sábado, junho 27, 2009

"casadeosso" ESCOLHE, EU AGRADEÇO

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Descobri no blogue "casadeosso", de walter hugo mãe,
esta bonita homenagem a um filme.
No que me toca agradeço.
uma escolha sem hesitações


o clube de cinema oito e meio - póvoa de varzim - organiza uma exposição colectiva para a qual convidaram alguns artistas e amigos a interpretarem plasticamente um filme que os tenha marcado. eu escolhi a «manhã submersa» do lauro antónio, que foi criado suportado no livro de vergílio ferreira. o meu trabalho é o que vêem acima. não sou artista plástico, de todo, esforço-me de boa vontade para fazer o melhor que possa e, tendo sido convidado, quis muito homenagear um filme que me impressiona. um filme português - como alguns outros - que me impressiona de facto, pelo retrato claustrofóbico de um país que, aqui e acolá, ainda tende a guardar-se do tempo, como medo de amadurecer. é uma vergonha não pintar melhor, mas a homenagem é sincera.aqui podem encontrar

YANN ARTHUS-BERTRAND E "HOME"

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Yann Arthus-Bertrand
Yann Arthus-Bertrand, o autor de “Home”, era mais conhecido até há bem pouco tempo como fotógrafo e repórter do que como realizador, apesar de ter assinado uma série de certo renome: “La Terre vue du Ciel”. Nascido em Paris a 13 de Março de 1946, Yann Arthus-Bertrand descende de uma família bem instalada na vida, possuindo um reputado negócio de joalheiros medalhistas, a casa Arthus-Bertrand, fundada por Claude Arthus-Bertrand e Michel-Ange Marion. Mas terá sido através da sua irmã, Catherine, entusiasta da natureza e dos animais, que Yann Arthus-Bertrand se começou a interessar pela ecologia.
Aos 17 anos, em 1963, torna-se assistente de realização, depois actor (em filmes como “Dis-moi qui Tuer”, de Étienne Périer, 1965, e “OSS 117 Prend des Vacances”, de Pierre Kalfon, 1970). Em 1967, passa a dirigir uma reserva natural de animais no centro da França, no “Parque de Château de Saint-Augustin”, em Château-sur-Allier. Em 1976, com 30 anos, parte para o Quénia, com a mulher, Anne, passando ambos a viver no parque nacional “Massaï Mara”, juntamente com os Masaïs, aproveitando para estudar o comportamento de uma família de leões que fotografa todos os dias durante três anos, trabalho que estará na base do seu álbum “Lions”, publicado em 1983, no seu regresso a França. Foi a partir daqui que se apaixonou pela natureza e a sua relação com a imagem. É disputado como repórter fotográfico, quer se trate de grandes reportagens internacionais sobre aventura, desporto, natureza, animais, ou fotografia aérea, no que irá especializar-se. Trabalha sobretudo para o “Paris Match” e “Géo”. Cobre dez dos rallies Paris-Dakar, e é ele que organiza anualmente o livro do torneio de Roland-Garros. Fotografa o Salão de Agricultura de Paris ou colabora com pesquisadores da natureza como Dian Fossey e os seus gorilas das montanhas do Ruanda.
Em 1991, cria a agência “Altitude”, que inicia um banco de imagens de fotografias aéreas único no mundo, com cerca de 100 fotógrafos a sobrevoarem centenas de países, recolhendo mais de 500 000 imagens. Três anos depois lança-se na sua primeira grande aventura, efectuar um trabalho de fundo sobre o estado do planeta, mostrando as belezas da Terra e alertando para os perigos que esta corre. O projecto, que contou com o apoio da Unesco, dará origem a um álbum com mais de 3 milhões de exemplares vendidos em todo o mundo (em 24 línguas), e a uma série de televisão, ambos com o mesmo título: “La Terre Vue du Ciel”, Pretendeu com esta iniciativa, “testemunhar a beleza do mundo e tentar proteger a Terra.” Outra das componentes deste projecto foi uma exposição, de visita gratuita e apresentada ao ar livre, que iniciou o seu trajecto através do mundo, em 2000, nos jardins do Luxemburgo, e já viajou por mais de 110 cidades, contando com 120 milhões de visitantes.
Em Julho de 2005, Yann Arthus-Bertrand cria a associação ecologista “GoodPlanet”, que acciona o plano “Action carbono”, destinado a compensar as emissões de gás libertadas pela actividade de fotógrafo aéreo. O programa alargou-se depois para outros públicos e empresas, procurando todos minimizar o efeito da sua actividade no clima, procurando energias renováveis, lutar contra a desflorestação e outras ameaças muito concretas.
O objectivo primeiro da associação é colocar “a ecologia e o ambiente no coração das consciências”, o que a leva a criar novos desafios: distribuição gratuita por todas as escolas de França de cartazes sobre temas relacionados com o ambiente (em 2006, o desenvolvimento sustentável, em 2007, a biodiversidade, em 20, a energia), uma exposição vídeo “6 Milliards d'Autres”, estreada no Grand Palais, com cerca de 5 000 vídeos rodados no mundo inteiro, onde pessoas muito diferentes falam de temas universais, como a alegria, a dor, a vida, a morte, o amor, o ódio, etc.; “Vivants”, uma exposição itinerante, com mais de 100 imagens de animais, acompanhadas de legendas que explicam o impacto do homem sobre a natureza; sites informativos, actividades para jovens, etc.
Em 2006, roda “Vu du Ciel”, uma série documental, que passou na France 2, em episódios de hora e meia, abordando temas diferentes. Nesse mesmo ano, nas edições “La Martinère”, sai o album “L'Algérie vue du ciel”, obra que o autor considera uma das mais conseguidas da sua carreira.
Home
A rodagem de “Home”, primeira longa-metragem de Yann Arthus-Bertrand, durou dezoito meses, iniciando-se em 2007. Nessa altura chamava-se “Boomerang”. Produzido pelo cineasta e produtor francês Luc Besson (também ele desde sempre preocupado com questões ambientais, vejam-se os seus filmes “O Último Combate” ou “O Grande Azul”), “Home” foi financiado integralmente pelo grupo francês PPR (que detém marcas como a Fnac e a Conforama) e estreado mundialmente no dia 5 de Junho, Dia Mundial do Ambiente, uma organização das Nações Unidas, que se comemora desde 1972. Nesse dia foi exibido numa versão de 90 minutos no canal de televisão francês “France 2”, às 20h35 e, logo a seguir, em versão alargada, em Paris, no “Champ de Mars”, e em muitas outras cidades. Sempre com entrada gratuita. O filme também foi exibido em simultâneo em todo o mundo e distribuído gratuitamente, tanto no cinema, como em DVDs, e na internet (sendo permitido legalmente fazer o download da obra). Foi a primeira vez na história que um acontecimento deste género ocorreu, demonstrando bem a intenção de sensibilizar todos os cidadãos do planeta para os problemas que o mesmo defronta. No jornal “Público”, que em Portugal se associou ao lançamento do DVD, podiam ler-se palavras de Yan Arthus-Bertrand: “Vivemos tempos excepcionais. Os cientistas dizem-nos que temos dez anos para alterar a forma como vivemos, para evitar o esgotamento dos recursos naturais e a catastrófica evolução do clima terrestre.” (excerto de um comentário divulgado no site do Programa das Nações Unidas para o Ambiente (Pnua). E continuava: “O documentário apela para uma nova consciência, convidando o espectador a parar por um momento e olhar para o nosso planeta, para os seus tesouros e beleza…”.
Na verdade assim é. Em cerca de duas horas de projecção (versão do DVD) assistimos a uma deslumbrante panorâmica aérea sobre mais de meia centena de países do mundo (54 para ser mais preciso), onde as imagens de uma beleza por vezes sufocante se cruzam com outras profundamente inquietantes, sublinhadas por um comentário que vai alertando para os desafios que temos pela frente: o nosso planeta está gravemente doente, ferido de forma dramática, exaurido nos seus recursos essenciais, ameaçado pelo aquecimento global, os ecossistemas em perigo, acossada a harmonia da vida natural, as grandes cidades transformadas em gigantescas metrópoles sem qualidade de vida, a água a ser disputada como bem essencial rarefeito, o petróleo e o carvão a multiplicarem guerras e cobiças, à medida que se tornam cada vez mais caros.
O filme começa por evocar a formação da Terra, referindo que há vida neste planeta há quatro milhares de milhões de anos e só existem humanos há duzentos mil anos. Jogando com imagens (obviamente) actuais, o filme procura restituir a ambiência desses tempos primordiais. Numa perspectiva muito darwineana, fornece elementos para a cadeia evolucionista, desde o caos de uma bola de fogo, até ao milagre do aparecimento da vida na Terra, a origem das plantas, dos insectos, dos animais, do primeiro homem. A vida do homem vista como apenas um elo entre diversos. Os humanos que moldam a Terra à sua imagem, com tudo o que isso representa de extraordinário, mas também de perigoso. A agricultura é ainda hoje o labor dominante, metade da humanidade emprega-se nessa actividade, ¾ da qual ocupa-se da agricultura manualmente.
Aborda-se então, ainda que genericamente, o caso da energia retirada do solo, petróleo, gás ou carvão. A explosão demográfica impõe um ritmo de exploração suicida. Em 30 anos, em Xangai construíram-se 3.00 arranha-céus. As cidades consomem cada vez mais carvão, petróleo, electricidade. O petróleo tem um poder revolucionário. Cidades como Nova Iorque ou Tóquio documentam-no. Mas também a agricultura – 35 % da agricultura da Terra é realizada através de tractores. Para assegurar energia, mais energia, os cereais deixam de ser só consumidos pelos humanos, passam a gerar biocombustíveis (e alimentos para o gado).
O que representa um avanço tecnológico por um lado, é uma ameaça pelo outro: a água consumida pela agricultura é cada vez mais, os parasitas são combatidos pelos pesticidas, tornam as colheitas mais férteis, maiores, mas criam excedentes, e esses mesmos pesticidas são tóxicos e prejudiciais para o homem. As monoculturas (sobretudo soja) tornam-se mais rentáveis, mas extinguem a biodiversidade (3/4 das variedades da flora desapareceram).
O consumo da carne multiplica-se pelo mundo. A pecuária industrializa-se a extremos, criando verdadeiros campos de concentração onde os animais são criados, sem verem durante toda a sua vida um centímetro de verdura. Com outras agravantes: para produzir um quilo de carne são necessários 13.000 litros de água.
Mas uma vez a biodiversidade em perigo. A dependência do petróleo é manifesta, mas o petróleo barato acabou. O automóvel é um símbolo do progresso. O sonho americano está bem sublinhado em Los Angeles, onde o número de carros é quase igual ao número de habitantes. As cidades tendem a uniformizar-se. Nos subúrbios das grandes metrópoles as casas, tipo vivendas, são iguais na América e em Pequim, onde a casa estilo pagode desaparece.
Os minérios são extraídos da Terra a uma velocidade impressionante. Cada vez mais e mais rápido. Nos próximos vinte anos, serão extraídos da terra mais minerais do que durante toda a História do Homem. Mas apenas 20% da população mundial irá usufruir desta regalia. Rapidamente também se esgotarão os recursos da Natureza. Os contentores atravessam os oceanos carregados de recursos. A globalização permite-o, impõe-no. O Dubai é um dos países do mundo com menos recursos naturais. Mas tem petróleo, e o dinheiro que o petróleo gera. Por isso são dos maiores construtores do mundo. Criam ilhas artificiais, promovem turismo de luxo, multiplicam arranha-céus no deserto. E esgotam a terra, não ali, no Dubai, mas algures, donde importam os materiais.
O ciclo de vida que nos foi oferecido pela Natureza está a ser transformado, destruído. A pesca industrial, as grandes frotas que utilizam o arrastão, vão despovoando os oceanos de peixe. As grandes espécies tendem a desaparecer. Há preocupantes sinais de esgotamento de recursos. As colónias de mamíferos ao longo das costas são cada vez mais pequenas, porque o alimento escasseia e impera a fome. As aves marinhas têm que percorrer cada vez maiores distâncias para se alimentarem. Os pequenos barcos ficam abandonados, porque os mares já não têm peixe.
Os recursos são cada vez mais escassos. A água tem um valor cada vez maior. No deserto dá-se valor à água, e vive-se de água fóssil, extraída de poços. Mas esta água não é renovável e esgota-se. Na Arábia Saudita percebe-se o drama. Apostou-se numa agricultura industrial no deserto, irrigada pela água fóssil. O esgotamento provocou o abandono dos terrenos.
O rio Jordão, outrora um grande rio, é agora um riacho. Um em cada dez grandes rios já não desagua no mar. Perdeu caudal. O Mar Morto, que assim se chama por causa do seu elevado índice de salinidade, perde um metro de nível por ano, e concentra sal. Na Índia brotam palácios em lagos artificiais. Las Vegas é uma cidade construída sobre um deserto. Os seus habitantes são dos maiores consumidores de água em todo o mundo. Palm Spring e os seus campos de golfe consomem água de forma trágica. Tudo isto é uma miragem, afirma “Home” e pergunta até quando ela pode durar. Em 2025, as perspectivas apontam para dois mil milhões de pessoas vítimas de secas.
Os pântanos são essenciais ao equilíbrio da terra. Mas tendem igualmente a desaparecer. Bem como as florestas. Metade dos pântanos foi drenada. Pântanos e florestas são locais onde toda a matéria viva vive ligada entre si, mas ¾ da biodiversidade está ameaçada. Drenam-se os pântanos e derrubam-se florestas, porquê? Para construção, para fabricar papel, para monoculturas, para campos de concentração de gado. A Amazónia já foi reduzida em 20% da sua extensão, trocada por ranchos de gado, campos de soja (para alimentar gado ou aves exóticas, ou para biocombustível). A floresta transforma-se em carne. Muitas vezes incendeiam-se as florestas, libertando carbono em proporções inimagináveis, que vai provocar o aquecimento global, e o desaparecimento das espécies. Mas a desflorestação tem a ver sobretudo com as monoculturas. Não só a soja. Agora também o óleo de palma, utilizado na comida, mas também nos combustíveis e nos cosméticos. E na cultura intensiva do eucalipto, para alimentar de papel as rotativas de todo o mundo. “Home” prevê que nos próximos cinco anos se consuma cinco vezes mais papel. O cultivo do eucalipto consome imensa água, por outro lado, e liberta camadas tóxicas.
A vida das pessoas, apesar de toda essa ganância de uma vida insustentável, não é boa na maior parte do mundo. Vive-se em condições de extrema pobreza. Locais inóspitos, lixeiras com índices de poluição catastróficos. É necessário aproveitar a luz solar, as energias alternativas. Impedir que o dióxido de carbono se continue a libertar desta forma assassina. A calote de gelo nas regiões polares diminuiu 40%, iniciou-se o degelo no Árctico, criando icebergs, provocados pelo aquecimento. Estas alterações climatéricas têm consequências previsíveis: a água doce perde-se, aumenta a salinidade nos mares, a água do mar sobe, a harmonia quebra-se. As correntes de ar mudam, os ventos também. O que estará reservado à maioria das cidades que se localizam nas costas de todos os continentes, quando o nível dos mares subir? 70% da população mundial vive nas costas, junto ao mar. No Kilimanjaro, 70 % dos glaciares desaparecem. O Bangladesh, um dos países mais pobres do mundo, será dos mais afectados.
Restam pouco mais de dez anos para se inverter esta situação e para não se saber o que é a vida na Terra como nunca a imaginámos. Não se pode deixar quebrar a ligação tradicional entre o ar, a água e a terra. Este equilíbrio é fundamental. E as desigualdades gritantes também. 20% da população mundial consome 80% dos recursos da Terra. Gasta-se doze vezes mais em armas do que em ajuda humanitária a países em desenvolvimento. Morrem todos os dias cinco mil pessoas com falta de água potável. Mil milhões de seres humanos morrem de fome no mundo. 50% dos cereais são para alimentar gado ou para biocombustíveis. 40% da terra arável esta degradada. 13 milhões de hectares de floresta desapareceram. ¾ das zonas de pesca do mundo estão esgotadas, reduzidas ou em risco. Os últimos quinze anos foram os que registaram uma temperatura média mais alta. Em quarenta anos, 40% da calote de gelo foi consumida. Em 2050 prevêem-se 200 milhões de refugiados devido a alterações climatéricas.
Apesar de toda esta onda de ameaças que nos batem à porta, ou que já entraram pela porta dentro, “Home” termina num clima de confiança: “É tarde demais para se ser pessimista”. E dá exemplos: multiplicam-se os parques naturais, estabelece-se a reflorestação, luta-se pela reciclagem, nalguns pontos impõe-se o abate selectivo de árvores, “a Costa Rica que acabou com o exército”, incentiva-se um comércio justo que proporcione um rendimento decente para todos, exploram-se novas fontes de energia, painéis solares, eólica, etc. É tarde demais para se ser pessimista. Ou seja, já se passou o tempo em que se podia ser pessimista. Temos que ser obrigatoriamente optimistas, lançar mãos à obra, e mudar o que há que mudar.
Tanto mais que o filme de Yann Arthus-Bertrand nos permite percorrer paisagens admiráveis de uma Terra que dá gosto habitar, usufruir, amar. Para que tais imagens se possam perpetuar no presente e no futuro, ao natural, e não apenas em bancos de imagens do passado, é necessário intervir, agir, testemunhar. O que a equipa comandada por Yann Arthus-Bertrand faz de forma equilibrada, inteligente, sensível, inquietante. O seu filme é nesse aspecto um modelo, que nem os críticos radicais, que lhe reprovam o facto de andar a filmar de helicóptero e a provocar libertação de carbono, conseguem empalidecer.
HOME
Título original: Home
Realização: Yann Arthus-Bertrand (França, 2009); Argumento: Isabelle Delannoy e Yann Arthus-Bertrand; Isabelle Delannoy, Tewfik Fares e Yann Arthus-Bertrand (comentário); Conselheiro científico: Bruno Anselme; Produção: Luc Besson, Denis Carot; Música: Armand Amar; Fotografia (cor): Michel Benjamin, Dominique Gentil; Fotografia aérea: Richard Brooks Burton; Montagem: Yen Le Van; Direcção de Produção: Courau Camille, Claude Canaple, Jean de Trégomain, Emmanuel Sajot, Sidonie Waserman, Fabiola Claz, Juliette Jacobs, Stéphanie Melo, Sandrine Vitali; Assistentes de realização: Laurence Guérault, Dorothée Martin, Thomas Sorrentino; Som: Thomas Gauder, Olivier Walczak; Efeitos visuais: Anita Lech Bedez, Bénédicte Hostache, Julien Imbert ; Companhias de produção: Elzévir Films, Europa Corp., France 2 (FR2); Intérpretes: Glenn Close (Narradora, no original); Duração: 95 minutos (versão curta) EUA:118 minutos (DVD) Portugal: 114 minutos (DVD) 120 minutos (versão longa); Distribuição em Portugal: Zon Lusomundo; Classificação etária: M/ 6 anos; Estreia em Portugal: 5 de Junho de 2009.

sexta-feira, junho 19, 2009

PEDRO RUELLA RAMOS

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DIRECTOR DO "DIÁRIO DE LISBOA"
Morreu António Pedro Ruella Ramos. Contava 70 anos. Nascido em 1938, Ruella Ramos era actualmente administrador da gráfica Lisgráfica, mas ficou mais conhecido por ter sido director do extinto "Diário de Lisboa", propriedade da sua família. O "Diário de Lisboa" saiu para as bancas pela primeira vez a 21 de Abril de 1921 e acabou a 30 de Novembro de 1990, sendo considerado um jornal de referência durante sete décadas, cobrindo assim uma parte importante da História de Portugal e do Mundo do século XX. Francisco Manso foi um dos seus directores, a que se seguiu Norberto Lopes até 1967, e Ruella Ramos depois.
Tive o privilégio de ter sido colaborador do "Diário de Lisboa" durante o período áureo da sua publicação. Durante a ditadura. Entrei em 1968, com o Eduardo Prado Coelho, ambos como críticos diários de cinema, actividade que até aí era desconhecido nos jornais portugueses. Antes disso havia alguns velhos jornalistas que iam de sala em sala de cinema recolher os programas impressos, onde se podia ler uma ficha técnica reduzida e uma sinopse do filme em estreia,, e depois remendavam textos laudatórios que apareciam no dia seguinte. Não havia filmes maus.
As nossas críticas levantaram desde cedo protestos nos empresários, mal habituados a opinião livre. A Cineasso, que agrupava várias salas de cinema de Lisboa, escreveu à direcção do jornal, informando que cortava toda a publicidade “enquanto se mantivessem esses críticos em actividade”. O jornal, em lugar de se encolher e de fazer o jogo do capital e da censura, escarranchou a carta na primeira página da edição seguinte, e a censura oficial deixou passar. De um dia para o outro, os críticos de cinema do DL e o jornal foram arvorados em heróis nacionais, defensores da liberdade de impressa. Durante cerca de quinze dias choveram cartas, telegramas, telefonemas, artigos em defesa dessa liberdade que não existia em Portugal. O DL foi publicando na primeira página esses testemunhos e Ruella Ramos aguentou firme na defensa de um direito tão vilipendiado no nosso país durante a vigência do Estado Novo, e defendendo igualmente a integridade de opinião de dois jovens recem chegados a estas lides.
Durante cerca de oito anos permaneci por ali. Atravessei o 25 de Abril e, em pleno "período revolucionário em curso", como continuei a defender algum cinema americano, começaram a aparecer na redacção do DL cartas, mais ou menos anónimas, a acusarem-me de reaccionário (cá fora, o MRPP acusava-me, no jornal do partido, de ser “social fascista”, isto é comunista!). Eu que sempre lutara pela liberdade de expressão, comecei a achar o ambiente um pouco opressivo e saí. Fui para o “Diário de Noticias”. Mas anos depois, o Mário Mesquita tentou reabilitar o saudoso DL e convidou-me para voltar a assinar críticas nesse regresso não muito bem sucedido. Mas foi uma aventura inesquecível e uma honra ter estado ao lado de um grupo de jornalistas e de colaboradores hoje em dia impensável de reunir num mesmo jornal.
Ruella Ramos (e Lopes do Sotto, o homem das massas, a quem um dia eu e o Eduardo pedimos uma reunião para reivindicar aumento de salário – estávamos a receber 2,50 escudos por crónica, saímos da reunião a receber 5 escudos!!) foi um bom patrão e um bom estimulo. O jornal tinha a sua marca e o espírito dos que nele colaboravam.
Saudades de si, Pedro Ruella Ramos!
Mas, mais dia menos dias, tem junto de si a mesma equipa e pode já ir pensando num “Diário do Céu”. Se não tiver critico para os filmes projectados nas nuvens, conte comigo, mas vá guardando o lugar o mais tempo que possa. Não se apresse comigo. Um abraço amigo.

quinta-feira, junho 18, 2009

PRÉMIO ORTEGA E GASSET DE FOTOGRAFIA

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Discurso pronunciado por Gervasio Sánchez
(jornalista e fotógrafo)
durante a entrega dos
prémios Ortega y Gasset

Estimados miembros del jurado, señoras y señores:
Es para mí un gran honor recibir el Premio Ortega y Gasset de Fotografía convocado por El País, diario donde publiqué mis fotos iniciáticas de América Latina en la década de los ochenta y mis mejores trabajos realizados en diferentes conflictos del mundo durante la década de los noventa, muy especialmente las fotografías que tomé durante el cerco de Sarajevo.
….Quiero dar las gracias a los responsables de Heraldo de Aragón, del Magazine de La Vanguardia y la Cadena Ser por respetar siempre mi trabajo como periodista y permitir que los protagonistas de mis historias, tantas veces seres humanos extraviados en los desaguaderos de la historia, tengan un espacio donde llorar y gritar.
No quiero olvidar a las organizaciones humanitarias Intermon Oxfam, Manos Unidas y Médicos Sin Fronteras, la compañía DKV SEGUROS y a mi editor Leopoldo Blume por apoyarme sin fisuras en los últimos doce años y permitir que el proyecto Vidas Minadas al que pertenece la fotografía premiada tenga vida propia y un largo recorrido que puede durar décadas.
Señoras y señores, aunque sólo tengo un hijo natural, Diego Sánchez, puedo decir que como Martín Luther King, el gran soñador afroamericano asesinado hace 40 años, también tengo otros cuatro hijos víctimas de las minas antipersonas: la mozambiqueña Sofia Elface Fumo, a la que ustedes han conocido junto a su hija Alia en la imagen premiada, que concentra todo el dolor de las víctimas, pero también la belleza de la vida y, sobre todo, la incansable lucha por la supervivencia y la dignidad de las víctimas, el camboyano Sokheurm Man, el bosnio Adis Smajic y la pequeña colombiana Mónica Paola Ojeda, que se quedó ciega tras ser víctima de una explosión a los ocho años.
Sí, son mis cuatro hijos adoptivos a los que he visto al borde de la muerte, he visto llorar, gritar de dolor, crecer, enamorarse, tener hijos, llegar a la universidad. Les aseguro que no hay nada más bello en el mundo que ver a una víctima de la guerra perseguir la felicidad.Es verdad que la guerra funde nuestras mentes y nos roba los sueños, como se dice en la película Cuentos de la luna pálida de Kenji Mizoguchi.Es verdad que las armas que circulan por los campos de batalla suelen fabricarse en países desarrollados como el nuestro, que fue un gran exportador de minas en el pasado y que hoy dedica muy poco esfuerzo a la ayuda a las víctimas de la minas y al desminado.
Es verdad que todos los gobiernos españoles desde el inicio de la transición encabezados por los presidentes Adolfo Suarez, Leopoldo Calvo Sotelo, Felipe González, José María Aznar y José Luis Rodríguez Zapatero permitieron y permiten las ventas de armas españolas a países con conflictos internos o guerras abiertas.
Es verdad que en la anterior legislatura se ha duplicado la venta de armas españolas al mismo tiempo que el presidente incidía en su mensaje contra la guerra y que hoy fabriquemos cuatro tipos distintos de bombas de racimo cuyo comportamiento en el terreno es similar al de las minas antipersonas.
Es verdad que me siento escandalizado cada vez que me topo con armas españolas en los olvidados campos de batalla del tercer mundo y que me avergüenzo de mis representantes políticos.
Pero como Martin Luther King me quiero negar a creer que el banco de la justicia está en quiebra, y como él, yo también tengo un sueño: que, por fin, un presidente de un gobierno español tenga las agallas suficientes para poner fin al silencioso mercadeo de armas que convierte a nuestro país, nos guste o no, en un exportador de la muerte.
Muchas gracias.

terça-feira, junho 16, 2009

walter hugo mãe vocalista de GOVERNO

GOVERNO - Meio Bicho e Fogo from 8 e Meio on Vimeo.

«meio bicho e fogo» é o primeiro tema do projecto musical governo.composto por miguel pedro (fundador de bandas como mão morta e mundo cão) com letra de valter hugo mãe.
o projecto governo é composto por antónio rafael (também dos mãos morta) nas teclas, henrique fernandes no contrabaixo, miguel pedro na percussão e programações e valter hugo mãe na voz.
a animação do vídeo é da autoria de esgar acelerado, com desenhos de sara macedo e do próprio.
«meio bicho e fogo» é o tema com que o governo participa na compilação «novos talentos fnac 2009»
mais informações: myspace.com/ogoverno

segunda-feira, junho 15, 2009

ROMANCE, FILME: SEDA

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SEDA, DO LIVRO AO FILME
Só agora li “Seda”, do italiano Alessandro Baricco, e só depois tive curiosidade de ver o filme de François Girard. O livro parece-me muito interessante, o filme nem tanto.
Alessandro Baricco é italiano, nascido há 51 anos, em Turim. Autor premiado, viajado, multifacetado (teatro, contos, romance, cinema, televisão, programas sobre opera, sobre literatura, colaboração com os Air, na área da música electrónica, etc.), tornou-se mundialmente conhecido com o seu pequeno romance “Seda”. São 120 páginas na tradução portuguesa, de escrita sintética, mas poética, elegante e simbólica, a escrita escorre, com um número restrito de palavras, o que não implica menos densidade ou profundidade de análise, mas sim uma utilização criteriosa da palavra e da frase. Curta. Dos capítulos, curtos. Digamos que Alessandro Baricco escolheu a seda como tema e procurou na escrita uma estética que a relembrasse, macia e escorregadia, fina e sensual, muito colada ao corpo de uma história de amor algo invulgar. Primeiro capitulo:
“Embora o seu pai tivesse imaginado para ele um brilhante futuro no exército, Hervé Joncour acabara por ganhar a vida com um ofício insólito, ao qual não era estranho, por singular ironia, um jeito tão amável ao ponto de revelar uma vaga entonação feminina.
Para viver, Hervé Joncour comprava e vendia bichos-da-seda.
Corria o ano de 1861. Flaubert escrevia "Salammbô", a iluminação eléctrica ainda não passava de uma hipótese, e Abraham Lincoln, do outro lado do oceano, combatia uma guerra da qual nunca chegaria a ver o fim.
Hervé Joncour tinha trinta e dois anos.
Comprava e vendia.
Bichos-da-seda.”
Este o estilo. Estamos na segunda metade do século XIX, em França, na pequena cidade de Lavilledieu, que tem boa parte da sua economia dependendo das fábricas de seda. Durante alguns anos os ovos do bicho da seda eram procurados no norte de África, mas uma epidemia levou Baldabiou, o cérebro deste boom da seda na cidade, a procurar outras fontes de importação, o Japão, por exemplo, por essa altura um país fechado aos estrangeiros. Baldabiou convence então Hervé Joncour a deslocar-se “até ao fim do mundo” para comprar milhares de minúsculos ovos donde brotaria, meses depois, a riqueza da sua terra.
“- E onde fica, precisamente, esse Japão?
Baldabiou levantou a cana da sua bengala, apontando-a para além dos telhados de Saint-August.
- Sempre naquela direcção.
Disse.
- Até o fim do mundo".
Faz assim ele a viagem de França até ao Japão, passando por mil terras e perigos e descobrindo diferenças e indivíduos inesquecíveis. Entre estes, um negociante japonês de nome Hara Kei, e uma jovem. Leia-se a descrição:
"Hara Kei estava sentado de pernas cruzadas, no chão, no canto mais afastado da sala. Vestia uma túnica escura, não trazia jóias. Único sinal visível de seu poder, uma mulher deitada a seu lado, imóvel, a cabeça apoiada em seu regaço, os olhos fechados, os braços escondidos pelo amplo vestido vermelho, que se alargava a toda a volta, como uma chama, na esteira cor da cinza. Ele passava-lhe lentamente uma mão pelo cabelo: parecia acariciar o pêlo de um animal precioso, e adormecido.” Um mundo desconhecido, estranho, misterioso, fascinante. Apaixonante. Os olhos daquela mulher menina ainda não mais o vão largar. Quatro viagens faz ao Japão, a última das quais para surpreender a brutalidade da guerra que tudo destrói:
"Hervé Joncour ficou imóvel, olhando para aquele enorme braseiro apagado. Tinha atrás de si uma estrada de oito mil quilómetros. E à sua frente o nada. De repente viu aquilo que julgava invisível. O fim do mundo.”
E para perder para sempre o rasto da rapariguinha que “tinha uns olhos que não possuíam o corte oriental”, que ninguém sabe se realmente existiu, ou se não passou de um sonho ou um pesadelo de viajante. "A última coisa que viu, antes de sair, foram os olhos dela, fixos nos seus, perfeitamente mudos" No regresso, sempre o aconchego o amor da mulher, Hélène. Romance sugestivo, que remete para a imaginação do leitor, mas que, mal o acabei de ler, temi por uma adaptação ao cinema demasiado convencional, transformando o lirismo da obra num rodriguinho fácil, acentuando o lado sensual de algumas descrições pela exibição de cenas eróticas mais ou menos visíveis, e, em contraponto, anulando a violência sexual das evocações da carta que encerra o mistério derradeiro do livro.
Tudo isso aconteceu na adaptação de François Girard que, conjuntamente com o próprio escritor e Michael Golding, escreveu o argumento e dirigiu a obra. François Girard tinha anteriormente assinado uma curiosa série de documentários, “32 Curtas-metragens sobre Glenn Gould”, e ainda “Peter Gabriel: Secret World Live”, além de “Le Violon Rouge” (1998), única ficção que tinha chamado a atenção para o seu nome. “Seda” (Silk), é de 2007. É obra bonitinha, decorativa, com actores aceitáveis, Alfredo Molina (Baldabiou), muito bom, Keira Knightley (Hélène Joncour), muito bonita, Michael Pitt (Hervé Joncour), muito insípido, Kôji Yakusho (Hara Jubei), muito japonês. Mas falta-lhe muito para se acercar do romance. Falta-lhe o talento de elidir, com um forte apelo à imaginação do leitor, o que o romance consegue. Falta-lhe delicadeza na abordagem das cenas sensuais, que se ficam pelo exterior delambido. Falta-lhe coragem nas descrições da carta, que se corta de toda a sugestão mais intempestiva, o que o romance faz de forma exemplar, impondo uma ruptura nas derradeiras páginas. Fica-lhe uma história curiosa, mas a que falta ressonância mágica e poética.
Ou de como alguns romances são de difícil adaptação ao cinema (no livro o estilo é essencial para o resultado final). Ou de como muitas vezes se falha quando se julga ter seguido à risca as peripécias, mas se esqueceu o essencial.

SEDA
Título original: Silk ou Seta ou Soie
Realização: François Girard (Canadá, França, Itália, Inglaterra, Japão, 2007); Argumento: François Girard, Michael Golding, Alessandro Baricco, segundo romance deste último; Produção: Jonathan Debin, Niv Fichman, Cam Galano, Akira Ishii, Masaru Koibuchi, Gianluca Leurini, Nadine Luque, Sheena Macdonald, Jacques Méthé, Sahar Nasser, Domenico Procacci, Rami Rabei, Sonoko Sakai, Yasushi Shiina, Barbara Willis Sweete, Patrice Theroux, Larry Weinstein, Tom Yoda, Alessandro Baricco, François Girard; Música: Ryuichi Sakamoto; Fotografia (cor): Alain Dostie; Montagem: Pia Di Ciaula; Casting: Susie Figgis; Design de produção: François Séguin; Guarda-roupa: Kazuko Kurosawa, Carlo Poggioli; Maquilhagem: Miho Anraku, Carlo Barucci, Francesca De Simone, Raffaella Iorio, Veronika Kostrhounova, Mario Michisanti, Miyoko Sakurai, Mitsue Sato, Tsutomu Sugawara, Mariko Tanaka, Hayato Toyama; Direcção de Produção: Caterina Caratilli, Shuji Hosoya, Kyoko Kageyama, Roberto Leone, Valeria Licurgo, Tsutomu Sakurai; Assistentes de realização: Tetsuo Funabashi, Mario Janelle, Takayuki Kawatsu, Ed Licht, Shinya Masuda, Fumio Nomoto, Luigi Spoletini, Alessandro Trapani; Som: Claude Beaugrand, Olivier Calvert, Claude La Haye, Hans Peter Strobl; Efeitos especiais: Shûichi Kishiura, Giancarlo Mancini, Guillaume Murray; Efeitos visuais: Stéphane Landry; Companhias de produção: Rhombus Media, Fandango, Bee Vine Pictures, Asmik Ace Entertainment, Astral Media, Canadian Television Fund, Harold Greenberg Fund, IFF/CINV, Medusa Film, Movie Central Network, The Movie Network, Odeon Films, Productions Soie, T.Y., Téléfilm Canada, Vice Versa Film, The Works Media Group; Intérpretes: Michael Pitt (Hervé Joncour), Keira Knightley (Hélène Joncour), Alfred Molina (Baldabiou), Kôji Yakusho (Hara Jubei), Sei Ashina (Rapariga), Tony Vogel, Toni Bertorelli, Kenneth Welsh, Martha Burns, Michael Golding, Carlo Cecchi, Chiara Stampone, Marc Fiorini, Leslie Csuth, Toru Tezuka, Hiroya Morita, Akinori Ando, Jun Kunimura, Kanata Hongô, Dimitri Carella, Dominick Carella, Callum Keith Rennie, Naoko Watanabe, Honjo Hidetaro, Nana Nagao, Saki Aoi, Hiroshi Ohguchi, Michio Akahane, Yuya Takagawa, Taro Suwa, Katy Louise Saunders, Miki Nakatani, Max Malatesta, Joel Adams, Luca De Bei, Ed Licht, Domenico Procacci, Nicola Tovaglione, Francesco Carnelutti, Mark Rendall, Maddalena Maggi, Makoto Inamiya, Makoto Matsubara, Yuki Kawanishi, Hidenori Shimizu, Hiroki Takano, etc. Duração: 107 minutos; Distribuição em Portugal: Prisvideo Filmes; Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal: 28 de Fevereiro de 2008.

domingo, junho 14, 2009

SANTO ANTÓNIO JÁ LÁ VAI....

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NOITE DE SANTO ANTÓNIO EM LISBOA
MARCHAS POPULARES
Nas fotos, quase todas da MEC (a quem agradeço a gentil cedência),
aspectos de algumas das Marchas que desceram a Avenida da Liberdade,
em viva competição bairrista.
Hoje souberam-se os resultados:
1º Prémio:
Alfama e Castelo
2º Prémio:
Madragoa e Marvila
34ª Prémio:
Bairro Alto
Na bancada do Presidente António Costa, boa companhia:
Cidália Moreira, Madalena Iglésias, Argentina Santos,
Maria da Fé, e muitas mais.
Ó meu rico Santo António
Ao colo tens o Menino
Põe-me a mim no outro braço
Que ainda sou pequenino...

sexta-feira, junho 12, 2009

NOITE DE SANTO ANTÓNIO

Com desejos de uma óptima noite de Santo António,
aqui fica uma "pérola" da música popular-pimba portuguesa.
Música de Baile, de André Silva e Silvana
(registada na Escola Proficional (sic) do Fundão)

quinta-feira, junho 11, 2009

ELEIÇÕES EUROPEIAS

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NOVAS LEITURAS PARA AS EUROPEIAS
Conhecidos os resultados das eleições europeias, e digeridos os mesmos, pode dizer-se, ao contrário do muito que por aí se apregoa, que ninguém ganhou nada, e só o PS perdeu. Na verdade, estas foram umas eleições que pouco significaram por um lado e que, por outro, se mostraram particularmente ricas de ensinamentos. Para quem quiser ler os resultados finais à luz de um certo realismo político.
Claro que ninguém ganhou nada. Os descontentes do PS engrossaram as fileiras da abstenção, do PSD, do BE, do PCP, e mesmo de algum CDS-PP. E ainda sobraram alguns votos para os partidos mais pequenos. Basta fazer contas, para se perceber isto. Será muito mais estimulante perceber porque se deu esta hecatombe no seio do PS, ainda que as causas estejam à vista: desgaste político junto de sectores que votam PS normalmente (professores, juristas, classe médica, funcionários públicos, etc.), desgaste moral com “casos de polícia” não resolvidos (Freeport, por exemplo), crise económica internacional, imagem de certa arrogância do governo e má imagem de alguns ministros, péssima escolha do cabeça de lista para as Europeias, e etc. Com tantos contras, apetece perguntar como o PS conseguiu ainda segurar 26, 6 % do seu eleitorado. Certamente à custa de gajos como eu que votaram PS na impossibilidade de votar outra lista, e porque, apesar de tudo, se identificam com uma proposta ideológica programática, não acreditam em tudo quanto se disse sobre o Freeport (e esperam pacientemente pelos resultados das investigações), e encontram virtudes em muitas das tomadas de posição deste governo (em muitas, não em todas!).
Mas os resultados das eleições europeias, que sei não se poderem extrapolar para outras eleições que se avizinham, permitem outras leituras interessantes. O eleitorado descontente, por exemplo, dispersou-se à esquerda e à direita, indistintamente. O que mostra bem como não houve uma deriva ideológica, mas sim um voto de protesto generalizado. O que tem uma outra leitura. Vendo e olhando as campanhas dos partidos da direita e da esquerda do PS, não se descobriam diferenças acentuadas. Havia apenas uma intenção declarada – bater no PS, deitar abaixo a maioria absoluta.
Parecia a União Nacional do reviralho. Se os resultados se mantiverem para as legislativas, não será de estranhar uma coligação PSD-CDS, nem uma PSD-BE, ou mesmo PSD-PC (o que aliás se verifica já, subtilmente, nalgumas autarquias!).
Mas há sinais muito preocupantes para o futuro, depois de 7 de Junho de 2009. A nível nacional, um país ingovernável, numa altura de crise nacional e internacional que não vai abrandar tão cedo, e sem dirigentes políticos confiáveis (competentes e carismáticos) no horizonte. Finalmente, num plano europeu, os resultados destas eleições são ainda mais ameaçadores, com a subida galopante da extrema-direita anti-democrática. Obviamente que também aqui funcionou o voto de desagrado para com a crise. Mas a leitura dos eleitores é paradoxal: a crise internacional é indiscutivelmente uma crise moral de uma certa ideia de capitalismo selvagem que se vem impondo desde a ascensão dos yuppies na década de 80. Foi o neo-capitalismo desregrado que nos conduziu a esta renda de bilros bancária e financeira. Foi a avidez do lucro fácil que impôs esta histeria bolsista com bolhas a explodir por todo o lado. Curiosamente, alguns eleitores (milhares de eleitores pela Europa fora), para castigarem os prevaricadores, votam na direita ditatorial.
Algo não anda bem por estes lados, decididamente.


terça-feira, junho 09, 2009

CINEMA: AMAZING GRACE

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AMAZING GRACE
Michael Apted não será “Ás” ou “Manilha”, mas tem sido quase sempre “Valete” (às vezes “Rei”) no baralho cinematográfico inglês (e americano, onde se integra facilmente). Nascido em 1941, formado na televisão, onde cumpriu dezenas de episódios de várias séries, desde os inícios da década de 60, tornou-se conhecido com filmes como “The Squeeze” (1977), “Agatha” (1979), “Coal Miner's Daughter” (1980), “Gorky Park” (1983), Gorillas in the Mist: The Story of Dian Fossey” (1988), “Moving the Mountain” (1994), “The World Is Not Enough” (1999), “Enigma” (2001) ou este “Amazing Grace” (2006). Foi ele que realizou o filme oficial do campeonato do mundo de futebol de 2006. Prepara agora mais um episódio de Nardia: “The Chronicles of Narnia: The Voyage of the Dawn Treader “(2010).
“Amazing Grace” não é um grande filme, anda longe disso, mas é uma obra interessante, realizada para comemorar os 200 anos sobre a abolição da escravatura em Inglaterra, e que aborda sobretudo a figura de William Wilberforce (Ioar Gruffudd) que se tornou o símbolo dessa luta. Hesitando de início entre uma carreira de padre e de polÍtico, Wilberforce acaba por ser eleito aos 21 anos para a Câmara dos Comuns, mantendo-se aliado de William Pitt (Benedict Cumberbatch), que brevemente se tornará no mais jovem Primeiro-ministro de toda a história inglesa (aos 24 anos). Ambos pugnam pela causa abolicionista, mas Wilberforce é o testa de ferro deste movimento que, quando começa a esboçar os seus primeiros protestos, quase não encontra ressonância na bem instalada sociedade esclavagista, que vive essencialmente do comércio de escravos com as Índias britânicas. Mas lentamente a causa começa a ganhar adeptos, entre os quais um velho capitão de um navio de transporte de escravos, John Newton (Albert Finney), que à sua conta diz ter transportado cerca de “20.000 fantasmas” no bojo nauseabundo o seu navio, onde se amontoavam seres humanos em condições tão degradantes que nem os animais suportariam. Entre fezes e vómitos, presos em cacifos infectos, onde não se podiam mover nem quase respirar, atravessavam oceanos para recompensa fácil de traficantes sem escrúpulos. No fim da sua vida, John Newton escreve uma autobiografia que causa perturbação, e leva outros políticos a tomarem posições contrárias às que sempre defenderam. Caso, por exemplo, de Lord Fox (Michael Gambon), um velho apoiante conservador, que num gesto espectacular resolve mudar de campo e assinar, em pleno Parlamento, a petição contra o comércio de escravos, juntando o seu nome aos mais de 300.000 que publicamente recusaram deitar açúcar no seu chá, rejeitando deste modo pactuar com esse tráfico medonho, que transformava o sangue dos escravos em açúcar que alimentava os bolsos dos comerciantes. O percurso das carreiras para as Índias Ocidentais (Antilhas ou Caraíbas) era constituído por três etapas: os barcos partiam dos portos ingleses para África cheios de mercadorias que aí eram deixadas, enchendo-se nesse momentos os porões de escravos negros que transportavam para os portos das Caraíbas (através da célebre “Middle Passage”), onde os que sobreviviam à viagem, eram vendidos, regressando os navios a Inglaterra carregados das especiarias produzidas nas Índias Ocidentais (especialmente o açúcar). Eram cem dias de viagem e de agonia, onde definhava mais de metade da carga humana inicialmente carregada em África.
Wilberforce liderava um grupo de doze personalidades que ficou conhecido como o “Abolition Committee”, cujas actividades parlamentares se iniciaram em 1787 e prosseguiram até à sua vitória final. Um dos mais aguerridos membros desse comité foi Thomas Clarkson (Rufus Sewell), dito “o Jacobino” pelos adversários que viam nele um aliado da Revolução Francesa. Outro dos mais conhecidos companheiros de caminhada de Wilberforce foi Oloudaqh Equiano (interpretado por Youssou N’Dour, músico e cantor senegalês), um escravo nigeriano que sobreviveu à tormenta da viagem, que descreve numa autobiografia que vendeu mais de 50.000 exemplares em dois meses. Nessa se contam não só as peripécias da jornada marítima, mas igualmente a forma como os escravos eram tratados à sua chegada às Índias Ocidentais: mantidos no navio alguns dias para serem lavados e recuperados para serem vendidos (os que se mantinham em forma, os outros eram deixados à sua sorte, até morrerem), oleados e passeados nus pelas ruas da cidade, até serem leiloados e vendidos. Nova jornada os aguardava até chegarem às plantações de cana-de-açúcar. O tema musical e hino religioso cristão, “Amazing Grace”, que dá o título ao filme, data dessa altura, e é uma criação precisamente de John Newton, tendo aparecido pela primeira vez na obra deste autor, “Olney Hymns”, em 1779.
Curiosamente, haveria de ser através de França que a abolição da escravatura chegaria a Inglaterra. Não por influência directa da Revolução, que até atrasou os trabalhos, pois a guerra entre os dois países fez unir fileiras em redor do Rei George III, e do seu filho, o Duque de Clarence (Toby Jones). Poucos no Parlamento gostavam de ser chamados de “Jacobinos”. O primeiro-ministro chegou a afirmar: “Ninguém se pode opor ao rei quando nas ruas de Paris corre sangue”. Clarkson chegou a advogar uma insurreição. Mas poucos o seguiram: “Quando a guerra chega, a oposição é facilmente chamada sedição.” Em 1793, ano em que a França declarou guerra a Inglaterra, era arriscado falar de direitos humanos sem se ser formalmente olhado como amigo da República Francesa. Mas Wilberforce continuou a sua luta, ainda que de forma mais comedida. Tanto mais que, entre os opositores ao abolicionismo, onde se destacavam Lord Tarleton (Ciarán Hinds) e o escocês Lord Dundas (Bill Paterson), lavrava a teoria de que se abandonassem o comércio das Índias Ocidentais, este seria rapidamente tomado de assalto pelos navios franceses, o que não deixaria de ser verdade.
Mas seria precisamente através de um pretenso boicote aos navios franceses que os ingleses haveriam de aceitar assinar a carta de abolição da escravatura. Em 1806, o advogado de assuntos marítimos, James Stephen, recentemente regressado das Índias, aproveitando esse movimento anglo-francês, faz passar um diploma que reduz em dois terços o tráfico de escravos nas linhas marítimas inglesas. O “Foreign Slave Trade Act”, aprovado a 23 de Maio, torna-se efectivo a 1 de Janeiro de 1807. Começa por ser visto como uma medida em tempo de guerra, contra Napoleão, Imperador de França, mas revela-se apenas uma cobertura legal para acabar com a escravatura, ainda que não totalmente durante alguns anos.
O filme de Michael Apted mostra-se correcto e esclarecedor, ainda que algo pesado e moroso na forma como expõe as ideias. Tem o mérito de não especular com o espectáculo fácil (não reproduz torturas e misérias, apenas dá delas referências orais), nem com o rodriguinho sentimental (o caso amoroso de Wilberforce com aquela que se tornaria sua mulher, Barbara (Romola Garai), é apenas um apontamento sugerido, bem como a doença do político que haveria de o vitimar em 1833). O tom dominante é o dos quadros de época, sobrecarregados de zonas sombrias e de pequenos pontos iluminados, a reconstituição é correcta, sem deslumbrar, mas o filme acaba por se impor pelo rigor com que aborda um tema que, infelizmente, não é do passado. A escravidão continua a existir em muitos países do mundo, num claro ultraje infamante ao que se chama civilização. O próprio cineasta declarou, aquando da estreia em Londres, em 2006, que a “escravatura continua a existir em vários países do mundo. Calcula-se em 27 milhões de escravos, a maioria trabalhadores escravos na Índia, Paquistão, Bangladesh e Nepal.”
Nota: o tema "Amazing Grace", que dá o nome ao filme, foi escrito por John Newton.

1
Amazing grace! how sweet the sound,
That saved a wretch like me!
I once was lost, but now am found;
Was blind, but now I see.

2
'Twas grace that taught my heart to fear,
And grace my fears relieved;
How precious did that grace appear
The hour I first believed!

3
Thru many dangers, toils and snares
I have already come;
'Tis grace hath brought me safe thus far,
And grace will lead me home.

4
The Lord has promised good to me;
His Word my hope secures;
He will my Shield and Portion be,
As long as life endures.

5
Yes, when this flesh and heart shall fail,
And mortal life shall cease;
I shall possess, within the veil,
A life of joy and peace.

6
The earth shall soon dissolve like snow;
The sun forbear to shine;
But God, who called me here below,
Will be forever mine.

7
When we've been there ten thousand years,
Bright shining as the sun,
We've no less days to sing God's praise
Than when we'd first begun.

AMAZING GRACE
Título original: Amazing Grace
Realização: Michael Apted (Inglaterra, EUA, 2006); Argumento: Steven Knight; Produção: James Clayton, Mark Cooper, Patricia Heaton, David Hunt, Jeanney Kim, Terrence Malick, Edward R. Pressman, Duncan Reid, Ken Wales; Música: David Arnold; Fotografia (cor): Remi Adefarasin; Montagem: Rick Shaine; Casting: Nina Gold; Design de produção: Charles Wood; Direcção artística: David Allday, Stephen Bream, Matthew Gray; Decoração: Eliza Solesbury; Guarda-Roupa: Jenny Beavan; Maquilhagem: Sharon Colley, Mandy Gold, John Henry Gordon, Susan Howard, Julie Kendrick, Loulia Sheppard, Jenny Shircore; Direcção de Produção: Tom Crooke, Jeffrey Harlacker, Angus More Gordon, Graham Stumpf; Assistentes de realização: Barney Hughes, Olivia Lloyd, Vicky Marks, Alex Oakley, Lance Roehrig, Deborah Saban, Danny McGrath; Som: Petra Bach, Keith Bilderbeck, Jon Johnson, Bryan Pennington, etc.; Efeitos especiais: Stuart Brisdon, Mark Haddenham; Efeitos visuais: Greg Butler, Julia Wigginton; Compnhias de Produção: FourBoys Films, Walden Media, Bristol Bay Productions, Ingenious Film Partners, Roadside Attractions; Intérpretes: Ioan Gruffudd (William Wilberforce), Romola Garai (Barbara Spooner), Benedict Cumberbatch (William Pitt), Albert Finney (John Newton), Michael Gambon (Lord Charles Fox), Rufus Sewell (Thomas Clarkson), Youssou N'Dour (Olaudah Equiano), Ciarán Hinds (Lord Tarleton), Toby Jones (Duque de Clarence), Nicholas Farrell (Henry Thornton), Sylvestra Le Touzel (Marianne Thornton), Jeremy Swift, Stephen Campbell Moore, Bill Paterson, Nicholas Day, Georgie Glen, Nicholas Woodeson, Tom Fisher, Richard Ridings, David Hunt, David Toole, Alex Blake, Angie Wallis, Harry Audley, Chris Barnes, Tom Knight, Andrew Whipp, Andrew Neil, Estelle Morgan, Philip Dunbar, Adam Woodroffe, Joseph Traynor, Simon Delaney, Neville Phillips, Eki Maria, Daniel Naprous, Peter White, etc. Duração: 117 minutos; Distribuição em Portugal: Zon Lusomundo; Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal: 21 de Maio de 2009.

domingo, junho 07, 2009

HOSPITAL, III

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CATETERISMO
Sexta-feira de manhã acordei mansamente. Continuava amarrado ao soro e a outros sacos de medicamentos pendentes do suporte, mas tinha permissão para andar, ir à casa de banho, tomar banho, comer na sala. Sabia que os enfermeiros faziam greve e já apontava que o meu cateterismo se efectuaria somente segunda ou terça-feira. Com um fim-de-semana pelo meio, a arrastar-me com o “bobi” atrás.
Saía descontraído de um banho revigorante (na medida do possível), quando duas enfermeiras me abordam a meio do corredor. “Estávamos à sua procura, o seu cateterismo está marcado para agora.” Gelei: “Não é só segunda-feira?” Não, não era, o meu caso foi considerado urgente, por causa de um medicamento qualquer que estava a tomar, que só podia ser administrado durante dois dias e esse prazo acabava nessa altura. Seria perigoso manter-me sem a observação do cateterismo e sem medicação. Pedi um minuto para telefonar à família e regressei. Há momentos que podem ser definitivos.
Tinham-me explicado que esta observação do estado do coração e das veias que a ele conduzem era coisa de pouca importância. Mas há filmes e livros e histórias de todos os dias que falam de pequenas cirurgias sem importância que acabam em tragédia. Nunca fiando. A sala de “pequena intervenção cirúrgica” fica mesmo ali ao pé, no oitavo andar. Foi andar uns passos e penetrar num espaço estranho, que me lembrava um armazém de produtos farmacêuticos, a bordo de uma nave espacial, com uma cama metálica ao centro, dominada por tonalidades verdes.
Segui as orientações: deitei-me, despi-me por completo, cobriram-me o peito com um tecido leve, raparam-se velozmente as virilhas com a segurança de quem já rapou centenas, pintaram-nas em gestualismo puro com betadine, e deixaram-me assim um bom tempo, a congelar. As enfermeiras perceberam que estava a enregelar com o ar condicionado e colocaram-me algo mais quente por cima, “enquanto espera.”
Que esperava eu? Parecia tudo a postos, mas não começavam. Um médico entrou, apresentou-se, disse que desta vez quem fazia o filme eram eles, eu poderia ver nos ecrãs que estavam à minha frente, não havia anestesia geral, apenas local, eu iria assistir a tudo, não custava nada, uma incisão na virilha, na veia, introduzir o cateter, orientá-lo até ao coração, verificar o estado geral, localizar estreitamentos, e depois, se tudo estivesse bem, eram dez minutos, se fosse preciso intervir, poderia ir até às duas horas, mas nas calmas, sem problemas, vamos falando, não dói nada, apenas uma ou outra pequena impressão.
Pois, mas a virilha era minha e a incisão era em mim. Nada de pânico, porém, pensei. Não tinha como fugir, como o faria, hospital fora, nu, com um “bobi” atrás? O melhor seria mesmo confiar. Ainda perguntei como é que se viam as veias no ecrã e como acertavam com as anilhas necessárias nos locais precisos, ao que me foi respondido que eram “quinze anos de prática”. Acreditei, e na verdade tudo correu bem.
A operação começou, a incisão, apesar da anestesia, senti-a, e foi estranho pensar que tinha nessa altura um cateter a percorrer-me as veias e a enviar sinais do meu estado interior. Maravilhas da medicina e da tecnologia moderna que salvam vidas. Sentia os dedos dos médicos massajarem a veia junto à virilha, e via no ecrã que o cateter subia ou descia, numa paisagem cinzenta, aqui mais esbranquiçada, ali mais escura, onde voavam estranhas aranhas tentaculares. Aquilo era o meu coração? A aorta? Nem perguntei, conservando os braços atrás das costas para que o pesado braço de mecânica geringonça pudesse movimentar-se à vontade sobre o meu peito. Não foram dez minutos, foram quase duas horas, três “stents” colocados em duas veias do lado esquerdo. “Ficou por reparar uma, do lado direito, depois logo se verá,” explicaram os médicos. “Você tinha isto muito entupido!”
Eficácia e eficiência, foi o que mais me chamou a atenção. Gestos precisos, e uma longa prática, certamente. Surpreende-me sempre a frieza com que certas profissões são desempenhadas. Não pode ser de outra maneira, eu sei. Mas fico, mesmo assim, surpreendido. Cortar a carne humana, enfiar objectos estranhos nas veias, olhar o interior desta cavidade que nos alimenta de vida e de emoções, e fazê-lo com a calma e a serenidade de quem domina por completo o ofício. O ofício, isso mesmo. É uma profissão como outra qualquer, mas, apesar de tudo, “não é uma profissão como qualquer outra.” Quem a exercer com rigor, deve chegar ao fim do dia exausto. Não se trata de aviar medicamentos ou de servir refeições, por exemplo. Trata-se de ter nas mãos, à sua mercê, a vida de uma pessoa. Um erro pode ser fatal. Um escritor pode dar um erro, apaga e volta atrás. Aqui, um erro, pode ser irremediável. Claro que pensei em tudo isso, enquanto ia observando a azáfama controlada de médicos e enfermeiras que me rodeavam. Até a curiosidade da jovem aluna de medicina que veio assistir à intervenção. Aqui estou eu a oferecer o corpo à ciência – sirvam-se no que eu poder ser útil.
Desfazer a feira foi o mais doloroso. Compressas e desinfectantes, a perna esquerda imobilizada, “não pode mexer esta perna até amanhã, cuidado por causa das hemorragias!”, foi a recomendação. Assim fiz, na medida do possível. Às tantas já não tinha posição possível, doía-me tudo, mas na manhã do dia seguinte estava melhor. Deram-me autorização para levantar novamente, ainda com a perna esquerda acorrentada em compressas. Almocei e jantei na sala de convívio, quatro mesas quadradas reunidas a formarem uma mesa quadrada maior, oito convivas em redor, tabuleiro com sopa e um prato, ora carne ora peixe, invariavelmente deslavado. Água e conversa: as maleitas de cada um vinham ali depor à hora da refeição, lá estavam quatro senhoras e quatro cavalheiros, todos em camisa de dormir e pijama, eles, o João, o Adelino, o Eurico (da Malveira, de rosto vincado, pelas rugas e pelo sol, e pelas agruras da vida, sete operações no activo, contadas a todos, uma delas à coluna, “claro, a acarretar sacos de cem quilos, desde a infância.”). À noite ficámos eu e o João, a ver um pouco de uma tourada transmitida pela televisão. A seguir, mais uma noite mal dormida. De silêncio. De espera. A rotina no domingo, as visitas do nosso contentamento, com os jornais do dia, as novas de quem se quer bem, a mão na mão, os olhares gratificantes que nos dão coragem, e aquelas frases aparentemente sem sentido, que ali fazem todo o sentido. “Amanhã já sais. Força!”
Uma noite a pensar no “amanhã já saio”. E se não sair? Se algo de errado acontecer entretanto? Se as analises, se o electrocardiograma, se a glicemia…? Na manhã seguinte é segunda-feira, as enfermeiras libertam-me de todos os empecilhos, colocam pensos nos múltiplos orifícios desimpedidos, as manchas negras nos braços e na barriga são agora muito visíveis. A médica cardiologista observa-me pela última vez, com últimos exames, e dá ordem de alta, depois de falar com a chefe de serviço. Falta somente preencher o formulário que me irá entregar à saída, com a descrição da doença, exames e prescrição médica. Saio à tarde, e à porta da enfermaria já se encontra, esperando numa maca no corredor, o próximo inquilino da cama nº 1.
Mas antes de sair sou novamente votado à ciência. A chefe de serviço, professora da faculdade de Medicina, entra da enfermaria com uma turma atrás, que divide pelos quatro pacientes. “Não se importam de responder a um questionário? Mas não revelem do que padecem, eles têm de tentar descobrir.” E assim foi. Durante cerca de uma hora perguntas de todo o tipo penetraram no íntimo mais íntimo de cada um. Fui respondendo a tudo o mais correcto que sabia, não fornecendo pistas, nem verdadeiras nem falsas. Os jovens ficavam atrofiados com algumas questões, “Doenças sexualmente transmissíveis?”, “Consome drogas?” (a esta respondi que sim, “todas, de todo o tipo, desde cafeína até charutos.”).
Depois, foi o adeus à cama nº 1, quando a Eduarda apareceu com a mesma roupa com que entrei no hospital, quase uma semana antes (fiz questão de lhe pedir a mesma roupa, com ligeiras alterações óbvias). Desci o elevador 12, percorri os corredores, sai para a rua. A cidade era a mesma que eu deixara e não era a mesma. Acabara uma viagem estranha por um mundo crepuscular que deixara pesadas marcas. Uma viagem que espero sem retorno, mas que, todavia, deixou sinais de perca, de nostalgia, de uma certa saudade dessa cumplicidade de desconhecidos que a ameaça uniu em redor de uma mesa quadrada ou numa enfermaria silenciosa. Afinal razão de ser destes escritos – uma forma de prolongar no exterior uma experiência vivida lá dentro.

(Não poderia terminar sem um agradecimento a todos quantos se cruzaram comigo nesse hospital, desde médicos, em especial Dr. Jacques, Drª Dulce Brito, Drª Doroteia Silva, Dr. Marques da Costa, ainda as enfermeiras Clara, Cristina, Rita e o enfermeiro Marcos, entre muitos outros, bem assim como a todo o pessoal auxiliar. Agradeço a competência e a simpatia, e agradeço sobretudo ter sido tratado como um entre vários. Espero voltar a vê-los, mas noutras situações!).

sexta-feira, junho 05, 2009

GRANDE FOTO

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BARACK OBAMA EM LONDRES, 10 DOWNING STREET

HOSPITAL, II

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SALA DE INSUFICIÊNCIA CARDIACA – CAMA 1
No braço esquerdo, uma pulseira amarela, colocada ainda na triagem, anunciava que o estado era grave, mas não extremamente grave (teria sido então uma pulseira laranja). Não sei bem porquê, a verdade é que nunca entrei em pânico generalizado, ainda que desde há muito tenha horror a hospitais. Não me apanham com facilidade a ver séries como “Serviço de Urgência”, “Anatomia de Grey” ou “Dr. House”. Acho depressivos os ambientes e não sou o que se possa considerar um apreciador de sangue derramado nem de presenciar sofrimentos alheios. Claro que em qualquer filme há sofrimento e drama, mas nos filmes hospitalares parece haver “mais realismo”, mesmo quando não há nenhum.
Passando ao largo: foi ainda de braçadeira amarela que entrei na sala de insuficiência cardíaca, do oitavo andar do Hospital. Tinha “reservada” a cama 1, numa enfermaria com companheiros discretos e simpáticos, cada um com o seu caso às costas, ou ao peito, dado que todos os casos passavam pelo coração. Nos dias que ali estive, Rui, Adelino (de Ponte de Lima) e, posteriormente, João foram os camaradas das farras nocturnas que duravam aí até às 22 horas. Uma loucura!
Nessa primeira noite, comecei a ser medicado e controlado ao milímetro por um estendal de máquinas, tubos e vasos comunicantes que me aparentavam muito a qualquer ser de um filme de terror. Frankenstein, por exemplo. Mas o resultado foi surpreendente. Expliquei à médica que eu normalmente adormecia tarde e acordava tarde, o que ali não iria acontecer, ela aconselhou um tranquilizante para sossegar e a verdade é que a noite se passou bem. Terá sido mesmo a melhor noite da minha permanência. Relembro-a como algo de mágico. Uma enfermaria quase completamente silenciosa, as grandes janelas com os estores a deixarem atravessar uma ligeira luz dourada que vinha do exterior, e que se projectava em serenas barras pelas paredes, e o silêncio, o silêncio, o silêncio. Uma noite sem gemidos ou tosse, sem ressonar ou gritos. Um silêncio reconfortante para quem acabava de atravessar uma zona de penumbra indecifrável e ancorara ali, entre completos desconhecidos, irmanados no mesmo secreto medo do que seria o seu futuro próximo.
Às seis e meia da manhã soou a alvorada. Recolhem-se os recipientes de urina, mede-se a temperatura, a tensão e a glicemia. Tudo mais ou menos controlado, excepto o açúcar, 300 e tal. O primeiro comprimido do dia, em jejum. A seguir vem o iogurte magro, para os diabéticos, mais uma hora e meia de repouso, o pequeno-almoço com leite e café, ou chá, e um pão escuro com manteiga. E comprimidos. Entra o pessoal da limpeza que lava o chão, arruma o quarto e faz as camas. Os “hóspedes” que se podem levantar vão à casa de banho, sozinhos, mas com a companhia do que chamam o seu “bobi”, o suporte de soro que arrastam, presos por tubos às mãos. Não me permitem levantar nesse primeiro dia, mas recuso terminantemente a arrastadeira “para emergências”. Veremos como tudo se passa. Tiram sangue para análises. Com toda esta azáfama são onze horas. Aparece a médica para o electrocardiograma. Os pés e as mãos agrilhoados, a zona do peito juncada de sanguessugas de borracha. Vou-me habituando. É estranho como me vou “habituando” a tudo, às seringas, aos discos, às picadas na barriga, para os diabetes, para o sangue circular, para a tensão. Aos comprimidos, ao pão escuro com manteiga. Ao almoço completamente deslavado e sem graça, que como com apetite, sim com avidez, sem deixar uma colher de sopa ou uma réstia de um peixe sem sabor e uma batatas que outros acusam de estar duras. Não me parece. Apenas descoloridas. Por volta das duas da tarde, começam as visitas. As minhas, as dos meus camaradas de cela. Vemos caras conhecidas, que amamos, que nos visitam para falar um pouco sobre o quotidiano (Oh, como é admirável, ali dentro, o quotidiano de cá de fora!), para se inteirarem do nosso estado de saúde, e de espírito, para nos olharmos apenas, para as pequenas minúcias de estarmos vivos e respirarmos. Como são agradáveis de ouvir, mesmo quando não acreditamos muito no que ouvimos, as frases do costume, “Estás com bom aspecto!”, “O pior já passou!”, “O que é preciso é coragem!”
Às quatro e meia vem o lanche, chá com um pão com manteiga, não inventam muito por aquelas bandas, aceito, tem de ser assim. Como o que me dão. Não penso em cozido à portuguesa ou numa feijoada à brasileira, nem mesmo quando o meu colega, em deambulatório, regressa ao quarto suspirando por uma dessas iguarias ou um bom whisky para “fechar a noite”.
Às sete horas, mais coisa menos coisa, encerra o período de visitas, mas nada é muito rigoroso quanto a horários desses. Há um regulamento “humano” para cumprir, e assim se cumpre, caso não exista por ali nada de muito grave. É o caso. Somos doentes graves, mas não desesperados. Depois regressamos à nossa solidão. Na cama, sem me poder levantar nesse dia, olho em redor. Já tenho comigo jornais e revistas, alguns livros, um pijama de casa (o casaco do pijama que me fora atribuído pelo hospital não conseguia apertar à frente, quatro números abaixo do meu!), uns chinelos, e pouco mais. Mas são elementos essenciais para o meu equilíbrio. Sobretudo ter que ler. Mesmo que não leia, mas é fundamental saber que tenho ali à mão algo que ler. E um caderno para apontar o que houver a apontar. Pouca coisa, até ao dia da saída. Tudo fica registado na memória.
A noite cai, os dias aquecem, quem me visita chega esfalfado com o calor. Vem o jantar, pelas sete e meia, oito horas, igual ao almoço, mais comprimidos, injecções, tirar a febre, a tensão, medir a glicemia, a rotina que se impõe até à exaustão. Os comprimidos antes da ceia, a ceia, leite ou chá e um pacotinho de bolachas “Maria”, o silêncio, mas desta vez não dormirei quase nada e a luz do quarto nunca mais voltará a ser a mesma. Nem o silêncio. Antes do semi-silêncio, a médica cardiologista vem-me dizer mansamente que tenho de fazer um cateterismo. Estamos numa quarta-feira, “a intervenção cirúrgica poderia ser feita no dia seguinte, mas quinta e sexta os técnicos enfermeiros estão de greve, segue-se sábado e domingo, tudo indica que só será na segunda. Depois, na melhor das hipóteses há que recuperar.” Faço contas de cabeça e são cerca de dez dias de internamento. O que será um cateterismo? Nunca tinha ouvido falar ou então fizera por esquecer. O que tinha resultado, até essa noite.
Passo quinta-feira já levantando, para ir tomar banho ou à casa de banho para outras necessidades, já almoço e janto com os companheiros na salinha da TV, com alguma galhofa pelo meio.
Mas o que será um cateterismo? Explicam-me que é um exame de cardiologia, que injecta um cateter numa veia principal que o leva até ao coração onde se diagnosticam, in loco, possíveis problemas cardiovasculares. A intervenção cirúrgica pode demorar 10 minutos, se nada de especial ocorrer, até duas horas se houver que corrigir um estreitamento de uma artéria coronária. Correcção que se faz através da colocação de “stenters” (espécie de anilhas que alargam a zona afectada) ou de “bypasses”. Saber isto, não é uma boa forma de adormecer, mas a noite cai.

terça-feira, junho 02, 2009

HOSPITAL, I

:
A CAMINHO DE SO
Ser conduzido por elevadores e corredores olhando o tecto amarelecido de um edifício quase desconhecido até então, que é, simultaneamente, perdição e salvação, desespero e esperança, é uma experiencia radical. Algo que só se vive e se experimenta assim - em situação limite. Ninguém a pode interpretar de fora, ou se está dentro dela, ou não se está.
Acordar com uma dor indefinida no peito, opressiva, que se estende ao braço. Tomar as aspirinas que normalmente controlam idênticas dores de origem diversa, reumatismo, uma pontada, um desvio na coluna, perceber que tudo se mantém, que a dor não se esgota e não se afasta, o telefonema para o INEM, os primeiros cuidados, a máscara de oxigénio, a descida de cadeira de rodas, a sensação de impotência a instalar-se, o medo, sim o medo do que virá depois, do desconhecido, do que se não controla, e atravessar a esplanada do café que se frequenta todos os dias, nessa manhã quente de fim de Maio atulhada de amigos e conhecidos que nos olham estupefactos, sem uma palavra, entrar na ambulância que espera à esquina do prédio, descer avenidas e controlar praças com a sirene a abrir caminho por entre o trânsito opaco, e a perspectiva de vida que é já outra, olha-se o céu, os prédios, vemos as pessoas debruçadas sobre nós, não as olhamos de frente, depois a descida nas urgências do hospital, ao mesmo tempo que vejo a Eduarda descer de um táxi que perseguiu a ambulância, a inscrição, nome, morada, idade, cartão de cidadão existente, a triagem, a febre, a tensão arterial, a diabetes, os sintomas, a passagem pelo médico de serviço na urgência, uma negra que relembra a Queen Latifah (ainda me restam vestígios da realidade para recordar) e a seguir os exames, o sangue para análises, o electrocardiograma, a radiografia, o comprimido debaixo da língua, a espera, a esperança de que não passe tudo de um novo ataque violento de coluna ou reumatismo, as horas que passam, a descida até ao bar para comer qualquer coisa, beber água, fresca, olhar a esplanada em frente, ver o professor Daniel Sampaio, o aceno (mal sabe ele), regressar à sala de espera, a angústia que sobe de tom, finalmente o nosso nome ouvido no altifalante, o regresso ao gabinete nº 2, onde antes me encontrara com a médica de urgência, onde agora se encontra um jovem que olha para mim e para os resultados que lhe aparecem no ecrã do computador, e não tem dúvidas, telefona para alguém, questiona e volta-se para mim, “tem de ficar, há aqui sinal de algo muito suspeito, fica no SO, em observação”.
Curta jornada em direcção a um cubículo que parece uma arrecadação, onde me pedem para despir a roupa civil, que enfiam em sacos de plástico brancos, e me convidam a vestir uma farda que encaixa pela frente e não abotoa atrás. A seguir indicam-me o movimento seguinte: deitar na marquesa que subitamente apareceu, colocam-me um lençol por cima, e inicio a primeira viagem pelos corredores do hospital, rumo ao SO (“Que quer dizer SO, enfermeira Carla?”, “Serviço de Observação”, “Julgava que devia ser SU, Serviço de Urgência”, “Esse também existe.”). Aqui relembro “All That Jazz”.
Mal a marquesa ingressa na zona do SO, a actividade galopa. Ainda me “arrumam” no local predefinido, e já me colocam soro, depois de me abrirem as veias nos dois braços. Repetem-se as análises de sangue, sinto agulhas de vários tipos e espessuras, umas que atravessam veias, outras que procuram tecidos da barriga, algumas que fazem jorrar gotas de sangue na polpa dos dedos. Andava a ler “Sangue Fresco”, onde os novos vampiros se alimentam de sangue artificial. Aqui é o meu sangue que vejo seguir em seringas rumo a análises várias. Os resultados continuam a não ser nem os melhores, nem os mais preocupantes, mas médicos de urgência e enfermeiros (bom casting, merecedor de um “Serviço de Urgência” ou de uma “Anatomia de Grey”!) não param de me vigiar. Uma simpática médica brasileira vai controlando o electrocardiograma que agora é contínuo. Chega uma médica de bata verde que me faz um ecocardiograma. Sinto a gelatina no peito e o aparelho a percorrer as costelas em busca de batimentos. É a cardiologista de serviço, drª Doroteia, e tenho a certeza de ter caído em boas mãos. Contra o que ouço dizer, e contra os meus mais temíveis receios, todos parecem competentes e rigorosos (digo parecem porque não tenho as competências para afirmar a conclusão) e, sobretudo, de uma irradiante simpatia, o que não é factor de somenos para quem de repente se vê isolado e transplantado para um ambiente hostil por sistema – um hospital nunca é um local bem-vindo, por muito que, depois, lhe possamos dever a vida. Mas por muito que se possa agradecer depois, a verdade é que estamos paralisados de pânico no SO. Paralisados de solidão interna. Sinto-me irremediavelmente só.
Há um balcão redondo no centro do SO, rodeado por um corredor amplo. Distribuídos à volta, em nichos que relembram casulos, algumas dezenas de vítimas que esperam o resultado da observação, para saberem qual o seu destino. No interior do balcão a azáfama é intensa, médicos conversam sobre doentes, enquanto controlam pelos ecrãs os dados que continuamente vão chegando. A esta hora Barcelona e Manchester discutem quem é o campeão da Europa. Não vou ver. Não terei alta a tempo, penso, enquanto vejo as equipas entrar em campo, lá ao longe, numa televisão presa da parede, sem som. Pedi ao Frederico para gravar o jogo. Quando o irei ver? Há mesmo uma insidiosa dúvida: será que o verei, apesar de estar gravado? As notícias do jogo não me irão chegar senão noite dentro, mas chega-me a notícia de que os vários exames confirmam “alguma coisa”, um enfarte de miocárdio quase de certeza, e o internamento. Quem mo explica é um médico, que percebi chamar-se Jacques, de curta barba grisalha, que presumo ser chefe de serviço. O casting continua a ser impecável e a simpatia também.
Antes de jantar, com o jogo a decorrer, sou enviado para os serviços de cardiologia, piso 8, cama 1. Vou rodeado de suportes de soro, que prolongam as minhas veias para o céu. No peito vários discos ligados a mais fios. Pelos corredores só vejo tectos e luzes. Uma nova perspectiva de existência. Deixo o SO, mas continuo só.

sábado, maio 23, 2009