sábado, dezembro 20, 2008

NATAL NO VAVADIANDO

O ESPÍRITO DE NATAL
Todos os anos por esta altura se ouvem as ladainhas do costume: ou se trocam presentes apressados e se louvam hipocritamente as delícias da quadra, ou, pelo contrário, se invectiva a quadra por isso mesmo, por obrigar a uma data, por impor uma felicidade que não existe, por mentir descaradamente sobre os sentimentos e as emoções, por compelir a um amor ao próximo que se não sente, por obrigar a despesas supérfluas, por gerar um consumo despropositado, enquanto lá fora, por esse mundo fora se mendiga uma côdea de pão, se morre desfigurado de qualquer humanidade.
Todos têm e não têm razão, ao que suponho. Há dias, num centro comercial, uma família fazia compras de Natal e derrotava todas as ideias que se possam ter sobre o Natal. O pai irado, enxotava o filho que queria comprar um presente para um amigo, gritando-lhe em altos berros: “Coisas caras que lhe comprem os pais, que têm dinheiro para isso. Dá-lhe uma merda qualquer que já chega!” Aqui está o espírito de Natal que não vinga. Uma “merda qualquer” pode chegar sim, se dada com alguma emoção, aquela que a criança põe no desenho canhestro com que pinta uma árvore de Natal e a oferece a quem a merece segundo o seu coração. Mas nem a prenda mais cara do mundo chegará se for escolhida com a indiferença de quem arruma rapidamente uma questão incómoda que urge extirpar como um cancro. Este não é o espírito de Natal e quem não o sente, melhor fora que passasse longe do sapatinho e, se possível, se recolhesse frente ao presépio, implorando uma qualquer bênção que lhe caísse de um qualquer céu, cristão ou agnóstico.
Porque o espírito do Natal tem tudo a ver com uma certa religião, mas deveria ter sobretudo a ver com uma humanidade que todos deveríamos sentir. Todos os dias, seria o ideal, mas pelo menos nalguns dias do ano, para tornar mais habitável o planeta. Muito me espantaria se quem não é capaz de sentir esse espírito do Natal na quadra obrigatória, o fosse sentir durante o resto do ano.
Também há os que protestam sempre que chega a euforia das iluminações e dos cânticos de Natal, do lufa-lufa das compras e dos jantares de confraternização, quando se sentem explorados durante todo o tempo, injustiçados com a vida, envoltos num negrume sem esperança e isentos de toda a capacidade de ouvir o que quer que seja que os faça felizes. Compreende-se que existam e se afirmem nesta altura esses “condenados na terra” que nada têm e que sentem agravada a sua injustiça perante a indiferença de quem os olha como se não os visse.
O que julgo, porém, ser de louvar e sublinhar nesta quadra é precisamente esse renovar recorrente, ano após ano, de uma esperança em melhores dias que não esmorece, esse desejo de transformação, essa prática saudável de aquecer o coração quando os dias se tornam mais frios e as noites mais escuras. Há sempre uma estrela algures no céu, há sempre umas palhinhas acolhedoras, há sempre um milagre, divino ou humano, que se espera, por mais terríveis que sejam os cenários de guerra, por mais descorçoantes que sejam as crises, provocadas por esbanjadores do alheio, por mais arbitrárias que sejam as desilusões do dia a dia. O espírito do Natal tem de fazer parte dessa humanidade que não pode fugir do aconchego da nossa consciência de homens. E de homens solidários. O espírito de Natal tem de ser entendido como algo de autenticamente revolucionário, que nos ensina a resistir à adversidade e nos testa quotidianamente na nossa mais genuína fraternidade. Resistir aos tempos que nos querem matar o que de humano existe em nós, essa é a matéria dos sonhos que nos devem mover. Resistir às intempéries da venalidade, da boçalidade, da brutalidade, da desumanidade. O espírito de Natal é o que leva os poetas a nunca esquecer o horror, mas a desenhar grinaldas de esperança, lá onde só parece existir o desespero.
Por isso aqui estamos, com este “espírito de Natal” que irmana num mesmo pensamento e numa mesma emoção os que acreditam no mágico “Menino de Belém” e os que só vêem “o seu menino”, aquele que nasceu na maternidade da sua cidade, ou nas humildes palhinhas de uma choça africana do Darfur, entre lençóis de deslumbrantes e acariciantes tecidos, ou por entre os bombardeamentos no Iraque e de todos os outros Iraques deste nosso mundo. O espírito do Natal é essa insistência inusitada na vida, mesmo quando se sabe a inexorabilidade da morte. Essa resistência quase insana numa luta diária por uma dignidade humana, mesmo quando a vemos espezinhada a toda a hora em nome dos mais altos desígnios, mas afinal ao serviço dos mais ímpios dos propósitos.
Resistir é a palavra. Que só os poetas conhecem. Como, por exemplo, José Régio:
"NATAL"
Mais uma vez, cá vimos
Festejar o teu nascimento,
Nós, que, parece, nos desiludimos
Do teu advento!

Cada vez o teu Reino é menos deste mundo!
Mas vimos, com as mãos cheias dos nossos pomos,
Festejar-te, - do fundo
Da miséria que somos.

Os que à chegada
Te vimos esperar com palmas, frutos, hinos,
Somos - não uma vez, mas cada -
Teus assassinos.

À tua mesa nos sentamos;
Teu sangue e corpo é que nos mata a sede e a fome;
Mas por trinta moedas te entregamos;
E por temor, negamos o teu nome.

Sob escárnios e ultrajes,
Ao vulgo te exibimos, que te aclama;
Te rogamos nas lajes;
Te cravejamos numa cruz infame.

Depois, a mesma cruz, a erguemos,
Como um farol de salvação,
Sobre as cidades em que ferve extremos.
A nossa corrupção.

Os que em leilão a arrematamos
Como sagrada peça única,
Somos os que jogamos,
Para comédia, a tua túnica.

Tais somos, os que, por costume,
Vimos mais uma vez,
Aquecer-nos ao lume
Que do teu frio e solidão nos dês.

Como é que ainda tens a infinita paciência
De voltar, e - te esqueces
De que a nossa indigência
Recusa tudo que lhe ofereces?

Mas, se um ano tu deixas de nascer,
Se de vez se nos calar a tua voz,
Se enfim por nós desistes de morrer,
Jesus recém-nascido!, o que será de nós?!


Lisboa, Vavadiando, 19 de Dezembro de 2009 / Texto LA. Fotos MEC

NATAL, 18

terça-feira, dezembro 16, 2008

NATAL, 14

EDGAR ALLAN POE NO CINEMA

"THE MANSION OF MADNESS"
Em 1844, Edgar Allan Poe escreveu “The System of Dr. Tarr and Professor Fether” (Feather)”, um conto inicialmente aparecido no nº 5 do vol. XXVIII, da revista “ Graham’s Magazine” (de Novembro), e posteriormente integrado no volume de “Histórias Grotescas e Sérias”. Trata-se de uma obra particularmente interessante, parodiando algumas teorias em voga na altura sobre o tratamento da loucura. O conto, escrito na primeira pessoa do singular por um narrador que visita um castelo isolado, situado numa das províncias do extremo sul de França, onde encontra um estranho Dr. M. Maillard que aí dirige um manicómio, aborda de forma parabólica e algo satírica, a teoria da cura em liberdade, o “sistema da doçura”, no qual os pacientes não são contrariados nas suas alucinações e fantasias, mas antes impulsionados a satisfazer os seus instintos, procurando “curá-los” pelo absurdo. Se alguém pensa ser um galo, pois que se alimente de milho e farináceos, e logo perderá a loucura. O sistema parece, no entanto, não funcionar muito bem, apesar da áurea ganha nos meios científicos, na explicação de Maillard, que leva o visitante a percorrer as instalações da instituição, onde aparecem estranhas personagens, que se reúnem num jantar pantagruélico. É nessa altura que o narrador percebe que, durante a vigência do “sistema da doçura”, os internados se tinham revoltado, encarcerado médicos e enfermeiros e tomado conta do castelo que agora administravam com “um grão de loucura”.
Este conto está na base de um filme mexicano muito curioso, datado de 1973, que se passa em França (como no original de Poe), mas que foi rodado no México, falado em inglês, dirigido por um mítico Juan López Moctezuma e que conheceu vários títulos: “The Mansion of Madness”, “Dr. Goudron's System”, “Dr. Tarr's Pit of Horrors”, “Dr. Tarr's Torture Dungeon”, “Edgar Allan Poe: Dr. Tarr's Torture Dungeon”, “House of Madness”, “La Mansión de la Locura” ou “The System of Dr. Tarr and Professor Feather”. Juan López Moctezuma é herdeiro de uma tradição mexicana de filmes de terror, que teve na presença de Luís Buñuel neste país uma forte motivação para uma inspiração surrealista e anti clerical. Moctezuma foi colaborador de Alejandro Jodorowsky, conheceu Fernando Arrabal e pode dizer-se que fez parte de um grupo que nos anos 60-70 se intitulou “Panic”, onde militava ainda Roland Topor. O “Movimento Pânico” tinha como musa a deusa Pã e uma forte influência de Buñuel e dos surrealistas franceses, bem assim como do teatro da crueldade de Antonin Artaud. A proposta era anárquica, surreal, caótica, libertina, fantástica, grotesca, libertadora… Durou mais ou menos até 1973.
(Continua no blogue MEIA NOITE FANTÁSTICA)

domingo, dezembro 14, 2008

UM VIOLINO NO TELHADO, I

UM VIOLINO NO TELHADO
No palco em Portugal
“Um Violino no Telhado”, em cena no palco do Teatro Rivoli, no Porto, é, creio que sem dúvidas, o melhor musical até hoje encenado por Filipe La Féria. Já escrevi bastante sobre a peça e o filme num texto que surge no programa do Rivoli, interessa-me agora abordar a versão portuguesa. Desde logo um cenário e um guarda-roupa deslumbrantes, de um extremo bom gosto. Depois um jogo de luzes magnifico e um trabalho de actores invulgarmente coerente e globalmente de grande qualidade: José Raposo, no protagonista, é magnifico, de vitalidade, vibração, humanidade e humor, Rita Ribeiro muito segura e contida na “mãe” que vai casando as filhas, Joel Branco, numa das suas mais logradas actuações, José Pinto, fulgurantes em curtas aparições como “Rabi”, Hugo Rendas, igualmente numa das suas melhores prestações, num elenco onde ainda se podem e devem citar Sara Lima, Ruben Madureira, Helena Rocha, Sissi Martins, Carlos Meireles, Alexandre Falcão, entre muitos outros.
Ao todo são 58 actores, cantores, bailarinos e músicos, a maioria dos quais oriundos do Norte. Da Ucrânia surgiu o grupo de bailarinos que interpretam os cossacos. Excelentes.
Num teatro a rebentar pelas costuras (numa quarta-feira), com gente de todos os estratos sociais, com os rostos felizes dos espectadores a acompanharem com um visível prazer o que lhes era dado ver no palco, com muita gente nova no público (quem disse que o musical era coisa de terceira idade não sabe do que fala!), este foi o espectáculo que sabe bem ver e sabe bem saber que existe. Teatro do melhor, com público do melhor, numa noite memorável do Porto.


saber mais AQUI

UM VIOLINO NO TELHADO, II


UM VIOLINO NO TELHADO
Do palco ao cinema (*)
“Um Violino no Telhado” foi durante anos, e não há muitos, o musical com maior número de representações na Broadway. Razões para esta preferência dos espectadores norte-americanos? Uma história humana, comovente e divertida, bem construída, com uma banda sonora inspirada que fica facilmente no ouvido, coreografias nervosas e ritmadas, boas interpretações, uma encenação vigorosa, e ainda dois aspectos que não podem ser esquecidos em palcos americanos: uma história ambientada num época que transformou profundamente o mundo e, sobretudo, uma história de judeus, e sabe-se que New York já foi chamada Jew York.
“Fiddler on the Roof” parte de uma obra originalmente chamada “Tevye”, incluída numa colectânea de contos de Sholem Aleichem (“Tevye and His Daughters” ou “Tevye the Milkman”), escrita em Yiddish e publicada em 1894.
Sholem Aleichem (de nome próprio Sholem Rabinovitz) foi um dos mais famosos escritores europeus judeus. Nasceu em 1859, numa família que vivia em Perevaslav, uma pequena cidade no sul da Rússia. Pouco depois mudaram-se para Voronkov, e toda a vida de Sholem Rabinovitz é a base da sua inspiaração literária. A quantidade de irmãos e parentes que reunia à sua volta está na base da intriga de “Um Violino no Telhado.” A sua vida irrequieta e tumultuosa, cheia de altos e baixos, tendo por vezes que fugir a credores que o não largavam, ou a perseguidores rácicos, não “deu um livro”, como muitas vezes se afirma, mas vários. Passou por diversas cidades, até chegar a Odessa, onde escreve a obra de que nos ocupamos, passando depois a Kiev, onde assiste aos massacres e às perseguições, tanto de czaristas como dos bolcheviques a caminho do triunfo, o que o levam a emigrar para a América, fixando-se em Nova Iorque, por pouco tempo, voltado pouco depois à Europa, à Alemanha, onde não feliz e apanhou o início da I Guerra Mundial. Regressa novamente à América como fugitivo. A 16 de Maio de 1916 morre pobre, mas deixa uma obra literária de mérito reconhecido, entre contos e peças de teatrro.
“Fiddler on the Roof”, o musical teatral, e depois o filme, descreve-nos o dia-a-dia numa aldeia russa da Ucrânia, Anatevka, onde predomina uma fechada comunidade judaica. Estamos ainda em plena época czarista, mas os tempos anunoiam mudança. Em redor do ano de 1905, esses sinais eram já visíveis. Tevye (Zero Mostel, no teatro; Topol, no cinema), o leiteiro da aldeia, e a sua família (onde abundam fílhas em idade de casar) são o centro sobre o qual irá rodar toda a intriga. O período é de perturbações sociais, com as contínuas ameaças do czarismo aos judeus e, simultaneamente, essa agitação estabelece o confronto e a contradição. Anatevka é delas retrato, desde a exaltação de uma tradição judaica, de características perfeitamente imutáveis, até à descoberta dos sinais de tempos novos que certas figuras prenunciam com a força das suas convicções. A obra irá, portanto, oscilar entre a tradição e a novidade, entre o amor e o ódio, entre o czarismo agonizante e a vontade popular em vertiginosa ascensão. Uma oscilação de extremos que encontrará o seu motivo maior numa raiz rácica, fértil em provocar confrontos.
De todo este clima Tevye é igualmente um bom exemplo. Nas suas longas conversas com Deus, em momento de corte e ruptura numa progressão dramática ditada pela acção (e que propiciam a introdução de alguns “números” musicais), Tevye funciona numa rudimentar dialéctica que se expressa nurn simples jogo de altenâncias de razões de certo peso (“por um lado, isto”, ... “por outro lado, aquilo”). Será este espírito aberto à dialéctica, ao confronto dos contrários que, apesar de tudo, obrigará Tevye a abandonar o tradicionalismo em que se baseava toda a sua experiência, voltando-se para novas aventuras e esperanças futuras. A maneira como vai encarando o casamento de cada uma das suas três filhas mais velhas é bem exemplo dessa mudança que se vai operando no seu comportamento e modificando a sua mentalidade.
No início da obra, Tevye explica: “Um violino no telhado, porquê? Porque corresponde à nossa maneira de ser. Esta é a nossa terra! Mantêmo-la com a força da nossa tradição. Temos tradições para tudo, para comer, para trabalhar, para vestir, para ter a cabeça coberta. Como começou tudo isto? Não sei. Mas é a tradição.” Há quem diga que o violino é o simbolo da sobrevivência da cultura e do estilo de vida judaicos na Europa de Leste e não se fazem rogados a estabelecer comparações entre este musical e a obra pictórica de outro judeu famoso, Marc Chagall, que também não se cuibia de colocar violinistas em situações de precária estabilidade.
O musical da Broadway estreou em 1964, fez mais de 3.000 representações pela primeira na história do género. Joseph Stein e Jerome Kobbins (este na adaptação e coreografia) foram os prinoipais responsáveis do êxito no teatro, bem assim como o autor da musica, Jerry Bock. A sua estreia na Broadway foi coroada com a nomeação para dez Tony Awards, de que venceu nove, incluindo Melhor Musical do ano, Melhor Partitura, Melhor Libreto, Melhor Encenação e Melhor Coreografia. Depois foi reposto por quatro vezes e, em 1971, passou ao cinema. Para esta versão cinematográfica seria chamado, Norman Jewison, um cineasta irregular, mas que assinou alguns títulos particularmente interessantes, que se encarregaria da encomenda com certo apuro técnico e algum brilhantismo espectacular.
De um ponto de vista musícal o filme tem duas ou três sequências bastante boas, sobretudo na primeira parte, nomeadamente os já famosos “Tradition” “If I Were a Rich Man” (onde a presença de Topol, que terá sido a grande revelação desta obra, é verdadeárameiite notável, de força, de segurança, de nervo e ritmo). A coreografia de Jerome Robbins (o mesmo de “West Side Story”) é, ela também, tumultuosa, agressiva e vigorosa, sobretudo nos bailados com grande número de intervenientes (cenas na taberna, o casamento de uma das filhas de Tevye, todo o falso sonho de Tevye, conquanto que este seja de um gosto um tanto ou quanto duvidoso). De qualquer forma é possível verificar-se um estilo Jerome Robbins, bastando para isso comparar alguns bailados de “West Side Story” com outros deste “Fiddler on the Roof”.
O trabalho de Norman Jewisson é, por seu turno, bastante cuidado, criando um clima de certo lirismo. Aqui e ali alguns efeitos menos díscretos, ou mais discutiveis (uma ou outra sobreposição rebuscada, sobretudo uma sequência, quase no final da pelicula, com um bailado a dois, em silhueta, que nos parece de grande facilidade formal), poderão ter retirado uma maior coerência, mas no seu todo, o filme mantém um nível bastante aceitável, sendo de realçar o trabalho dos actores, particularmente o de Topol, como jâ assinalámos atrás.
No ano da sua estreia (1971), “Um Violino no Telhado” demonstrou ser uma certa revitalização do “musical”, uma apetência pela renovação no ínterior de um género então já em crise, que daí em diante não deixou de se agravar, apesar do aparecimento de meia dúzia de títulos que, de hora em vez, voltam a agitar o marasmo.
Na cerimónia de atribuição dos Oscars do ano, o filme teve comportamento meritório: venceu nas categorias de Melhor Fotografia, Melhor Som, Melhor Direcção Artística e Melhor Banda Sonora Adaptada, não transformando em estatuetas as nomeações para Melhor Filme, Melhor Actor e Melhor Actor Secundário.
(*) Texto que aparece no programa do espectáculo de La Féria

UM VIOLINO NO TELHADO
Título original: Fiddler on the Roof
Realização: Norman Jewison (EUA, 1971); Argumento: Joseph Stein, segundo obras de Sholom Aleichem (romance "Tevye's Daughters e a peça "Tevye der Milkhiker""); Música: Jerry Bock; Fotografia (cor): Oswald Morris; Montagem: Antony Gibbs, Robert Lawrence; Casting: Lynn Stalmaster; Design de produção: Robert F. Boyle; Direcção artística: Michael Stringer, Veljko Despotovic; Decoração: Peter Lamont; Guarda-roupa: Joan Bridge, Elizabeth Haffenden; Maquilhagem: Del Armstrong, Gordon Bond, Wally Schneiderman; Direcção de produção: Richard Carruth, Larry DeWaay, Ted Lloyd; Assistentes de realização: Terence Churcher, Paul Ibbetson, Terence Nelson, Vladimir Spindler, Stevo Petrovic; Departamento de arte: Sam Gordon, William Maldonado, Mentor Huebner, Harold Michelson; Som: David Hildyard, Gordon K. McCallum, Les Wiggins; Produção:Norman Jewison, Patrick J. Palmer; Companhias de produção: Cartier Productions, The Mirisch Corporation.
Intérpretes: Topol (Tevye), Norma Crane (Golde), Leonard Frey (Motel Kamzoil), Molly Picon (Yente), Paul Mann (Lazar Wolf ), Rosalind Harris (Tzeitel), Michele Marsh (Hodel), Neva Small (Chava), Paul Michael Glaser (Perchik), Ray Lovelock (Fyedka), Elaine Edwards (Shprintze), Candy Bonstein (Bielke), Shimen Ruskin, Zvee Scooler, Louis Zorich, Alfie Scopp, Howard Goorney, Barry Dennen, Vernon Dobtcheff, Ruth Madoc, Patience Collier, Tutte Lemkow, Stella Courtney, Jacob Kalich, Brian Coburn, George Little, Stanley Fleet, Arnold Diamond, Marika Rivera, Mark Malicz, Aharon Ipalé, Roger Lloyd-Pack, Vladimir Medar, Sammy Bayes, Larry Bianco, Walter Cartier, Peter Johnston, Guy Lutman, Donald Maclennan, René Sartoris, Roy Durbin, Ken Robson, Robert Stevenson, Lou Zamprogna, Susan Claire, Nigel Kingsley, Joel Rudnick, Petra Siniawski, Susan Sloman, Kenneth Waller, etc.
Duração: 181 minutos; Distribuição do filme: Rank Filmes; Distribuição do DVD: Metro Goldwing Mayer; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia: 3 de Novembro de 1971 (EUA); Locais de filmagem: Gorica, Croácia.

NATAL, 12

sexta-feira, dezembro 12, 2008

EXPOSIÇÃO NO MUSEU DA IMPRENSA

EXPOSIÇÃO DA IMPRENSA
CINEMATOGRÁFICA PORTUGUESA
A convite de Luís Humberto, director do Museu da Imprensa, que há anos funciona (e bem!) ali para os lado do Freixo, no Porto, fui no passado dia 10 inaugurar uma Exposição da Imprensa Cinematográfica Portuguesa. O texto que então li, aqui fica como memória, mas sobretudo como homenagem a Manoel de Oliveira.
Não é por acaso que nos encontramos aqui hoje, a inaugurar uma exposição sobre a Imprensa Portuguesa de Cinema, neste Museu da Imprensa, na cidade do Porto. Claro que poderia ser por uma razão que tivesse a ver única e exclusivamente com a importância desta imprensa cinematográfica no contexto cultural português. Justificava-se por si só. Mas tudo leva a crer que inaugurar esta exposição um dia antes de Manuel de Oliveira completar cem anos, e dois dias antes dele ter sido registado na Conservatória quererá dizer alguma coisa. Obviamente que estamos na presença de uma homenagem ao mais conhecido, e reconhecido, cineasta português de toda a História do nosso cinema. A que gostosamente eu me associo, nestas curtas palavras que me solicitaram para dar por aberta ao público esta exposição.
O Cinema nasceu oficialmente em França em 1895. A 28 de Dezembro. Faz cento e treze anos daqui a poucos dias. A História do Cinema Português tem menos um ano, nasceu aqui, no Porto, quando Aurélio da Paz dos Reis filmou a saída da Fábrica Confiança, à semelhança do que um ano antes tinham feito os irmãos Lumière, na Fábrica Lumière. Oliveira não era ainda nascido, mas pouco faltava.
Curiosamente, em 1912, quando surge no Porto, a primeira revista de cinema de que se tem registo, a “Cine Revista”, dirigida por Lopes Teixeira, com edição de A. de Matos, Oliveira já deixara de gatinhar e possivelmente corria pelos corredores da casa dos pais com um carrinho de corridas de madeira, outra das suas paixões.
A história da Imprensa Cinematográfica Portuguesa não é particularmente brilhante e teve poucos momentos de certa importante. Curiosamente, ou não, a verdade é que sendo Portugal uma pequena cinematografia com muitos hiatos e raros períodos de florescimento, nada mais normal do que a sua imprensa especializada reflectir esse aspecto. Mas também se poderá ver o problema de forma inversa. Quase todos os países que tiveram e têm forte presença cinematográfica editaram grandes jornais, mas sobretudo revistas preponderantes, a promoverem essas cinematografias. Em França, “Cahiers du Cinema” e “Positif”, em Inglaterra “Sight and Sound”, em Itália, “Cinema Nuovo”, em Espanha, “Nuestro Cine” e “Primeiro Plano”, na América, “Variety” e tantas outras. Cada uma dessas revistas definiu-se como porta-voz de uma cinematografia de uma corrente estética, de um caminho que conheceu o triunfo, que se impôs e conseguiu impor cinematografias nacionais. Em Portugal nunca houve um revista que tenha conseguido furar o bloqueio exterior, que tenha ultrapassado fronteiras, que tenha ajudado a criar e a impor uma cinematografia. Fomos sempre mais dados a importar filmes estrangeiros e a publicitá-los bem nas nossas revistas, do que em fomentar uma indústria e uma arte e a exportá-la. Julgo que ambas as questões estão indissociavelmente ligadas: nunca houve imprensa forte porque nunca houve forte cinematografia; nunca houve cinematografia impositiva porque nunca existiu uma imprensa que a impusesse.
Mas houve alguns momentos em que os homens de cinema de certas épocas tentaram criar uma cinematografia e uma imprensa cinematográfica fortes e coesas, ambas a puxarem para o mesmo lado. Houve alturas ao longo da nossa história do cinema, em que se tentou ora criar uma indústria, ora impor uma cinematografia individualizada, personalizada e esteticamente distinta. Nessas alturas existiram revistas que procuram sublinhar esse aspecto e valorizá-lo junto dos seus criadores e técnicos, como junto do seu público. Na década de 20 do século passado, seria Manoel de Oliveira jovem e entusiástico espectadores de obras do mudo, que para sempre lhe marcaram a sensibilidade e o querer ser cineasta, no Porto, apareceu a Invicta Filmes que, com técnicos e artistas quase sempre importados de França e de Itália, tentou criar uma cinematografia portuguesa. O nosso “mudo” nunca foi particularmente excitante em termos artísticos, mas esta iniciativa marcou o seu tempo, Houve mesmo uma revista, que durou de 1923 a 1936, que se chamou “Invicta Cine”, que teve como directores sucessivamente Carlos Moreira e Roberto de Magalhães. Também no Porto, Rino Lupo, um dos estrangeirados que a Invicta acolheu, dirigiu “Arte Muda”, em 1928.
Em Lisboa, por essa época, multiplicando-se igualmente as tentativas: aparecia a primeira série de “Cinéfilo”, dirigida entre 1928 e 1939, por Avelino de Almeida, até 1932, e depois por Augusto Fraga. Seria um título a ter várias séries, e quase sempre com importante contributo, como iremos ver posteriormente. São ainda desse tempo, “Imagem”, de Chianca de Garcia, o inesquecível autor de “A Aldeia da Roupa Branca”, revista que iria de 1930 a 1935; “Kino”, uma primeira tentativa do talentoso António Lopes Ribeiro, que durou dois anos (1930-1931), “Cinema”, de Alberto Armando Pereira, outra vez no Porto). Andava Oliveira já na faina fluvial, apresentado “Douro”, a primeira obra que iria provocar polémica e hoje se pode considerar uma obra-prima indiscutível.
António Lopes Ribeiro, que desde cedo considerou, e muito, Oliveira, voltava à carga em 1933 com “Animatógrafo”, Fernando Fragosa tentava o “Cine Jornal”, entre 1935 e 40, Armando de Miranda lançava “O Espectáculo”, em 1937, e António Lopes Ribeiro voltava à carga com uma segunda série de “Animatógrafo”, iniciada em 1940 e prolongada até 1942, ano em que Manoel de Oliveira assinava a sua segunda obra-prima, um filme rodado no Porto, que prenunciava o neo-realismo, com catraios que brincavam ao “Aniki Bobo”.
“Filmagem” foi outra revista que teve influência certa na imprensa cinematográfica portuguesa. A segunda série surgiu entre 1943-44, dirigida por Raul Faria da Fonseca, a terceira foi de 1945 a 47, com direcção de A. Cardoso Lopes, que voltaria a orientá-la, numa quarta série, até 1948. Destas revistas todas só tomei conhecimento delas muitos anos depois em alfarrabistas. Ou então folheando um pequenino opúsculo que, anos mais tarde, o Henrique Alves Costa me ofereceu. Chamava-se “Breve História da Imprensa Cinematográfica Portuguesa”, edição do Cine Clube do Porto. Livrinho precioso.
Mas a partir dos anos 50, já eu comprava e guardava religiosamente algumas. A popular “Plateia”, que iniciou a publicação em 1951, foi dirigida inicialmente por Luís Miranda, depois António Feio e finalmente Baptista Rosa, sob a direcção do qual comecei a escrever textos e entrevistar personalidades. Atravessou décadas, numa segunda série que sobreviveu até meados dos anos 80. Mais exigente, era “Imagem”, que reunia gente dos cine clubes e da resistência, e que teve igualmente duas fases, uma de 50 a 53, sob direcção do mesmo Baptista Rosa, outra que duraria de 54 a 61. Revista popular, foi ainda “Estúdio”, impressa em rotogravura, que sobressaía pela tonalidade castanha e um certo alinhamento com a politica do Estado Novo. Durou de 1959 até 1975, então já sob direcção de Boavida Portugal.
Por estes anos, Oliveira rodava alguns belíssimos documentários, de “O Pintor e a Cidade”, ao “Pão”, culminando com um “Acto da Primavera” que se integrava numa nova geração de cineastas portugueses, aqueles que apareceram nos anos 60 e foram considerados a geração Gulbenkian, também chamada de “Cinema Novo Português”.
Nas revistas que apareceram a seguir, em muitas delas fui colaborando. No “Celulóide”, editada em Rio Maior, por Fernando Duarte, que organizava o Festival do Filme Agrícola de Santarém, e que estendeu a sua publicação mensal de 1957 a 1984. Em 1959, apareceu a “Filme”, dirigida pelo saudoso Luís de Pina, onde escrevi pela primeira vez um texto sobre Roger Corman, que nessa altura ninguém conhecia.
A actividade dos Cine Clubes era intensa e repercutia-se nas revistas: já referi a “Imagem”, mas há a assinalar várias outras, mais ou menos directamente ligadas ao movimento, como, por exemplo, “Cadernos de Cinema” (Universitário de Lisboa), “Plano” (dedicados a cinema e teatro) ou “Cine Clube” (Cine Clube do Porto).
De 1971, durando apenas três números, um dos quais dedicado a Manuel de Oliveira, é “Enquadramento”, a primeira das minhas tentativas (frustradas) para editar e manter um revista de cinema em Portugal. As outras foram “Isto é Espectáculo”, que teve oito números, entre 1976 e 77; “Isto é Cinema”, os primeiros 12 números da minha responsabilidade, e “Vídeo Som”, que apanhei em andamento e de que dirigi dezena e meia de números.
Entretanto, voltando atrás, entre 1973 e 74 surgiu uma nova série da revista “Cinéfilo”, desta feita com orientação editorial de Fernando Lopes. Teve um destacado papel no relançamento da geração de 60 e na consolidação da liberdade no pós-25 de Abril.
Por essa altura, Oliveira regressara em força, com “O Passado e o Presente”, “Benilde ou a Virgem Mãe”, “Amor de Perdição”, “Francisca”, etc. Conta-se que por essa altura sempre que apresentava um projecto e concorria a um subsídio, por exemplo através do Centro Português de Cinema, os realizadores mais novos perfilavam-se respeitosamente e comentavam entre si: “Deixem-no rodar mais este filme, está velhote, nunca se sabe…” Na verdade, nunca se sabe. Felizmente, depois desses rodou mais de três dezenas.
Voltando às revistas. Após 1974, não houve muitas, mas apareceram algumas muito curiosas. O Porto sempre a dar cartas: “Cinema Novo”, direcção de Mário Dorminsky, aparece em 1978, policopiada, estando na base do Fantasporto; “Cinema”, inicio em 1982, órgão da Federação Portuguesa de Cineclubes; “A Grande Ilusão”, outra vez o Porto, direcção de José Henrique de Barros, edição do Cine Clube do Norte; “Arte 7”, publicada em Lisboa por Manuel Costa e Silva, em 1991; “Senso - Revista de Estudos Fílmicos”, dirigida por Abílio Hernandez, uma edição da Sala de Estudos Cinematográficos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra; “Premiére”, uma versão portuguesa de uma revista internacional com edições em vários países, que, apesar das condições de que dispunha, encontrou alguma dificuldade e suspendeu a publicação no passado ano e agora retomou com nova orientação. Continua a ser dirigida por José Vieira Mendes. Entretanto, à média de um filme por ano, Oliveira vai construindo uma obra impar e a impor o nome de Portugal pelos cinco continentes.
Mudou, porém, completamente nos últimos anos o perfil das revistas de cinema.
O lado mais popular de algumas, que se ocupavam principalmente das vedetas, foi ocupado pelas revistas cor-de-rosa;
A dificuldade de conseguir um público que as mantenha continua a ser enorme, num país pequeno como o nosso, e com pouca apetência para revistas de cultura;
A concorrência da Internet, dos sites de cinema e dos blogues que proliferam, por vezes com excelentes comentários, reduz o campo de interesse dos potenciais leitores, que colhem lá fora notícias fresquinhas;
O cinema português, única realidade que poderia justificar uma revista de cinema em Portugal, para o discutir e o promover, quando tem interesse é muito elitista, quando é popular é pimba e o público que o vê, na sua generalidade, não quer saber de crítica, de história ou de ensaísmo cinematográfico. Quer consumir sem mais.
Logo, neste momento só vislumbro três hipóteses de subsistirem revistas de cinema em Portugal.
Uma é o exemplo da “Premiére”, uma “franchise” internacional que se destina essencialmente a veicular a predominante produção anglófona, ainda que seja de justiça referir que tem assegurado sempre páginas para a produção portuguesa;
A segunda é a existência de revistas de crítica e ensaísmo, que debatam, historiem, critiquem com uma profundidade incomportável na Internet, e destinadas obviamente a um público minoritário;
A terceira é a edição on line. Para dar um exemplo, em Portugal, nesta altura existe uma muito interessante, dirigida por José Soares, com o título “Take”, e o endereço
http://take.com.pt/.
Chegamos assim ao dia de hoje, 10 de Dezembro de 2008, neste Museu da Imprensa, na cidade do Porto, onde se inaugura esta Exposição de Imprensa Cinematográfica Portuguesa. Enquanto nós estamos aqui a recordar um pouco da História antiga, em Lisboa, um Senhor, à beira de completar cem anos, continua a filmar. “Singularidades de uma rapariga Loura”, segundo Eça de Queirós. Curiosamente uma novela que eu próprio tive contrato firmado com a RTP, em meados dos anos 80, para adaptar a telefilme, no interior de uma série chamada “Histórias de Mulheres” (que eram oito, de início, mas fui obrigado a reduzir a quatro, pois cada nova história me trazia um prejuízo de centenas de contas!).
Os que amam o cinema e os que amam a vida te saudamos daqui, do Porto, neste dia. Boa sorte, Oliveira, e parabéns.
Porto, Museu da Imprensa, pelas 16 horas do dia 10 de Dezembro de 2008
Fotos LA e MEC

NATAL, 10

quinta-feira, dezembro 11, 2008

100 ANOS DE COERÊNCIA

Fazer cem anos é de certo um acontecimento na vida de uma pessoa. Mas não é certamente esse o motivo maior da minha admiração por Manoel de Oliveira (muito embora agora pareça ser para muita gente). O que mais me fascina (e fascinou ao longo das últimas décadas em que eu e ele coincidimos) é a forma como esses cem anos foram e são vividos. Entregues a paixões irresistíveis, entre as quais figura, em grande plano, o cinema. Mas entregues de uma forma devotada, intransigente, absoluta. Oliveira foi sempre moderno, provocador, coerente consigo próprio, intransigente com o que outros pensavam ou diziam. Tem uma ideia do que é o cinema, o cinema que quer fazer, e dela não abdica. Nunca mudou de rumo. Foi sempre quem hoje é. Uma vida assim vivida reconsidera-nos com a Humanidade. Com a arte. Com o Cinema. Pode gostar-se muito, ou não se gostar nada. Pode amar-se certos filmes, e passar-se um pouco ao lado de outros (como tem sido o meu caso). Mas nunca se pode passar ao lado do exemplo deste Homem, deste amor absoluto.
Depoimento de Lauro António / Jornal Digital da Rádio Renascença 11. 12. 2008

NATAL, 9

terça-feira, dezembro 09, 2008

UMA VISÃO DA "MANHÃ SUBMERSA"


Num blogue que visito, mas que nunca tinha párado no dia 25-05-2008, descobri agora uma referência ao meu filme "Manhã Submersa". Aqui a recordo, com agrado, obviamente. Um obrigado ao Tonino, sabendo eu que estas coisas nao se agradecem.

o meu jugo é suave
Os insondáveis desígnios de Deus. Esta é a oração, frequente, melhor, a principal justificação para a forte conduta repressiva, sempre em nome de Deus, da Igreja. Ao rever passados tantos anos o filme "Manhã Submersa" (Lauro António, 1980 – adaptação do romance homónimo de Vergílio Ferreira) surpreendi-me pelo que foi a minha própria educação católica. Embora não num seminário, como no filme, e a tão relativa pouca distância, a educação católica e os princípios morais que me deram a conhecer, tinha eu idade aproximada da personagem central do filme, são idênticas às que os Senhores Eclesiásticos nos transmitiam na Igreja, nos campos de férias, na catequese, nos dias em que passei por aquela altura na paróquia. Lembro-me bem do padre, do Sr. Padre, e dos fortes princípios morais que procurava transmitir, incutir nos nossos pensamentos, nos nossos actos e nas nossas omissões (confesso que sem sucesso - nunca acreditei nele). Lembro-me bem de um episódio, após mais um campo de férias, em que o Sr. Padre nos juntou para uma purgação conjunta do que tinha acontecido naquele último campo. Um a um todos foram afirmando o que achavam, chegada a minha vez referi que o campo serviu só para uma coisa: para dar uns beijos, estavam todos ali para isso, a redenção dos nossos pecados passava por isso, por encontrar a rapariga certa para o beijo certo, para os bailes de garagem seguintes e para pouco mais. Claro, o Sr. Padre não gostou, paciência, ele próprio daria uns beijos com uma senhora que lhe tombava aos pés e que logo lhe levantava as saias (nas famigeradas caminhadas e retiros espirituais). O filme "Manhã Submersa" é um filme triste, muito triste. E belo, muito belo. É uma obra poderosa, que remonta à nossa infância, à infância dos homens da minha geração, do nosso país, a uma época de repressão, de fortes desigualdades sociais, de pobreza, de austeridade, principalmente para quem teve, como eu, uma forte vivência na província. Lembro-me bem de quando chegava era recebido como um estranho, tudo porque era do Porto, de uma “grande metrópole”. Lembro-me bem das minhas tias, todas solteiras, que me tratavam com tal honra que era chamado pelos outros como o reizinho, o menino rei, o menino (bom, eu era, na altura, filho único, neto único, sobrinho único; confesso, fui mimado, por isso o sou ainda). E a Igreja sempre presente. Sempre a repressão por tudo que era a descoberta de uma vida feliz. O alcande para a felicidade apregoada pela Igreja passava pela obediência, pela asfixia dos sentimentos, pelo desapego que nos incutiam a ter os nossos próprios desejos, pela renúncia a uma existência alegre, tudo em nome de Deus, para o caminho de uma vida sem pecado. Haja paciência, nunca a tive, cedo desisti dessa vida dedicada a Deus. Não de Deus, esse continua presente. Como dizia Jesus: “O meu jugo é suave”. E é desse jugo que eu gosto, em que eu acredito.
Publicada por toninho em 10:01:00

NATAL, 7

segunda-feira, dezembro 08, 2008

LIVROS RECOMENDÁVEIS

ALGUMAS ÚLTIMAS LEITURAS

OS MAL-AMADOS

Recentemente saído, “Os Mal-Amados”, de Fernando Dacosta, é uma espécie de segunda versão, refundida e recriada, acrescida e retemperada, de uma outra obra do autor, “Nascido no Estado Novo”. Dividida em cinco partes, começa na Primavera (da marcelista ao 25 de Abril de 1974), passando pelo Verão (quente!), pelo Estio (de Sá Carneiro às aparições de Fátima), pelo Inverno ( da guerra das colónias) acabando no Outono (do nosso descontentamento, nalguns casos). Partindo de aproximações e análises muito pessoais (e vividas) de contactos com alguns dos mitos maiores do nosso País, nos últimos 50 anos, Dacosta recorda Salazar e Cunhal, Marcelo Caetano e Mário Soares, Amália Rodrigues e Natália Correia, Agostinho da Silva e Saramago, a Irmã Lúcia e Snu Abecassis, e muitos e muitos outros nomes que fizeram a grande e a pequena história do Portugal contemporâneo. Isto por si só seria muito, mas há muito mais, há o que faz a diferença em Dacosta: uma escrita elegante e viva, inebriante de cor e de riqueza emocional, pejada de anotações e citações autênticas recolhidas das bocas dos visados, todos eles olhados com respeito e por vezes com alguma admiração, mesmo quando não estimados pelo autor (Salazar é um caso típico, já assim tratado em “As Máscaras de Salazar”, esse magnífico best seller da literatura portuguesa mais recente). Jornalista por profissão, mas ficcionista por temperamento, Dacosta mescla com extraordinária mestria a realidade dos factos com a névoa da memória emotiva e oferece-nos uma belíssima panorâmica desta terra madrasta e maravilhosa onde se erguem na glória e se afundam no desespero tantos e tantos vultos e tantos e tantos heróicos anónimos que fizeram e fazem a nossa gesta. Indispensável para reconforto da alma e para nos conhecermos um pouco melhor a nós próprios. (Ed. Casa das Artes, 2008).

DIÁRIO DE UM VELHO LOUCO

Excelente é “Diário de Um Velho Louco”, de um autor japonês que não conhecia, Junichiro Tanizaki (Ed. Relógio d' Água, 2008). Trata-se de um romance curto, mas extremamente denso, escrito como diário de um homem de 77 anos, que sente a decrepitude do corpo a instalar-se e a morte a rondar, mas que não deixa de experimentar ainda sinais de uma sexualidade intensa, que extravasa em jogos algo perversos com a nora Satsuko, antiga bailarina que casou com o filho de Utsugi, e mantém com a complacência do velho um caso amoroso extra conjugal e ainda exercita uma excitante sedução, algo sado-masoquista como o sogro. Entre o diário de um doente, atreito a maleitas várias, atafulhado de remédios que vai enumerando e explicando, e as confissões de um libertino amoral que chegou a uma idade em que não tem de dar justificações a ninguém, e gosta de espiar o banho da nora e de lhe beijar os pés, “Diário de Um Velho Louco” é uma obra surpreendentemente melancólica e irónica, por vezes enraivecida contra o destino, outras vezes complacente com a ordem das coisas, e sempre filosófico quanto à condição humana.
Recolho da Wikipedia, alguns dados sobre o autor. Junichiro Tanizaki nasceu a 24 de Julho de 1886 e veio a falecer, com 79 anos, a 30 de Julho de 1965. É considerado um dos maiores autores da literatura japonesa moderna, ao lado de Kawabata, por exemplo, e é o mais popular romancista japonês depois de Natsume Soseki. Inicialmente sofreu muito a influências de Edgar Allan Poe, e de outros ocidentais que traduziu (Stendhal e Oscar Wilde, por exemplo). Participava de uma escola literária, “Tanbiha”, que valorizava a “arte e beleza acima de tudo”, contra um certo objectivismo da época.
Em 1923, um forte terramoto destruiu-lhe a casa, forçando-o a mudar-se para Ashiya, na região de Kyoto e Osaka, que lhe forneceu cenários para o seu romance “As Irmãs Makioka”. Principais obras: “Amor insensato” (1924), “Voragem” (1928), “Há quem prefira Urtigas” (1930), “A Chave” (1956), e este “Diário de um Velho Louco” (1965).

MARCADO PARA MORRER

Policiais bons são raros, apesar da muita (da excessiva) edição. “Marcado para Morrer”, de John Dunning (Ed. Estampa, 2008), é uma boa surpresa. Cliff Janeway, um detective bibliógrafo, descobre assassinado um “rato de bibliotecas”. Com base nesse macabro achado principia uma investigação, inicialmente nos quadros da polícia, depois por conta própria. Não há muito a inventar nestes casos. O mais interessante começa mesmo a ser o acidental: neste pormenor, o mundo dos livros, o negócio das primeiras edições, o comércio das encadernações intactas, o polícia que gosta de livros (um caso que começa a tornar-se vulgar, veja o brasileiro Spinosa, de Garcia Roza, ou o cubano Mário Conde, de Leonardo Padura, que são apenas dois exemplos). Mas o livro é escrito com vivacidade, consegue prender o leitor, tanto com a investigação do crime, como com os pormenores de um bibliógrafo obsessivo. De resto, o esquema recupera o policial à moda antiga, lembrando Hammet, entre outros.
John Dunning nasceu a 9 de Janeiro de 1942, em Brooklyn, NY. Infância atormentada por doenças. Denver tornou-se a cidade de Dunning, onde começou por se estabelecer como livreiro. Depois veio a literatura, curtos contos, finalmente o romance. Policial. Premiado e com uma larguíssima margens de leitores em todo o mundo. Apaixonado pela rádio escreveu “The Ultimate Encyclopedia of Old-Time Radio” (1976) e depois “On The Air” (1998). Com o mesmo detective, Cliff Janeway,e depois de “Booked to Die”, já apareceram dois novos volumes: “The Bookman's Wake” (1995) e “The Bookman's Promise” (2004). Sempre com crimes e livros às voltas. Acredite que é um bom conselho.

O PORTUGUÊS QUE NOS PARIU

Já me tinham falado neste livro há algum tempo, tanto em Portugal, como no Brasil. Sempre entusiasticamente. Resolvi lê-lo agora e foi uma agradável surpresa (ou confirmação do que me haviam dito): uma escrita divertida, irónica, crítica, leve, abordando a história de Portugal de um ponto de vista brasileiro, com alguma sátira à mistura, mas com uma enternecedora compreensão (e alguma admiração) para com a nossa História. A individual e a conjunta. Terá aqui e ali um erro de perspectiva histórica, mas de um modo geral é muito interessante, e não justifica de forma nenhuma alguma animosidade de certos portugueses que só lêem os títulos e se sentem logo ofendidos.
“O Português Que Nos Pariu”, de Ângela Dutra de Menezes (Ed. Livraria Civilização Editora - Porto, 2007) lê-se de um fôlego e acredito que seja um bom elo de ligação entre dois povos com tanto em comum.

SHERLOCK HOLMES
(Biografia não Autorizada)

Sherlock Homles nasceu da imaginação de Conan Doyle e da sua escrita, mas não morre. Cada ano que passa parece que a sua áurea aumenta e o seu mito se agiganta. São às dezenas as obras que se escrevem ultimamente tendo por base este detective privado que viveu nos anos vitorianos e prolonga a sua existência em todos os sentidos. Já aqui dei conta da leitura de alguns romances recentes que tinham Sherlock Holmes ou Conan Doyle como personagens centrais (por exemplo, “Arthur & George”, de Julian Barnes). Li agora “Sherlock Holmes,uma biografia não autorizada”, de Nick Rennison, que é um projecto fascinante, excelentemente concretizado. A ideia é sedutora desde início: Sherlock Holmes existiu na realidade. Viveu e exerceu a sua profissão em Inglaterra, sob o reinado da Rainha Vitória. Watson (o Caro Watson, companheiro omnipresente de Sherlock Holmes), vai registando os factos e as investigações e entrega a os relatórios a Arthur Conan Doyle que os redige e os faz publicar. Conan Doyle, porém, a determinada altura, sente-se inclinado a decidir que Holmes não passava de uma invenção sua. A coisa tem tal grau de plausibilidade que o leitor quase se chega a convencer disso.
Partindo das informações recolhidas nos vários romance de Conan Doyle, que têm como protagonista Sherlock Holmes, o autor vai reconstituir a existência “real” desse alguém que chega a ter mais personalidade e imposição existencial que muitas pessoas. Obviamente que nem tudo corresponde ao já escrito nos romances de Conan Doyle. Nick Rennison preenche com a sua imaginação e o rigor de uma pesquisa histórica indesmentível as lacunas ma biografia do célebre detective. Mas o resultado é fascinante e lê-se com apetite voraz. Um bom romance, dos melhores que conheço sobre a matéria. (Ed. Esfera do Caos, 2008).

AINDA OS PROFESSORES

MANIFS E MANIPULAÇÔES
Por que será que aquele Senhor da Frente dos Sindicatos dos Professores, um Senhor com um poder oratório e uma correspondente habilidade na manipulação de massas que amedrontam qualquer insuspeito democrata, e um olhar de uma determinação inquietante (já se viram alguns idênticos começarem assim, e chegarem onde chegaram, não quero agora citar nomes, mas lá que estes Senhores são uma ameaça, lá disso não tenho dúvidas!) quer “iniciar a campanha eleitoral contra o partido no governo”, como publicamente o demonstra (e alguns professores mais ingénuos já publicamente o afirmaram)?
Será que pensa que os 120.00 que saíram à rua votam todos no seu PCP? Olhe que não, olhe que não! Será que pensa que a opinião pública vai toda atrás de si e dos 120.000 que mobilizou para arruaças? Será que julga que os 120.000 querem “democracias populares”? Será que pensa que todos se deixarão enganar o tempo todo? Será que muitos desses professores não vão percebendo o que verdadeiramente está por detrás desta arruaça? Será que os portugueses que votam e escolhem um partido e um programa de governo gostariam de ver na rua o poder democraticamente instituído, sempre que alguém acha que tem razão para reclamar ou simplesmente descobre, por detrás de uma reclamação justa, uma forma de promover a desordem e derrubar o governo com manifestações de qualquer tipo? Pois parece que por muitas manifestações que façam os eleitores não mudam assim tanto. Vejam-se as sondagens. Podem alguns professores deixar de votar no PS, mas parece que há muitos outros votantes a suprir essa falha. As percentagens não descem. Por que será? Não era altura de deixarem de utilizar os professores como carne para canhão de manobras político-partidárias e sentarem-se à mesa a discutir o que julgam que não está bem?
Cada vez mais a opinião pública está contar os Professores. Basta ouvirem-se as vozes na rua, nos cafés, ler os blogues. O que é manifestamente injusto para uma enorme multidão de excelentes Professores que temos (mesmo para muitos dos que fazem manifestações e protestos). A serenidade nas escolas vai demorar muito tempo a regressar.
Sobre este caso, leia-se um interessante e inteligente apontamento no Blogue Da Literatura.

NATAL, 6

ANTÓNIO ALÇADA BAPTISTA

ANTÓNIO ALÇADA BAPTISTA
(1927-2008)
Chegou-me agora a notícia através de alguns blogues por onde deambulava. Com 81 anos, faleceu António Alçada Baptista. Grande escritor, personalidade que vincou a vida portuguesa com a sua presença e o seu verbo, a sua sensibilidade e uma delicadeza de comunicação muito especial, que o levou a definir-se a si próprio como "escritor de afectos", "com uma sensibilidade feminina", foi director da revista “O Tempo e o Modo” (1ª série), autor de obras de pendor filosófico, como “Peregrinação Interior - Reflexões sobre Deus” (1971) ou “Peregrinação Interior II - O Anjo da Esperança” (1982) e ficcionista de relevo, sobretudo em “Os Nós e o Laços” (1985), para mim o seu melhor trabalho neste domínio.
Escrevi sobre esse romance uma prosa que, infelizmente, não retenho, mas vasculhando nos recortes de “A Capital”, onde eu tive durante anos um secção a que chamei “Sessões Continuas”, descubro uma recensão a uma outra novela sua. Aqui a reproduzo como homenagem a um homem bom, de gesto afável, de palavra sensível, óptimo companheiro de tertúlias, amante da liberdade e da justiça. Amante da “Mulher” igualmente, o que só lhe ficava bem.

“CATARINA OU O SABOR DA MAÇÔ,
DE ANTÓNIO ALÇADA BAPTISTA

(...) Já de seguida, uma novela portuguesa, de António Alçada Baptista, o mesmo que surpreendera com “Os Nós e Os Laços” e que regressa com “Catarina ou o Sabor da Maçã” um novo capítulo a acrescentar aos seus «Nós» e aos seus «Laços».
António Alçada Baptista pertence a uma geração, e a um grupo que, quando eu andava na faculdade e se começou a publicar “O Tempo e o Modo”, era conhecida por “católicos progressistas”. Havia os que os compreendiam e os que, ironicamente, lhes chamavam “os católicos que descobriram o sexo”. “O Tempo” foi passando e “O Modo” foi-se mantendo: Alçada Baptista foi publicando as suas obras, quase sempre confessionais, mesmo quando políticas e polémicas, como “As Peregrinações Interiores” ou os “diálogos com Marcelo Caetano”.
As “peregrinações interiores” continuam com “Os Nós e os Laços” ou este “Catarina”. Escrito na primeira pessoa do singular, com o autor fazendo-se passar pelo personagem, esta novela de quase cem páginas, a meio caminho entre o memoralismo e o moralismo moderno, desenvolto, pudico e elegante, mas sem pruridos, é bem o retrato do Alçada Baptista que conhecemos das “charlas” televisivas, ou das conversas em casa de amigos. Com uma escrita sóbria mesmo aristocrata, preocupada com as novas representações do Demónio na Terra, mas consciente da liberdade individual e da falibilidade das grandes acções, excelente contador de histórias que sabiamente se distancia dos mecanismos que desencadeia, António Alçada Baptista cita “O Livro de São Cipriano” a propósito de «amor e droga» na Lisboa de hoje, criando figuras com densidade e verdade deambulando por ambientes que se reconhecem facilmente como reais. A um tom desencantado e simultaneamente optimista que faz grande parte do fascínio desta obra que se lê de um fôlego, como de um fôlego parece ter sido escrita, dada a espontaneidade e escorreiteza do verbo. Sedução que se instala ainda pela recuperação de um certo arcaísmo de conceitos e valores, que se inscreve no interior de uma moderna ficção filosófica. (“Catarina ou o Sabor da Maçã”, Ed. Presença).

CINEMA: "AMÁLIA"

AMÁLIA
“Amália”, de Carlos Coelho da Silva, coloca velhas questões. O cinema é arte e indústria, sempre. Tal como a literatura, a música, a pintura, o teatro, todas as formas de manifestação artística, comporta uma base industrial óbvia. Apenas nalguns casos, o factor artístico ultrapassa o lado industrial e comercial da questão. No caso de “Amália” esta dicotomia é gritante. Industrialmente este filme é um sucesso. Anunciado o projecto, programadas as filmagens, montado e sonorizado em tempo record, assume a estreia em 66 salas em Portugal no dia programado, tem prevista venda para diversos países. A produção é boa, a reconstituição formal dos espaços e do tempo em que decorreu a vida de Amália é cuidada, procura-se não haver anacronismos, o guarda-roupa respeita as épocas e as classes sociais, os adereços funcionam, os cenários estão certos. Parece que o orçamento foi o maior de sempre no cinema português. Dinheiro que procura multiplicar-se em vendas. Tudo certo segundo as regras do mercado. Nada a apontar.
Artisticamente o caso muda diametralmente de figura. “Amália” é, na minha opinião, um completo fracasso. Não há quase nada a sublinhar nesta obra sem respiração, sem fôlego, sem nervo, sem vibração. Dir-se-ia uma viagem por um (medíocre) museu de máscaras de cera (o que chega a ser aflitivo, nas sequencias de Amália em Nova Iorque). Mas se falamos em máscaras de cera não é só pela perturbante caracterização de algumas figuras (particularmente Amália), mas sobretudo porque o que vemos são manequins vestidos à época, sem qualquer densidade humana, sem nenhuma verdade. São títeres que evoluem, debitando um diálogo, movimentando-se, mas sem um sopro de existência plena. Uma vez ou outra o talento de alguns actores oferece um lampejo. Sandra Barata, na Amália na idade adulta, consegue defender bem a personagem (esqueça-se a Amália em Nova Iorque, de fugir! Não por culpa da actriz, diga-se). Carla Chambel não destoa em Celeste Rodrigues. Ricardo Carriço é um aceitável César Seabra. António Pedro Cerdeira é um bom Ricardo Espírito Santo. António Montez mostra que um actor é logo outra coisa. Maria João Abreu, Lourdes Norberto, Ana Padrão, Pedro Pinheiro não se pode dizer que vão mal, como alguns mais. Apenas lhes falta personagens.
Comecemos pelo argumento, assinado por Pedro Marta Santos e João Tordo. O que de melhor surge parece inspirado no musical “Amália”, de Filipe La Féria. Se os diálogos são fluentes e se ouvem bem, a estrutura da narrativa é de tal forma artificial e descosida que chega a irritar. A realização nada faz para a tornar plausível. Frenética, sincopada, não dando tréguas ao espectador, numa montagem com um ritmo vertiginoso transforma o filme em duas horas e meia de Le Mans. Nada é olhado com respeito, com atenção, com delicadeza. O resultado é uma estrutura de telenovela mexicana de terceira categoria, filmada com um olhar de abutre que não se cansa de espiar as personagens e os acontecimentos em picados de mau agoiro. Imensos planos são filmados de cima para baixo, sem qualquer tipo de intencionalidade. Faz-se assim, porque faz efeito, mostram que têm gruas e as utilizam. Os actores são os principais prejudicados com esta estética de maratona: não conseguem impor uma presença, não têm tempo para respirar, mal esboçam um gesto ou um olhar, corta e estamos já no plano seguinte.
De resto, este não é um filme que procure aprofundar nada. Apenas rentabilizar o nome de “Amália”. Vender bilhetes e cópias. Suporta-se porque há na banda sonora uns tantos fados cantados por Amália Rodrigues e vistos em “play back”. Mas o mito maior da música portuguesa merecia melhor sorte.

AMÁLIA
Título original: Amália
Realização: Carlos Coelho da Silva (Portugal, 2008); Argumento: Pedro Marta Santos, João Tordo; Produção: Manuel S. Fonseca, Ana Torres; Música (original): Nuno Malo (The Budapest Symphony Orchestra); Fotografia (cor): Carlos Santana; Direcção artística: Augusto Mayer; Maquilhagem: Aracelli Fuente; Direcção de produção : Gerardo Fernandes; Assistentes de realização: César Fernandes, Guilherme Pinto; Guarda-roupa: Silvia Meireles; Companhia produtora: VC Filmes;
Intérpretes: Sandra Barata (Amália), Carla Chambel (Celeste Rodrigues), Ricardo Carriço (César Seabra), José Fidalgo (Francisco da Cruz), António Pedro Cerdeira (Ricardo Espírito Santo), Ricardo Pereira (Eduardo Ricciardi), António Montez (Avô António), Maria João Abreu (Ercília Costa), Tina Barbosa, Adriano Carvalho (Sebastião Lima), Ana Marta Contente (Amália, jovem), Maria Emília Correia (Casimira), Beatriz Costa (Aninhas), Matilde Coelho da Silva (Detinha - 13 anos), Carla de Sá (Natália Correia), João Didelet (Ary dos Santos), Licinio França (Barman), Sofia Grilo (Mulher de Ricardo Espírito Santo), Philippe Leroux (Bruno Coquatrix), Eurico Lopes (Pai de Amália), Natália Luísa (Leonor), André Maia (Alain Oulman), Luís Mascarenhas (Martins), Susana Mendes (Filipina), Mariana Monteiro (Yoshabel), Miguel Monteiro (Jornalista RTP), Lourdes Norberto (Mãe de Ricciardi), Ana Padrão (Mãe de Amália), Carlos Pimenta (Rei Humberto), Pedro Pinheiro (Sr. Alfredo), Mário Redondo (Rui Valentim de Carvalho), Carla Salgueiro (Viscondessa Asseca), Janita Salomé (Alberto Janes), Carlos Sebastião (Médico), Leonor Seixas (Detinha), Jorge Sequerra (Agostinho Barbieri), Amélia Videira (Avó Amália), Carlos Vieira (Frederico Valério), etc.
Duração: 127 minutos; Distribuição em Portugal: Valentim de Carvalho - VC Multimedia; Classificação etária: M/12 anos; Data de estreia: 4 de Dezembro de 2008 (Portugal)