quinta-feira, abril 02, 2009

NA CASA FERNANDO PESSOA




CLARICE LISPECTOR E O CINEMA

Para abordar o tema “Clarice Lispector e o Cinema” vou ater-me essencialmente a duas obras desta escritora: “Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres” (1969) e “A Hora da Estrela” (1977). As razões são diversas. Primeiro, não conheço toda a obra de Clarice Lispector e entre os títulos que melhor conheço estão estes dois, que reli agora; segundo, ambos me parecem paradigmáticos de dois aspectos fulcrais desta relação da obra de Lispector com o cinema. Uma relação de contaminação intensa e de dificuldade extrema na passagem de uma narrativa para outra.
Coisa singular: encontro a escrita de Clarice Lispector muito influenciada pelo cinema e vejo uma dificuldade quase total em verter a escrita de Clarice Lispector em cinema. Acho “Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres” uma obra muito cinematográfica. Revejo “A Hora da Estrela” num belíssimo filme de Suzana Amaral (1985) e não encontro nele senão resquícios do romance de Clarice Lispector.
Vamos então por partes, resumindo muito o essencial: literatura e cinema possuem duas estruturas narrativas diferentes. Adaptar um romance ao cinema não é ilustrá-lo, mas sim recriá-lo. Em princípio, quando se adapta uma obra literária, na base dessa adaptação está uma opção que quase sempre se reconhece numa escolha por admiração e identificação: o realizador admira e identifica-se com a obra que adapta, fazendo-a sua. Há algumas outras razões para adaptações deste tipo, mas as mais vulgares são estas.
Quando adaptei ao cinema “Manhã Submersa”, de Vergílio Ferreira, as razões foram essas: admiração pela obra, identificação com o seu espírito, com o tom da escrita, com o sentir e as intenções do autor.
Tal como quem ergue um argumento de cinema partindo de factos reais, o argumentista de cinema faz da obra que adapta uma realidade pré-existente que molda segundo a sua leitura, a sua perspectiva, o seu sentir, o seu olhar. A obra escrita organiza-se de uma determinada forma, a cinematográfica irá obedecer a uma outra arquitectura. Os signos são diferentes, a ordem por que se estruturam obedece a regras diversas. Será necessário controlar duas escritas, não copiar uma na outra, mas reinventar uma na outra. Se se quiser ser fiel à primeira. Mas fidelidade aqui não é nunca mimetismo. Muito pelo contrário: muitas vezes, quando mais livre é uma da outra, melhor serão os resultados, para se atingirem metas semelhantes.
Ao adaptar um romance ao cinema, muitas vezes há que cortar, deslocar, condensar, inventar. O que é dito por palavras num romance pode não aparecer ilustrado tal e qual numa situação visual, mas sim num pequeno apontamento recriado numa nova ordem. Uma descrição de muitas palavras pode ser sugerida numa pequena imagem. Pelo contrário, uma palavra ou uma frase podem necessitar de uma sequência no cinema.
Há quem procure recuperar um estilo, há quem desista do estilo do original, que não é o seu, e imponha este sobre o do autor que adapta. Há quem agarre num romance de trezentas páginas, e escolha vinte para repovoar num outro universo, o do cineasta. Há quem pegue numa obra anónima e insípida e a transforme numa obra-prima de cinema, e quem destrua um marco da literatura numa xaropada audiovisual sem ponta por onde se pegue. Há momentos de felicidade e inspiração que prolongam em imagens magníficas palavras inesquecíveis. Cada um de nós se lembrará de exemplos que elucidem o que atrás tento descrever. Nestas áreas de contaminação artística tudo é possível. Literatura, cinema, teatro, artes plásticas, música, arquitectura interpenetram-se sem fronteiras, sobretudo desde meados do século passado, quando essa tendência da especificidade das linguagens deu origem a uma miscigenação que tudo admite e muitas vezes instiga.
Reli há dias um dos romances de Clarice Lispector que mais me fascina: “Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres”. Peguei nele e iniciei a leitura sem relembrar o ano da sua escrita. Deliberadamente. Li cada página e à medida que as páginas se iam somando, deu-se uma curiosa sensação que se foi cimentando. Recordei “O Último Ano em Marienbad”, de Resnais, vieram-me à lembrança romances e filmes de Marguerite Duras e Alain Robbe-Grillet (sobretudo de Marguerite Duras), não esquecia Antonioni, de “A Noite”, “A Aventura”, “O Eclipse” ou “Deserto Vermelho”.
Acabada a leitura, fui confrontar datas. O romance era de 1969, os filmes quase todos anteriores. Nada me garante que Clarice Lispector os tivesse visto, mas tenho quase a certeza que sim, ela que era uma cosmopolita que viajava entre Nova Iorque e a casa no Leme, passava por Itália, Suíça, Paris e pela Polónia.
O neo-realismo da primeira fase dos anos 40 tinha dado origem a outros realismos, e sobretudo a uma arte algo desiludida com a identificação directa com os problemas sociais e com ideologias que propunham “homens novos” que afinal nada tinham de novo.
Clarice Lispector é ainda mal vista por aqueles que não tinham abandonado esses ditames, exigia-se-lhe um ingénuo comprometimento com a realidade política e social, e ela sentia uma literatura nova, mais livre, nem por isso menos angustiada. Não errarei muito se a pressentir admiradora de Simone de Beauvoir e de uma certa ideia do existencialismo, e sobretudo muito próxima do “nouveau roman”. Não errarei nada se a vir ligada a movimentos de libertação da mulher, mas movimentos profundos e enraizados em sólidas convicções e sentires.
Lendo “Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres”, a influência do cinema que então se fazia na Europa é-me mais que evidente. Sobretudo ao nível da estrutura da linguagem, a ruptura com o romanesco tradicional, o prazer na utilização da palavra, o ritmo da frase, a repetição, a melopeia, a criação de um clima de uma sensualidade extrema pela voluptuosa exaltação da palavra. “A palavra é o meu domínio sobre o muno”, dirá. Mas se a influência da Europa parece evidente, o espírito do Brasil, de um certo Brasil nordestino, mas também carioca, nunca deixa de ser a terra fértil sobre que assenta toda a estrutura da obra de Clarice.
Nascida na Ucrânia, mas brasileira por formação, a escrita de Lispector é moderna, vanguardista, antecede e acompanha a explosão do Cinema Novo, mas nunca deixa de ser original, sinceramente pessoal e intransmissível, única, cosmopolita, nordestina, urbana e europeia, numa palavra: universal.
Que o diga “Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres”. A estória quase não existe.
Lóri mora num apartamento de Ipanema. Veio de Campos, de família rica, mas escolheu a solidão e o ordenado de professora primária. Uma vida adiada, como tantas em Lispector. Adepta de cartomante, respeitadora de Deus, encontra Ulisses, professor de filosofia numa faculdade. Homem paciente, que sabia dominar o desejo e ensinava a Lóri o prazer da aprendizagem. Encontram-se raramente, ela tem dúvidas sobre si e os outros, sobre assumir ou não, umas quantas vezes falam ao telefone, até ao dia em que a aprendizagem parece estar pronta. Aprender por si própria a “ser eu”, a viver, a ter prazer na vida. E no amor. E na dor.
Estranho romance este, que começa com uma vírgula e termina em dois pontos. Uma vida toda pela frente, é certo. E a descoberta do amor.
Em Clarice Lispector o essencial é a palavra e o prazer em manuseá-la. Mas também os conceitos, cada frase uma máxima a merecer reflexão e citação. Aqui relembra-me a nossa Agustina, na escrita solta e livre, no gosto pelos aforismos, e sobretudo em algo em que ambas são únicas: este tipo de literatura facilmente pode cair na snobeira e na arrogância, mas Lispector “escreve simples”, escreve enxuto e sem efeitos, escreve na linguagem coloquial de todos os dias, apenas a estrutura das suas obras é complexa, mas de uma complexidade que sentimos brotar directamente das entranhas desta escritora aristocrática no porte, distante no discurso, de cintilante olhar de raposa, grega no perfil, que transmite uma inteligência fulgurante e uma sensibilidade vulcânica envoltas numa serenidade majestática que impressiona quem a vê.
Basta olhar a entrevista que concedeu em 1977, pouco tempo antes da sua morte, à TV Cultura. Todos os filmes que vi retirados de obras de Clarice Lispector, não lhe fazem justiça, ainda que quase todos, curtas e longas metragens, me parecem merecer destaque especial, havendo mesmo um, “A Hora da Estrela”, de Suzana Amaral, de 1985, que se aproxima muito da obra-prima. Mas, sendo um filme excelente, uma das obras mais marcante da história do cinema brasileiro, “não é” toda a Clarice Lispector, é uma intriga idealizada por Clarice Lispector e recriada de forma brilhante por uma outra personalidade que a trabalha cinematograficamente de forma diversa.
Creio, porém, que adaptar Clarice Lispector ao cinema, mantendo os valores estruturais da sua criação literária, é (quase) impossível. A construção das suas obras é labiríntica e mantém um diálogo quase permanente entre a escritora, as personagens e o leitor. Este desdobrar de campos narrativos ou de níveis expositivos não facilita a adaptação.
Atentemos no caso de “A Hora da Estrela”. Antes de mais, assinale-se a presença de uma personagem-narrador, escritor, homem, que todavia se identifica obviamente com Clarice Lispector-escritora, que inventa treze títulos para a mesma obra. Treze títulos poderia representar apenas um efeito, mais ou menos gratuito, uma “private joke”, mas na realidade não o é: são treze enfoques diversos, complementares, uma forma de mostrar que o que se vai ler tem múltiplas leituras. O que é verdade.
O narrador, “eu, Rodrigo S. M.” (na verdade Clarice Lispector, anuncia a escritora na dedicatória da obra), afirma: “Proponho-me a que não seja complexo o que escreverei, embora obrigado a usar as palavras que vos sustentam. A história – determino com falso livre arbítrio – vai ter uns sete personagens e eu sou um dos mais importantes deles, é claro.”
A assim será: o narrador não só relata a história das desventuras de Macabéa, uma nordestina no Rio de Janeiro, como vai muito mais longe: fala de si próprio, do ofício de escritor, comenta a acção que descreve, distancia-a ou aproxima-a do leitor, dirige-se a este, enfim, cria uma teia de observações que o torna omnipresente e omnisciente.
Ele é o escritor que comanda a estória e a faz evoluir no sentido que pretende, mas é simultaneamente o autor que se anula, ao anunciar-se enquanto tal. Ao tornar claro o processo criativo.
O romance é assim uma obra de um complexidade extrema, que o leitor tem de acompanhar com uma invulgar atenção, para saber sempre – se é que o consegue – qual o nível da narrativa, se a descrição da estória, se o seu comentário irónico, se a auto-avaliação do escritor, se Nordeste, se Rio, se a ingenuidade de Macabéa é dela só, se retrato de um Brasil que migra e se suicida, se a dor de dentes de Macabéa é fingida para arrolar um dia de folga ou se corresponde às aspirinas que toma para controlar esse mal estar geral que vem de dentro de si, inlocalizável. “Não se trata apenas de narrativa, é antes de tudo vida primária que respira, respira, respira”, volto a citar Rodrigo S. M.
Esta proposta do narrador foi por completo (e deliberadamente) ignorada por Suzana Amaral, que abandonou o relato na primeira pessoa do singular e optou por um relato desde sempre na terceira pessoa do singular, contando, é certo de forma austera e rigorosa, a vida de Macabéa. Mas este desdobrar de olhares, esta invectiva ao leitor, este desenrolar de textos sobre textos, esta metalinguagem perde-se e, no entanto, é um dos pontos essenciais deste romance.
Curiosamente, o romance sofre obviamente forte influência da montagem cinematográfica, com os seus contínuos “flashbacks”, que alternam passado e presente, que recusam a ordem linear da narrativa.
Escrito como vimos em 1977, “A Hora da Estrela”, último romance de Clarice Lispector é simultaneamente a despedida da escritora, que morre pouco depois. Macabéa é um retrato fragmentado de uma mulher, uma alagoana órfã, que vive só, depois da morte dos pais, depois de ter sido criada por uma tia despótica que lhe batia na cabeça e lhe arranjou um lugar de dactilógrafa, que executa mal, por um ordenado abaixo do ordenado mínimo, que a leva a comer cachorro quente e Coca Cola a todas as refeições.
Ouve a Rádio Relógio que lhe fornece anúncios, informações horárias e pequenas efemérides culturais. É virgem, sente um calor pecaminoso pelo corpo, acha a vida bela, mas pressente a morte, não sabe quem é e por que vive (pergunta-se mesmo que é “ser eu”?), tem um olhar de princípio de mundo e um destino traçado na ponta da estrela de um Mercedes Benz. Quer ser artista de cinema, acha que Marilyn é cor-de-rosa e esta história “é escrita na hora mesma em que é lida, como explica Rodrigo, isto é Clarice Lispector. Uma história de vida adiada e de morte anunciada.
"Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens", diz Rodrigo. Por isso se identifica com Macabéa, e com ela morre.
Muito de todo este novelo ficcional se perde no filme. Resta a vida de Macabéa, descrita de uma forma linear, num estilo discreto, seco, com um lirismo forte, mas contido, sem floreados de qualquer espécie. Aí sim, Suzana Amaral respeita o tom de Clarice Lispector, sustenta a ironia, aprofunda a psicologia das personagens, mantém as obsessões temáticas da escritora: o retrato da mulher e da sua condição num mundo dominado pelo homem, o mistério da vida e da morte, a busca do amor e a descoberta da sexualidade, a inocência ofendida no seu confronto com uma realidade social inóspita, o diálogo com o desconhecido, a religião (e a cartomancia), sobretudo a procura do significado do “eu”.
Macabéa, que tem 19 anos, nunca teve namorado ou homem dito seu. Cruza-se com Olímpico de Jesus Moreira Chaves, "metalúrgico", e não “operário”, vindo da Paraiba, onde deixou para trás o cadáver de quem se lhe opôs.
Ele chama-a de “senhorinha” e convida-a a dar um passeio. Diz ser forte e muito inteligente e ter um destino a cumprir, ser talvez deputado. Adorava ver sangue, e sonha ser toureiro. Detesta ser encostado à parede, e tem sempre resposta pronta para o que não sabe: “Na Rádio Relógio disseram uma palavra que achei meio esquisita: “mimetismo”, fala Macabéa. Ao que Olímpico contrapõe: “Isso é lá coisa para moça virgem falar?”
O namoro termina rápido quando Glória, a companheira de escritório, moça sabida, frequentadora de cartomante, se interpõe entre os dois. Macabéa, que não sabe revoltar-se e pede desculpa de todas as ofensas de que é vítima, parece ultrapassar a tristeza que sente, vai também ela à cartomante, que lhe troca as voltas e lhe inventa um príncipe encantado que será afinal o seu matador. “Grávida de um futuro” que não terá, é atropelada por um carro na sua “Hora da Estrela”. “Hoje, pensa ela, hoje é o primeiro dia de minha vida: nasci.” É na morte que se assume “eu”: “Eu sou, eu sou, eu sou, eu sou”.
Tal como Clarice Lispector, ela afirma: “Eu vou ter tanta saudade de mim, quando morrer.”
Tendo na sua obra tanto das estruturas cinematográficas, nunca encontrou no cinema (até hoje) réplica da complexidade dessa construção literária. Muito embora, num registo diverso, Suzana Amaral, inspirando-se na “Hora da Estrela”, tenha concebido um filme admirável, que restitui muito das personagens, situações e clima do romance. Mas neste inesgotável universo da contaminação das linguagens o que está certo ou o que está errado?
Fica a certeza de que o romance de Clarice Lispector é um torrencial rio de leituras plurais e o filme de Suzana Amaral é outro perfeito objecto artístico de novas interpretações.
E fica ainda uma última convicção: a de que a obra de Clarice Lispector não deixará de justificar novas aproximações da parte de cineastas apaixonados pela sua criação inesgotável e pelo seu talento que ninguém conseguirá aprisionar ou conter.
Lauro António, Lisboa, Casa Fernando Pessoa, 2 de Abril de 2009.
FILMES RETIRADOS DE OBRAS DE CLARICE LISPECTOR OU SOBRE A ESCRITORA:

PERTO DE CLARICE
Título original: Perto de Clarice
Realização: João Carlos Horta (Brasil, 1982); curta-metragem.

A ESTRELA NUA
Título original: A Estrela Nua
Realização: José Antonio Garcia, Ícaro Martins (Brasil, 1984); Argumento: José Antonio Garcia, Ícaro Martins, segundo história de Clarice Lispector; Produção: Ary Fernandes, Adone Fragano; Música: Arrigo Barnabé; Fotografia (cor): Antonio Meliande; Montagem: Eder Mazzini; Design de produção: Oswaldo Afonso Mesquita Filho; Guarda-roupa: Emilia Duncan; Maquilhagem: Vavá Torres; Direcção de Produção: Geraldo José Martinho Filho; Assistente de realização: Paulo José Correa; Companhias de produção: Olymbus Filmes; Intérpretes: Cristina Aché, Patricio Bisso, Carla Camurati, Selma Egrei, José Antonio Garcia, Ícaro Martins, Jardel Mello, Cida Moreira, Ricardo Petráglia, Vera Zimmerman, etc. Duração: 90 minutos.

A HORA DA ESTRELA
Título original: A Hora da Estrela
Realização: Suzana Amaral (Brasil, 1985); Argumento: Suzana Amaral, Alfredo Oroz, segundo romance de Clarice Lispector; Produção: Assunção Hernandes; Música: Marcus Vinícius; Fotografia (cor): Edgar Moura; Montagem: Idê Lacreta; Design de produção: Clovis Bueno; Guarda-roupa: Mauricio Kawamura; Maquilhagem: Maria Antonia Lombardi; Direcção de Produção: Eliane Bandeira; Assistente de realização: Sylvia Bahiense; Departamento de arte: João Paulo Schlittler; Efeitos especiais: Paulo Schettino; Companhias de produção: Raíz Produções Cinematográficas; Intérpretes: Marcélia Cartaxo (Macabéa), José Dumont (Olímpico de Jesus), Tamara Taxman (Glória), Fernanda Montenegro (Madame Carlota (a macumbeira), Manoel Luiz Aranha (fotógrafo), Marli Botoletto (assistente de Macumba), Denoy de Oliveira (Pereira), Maria Do Carmo Soares (Maria do Carmo), Walter Filho (homem no Mercedes), Sonia Guedes (Mrs. Joana), Umberto Magnani (Seu Raimundo), Miro Martinez (cego), Euricio Martins (guarda do Metro), Raymundo Matos (Arnaldo), Dirce Militello (Mãe de Glória), Lizete Negreiros (Maria), Cláudia Rezende (Maria de Penha), Rubens Rollo (pai de Gloria), etc. Duração: 96 minutos.

BRASILIÁRIOS
Título original: Brasiliários
Realização: Sérgio Bazzi, Zuleica Porto (Brasil, 1986); Duração: 16 minutos.

O CORPO
Título original: O Corpo
Realização: José Antonio Garcia (Brasil, 1991); Argumento: José Antonio Garcia, segundo obra de Clarice Lispector; Produção: Adone Fragano, Anibal Massaini Neto; Música: Arrigo Barnabé, Paulo Barnabé; Fotografia (cor): Antonio Meliande; Montagem: Eder Mazzini, Danilo Tadeu; Direcção artística: Felipe Crescenti; Guarda-roupa: Luiz Fernando Pereira; Direcção de Produção Sara Silveira; Assistentes de realização: Ana Arantes, Alexandre de Oliveira; Som: Tide Borges, Lia Camargo; Coreografia: Lennie Dale; Companhias de produção: Cinearte Produções Cinematográficas, Olympus Filmes; Intérpretes: Antônio Fagundes (Xavier), Marieta Severo (Carmem), Cláudia Jimenez (Bia), Sérgio Mamberti (chefe da polícia), Carla Camurati (Monique), Maria Alice Vergueiro (mulher do chefe de polícia), Ricardo Pettine, Lala Deheinzelin, Arrigo Barnabé, Guilherme de Almeida Prado, Daniel Filho, Carlos Reichenbach, etc. Duração: 80 minutos.

CHAMADA FINAL
Título original: Chamada Final ou Final Call
Realização: Ana Maria Magalhães (Brasil, Alemanha, China e EUA, 1994); Argumento inspirado no conto “A língua do P.”, do livro “A Via Crucis do Corpo”;”Intérpretes: Claudia Ohana, Guilherme Leme, etc. Episódio de média-metragem integrado no filme “Erotique”. Outros realizadores: Lizzie Borden (episódio "Let's Talk About Love"), Clara Law (episódio "Wonton Soup") e Monika Treut (episódio "Taboo Parlor").

RUÍDO DE PASSOS
Título original: Ruído de Passos
Realização: Denise Tavares Gonçalves (Brasil, 1995); Argumento segundo o conto homónimo, do livro “A Via Crucis do Corpo”; curta-metragem. Duração: 11 minutos.

CLANDESTINA FELICIDADE
Título original: Clandestina Felicidade
Realização: Beto Normal e Marcelo Gomes (Brasil, 1998 - curta metragem que trata da infância da autora); Intérpretes: Luisa Phebo.

MACABÉIA
Título original: Macabéia
Realização: Erly VieiraJr., Lizandro Nunes e Virgínia Jorge (Brasil, 2000 -curta-metragem).

AEROPORTO EM O EMBARQUE
Título original: Aeroporto em o embarque
Realização: Nicole Algranti (Brasil, 2002 - curta-metragem); Intérpretes: Marcélia Cartaxo.

INFINITIVAMENTE GUIOMAR NOVAES
Título original: Infinitivamente Guiomar Novaes
Realização: Norma Bengell (Brasil, 2003); Argumento: Anna Akhmatova, Clarice Lispector; Intérpretes: Norma Bengell, Lauro Machado Coelho, José Antônio de Almeida Prado, Sônia Goulart, Gilbert Matté, Guiomar Novaes, Maria Stella Orsini, Roberto Tibiriçá, etc.; Companhias de produção: RioCine; Duração: 40 minutos.

O OVO
Título original: O Ovo
Realização: Nicole Algranti (Brasil, 2003); Argumento: Luiz Carlos Lacerda, Segundo conto de Clarice Lispector; Produção: Nicole Algranti, Pedro Maranhão; Música: Marcelo S. Petraglia; Fotografia (cor): Araken Dourado; Montagem: Lucas Margutti; Direcção artística: Marcella Morizot; Guarda-roupa: Fernanda Lomonaco; Som: Pedro Sá Earp, Juliano Zanoni; Companhias de produção: Fora do Eixo Filmes, Taboca Filmes; Intérpretes: Maria Bethânia (narrador), Carla Camurati, Louise Cardoso, Chico Díaz, Karla Martins, Rodney Pereira, Cláudio Perotto, Lucélia Santos, etc. Duração: 11 min

O MISTÉRIO SEGUNDO CLARICE LISPECTOR
Título original: O Mistério Segundo Clarice Lispector
Realização: Patrícia Lino (Portugal, 2008); Argumento: Patrícia Lino; Música: Caetano Veloso – “Clarice”; Fotografia (cor) : Patrícia Lina; Montagem: Patrícia Lino; Som: Patrícia Lino; Intérpretes: Andreia Oliveira, Cristina Felgueiras, Dinis Leitão, Edson Basílio, Henrique Monteiro, Hugo Lima, Patrícia Lino, Tayna Borges, Tiago Lino, Tiago Sousa Garcia. Duração: 5 minutos.

OBRAS PARA TELEVISÃO:

FELIZ ANIVERSÁRIO, Rede Globo, 1978

ESPECIAL CLARICE LISPECTOR - TV Cultura, 1999
Inclui a entrevista concedida por Clarice Lispector a Júlio Lerner, em 1977.

A HORA DA ESTRELA, Rede Globo, 2003

CLARICE LISPECTOR NO TEATRO:

PERTO DO CORAÇÃO SELVAGEM (1965)
Encenação: Fauzi Arap; Intérpretes: Glauce Rocha, José Wilker e outros

UM SOPRO DE VIDA (1979)
Encenação: José Possi Neto; Intérpretes: Marilena Ansaldi.

A HORA DA ESTRELA (1984)
Encenação: Naum Alves de Souza; Intérpretes: Maria Bethânia.

A PAIXÃO SEGUNDO G. H. (1989)
Encenação: Cibele Forjaz; Intérpretes: Marilena Ansaldi.

A PECADORA QUEIMADA E OS ANJOS HARMONIOSOS (1992)
Encenação: José Antônio Garcia; Intérpretes: Sérgio Mambertti e outros.

A MULHER QUE MATOU OS PEIXES (1994)
Encenação: Lúcia Coelho; Intérpretes: Zezé Polessa.

A MULHER QUE MATOU OS PEIXES (1998)
Adaptação: Adriane Azenha.

A HORA DA ESTRELA (1998)
Encenação: Roberto Vignatti; Intérpretes: Alexandra Tavares.

QUE MISTÉRIOS TEM CLARICE? (1998)
Encenação: Luiz Arthur Nunes; Intérpretes: Rita Elmôr (monólogo)

CLARICE - CORAÇÃO SELVAGEM (1998)
Encenação: Maria Lucya de Lima; Intérpretes: Aracy Balabanian.

QUASE DE VERDADE (2001)
Encenação: Ulisses Cohn; Intérpretes: Cia. Delas de Teatro

A HORA DA ESTRELA (2001)
Encenação: Marcus Vinicius Faustini; Intérpretes: Marcélia Cartaxo e outros.

A DESCOBERTA DO MUNDO (2001)
Encenação: Marco Antonio Rodrigues; Intérpretes: Cia. Delas de Teatro

A HORA DA ESTRELA (2002)
Encenação: Naum Alves de Souza; Intérpretes: Célia Borbes, Ester Lacava e Edgar Jordão.

A PAIXÃO SEGUNDO G. H. (2002)
Adaptação: Fauzi Arap.
Encenação: Enrique Diaz; Intérpretes: Mariana Lima.

AMOR - UMA ODE AO UNIVERSO FEMININO DE CLARICE LISPECTOR (2002)
Adaptação: Marta Baião e Conceição Acioli.
Encenação: Conceição Acioli; Intérpretes: Marta Baião.

ÁGUA VIVA (2003)
Encenação: Maria Pia Scognamiglio; Intérpretes: Susana Vieira.

ENCONTRO COM CLARICE (2003)
Encenação: Ítalo Rossi; Intérpretes: Ester Jablonski

QUE MISTÉRIOS TEM CLARICE (2008)
Encenação e interpretação: Rita Elmôr.

LEITURAS:

CLARICE LISPECTOR - Áudio (1998)
Selecção de contos feita por Paulinho Lima. Interpretação: Aracy Balabanian; Luz da Cidade, colecção Poesia Falada.

DOZE LENDAS BRASILEIRAS - Clarice Lispector (V. 1) (2000)
Ideia e produção de Paulinho Lima; Luz da Cidade.

CLARICE LISPECTOR - A MULHER QUE MATOU OS PEIXES (V. 4) (2000)
Ideia e produção de Paulinho Lima; Luz da Cidade.

A DESCOBERTA DO MUNDO (2002)
Selecção de crónicas feita por Teresa Montero, interpretação: Aracy Balabanian; Luz da Cidade, Coleção Os cronistas.

LA PASSION SELON G. H. (sem data)
Gravação de trechos do romance “A Paixão segundo G. H.” pela actriz Anouk Aimée; Des Femmes, Paris.

LIENS DE FAMILLE (sem data)
Gravação de contos do livro “Laços de Família” por Chiara Mastroianni; Des Femmes, Paris.

quarta-feira, abril 01, 2009

O SOPRO EXTINGUIU-SE

:
A carne começa a ser roída por dentro, a pele cola-se aos ossos, os olhos encovam-se por detrás de uma pálpebras corridas pelo cansaço, a respiração é ofegante, mas tímida, os dias vão passando e sente-se um sopro de vida preso, enjaulado num corpo já cadáver. A morte caminha, pressente-se, hoje está pior que ontem, há dias ainda dormia na cama e via televisão no cadeirão. Depois passou a pernoitar de dia na cama almofadada que as enfermeiras lhe vão colocando dos lados para não ferir a pele amarelecida. Toco-lhe na mão e sinto ainda um leve apertar de tendões. Tenta abrir os olhos, procura dizer o que lhe vai no coração. Faz um esforço para entreabrir os olhos. Hoje nem isso, à tarde. À noite, voava sabe-se lá para onde. Vestiram-na com o “vestido de ver a Deus”, que ela escolhera, negro e abotoado até cima, jaz na cama onde passou os últimos dias, mãos sobrepostas sobre o corpo, olhos fechados, um lenço a amparar-lhe a boca. Havia ainda há minutos um sopro de vida neste corpo. Que mistério é este que faz da matéria uma força desconhecida e que, num ápice, a devolve às cinzas? Que força é essa, Tia Ivone?

CLARICE LISPECTOR EM ENCONTRO

:

Hoje e amanhã, a Casa Fernando Pessoa recebe o Colóquio Clarice Lispector (1920-1977). Conferências, debates, leituras, uma peça de teatro, visionamento de filmes, a apresentação da fotobiografia de Clarice, e uma exposição/instalação dedicada à autora de "Perto do Coração Selvagem" preenchem o programa que segue abaixo. Todas as actividades têm entrada gratuita.
PROGRAMA
1 de Abril
9h30: Recepção
10h00: Abertura
10h30: Conferência: “Clarice Lispector: da biografia à fotobiografia”
Profª Nádia Battella Gotlib – Universidade de São Paulo –USP
11h15: Debate
11h30: Conferência: “Clarice Revisitada
Profº Carlos Mendes de Sousa – Universidade do Minho
12h15: Debate
12h30: Abertura da Exposição de Fotografias de Clarice e Lançamento do
Livro: “Clarice: Fotobiografia”, de autoria da Profª Nádia Battella
Gotlib
13h30: Pausa para almoço
15h00: Conferência: “Com uma fixidez reverberada de cego: visão e
distorção em Clarice Lispector”
Profª Clara Rowland – Universidade de Lisboa
16h15: Debate
16h30: Conferência: “Impossível Explicar”
Francisco José Viegas – Jornalista e Escritor
17h15: Debate
18h00: Peça Teatral: “Que mistérios tem Clarice” , Rita Elmôr
2 de Abril
10h00: Leitores de Clarice:
Maria Antónia Fiadeiro
Ana Paula Tavares
Patrícia Lino
Depoimento de Paulo Gurgel Valente por Lauro Moreira
11h00: Debate
11h15: Pausa para café
11h30: Leituras de Clarice:
Inês Pedrosa
Cristina Elias
Vasco Durão
Lauro Moreira
13h00: Pausa para almoço
14h30: Palestra: “Clarice no Cinema”, cineasta Lauro António
15h00: Exibição de curta-metragens extraídos da obra de Clarice Lispector
16h00: Pausa para café
16h15: CINEMA: Exibição de “A hora da Estrela”, de Suzana Amaral
18h00: Encerramento

domingo, março 29, 2009

PORTUGAL-SUÉCIA

:
Mas o que é isto? pergunta o melhor do mundo

PARA O LADO E PARA TRÁS
O ADEUS AO MUNDIAL

O que se deve retirar deste 0-0 do Portugal-Suécia?
Que Portugal está afastado do Campeonato do Mundo da África do Sul?
Para mim essa era uma realidade desde o empate com a Albânia. Para nós o Campeonato vai ser visto pela TV, no sofá, sem a excitação de lá termos os nossos melhores do mundo. Não é ser pessimista, é ser realista. Entrámos num dos grupos mais acessíveis do apuramento europeu, e o resultado, ao fim de cinco jogos, são os mesmos pontos que a Albânia.
Mas há que retirar lições.
Com a Suécia jogámos bem?
Sim, jogámos bem, aquele jogo que faz que anda mas não anda, que me faz sempre lembrar o primeiro Indiana Jones, aquele duelo entre o mestre do chicote que o esgrimia sabiamente, mas que o Indiana arruma com um tiro único de revólver. Estilo, danças bem, mas não me encantas. Lembrou-me também os malfadados jogos do Sporting-Bayern, o Sporting a triangular e a lateralizar e os alemães a marcarem. Cada tiro, cada melro.
Ontem, os Suecos podiam ter ganho. Bastava terem tido sorte num daqueles contra-ataques venenosos.
As equipas portuguesas não sabem jogar contra o pragmatismo de outras selecções ou equipas de clubes. Somos mestres no para trás e para o lado, mas rematar certeiro é coisa que nos atrapalha muito. Falta convicção. Os avançados parecem aterrorizados na hora decisiva. Remato? E se falho? O melhor é lateralizar.
Depois, é claro que a minha selecção era outra. Deixar de início o Deco e o Nani no banco a mim espanta-me. Não é que os que jogaram, o tenham feito mal. O meio campo esteve bem, a fazer o que sabe: para trás e para o lado. Mas o Meireles a rematar, meu Deus! O que se necessitava era poder de fogo, e o que se viu foram “bichas de rabiar”.
Porque foi eficaz Scolari? Porque os jogadores portugueses são dos melhores do mundo em técnica, mas dos mais fracos psicologicamente. Não aguentam pressão, precisam de quem os instigue. Scolari não devia fazer grandes treinos técnico-tácticos. Usava mais a psicologia, porque é um temperamento forte e emocional. Pôs os portugueses (quase) todos com as bandeiras nas janelas e deu uma outra alma ao conjunto.
Carlos Queirós não é deste campeonato por muito que o admire. O seu trabalho nas camadas jovens foi óptimo, mas são coisas muito diferentes. Nos jovens é necessário discipliná-los tacticamente e desenvolver a técnica. Mas não é isso que precisam os “melhores do mundo” da selecção sénior. Não precisam de um pai, mas de um devoto de Nossa Senhora do Caravaggio.
É a perspectiva espiritual, a crença que nos falta. A certeza de rematar para o golo, a convicção de que não é necessário “lateralizar” e ter “muita paciência”.
Nós, os espectadores, é que temos de ter paciência para este jogo que não leva a nada. O futebol, claro que tem de ser bonito, mas bonito e eficaz foram os jogos do Bayern. Ter técnica e dar toques de calcanhar é bom numa peladinha entre amigos. O importante é pôr a técnica, a velocidade ao serviço da eficácia. Um, dois toques, abrir em profundidade para o extremo, centrar e fuzilar a baliza. A BALIZA!. Não o espaço aéreo. E fuzilar é rematar forte e colocado, não aqueles passes ao guarda-redes que ontem se viram.
Enfim, vamos ver o campeonato no sofá, via TV, e sem sombra de excitação. A torcer pelo Brasil? Claro. Por Angola? Claro. Ou pela Albânia?

quarta-feira, março 25, 2009

A LUA NO CINEMA


"Viagens à Lua e outras extravagâncias cinematográficas, românticas ou não"
- Lauro António -
no Clube Literário do Porto

Hoje, dia 26 de Março, pelas 21h30, o Clube Literário do Porto recebe Lauro António para uma conferência em torno do tema da Lua no Cinema, intitulada "Viagens à Lua e outras extravagâncias cinematográficas, românticas ou não".
(como podem ver pelo cartaz, a data foi alterada para 26 de Março)

Texto da Apresentação:
VIAGENS À LUA E OUTRAS EXCENTRICIDADES CINEMATOGRÁFICAS, ROMÂNTICAS OU NÃO

Vamos então falar da Lua no cinema. Tema vastíssimo. Logo desde o aparecimento do cinema, os realizadores passaram a andar com a Lua no pensamento (e nas imagens) ou não fosse a Lua fonte de inegável inspiração. Devo dizer aliás que foi com o cinema que começámos a ter as primeiras imagens reais e concretas da Lua, ainda que muitos anos antes vários escritores tivessem imaginado a Lua em palavras e outros tantos artistas plásticos a tenham tentado explorar em imagens sonhadas. Mas o cinema, mesmo inventando, “mostrou a Lua”, como o fez George Méliès, com “Viagem à Lua” (Le Voayge dans la Lune”), em 1902.
Se há várias perspectivas por que analisar este tema, “A Lua no Cinema”, a primeira e a mais óbvia será mesmo a da ficção científica, ou da ciência propriamente dita, reflectidas ambas nos ecrãs de muitas cinematografias. Na tradição de Herbert George Wells e Jules Verne "De la Terre à la Lune" (1865), o cinema, como fábrica de sonhos e do maravilhoso, do fantástico e do terror, tratou logo de inventar viagens extraterrestres, muitas delas à Lua, o satélite da Terra, o astro que mais perto se encontra de nós. Depois de Méliès, houve o alemão Fritz Lang, com “Uma Mulher na Lua” (Frau im Mond), em 1929, a que se seguiram obras para todos os gostos e com todas as intenções, de puro entretenimento ou de projecção politica, como muitas das que se realizaram na década de 50, durante o apogeu da guerra fria e do machartismo. Cite-se “Destination Moon”, de Irving Pichel (EUA, 1953) ou “First Men in the Moon”, de Nathan Juran (1964). Estamos no domínio da pura ficção científica, ainda que a corrida espacial entre os EUA e a União Soviética, que decorreu entre os anos de 1957 e 1975, durante a guerra-fria, tenha aberto o espaço (e aberto o espaço) a outras projecções, agora mais científicas.
Depois do fim da II Guerra Mundial, tanto os EUA como a URSS disputaram cientistas alemães (que tinham trabalhado na concepção do foguete V-2), entre os quais Wernher von Braun, que participou activamente do programa de mísseis balísticos dos EUA e depois dos primeiros passos do programa espacial norte-americano (tendo sido, inclusive, o chefe da equipa que projectou o lançador Saturno V que levou as naves Apollo para a Lua).
Foi a Rússia que se antecipou com o lançamento do satélite artificial Sputnik no dia 4 de Outubro de 1957, que partiu do Cosmódromo de Baikonur (base de lançamento de foguetes da URSS), em Tyuratam, no Cazaquistão. Foi o início da competição com os EUA e a preparação da chegada do Homem à Lua.
A 3 de Novembro de 1957 no Sputnik II, a cadela Laika é lançada no espaço. Quatro meses após o lançamento do Sputnik I, os EUA responderam com o seu primeiro satélite, o Explorer I, em 31 de Janeiro de 1958.
Pouco depois, Yuri Gagarin (1934-1968), em 12 de Abril de 1961, faz um voo orbital, de 48 minutos, a bordo da nave Vostok I. Neste voo, Gagarin, como bom materialista, disse uma frase que ficou célebre: "A Terra é azul, e eu não vi Deus". Já muito anos antes, outro explorador dissera algo semelhante: "A Igreja diz que a Terra é achatada, mas sei que ela é redonda, porque vi a sombra dela na Lua, e acredito mais numa sombra do que na igreja." - Fernão de Magalhães.
E povoa-se assim o céu de naves e satélites. Em Julho de 1958 é criada a agência espacial dos EUA, a NASA, responsável por coordenar todo o esforço de exploração espacial e administrar o programa espacial dos EUA. Em 1961, John F. Kennedy lançou o desafio de "enviar homens à Lua e retorná-los a salvo" antes que a década terminasse.
“We choose to go to the Moon. We choose to go to the Moon in this decade and do the other things, not because they are easy, but because they are hard” ("Nós decidimos ir a Lua. Nós decidimos ir à Lua nesta década e fazer as outras coisas, não porque elas são fáceis, mas porque elas são difíceis").
E assim foi: os EUA conseguiram atingir a Lua antes da URSS, com a missão Apollo 11, que pousou na superfície lunar em 20 de Julho de 1969, num local chamado "Sea of Tranquility" (Mar da Tranquilidade). Neil Armstrong e Edwin Aldrin tornaram-se os primeiros homens a caminhar no solo lunar. O primeiro disse: “Um pequeno passo para o Homem, um grande passo para a Humanidade”.
Vi pela televisão, emocionado, Neil Armstrong a descer da nave e hesitar a colocar o pé no terreno arenoso que o esperava. Vi os primeiros passos. Vi a colocação da bandeira dos EUA esvoaçando numa aragem que não devia existir e que deu origem a farta polémica. Ouvi depois os velhos do Restelo duvidarem do que viram, “encenação de Hollywood”, como lhe chamaram. A Televisão tinha-se apoderado da Lua. Mais tarde, em 1993, Ron Howard iria disputar os Óscars com “Apollo 13”, baseado numa história verdadeira, a trágica aventura do “Apollo 13”. Da ficção científica passava-se ao relato quase documental de uma viagem à Lua.
Um cientista, Isaac Asimov, lamentava: “A Terra retrocedeu. A Humanidade retrocedeu em todos os lados, excepto na Lua.” Um pessimista diria, com clarividência: “De nada serve ao homem conquistar a Lua se acaba por perder a Terra” - François Mauriac. Não sei se se perdia a Terra, mas perdia-se a gloriosa imagem de uma Lua inacessível que fora fonte de inspiração para apaixonados que se amavam furtivamente à luz ténue da Lua, para poetas do amor e do inatingível, para escritores das emoções lunares.
Oscar Wilde já o tinha previsto, simbolicamente: “Um sonhador é aquele que só ao luar descobre o seu caminho e que, como punição, apercebe a aurora antes dos outros.” Aí estava a aurora da Lua, agora fonte de experiências científicas, à vista de todos, em directo pela televisão, quando até aí fora musa misteriosa para insondáveis paixões.
O que nos leva à segunda vertente desta sucinta aproximação do tema “A Lua no Cinema”.
“O amor é como a Lua: quando cresce diminui” - Paul Valéry. Não sei se será verdade, os escritores também se enganam, mas o amor anda de mãos dadas com a Lua. Nos cartazes de filmes românticos, muitas vezes encontramos a Lua como elemento referencial do amor e desse mesmo romantismo. “Oh Lua que vais tão alta…” não é apenas uma referência jocosa é muito mais do que isso. A Lua que vai tão alta é uma meta inacessível, uma alusão ao impossível que o amor concretiza ou não nesta terrena existência. Por isso os filmes com referência à Lua são aos milhares. (ainda bem que não me coube falar da Lua na Poesia!).
No Motor de Buscas do IMDB, coloquei a palavra Moon para títulos de filmes e logo me aparecerem 838 menções, a maioria das quais a obras de cariz sentimental, com as mais variadas valências. Filmes de amor e desamor, filmes que se afirmam pela positiva, que anunciam feitos temerários, projectos cumpridos, arrojos para lá do previsível. Obras que demonstram que se pode atingir a Lua, ou que quem “vive na Lua” nada consegue, o que demonstra que a Lua pode ser sim e não, positiva e negativa, aspiração e rejeição, mas sempre feminina. Um filme de Zeffirelli a isso nos conduz: “Fratello Sole, Sorella Luna” (Itália, 1972). O Sol como elemento masculino, a Lua como pólo feminino.
Sendo a Lua feminina “andar na Lua” deverá ser um passeio deveras agradável. Por isso se chama “Lua-de-Mel” a esse período de (quase sempre) inequívoca felicidade. Há um escritor catalão, Noel Clarasó, que o refere com alguma ironia: “Sem dúvida, o período mais feliz do casamento é a Lua-de-mel; o problema é que, para poder repeti-la, devem acontecer coisas muito desagradáveis.”
O mesmo autor vai mais longe na ironia: “Antes do matrimónio ele fala e ela escuta; durante a Lua-de-mel ambos falam e escutam; mais tarde, ela fala e ele não escuta; finalmente gritam os dois e escutam os vizinhos.” A Lua-de-mel é excelente, mas dura pouco. “Lua de Mel, Lua de Fel” (Bitter Moon), de Roman Polanski, parece responder à questão.
Mas deixando de lado a questão Lua-de-mel, o cinema arquiva muitos outros títulos onde a Lua ocupa destacado lugar de fortes conotações emocionais: “Lua de Papel” (Paper Moon), de Peter Bogdnanovich (EUA, 1973), “Shoot the Moon”, de Alan Parker (EUA, 1982), “O Feitiço da Lua” (Moonstruck), de Norman Jevison (EUA, 1987), “Racing with the Moon”, de Richard Benjamin (EUA, 1984), “The Raging Moon”, de Bryan Forbes (Inglaterra, 1971), “Blue Moon”, de John A. Gallagher (EUA, 2000), “Moon over Parador”, de Paul Mazursky (EUA, 1988), “Onde Night the Moon”, de Rachel Perkins (EUA, 2001) “Mountains of the Moon”, de Bob Rafelson (EUA, 1990) e tantos e tantos outros títulos.
Temos estado no domínio do filme anglo-saxónico, mas há exemplos em todas as latitudes e línguas. Franceses, “La Lune dans le Caniveau”, de Jean-Jacques Beineix (1983), “Les Nuits de la Pleine Lune”, de Eric Rohmer (1984), “Les Favoris de la Lune”, do russo Otar Iosseliani (1984), “Black Moon, de Louis Malle (1975); em Itália: Le Voce della Luna, de Federico Fellini (1990), La Luna, de Bernardo Bertollucci (1979), In Una Notte di Chiaro di Luna, de Lina Wertmuller (1989), ou comédias como “Veneza, a Lua e Tu” (Venezia, la Luna e Tu), de Dino Risi (1951), musicais como “Tintarella di Luna”, de Gaspar Noé (1985), encontrando-se mesmo em autores neo realistas, como Luciano Emmer, em “Il Conte di Luna” (1948).
Em Espanha desde o académico Luís César Amadori, com “Claro di Luna” (1942), até aos vanguardistas Bigas Luna (“La Teta i la Lluna”, 1994) ou Imanol Uribe (“La Luna Negra”, 1989), passando pela “Luna”, de Alejandro Amenabar, de 1995, muitos se deixam contagiar. Na China há um dos mais belos filmes de sempre, “Os Contos da Lua Vaga”, de Mizoguchi. Não há muito, de uma das recentes repúblicas saídas da ex-URSS, vimos “Luna Papa”, de Bakhtyar Khodojnazarov (1999).
“Palavras sobre a guerra, de pessoas que estiveram numa guerra, são sempre interessantes; palavras sobre a Lua, de um poeta que nunca esteve na Lua, têm toda a probabilidade de serem enfadonhas”, disse Mark Twain, mas muitos dos filmes realizados sob o signo da Lua são particularmente interessantes. Ainda que não sejam única e simplesmente obras de ficção científica ou prantos amorosos.
Há comédias “Um Rato na Lua” (A Mouse on the Moon), do britânico Richard Lester (1963), há westerns, como “By the Light of the Silver Moon”, de David Butler (1953), há operas rock, “The Rite of Luna: a Rock Opera”, de Melissa Holm e Jon Sevell, há mesmo soft cores, como “Nude on the Moon”, de Raymond Phelan e Doris Wishman (EUA, 1961), que deslustram um pouco a imagem inocente e cândida da Lua tradicional. Mas até os cineastas mais alternativos e experimentalistas, como Kenneth Anger, não fogem ao feitiço, por exemplo em “Rabbit’s Moon” (1950).
Nem todas as obras de teor romântico provocam, todavia, finais felizes. Muitas há que abordando temas de cariz sentimental, é certo, por vezes até melodramático, terminam na frustração. Como diz Fernando Pessoa: “O que é doença é desejar com igual intensidade o que é preciso e o que é desejável, e sofrer por não ser perfeito como se se sofresse por não ter pão. O mal romântico é este: é querer a Lua como se houvesse maneira de a obter.”
Mas há os românticos empedernidos, para quem a felicidade vem de dentro de si e o olhar da mulher amada, para quem nem Sol, nem Lua conseguem interferir: "A partir desse momento, o sol, a Lua e as estrelas podem continuar a brilhar, sem que eu dê por isso. Já não sei se é dia ou noite; o universo inteiro já não existe mim.", assim escreve Johann Wolfgang von Goethe, em "Os Sofrimentos do Jovem Werther".

Terceira vertente da Lua no cinema: o fantástico. “Cada um de nós é uma Lua e tem um lado escuro que nunca mostra a ninguém”. Cito de novo Mark Twain. Na verdade assim é, e o cinema tem-no demonstrado bem. A Lua tem duas faces, o homem, qualquer homem, qualquer mulher tem sempre algo encoberto, o lado obscuro, secreto, o outro lado que não se vê, que não se expõe tão facilmente à vista de todos. O invisível, o indizível. Muitas vezes o pecaminoso.
O fantástico expressa-o de forma simbólica, com uma força telúrica, por vezes ameaçadora, por vezes sedutora. É Drácula que de noite sai da sua cripta onde hiberna para mostrar os seus sensuais caninos que penetram pescoços inocentes e desejados. Os maiores cineastas da história do cinema cultivaram este erotismo brutal ou esse desejo envolvente que leva as vítimas a entregarem-se à volúpia desse beijo sangrento. Dreyer, Murnau, Tod Browning, Terence Fisher, Coppola, Abel Ferrara e dezenas de outros percorreram os caminhos desses seres nocturnos.
Mas se Drácula e todos os outros vampiros são seres da noite, apenas iluminados pela Lua, o Lobisomem acorda, revela-se, em noites de Lua Cheia e o Médico e o Monstro (Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde, de Robert Louis Stevenson) desdobra-se entre o que há de mais nobre e o que há de mais perverso na condição humana, ambos por obra e graça da Lua ou na noite. Tal como intervém poderosamente na natureza e nas marés, a Lua interfere obviamente no comportamento do homem, despertando nele a ternura romântica que dissimula o desejo, ou os instintos mais primitivos que, nesse caso, podem ou não camuflar o amor. Mistérios que a Lua põe a descoberto, mas não esclarece. Esse o lado mais simpático e fascinante deste único satélite natural da Terra que se situa a uma distância de cerca de 340.000 km do nosso planeta, e que é um substantivo, proveniente do latim “luna”.
Termine-se com um poeta: “É noite. A Lua, ardente e terna, Verte na solidão sombria A sua imensa, a sua eterna Melancolia... / Dormem as sombras na alameda Ao longo do ermo Piabanha. / E dele um ruído vem de seda Que se amarfanha... - Manuel Bandeira
Ou de um escritor português, Nobel, aqui bem inspirado: “"Além da conversa das mulheres, são os sonhos que seguram o mundo na sua órbita. Mas são também os sonhos que lhe fazem uma coroa de luas, por isso o céu é o resplendor que há dentro da cabeça dos homens, se não é a cabeça dos homens o próprio e único céu" - José Saramago.

Lauro António, Porto, 26 de Março de 2009

segunda-feira, março 23, 2009

OS PRÉMIOS DO FAMAFEST

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FAMAFEST 2009
XI FESTIVAL INTERNACIONAL DE CINEMA E VÍDEO DE FAMALICÃO – CINEMA E LITERATURA

ACTA DO JÚRI INTERNACIONAL


Aos dias 20 do mês de Março de 2009, às 23h e 40m, o Júri Internacional do 11º Festival Internacional de Cinema e Vídeo de Famalicão – FAMAFEST 2009 presidido por Laura Soveral e composto por Uxia Blanco Iglésias, actriz (Espanha, Galiza), Ibrahim Spahic, director do Festival de Inverno de Sarajevo (Bósnia e Herzegovina), Suzana Borges, actriz (Portugal) João Pereira Bastos, musicólogo (Portugal) António Colaço, sociólogo (Portugal), Anxo Santomil, realizador e director de CinemasDixitais (Espanha, Galiza) e Fernando Dacosta, escritor (Portugal) decidiu atribuir os seguintes prémios:
- PRÉMIO DE CRIAÇÃO JOVEM
“Cântico Negro”, de Hélder Magalhães (Portugal), por maioria;
- PRÉMIO BIOGRAFIA/DOCUMENTÁRIO
“Mestre-Cantor de Wagner, Siegfried de Hitler – A vida e o Tempo de Max Lorenz”, de Eric Schulz e Claus Wisemann (Alemanha), por unanimidade;
- PRÉMIO DE ADAPTAÇÃO DE OBRA LITERÁRIA
“12 = Amo-te”, de Connie Walther (Alemanha), por unanimidade;
- GRANDE PRÉMIO FAMAFEST 2009/LUSOFONIA
“Fernando Lopes Graça”, de Graça Castanheira (Portugal), por maioria;
- GRANDE PRÉMIO FAMAFEST 2009 (Câmara Municipal de Famalicão)
“O Clube da Calceta”, de Antón Dobao (Espanha, Galiza), por unanimidade.

ACTA DO JÚRI DA JUVENTUDE

No dia vinte de Março, do ano de 2009, pelas vinte e duas horas, em Vila Nova de Famalicão, o Júri da Juventude do XI Festival Internacional de Cinema e Vídeo de Famalicão – Cinema e Literatura, constituído por Ana Regina Abreu, Andreia Silva, Isabel Figueiredo, Catherine Boutaud, Cátia Ferreira, Cláudia Almeida, Joana Mendes, Silvana Fontes, Vanessa Pelerigo reuniu-se para decidir o grande vencedor do Festival, tendo em consideração a importância dos seguintes critérios:
I. Adaptações de Obras Literárias – relação pungente entre cinema e literatura;
II. Biografias e Documentários sobre temas literários – abordando e esmiuçando a complexidade entre os diferentes formatos;
III. Adaptações de obras literárias para crianças e jovens – alertando para a importância da cultura e da cinematografia em particular no público mais jovem.
Por ter o júri considerado que algumas das obras apresentadas revelaram séria qualidade e inovação no panorama cinematográfico, decidiu-se, por unanimidade, atribuir menções honrosas, nomeadamente:
- Melhor curta-metragem - Hélder Magalhães, com “Cântico Negro”, pela simplicidade e coragem demonstrada entre os meios utilizados e a magnificência da imagem aliada à beleza da poesia de José Régio.
- Melhor documentário –Esther Hoffenberg, com “Discorama, Signé Glaser” por ter feito um excurso fabuloso por toda la chanson française, através da hábil capacidade de comunicação de Denise Glaser.
Grande Prémio do Júri da Juventude - Após reunião, decidiu-se atribuir, por maioria, o grande prémio do Júri da Juventude a “La Reine Morte” (“The Dead Queen”), do realizador Pierre Boutron, exibido no Domingo, 15 de Março, por revelar, com o seu argumento, a força do sentir e a pureza do amor, ao longo da História. Esse vence até a morte.


NOTICIAS NA COMUNICAÇÃO SOCIAL

O filme "O Club da Calceta", do realizador galego Antón Dobao, foi o grande vencedor do Famafest` 2009 - Festival Internacional de Cinema e Vídeo de Famalicão, que terminou domingo, anunciou hoje fonte da organização.
O filme, que resulta da adaptação ao cinema da novela homónima de María Reimóndez, constitui "uma profunda reflexão sobre a condição feminina" e reuniu a unanimidade do júri do festival, composto pelas actrizes Laura Soveral e Suzana Borges (Portugal), Uxia Blanco (Galiza), o realizador e director de "Cinemas Digitais" da Galiza, Anxo Santomil, o director do Festival de Inverno da Bósnia, Ibrahim Spacic, o musicólogo João Pereira Bastos, o sociólogo António Colaço e o escritor Fernando Dacosta.
O júri decidiu galardoar com o Grande Prémio da Lusofonia Manoel de Oliveira a película "Fernando Lopes Graça", de Graça Castanheira, de produção nacional.
O filme "12 Means: I Love You", da alemã Connie Walther, recebeu o prémio de Adaptação de Obra Literária.
O Prémio Biografia/Documentário foi para outra obra alemã, "Wagner`s Mastersinger Hitler`s Siegfried", de Eric Schulz e Claus Wisemann.
O Prémio Criação Jovem ficou em casa, tendo sido entregue ao jovem realizador famalicense Hélder Magalhães, pelo filme "Cântico Negro".
A concurso estiveram mais de 30 filmes oriundos de países como a Itália, Canadá, Alemanha, Bulgária, EUA, Áustria e Espanha, sendo, no entanto, a grande maioria proveniente de França e Portugal. Quase três centenas de títulos se inscreveram, donde resultou a pré selecção que foi exibida publicamente.
O director do FamaFest 2009, Lauro António fez um balanço "muito positivo" do festival, salientando que durante os nove dias do evento cerca de 16 mil pessoas assistiram às sessões programadas. O festival decorreu nos dois auditórios da Casa das Artes, centro do evento, e nos auditórios da Biblioteca Municipal Camilo Castelo Branco e do Centro de Estudos Camilianos, em S. Miguel de Seide.
O Famafest`2009 homenageou ainda a carreira de diversas personalidades da cultura portuguesa, com a atribuição do galardão Pena de Camilo. Neste âmbito, referência para as homenagens às actrizes Laura Soveral e Suzana Borges e aos escritores Mário Cláudio e Urbano Tavares Rodrigues e ainda ao actor e encenador de teatro, Luís Miguel Cintra.

domingo, março 15, 2009

FAMAFEST 2009


PROGRAMAÇÃO SALA A SALA
Domingo, Dia 15 de Março de 2009
CASA DAS ARTES * GRANDE AUDITÓRIO

10,00 - ANIMAÇÃO: “Madagascar 2” (Madagascar: Escape 2 Africa), de Eric Darnell, Tom McGrath (EUA, 2008); 89’; M/ 6 anos.
15,00 - DA PALAVRA À IMAGEM: “O Estranho Caso de Benjamin Button” (The Curious Case of Benjamin Button), de David Fincher (EUA, 2008); com Brad Pitt, Cate Blanchett, Julia Ormond, Tilda Swinton, Taraji P. Henson, etc. 166’; M/ 12 anos.
18,00 - DA PALAVRA À IMAGEM: “Destruir Depois de Ler” (Burn After Reading), de Ethan Coen, Joel Coen (EUA, Inglaterra, França, 2008); com George Clooney, Frances McDormand, John Malkovich, Tilda Swinton, Brad Pitt, Richard Jenkins etc. 96’: M/ 12 anos.
21,30 - DA PALAVRA À IMAGEM: “O Estranho Caso de Benjamin Button” (The Curious Case of Benjamin Button), de David Fincher (EUA, 2008); com Brad Pitt, Cate Blanchett, Julia Ormond, Tilda Swinton, Taraji P. Henson, etc. 166’; M/ 12 anos.
24,00 - DA PALAVRA À IMAGEM: “Este País não é para Velhos” (No Country for Old Men), de Ethan Coen, Joel Coen (EUA, 2007); com Tommy Lee Jones, Javier Bardem, Josh Brolin, Woody Harrelson, etc. 122´; M/18 anos.

CASA DAS ARTES * PEQUENO AUDITÓRIO
10,00 - ANIMAÇÃO: 80 ANOS DE TINTIM: “A Ilha Negra” (L'Ile Noire) (1990) 45’; “O Ceptro de Ottokar” (Sceptre d' Ottokar) (1990) 45’.
15,00 - CONCURSO: “Little White Wires”, de Massimo Amici (Itália, Canadá) 7’; “O Adeus à Brisa”, de Posidónio Cachapa (Portugal) 55’; “Levantado do Chão”, de Alberto Serra (Portugal) 50’.
18,00 - CONCURSO: “L'Affaire Kravchenko”, de Bernard Gorge (França) 52’; “Discorama, Signé Glaser”, de Esther Hoffenbere (França ) 67’.
21,30 - CONCURSO: “Cântico Negro”, de Hélder Magalhães (Portugal) 7’; “La Reine Morte”, de Pierre Boutron (França, Portugal) 90’.
24,00 - HOMENAGEM A EDGAR ALLAN POE: “The Tell-Tale Heart”, de Jules Dassin (EUA, 1941) 20’ (V.O. leg. português); “House of Usher”, de Roger Corman (EUA, 1960) 76’ (V.O. inglesa, leg. francês).

BIBLIOTECA MUNICIPAL * AUDITÓRIO

10,00 - ANIMAÇÃO: 80 ANOS DE TINTIM: “Objectivo Lua” (Objectif Lune) (1991) 45’; “Pisando a Lua” (On a Marche sur la Lune) (1991) 45’.
15,00 - HOMENAGEM A EDGAR ALLAN POE: “Two Evil Eyes”, de George Romero e Dario Argento 120’ (EUA, Itália, 1990) (V.O. inglesa).
18,00 - HOMENAGEM A EDGAR ALLAN POE: “The Raven” (O Corvo), de Ulli Lommel (EUA, 2006) 81’ (V.O. inglesa. leg. português).

CASA DE CAMILO, SEIDE * AUDITÓRIO
10,00 - ANIMAÇÃO: Wall•E, de Andrew Stanton (EUA, 2008); com Ben Burtt, Elissa Knight, Jeff Garlin, Fred Willard, MacInTalk, Sigourney Weaver, etc. Animação; 98’; M/ 6 anos.
18,00 - MACHADO DE ASSIS NO CINEMA: “Memórias Póstumas” (2001), de André Klotzel.

sexta-feira, março 13, 2009

VAI COMEÇAR...

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FAMAFEST 2009
Apresentação

A XI edição do Famafest, Festival de Cinema e Vídeo de Famalicão, como sempre dedicado às relações entre “Cinema e Literatura” arranca com uma programação invulgarmente importante e diversificada, procurando não só colmatar graves lacunas cinematográficas e culturais, como ainda impor-se como um dos mais significativos certames a nível nacional e internacional. Cerca de três centenas de obras inscritas, das quais mais de três dezenas foram seleccionadas a concurso, com origem em diversos países do mundo (particularmente significativas as presenças portuguesa e francesa), estreia de novos realizadores (inclusive revelações famalicenses, que o Famafest ajudou a fazer despontar), cerca de uma centenas de obras em projecção simultânea em quatro salas, eis um conjunto de factores poderosíssimos para continuar a justificar a realização deste festival, com este formato, desde sempre um projecto que pretendia ser algo de completamente diferente do que existia até então no nosso País, e mesmo internacionalmente: um festival para abordar as relações entre o cinema e a literatura, incentivando o gosto pelo cinema e pela literatura, procurando estudar as complexas e contraditórias relações que existiram desde sempre entre estas duas formas de narrativa, e também lutar contra a debandada dos espectadores das salas de cinema e dos leitores das livrarias.
Uma secção presente desde a primeira edição do Famafest é “Da Palavra à Imagem”, que este ano volta a chamar a atenção para muitos dos filmes estreados em Portugal e que tiveram particular relevo nas relações entre a escrita literária e a cinematográfica. Desde “Ensaio sobre a Cegueira” até alguns dos melhores filmes que disputaram os recentes Oscars há um pouco de tudo para ver.
Entre os ciclos paralelos, de homenagem a escritores, temos uma fortíssima mostra de Edgar Allan Poe no Cinema, por altura das comemorações dos 200 anos sobre o nascimento deste decisivo escritor norte-americano. De Griffith a Corman, dezenas de raridades preciosas podem ser vistas. De Yukio Mishima apresentam-se igualmente vários filmes que sublinham a particularíssima relação do escritor japonês com o cinema. De Machado de Assis tenta-se uma aproximação idêntica, por altura do seu centenário, numa colaboração com a Embaixada Brasileira junto da CPLP, que muito agradecemos. Numa curta homenagem a Alexandre Soljenitsin, cuja morte ocorreu em Agosto do ano passado, projectam-se obras onde se testemunha o pensamento deste escritor russo que teve preponderante papel crítico e humanista. De colaboração com o recém-criado FICAP (Festival Internacional de Cinema e Artes Performativas) organizam-se duas mostras absolutamente imperdíveis sobre dois dos maiores encenadores da actualidade, Peter Brook e Robert Wilson. Ainda associado às comemorações do centenário do nascimento de Carmen Miranda, recorda-se a vida e a obra da popularíssima actriz de origem portuguesa que o Brasil viu explodir em talento natural. Os 80 anos de Tintim, cinema português, animação para os mais jovens são outros temas não esquecidos, relembrando-se que desde a primeira edição do Famafest já passaram pelas suas salas largos milhares de crianças, muitas das quais tiveram aqui o seu primeiro contacto com o cinema.
Tal como nas anteriores edições, também este ano o Famafest homenageia algumas personalidades do mundo da literatura e do espectáculo. Luís Miguel Cintra, Laura Soveral, Suzana Borges, no campo do teatro, do cinema ou da televisão, Mário Cláudio e Urbano Tavares Rodrigues, no da literatura são os nomes que este ano passarão pelo palco do Famafest e que o “Passeio do Famafest” irá eternizar com inscrições alusivas nos passeios circundantes à Casa das Artes.
Finalmente, dois fabulosos concertos portugueses, irão abrir e fechar o Famafest deste ano. Carlos do Carmo e Corvos dispensam apresentação. O nosso reconhecimento pela presença. No Júri Internacional teremos a comparência, este ano, de gratas figuras da cultura nacional e internacional, como Uxia Blanco, actriz, e Anxo Santomil, realizador, ambos de Espanha, e Ibrahim Spahic, director do Festival de Inverno de Sarajevo, Bósnia Herzegovina, além dos portugueses Laura Soveral e Susana Borges, actrizes, João Pereira Bastos, musicólogo, António Colaço, sociólogo, e Fernando Dacosta, escritor, todos de Portugal. O Júri da Juventude mantém-se e a todos os que colaboraram nos dois júris o meu mais sincero obrigado, em nome pessoal e do Famafest. Muito obrigado ainda ao Embaixador Lauro Moreira pela disponibilidade para nos vir falar de Machado de Assis, ao João Pereira Bastos, por aceitar relembrar Cármen Miranda, ao escritor António Mega Ferreira por ajudar a sublinhar a importância de Mishima.

: PROGRAMAÇÃO SALA A SALA
CASA DAS ARTES * PEQUENO AUDITÓRIO

Sábado, Dia 14 de Março de 2009
10,00 - ANIMAÇÃO: 80 ANOS DE TINTIM: “Objectivo Lua” (Objectif Lune) (1991) 45’; “Pisando a Lua” (On a Marche sur la Lune) (1991) 45’.
15,00 - HOMENAGEM A EDGAR ALLAN POE: “Edgar Allan Poe, a Concise Biography”, de Malcolm Hossick (The Famous Authors) (EUA, 1993) 30’ (V.O. inglesa).
HOMENAGEM A ALEXANDER SOLJENÍTSIN: “Alexander Solzhenitsyn” (série “Great
Writers”) 45’ (V.O. inglesa).
18,00 - HOMENAGEM A EDGAR ALLAN POE: “Edgar Allen Poe”, de D.W. Griffith (EUA, 1908) 7’ (V.O. inglesa, mudo); “The Avenging Conscience”, de D.W. Griffith (EUA, 1914) 84’
(V.O. inglesa, mudo).
21,30 - HOMENAGEM A EDGAR ALLAN POE: “The Fall of the House of Usher”, de J. S. Watson e Melville Webber (EUA, 1926) 13’ (V.O. inglesa, mudo); “La Chute de la Maison Usher”, de Jean Epstein (França, 1928) 66’ (V.O. inglesa, mudo).
24,00 - HOMENAGEM A EDGAR ALLAN POE: “Murders in the Rue Morgue”, de Robert Florey (EUA, 1932) 61’ (V.O. inglesa, leg. espanhol); “The Raven”, de Lew Landers (EUA, 1934) 61’ (V.O. inglesa, leg. espanhol).

CASA DAS ARTES * GRANDE AUDITÓRIO
10,00 - ANIMAÇÃO: “Wall•E”, de Andrew Stanton (EUA, 2008); com Ben Burtt, Elissa Knight, Jeff Garlin, Fred Willard, MacInTalk, Sigourney Weaver, etc. Animação; 98’; M/ 6 anos.
21,30 - ABERTURA OFICIAL
HOMENAGENS: LAURA SOVERAL,
SUSANA BORGES, MÁRIO CLÁUDIO
CONCERTO CARLOS DO CARMO

BIBLIOTECA MUNICIPAL * AUDITÓRIO
10,00 - ANIMAÇÃO: 80 ANOS DE TINTIM: “As 7 Bolas de Cristal” (Les 7 Boules de Cristal) (1990) 45’; “O Templo do Sol” (Le Temple du Soleil) (1991) 45’.
15,00 - HOMENAGEM A EDGAR ALLAN POE: “Revenge in the House of Usher”, de Jesus Franco (Espanha, 1982) 99’ (V.O. francesa).
18,00 - HOMENAGEM A EDGAR ALLAN POE: “Murders in the Rue Morgue”, de Gordon Hessler (EUA, 1971) 98’ (V.O. inglesa, leg. espanhol).

quinta-feira, março 12, 2009

REVELADA A RAZÃO DO DESCALABRO

:
O estádio do Bayern
(uma "coisa" destas devia ser interditada pela UEFA)

domingo, março 08, 2009

TEATRO: O INSPECTOR GERAL

:
O INSPECTOR GERAL
Estreou na Barraca um novo espectáculo, “O Inspector Geral”, segundo obra de Nikolai Vasilievich Gogol, escritor ucraniano, nascido em Velyki Sorochyntsi, Poltava, Ucrânia, a 20 de Março de 1809, e falecido em Moscovo, a 21 de Fevereiro de 1852. Apesar de nascido na Ucrânia, escreveu toda a sua obra em russo, pelo que é considerado um dos grandes autores da literatura russa. Filho de um oficial cossaco dado às letras, e de uma mãe de inquebrantável fé religiosa, de ambos recebe influência directa. Inicialmente empregado num modesto escritório em São Petersburgo, num qualquer ministério, colhe dessa experiência inspiração que deixa inscrita nalgumas das suas principais obras, como “O Capote” (1843), “O Inspector Geral” (1836) ou “Almas Mortas”. Amigo de Alexander Pushkin, com ele estabelece curiosas afinidades. Será Puskin quem o defende perante as críticas e a incompreensão da sua obra muito cáustica para com a condição humana e a sua prática na Rússia czarista. Professor na Universidade de São Petersburgo (1831 - 1835), publica inúmeras novelas e romances de grande sucesso. Viaja pela Europa, Itália, França, Alemanha, e em 1848 faz uma peregrinação a Jerusalém. A saúde precária e uma certa tendência para a hipocondria levam-no a um misticismo exacerbado e ao delírio (segundo consta, num desses momentos queima grande parte da sua obra). Companheiro de uma geração de escritores notáveis, como Pushkin, Liermontov ou Turgeniev, Gogol morre. É enterrado no meio das maiores honras nacionais, ficando sepultado no cemitério de Novodevitchi, em Moscovo.
Entre as suas obras mais conhecidas, e para lá das já citadas, contam-se “Taras Bulba”, “O Nariz”, “O Retrato”, “O Diário de um Louco”, “Arabescos”, “Noites na Granja ao Pé de Dikanka”, “Uma Terrível Vingança” ou “Mírgorod”. Em 1965, Raul Solnado estreia o seu Teatro Villaret com uma, na altura, muito polémica versão de “O Inspector Geral”, de bela recordação. Jacinto Ramos também nos deixou na memória uma encenação e interpretação de “O Diário de um Louco”. No cinema, as adaptações de obras de Gogol atingem a centena. De “O Inspector Geral” Danny Kaye deu-nos uma inspirada comédia (realizada por Henry Koster, em 1949), mas outras versões se conhecem: uma checoslovaca, “Revizor” (1933), dirigida por Martin Fric, outra egípcia, “Al Mufattish al-amm” (1956), de Helmy Rafla, e, finalmente, uma para televisão, americana, com realização de Arvin Brown (2000). Na “Barraca”, a versão é actualizada e aportuguesada. A encenação é de Maria do Céu Guerra e a música original é de autoria de António Victorino D’Almeida, sendo executada ao vivo. Diga-se desde já que é uma re-interpretação da comédia de Gogol que, mantendo-se fiel ao espírito do texto, o torna mais “legível” num contexto nacional. O que, bem vistas as coisas, tem todo o cabimento, ainda que o mesmo texto se possa referenciar a qualquer país e qualquer tempo. Presidentes da Câmara populistas, corruptos e ridículos é o que há mais por esse mundo fora e Gogol, num rasgo de génio, mostra-o bem nesta sátira corrosiva, onde um autarca com pesos vários na consciência, recebe a notícia de que dentro em breve será visitado por um inspector geral que virá da capital inspeccionar o burgo. Obviamente que procura ornar a terra com o que de melhor nela sobrevive, e tenta sobretudo, por todos os meios, descobrir o temido visitante antes de este o perceber, para assim o mimar com regalias, e mesmo algumas notas extras, para lhe adoçar a boca e o relatório final. Acontece que, na ânsia de localizar o desconhecido, se engana na personagem. Honrarias, jantares, notas de banco e mesmo o excessivo afecto da mulher da filha vão direitinhos para quem não os merece, e o imbróglio fica feio no final.
É a própria Maria do Céu Guerra quem escreve: “Durante quase duzentos anos debateram-se opiniões sobre esta obra de Gogol. “Estamos diante de uma sátira de costumes”, disse-se. “De uma obra política?”. Outros defenderam “é uma obra de dimensão metafísica”, uma obra moral, um exercício de fantástico e de absurdo onde o sonho, o medo e o remorso dominam.” E conclui: “Felizmente vivemos um tempo que entrelaçou Brecht com Stanislasvki e Marx com Freud. Estamos livres para olhar para este impostor, estrangeiro, diabo, nada, com a liberdade de não querermos saber o que foi ele para Gogol, mas o que pode ser para nós hoje. Para mim, se querem saber, estamos diante de tudo isso e de um escritor/artista a jogar às escondidas com o seu pânico. Mas sobretudo estamos num Baile de Máscaras onde ninguém é quem mostra ou, sequer, quem julga ser. No coração das trevas, lá mesmo onde o teatro acendeu uma luz. Uma obra que permite a actores e directores a realização de grandes trabalhos e ao público um arraial de gargalhada.” A encenação “cruza Brecht com Stanislasvki”, é certo, mas muitas vezes avizinha-se da “Commedia dell'arte”, pela caracterização de personagens, pelo uso da música e de máscaras, pelas próprias movimentações dos actores. Começa morna, definindo personagens e situações, e vai crescendo até um final apoteótico. Tem magníficos achados, anotações de um humor inteligente e eficaz (que o cenário e os seus volumes habilmente dispersos pelo espaço muito beneficiam, como nas cenas das notas acenadas, ou das manifestações apenas adivinhadas).
A interpretação é globalmente boa na sua vertente de paródia moral, com especial destaque para Céu Guerra e João de Ávila. Mas os restantes situam-se a bom nível: Adérito Lopes, Carla Alves, Jorge Gomes, Pedro Borges, Rita Fernandes, Sérgio Moras, Sérgio Moura Afonso, Susana Costa, António Rodrigues e, ao piano, Madalena Garcia Reis. A partitura musical de António Victorino d’ Almeida é inspirada e inspiradora de bons momentos. O cenário de Maria do Céu Guerra, realizado por Mário Dias, volumetricamente permite circulações e efeitos excelentes, mas creio que poderia ter sido beneficiado com um outro colorido, menos sombrio, mas igualmente acabrunhante.

“A Barraca” (Largo de Santos, 2, Lisboa) - Teatro Cinearte, Sala 1, Qui a Sáb: 21h45 Dom: 17h; Maiores 12 anos; bilhetes: 12,50€ (público em geral) e 10€ (menores 25 anos, maiores 65 anos, profissionais do espectáculo, estudantes, reformados e grupos mais 15 pessoas). Telefone: 213 965 360/275; Internet:
www.abarraca.com; E-Mail: barraca@mail.telepac.pt; bilheteira@abarraca.com.

TEATRO: PEÇA PARA DOIS

:
“PEÇA PARA DOIS”
Tennessee Williams, pseudónimo de Thomas Lanier Williams (nascido em Columbus, 26 de Março de 1911, em Nova Iorque, e falecido a 25 de Fevereiro de 1983), é um dos mais célebres e prolíferos dramaturgos dos EUA. Quase uma centena de obras, muitas delas adaptadas ao cinema, e algumas peças das mais carismáticas do século XX, transformam o legado deste autor num invulgar olhar sobre a condição humana e sobre a sociedade norte americana do seu tempo, numa perspectiva muito pessoal e quase intransmissível. A influência de Freud é inequívoca e assimilada de forma muito original.
Entre as suas obras mais célebres contam-se “Beauty Is the Word” (1930), “Candles to the Sun” (1936), “Fugitive Kind” (1937), “Not about Nightingales” (1938), “Adam and Eve on a Ferry” (1939), “Battle of Angels” (1940), “The Long Goodbye” (1940), “The Glass Menagerie” (1944), “This Property is Condemned” (1946), “A Streetcar named Desire” (1947), “The Rose Tattoo” (1951), “Camino Real” (1953), “Cat on a Hot Tin Roof “(1955), “Orpheus descending” (1957), “Suddenly, Last Summer” (1958), “Sweet Bird of Youth” (1959), “Period of Adjustment” (1960), “The Night of the Iguana” (1961), “The Milk Train Doesn't Stop Here Anymore” (1963), “In the Bar of a Tokyo Hotel” (1969), “Will Mr. Merriweather Return from Memphis?” (1969), “Clothes for a Summer Hotel” (1980) ou “The One Exception” (1983). “The Two-Character Play”, data de 1973, e não é das suas peças mais conhecidas, correspondendo mesmo a um tipo de teatro não muito habitual no autor, se bem que seja marcadamente definida pelos seus temas obsessivos. É precisamente esta “Peça para Dois” que “A Barraca” tem em cena, numa encenação e interpretação de Rita Lello, acompanhada no palco por Pedro Giestas.
Trata-se de um esquema que surge por vezes nos palcos mais alternativos, o “teatro dentro do teatro”, as relações entre o teatro e a vida. Dois actores, dois irmãos, Felice e Clare, andam em “tournée”, e são abandonados pela sua companhia, num decadente “teatro de província de uma província que ninguém sabe onde fica.” Como não têm nem elenco nem peça, tentam “improvisar” um diálogo dramatizado, que de certa forma prolonga, em cena, o drama que ambos vivem, entre a ficção, a ilusão e a verdade, uma verdade que tanto pode ser os irmãos serem vítimas da prepotência dos pais, como serem os seus próprios carrascos. O certo é que essa “verdade” os impede de sair do quarto e enfrentar a realidade. O que justifica um “jeu de massacre” de que ninguém sai incólume, com insinuações de um incesto latente, temas todos eles muito caros a Tennessee Williams: amor, sexo, crime, família, violência psicológica, solidão.
Curiosamente foi uma peça escrita e re-escrita ao longo dos anos pelo autor. “Penso que é a minha mais bela peça desde “Um Eléctrico Chamado Desejo”, disse Tennessee Williams, “e nunca parei de trabalhar nela... é um “cri de coeur”, mas, em certo sentido, todo o trabalho criativo, toda a vida, é um cri de coeur.” Um belo texto, denso, forte, enigmático por vezes, poético sempre, a que os dois actores emprestam uma interpretação a conduzir. Rita Lello é uma actriz que cresce a olhos vistos, e Pedro Giestas uma excelente confirmação. A encenação é sóbria e eficaz.
“A Barraca” (Largo de Santos, 2, Lisboa) - Teatro Cinearte, Sala 2, Qui a Sáb: 20h Dom: 15h; Maiores 12 anos; bilhetes: 12,50€ (público em geral) e 10€ (menores 25 anos, maiores 65 anos, profissionais do espectáculo, estudantes, reformados e grupos mais 15 pessoas). Telefone: 213 965 360/275; Internet: www.abarraca.com; E-Mail: barraca@mail.telepac.pt; bilheteira@abarraca.com.

sexta-feira, março 06, 2009

PARA QUEM GOSTA DE CINEMA PORTUGUÊS (E DE TEXTOS LONGOS!)

Caminhos e Atalhos
do Cinema e do Audiovisual
em Portugal

Minhas Senhoras e meus Senhores,
É da mais elementar justiça começar por agradecer o convite para estar hoje aqui na condição em que me encontro, de palestrante. Estar presente nesta Sessão de Entrega de Diplomas de Mestrados, Pós-graduações e Formações Avançadas, em áreas que são da cultura ou com ela se cruzam de forma muito directa, não poderia ser mais estimulante. Agradeço, portanto, à Universidade Católica, na figura do seu magnífico Reitor, Prof. Doutor Manuel Braga da Cruz, e à Direcção da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa, na pessoa da sua Directora, Profª Doutora Isabel Capeloa Gil, que me endereçou pessoalmente o convite para intervir neste evento.
Sendo eu alguém muito ligado ao cinema, quer como realizador, crítico, historiador e professor, não será de espantar que a minha curta comunicação venha versar precisamente um tema relacionado com estas matérias e, no meu caso, posso dizê-lo, com estas paixões que me acompanham desde sempre. Por isso resolvi falar dos "Caminhos e Atalhos do Cinema e do Audiovisual em Portugal", dado que muitos de vós, que hoje aqui estais para receber diplomas, se irão atravessar, de forma profissional, ou como simples espectadores avisados, com esta realidade e com alguns dos seus problemas e dilemas.
Problemas e dilemas foram questões com que o cinema português nunca deixou de se debater desde o início da sua fundação.
O cinema apareceu cedo em Portugal. Alguns meses depois dos Irmãos Lumiére terem feito a apresentação da sua nova invenção no Grand Café de Paris, corria o mês de Deembro de 1895, surgiram em Portugal as primeiras exibições públicas do "cinematógrafo". E Aurélio da Paz dos Reis, em 1896, apresentava no Porto, os primeiros filmes portugueses.
Mas a cinematografia portuguesa desde cedo começou a ter dificuldades para se impor. Durante todo o período do "mudo" existiram várias tentativas interessantes, mas a mais consistente e coerente, como esforço industrial, teve lugar no Porto, nos anos 20, por iniciativa da Invicta Filmes.
Curiosamente, esta importação do "film d'art", com cenários e argumentos nacionais, estes últimos retirados de obras literárias muito populares, provocou uma invasão de realizadores e técnicos estrangeiros, nomeadamente franceses e italianos, que, muito embora possuíssem um certo saber oficinal, nada trouxeram de novo em termos de criatividade.
O cinema português foi, aliás, mantendo-se afastado de todas as transformações políticas e sociais que se foram operando no País, traçando um caminho de aparente indiferença pelo dia a dia nacional que a queda da Monarquia, a implantação da Iª República, as lutas parlamentares e as arruaças, o aparecimento da Ditadura e do Estado Novo quase nada perturbaram.
Nos anos 30 e 40, já em pleno Estado Novo, sob a ditadura de Salazar, Portugal conheceu o seu primeiro grande momento cinematográfico, com uma geração de cinéfilos que ascenderam à realização, vindos de várias áreas da cultura, das artes e do jornalismo. Foi o período áureo da comédia popular, onde se destacou também uma notável geração de actores, como António Silva, Vasco Santana, Beatriz Costa, Mirita Casimito, Maria Matos, Costinha, e tantos e tantos outros, dirigidos com graça e espontaneidade - uma espontaneidade que lhes advinha sobretudo da prática do teatro de revista - por cineastas como Chianca de Garcia, Cottinelli Telmo, António Lopes Ribeiro, Leitão de Barros, Jorge Brum do Canto, Arthur Duarte, do próprio Manoel de Oliveira, que se estrearia com um notável documentário, Douro, Faina Fluvial, e uma longa metragem que ficou até hoje como um dos melhores momentos da cinematografia nacional, Aniki Bóbó.
A seu lado, comédias como A Canção de Lisboa, O Pai Tirano, O Pátio das Cantigas, O Leão da Estrela, A Aldeia da Roupa Branca ou O Costa do Castelo, constituiram os grandes sucessos desta época. Mas esse não era o cinema que o Estado Novo, e a sua "politica de espírito", da autoria de António Ferro, preconizava.
O que se pretendia eram pomposas adaptações de obras literárias, falsamente populares e estilizadamente folclóricas, epopeias históricas, como Camões, de Leitão de Barros, ou panfletos políticos, como A Revolução de Maio, de António Lopes Ribeiro. O que teve como consequência o lento abandono do público das salas, perdida que foi a receita das comédias, apertado que era o crivo da censura, desaparecidos que foram os grandes actores de comédia.
O humor passou a ser rasteiro e sem graça, impedida a crítica, anulada a criatividade. E os filmes "oficiais" caíam facilmente no ridículo, mesmo junto do grande público e das massas populares. Uma ou outra tentativa de criar um outro cinema, de influência neo-realista, como era o caso dos filmes de Manuel Guimarães, na década de 50, era desde logo morta à nascença, com cortes e recortes da moviola censória.
Em 1955 não se estreou qualquer filme em Portugal, e só na década de 60, uma nova geração de cineastas, nascidos da crítica e do movimento universitário e do cineclubismo, voltaria a abalar o marasmo.
É a época do regresso de Manoel de Oliveira, com O Acto da Primavera, e do surgimento de realizadores como Ernesto de Sousa (Dom Roberto), Paulo Rocha (Verdes Anos) Fernando Lopes (Belarmino), António Macedo (Domingo à Tarde), a que se sucedeu o grupo apoiado pela Fundação Gulbenkian, com nomes como os de Fonseca e Costa (O Recado), Alfredo Tropa (Pedro Só), de novo Oliveira (O Passado e o Presente), de novo Lopes (Uma Abelha à Chuva), e alguns "outsiders" como António da Cunha Telles (O Cerco), Fernando Matos Silva (O Mal Amado), Seixas Santos (Brandos Costumes) ou Eduardo Geada (Sofia, ou a Educação Sexual).
Entretanto, o regime vai agonizando, depois da tentativa de liberalização frustrada de Marcello Caetano, e quando se dá o 25 de Abril de 1974, vários filmes surgem com preocupações abertamente políticas e panfletárias. Rodam-se dezenas e dezenas de películas, curtas, médias e longas-metragens de valor muito desigual, que procuram "dinamizar" o ambiente social, mas este pendor imediatista retira algum valor a estes testemunhos. As obras de Rui Simões, Deus, Pátria, Autoridade e Bom Povo Português são os melhores exemplos deste período.
Será no início dos anos 80 que surgirá uma nova geração de realizadores empenhados em repensar a cultura, a mentalidade, os valores portugueses, em obras, muitas delas de raiz literária, como Cerromaior, de Luis Filipe Rocha, Conversa Acabada, de João Botelho, Veredas, de João César Monteiro, Manhã Submersa, de Lauro António, a que se devem juntar títulos de cineastas da geração de 60, como A Mulher do Próximo, de Fonseca e Costa, O Lugar do Morto, de António Pedro Vasconcelos, e o regresso em força de Manoel de Oliveira, que, nos últimos anos, tem rodado quase um novo título por ano e que merece aqui uma palavra de destaque, pela coerência do seu percurso, pela intransigência da sua proposta, defendida até à última instância, sem uma hesitação ou um compromisso. Neste ambiente de capitulação, Manoel de Oliveira é um farol de dignidade artística e cinematográfica, qualquer que seja a valorização que se possa fazer ao seu trabalho.
Em fins dos anos 80, início da década de 90, outra geração de jovens realizadores ganha de assalto o cinema português. São dezenas de jovens onde se destacam já as certezas de Ana Luisa Guimarães, Teresa Villaverde, Joaquim Pinto, Joaquim Leitão, Manuel Mozos, Jorge Paixão da Costa, Pedro Costa, Edgar Pera, Jorge Marecos Duarte e tantos outros.
Não será possível falar-se, no entanto, de um cinema português, enquanto escola ou grupo unitário e coerente em intenções e processos. Um dos aspectos mais interessantes e sedutores do cinema português desses anos era talvez, ou precisamente, essa multiplicidade de caminhos, de pontos de vista, de projectos pessoais. Quase sempre autorais.
São desses anos alguns erros de orientação e de política governamental que hoje se pagam caros. Portugal é um país algo estranho em matéria de cultura, vivendo quase sempre numa estratégia de 8 ou 80 que muito nos tem prejudicado.
Entregue a politica cultural a iluminados mentores de grupos e castas elitistas que olham com desprezo qualquer sucesso público e com inveja qualquer aparecimento de um novo autor que não crie essencialmente para a sua restrita área de amigos e correligionários, estas directivas tiveram como consequência o quase total desaparecimento de uma cinema de autor de grande público.
Desde as direcções de escolas e universidades, até às sucessivas direcções de IPC, ICA, ICAM e etc., o que se preconizava era um cinema de autor marcadamente pessoal, intransigentemente “contra o espectador” (ou “contra os gostos da burguesia dominante”). O resultado foi que esse cinema cada vez mais entrou num gheto donde dificilmente sairá, e que, à sua revelia tenha aparecido, não um cinema de autor interessado em comunicar com o grande público, mas o pior cinema comercial sem quaisquer preocupações culturais e artísticas. E é esse cinema que aparentemente conquista o público presentemente nas salas de cinema portuguesas.
O que acontecia nos jornais, com os chamados tablóides que quase só se interessam com a gratuita exploração do sexo, da morbidez, da violência, física e psicológica, dos factos mais escabrosos da vida humana, passara já há anos aos canais de televisão, sobretudo desde o aparecimento das privadas que muito pouco trouxeram de diversidade, e muito acarretaram dos piores vícios do comércio desregularizado. O que sobrou foram Big Brother e quejandos, numa atordoante progressão de invasão de privacidade, de vouyerismo, de patologia comunicacional. Hoje anuncia-se em Inglaterra que uma mulher vítima de cancro vende direitos de transmissão da sua morte em directo. O que há uns anos apenas era motivo de anedota – dizia-se “qualquer dia teremos a morte em directo!” – é uma realidade.
Esta tabloidização da televisão passou rapidamente ao cinema. O cinema que hoje em dia se produz em Portugal tem duas origens precisas e duas intenções concretas como finalidade: produz-se cinema de autor para festivais e restritos circuitos de arte e ensaio, e cinema dito “comercial”, onde começa a valer tudo desde que venda.
Hoje em Portugal não há quase qualquer preocupação de se produzir cinema de autor para o grande público, por duas razões: por um lado, cinema de autor que o grande público entenda e ame, deixa de ser “cinema de autor” para uma grande parte da inteligência nacional (que julgo ter muito pouco de inteligente neste caso); por outro lado, o cinema comercial puxa da pistola quando ouve falar de cultura ou de autoria. O que pretende é rentabilidade a qualquer preço.
“O Crime do Padre Amado”, em versão soft porno, “Conversa da Treta”, “Amália”, “Second Life” são alguns desses títulos que procuram sobretudo ser rentáveis, nem que para tanto tenham de vender a alma ao Diabo. Podem ser mais ou menos bem feitos (quase todos são bastante mal realizados, sem uma única ideia do que seja o cinema!), mas o resultado é escabroso.
Até homens com responsabilidade na cultura e no cinema portugueses alinham já nessa onda de mercantilismo desenfreado, mercê das regras de um mercado que começa a impor a rentabilidade da bilheteira acima de tudo: que dizer de “Corrupção”, de João Botelho, ou de “Call Girl”, de António Pedro de Vasconcelos?
De Salazar não interessou analisar a sua política ditatorial, mas sim autopsiar a vida amorosa e sexual.
Vem aí já de seguida o “escândalo” Sá Carneiro - Snu Abecassis e, não tarda, teremos o Caso Maddie. Estão em produção.
Todos estes temas poderiam ser interessantes de tratar se o fossem de forma elevada e com intuitos inicialmente de comunicação (jornalística, artística, cultural, etc.) e só depois comercial.
Mas inverteram-se completamente as finalidades. O cinema poderá ser cultura, arte e entretenimento. Poderá ser comercial. É-o sempre que se exibe numa sala para cujo ingresso se pagam bilhetes. Poderá até ser puramente comercial. Mas em qualquer das suas intenções deverá ser digno, não mentir aos seus espectadores. Não criar falsos engodos para os iludir. Não inventar “receitas” com a finalidade única de vender o produto. Não improvisar menus de pitéus que calculem ser do agrado do freguês, não pactuar com a indigência, nem sobretudo fomentá-la. Um espectáculo pode ser apenas divertido, tentar somente entreter sem outra intenção, mas deve fazê-lo com inteligência, sensibilidade, criatividade, algum sentido.
Uma cinematografia pode existir só com filmes de autor, é verdade. Não existirá nunca só com filmes deste comércio rasteiro que se instala em muitos programas de canais de televisão e e em muitos dos títulos anunciados nas salas de cinema. Uma cinematografia, para ser vigorosa, pode, e deve, permitir coexistir dentro de si, os autores mais vanguardistas, os autores mais comunicativos que gostam de dialogar com os públicos e as obras de puro entretenimento. Cada autor deve ser sincero consigo próprio, com o “seu” cinema, e exprimir-se coerentemente. Nada pior e mais nefasto do que obras que renegam princípios ou que nunca os tiveram. O cinema português, uma parte muito considerável do actual cinema dito português, não é culturalmente válido, não é artisticamente sequer interessante, não é representativo de quaisquer valores nacionais ou humanistas. Não é um retrato sociológico, histórico, geográfico, etnográfico de um pais ou de um povo. Não é diversão nem entretenimento. Aproxima-se muito de uma penosa incursão pelo grau zero da escrita e uma tormentosa via de estupidificação do público.
“Dar ao público o que este quer” parece ser a justificação encontrada. Mas o público não pode escolher, se não houver opções. A verdade é que, tanto no cinema como no audiovisual em geral (refiro-me particularmente aos canais de televisão), as opções que se colocam ao publico português, neste momento, são extremas: ou obras de um ascetismo total, que obviamente agradam apenas a minorias preparadas, ou inenarráveis mediocridades sem estética nem ética. No entanto, esse mesmo público em nome do qual se produzem infantilidades sem escrúpulos, o publico, o tal que “quer aquilo que lhe dão”, faz sucessos do que deve fazer sucesso, quando os filmes vêm lá de fora. Veja-se o que tem acontecido ainda neste início de ano, com algumas das obras que estiveram a concorrer aos Oscars: houve muito público, mesmo com a não falada e sentida crise, que não perdeu filmes interessantes e obras admiráveis. O que vai acontecer, mais tarde ou mais cedo, é esta vaga de subprodutos desacreditar-se a si própria.
Mas entretanto o cinema português continuará atulhado num mar de equívocos. Claro que o governo não pode ser dirigista em matéria de cultura. Mas tem uma responsabilidade: promover a educação.
Como se ensina a ler e escrever no papel, deverá incentivar, promover a aprendizagem, estimular o espírito critico, a sensibilização, a criatividade. Na escola, não só nas Universidades. É no ensino básico e no secundário que se criam públicos mais exigentes, melhor apetrechados, mais críticos, conhecedores da história passada e das potencialidades futuras do Cinema e do audiovisual.
Ambos poderiam ser, e têm sido em muitos e muitos casos, armas fortíssimas, alavancas extraordinárias, não para imporem caminhos, mas para permitir diálogos e assim promover a diversidade cultural e a tolerância inter pares.
A arte (e o entretenimento também) nunca aspira ao lucro como valor imediato. Nada impede que um bom filme dê lucro, até será saudável (quer dizer que muitos viram e gostaram). Mas ter o lucro como única meta não deixará de ser motivo de forte alarme. No comércio da carne e do peixe, na construção civil, nos enlatados e nos frescos, nos filmes e nos programas de televisão.
Numa sociedade democrática e livre, exige-se ao cidadão uma consciência cívica que lhe permita escolher, optar, estando avisado para o fazer. Devemos então exigir, no acto de comprar um bilhete e de seleccionar um filme, uma cinematografia portuguesa, original, nossa, marcadamente nacional, no que nós temos de mais vincada e genuinamente autêntico. Não uma cinematografia uniformizada. Pelo contrário: diversa. Uma cinematografia que possa dialogar com outras terras e outras gentes, outros filmes e outros autores. Que seja arte e indústria, ainda que incipiente, mas que seja sobretudo representativa de uma realidade, de um povo, de um tempo, de um local. A globalização não deve impor figurinos, deve permitir mais facialmente o intercâmbio das diferenças. É nas diferenças que reside o futuro de um mundo harmonioso. Que as estimule e as confronte.
Comunicação lida na Universidade Católica, Lisboa, a 5 de Março de 2009.


Lauro António e o cinema from Rogério Santos on Vimeo.

Retirado do blogue Industrias Culturais de Rogério Santos (com a devida vénia e um abraço)

quarta-feira, março 04, 2009

NA QUALIDADE DE FALECIDO

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VAVADIANDO COM ANTHIMIO DE AZEVEDO

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30 º J A N T A R D A T E R T Ú L I A V Á . V Á . D I A N D O
12.MARÇO.2009
20,00 horas

VAMOS FALAR DE
“AQUECIMENTO GLOBAL E ALTERAÇÕES CLIMATÉRICAS”
CONVIDADO: ANTHÍMIO DE AZEVEDO
(Meteorologista)


Depois de RAÚL SOLNADO, FERNANDO DACOSTA, NUNO JÚDICE, TEOLINDA GERSÃO, IVA DELGADO, LÍDIA JORGE, MARIA DO CÉU GUERRA, EURICO GONÇALVES, PAULO PORTAS, LAURO ANTÓNIO, ROGÉRIO SAMORA, CARLOS DO CARMO, CELINA PEREIRA, OTELO SARAIVA DE CARVALHO, MARCELO REBELO DE SOUSA, IRENE PIMENTEL, PADRE FEYTOR PINTO, FERNANDO ROSAS, BÁRBARA GUIMARÃES, NICOLAU BREYNER, GONÇALO RIBEIRO TELLES, FRANCISCO MOITA FLORES, BAPTISTA BASTOS, ALICE VIEIRA, SÃO JOSÉ LAPA, INÊS LAPA LOPES, ANTÓNIO VICTORINO D’ALMEIDA, JOSÉ MANUEL ANES CONTINUAM OS NOSSOS ENCONTROS, MANTENDO UMA TRADIÇÃO DE TERTÚLIA
DO CAFÉ-RESTAURANTE VÁVÁ.

ENTRADA: 17,5 EUROS POR PESSOA. COM DIREITO A ENTRADAS, SOPA, UM PRATO DO DIA, PEIXE OU CARNE, SOBREMESA, BEBIDA (VINHO É O DA CASA!) E CAFÉ.

EXTRAS POR CONTA DO FREGUÊS.

[ LOTAÇÃO LIMITADA A 50 CADEIRAS. ACEITAM-SE INSCRIÇÕES NO BALCÃO DO VÁVÁ. ]
PRÓXIMO CONVIDADO: LAURO MOREIRA, Embaixador do Brasil na CPLP
(23 de Abril de 2009)
Para informações e marcações de lugares:
LAURO ANTÓNIO - Blogue Va.Va.diando (http://vava-diando.blogspot.com/][mail: laproducine@gmail.com]
RESTAURANTE - CAFÉ VÁVÁ AV. EUA, Nº 100 - 1700-179 – LISBOA (TELF 21.7966761).
ANTHÍMIO DE AZEVEDO METEOROLOGISTA

A 1 de Novembro de 1962 começa a apresentar o Boletim Meteorológico na RTP, tornando-se uma das figuras mais populares e emblemáticas da televisão portuguesa.
Mais tarde, na TVI, prolongou a sua carreira de “o homem do tempo”,
com uma simpatia e uma empatia notáveis junto do público.Nasceu em Ponta Delgada, S.Miguel, Açores, a 27 de Abril de 1926. Licenciado em Ciências Geofísicas e especializado em Meteorologia. Chefiou o Serviço Meteorológico da Guiné (1967-1970). Foi Técnico da Organização Meteorológica Mundial para Organização e Formação naGuiné-Bissau (1975-1977). Chefiou as Divisões: de Climatologia (!981-1985); de Formação Meteorológica (1985-1988); de Relações Internacionais (1988-1990); Foi Delegado Nacional: Ao Grupo de Códigos da Organização Meteorológica Mundial (!975-1990): Ao Grupo de Meteorologia do Comité Militar da OTAN (1986-1992). Foi Director Regional para Meteorologia e Geofísica Interna, nos Açores (1990-1992). Foi apresentador na RTP (1962-1990) [com interrupções para as comissões na Guiné, antes e depois da independência]. Na TVI foi coordenador e apresentador de Meteorologia (1992-1996); No 10º aniversário da METEOSAT apresentou as previsões para Portugal, via televisão alemã ZDF, desde Darmstadt – RDA (Jun 1996). É professor na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologia: de Climatologia, para Engenharia do Ambiente, desde 1997-1998, de Meteorologia, para Ciências do Mar, desde 2004-2005.