quarta-feira, julho 15, 2009

FESTIVAL DE TEATRO DE ALMADA, 9

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DEUS COMO PACIENTE - ASSIM FALAVA ISIDORE DUCASSE
(DIEU COMME PATIENT - AINSI PARLAIT ISIDORE DUCASSE)
segundo texto de Lautréamont
encenação de Matthias Langhoff
Este foi um espectáculo que dividiu o público de Almada. Percebeu-se, logo que a cortina caiu, no final. Uns ovacionavam freneticamente, outros aplaudiam paulatinamente. Uns gostaram imenso, outros apreciaram medianamente, sem grande entusiasmo. Todos referiam os cenários, mas uns galvanizaram-se com a vertigem do texto e da montagem de todo o espectáculo, outros acharam-no cansativo, e pobre em relação ao texto que o inspirou. Na base deste “Dieu Comme Patient - Ainsi Parlait Isidore Ducasse” estão os “Cantos de Maldoror”, de Isidore Ducasse, dito “Conde de Lautréamont”. É óbvio que num espectáculo de (quase) duas horas, ninguém pensaria que se iam adaptar fielmente os “Cantos”. O que Matthias Langhoff tentou, quanto a mim com inteiro sucesso, foi criar uma atmosfera, um clima, uma evocação destes “Cantos”, quer através da interpretação de alguns textos escolhidos, portanto excertos, quer através da própria encenação plástica. O resultado é simplesmente fantástico, e “fantástico” é um bom termo para definir a exuberante “feérie” que nos é dado ver no palco. Todo o espectáculo parte de uma proposta inicial de “colagem” (muito na linha das colagens dos surrealistas, de que Lautréamont é um confesso antecessor): um palco dividido em vários sectores, que por sua vez se vão desdobrando em cenários diversos, todos eles revestidos por um telão de gaze caído em frente do proscénio, e que ora se torna opaco e tela de projecção de imagens de cinema, ora se anula numa quase transparência que permite ver toda a cena iluminada por detrás.
Deve desde já dizer-se que todo esse cenário que se vai desdobrando e multiplicando à nossa frente é de uma beleza fulgurante, quer pelos motivos que evoca, um interior de casa, um barco, um bar, uma rua, quer pelos próprios desenhos que ilustram certas situações, quer pela iluminação, pela sonoplastia, pela recolha de imagens que são apresentadas no telão. Curiosamente, este dispositivo tem muito de cinematográfico, e as próprias imagens nele apresentadas, da autoria igualmente de Matthias Langhoff, são evocativas de momentos chaves da história do cinema, sobretudo do seu período mudo, obviamente do surrealismo de um Buñuel ou Dali, mas também dos expressionistas, do realismo soviético de Sergei M. Eisenstein, do neo realismo e do cinema verité, do documentarismo e da ficção, etc. A escolha não é isenta de um significado que se encontra quer na recolha de imagens de actualidade, de mendigos nas ruas de Paris, quer da reconstituição da revolta da Comuna de Paris, quer de outras imagens de propósitos nitidamente políticos, de “agit prop”.
Isidore Ducasse, que a si próprio se intitulava Conde de Lautréamont (1846-1870), nasceu em Montevideo, no Uruguai, filho de um funcionário consular. Aos vinte meses perdeu a mãe, que se suicidou; foi enviado pelo pai para França, em 1859, para estudar no liceu, em Pau, como aluno interno e vítima das sevícias de superiores e de colegas mais velhos. Abandonou os estudos superiores, levou vida boémia enquanto teve rendimentos paternos para delapidar, depois fechava-se em quartos de pensões rascas a escrever uma obra que muitos consideram única e inqualificável. Publicou, em 1868, à sua custa, o primeiro dos “Cantos de Maldoror”, que passou totalmente despercebido. No ano seguinte compôs os restantes cinco cantos. Morreu com 24 anos.
Matthias Langhoff, encenador de língua alemã, nascido em 1941 na Suíça, entrou muito jovem para o “Berliner Ensemble”, de que foi co-director em 1992-1993. À excepção desses dois anos em Berlim e do ano e meio em Lausana, nunca teve um lugar fixo. De Berlim a Barcelona, de Paris a Avignon, de Moscovo ao Epidauro, na Grécia, tem mudado constantemente de palcos, de técnicas, de intérpretes e de público. Pode dizer-se que é um dos mais sugestivos criadores teatrais da Europa contemporânea, homem de estética própria, nem sempre compreendido, nem sempre aceite, polémico e independente, procura sobretudo agitar as águas e não deixar instalar o conformismo. “Dieu Comme Patient - Ainsi Parlait Isidore Ducasse” é um bom exemplo deste projecto artístico pessoal de uma coerência e rigor inultrapassáveis. André Wilms, protagonista desta obra, é um actor e encenador francês, nascido em Estrasburgo em 1947. Trabalhou sob a direcção de vários dos mais importantes encenadores actuais, como Klaus Michael Grüber (“Fausto”, de Goethe, “A Morte de Danton”, de Büchner), André Engel (“Baal”, de Brecht, “À Espera de Godot”, de Beckett, “Hotel Moderno”, a partir de Kafka, “A Noite dos Caçadores”, de Georg Büchner), Deborah Warner, Michel Deutsch e outros. Como actor de cinema, participou em filmes de Aki Kaurismäki, Étienne Chatiliez e Claude Chabrol. Desde finais da década de oitenta passou a fazer as suas próprias encenações no teatro e na ópera, tendo dirigido “A Conferência dos Pássaros”, de Michäel Levinas, “O Castelo do Barba Azul”, de Bela Bartók, “A Filosofia na Alcova”, do Marquês de Sade, etc.
A estreia de “Deus como Paciente” no Théâtre de la Ville, em Paris, em Janeiro deste ano, foi destacada pela crítica francesa de forma entusiástica: “Um espectáculo em forma de turbilhão, vertiginoso, estonteante, fascinante, e do qual se sai embasbacado” (Hugues Le Tanneur, in “Les Inrockuptibles”); “Um teatro puro, perturbante e enfeitiçante” (Philippe Chevilley, in Les “Échos”); “Matthias Langhoff é um criador de mundos, que eleva o teatro ao mais alto nível, à grande Arte, como soe dizer-se () “Deus como Paciente” é um tsunami» (in “Mouvement”). É curioso verificar uma constante: o espectáculo oferece-se como um turbilhão, um tsunami, algo de impossível de captar, de aprisionar, de domesticar. Tal como Lautréamont, Matthias Langhoff é um visionário, um iconoclasta, um rebelde que questiona o que de mais puro e cruel existe no Homem. O resultado é de uma grandeza sublime. Que se ama ou de que nos afastamos, mas nunca de forma indiferente.

DEUS COMO PACIENTE - ASSIM FALAVA ISIDORE DUCASSE (“Dieu Comme Patient - Ainsi Parlait Isidore Ducasse”), segundo texto de Lautréamont ; encenação de Matthias Langhoff; Intérpretes: Anne-Lise, Heimburger, Frédérique Loliée, André Wilms; Cenário e filme: Matthias Langhoff; Pintura: Catherine Rankl, Matthieu Lemarié; Figurinos: Catherine Rankl, Corinne Fischer; Desenho de luz: Frédéric Duplessier, assistido por Éric Marynowerv; Som: Brice Cannavo; Assistentes de encenação: Hélène Bensoussan, Caspar Langhoff; Duração: 1h 45; Classificação: M12.

terça-feira, julho 14, 2009

Cinema: DEIXA-ME ENTRAR

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DEIXA-ME ENTRAR
Os filmes de vampiros mudaram. Não são só os filmes de vampiros para adolescentes, tipo “Crepúsculo”, que querem dizer outras coisas, em relação ao vulgar filme de vampiros de outrora. Um título como “Deixa-me Entrar”, que se situa a um nível completamente diferente de exigências estéticas e preocupações sociais, também apresenta uma leitura totalmente nova. Curiosamente esta nova onda de filmes de vampiros tem como protagonistas jovens adolescentes. No caso do sueco “Låt den rätte komma in” (ou "Let the Right One In" na sua tradução para língua inglesa) as duas personagens centrais têm doze anos, na série iniciada por “Crepúsculo” os jovens são um pouco mais velhos, mas existe um nítido deslocar da referência etária, e consequentemente dos problemas abordados e da forma como estes são olhados.
Mas este “agiornamento” de significado dos filmes de vampiros não é característica nova ou surpreendente. Em todas as épocas em que surgiram ondas de filmes de terror, particularmente de obras dedicadas a Drácula e outros vampiros, estas obras reflectiram sempre os temas maiores do período social e as preocupações estéticas dominantes. Pode dar-se um curso de história do cinema tendo por base os filmes de vampiros, podem estudar-se muitas das transformações sociais do dos últimos 100 anos tendo como suporte apenas obras dedicadas a vampirismo. Começando com Dreyer e Murnau, ainda no cinema mudo, que nos apontam os perigos dos movimentos totalitários (“Nosferatu” é uma evidente parábola sobre a peste que se propaga), continua-se com Tod Browning (e o seu “Drácula” que reflecte a crise social e os medos da década de 30), passa-se por Terence Fisher (com o “Drácula” licencioso dos anos do “flower power” e da libertação sexual), não se esquece Francis Ford Coppola e Abel Ferrara (“Os Viciosos” e a sida como metáfora), até chegar a este recrudescer de interesse tendo os adolescentes como heróis ou anti-heróis. Mas não se deve esquecer “Blacula” e a emancipação dos negros, e alguns outros exemplos menores, mas ainda assim muito interessantes como reflexos de um tempo.
“Deixa-me entrar” é apenas mais um exemplo, um exemplo actual que nos faz reflectir sobre o nosso tempo.
O argumento é de John Ajvide Lindqvist, que parte do seu próprio romance, e é uma construção sólida e complexa, que desafia a compreensão do espectador e lhe impõe interpretações não muito óbvias, mas extremamente compensadoras. Aparentemente estamos no domínio do filme de terror. Numa região gelada da Suécia invernosa, Oskar, um miúdo introvertido e furtivo, que olha por detrás das janelas, vive aterrorizado pelos colegas de escola que o martirizam com chacotas e humilhações, para lá de punições corporais, conhece Eli, uma vizinha da mesma idade, que surge inopinadamente do escuro, demonstrando faculdades inverosímeis, não se preocupa com o frio, sai de casa apenas quando a noite cai, alimenta-se de sangue fresco, e tem uma idade não compatível com a sua aparência. Percebe-se lentamente que é uma criatura da noite, uma vampira. Um ser perseguido pelos demais, que vai estabelecer uma estranha amizade com Oskar. São dois acossados pela sociedade, dois seres marginalizados pelos outros, dois adolescente “diferentes” que vivem atormentados por essa “diferença” que lhe desperta no íntimo uma violência defensiva que se exterioriza das formas mais diversas. Oskar percebe que Eli é uma vampira, mas é junto dela que se sente bem. É da sua cumplicidade que precisa para suportar a crueldade dos outros. É da raiva de Eli que se alimenta para criar a sua própria.
Ambos têm relacionamentos familiares estranhos, ambos habitam uma paisagem glacial que transpõe para a imagem a frieza das relações humanas. É uma paisagem que relembra Ingmar Begman, obviamente, mas que recria cenários e emoções maceradas de uma forma pessoal. Esta é também uma história de amor maldito, quer pela idade dos protagonistas, quer pelas suas condições de “malditos”. O filme de Tomas Alfredson caminha lento, deixa adensar emoções contraditórias, permite que as personagens sejam assimiladas pela paisagem que por vezes, apesar de sempre realista, parece cenário recriado em estúdio, de um ultra realismo opressivo. A forma como o realizador enquadra os seus temas, quer sejam habitações ou florestas, cafés ou hospitais, favorece essa distorção de uma realidade traumática. John Ajvide Lindqvist é, ao que consta, um admirador de Jim Morrissey, e o seu livro chama-se “Let The Right One Slip In”, precisamente como homenagem ao cantor e poeta que tem um texto que diz aproximadamente “Eu diria que tu tens todo o direito de dar uma mordidela na pessoa certa e dizer: “O que te fez demorar tanto?"”.
Apesar de ter adolescentes como protagonistas, este não é um filme para adolescentes, muito pelo contrário. A obra está carregada de sugestões de uma sexualidade não muito “normal”. Oskar tem os pais separados e quando passa dias com o pai estes decorrem de forma muito agradável, até aparecer um amigo do pai que tolda o ambiente e introduz uma nota de desconforto, que todavia fica apenas insinuada. Eli, por seu turno, vive com um velho que se faz passar por seu pai, e que funciona como seu criado, e que deixa igualmente no ar sugestões de uma ligação não muito “normal”. Aliás, uma das características de “Deixa-me Entrar” é precisamente essa deriva sem interpretações precisas, esse deslizar por superfícies de uma impossível compreensão linear, tal como se escorrega no gelo sem se saber bem onde se vai parar, sem amarras a que se agarrar. Há barreiras intransponíveis que dividem os seres uns dos outros (um vidro de uma montra por exemplo), assim como há emoções que os levam a estabelecer as mais estranhas das ligações. “Deixa-me Entrar” pode ser o pedido para se abrir a porta de casa ou a súplica para se ser simplesmente compreendido.
Os actores são notáveis, a fotografia é magnífica, criando uma realidade quase irreal, a banda sonora inspirada e inquietante. Um grande filme, que recoloca a cinematografia sueca de novo no topo das mais interessantes da actualidade. Esperemos que não seja um exemplo sem continuação.
DEIXA-ME ENTRAR
Título original: Låt den rätte komma in ou Let the Right One In
Realização: Tomas Alfredson (Suécia, 2008): Argumento: John Ajvide Lindqvist, segundo romance de sua autoria; Produção: Carl Molinder, John Nordling, Frida Asp, Gunnar Carlsson, Ricard Constantinou, Suzanne Hamilton, Henric Larsson, Lena Rehnberg, Per-Erik Svensson; Música: Johan Söderqvist; Fotografia (cor): Hoyte Van Hoytema; Montagem: Tomas Alfredson, Dino Jonsäter; Casting: Anna Zackrisson; Design de produção: Eva Norén; Guarda-Roupa: Maria Strid; Maquilhagem: Maria Strid; Direcção de Produção: Katharina Berggren, Mia Eriksson-Degerlund, Suzanne Hamilton, Sofia Lindberg, Fredrik Sidevärn; Assistente de realização: Anna Zackrisson; Departamento de arte: Josef Hamid-Norén, Anna Lindqvist; Som: Mikael Brodin, Christoffer Demby, Maths Källqvist; Efeitos especiais: Hans Harnesk; Efeitos visuais: Thomas Deutchmann, Claes Dietmann, Kaj Steveman, Fredrik Zander; Companhias de Produção: EFTI, the Chimney Pot, Fido Film AB, Filmpool Nord, Ljudligan, Sandrew Metronome Distribution Sverige AB, Sveriges Television, WAG; Intérpretes: Kåre Hedebrant (Oskar), Lina Leandersson (Eli), Per Ragnar (Håkan), Henrik Dahl (Erik), Karin Bergquist (Yvonne), Peter Carlberg (Lacke), Ika Nord (Virginia), Mikael Rahm (Jocke), Karl-Robert Lindgren (Gösta), Anders T. Peedu, Pale Olofsson, Cayetano Ruiz, Patrik Rydmark, Johan Sömnes, Mikael Erhardsson, Rasmus Luthander, Sören Källstigen, Malin Cederblad, Lena Nilsson, Berndt Östman, Kajsa Linderholm, Adam Stone, Jonas Kruse, Ingemar Raukola, Kent Rishaug, Linus Hannu, Thomas Ljungman, Fredrik Ramel, Christoffer Bohlin, Julia Nilsson, Elin Almén, Bengt Bylund, Elif Ceylan, Susanne Ruben, etc. Duração: 115 minutos; Distribuição em Portugal: Atalanta Filmes; Classificação etária: M/ 16 anos; Estreia em Portugal: 29 de Maio de 2009.

segunda-feira, julho 13, 2009

FESTIVAL DE TEATRO DE ALMADA, 8

NA FOLHA INFORMATIVA DO
FESTIVAL DE TEATRO DE ALMADA




FESTIVAL DE TEATRO DE ALMADA, 7

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FLORES ARRANCADAS À NÉVOA
(FLORES ARRANCADAS A LA NIEBLA),
de Arístides Vargas,
encenação de Pepe Bablé

Continuamos com não muita sorte com o que nos vem de Espanha. Desta feita, “Flores Arrancadas à Névoa” (Flores Arrancadas a la Niebla), um texto de Arístides Vargas, com encenação de Pepe Bablé, também não convenceu por aí além a assistência, e deixou mesmo amargos de boca nalguns. O texto coloca em cena duas mulheres, Raquel e Aida, duas exiladas de uma qualquer guerra e de uma qualquer nação, que nunca chegam a dizer qual o motivo nem qual a guerra de que fogem. Encontram-se sozinhas numa estação de caminhos-de-ferro, esperam um comboio que não se sabe para onde vai, e dialogam sobre o que lhes passa pela cabeça, desde essa pátria, lugar de exílio, até ao território para onde vão, desde botânica e flores, até homens e sentimentos. Obviamente que se fala de solidão e de ostracismo, e das guerras que deslocam pessoas daqui para ali sem justificação aparente. Raquel, por exemplo, que esconde dentro de si uma orquídea, é cientista, estuda flores e plantas, e não aceita o seu exílio de ânimo leve, ela explica que vai para longe (a Amazónia?) para investigar casos a enviar posteriormente para as Academias. Mas a sua verdadeira viagem é até à solidão mais íntima, até ao lugar onde nada existe, até ao lugar que é a negação do lugar.
Ok, percebem-se as intenções, mas a peça é demasiado “poética”, difícil de se entender, um pouco pomposa no seu tom lírico-depressivo. A encenação também não ajuda, não tanto por ser enxuta (não há cenários, apenas duas mulheres, duas malas, e dois comboios de corda…), mas sobretudo porque não sabe muito bem o que fazer a duas mulheres sozinhas num palco, não demonstrando grande invenção. As actrizes esforçam-se, não são más, mas aos papéis falta consistência para se imporem como personagens.
O autor do texto não é espanhol, mas sim argentino. Arístides Vargas nasceu em Córdoba (Argentina), estudou teatro na Universidade de Cuyo e, em 1975, exila-se devido ao golpe militar. Dirigiu grupos e companhias de teatro latino-americanos, entre os quais a Companhia Nacional de Teatro da Costa Rica, o grupo Justo Rufino Garay, da Nicarágua, o grupo Taller del Sótano, do México, e a companhia Ire, de Porto Rico. É fundador de um dos grupos mais prestigiados da América Latina: o “Malayerba”, do Equador, que actualmente dirige. Entre outras, é autor das seguintes obras: “Jardín de pulpos”, “Pluma, La edad de la ciruela”, “Donde el viento hace buñuelos”, e “Nuestra Señora de las nubes”. Quanto ao encenador Pepe Bablé ele é, sobretudo, o rosto do Festival Iberoamericano, de Cádis. Presente desde a sua fundação, em 1985, só em 1992 se torna director do evento, passando a acumular também, a partir de 1994, a respectiva direcção artística.

FLORES ARRANCADAS À NÉVOA (FLORES ARRANCADAS A LA NIEBLA), de Arístides Vargas, encenação de Pepe Bablé; Intérpretes Ángeles Rodríguez, Charo Sábio; Cenário e figurinos Albanta; Desenho de luz e espaço sonoro Pepe Bablé; Adereços Francis Geraldía; Duração 1h20; Classificação M12.

domingo, julho 12, 2009

FESTIVAL DE TEATRO DE ALMADA, 6

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Em época de crise, podem fazer-se férias de muitas maneiras. Económicas, prazenteiras e ricas de ensinamento. Por exemplo, passar férias em Almada, durante quinze dias a acompanhar o Festival de Teatro. Já não digo mudarmo-nos de armas e bagagens para Almada, mas aproximarmo-nos da cidade pelo fim da tarde, jantar por ali, depois assistir a um espectáculo de teatro, dar uns dedos de conversa com amigos (alguns que já não víamos há anos, ainda ontem encontrei a Teresa Mota, que vive em Paris e há trinta anos que não encontrava), tomar alguma coisa numa esplanada da praça S. João Baptista, e ir descobrir como Almada se transformou desde o 25 de Abril. Antes era uma espécie de fim de mundo, sem qualidade de vida, um amontoado de casas para onde iam viver os que trabalhavam em Lisboa. Agora é terra que vale a pena atravessar, e habitar. Bem servida de transportes (sai-se da Av. de Roma na Fertagus, bons comboios de dois andares, pára-se em Corroios, por exemplo, e apanha-se o Metro de superfície, e rapidamente se sai quase à porta do Teatro Municipal), com uma urbanização desempoeirada e salpicada de zonas verdes, limpa e bem conservada, Almada é um bom exemplo do que em três decénios se pode fazer para transformar por completo uma cidade, ainda por cima que dá importância à cultura, ao desporto, ao entretenimento.
HOMENAGEM A RUY DE CARVALHO

A noite do Festival começou com uma homenagem a Ruy de Carvalho, um actor que é uma lenda viva no teatro, na televisão, no cinema, mas não só, na dignidade de uma vida e na paixão por uma arte. Laborinho Lúcio leu um magnífico texto de exaltação do actor, Diogo Infante elogiou-lhe as virtudes e anunciou o seu regresso ao Teatro de D. Maria II (na peça “O Camareiro”, que Laurence Olivier tão bem fez em cinema!), Joaquim Benite fez as honras da casa, bem como a Presidente da Câmara de Almada. Justíssima homenagem para alguém que muito admiro e a quem o Famafest há alguns anos prestou idêntica homenagem. É bom saber que há quem homenageie em vida aqueles que amamos.
Fotos: aspectos da Exposicisão dedicada a Ruy de Carvalho

AULLIDOS (UIVOS)
encenação de Jesus Peña

E subiu o pano para mais um espectáculo brilhante, desta feita marionetas para adultos, por uma companhia espanhola. “Aullidos” é, segundo palavras do seu autor e encenador, “um espectáculo de marionetas para adultos inspirado nos contos de fadas.” Neste espectáculo, segundo Jesús Peña, “os bonecos vêem-se submetidos às paixões humanas”. Esta criação do Teatro Corsário subverte de certa forma a ideia de teatro de marionetas, que normalmente se associa a um público jovem, a quem se oferecem histórias de fadas que sublimam as mais profundas paixões humanas, apresentando-as como histórias de inocência e de encanto. Nada de mais enganoso. As histórias de fadas encerram referências às mais íntimas e secretas paixões do Homem, das mais inocentes às mais perversas, das mais violentas às mais libidinosas. Só que está tudo diluído numa calda de açúcar que tolda a visão aparente. O que faz esta companhia, com “Uivos”, é retirar o véu de ilusória inocência das histórias de fadas e apresentar-nos as verdadeiras histórias de sexo e violência que se escondem por detrás da habilidade de escrita dos irmãos Grimm ou de Perault, de La Fontaine ou de Lewis Caroll (para só citar alguns).
O que se vê então são sangrentos diabos e sequiosos lobisomens, depravadas damas de corte e feiticeiras amaldiçoadas, brutais ogres, e irritantes diabinhos de riso convulsivo, carrascos da Inquisição e libertinos cavaleiros de um inesgotável desejo sexual, e uma menina pobre que os ricos exploram, que vai viver para debaixo do mar, na companhia das sereias, e que é despertada (ou nem isso) da letargia mortal em que caiu, nua e de pernas bem abertas, quando é descoberta pelo lobisomem de serviço, numa fornicação com inúmeros prolegómenos, de que resulta um sedento bebé. Enfim, um deboche completo, para edificação de um público que vibra com o que vê e assim exorcisa os fantasmas que lhe vão na alma. São efectivamente “Uivos” que se libertam do mais secreto da natureza humana. Com a poesia rara da arte que sabe transfigurar mesmo os “uivos” mais animalescos.
Com uma tonalidade poética e uma construção de quadros que relembra o cinema mágico de Méliès, “Uivos” fica seguramente como um dos grandes momentos deste Festival. São mais de 20 bonecos, de tamanho quase humano (alguns de tamanho mesmo sobre-humano), manipulados com maestria pelos seus criadores, que lhes incutem à nossa frente o sopro da vida, que mescla tudo o que esta comporta, amor e tragédia, crueldade e erotismo, magia e realismo (poética), amor e desejo, homens e figurões, imaginário e fantasia dos sonhos.
O “Times”, de Londres, descreveu-o como “um espectáculo de extraordinária habilidade e energia diabólica”. O “El Mundo” afirmou que se trata de uma produção de “altíssimo nível, liberdade, provocação e diversão, um trabalho magistral”. É, na verdade, como se lia no “ABC”, um “terrorífico e divertido conto de fadas. Um trabalho extraordinário”. Várias vezes premiado em Festivais: Prémio para Melhor Espectáculo para Adultos, do Festival de Valência, Prémio da União Polaca de Artistas de Teatro, e Prémio pela “magistral técnica de animação” do Festival de Lleida. Quem não viu, não sabe o que perdeu.

UIVOS (AULLIDOS) – criação e encenação de JESÚS PEÑA; Intérpretes /manipuladores: Teresa Lázaro, Olga Mansilla, Sergio Reques; Fantoches e cenário: Teatro Corsário; Desenho de luz Javier Martín; Música original: Juan Carlos Martín; Desenho de som: Juan Arteagabeitia, Javier Garcia; Maquinista / manipulador: Borja Zamorano, Iñaki Zaldua; Duração 1h05; Classificação M12.

sábado, julho 11, 2009

FESTIVAL DE TEATRO DE ALMADA, 5

:COMPOTA RUSSA (RUSSKOIE VARÉNIE),
de Liudmila Ulítskaia
encenação de Andrzej Bubien


Voltaram as noites grandes a Almada e ao seu Festival de Teatro (não as noites quentes, porque o frio chega a ser de enregelar, sobretudo para quem vê espectáculos ao ar livre, como foi o caso deste). “Compota Russa” parte de um belíssimo e inteligentíssimo texto de Liudmila Ulítskaia, servido por uma inventiva e divertida encenação de Andrzej Bubien, com um muito homogéneo e muito bom grupo de actores, para atingir a qualidade de eleição que se lhe reconhece.
A ideia é magnífica desde início. Quem não recorda “O Cerejal”, de Anton Tchekov? Pois bem, Liudmila Ulítskaia vai verificar no que se transformou hoje, na Rússia de Vladimir Putin, esse cerejal. O resultado não é de molde a agradar a ninguém. Nem aos nostálgicos do comunismo, nem aos arautos da sociedade de consumo. Nada resta dos antigos tempos e da Rússia que se orgulhava da sua vida intelectual e de ter escritores com Tchekov. O cerejal de Ranévskaia já era, as “datchas” construídas por Lopákhin, o comprador do cerejal, são ruínas habitadas por náufragos que se movimentam sofregamente num círculo vicioso, cada um a estrebuchar para o seu lado (lembrando, imagine-se !, essa parábola sobre a terra da liberdade chamada “O Mundo é Um Manicómio”, de Frank Capra – lembrança que não será inocente, julgo ver mesmo uma clara influência). A “datcha” existe, os herdeiros do comprador também, mas a casa é literalmente uma ilha num mundo que se afunda, comprada por especuladores que querem acabar com o trabalho e impor o conceito de Disneyland. A facilidade em lugar do trabalho, a compota de groselha em vez da de cerejas ou de ginjas. A crítica é severa e arguta, mas a linguagem é coloquial, recupera um certo imaginário de Tchekov, mas a nostalgia não é saudosista, mas sim incentivadora de uma reflexão virada para o futuro.
Lyudmila Ulitskaya é uma das escritoras mais consideradas no panorama da moderna literatura russa. Nasceu em 1943, em Davlekanovo, na Bashkiria (URSS), numa família judaica, estudou Biologia em Moscovo, e mais tarde optou por escrever. Ao que sei, fora despedida do seu emprego por “posse e divulgação de literatura proibida”. Proibida a dos outros, virou-se para a criação pessoal. Rapidamente criou uma reputação com a sua primeira obra, “Sonyechka” (Сонечка), editada na revista “Novy Mir”, em 1992 (e já traduzida para português (Campo das Letras), a que se seguiram várias outras com igual sucesso (em português, na Relógio d’Àgua, apareceram “Mentiras de Mulher” e “Funeral Divertido”). Escreveu ainda dois argumentos para filmes que desconheço (nunca estreados em Portugal): “As Irmãs da Liberdade” (Сестрички Либерти, 1990) e “Uma Mulher para Todos” (Женщина для всех, 1991). Muito premiada na Rússia e no estrangeiro, trabalha também para teatro, caso de “Compota Russa” que agora pudemos ver numa criação do Teatro de Sátira da Ilha Vassilievski, fundado em 1989, por Vladimir Slovokhotov. A companhia tem participado em festivais internacionais em Helsínquia, Palermo, Avignon, Berlim, Paris, Torum e Lubliana, onde recebeu prémios como o Triomphe, o Masque D’Or e o Herse d’Or. Sob a direcção de Andrzej Bubien, projecta apresentações em Madrid, Seul, Vilnius, Telavive, Nice e Belgrado. Diga-se que este encenador (nascido em 1964) se torna director do teatro Wilam Horzyca, em Torum, na Polónia, e director artístico do festival Contact, em 1997. Em 2007 assume o cargo de director do Teatro de Sátira da Ilha Vassilievski, onde se estreou com uma encenação de um texto da dramaturga sérvia Biljana Srbljanovic. “Compota Russa”, de Liudmila Ulítskaia, é a sua segunda produção neste teatro. Andrzej Bubien demonstra uma inteligência e invenção cénica invulgares, o seu espectáculo cruza a poesia nostálgica dos grandes clássicos russos com um certo burlesco contemporâneo, conseguindo uma homogeneidade de representação e um ritmo de palco que conseguiu sobreviver até a alguns lapsos de legendagem, electrónica (não esquecer que o original que se ouvia era russo!).
Uma bela noite de teatro, num festival que soube conquistar público (salas de cem ou de mil lugares sempre cheias), e um público heterogéneo (onde se nota sobretudo uma grande percentagem de jovens até aos 30 anos, e muitos “seniores” que já passaram dos 60). Um festival que sabe receber e sabe criar um ambiente de cumplicidade amiga, em redor, não só uma ideia de teatro, mas dos muitos caminhos que o teatro moderno tem para nos desvendar. A seguir com redobrado interesse.

COMPOTA RUSSA (RUSSKOIE VARÉNIE), de Liudmila Ulítskaia- Encenação de Andrzej Bubien; Cenário e figurinos Elena Dmitrakova; Desenho de luz Evguény Gansbourg; Compositor Vitaly Istomin; Coreografia Yuri Khamutiansky; Intérpretes Evguény Tchoudakov, Natalia Koutassova, Artem Tsypin, Tatiana Michina, Ouliana Tchekmeneva, Nadejda Koulakova, Elena Martinenko, Mikhail Nikolayev, Nadejda Jivoderova, Igor Nikolaev. 2 horas e 20 m.


quinta-feira, julho 09, 2009

TEATRO: A GAIOLA DAS LOUCAS

:
A GAIOLA DAS LOUCAS
no RIVOLI (Porto)
“A Gaiola das Loucas”, que agora estreou em Portugal, no Rivoli, do Porto, pela mão de Filipe La Féria, é um dos grandes musicais das últimas décadas, tendo um historial muito interessante, mas idêntico a quase todos os fenómenos deste tipo, que vão passando do teatro para o cinema, deste para o musical, ou vice versa.
Tudo começou na noite de 1 de Fevereiro de 1973, em Paris, no Théâtre du Palais-Royal, com a estreia da peça teatral de Jean Poiret, “La Cage aux Folles”, na sua versão original francesa, com um elenco composto por Jean Poiret, Michel Serrault e Pierre Mondy, nos principais papéis. O sucesso foi imediato, cinco anos no Palais-Royal, seguido de mais dois no Variétés. 1800 representações, para mais de um milhão de espectadores.
Compreende-se, pois, que, em 1978, Édouard Molinaro, um bom realizador francês de comédias, tenha assumido a tarefa de transpor para o ecrã as aventuras emocionais de Zaza Napoli. O elenco era de peso e o êxito foi total. Não só em França. Nos EUA (onde se chamou "Birds of a Feather"), esteve anos em estreia e foi durante muito tempo o filme estrangeiro que conseguiu maiores receitas. Ugo Tognazzi (Renato Baldi), Michel Serrault (Albin Mougeotte/'Zaza Napoli'), Michel Galabru (Simon Charrier), Claire Maurier (Simone), Rémi Laurent (Laurent Baldi), Carmen Scarpitta (Louise Charrier), Benny Luke (Jacob) e Luisa Maneri (Andrea Charrier) eram os actores, sublinhando-se o facto de Michel Serrault voltar a criar o papel que o notabilizara em teatro. A partitura era de Ennio Morricone. O sucesso impôs continuação e as sequelas não se fizeram esperar: Em 1980, de novo Édouard Molinaro assina “Cage aux folles, II”, e , em 1985, foi a vez de outro experimentado autor de comédias, Georges Lautner, nos dar “La Cage aux Folles 3 - 'Elles' se Marient”. Mas o cinema não ficaria por aqui. Em 1996, surge um remake americano, dirigido por Mike Nichols, “The Birdcage”, que transfere a acção para South Beach, Miami, tendo como actores principais Robin Williams e Nathan Lane. Entretanto, em 1983, a peça foi adaptada a musical, na Broadway. “La Cage aux Folles”, o musical, com libretto de Harvey Fierstein e música de Jerry Herman, teve depois várias versões, e regressos aos principais palcos mundiais. Recentemente, em Londres, reapareceu no Menier Chocolate Factory, passando depois para o Playhouse Theatre, com Graham Norton no papel de Zaza.
Na peça original, tudo se passa em França, em St. Tropez, onde existe um night club gay, “La Cage aux Folles”, onde actua o travesti 'Zaza Napoli' (nome de guerra de Albin Mougeotte), que vive com o empresário da casa de espectáculos, Renato Baldi. Tudo corre bem, apesar de alguns periódicos ataques de vedetismo e de ciúmes da “diva”, até que o filho deste (de um casamento anterior com Simone), resolve regressar a casa dos “pais”, para lhes apresentar a noiva, e a ultraconservadora família desta. Óbvio que nem tudo vai correr bem, por muito que todos se esforcem para parecerem uma “família exemplar”. Mas a “normalidade” não é o mais aparenta esta família.
Posto isto passemos ao espectáculo do La Féria. A abrir, este é seguramente um dos seus mais logrados trabalhos, num registo um pouco diferente dos demais musicais até agora por ele erguidos, quer em Lisboa quer no Porto. A grande maioria dos musicais alicerça-se numa história que é entrecortada por números musicais (cantados e/ou dançados). Mas esses números integram-se na história, fazem-na avançar (muito ou pouco, mas avança, depende do conceito de musical). Aqui há uma história por um lado, e por vezes entradas no cabaret “La Cage aux Folles” onde surgem números de music hall nítidos. Portanto o musical equilibra-se, habilmente, diga-se, entre a estrutura narrativa de uma comédia e momentos de relax, que derivam directamente desse outro universo, o music hall.
Por outro lado, Filipe La Féria adaptou o texto ao cenário português, entre a praia de Cascais e o Porto, donde desce a família tradicionalista, receoso do que os mouros do Sul lhe reservam. O que resulta bem, e traz um colorido muito especial aos diálogos, que relembram “O Leão da Estrela” e outras comédias desse tempo. No caso português, portanto, Armando del Carlo e Carlos Alberto são proprietários de uma discoteca em Cascais, “A Gaiola das Loucas”. Carlos Alberto é o mais prestigiado transformista português rivalizando com todas as “vedetas” marginais da cidade. Ricardo, filho de Armando Del Carlo, estudante universitário, está apaixonado por Barbara Alarcão, filha do deputado portuense Arnaldo Alarcão, vice-presidente do Futebol Clube do Porto. Bárbara convence o seu conservador pai que Ricardo é filho de um adido cultural na Grécia. Resolvem ir a Lisboa conhecer a família do futuro genro, o que obriga Armando del Carlo e o seu companheiro a passar por uma família tradicional e conservadora. Finalmente, a encenação de La Féria é realmente esplendorosa, com um guarda-roupa sumptuoso, de muito bom gosto, coreografias certas e divertidas, cenários belíssimos, e uma marcação de ritmo endiabrado. Os actores são excelentes, a começar pela dupla de “gays”, que José Raposo (impagável na sua desconcertante Zazá) e Carlos Quintas compõem de forma muito divertida, mas sem rebaixar ou aviltar as figuras. Rita Ribeiro (pequena contribuição, mas em grande dama), Joel Branco (o deputado do Norte, de imaculada postura, postiça), Helena Rocha (a matrona nortista), Filipe Albuquerque (um tresloucado mordomo), Hugo Rendas (o jovem noivo, a crescer de papel para papel) e Sara Lima (a noiva) são outros nomes que ajudam a brilhar a homogeneidade de elenco de 68 actores, cantores, bailarinos, músicos, contando ainda com a participação especial de alguns inesperados nomes do espectáculo, como Herman José, Ana Bola, Fernando Mendes, Maria Rueff e Maria João Abreu.
Considerações finais: sendo uma comédia sobre a homossexualidade e o transformismo, “A Gaiola das Loucas” poderia facilmente resvalar para terrenos perigosos, de grotesca caricatura. Nada disso acontece e, no final, o resultado é um estimulante espectáculo sobre a tolerância e a afirmação da liberdade de cada um viver a sua vida conforme os seus valores, desde que não interfira nos valores dos demais. É tudo quanto é preciso, quer se fale de gays ou heteros, de brancos ou negros, de direita ou esquerda, de tinto ou branco. A diversidade é que é a nossa maior grandeza que urge preservar.
A Gaiola das Loucas Texto e música de Jerry Herman – Harvey Fiersten, segundo a comédia de Jean Poiret; Direcção Artística, Encenação Cenografia - Filipe La Féria; Coreografia - Inna Lisniak; Figurinos - João Rolo; Direcção Musical e Produção Musical - Artur Guimarães; Direcção Vocal - Carlos Meireles; Direcção de Produção - Irene de Sousa, Carlos Gonçalves; Direcção de Cena - Helena Rocha; Mestre de Guarda-Roupa - Helena Brandão; Desenho de Luz - Filipe La Féria, João Fontes; Desenho de Som - Felício Fialho, Tiago Pinto; Produção - Todos ao Palco, Maria João Neves, Alexandre Cunha, Diana Moreira; Músicos: Maestro/Piano - Artur Guimarães; Maestro/Piano - Carlos Meireles; Violino - Flávio Azevedo; Violino - Carlos Pinto da Costa; Guitarra - Miguel Azevedo; Guitarra - António Pedro Neves; Bateria/Percussão - Emanuel Monteiro / Hugo Vieira; Baixo - Pedro Cravinho/Pedro Ferreira/André Vilar; Trompete - António Silva; Trompa - Hélder Vales; Trombone - Daniel Dias; Acordeão - Pedro Cunha; Acordeão - Ricardo Miguel.
Personagens e intérpretes: Carlos Alberto/Zazá Napoli - José Raposo; Armando Del Carlo - Carlos Quintas; Simone - Rita Ribeiro; Arnaldo Alarcão - Joel Branco; Maria do Céu Alarcão - Helena Rocha; Jacob - Filipe Albuquerque; Ricardo Del Carlo - Hugo Rendas; Bárbara Alarcão - Sara Lima; Francis - Alexandre Falcão; Mercedes Cristal - Rogério Costa; Maurício/Fedra/Belle Dominique - Pedro Xavier; Gaiolete/Jornalista/Guida Scarlatti - Ivo Dias; Gaiolete/ Lídia Barloff - Pedro Simões; Gaiolete/Ruth Briden - Aleksandr Aleksandrov; Gaiolete - Aleksandr Karpets; Gaiolete - Augusto Gonçalves; Gaiolete - Constantino Dias; Gaiolete - Daniel Santos; Gaiolete - Gilberto Neto; Gaiolete - Kleber Cândido; Gaiolete/Emp.Mesa/Jornalista - Luís David; Ass. Camarim/Cantora - Carla Oliveira; Dolly/Secretária/Jornalista - Mirró Pereira; Dolly/Jornalista/Ass.Camarim - Ana Isabel; Emp.Mesa/Jornalista/Ass. Palco - Pedro Pires. Teatro Rivoli (Porto).

FADO: CARMINHO

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CARMINHO
NO VAN GOGO


No Van Gogo, em Cascais, às quartas feiras, há fado. Esta quarta, a presença era a de Carminho, de quem tanto já lera, de quem já ouvira o recente CD, “Fado”. Não a tinha ainda visto “ao vivo” e o fado ao vivo é muito bonito, quando bem cantado. Fui ao Van Gogo, portanto, muito bem recebido pelo Miguel Capucho, que é a alma deste bar de há uns tempos a esta parte. Eu que não sou de bares, fiquei com vontade de regressar.
Mas falemos de Carminho. A voz é magnífica, de eleição, um pouco rouca, inconfundível, uma daquelas vozes que foram feitas para a dolência do fado, para a emoção do lamento da guitarra, para a alegria dorida da marcha do bairro popular, que outra forma de fado. Uma voz como raramente se descobre, numa jovem, de 24 anos. Com uma segurança de timbre notável, uma melodia de sílabas invulgar (pode descobrir-se um bom cantor pela forma como resolve a fraseologia do que canta, pelas pausas, pelo arrastar das sílabas, pelas forma como as ligas ou trunca).
Mas há mais. O fado bem cantado, canta-se com todo o corpo. Canta-se com a alma e com as vísceras, os músculos, os nervos. Olhos negros, cerrados, mãos crispadas, braços lançados como aves em arranque de voo, todo o corpo vibra com as palavras que se soltam da emoção. Aqui não há artifício, há sinceridade, entrega, espontaneidade, as palavras não se soltam somente da boca para o ouvinte, mas brotam do mais profundo, do mais íntimo de um corpo em entrega total.
Carminho, em 2009, é um cristal em estado puro. Felizes aqueles que a ouvem agora, que a vêem nesta altura da sua carreira. Mais tarde ou mais cedo, o cristal vai ser burilado, vai adquirir mais técnica, poderá melhorar o estilo, aprimorar o que há de pessoal na voz. Mas alguma que se irá perder, essa pureza quase inocente de quem se entrega toda ao seu fado, ao nosso fado. Foi um prazer enorme ver e ouvir Carminho. Mais uma carreira, uma vida a seguir com paixão.
Depois de Carminho ainda tivemos dois extras a registar: o próprio Miguel Capucho, e Cuca Roseta, que também não conhecia e que igualmente me impressionou muito. O fado em Portugal está bem e recomenda-se.

CARMINHO POR ELA PRÓPRIA
Chamo-me Carminho, tenho 24 anos, sou fadista e edito agora o meu primeiro álbum. Alguns de vós conhecem-me, já me ouviram cantar ou já ouviram falar de mim. Outros não fazem a mais pequena ideia de quem eu sou. Mas é para todos que eu conto aqui a minha pequena história.
Nasci Carmo Rebelo de Andrade, em Lisboa, filha da fadista Teresa Siqueira e de Nuno Rebelo de Andrade (que não canta mas que diz ser fadista também quem ouve). E, apesar de ter ido viver para o Algarve, o fado esteve sempre comigo. Os meus pais organizavam tertúlias de fado e em casa ouvíamos discos de Lucília do Carmo, de Fernando Maurício, de Amália Rodrigues... De volta a Lisboa, estreei-me a cantar em público, aos doze anos, no Coliseu. A partir daí comecei a cantar regularmente na Taverna do Embuçado, em Alfama, onde tive grandes mestres: a minha mãe, claro, mas também Beatriz da Conceição - com quem aprendi imenso -, Fernanda Maria, Alcindo Carvalho, Paquito, Fontes Rocha, memórias vivas da verdadeira essência do fado. Sentada na mesa da Bia, ouvia com atenção as mil e uma histórias de noites e fadistas. Os tiques e graças, tudo o que tinham para me ensinar... Mas o melhor era quando a luz se apagava e lá iam eles, dar-me a mais verdadeira das lições. Tenho também uma admiração profunda por outras pessoas do fado como Maria Teresa de Noronha, Maria José da Guia, Carlos do Carmo, Fernando Farinha, Camané, entre outros.
Há três anos concluí o meu curso de Marketing e Publicidade, mas ainda durante a faculdade percebi que o meu futuro - porque também já era o meu presente - era cantar fado. Depois de uma viagem à volta do mundo que durou um ano e em que participei em acções humanitárias na Índia, Camboja, Peru e Timor, consegui olhar-me de fora para dentro e descobrir que a minha verdadeira vocação era mesmo o fado.Voltei a cantar na casa de fados, a Mesa de Frades, onde estou todas as segundas e quartas-feiras, cantei na Casa da Música, na Festa do Fado (ao lado da minha mãe e do meu irmão Francisco), no espectáculo comemorativo dos 45 anos de carreira de Carlos do Carmo, na Expo de Saragoça e na recriação de «Amália à L'Olympia». Para trás, nesta minha história, ficou a participação, entre outros, no disco «Fado - Ontem, Hoje e Sempre», no filme «Fados», de Carlos Saura, e concertos na Argentina, Suiça e Malta. Recebi o Prémio «Revelação Feminina» da Fundação Amália Rodrigues.

Durante muitos anos, houve muita gente que me considerou a «grande esperança» do fado. A todos eles - e aos outros que sempre tiveram boas palavras para mim - agradeço-lhes do fundo do coração. Mas também tenho a dizer-lhes que esse carimbo, ia chamar-lhe esse fardo, caiu sobre os meus ombros como uma responsabilidade enorme. E, também por isso, só agora gravei o meu primeiro álbum. Até aqui, ainda não me tinha sentido capaz de vir a poder defender um disco inteiro, um pouco à semelhança de um bom trabalho de faculdade mas que depois tem que ser apresentado oralmente: a teoria pode estar perfeita mas se não estamos seguros da matéria, não a podemos defender.
O meu primeiro disco chama-se «Fado». Não podia, e digo-o com humildade, chamar-se outra coisa. Por respeito às minhas raízes, ao fado e a mim própria. E este disco sou eu. O meu passado (fados que sempre cantei), o meu presente (a evolução que o meu fado tem sofrido ao longo dos anos) e o meu futuro (em que irei, ainda mais, deixar-me guiar pela minha sensibilidade). Neste álbum tive a companhia de Diogo Clemente - produtor e violista deste disco, amigo e conselheiro que me acompanhou desde o início da escolha de reportório e até ao fim - e de alguns dos melhores músicos de fado: Ricardo Rocha, José Manuel Neto, Bernardo Couto e Ângelo Freire, todos na guitarra-portuguesa, e o viola-baixo Marino de Freitas, para além da participação especial do contrabaixista Carlos Barretto no tema «Espelho Quebrado». Sinto-me muito orgulhosa por existirem músicos como eles em Portugal e particularmente honrada por tê-los tido comigo.
Espero que gostem deste meu primeiro passo. / Carminho

CARMINHO NA CÂMARA DE JOÃO BOTELHO

João Botelho realizou cinco vídeo clips para Carminho. São momentos inspirados de um realizador apaixonado pelo fado e que o sente de forma muito particular na voz de Carminho. Aqui ficam como homenagem a ambos, à fadista, ao realizador. Com um abraço de amizade para ambos.

quarta-feira, julho 08, 2009

FESTIVAL DE TEATRO DE ALMADA, 4

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CORTAMOSONDULAMOS
(CORTAMOS E FRISAMOS),
de Inés Saavedra
(segundo contos de Silvina Ocampo)
A “coisa” ia até agora tão bem, que não havia necessidade. Na verdade, com um programa exemplar até hoje, este espectáculo argentino deslustra no cômputo geral desta 26ª edição do Festival de Teatro de Almada. Chama-se “Cortamos e Frisamos” e é um trabalho de uma actriz, encenadora, autora, Inés Saavedra, que há anos transformou a sua própria casa numa sala de teatro, a que deu o nome de “La Maravillosa”, “destinando-a à investigação, estudo e criação de textos dramáticos”. Tudo bem, mas o texto dramático (por acaso uma pretensa comédia) que nos apresentou, com base em contos da escritora argentina Silvina Ocampo, deixa muito a desejar.
No palco, um salão de cabeleireiro, duas irmãs, proprietárias, Mabel e Marta, que comentam a vida das suas clientes e amigos enquanto vão trabalhando. Pequenos “fait divers”, festas, casamentos, divórcios, o fotografo atrasado, o loiro não apresentado, tudo serve para uma má-língua sem outra intenção que não seja a frivolidade do “corte na casaca”, por onde vão perpassando ciúmes e invejas, pequenas vinganças e mesquinhices semelhantes. Nada de particularmente bem escrito, nada de intencional, um texto de corta e cola ao sabor da inspiração de momento. Que, como se pressente, não foi muita.
Para comédia falta-lhe graça, o que seria a única atenuante. Assim, fica o mérito de ser curta, uma hora, e demonstrar alguma qualidade das duas actrizes em palco, Inés Saavedra e Maria Marta Guitart, que mereciam talvez melhor matéria-prima. Mas se não a tiveram, a culpa é também delas.
Melhores dias virão, certamente. E melhores noites de teatro, com menos frio (o que em inícios de Julho, não deixa de ser igualmente patético).

terça-feira, julho 07, 2009

CINEMA. HISTÓRIAS DE CAÇADEIRAS

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HISTÓRIAS DE CAÇADEIRAS
“Shotgun Stories” é indiscutivelmente uma das grandes revelações desta temporada cinematográfica. Uma história simples, que relembra a escrita despojada de alguns escritores americanos actuais, como Cormac McCarthy (o de “Esta Terra não é para Velhos”) ou Raymond Carver (o das curtas histórias), por sua vez entroncados numa tradição ruralista de uma América profunda, tradicionalista e violenta (de John Steinbeck a Erskine Caldwell, entre vários outros).
“Histórias de Caçadeiras” possui o sopro trágico das grandes histórias que começam num equívoco e acabam no irremediável, através de uma progressão de pequenas falhas ou erros que parecem conduzidos pela mão de um destino inexorável. Aliás, o que mais surpreende nesta obra é que ela tem tudo para ser um western moderno, uma tragédia, um melodrama intenso, mas fica-se a meio caminho de tudo isso, cortando deliberadamente a respiração de cada uma dessas vias, e assumindo-se como uma metáfora discreta, mas vigorosa, sobre os perigos da intolerância e o mau exemplo de uma educação preconceituosa.
Um homem morre. Sabe-se no seu enterro, durante a cerimónia fúnebre, que teve duas famílias, uma que abandonou, mulher e três filhos, todos baptizados com nomes impessoais, como “Son” (brilhante Michael Shannon), “Boy” e “Kid”, outra que o vela zelosamente. Frente ao caixão os filhos do primeiro casamento não fazem o elogio público do pai, mas a sua condenação: “Não é por morreres que deixas de ser o patife que sempre foste”. O que cria uma forte tensão que se irá acentuar à medida que o tempo passa. São duas famílias de meios-irmãos que se detestam. Ou melhor, são os irmãos da primeira mulher do pai que detestam a segunda família, porque o ódio da mãe, que nunca perdoou ter sido abandonada, a isso os leva. Ela sempre os educou no ódio. Nada nos diz no filme que esse ódio tenha alguma razão legítima, para lá de uma certa propensão do pai para o alcoolismo, entretanto renegado pela adopção de uma religião. Apenas preconceitos e ódio puro. Que se transmite de mãe para filhos, e que estes concentram no cano de uma caçadeira. Que impõe a resposta, e a resposta à resposta, numa espiral de violência que parece não ter fim. Tudo se passa numa América profunda, nos campos de algodão e nas pequenas estradas do Sudeste de Arkansas, estado onde nasceu Jeff Nichols, o realizador e argumentista, que certamente recorda aqui não só personagens e situações da sua infância, como, sobretudo, uma atmosfera irrespirável, muito bem transmitida com uma economia de meios total. Tudo se passa numa América profunda, é verdade, mas a leitura é obviamente metafórica e fala-nos da vingança como modo de comportamento pessoal, social, nacional, internacional, como referência clara ao clima revanchista de uma América traumatizada pelo 11 de Setembro. Jeff Nichols tenta mostrar como o caminho da vingança a nada mais conduz do que a novas respostas e ao recrudescer da violência.
Filme abertamente “indie”, este "Histórias de Caçadeira" inclui-se numa curiosa tendência do mais recente cinema norte-americano. Ser sóbrio e narrativo, liberal e “político”, contar uma história, sem empolamentos formais, ir ao encontro do verdadeiro cinema norte-americano que vem de Griffith, passa por John Ford, e volta a ter um período áureo nos anos 60 e 70, com cineastas como Arthur Penn (“Vício de Matar” ou “Bonnie e Clyde”), Martin Ritt (“Hud, o mais Perigoso entre Mil” ou “Ultraje” e “Um Homem”), Stuart Rosenberg (“O Presidiário” e “Wusa”). E vai mais longe na evocação de mestres: o David Lean de "Lawrence da Arábia". Clássicos, afinal, homens da narrativa romanesca expurgada de efeitos, reduzida ao essencial.
O que a obra de Jeff Nichols (nascido a 7 de Dezembro de 1978, em Little Rock, Arkansas) demonstra de forma magnifica, na maneira como adensa os climas pela duração do plano e pelo laconismo dos personagens, na maneira hábil e discreta como desenha personagens, os irmãos, é certo, Son, sobretudo, mas igualmente a mãe destes (que surge apenas em dois ou três planos, mas “percebemos” na integra), ou esse “Shampoo” que se intromete constantemente na história.
É curioso como se alterna a vida pacata e tranquila de uma paisagem quase diríamos bucólica, de campo e rio, com a explosão da violência que sentimos crescer de plano para plano, e descobrimos pronta a irromper. A arte de Jeff Nichols permite-nos adivinhar sentimentos e emoções, para lá do visível. O que é um trunfo importante no computo de um título que assinala a estreia do cineasta na longa-metragem.

HISTÓRIAS DE CAÇADEIRAS
Título original: Shotgun Stories
Realização: Jeff Nichols (EUA, 2007); Argumento: Jeff Nichols; Produção: David Gordon Green, Tisha Gribble, Lisa Muskat, Jeff Nichols, John Portnoy, Paul Skidmore, Nick Thurlow, Todd Williams; Música: Lucero, Pyramid; Fotografia (cor): Adam Stone; Montagem: Steven Gonzales; Maquilhagem: Cosmo Pfeil, David Weatherly; Direcção de Produção: Louise Runge, Paul Skidmore; Assistente de realização: Cosmo Pfeil; Casting: Yancey Prosser; Som: Dhyana Carlton-Tims, Jerry Gilbert; Efeitos visuais: Christopher Dusendschon; Companhias de produção: A Lucky Old Sun Production, Muskat Filmed Properties LLC, Upload Films; Intérpretes: Michael Shannon (Son Hayes), Douglas Ligon (Boy Hayes), Barlow Jacobs (Kid Hayes), Natalie Canerday (Nicole), Glenda Pannell (Annie Hayes), Lynnsee Provence (Stephen Hayes), Michael Abbott Jr. (Cleaman Hayes), Coley Canpany (Cheryl), Lance Christopher, Will Hahn, Gary Hawkins, Cole Hendrixson, Mark W. Johnson, Tom Kagy, Vivian Morrison Norman, Hannah Payne, Cosmo Pfeil, Tucker Prentiss, Wyatt Ashton Prentiss, David Rhodes, Travis Smith, G. Alan Wilkins, etc. Duração: 92 minutos; Distribuição em Portugal: Atalanta Filmes; Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia nos EUA: 26 de Março de 2008; Estreia em Portugal: 11 de Junho de 2009.

FESTIVAL DE TEATRO DE ALMADA, 3

DIALOGUE D’UN CHIEN AVEC SON MAITRE
SUR LA NECESSITE DE MORDRE SES AMIS,
de Jean-Marie Piemme
Excelente espectáculo que parte de um texto magnífico de Jean-Marie Piemme, encenado com muita inteligência e ironia por Philippe Sireuil, para o Teatro Nacional da Comunidade Francesa em Bruxelas, servido por dois intérpretes de eleição: Philippe Jeusette e Fabrice Schillaci.
Dizem que constituiu um dos grandes êxitos do último Festival d’Avignon. Justificamente. A cenografia e luzes são também da responsabilidade de Philippe Sireuil e as primeiras a sobressair: num palco que é um largo estrado de madeira, uma caravana deteriorada, um maple a cair de usado, nada mais. Uma luz dourada que tudo envolve, Um homem que se aproxima e começa a falar da sua vida, ele que é porteiro de um hotel de luxo, mas sobrevive mal e porcamente numa caravana escalavrada, sonhando com a filha que lhe foi retirada pelos serviços sociais (que não o julgaram capaz de a educar). Fala também de um cão que por ali anda, enquanto se ouvem, em off, os carros a espatifarem-se uns contra os outros na auto-estrada que passa em frente à caravana. O causador do enorme engarrafamento é o cão que atravessa continuamente a estrada, com esse mesmo propósito: causar acidente, ver os carros engalfinhados uns nos outros. O cão tem uma filosofia de vida, o porteiro do hotel tem uma outra, ambas se vão chocar, confrontar, completar neste palco da vida.
Uma hora e quarenta de filosofia e burlesco, que fazem lembrar “À Espera de Godot” e outras peças de um certo non sense, mas que acabam por ter um grande sentido. É o humor em liberdade, à procura de uma finalidade para a existência de todos nós, um grito de revolta irónico sobre as injustiças da vida, sobre as agruras, mas também sobre a alegria de estar vivo, sobre o gozo de tramar os poderosos, de obrigar os ministros bêbados a virem-nos comer à mão. Ou à pata. De certa forma, a peça relembra igualmente o trágico “O Último dos Homens”, de Murnau, numa versão que troca o drama pelo humor, bem como toda a extraordinária banda sonora é muito felliniana, em certos momentos. Diz Philippe Sireuil que esta peça “dá-nos o osso, o nervo e a carne de um belo pedaço de teatro que deve ser devorado sem qualquer moderação”. Nascido em 1952, no então Congo Belga, Philippe Sireuil é um dos mais destacados encenadores de língua francesa da actualidade. Ao longo da sua carreira encenou textos de Strindberg, Peter Handke, Bertolt Brecht, Alfred Musset, Tchecov, Koltès, Marguerite Duras, Jean Luc Lagarce, Paul Claudel, Ibsen, Marivaux, Broch, Molière, Shakespeare, entre outros.
Quanto ao escritor, Jean-Marie Piemme (Valónia, 1944) estudou literatura na Universidade de Liège e teatro no Instituto de Estudos Teatrais em Paris. Dramaturgo no Ensemble Théâtrale Mobile, colabora em seguida com o Théâtre Varia, de Bruxelas. Entre 1983 e 1988, integra a equipa de Gérard Mortier na Ópera Nacional da Bélgica. A sua primeira peça é de 1986 (“Neige en Décembre”). Seguiram-se mais de trinta textos de teatro, representados na Bélgica e no estrangeiro. Este texto que agora conhecemos, “Dialogue d’un Chien avec son Maître sur la Nécessité de Mordre ses Amis” (Diálogo de um Cão com o seu Dono Sobre a Necessidade de Morder os seus Amigos) é um notável exercício que consegue prender a atenção do público sem uma quebra, apenas com dois actores no palco. Uma revelação que se saúda.

segunda-feira, julho 06, 2009

FESTIVAL DE TEATRO DE ALMADA, 2

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“VIEIRA DA SILVA PAR ELLE MÊME”,
de Maria José Paschoal

“Vieira da Silva par Elle Même” esteve em cena no Museu Vieira da Silva em Lisboa. Recolheu boas referências, mas na altura passou-me. Ainda bem que Almada o recuperou depois da sua intérprete (e autora da ideia do texto, encenadora, cenógrafa e figurinista) Maria José Paschoal ter conquistado o Globo de Ouro para Melhor Actriz de Teatro na edição de 2009.
Maria José Paschoal estreou-se como actriz, em 1981, em “Casamento Branco”, de Tadeus Rozewicz, no Teatro Aberto. Entre 1986 e 1993, no Teatro da Graça, participou em peças de autores como Fassbinder, Tennessee Williams, Edward Bond, Edward Albee, Turgueniev, A. Galine, Tchecov e Gorki. Recentemente, no TMA, interpretou o papel de D. Francisca de Aragão em “Que Farei com este Livro?”, de José Saramago, com encenação de Joaquim Benite. Com “Vieira da Silva par Elle Même” assume como mulher de sete ofícios, mas confirma-se sobretudo como excelente actriz.
Apaixonada por Vieira da Silva, concebeu um espectáculo de uma hora que recorre apenas às palavras da pintora Maria Helena Vieira da Silva, expressas em entrevistas concedidas a diversos jornalistas ao longo da sua carreira. São reflexões sobre a vida e a arte, confidências e episódios auto-biográficos que Maria José Paschoal cerze com agilidade e desenvoltura, e vai desenrolando num cenário pobre, com adereços parcos, mas que ilumina com a força do seu talento de actriz. Ficamos facilmente colados às palavras, mas sobretudo fascinados pela sensibilidade e a delicada finura da voz da actriz, a reviver o pulsar de uma existência dedicada à pintura. Esquece-se a grisalha cabeleira, um pouco amadora na sua execução, perante o fulgor das palavras e o (discreto mas seguro) brilho de quem as profere.
Assim se demonstra que, quando o talento existe, a ausência de meios pode ser sentida, mas não é impeditiva de uma boa performance.

FESTIVAL DE TEATRO DE ALMADA, 1

:
AS CRIADAS, de Jean Genet
Abriu mais uma edição do magnífico Festival de Teatro de Almada (desta feita na sua 26ª edição), com uma encenação de Luc Bondy, da célebre peça de Jean Genet, “As Criadas”, numa produção da Volksbühne (em co-produção com Wiener Festwochen). Explique-se antes de mais que a Volksbühne am Rosa-Luxemburg-Platz é não só um espaço teatral, como uma companhia e uma escola de teatro. “Construído entre 1913 e 1914, o edifício da Volksbühne – literalmente: “teatro do povo”, situado na praça Rosa-Luxemburgo – veio responder aos anseios da associação Freie Volksbühne (Teatro do Povo Livre), a qual procurava, desde 1890, um espaço onde se praticasse um teatro pedagógico, mas de qualidade, para as classes trabalhadoras.”
A Volksbühne situa-se em Berlim Leste, no território alemão que até 1989 era conhecido por República Democrática Alemã. Foi sempre uma companhia de vanguarda, de teatro político, tendo sido dirigida por homens como Max Reinhardt ou Erwin Piscator, alguns dos nomes maiores do teatro alemão do século XX. Nos anos 70, Benno Besson, discípulo de Bertolt Brecht, marcou o seu rumo, mas desde 1992 é Frank Castorf, um encenador nascido em 1951, que a dirige e a transformou “numa das companhias mais inovadoras das artes performativas de hoje, atitude reflectida na atenção dada à música rock e pop e ao novo cinema e, ainda, na abertura à desconstrução assumida pela performance (inaugura mesmo uma nova sala em Berlim – o Prater –, extensão acentuadamente experimental da Volksbühne).”
“Les Bonnes”, editada em 1947, tem sido uma obra particularmente motivadora de encenações polémicas. Em Portugal, ficou lendária a ritualista encenação de Victor Garcia, apresentada em 1972, no Teatro Experimental de Cascais, com Eunice Muñoz, Glicínia Quartin e Lurdes Norberto. Trata-se de uma óbvia e metafórica abordagem da luta de classes, colocando Genet em cena duas criadas e uma “senhora” que exacerbam situações de interdependência classista. As criadas, na ausência da patroa, mimam o comportamento desta, desenvolvendo uma complexa relação de amor-ódio, que acaba por resultar numa tentativa de assassinato e/ou suicídio, que leva o espectador a interrogar-se sobre o que finalmente agita o mais íntimo de cada um de nós, na sua relação com o outro.
Uma leitura mais redutora poderá falar essencialmente da subterrânea luta do senhor e do escravo, numa sociedade estratificada em classes, mas esta versão de Luc Bondy é muito mais complexa, levando o caso do campo estritamente político para o psicanalítico, cruzando luta de classes com sexualidade, bondage, atracção e repulsa, e outras perspectivas. As criadas são irmãs, ambas afrontam a patroa, ambas se amam e se confrontam entre si, ambas se abraçam e chocam, ambas dominam e são dominadas. Com sofrimento e prazer, também.
Esta produção estreou em Junho de 2008, no Festival de Viena, com interpretações excepcionais de Edith Clever (Madame), Caroline Peters (Claire) e Sophie Rois (Solange). Edith Clever já a conhecia de filmes de Syberberg (de quem foi mulher), é uma das grandes divas do palco e do cinema alemães. Caroline Peters e Sophie Róis, não as conhecia e são duas admiráveis actrizes que povoam o drama de energia, ternura, vigor, ódio, amor, sensualidade durante duas intensas horas de representação fulgurante. Deve dizer-se que a cenografia de Bert Neumann é notável; muito bons e eficazes os figurinos de Tabea Braun; brilhante (e essencial à atmosfera criada) o desenho de luz de Dominique Bruguère. A encenação de Luc Bondy é particularmente interessante em vários aspectos. É de uma eficácia total, rigorosa, inventiva, intimamente brutal, mas irónica, sem procurar nunca chamar gratuitamente a atenção para qualquer efeito. Entrega o palco às actrizes e ao texto, e serve aquelas e este de forma exemplar. Um espectáculo perfeito, que ficará na memória dos espectadores, como ficou, no ano passado, a encenação de Peter Zadek, de Peer Gynt, pelo fantástico Berliner Ensemble.

sexta-feira, julho 03, 2009

MÉRITO MUNICPAL EM SEIA


SEIA ATRIBUI MEDALHAS
DE MÉRITO MUNICIPAL

Medalhas de Mérito Municipal atribuidas pela Câmara Municipal no dia 3 de Julho de 2009, Feriado Municipal, cuja cerimónia solene decorrerá a partir das 14:30 H no cineteatro da Casa Municipal da Cultura de Seia:

Mérito Cultural
Centro Cultural “Os Serranos”
Edgar Alexandre da Mota Veiga Dolgner (LICRASE)
Gracinda Silva Rodrigues (Conservatório Música)
José Camacho Costa (título póstumo) (Cine'Eco)
Lauro António de Carvalho Torres Corado (Cine'Eco)

Maria Helena Pais de Abreu (Pintora)
Sérgio Pinto Miranda (Rancho F. Seia)

Mérito e Dedicação
António Júlio Vaz Saraiva
Carlos João Teodoro Tomás
José Pinto Mendes
Manuel Teixeira Plácido
Pe. Francisco Borges de Assunção (título póstumo)
Pe. Joaquim Teixeira

Mérito Empresarial
Alberto Trindade Martinho
Ana Filipa Osório Mayer de Carvalho Sacadura Botte
António Simão Cardoso
Cândido Abrantes da Silva
Jorge Manuel Saraiva Camelo
Luís Filipe Mendes Coelho
Paulo Alexandre Duque Santos
Vítor Manuel Costa Caetano

Mérito Desportivo
Paulo Jorge da Silva Abrantes Fontes (título póstumo)


Citado, com a devida vénia, do blogue seia portugal, de Mário Jorge Branquinho

quinta-feira, julho 02, 2009

CINEMA: LIGAÇÕES PERIGOSAS

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LIGAÇÕES PERIGOSAS
“Ligações Perigosas”, de Kevin Macdonald, adapta uma mini série inglesa da BBC, com seis horas de duração, a filme americano de 127 minutos. Esta adaptação só por si já diz algo sobre a obra. Ou seja, a base conspirativa em que assenta tanto pode acontecer, presentemente, em Inglaterra como nos EUA (e, alargando a metáfora, pode situar-se em qualquer lugar deste mundo). A “conspiração” está na ordem do dia, as “ligações perigosas” entre a política e o mundo financeiro, os interesses económicos das guerras e as empresas privadas, a comunicação social e o serviço público, tudo isto anda ligado, e de que maneira!
O cinema norte-americano desde sempre tem dedicado grande interesse ao universo da comunicação social, quer seja os jornais mais tradicionais, a rádio ou a televisão. “State Of Play” é apenas mais um caso, mas não deixa de ser um caso sintomático a vários níveis, o que torna o filme particularmente interessante. Interessante de um ponto de vista político, reportando-se ainda aos tempos de Bush, mas interessante igualmente em termos de actualidade jornalística. Comecemos por uma ponta desta intrincada meada: Cal McAffrey (Russell Crowe) é jornalista sénior num importante diário de Washington. É amigo pessoal há longos anos de Stephen Collings (Ben Affleck), um congressista norte-americano que nessa altura se encontra à frente de um inquérito sobre uma empresa paramilitar privada que foi contratada pelo estado para intervir no Iraque e no Afeganistão. E que tem lucrado de forma escandalosa com o negócio.
O filme começa por um “fait divers” que parece não ter nada de muito especial a sublinhá-lo: um suposto ajuste de contas entre traficantes de droga culmina com o assassinato de um deles. Horas mais tarde, porém, a principal colaboradora de Stephen Collings (e sua amante, sabe-se depois) é encontrada morta, num possível acidente de Metro. Mas, o que aparentemente se julga não ter qualquer relação entre si, acaba por se mostrar muito mais estranho, quando o jornalista inicia investigações e descobre pontos de convergência inesperados.
Cal McAffrey é o centro desta reportagem escaldante, tendo a seu lado uma jovem colaboradora, Della Frye, que abastece “on line” o blogue do jornal. Altura para a investigação jornalística sobre política, meios militares e empresariais e capital se cruzarem com a situação actual do jornalismo. O jornal está ameaçado de falência, os blogues são os mais procurados pelo público leitor, Cal tem uma visão da blogosfera nada optimista, Dale é um produto de uma nova era e de tempos diferentes, e a editora chefe, Cameron Lynne (Helen Mirren), está sobretudo preocupada com a sobrevivência do periódico, agora sob a alçada de uma nova administração que exige resultados, ou seja mais leitores, e portanto uma nova linha editorial, possivelmente menos rigorosa, mas mais lucrativa. Dê-se ao leitor aquilo que ele quer: escândalos e vítimas servidos a quente. No fundo, tudo se liga de uma maneira profunda e muito clara, ainda que tudo se faça para que a mesma não seja transparente: o capital domina política, guerras e meios de comunicação. Como estamos na América, arauto da democracia e das liberdades individuais, o filme mostra as virtudes do sistema, que apesar de corrupto como qualquer outro, oferece as vantagens de tudo poder ser discutido e investigado e de a verdade vir sempre ao de cima. Será esta a realidade? Há casos que apontam para a resposta positiva, outros não, Watergate é um exemplo, mas quantos não ficaram na sombra? Conhecem, no entanto, melhor sistema? Eu não. Por isso vou comprando como saudáveis estas denúncias possíveis em terra de liberdades mais ou menos asseguradas.
Cal é persistente e teimoso, não olha a amizades e interesses instalados, vai furando de reviravolta em reviravolta até chegar a uma verdade final que demonstra bem como se fazem os negócios e alguma politica. Nos EUA, na Rússia, na China, na Índia ou em Portugal. Não tenhamos ilusões. Faz parte da condição humana e não serão programas para implementar um “homem novo” que vão modificar essa condição. Ela não irá mudar, está provado, apenas poderá ser mais e melhor controlada, prevenindo uns casos e castigando com 150 anos de prisão outros.
Há, sempre houve e haverá, heróis incorruptíveis que levam a sua perseverança e obstinação até ao limite. Cal é um exemplo desse jornalismo de causas que tende cada vez mais a ser raridade fóssil e que é assim mesmo descrito (veja-se como Cal se veste, como (des)organiza o seu espaço na redacção do jornal, como reage às novidades que acha perigosas, mas como se converte, quando descobre as suas potencialidades). Dale é um produto novo, hesitante de início, mas que aceita aprender as regras do veterano e a ele se associa, por admiração pessoal, mas porque ambos são feitos da mesma massa. O que instila uma aragem de esperança na geração blogue que, com outras armas, promete continuar a mesma luta.
Mas o filme é mais interessante e importante ainda porque mostra como se devem continuar a impor regras na comunicação social (se calhar cada vez mais necessárias!), como se deve ser sempre mais exigente, como não se pode acusar levianamente, como só se deve publicar o que está provado com dados, como por vezes se é obrigado a perder a oportunidade de uma edição de venda certa, recusando noticiar um facto não confirmado. Esta ética do jornalista, que se descobre vilipendiada por todo o lado, em nome do lucro dos meios, e do triunfo pessoal de quem destapa o furo (de quem mesmo às vezes inventa o furo, para depois dele se poder servir), esta ética deontológica é bem matizada na película de Kevin Macdonald, que aproveita um excelente naipe de actores, jogando bem com ambientes e atmosfera habilidosamente reconstituídos, num ritmo de narrativa que impõe o acelerar do “thriller”, mas não abafa à sua cadência a exploração dos meandros por onde passa.
Kevin Macdonald era já conhecido por três outros títulos interessantes, “O Último Rei da Escócia”, “Touching The Void - Uma História de Sobrevivência” e o documentário “Terror em Setembro”, todos eles interventivos politicamente e liberais nos seus contornos. Em “Ligações Perigosas” mostra-se um cineasta a seguir com atenção.
LIGAÇÕES PERIGOSAS
Título original: State of Play
Realização: Kevin Macdonald (EUA, Inglaterra, França, 2009); Argumento: Matthew Michael Carnahan, Tony Gilroy, Billy Ray, segundo série de televisão escrita por Paul Abbott; Produção: Paul Abbott, Tim Bevan, Liza Chasin, Eric Fellner, Andrew Hauptman, Eric Hayes, Debra Hayward, Kwame Parker, E. Bennett Walsh; Música: Alex Heffes; Fotografia (cor): Rodrigo Prieto; Montagem: Justine Wright; Casting: Avy Kaufman; Design de produção: Mark Friedberg; Direcção artística: Richard L. Johnson, Adam Stockhausen; Decoração: Cheryl Carasik; Guarda-roupa: Jacqueline West; Maquilhagem: Sandy Andrle, Felicity Bowring, Sherri Bramlett, John Caglione Jr., Rhonda O'Neal; Direcção de Produção: Paul Abbott, Robert Huberman, Kwame Parker; Assistentes de realização: Timothy Blockburger, Doug Coleman, Carlos De La Torre, Frank Ferro, Scott Foster, Alfonso Gomez-Rejon, Gary Marcus, Dawn Massaro, Kurt Uebersax; Departamento de arte: Doreen Austria, Susan A. Burig, Noelle King, William J. Law III, Jeff Ozimek; Som: Craig Berkey, Skip Lievsay; Efeitos especiais: Martin Bresin, Phaedra Eason, Jeremy Hays, Jonathan Kombrinck; Efeitos visuais: Tim T. Cunningham, Bob Mercier; Companhias de produção: Andell Entertainment, Bevan-Fellner, Relativity Media, Studio Canal, Universal Pictures, Working Title Films; Intérpretes: Russell Crowe (Cal McAffrey), Ben Affleck (Stephen Collins), Rachel McAdams (Della Frye), Helen Mirren (Cameron Lynne), Robin Wright Penn (Anne Collins), Jason Bateman (Dominic Foy), Jeff Daniels (George Fergus), Michael Berresse (Robert Bingham), Harry Lennix (Det. Donald Bell), Josh Mostel (Pete), Michael Weston (Hank), Barry Shabaka Henley (Gene Stavitz), Viola Davis (Dr. Judith Franklin), David Harbour, Sarah Lord, Tuck Milligan, Steve Park, Brennan Brown, Maria Thayer, Wendy Makkena, Zoe Lister Jones, Michael Jace, Rob Benedict, LaDell Preston, Dan Brown, Katy Mixon, Shane Edelman, Maurice Burnice Harcum, Cornell Womack, Nat Benchley, Gregg Binkley, Trula M. Marcus, Carolyn Barrett, Wil Love, John Badila, Brigid Cleary, Joy Spears, Brandi Oglesby, Stacey Walker, R.B. Brenner, Lucía Navarro, Chris Matthews, Lou Dobbs, James Vance III, Sharon Dugan, Noel Werking, Rose Coleman, etc. Duração: 127 minutos; Distribuição em Portugal: ZON Lusomundo; Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal: 18 de Junho de 2009.