
de Liudmila Ulítskaia
encenação de Andrzej Bubien

Voltaram as noites grandes a Almada e ao seu Festival de Teatro (não as noites quentes, porque o frio chega a ser de enregelar, sobretudo para quem vê espectáculos ao ar livre, como foi o caso deste). “Compota Russa” parte de um belíssimo e inteligentíssimo texto de Liudmila Ulítskaia, servido por uma inventiva e divertida encenação de Andrzej Bubien, com um muito homogéneo e muito bom grupo de actores, para atingir a qualidade de eleição que se lhe reconhece.
A ideia é magnífica desde início. Quem não recorda “O Cerejal”, de Anton Tchekov? Pois bem, Liudmila Ulítskaia vai verificar no que se transformou hoje, na Rússia de Vladimir Putin, esse cerejal. O resultado não é de molde a agradar a ninguém. Nem aos nostálgicos do comunismo, nem aos arautos da sociedade de consumo. Nada resta dos antigos tempos e da Rússia que se orgulhava da sua vida intelectual e de ter escritores com Tchekov. O cerejal de Ranévskaia já era, as “datchas” construídas por Lopákhin, o comprador do cerejal, são ruínas habitadas por náufragos que se movimentam sofregamente num círculo vicioso, cada um a estrebuchar para o seu lado (lembrando, imagine-se !, essa parábola sobre a terra da liberdade chamada “O Mundo é Um Manicómio”, de Frank Capra – lembrança que não será inocente, julgo ver mesmo uma clara influência). A “datcha” existe, os herdeiros do comprador também, mas a casa é literalmente uma ilha num mundo que se afunda, comprada por especuladores que querem acabar com o trabalho e impor o conceito de Disneyland. A facilidade em lugar do trabalho, a compota de groselha em vez da de cerejas ou de ginjas. A crítica é severa e arguta, mas a linguagem é coloquial, recupera um certo imaginário de Tchekov, mas a nostalgia não é saudosista, mas sim incentivadora de uma reflexão virada para o futuro.
Lyudmila Ulitskaya é uma das escritoras mais consideradas no panorama da moderna literatura russa. Nasceu em 1943, em Davlekanovo, na Bashkiria (URSS), numa família judaica, estudou Biologia em Moscovo, e mais tarde optou por escrever. Ao que sei, fora despedida do seu emprego por “posse e divulgação de literatura proibida”. Proibida a dos outros, virou-se para a criação pessoal. Rapidamente criou uma reputação com a sua primeira obra, “Sonyechka” (Сонечка), editada na revista “Novy Mir”, em 1992 (e já traduzida para português (Campo das Letras), a que se seguiram várias outras com igual sucesso (em português, na Relógio d’Àgua, apareceram “Mentiras de Mulher” e “Funeral Divertido”). Escreveu ainda dois argumentos para filmes que desconheço (nunca estreados em Portugal): “As Irmãs da Liberdade” (Сестрички Либерти, 1990) e “Uma Mulher para Todos” (Женщина для всех, 1991). Muito premiada na Rússia e no estrangeiro, trabalha também para teatro, caso de “Compota Russa” que agora pudemos ver numa criação do Teatro de Sátira da Ilha Vassilievski, fundado em 1989, por Vladimir Slovokhotov.
A companhia tem participado em festivais internacionais em Helsínquia, Palermo, Avignon, Berlim, Paris, Torum e Lubliana, onde recebeu prémios como o Triomphe, o Masque D’Or e o Herse d’Or. Sob a direcção de Andrzej Bubien, projecta apresentações em Madrid, Seul, Vilnius, Telavive, Nice e Belgrado. Diga-se que este encenador (nascido em 1964) se torna director do teatro Wilam Horzyca, em Torum, na Polónia, e director artístico do festival Contact, em 1997. Em 2007 assume o cargo de director do Teatro de Sátira da Ilha Vassilievski, onde se estreou com uma encenação de um texto da dramaturga sérvia Biljana Srbljanovic. “Compota Russa”, de Liudmila Ulítskaia, é a sua segunda produção neste teatro. Andrzej Bubien demonstra uma inteligência e invenção cénica invulgares, o seu espectáculo cruza a poesia nostálgica dos grandes clássicos russos com um certo burlesco contemporâneo, conseguindo uma homogeneidade de representação e um ritmo de palco que conseguiu sobreviver até a alguns lapsos de legendagem, electrónica (não esquecer que o original que se ouvia era russo!).
Uma bela noite de teatro, num festival que soube conquistar público (salas de cem ou de mil lugares sempre cheias), e um público heterogéneo (onde se nota sobretudo uma grande percentagem de jovens até aos 30 anos, e muitos “seniores” que já passaram dos 60). Um festival que sabe receber e sabe criar um ambiente de cumplicidade amiga, em redor, não só uma ideia de teatro, mas dos muitos caminhos que o teatro moderno tem para nos desvendar. A seguir com redobrado interesse.
COMPOTA RUSSA (RUSSKOIE VARÉNIE), de Liudmila Ulítskaia- Encenação de Andrzej Bubien; Cenário e figurinos Elena Dmitrakova; Desenho de luz Evguény Gansbourg; Compositor Vitaly Istomin; Coreografia Yuri Khamutiansky; Intérpretes Evguény Tchoudakov, Natalia Koutassova, Artem Tsypin, Tatiana Michina, Ouliana Tchekmeneva, Nadejda Koulakova, Elena Martinenko, Mikhail Nikolayev, Nadejda Jivoderova, Igor Nikolaev. 2 horas e 20 m.

Compreende-se, pois, que, em 1978, Édouard Molinaro, um bom realizador francês de comédias, tenha assumido a tarefa de transpor para o ecrã as aventuras emocionais de Zaza Napoli. O elenco era de peso e o êxito foi total. Não só em França. Nos EUA (onde se chamou "Birds of a Feather"), esteve anos em estreia e foi durante muito tempo o filme estrangeiro que conseguiu maiores receitas. Ugo Tognazzi (Renato Baldi), Michel Serrault (Albin Mougeotte/'Zaza Napoli'), Michel Galabru (Simon Charrier), Claire Maurier (Simone), Rémi Laurent (Laurent Baldi), Carmen Scarpitta (Louise Charrier), Benny Luke (Jacob) e Luisa Maneri (Andrea Charrier) eram os actores, sublinhando-se o facto de Michel Serrault voltar a criar o papel que o notabilizara em teatro. A partitura era de Ennio Morricone.
O sucesso impôs continuação e as sequelas não se fizeram esperar: Em 1980, de novo Édouard Molinaro assina “Cage aux folles, II”, e , em 1985, foi a vez de outro experimentado autor de comédias, Georges Lautner, nos dar “La Cage aux Folles 3 - 'Elles' se Marient”. Mas o cinema não ficaria por aqui. Em 1996, surge um remake americano, dirigido por Mike Nichols, “The Birdcage”, que transfere a acção para South Beach, Miami, tendo como actores principais Robin Williams e Nathan Lane.
Entretanto, em 1983, a peça foi adaptada a musical, na Broadway. “La Cage aux Folles”, o musical, com libretto de Harvey Fierstein e música de Jerry Herman, teve depois várias versões, e regressos aos principais palcos mundiais. Recentemente, em Londres, reapareceu no Menier Chocolate Factory, passando depois para o Playhouse Theatre, com Graham Norton no papel de Zaza.
Posto isto passemos ao espectáculo do La Féria. A abrir, este é seguramente um dos seus mais logrados trabalhos, num registo um pouco diferente dos demais musicais até agora por ele erguidos, quer em Lisboa quer no Porto. A grande maioria dos musicais alicerça-se numa história que é entrecortada por números musicais (cantados e/ou dançados). Mas esses números integram-se na história, fazem-na avançar (muito ou pouco, mas avança, depende do conceito de musical). Aqui há uma história por um lado, e por vezes entradas no cabaret “La Cage aux Folles” onde surgem números de music hall nítidos. Portanto o musical equilibra-se, habilmente, diga-se, entre a estrutura narrativa de uma comédia e momentos de relax, que derivam directamente desse outro universo, o music hall.
Finalmente, a encenação de La Féria é realmente esplendorosa, com um guarda-roupa sumptuoso, de muito bom gosto, coreografias certas e divertidas, cenários belíssimos, e uma marcação de ritmo endiabrado. Os actores são excelentes, a começar pela dupla de “gays”, que José Raposo (impagável na sua desconcertante Zazá) e Carlos Quintas compõem de forma muito divertida, mas sem rebaixar ou aviltar as figuras. Rita Ribeiro (pequena contribuição, mas em grande dama), Joel Branco (o deputado do Norte, de imaculada postura, postiça), Helena Rocha (a matrona nortista), Filipe Albuquerque (um tresloucado mordomo), Hugo Rendas (o jovem noivo, a crescer de papel para papel) e Sara Lima (a noiva) são outros nomes que ajudam a brilhar a homogeneidade de elenco de 68 actores, cantores, bailarinos, músicos, contando ainda com a participação especial de alguns inesperados nomes do espectáculo, como Herman José, Ana Bola, Fernando Mendes, Maria Rueff e Maria João Abreu.




Tudo se passa numa América profunda, nos campos de algodão e nas pequenas estradas do Sudeste de Arkansas, estado onde nasceu Jeff Nichols, o realizador e argumentista, que certamente recorda aqui não só personagens e situações da sua infância, como, sobretudo, uma atmosfera irrespirável, muito bem transmitida com uma economia de meios total. Tudo se passa numa América profunda, é verdade, mas a leitura é obviamente metafórica e fala-nos da vingança como modo de comportamento pessoal, social, nacional, internacional, como referência clara ao clima revanchista de uma América traumatizada pelo 11 de Setembro. Jeff Nichols tenta mostrar como o caminho da vingança a nada mais conduz do que a novas respostas e ao recrudescer da violência.


Diz Philippe Sireuil que esta peça “dá-nos o osso, o nervo e a carne de um belo pedaço de teatro que deve ser devorado sem qualquer moderação”. Nascido em 1952, no então Congo Belga, Philippe Sireuil é um dos mais destacados encenadores de língua francesa da actualidade. Ao longo da sua carreira encenou textos de Strindberg, Peter Handke, Bertolt Brecht, Alfred Musset, Tchecov, Koltès, Marguerite Duras, Jean Luc Lagarce, Paul Claudel, Ibsen, Marivaux, Broch, Molière, Shakespeare, entre outros.

Uma leitura mais redutora poderá falar essencialmente da subterrânea luta do senhor e do escravo, numa sociedade estratificada em classes, mas esta versão de Luc Bondy é muito mais complexa, levando o caso do campo estritamente político para o psicanalítico, cruzando luta de classes com sexualidade, bondage, atracção e repulsa, e outras perspectivas. As criadas são irmãs, ambas afrontam a patroa, ambas se amam e se confrontam entre si, ambas se abraçam e chocam, ambas dominam e são dominadas. Com sofrimento e prazer, também. 

Comecemos por uma ponta desta intrincada meada: Cal McAffrey (Russell Crowe) é jornalista sénior num importante diário de Washington. É amigo pessoal há longos anos de Stephen Collings (Ben Affleck), um congressista norte-americano que nessa altura se encontra à frente de um inquérito sobre uma empresa paramilitar privada que foi contratada pelo estado para intervir no Iraque e no Afeganistão. E que tem lucrado de forma escandalosa com o negócio.
Como estamos na América, arauto da democracia e das liberdades individuais, o filme mostra as virtudes do sistema, que apesar de corrupto como qualquer outro, oferece as vantagens de tudo poder ser discutido e investigado e de a verdade vir sempre ao de cima. Será esta a realidade? Há casos que apontam para a resposta positiva, outros não, Watergate é um exemplo, mas quantos não ficaram na sombra? Conhecem, no entanto, melhor sistema? Eu não. Por isso vou comprando como saudáveis estas denúncias possíveis em terra de liberdades mais ou menos asseguradas.
LIGAÇÕES PERIGOSAS

“A Ressaca”, de Todd Phillips, não era filme que eu fosse ver assim sem mais nem menos. Sabia que estava a bater records de público este verão nos EUA, mas já estou muito queimado em relação ao gosto do público americano quanto a comédias. Bons eram os tempos de Howard Hawks, de Billy Wilder, de Jerry Lewis, de Richard Quine, e de alguns mais. Mas para a última revoada de comédias (!?) para adolescentes frustrados com sexo, não tenho muita paciência. “The Hangover” parecia-me algo assim. Acontece que fui a uma sessão da meia-noite que os jornais anunciavam como a última oportunidade para ver um filme que me interessava não perder, e, na bilheteira, fui informado que afinal ia passar “A Ressaca”. Em ante-estreia! Só seria estreado no dia seguinte. Acabei por ficar.
Pode dizer-se que Todd Phillips tem já um certo passado, de que fui à procura na Fnac. Encontrei quatro títulos de comédias que não tinha visto e algumas delas “brilhantemente” traduzidas para português. Consegui ver “Road Trip” (Road Trip – Sem Regras) (2000), “Old School” (Dias de Loucura) (2003), “Starsky & Hutch” (Starsky & Hutch) (2004) e “School for Scoundrels” (Escola para Totós) (2006), todos portanto anteriores a “The Hangover” (A Ressaca) (2009).



Gracinda Candeias "Antologia 1992-2002"



