lagar de vinho cavado na pedra, chamado lagariça, que dá igualmente o nome a uma moderna casa de artesanato de perder a cabeça. O castelo é majestoso ainda que meio destruído, e, no edifício que outrora fora o dos Paços do Concelho, à noite, decorreu a Tertúlia Poética ou Literária, a que voltaremos.
Descemos depois de Castelo Novo à Póvoa da Atalaia, terra onde nasceu Eugénio de Andrade, a 19 de Janeiro de 1923, e onde, no edifício da Junta de Freguesia, se encontra patente ao público uma exposição sobre o poeta. Fotografias, poemas e prosas organizadas pelo próprio autor, o que confere ao todo um significado muito especial. Antes de um imponente cozido à portuguesa oferecido pelo presidente da junta de freguesia local, nada melhor do que Eugénio de Andrade, de quem se pesquisaram ainda as casas onde viveu (e onde hoje vive uma velha senhora de bengala e roupa negra que não admite, por nada deste mundo, sair daquela casa, para ali se erguer um museu!) e onde nasceu (no maior dos mistérios, sussurra-se entre dentes, “filho bastardo de um senhor muito rico, muito rico”, dito “rei da Orca” ao que percebi).

Seguiu-se Monsanto, o ex-libris das aldeias portuguesas do Estado Novo. Lá está o galo de prata, erguido sobre o campanário de uma torre, a assinalar o troféu da “aldeia mais portuguesa de Portugal”. Os valores deste nacionalismo do SNI nunca me empolgaram, mas a aldeia sim, é impressionante, “não se sabe se é a casa que sai da pedra, se a pedra que sai da casa”, como diz um poeta muito citado. São dezenas e dezenas de casas incrustadas na elevação que brota isolada a caminho já do Alentejo. O castelo lá em cima parece inacessível, as ruelas sobem em ascensão desmedida. Conta-se que ninguém conseguia de lá retirar os resistentes, e que, um dia, durante um cerco de espanhóis (seriam espanhóis?), os portugueses sitiados lançaram encosta a baixo um vitelo recheado de trigo para as tropas envolventes perceberem que viviam na abastança e que não seria à fome que os derrotariam. Se é verdade ou não, não o sei, mas dizem que quem rodeava o castelo se foi embora. Grande parte do castelo também foi pelos ares quando, no século XIX, se deu uma explosão do paiol de munições. O que resta, está lá em cima, bem no alto. Serve para turismo e para celebrar as Festas de Santa Cruz, que popularizaram as bonecas de trapos conhecidas por marafonas.
Ainda hoje é difícil subir ao castelo. Eu que o diga, que tentei encher o peito de ar puro até meia encosta e desisti depois, ficando-me por um chá quente na Pousada explorada por um espanhol de Sevilha.
Mas não deixei de passar na casa e no consultório do médico Fernando Namora que ali escreveu os “Retalhos da (sua) vida de Médico” e a “Nave de Pedra”.

Foto MEC

De regresso a Castelo Novo, tempo houve ainda para uma passagem por Idanha-a-Velha, que se anuncia “um museu a céu aberto” e assim é na verdade. Aldeia parada no tempo, cidade abandonada, uma taberna aberta com quatro convivas a dividir pão, vinho e um prato de carne de porco, frente ao ecrã da televisão, e o senhor Joaquim Pinto, oitenta anos a varrer as ruas, frente ao portão do impressionante edifício da família Marrocos, foram os únicos vestígios de vida. Os trinta convivas que passavam pelas ruas desta Idanha-a-Velha, juncadas de pedras tumulares e outros vestígios arqueológicos, mais se assemelhavam a mortos-vivos de um filme de George Romero.
A discreta iluminação de tom amarelado, numa noite de céu descoberto, mas de intensa escuridão, fornecia ao grupo o sombreado de uma turba a perturbar o silêncio dos antepassados. Retomados ao autocarro e às informações da nossa simpática guia Olga, rapidamente descobrimos que a próxima paragem era “O Lagarto”, restaurante típico de Castelo Novo, onde soube que o Sporting tinha ganho à Naval por 1 a zero, com nove em campo, e onde um retemperador bacalhau com natas nos preparou para a noitada de tertúlia.

Foto MEC

A tertúlia aconteceu a partir das 21, 30 horas, nos já referidos Paços de Concelho, uma sala espaçosa, onde mesas de oito ou dez convivas, reuniam para cima de uma centena de "tertuliadores". Havia os oradores “convidados”, quase todos professores de universidades que tinham a poesia e a palavra escrita como paixão, e que, pela prosa ou pelo verso, encheram de magia a noite fria. Antonieta Garcia, Maria de Lurdes Barata, Alix de Carvalho, José Pires, Amílcar Martins, o brasileiro Luís Octávio Fraz e o músico Miguel Carvalhinho (além de mim próprio) movimentaram-se o melhor que sabiam e podiam para conferir cor e emoção a uma noitada de troca de palavras e de sorrisos. Teve direito a manifesto. Esperemos que tenha também continuação. Sim, eu sei, não se disse nada de fundamental, mas muitas vezes o inútil pode tornar-se no essencial.
Domingo, ao início da tarde, um Intercidades, partindo do Fundão, trazia-me de volta a Lisboa. E aos blogues também.

fotos do autor e três (assinaladas) de MEC (que agradeço).

POR TERRAS DO FUNDÃO

No velho seminário do Fundão, com Vergílio Ferreira, em 1979.

NO SEMINÁRIO DO FUNDÃO
NO HOTEL "PRÍNCIPE DAS BEIRAS"

O exterior do seminário no filme "Manhã Submersa" (1980)
A convite do Agrupamento de Escolas da Serra da Gardunha, no Fundão, estive a falar sobre Vergílio Ferreira e a sua (e minha) “Manhã Submersa”. Foi algo de emocionante e único. Passo a explicar a razão:
Vergílio Ferreira escreveu “Manhã Submersa” inspirando-se em muito do que viveu e viu viver a outros no seminário do Fundão, entre 1926-1932. Depois licenciou-se em Filologia Clássica na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (1940). Foi professor de Português e de Latim em várias escolas do país, mas sobretudo em Évora e Lisboa (Camões). Nasceu em Melo, na Serra da Estrela, em 1916, e faleceu em Lisboa, em 1996. A sua escrita começa por ter uma feição neo-realista, de que depois se afastou para enveredar por um caminho mais pessoal, intimista, aproximando-se dos existencialistas, de Malraux sobretudo, e do “nouveau-roman”. Foi, e é, um dos maiores ficcionistas portugueses de sempre, num tipo de narrativa austera e rigorosa que cruzava o romanesco e o filosófico com rara exigência e sedução. O romance “Manhã Submersa” saiu em 1953, e logo por essa altura eu o li, e me impressionou fortemente. Teria eu onze anos ou doze anos. Em 1979, quando pude realizar a minha primeira longa-metragem de ficção, zarpei até Linhares da Beira com uma equipa, de técnicos e actores, para iniciar a rodagem deste filme. Antes, com uma outra equipa, reduzida, quatro pessoas e maquinaria de 16 milímetros, tinha percorrido os caminhos de Vergílio Ferreira adolescente, a sua casa em Melo, onde ainda viviam a mãe e uma tia, o seminário por onde passara, numa curva de estrada próximo do Fundão, e depois a sua casa e jardim em Fontanelas (Sintra), onde discutíamos sobre literatura. O filme, que se chamou “Vergílio Ferreira numa “Manhã Submersa” destinava-se a funcionar como “episódio zero” da mini-série “Manhã Submersa” a emitir na RTP. Assim aconteceu.
Nesse filme, de que não tenho pejo em dizer de que gosto muito, e que julgo um documentário essencial para compreender a obra do escritor, um dos capítulos era composto por um longo périplo de Vergílio Ferreira, percorrendo o espaço já dessacralizado do velho seminário (entretanto já substituído nessa altura por outro, situado não muito longe daquele), onde se procuravam traços da sua antiga existência física e espiritual. Em finais de 1979, o edifício, em ruínas, guardava várias famílias de retornados com os quais Vergílio Ferreira estabelecia conversa, no filme, qual entrevistador de uma cadeia de TV. Depois passeava pelos corredores, a estrada, o quintal, os espaços onde outrora estiveram a capela, a cozinha, as camaratas, as salas de aula… Foi assim que aprendi a geografia e que tentei penetrar no espírito do lugar, que retive para sempre. Depois, sempre que por ali fui passando, lá estava o velho edifico, a ruir…
Desta feita, noventa alunos e muitos professores esperavam por mim para falar sobre “Manhã Submersa”, o filme que tinham visto anteriormente nas suas aulas. Foi emocionante discorrer para aquela plateia que sabe o que é ser professor e aluno, que expandiam a escola para fora do edifício de pedra, que procuravam dar um outro sentido às palavras ensinar e aprender. Falei disso mesmo, da emoção que sentia em estar ali, onde hoje é um hotel (Hotel Príncipe das Beiras), da possibilidade de viver no espaço onde há oitenta anos respirara Vergílio Ferreira, onde se passaram a maioria das peripécias que eu relatava no meu filme. Um hotel? É verdade, um hotel espaçoso, cuidado, de linhas direitas e superfícies brancas e lisas (Siza Vieira a deixar marcas da sua arquitectura um pouco por todo o lado), relativamente bem decorado, com sobriedade. Bons profissionais a tomar conta dele, mas uma negligência espantosa: quase nada de Vergílio Ferreira e do anterior seminário ali é recordado.
A verdade é que raros hotéis possuem a hipótese de se transformarem em objectos de culto, em referências da História e da Cultura portuguesa. Este, que deveria, desde logo, ter sido baptizado com o nome de Vergilio Ferreira, pouco mais faz para relembrar o grande escritor do que reservar-lhe uma sala, a mais distante e discreta, ao lado de outras, bem mais grandiosas, com os nomes de Aquilino Ribeiro, António José Saraiva ou José Nuno Figueiredo. Este hotel que poderia recordar um autor e uma obra impares na cultura portuguesa esconde-se timidamente neste aspecto, talvez com vergonha de ter sido anteriormente seminário, sem uma única foto, uma frase, uma indicação histórica. E tanto se poderia fazer para transformar este belíssimo edifico e este hotel numa jóia que muitos gostariam de visitar para se sentirem no interior de um espaço histórico-literário privilegiado.
Mas foi bom estar ali, ouvir e responder a perguntas de jovens visivelmente curiosos, que tinham feito, sem esforço, o seu trabalho de casa”, jantar depois na cantina da escola com um grupo de professores muito interessantes, cativantes na sua simpatia e na sua devoção. Manuel Abelho e Pedro Rafael distinguiam-se na direcção dos acontecimentos. No dia seguinte continuámos a jornada, por aldeias históricas, e, pela noite fora, numa tertúlia à procura do valor da palavra em Castelo Novo. (A seguir)

Imagens actuais do hotel "Príncipe das Beiras", no antigo seminário do Fundão.

ver mais em Agrupamento de Escolas da Serra da Gardunha

FALAR DE VERGÍLIO FERREIRA
NO FUNDÃO

quinta-feira, novembro 20, 2008

FIM DE SEMANA PELO FUNDÃO

Sábado, dia 22 de Novembro de 2008
em Castelo Novo



Sexta -feira, dia 21 de Novembro de 2008
no Fundão

HOJE NO VAVADIANDO


PORTUGAL, SELECÇÃO Ahhhhhhhhhhhhhh!!!

Bons tempos em que jogava o Pauleta, e os adversários se mostravam "macios.
BRASIL, 6 - PORTUGAL, 2
A equipa portuguesa esteve bem, logo desde o guarda-redes, muito bom a ir buscar as bolas ao fundo das redes, passando pelos defesas (muito antibiótico se toma por aqui, para assim ficarmos “sem defesas”), pelo meio campo (que organização!), finalizando nos avançados, exímios a atacar a baliza, por alto e pelos lados. O banco foi excelente (Queirós leva as mãos à cabeça de uma forma inigualável!). Os brasileiros que estavam em crise (não marcavam golos em casa, a ninguém, a alguns jogos!) tiveram pela frente uma equipa verdadeiramente amiga, uma daquelas que os psicanalistas contratam para elevar o moral. Cristiano Ronaldo (e alguns portugueses mais) que joga que se farta em Inglaterra (quando tem uma equipa a jogar com ele e um treinador a “formar” essa equipa), aqui anda aos papéis, tanto faz jogar com a Albânia como com o Brasil.
Ao Brasil não foi preciso jogar senão a passo, nunca fez pressão, deixou jogar, e teve tempo para os floreados que sabe e quis desenvolver. A plateia gritou “olé”. A contratação de Carlos Queirós revelou-se um verdadeiro tiro na “mouche”. José Mota ainda é capaz de levar Portugal ao “mundial”.


Queirós quando ainda julgava que tinham sido "só" cinco. No final, foram seis!

quarta-feira, novembro 19, 2008

6 MESES DE DITADURA


O TRIUNFO DA VONTADE

(depois de seis meses de ditadura)

Já sabíamos que tínhamos alguns nostálgicos de um Estado “musculado” ou mesmo de uma “ditadura paternalista” (os salazaristas de antanho), já sabíamos que no Parlamento havia adeptos de “democracias populares”, que preconizaram durante décadas a “ditadura do proletariado”, já sabíamos que havia franjas de maoistas e mesmo saudosos de Enver Hoxha e outros que tais. Soubemos agora que, para a líder do PDS, Manuela Ferreira Leite, nada melhor do que o país colocar de lado a democracia “durante seis meses” e ser governado em ditadura. Nada mau. São estes os “heróis” que conduzem as bandeiras dos professores nas manifestações das 120.000 alminhas a descer as avenidas.
Nunca me senti tão mal neste País de anedota. Nem no tempo da ditadura (nesse tempo, eu julgava que a ditadura era temida, mas odiada pela maioria). Eu não pertenço a esta gentinha! Não sei onde pára a decência. E se fechassem para obras? Sobretudo se fechassem as bocas, se não sabem o que hão de dizer!

PS: Socrates: já sei por que alguns lhe querem tão mal. É muito brando! Devia pedir no mínimo um ano de ditadura, "para pôr a casa em ordem".
Adenda: lido (com proveito) no Hoje há Conquilhas:
PS,2
Alguém que diz rigorosamente o que eu também penso:

terça-feira, novembro 18, 2008

CINEMA: ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA, II

UM FINAL, DOIS FINAIS
Tentemos explicitar melhor por que gosto mais do filme do que romance, por que acho o romance redundante e o filme não. Agarre-se no final do romance. O médico e a mulher estão na sua sala e falam. A mulher vai à janela.
Lê-se no livro: “Porque foi que cegámos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Sim, Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que vendo, não vêem.
A mulher do médico levantou-se e foi à janela. Olhou para baixo, para a rua coberta de lixo, para as pessoas que gritavam e cantavam. Depois levantou a cabeça para o céu e viu-o todo branco, Chegou a minha vez, pensou. O medo súbito fê-la baixar os olhos. A cidade ainda ali estava.”
Este o final do livro. Depois de 300 páginas de uma parábola muito interessante, mas óbvia, o autor ainda sentiu a necessidade de sublinhar: “Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que vendo, não vêem.” Totalmente desnecessário, inútil, uma confissão de desconfiança nas capacidades dos leitores: será que todos perceberam, vamos lá dizê-lo outra vez.
No filme, o médico retoma a vista, outros se seguirão, a mulher do médico chega à janela, e olha uma paisagem de cores garridas (a única paisagem realista do filme, julgo que de São Paulo, com os jardins em primeiro plano e a paisagem urbana lá ao fundo) e afirma qualquer coisa como “Agora vou cegar eu!?”. Mas a paisagem continua lá. Admirável, de cor, de vida.
Este final é superiormente inteligente e abre para uma nova leitura da obra que nunca está contida no filme: imagine-se que o que o livro e o filme afirmam até aqui é que nesta terra de supostos cegos, a única que “vê”, mas em sentido simbólico, é esta mulher (isto é. ela é a única que “vê”, que sente os males do mundo e os procura ultrapassar, solidarizando, oferecendo-se para viver com os cegos, em constante iminência de contágio, perdoando actos de infidelidade, oferecendo o seu corpo á violência nas horas más, pegando em armas contra a tirania, quando tudo se torna insuportável, etc.). Mas agora podemos ir mais longe: todo o filme é o resultado da imaginação dela, tudo não passou de um pesadelo (por isso a fotografia é negra, irrealista, ao longo de todo o filme, até aqui). Ela chegou à janela, olhou a cidade e a paisagem, e pensou na brutalidade do dia a dia, na competição feroz, na desumanidade, no aviltamento de uns pelos outros, e imaginou este mundo de injustiças constantes levado a extremos, se as circunstancias o facilitassem, por exemplo, se todos fossem cegos. Por um momento (que para nós espectadores dura duas horas, o tempo de projecção do filme) imagina esse pesadelo. Lá dentro está o marido, que ela pensou ser o primeiro atingido. Regressada à realidade, olha a fabulosa paisagem que tem à sua frente, e coloca a questão angustiosa, “E se agora for eu?”, isto é, E se agora cegar eu, Deixar eu de sentir esta solidariedade e esta humanidade que me tem acompanhado até agora? Questão que dela passa para os espectadores, sem demagogia, nem constrangimento. Com subtileza e inteligência. Tanta ou tão pouca que vejo muitos críticos a acusar o filme de fraquezas que não deslumbro, mas não vi nenhum ainda abrir a obra a leituras novas.