sábado, maio 09, 2009

CICLOS VERGILIANOS

:
:
VERGÍLIO FERREIRA: ESPAÇOS E CIRCUITOS

Nos dias 7 e 8 de Maio, em Gouveia, numa iniciativa conjunta da Câmara Municipal de Gouveia e da Universidade de Évora, decorreram os Ciclos Vergilianos, integrando conferências e debates, concertos e um passeio pelas terras de Vergilio Ferreira. Foi-me socilitado um depoimento de tom memorialista sobre as minhas recordações do escritor de "Manhã Sumersa". Aqui fica o registo:

Há na minha versão cinematográfica de “Manhã Submersa” algumas cenas em que António dos Santos Lopes, o protagonista, sentindo-se encurralado fisicamente nas paredes do seminário, onde se encontra contra a sua vontade, se “ausenta”, através do olhar, para o exterior, em direcção à sua aldeia, à sua serra da Estrela, que aqui prefigura a liberdade e a vida natural. Para Vergílio Ferreira a liberdade é nitidamente um dos seus temas dilectos, ao lado de outros que fazem a essência do homem e da sua misteriosa passagem pela terra: o que somos, por que o somos, somo-lo em finitude, apenas em função de nós próprios ou em direcção a que desconhecido? E a solidão do homem, perante o mistério da vida e da morte.
Para Vergílio Ferreira, a liberdade individual é algo que não se pode restringir, e que, quando é condicionada por um qualquer mecanismo opressor ou censório, se revolta por todos os meios, inclusive pela imaginação que se revela indomável.
A imaginação e a memória interagem agora comigo, da mesma forma por que António dos Santos Lopes se libertava das condições adversas que encontrara no seminário do Fundão: escrevo num computador equipado com Windows Vista, mas a minha imaginação percorre o caminho em direcção à Serra, mais precisamente à cidade de Seia, uma esplanada num primeiro andar do largo central da cidade, cai a tarde num dia de Outono de 1974. Acabara de conhecer pessoalmente Vergílio Ferreira.
Lera as primeiras obras dele era eu ainda adolescente e vivia ocasionalmente em Portalegre. Foi aí que tomei o primeiro contacto com “Manhã Submersa”, publicada em 1953, quando o escritor vivia em Évora, onde era professor. O meu pai, seu colega, professor em Portalegre, onde eu era aluno de José Régio. Por alguma dessas razões, e pelo meu gosto compulsivo de ler, o livro me veio parar às mãos e, ao lê-lo, para sempre fiquei ligado a esta obra. Depois veio “Aparição”, alguns outros pelo caminho, até chegar a 1974, quando Manuel Guimarães, cineasta e padrinho do meu casamento, da parte de minha mulher, me convidou a ir à serra da Estrela, assistir às filmagens da sua versão de “Cântico Final”.
Lembro bem as filmagens de noite, em Melo, e os primeiros contactos com o escritor, nos intervalos das filmagens, a que nesse fim-de-semana tinha ido assistir, com a mulher, a dr. Regina. A conversa foi partida, por entre mudança de interlocutores, ora Ruy de Carvalho, ora Varela Silva, ora a jovem Ana Helena. E sempre Vergílio Ferreira, que assistia, aparentemente distante, mas entusiasmado por ver um romance seu concretizar-se em imagens, ali à sua frente. Com o clarão dos projectores a incendiar a escuridão mágica da serra.
Vergílio Ferreira não era homem para intervir na arte ou no trabalho dos outros, mesmo quando essa arte ou trabalho derivavam de arte ou trabalho seus. Sempre aceitou comigo a total divisão de concepções. Um dia me disse, em fase de preparação de “Manhã Submersa”: “O romance é meu, o filme é seu. Cada um vai valer por si. Se o filme for uma merda (sic), não irá alterar em nada o que o livro valer.” Deu-me todas as indicações solicitadas, foi desenterrar o livrinho das regras do Seminário, para eu citar algumas, mas nunca sequer me sugeriu uma alteração ao guião que eu escrevera, cortando e acrescentando segundo o que eu sentia serem as necessidades de uma nova narrativa. Apenas leu o guião, quando estava terminado, e, como professor atento, corrigiu a lápis alguns erros de ortografia. O romance era dele, o filme era meu.
Queria isto dizer que Vergílio Ferreira nunca impôs qualquer directiva, não que eu a notasse na sua relação com Manuel Guimarães, não que eu a sentisse no nosso profícuo relacionamento. Manuel Guimarães cavaqueava com ele sempre que as filmagens eram interrompidas para preparação de novo plano, ao lado tinha a sua companheira de sempre e anotadora, a Dona Clarice. Eram conversas de circunstância que me permitiram confessar a Vergílio Ferreira a minha particular estima por algumas obras suas, nomeadamente “Manhã Submersa”. Foi por essa altura que me abalancei a sugerir aos dois rodar um documentário sobre o escritor, para anteceder a longa-metragem de Guimarães, quando o “Cântico Final” fosse estreado. E logo ali ficou estabelecido o título: “Prefácio a Vergílio Ferreira”. Uma introdução rápida, de quinze minutos, à sua vida e obra, tentando recuperar um universo e restituí-lo em imagens.
Foi na tarde do dia seguinte que aparece a cena da esplanada em Seia, a conversa a quatro, registada pela câmara fotográfica da Maria Eduarda Colares. Ali está o Vergílio Ferreira, sorridente e descontraído, irónico e sedutor, as bicas e os meus livros do escritor sobre a mesa, certamente idos de Lisboa em busca de uma dedicatória, e uma ou outra vez o perfil furtivo da bela e muito jovem Ana Helena. Foi uma conversa com tema já definido, o “prefácio” que acalentara durante a noite, e que o Guimarães generosamente tornara possível, oferecendo-me uns resto de película, e “emprestando” o Abel Escoto, o seu director de fotografia, nos intervalos das filmagens.
Esse foi o meu primeiro trabalho tendo como base Vergílio Ferreira. Inicialmente rodado em Melo, tem como cenário as paredes graníticas das casas, a paisagem vigorosa e áspera, e os rostos tisnados pelo sol e a chuva e a passagem dos anos. Coloco a câmara numa das extremidades do corredor da casa da família do escritor e espero com respeito e uma ternura muito especial que a mãe se aproxime da objectiva vinda lá do fundo de um contraluz inesquecível. Na sala de jantar, mãe e tia do escritor, olham a câmara, tendo preso por cima das suas cabeças, um velho relógio que assinala anos e anos de memória. Muito tempo depois, Vergílio Ferreira dir-me-á que nunca revê esses planos da mãe sem uma comoção profunda. Eu rejubilo pelo carinho revelado, sabendo eu que aquele homem é-o de poucas palavras e de emoções exasperadamente contidas.
Lera algures numa das suas obras, “Alegria Breve”, onde recordava a sua infância, uma referência a uma rampa. “Entro em casa, demoro-me um instante à janela para a montanha, mas acabo por sair, subindo a rampa que leva ao adro da igreja. A minha biografia começa aqui – na rampa.” “Prefácio a Vergílio Ferreira” começa ali – na rampa. Peço a Vergílio Ferreira para subir a rampa, passo sereno, esforçado, decidido, ritmado, camisa branca aberta e casaco dobrado no braço. Ele sobe a rampa, uma e outra vez, até chegar à “take” considerada ideal e que depois será repetida, uma, duas, três vezes no filme, como refrão de um reinício. O filme não acaba ali, mas volta ao princípio, depois de passar por Évora e as salas de aula, por Lisboa, a casa do escritor, a avenida de Roma, a livraria Barata, o liceu Camões. Vergílio Ferreira dá ali uma aula para a qual eu lhe pedi que abordasse o tema da arte. “Para que serve a arte?”, pergunta-se. E responde: “Esta pergunta está desde logo viciada, porque perguntar para que serve a arte é dar-lhe um carácter utilitário, prático, que naturalmente a arte só genericamente tem. As relações da arte com o real, e sobretudo as relações da arte com um ponto de vista de utilidade, vêm de longo tempo, vêm de há muito tempo.” Malraux disse: “A Arte é a música da história.” Sartre disse: “Não há obra nenhuma de arte, grande, que se possa fundar sobre a injustiça.”
Assim se explica Vergílio Ferreira que, a rematar o filme, concluía: “Há uma voz obscura no homem, mas essa voz é a sua. Há um apelo ao máximo, mas vem do máximo que ele é. Há um limite impossível, mas é do excesso que é o próprio homem.”
O escritor explicava assim a sua querela com os neo-realistas, de quem foi companheiro de estrada no início da carreira, dos quais se afastou, quando escolheu um caminho autónomo, com influencias directas e confessadas de existencialistas, de Malraux, do “nouveau roman”. Por esta altura, em pleno PREC, Vergílio Ferreira era um homem feliz pela liberdade finalmente conquistada, pelas injustiças e violências que começavam a ser corrigidas, mas inquieto quanto ao futuro da democracia. Muitas conversas tivemos sobre este tema, quando a amizade se aprofundou entre nós e a confiança nasceu. Ele, que fora perseguido e censurado pelo Estado Novo, e que se sentira marginalizado pela política cultural de uma certa esquerda instalada nessa altura na oposição e que depois procurou instrumentalizar o poder, após o 25 de Abril, ele sentia-se não só inquieto, como igualmente afastado, olhado como um fardo incómodo. A política activa nunca o fascinou em demasia, mas assinou manifestos, protestou, escreveu, polemizou.
Há quem o veja como homem amargo e de difícil convívio. Nada de mais enganoso para quem bem o conhecia de perto. Era dócil e terno, de olhar macio e voz branda, cigarro acariciado numa das mãos, irónico e mordaz quando a isso o convidava o humor. Toda a sua ficção é filosófica, toda a sua vida um exemplo de um pensamento vivido sem deriva. Um dia, quando nasceu o meu filho Frederico, perguntou-me ao telefone: “como se vai chamar o rapaz?” Frederico, respondi. “Isso é lá nome para se dar a um filho.” Mais tarde o Frederico, quando tinha cerca de 16 anos, adaptou a vídeo o seu conto “A Estrela”, e enviou-lhe o filmezinho em cassete, para ele ver. Respondeu-lhe numa muito simpática mensagem, que se conserva registada em fita magnética. Hoje o Frederico namora com a Cátia Garcia, cantora e actriz, que interpretou no palco do Politeama, “a estrela”, a versão teatral do Filipe La Féria. Na estreia, na primeira fila, a Dr. Regina soluçava enternecida pelo que acabara de ver. Malhas que o império tece, neste mundo que dá voltas sobre si próprio.
Voo em direcção à Serra, numa panorâmica que a memória consente. Alguns anos depois de ter rodado, em Linhares da Beira, “Manhã Submersa”, sou convidado a dirigir o Cine Eco, um festival de “cinema e ambiente” em Seia, que dura há quinze anos. Todos os anos viajo até à serra, e invariavelmente, percorro com amigos e convidados, nacionais e estrangeiros, os caminhos dessa rodagem.
Calcorreamos as ruas graníticas dessa aldeia perdida nos cumes, bebemos um café na tasca onde no inverno impiedoso de 1979 a equipa técnica e os actores se acoitavam da tempestade, do vento, da chuva e da neve que carregavam de lado, e deambulamos entre o castelo e a igreja, entre esses dois símbolos de poder que tanto me atraíram ao escolher esta aldeia como cenário preferencial para o meu filme.
Lembro a Adelaide João a lavar roupa, num fiozinho de água, que escorria, qual regato, entre o castelo e a igreja. Mais tarde confessou-me que chorara de dor com as mãos geladas, e nada me dissera quando eu pedia para repetir o plano. Lembro a Eunice Muñoz, nas austeras vestes de Dona Estefânia, conversando no adro da igreja com um improvisado padre (que o pintor Mário Botas se prestou a interpretar por doença do actor convidado, e que não pode aparecer). Ambos traçavam o futuro do jovem seminarista, sem a este prestarem a mínima atenção.
Desço a Melo, paro defronte da casa da família, olho a rampa (a sua biografia continua a começar ali), e muitas vezes vou até ao cemitério, onde, voltada para a serra, se encontra a sepultura de Vergílio Ferreira. Nova viagem no tempo, e ouço a voz da Dr. Regina, numa manhã maldita, num telefonema sem cor, dizer-me: “O Vergílio morreu.” Soube depois, contado por ela, que morrera durante a noite, e que ela ficara sozinha com ele em casa, vestindo-o, colocando-o na cama, retocando-lhe as feições, em permanente vigília, até o dia nascer, e então telefonar ao filho e aos amigos. A Eduarda escreveu sobre esta mulher tenaz e este amor temperado por anos de diário convívio, um conto, “Retrato de Senhora com Flores ao Fundo”, que eu tentei filmar, sem conseguir apoios para tal. Fica a intenção e agora aqui a revelação. Talvez um dia, quem sabe? Eunice seria a Senhora.
Sinto-me próximo de Vergílio Ferreira nesta serra que o viu nascer e onde jaz. Disse-me numa entrevista: “Na província em que nasci aprendi a sensibilidade que tenho. Mesmo o Alentejo (e vivi lá 14 anos) só afinal o entendi como um eco da Beira. Porque a planície e a montanha falam a mesma voz primordial. Espaços, origens, vento, neve, solidão, e a cor escura das gentes, e a sua presença espectral, e a sua trágica rudeza, e o silencio de tudo, e a própria alegria furtiva quando é a hora das concessões para isso, e o signo de eternidade que a tudo marca, e o halo genesíaco que a tudo envolve – são inexoravelmente os sinais com que me entendi através da terra em que me criei.” Texto lindíssimo de alguém que tinha o dom da palavra exacta, que construía sabiamente a frase antes de a enunciar, entre duas fumaças espaçadas.
Antes de iniciar as filmagens de “Manhã Submersa”, que rodei, em simultâneo, em 35 milímetros para cinema, e em 16 milímetros para televisão, filmei o documentário de quase uma hora, “Vergílio Ferreira numa “Manhã Submersa”, que funcionou como “episódio zero” da série para a RTP. Viajei com o escritor pelas serras, a da Estrela, onde nasceu, a de Sintra, onde tinha uma casa de campo, em Fontanelas. No Fundão visitámos as (quase) ruínas do velho seminário, então ocupado por retornados, que Vergílio Ferreira entrevistou particularmente interessado no destino daquelas gentes que subitamente trocavam de vida e de continente.
Divisão a divisão, foi-me descrevendo o seminário da sua infância e do seu sufoco. Contou-me que durante muitos anos vivia assombrado pela recordação daqueles tempos, até ter escrito o romance, o que lhe trouxe posteriormente uma enorme calma e paz interior. Voltámos a Melo e à casa familiar, à rampa, ao pelourinho da aldeia, onde nos sentámos a conversar enquanto o Vítor Estêvão, director de fotografia, captava a imagem. Subimos a Linhares, onde descobriu um padre que havia sido seu colega no seminário. O restante, digamos que o lado reflexivo sobre a sua evolução literária, a génese de “Manhã Submersa”, romance, o seu posterior interesse por Malraux e pelo existencialismo, e por novas formas de narrativa que o “nouveau roman” abriu, tudo isso fui captar nos jardins da sua casa em Fontanelas. Enquanto a Drª Regina regava as plantas. Ou preparava um chá. Sentados em redor de uma mesa de pedra, sob o frondoso das árvores, o gravador no meio, a câmara de filmar discretamente recuada, Vergílio Ferreira falou. Lição de mestre, que ficou registada para a eternidade.
“Conta Corrente”, “20-0utubro (sábado). No dia 18, quinta, a TV-2 iniciou a emissão de “Manhã Submersa”. Transmitiu a "Introdução" com várias conversas minhas em vários sítios, entre eles o Seminário do Fundão. Emocionou-me particularmente a presença de minha mãe. Em certo plano, ela aparece a percorrer o corredor da casa, num envolvimento de sombras como um espectro. No silêncio absoluto ouvia-se, a aprofundá-lo, as pancadas dos tacões e da bengala no soalho. O seu percurso levava-a para a porta da rua, onde se imobilizou num halo de luz difusa.”
Corte para Lisboa. O café Vavá onde tantas e tantas vezes nos encontrámos. De inicio com o Manuel Guimarães. Depois com a Lídia Jorge. Um dia falámos sobre Agustina, outro dos grandes nomes das letras portuguesas, de que eu gostava (e gosto) muito. Rivalidades e mal entendidos levavam Vergílio Ferreira a não a ter entre as preferidas. Ela correspondia, ao que suponho. Passados meses, de novo numa das mesas do Vavá, depois de uma viagem a Paris que reuniu Agustina e Vergílio, este confessa-me a sua enorme admiração pela escritora. Ambos se tinham tornado grandes amigos.
Ainda Lisboa. Um telefonema ao fim da tarde. “Que fazem vocês? Vamos comer uns bifes de javali num restaurante que conheço?” Era dia 28 de Janeiro, Vergílio Ferreira fazia anos, e lá fomos até às Olaias, onde o escritor conhecia um restaurante especializado em javali. Melhor que o javali, que eu degustava pela primeira vez, era a companhia. A torrente das palavras, moldada em afectos. Um dia disse, e confirmo, que Vergílio Ferreira foi para mim com um segundo pai. O meu faleceu abruptamente em 1977. Vergílio Ferreira não ocupou o lugar, insubstituível, mas atenuou a perca com a sua presença amiga e a sua voz patriarcal.
“Flash back”: Casa de Vergílio Ferreira. Interior. Noite.
Morava muito perto da minha casa, ambas situadas na Avenida EUA.
Sentados frente a frente, falo-lhe na hipótese de interpretar a figura do reitor. A reacção inicial foi chamar-me louco ou algo parecido. Depois sorriu. Um bom professor é um actor, digo eu. E sabe latim. Elogio-lhe o rosto, a postura, o rigor, a austeridade, certamente resquícios do próprio seminário. “Já viu o que era, “ser” agora o reitor que tanto o flagelou em adolescente? Não só o reitor do seminário, mas também o Salazar do País?” Deixou de me chamar louco e continuou a sorrir. Um sorriso de criança que intimamente elabora uma malandrice bem urdida. “Amanhã voltamos a falar disso”, digo eu. No dia seguinte, pela hora do almoço, telefono-lhe excitado, esperando um não rotundo, sai um sim em busca de comprovativo. Claro que reforço o convite. É preciso encomendar um fato de reitor no guarda-roupa Anahory. Com as suas medidas.
Vergílio Ferreira não foi dos primeiros a entrar em cena. As filmagens começaram por Linhares da Serra, exteriores, inverno inclemente, já o disse. Acabadas as filmagens na serra da Estrela, regressámos a Lisboa, para filmagens na Madre de Deus, num edifício da Casa Pia nessa altura desocupado. Improvisado um gabinete do reitor, colocadas as câmaras, instalada a iluminação, espera-se por Vergílio Ferreira para a primeira “take” do dia e para a sua estreia como actor. Devidamente paramentado aparece. Troco com ele frases de ocasião sobre o texto a dizer nessa altura. Um dos alunos do seminário vai ser expulso, e o reitor executa a sentença, perante os pais revoltados com a conduta do filho. Vergílio Ferreira sabe o diálogo, está no entanto inquieto. Coloca-se no local escolhido, em pé, atrás da secretária. “Acção!”: “Entre!” e os pais entram com o aluno e um empregado do seminário. Vergílio Ferreira inicia um diálogo grandiloquente, quase gritado, muito gesticulado. Parece récita de amadores do pior. A equipa técnica rebolava-se de riso e escondia-se por detrás de tudo o que pudesse impedir ser vista. Teme-se o pior. “Corta!” Vergílio Ferreira não está satisfeito, mas está sobretudo inseguro. “Não correu bem, pois não?” “Não, Vergílio, não correu, não é esse o tom.” Falámos cinco minutos, afastados dos demais. “Isto é cinema, não é teatro. O público está muito perto de si, olha-o nos olhos, não precisa de exteriorizar muito, mas pelo contrário de interiorizar. Basta sentir o que se diz, a câmara fará o resto, vai lá buscar a emoção e transmiti-la ao espectador.” “Vamos repetir!” E assim foi. Sai muito bem. Volta a repetir-se o plano, por uma questão de segurança. Vergílio Ferreira protesta: “Não ficou ainda bem desta vez?”. “Sim, mas temos de ter mais do que uma “take” boa, por questão de segurança!”. “Que chatice! Não sabia que isto era tão chato, tanta repetição!” Mas a partir daí foi sempre a somar: encontrado o tom próprio, foi dos mais seguros actores da companhia. Sempre prestável.
Na “Conta Corrente”, no dia 14 de Janeiro de 1980 (domingo): “Vi há dias as filmagens que já fiz para “Manhã Submersa”. Lá estava o Reitor a enredar o miúdo e a recusar o perdão a um outro que não queria ser expulso. O Lauro António e toda a equipa acharam a actuação "brilhante". Nunca ninguém me disse isso em relação a nada que tenha feito. E aí está como o meu destino devia era estar no Parque Mayer.”
Na mesma “Conta Corrente”, agora no dia 3 de Novembro (sábado): “Espantoso. Tenho sido cumprimentadíssimo pela minha actuação na TV, na série da “Manhã Submersa”. Faço o papel de Reitor, tenho sido felicitadíssimo. No restaurante onde hoje fomos, vários olhares fixos em mim a identificarem. Há quarenta anos a escrever livros. Pouca gente deu conta. Mas só com duas intervenções na TV, sou quase tão célebre como um futebolista. Tenho-o pensado: o meu destino estava em Hollywood ou no Parque Mayer. Agora é tarde para emendar o destino. O curioso é que eu não correspondo por dentro a estas homenagens. Quando me dizem de um livro que é "bom", qualquer coisa mexe por dentro, no sítio das vísceras em que está o contentamento. Mas ser "actor" – que blague. Uma brincadeira da responsabilidade do Lauro António, o realizador. Que tenho "boa figura" e "boa voz" e "boa presença". E esta? Mas é desta maneira externa e acidental e lúdica que se faz uma reputação e uma "personalidade". Modo de se ser de fora para os outros e de os outros o serem. O que é de dentro não tem uma pessoa a que se fixe, não tem visibilidade a que nos fixemos.”
Alguma incompreensão de Vergílio Ferreira para com a força das imagens: uma interpretação, em cinema, vale sobretudo pelo que sugere do interior da personagem. A "boa figura", "boa voz" e "boa presença" são igualmente signos que nos permitem chegar à essência, precisamente ao mais profundo de um ser, de uma situação. O “casting” é precisamente isso: escolher a pessoa certa para o papel.
“Travelling” na auto-estrada para o Porto, onde se repõe “Manhã Submersa”, eu e Vergílio Ferreira na sala do cinema, julgo que uma das salas o “Charlot”, em amena cavaqueira sobre o filme, após a projecção. Há quem fale da influência de Buñuel, de Bergman, de não sei quantos mais cineastas. Vergílio Ferreira regista o episódio na sua “Conta Corrente”: 20-Abril (terça). (…) uma ida ao Porto com o Lauro António para uma nova "estreia" do “Manhã Submersa”. Com Lauro António tem acontecido uma coisa que sei por mim e é a atribuição variada de "influências". A esse propósito, teve ele no colóquio, após a exibição do filme, uma observação curiosa: não há mal que nos atribuam muitas influências; mal é quando nos atribuem só uma. Ponho-me a reflectir, acho que tem certa razão. Comigo, aliás, no que se refere a influências, é uma fartura.”
Claro que haverá influências. No mundo nada se cria, tudo se transforma. Uma influência manifesta, pode ser cópia, plágio. Muitas, é a vida, ao longo da qual nos vamos alimentando do que vemos, do que lemos, do que ouvimos, do que nos toca a pele, do que nos molda. Somos o produto de tudo o que fica em nós, quando tudo o mais desaparece. Cada personalidade é o resultado dessa mistura sincrética.
Volto à sua casa em Lisboa. Anos depois da estreia de “Manhã Submersa”, confesso-lhe que gostaria muito de adaptar “Até ao Fim”. Ele acha que eu faria um filme magnífico de “Em Nome da Terra”, livro de que gosto muito, mas não me seduz para cinema. Já experimentei o “beco sem saída” com adolescentes, não me apetece entrar noutro “huit clot”, agora da terceira idade. “Até ao Fim”, sim. Mas há um cineasta alemão que o quer adaptar. Vergílio Ferreira hesita em ceder os direitos, “muito bem pagos”, porque eu punha a hipótese de o adaptar. Liberto-o de qualquer compromisso ou constrangimento. Afinal a minha carreira de cineasta, depois do relativo sucesso de “Manhã Submersa”, tem sido muito difícil. Contaram-me que colegas meus, uma vez reunidos em conciliabo, haviam jurado: “Este gajo nunca mais há-de filmar!”, o que quase se concretizou. Não quero ser empecilho, afinal nem tinha pago nada para reter os direitos. Vergílio Ferreira, que nunca me deixara sequer ler os seus dois primeiros romances, que considera obras de juventude, sem grande préstimo, vai desencantar uma primeira edição de “O Caminho Fica Longe” e escreve com a letra miudinha que o caracterizava, “o imbricado da escrita”, como lhe chamava, uma dedicatória significativa: “Ao Lauro António esta maneira desculpável (?) de se ser infantil, com um abraço amigo do Vergílio Ferreira. Junho de 1982.”
Falando de dedicatórias, uma que me tocar particularmente. Uma primeira edição de “Manhã Submersa”: “Ao Lauro António que fez deste livro uma razão para eu ter algum orgulho nele. Com uma abraço do Vergílio Ferreira. Março de 90.”
Em 1983 realizei para a RTP uma série, “Histórias de Mulheres”, que agrupou quatro histórias, uma delas retirada de um conto de Vergílio Ferreira, “Mãe Genoveva”. Transpus o cenário da Beira para o Alentejo, rodei-o em Terena, uma aldeia perto de Estremoz. O conto de Vergílio Ferreira dava hipótese de fazer uma experiência narrativa que me interessava, dado que se prestava bem ao estilo, rigoroso e conciso, do escritor, e à sua propensão para conter a emoção e evitar todo o sentimentalismo fácil. Procurei, portanto, que tudo o que de dramaticamente importante sucedesse, acontecesse fora do enquadramento. As imagens seriam apenas um reflexo, um indício, do que realmente ocorre. Era uma história de clandestinidade e polícia política, já de si nebulosa, pouco clara. Subversiva, furtiva, oculta. Desenrolando-se pela calada da noite, por entre sombras e vestígios. Penso que se apropriava bem o tom escolhido, que eu julgava inquietante E soturno.
É um filme de que gosto muito, mas difícil para o público, reconheço. Temi pela reacção de Vergílio Ferreira, que quase não acompanhou nem a preparação, nem as filmagem ou a montagem. Apenas viu o filme terminado, já em Lisboa, depois de ter passado pelo festival da Figueira da Foz. Não tínhamos falado muito, anteriormente, sobre este pequeno filme de uma hora, rodado durante uma semana num Alentejo escaldante. Afinal, Vergílio Ferreira foi dos que melhor entenderam esta tentativa, pelo menos tendo em conta as suas considerações expressas numa das páginas do volume IV da sua "Conta-Corrente", referindo-se globalmente à série “Histórias de Mulheres”, e em particular a “Mãe Genoveva”: " São filmes depurados à essência narrativa, despojados de pormenores, lentos, mas sempre na expectativa do que daí acontecerá (...) "Mãe Genoveva" quase não tem falas, só a pureza da sequência de imagens, sem alterar a tonalidade emotiva, mesmo quando seria caso disso. Filme transparente, discreto, quase absoluto. (...) Gostei bastante deles e muito ainda de gostar por essas razões."
Perto do “the end”, apenas mais uma recordação: em 1993, no Porto, na Fundação Eng. António de Almeida, Vergílio Ferreira foi o centro de um “Colóquio Interdisciplinar”, por altura das comemorações dos seus cinquenta anos de vida literária. Lá estiveram, durante três dias, a coincidirem com a data de nascimento do escritor, alguns dos maiores vultos nacionais e estrangeiros, que se tinham dedicado ao estudo da sua obra. Nesse colóquio fui convidado a intervir de duas formas, através de uma comunicação, onde tentava dar uma ideia das relações do escritor com o cinema, e através da exibição de três filmes meus, dois passados numa sala de cinema, à noite, um, “Vergílio Ferreira numa “Manhã Submersa”, a encerrar a sessão do colóquio. O filme passou perante uma sala repleta, e no final assisti a uma das ovações mais calorosas que me foi dado ouvir. Mas o melhor de tudo, não foram sequer as palavras de Óscar Lopes ou Eduardo Lourenço, enaltecendo o significado do filme, mas o abraço estimulante do Vergílio, e as palavras segredadas quase ao ouvido, nesse momento: “Já sabia que este filme era bom, mas só agora percebi quanto ele é importante. Sabe que lhe disse, nesses depoimentos, coisas que nunca antes tinha revelado?”
Não pude deixar de ficar orgulhoso. Como hoje ainda o estou por permitir que alguns dos meus filmes tenham eternizado não só as palavras e as ideias do escritor, como ajudado a imortalizar o rosto e a figura do homem. Quando a saudade aperta, ponho a rodar o dvd, e ouço: “A minha biografia começa aqui – na rampa.” E sei que Vergílio Ferreira continua presente. Como presente e vivo se encontra no túmulo que olha a serra. Ele é um pouco da nossa imortal identidade. Cultural, artística, literária, geográfica, antropológica.
“Fade out” ou “fusão em negro”, enquanto se ouve em off o orador agradecer: “Muito obrigado a todos pela vossa simpática atenção, mas creiam que para mim é sempre um prazer recordar e falar de Vergílio Ferreira. Muito obrigado.”

Lauro António, Gouveia, 7 de Maio de 2009.

quinta-feira, maio 07, 2009

A GRIPE DOS "SUINOS"


Não sou muito dado a teorias de conspiração, a não ser na ficção policial. Mas tal como no caso das bruxas, “que las hay, las hay…”.

Aqui vão duas hipóteses de “teorias de conspiração”, recentemente cegadas via mail. Começa a haver para todos os gostos, mas com idêntica ganância lucrativa como fundo. De verdade?

TEORIA DA CONSPIRAÇÃO 1 (em espanhol)

INFO SOBRE LA SUPUESTA INFLUENZA - LA VERDAD DEL PLANETA

El pasado 2 de abril durante la reunión del grupo de G7 integrado por EU, R. Unido, Canadá, Alemania, Italia y Japón se dieron 2 conclusiones fundamentales.

1- La economía mundial necesitaba un cambio

2- El FMI. Destinaria 500,000 millones de dólares para ayudar a las economías emergentes, (países pobres dispuestos a colaborar) pues bien los dados estaban en el aire.

3- Luego vino la reunión privada del presidente Obama y Felipe Calderón el 16 y 17 de abril.

Sorpresivamente el jueves 23 de abril el presidente de México convoco a una reunión de emergencia con su gabinete, y por la noche el secretario de salud José ángel córdoba Villalobos anunciaba en cadena nacional la aparición del virus de la influenza, y las medidas inmediatas como la suspensión de las clases a todos los niveles en el DF y el estado de México.

El 24 de abril el G7 declara la economía mundial debería ponerse en marcha este año y que se lanzarían todas las acciones necesarias.

Finalmente lunes 27 de abril la empresa farmacéutica Sanofi Aventis anuncia que inyectara 100 millones de euros en una nueva planta de vacunas y donaría 236,000 dosis a México como apoyo al control de la enfermedad.

De todo lo anterior veamos lo siguiente:

1. Desde hace más de 2 años la industria farmacéutica a nivel mundial tenía problemas financieros por la baja en la venta de medicamentos.

2. Si no creas guerras crea enfermedades (la economía mundial debería ponerse en marcha)

3. México perfecto trampolín para lanzar la enfermedad, de aquí saldrían turistas a diferentes partes del mundo, curiosamente los países que reportan enfermos que estuvieron en México, y que están reforzando su cerco sanitario son los países que integran el G7 que raro.

Lo que pasara esta semana que viene. Muy probable la suspensión de actividades en todas las empresas del DF y Estado de México, ya las clases se suspendieron hasta el día 6 de mayo, donde el gobierno hará un análisis de la farsa y vera conveniente el que siga, o la declaración tan estudiada "gracias a las medidas que se tomaron a tiempo y el apoyo de la ciudadanía pudimos controlar la enfermedad"

4. Ponte a pensar de que se está hablando a nivel internacional ahora ¿del virus o de la crisis financiera?. Esto de antemano es un alivio para el banco mundial y las bolsas del mundo.

Distribuye este correo a todos tus contactos no se vale nos quieran ver la cara como lo han hecho en el pasado, (chupacabras, ovnis, leche contaminada etc.)

Y si puedes saca copias para la gente que no tiene internet, esta gente como siempre es la más afectada, mira los noticieros y las ventas de las farmacias se ha incrementado y el costo de los cubrebocas ya llego a 7 pesos imagínate las risas de quien esto orquesto al ver a la gente con cubrebocas.

Si alguien debate que con el paro México perdería mucho pues no, para eso es el fondo que destino el FMI, e imagínate las ganancias de la farmacéutica a nivel mundial, y como lo acaba de anunciar el Secretario de Economía de México por dinero no paramos para combatir la enfermedad, y por último los empresarios considerarían este paro un alivio y muchos vivales como siempre pagaran la mitad a sus empleados.

El presidente anuncio que la enfermedad es curable, y siempre nos manejan cifras a medias ¿donde están los muertos y donde están concentrados los enfermos?,

Yo anexo los siguientes puntos:

1. Si realmente es tan contagioso, ¿cómo y donde están las familias de los muertos?

2. Si la influenza porcina es una mutación del virus original de los cerdos, entonces el brote de la infección debería haber comenzado en el campo y no en la ciudades.

3. ¿Por qué no han mostrado una entrevista con algún enfermo? (he visto que entrevistan a familiares, diciendo que su familiar esta enfermo y que ya está estable gracias a los medicamentos, pero si el familiar ha estado en contacto directo con el virus que lo lógico no es que esté enfermo o en cuarentena?)

4. ¿Por qué no han dicho el nombre del retroviral que esta “curando” a la gente enferma?

P. Lucero

TEORIA DA CONSPIRAÇÃO 2 (em brasileiro)

A VERDADE SOBRE A GRIPE SUÍNA

Estão surgindo indícios de que a gripe suína teve origem em gigantescas fazendas industriais de criação de suínos. Inclua seu nome no abaixo-assinado pedindo que a Organização Mundial da Saúde e a Organização para a Agricultura e Alimentação investiguem e controlem essas ameaças a nossa saúde:
Mobilize-se agora

Ninguém sabe ainda se a gripe suína vai se tornar uma pandemia mundial, mas está ficando cada vez mais claro de onde ela veio: muito provavelmente de uma gigantesca fazenda industrial de criação de suínos mantida por uma corporação multinacional americana em Veracruz, México.

Essas fazendas industriais são repulsivas e perigosas e se multiplicam rapidamente. Milhares de porcos são brutalmente comprimidos para dentro de celeiros imundos e recebem um jato com um coquetel de drogas, pondo em risco sanitário mais do que simplesmente nossa alimentação. Esses animais e suas lagoas de estrume criam as condições ideais para gerar novos e perigosos vírus como o da gripe suína. A Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização para a Agricultura e Alimentação (FAO) precisam investigar e criar mecanismos de controle para essas fazendas a fim de proteger a saúde do mundo.

Grandes empresas de agronegócio tentarão obstruir qualquer tentativa de reforma, então precisamos de um protesto em massa que as autoridades de saúde não possam ignorar. Inclua seu nome neste abaixo-assinado pedindo uma investigação e controle de fazendas industriais e divulgue-o entre seus amigos e familiares, que nós o entregaremos aos órgãos da ONU. Se conseguirmos 200.000 assinaturas, entregaremos o abaixo-assinado à OMS, em Genebra, juntamente com um rebanho de porcos de papelão. Para cada 1000 assinaturas, acrescentaremos um porco ao rebanho:

http://www.avaaz.org/po/swine_flu_pandemic

Na semana passada, a gripe era o único assunto: o México tem estado quase em paralisia e em todo o mundo as autoridades suspenderam o tráfego aéreo, baniram as importações de carne de porco e iniciaram drásticas medidas de controle para atenuar a propagação do vírus. Enquanto a ameaça mostra sinais de apaziguamento, a questão se desloca para a origem e o modo de conter outro surto.

A Smithfield Corporation, maior produtor de suínos do mundo, cuja fazenda está sendo apontada como fonte do surto do vírus H1N1, nega qualquer ligação entre seus porcos e a gripe, enquanto grandes empresas de agronegócio em todo o mundo gastam enormes quantias de dinheiro em pesquisas para comprovar que a biossegurança é garantida na produção industrial de suínos. Porém, há anos a OMS tem dito que “uma nova pandemia é inevitável” e os especialistas da Comissão Europeia e da FAO têm alertado que a rápida transformação de pequenas propriedades em locais de produção industrial de porcos aumenta o risco de geração e transmissão de epidemias de doenças. Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA alertam que os cientistas ainda não conhecem todos os efeitos que os compostos contagiosos produzidos em fazendas industriais têm sobre a saúde humana.

Há inúmeros estudos sobre as condições atrozes em que vivem os porcos nesses ambientes de produção concentrada e de grande escala, e sobre o devastador impacto econômico da produção excessiva e de grande escala sobre as comunidades de pequenos agricultores. A própria Smithfield já foi multada em $12,6 milhões e atualmente é alvo de uma investigação do governo americano devido a danos tóxicos causados por lagos de excrementos de porcos ao meio ambiente.

Porém, mesmo com todos esses indícios de danos, a combinação do aumento do consumo mundial de carne e de uma indústria poderosa motivada pelo lucro às custas da saúde humana significa que em vez de serem encerradas, as operações nocivas dessas fazendas industriais estão se multiplicando em todo o mundo, subsidiadas por nós mesmos. No rastro dessa ameaça da gripe suína, vamos fazer com que os produtores industriais de suínos assumam sua responsabilidade. Inclua seu nome no abaixo-assinado para pedir investigação e controle:

http://www.avaaz.org/po/swine_flu_pandemic

Se dermos fim a essa crise sanitária mundial com coragem reavaliando nosso padrão de consumo e produção de alimentos e pedindo urgentemente um estudo sobre o impacto de fazendas industriais sobre a saúde humana, poderíamos criar regras severas de controle dessas fazendas que salvarão a população mundial de uma futura pandemia mortal de origem animal.

http://www.avaaz.org/po/swine_flu_pandemic

Com esperança,

Alice, Pascal, Graziela, Paul, Brett, Ben, Ricken, Iain, Paula, Luis, Raj, Margaret, Taren e toda a equipe da Avaaz

Leia mais:

BBC Brasil (28 de abril de 2009) -- "FAO investigará fazendas onde pode ter surgido gripe suína"
http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2009/04/090428_faogripe_ba.shtml

Estadao.com.br (28 de abril de 2009)-- "Gripe suína pode ter surgido em vila mexicana perto de granja"
http://www.estadao.com.br/noticias/vidae,gripe-suina-pode-ter-surgido-em-vila-mexicana-perto-de-granja,361806,0.htm

Blog da Terra (27 de abril de 2009) -- "FAO procura focos de novo vírus em criação de porcos"
http://blogdaterra.com.br/2009/04/27/fao-procura-focos-de-novo-virus-em-criacao-de-porcos/

segunda-feira, maio 04, 2009

CICLOS VERGILIANOS EM GOUVEIA

:

Vergílio Ferreira: Espaços e Circuitos

Programa:
DIA 7 DE MAIO

10hoo Recepção e entrega de documentação
10h30 Abertura oficial do Seminário - Anúncio do Prémio Literário Vergílio Ferreira, Consagração: Prémio promovido pelo município de Gouveia e Universidade de Évora.
11h15 Pausa para café
11h30 Prof. Hélder Godinho: "Os Espaços na Obra de Vergílio Ferreira"
12h30 Debate
13hoo Almoço
14h30 Testemunhos Vergílio Ferreira:
Moderadora: Professora Eunice Cabral
com a presença de: Dr. Alípio de Melo,
Drª Maria Eduarda Colares,
Dr. Liberto Cruz,
Cineasta Lauro António
e Prof. Dra. Cristina Robalo Cordeiro
16hoo Pausa para café
16h15 Prof. Dr. Gavillanes Laso
17h00 Debate
21h30 Concerto no Teatro Cine de Gouveia
pela Orquestra Ligeira de Gouveia

DIA 8 DE MAIO

10h00 Prof. Dra. Fernanda Irene Fonseca
11hoo Debate
11h15 Pausa para café
11h30 Prof. Dra. Rosa Maria Goulart
12h45 Síntese Final
13hoo Almoço
14h30 Partida para Melo com percurso pedestre

INSCRIÇÕES:
Custo de 10 €, grátis para estudantes.
Enviar para:
Ciclos Vergilianos
A/c da Drª Catarina dos Santos
Biblioteca Municipal Vergílio Ferreira
Praça de S. Pedro, nº5
6290-547 GOUVEIA
Informações: 238490230
www.cm-gouveia.pt

domingo, maio 03, 2009

sábado, maio 02, 2009

1 DE MAIO OU 1 DE ABRIL?

:

A “VERGONHA” DESTE 1º DE MAIO

Não me refiro só às agressões verbais e físicas ao Vital Moreira. Uma vergonha, sem qualificação, que alguns idiotas tentam “explicar”. “Explicar” o quê? Isso demonstra só o que a “unicidade sindical” pretendia (e pretende) para este País: a liberdade só para alguns. Uma forma de democracia muito praticada (e com que resultados!) no Leste Europeu.
Mas vergonha é ainda ver a mentira em todo o lado, este regabofe de injúrias, de intolerâncias, este fazer “política” sem olhar a meios, esta monstruosa união de direita e extrema esquerda a copiarem-se uns aos outros, a dizerem a mesma coisa, a esbaterem quaisquer diferenças, a camarada Manuela Ferreira Leite e o camarada Jerónimo de Sousa a alinharem pela mesma fraseologia, tudo contra o mesmo.
Estou a ler um livro brilhante de um especialista, John Kenneth Galbraith, “Crash 1929”, diz ele: “…não foi porque os homens sensatos tivessem percebido que se avizinhava uma depressão. Ninguém, sensato ou não, sabia ou sabe actualmente quando é que se aproximam ou não as depressões.” Mas aqui em Portugal todos tentam deitar a baixo José Sócrates porque não soube prever a tempo a crise internacional. O governo de José Sócrates poderá ter muitos defeitos (alguns terá certamente e não serei eu a ocultá-los ou defendê-los) mas esse não tem certamente. Insistir nisso, numa vertigem eleitoralista sem paralelo, é absolutamente injusto e contraproducente.
O que estes senhores todos demonstram é que o País não tem neste momento nenhum dirigente partidário com credibilidade e com fôlego para se opor a Sócrates. Nunca estivemos tão pobres de massa cinzenta na política visível deste País. Os políticos com alguma estatura afastaram-se, em todos os partidos, da “causa pública”. O que resta é este lamaçal comatoso que causa inquietação profunda. Basta recordar o que aconteceu à Europa depois da crise dos anos 30. Hitler, Mussolini, Franco, e outros tantos. Alguém estudou um pouco da I República portuguesa e da bandalheira que sentou Salazar em São Bento?
Alguém tem a sensatez de acabar com a manipulação fácil e a demagogia barata e chamar à razão o cidadão comum? Perdido no desemprego, na falta de qualquer segurança imediata ou a médio prazo, encurralado na visão deste discurso de um populismo imediatista, a que aspira o cidadão comum? A alguém que ponha os charlatães em sentido e imponha a ordem no sistema. É isso que pretendem?
Meus senhores, tenham juízo na cabeça e comecem a falar verdade ao País. Pelo menos deixem de nos mentir a todos. E nem todos somos tolos. Só alguns. Mas esses alguns podem colocar-nos a todos numa casa de loucos. ~
(na foto: um 1º de Maio para recordar, o de hoje é para esquecer.)

sábado, abril 25, 2009

25 DE ABRIL SEMPRE!!!

"A Cantiga é uma Arma", de José Màrio Branco, no Festival da Canção.

E ainda dizem que não valeu a pena o 25 de Abril?

Se calhar a burguesia não tinha a culpa, mas a festa foi bonita, pá!

25 ANOS (SEGUIDOS) DE SÓCIO

Hoje, dia 25 de Abril de 2009, de manhã,
recebi oficialmente o emblema de prata
do Sporting Clube de Portugal, de 25 anos de sócio.
Anos seguidos, pois tenho mais uns quantos que não contaram.
Gostei.

sexta-feira, abril 24, 2009

VAVADIANDO

:

VAVADIANDO COM LAURO MOREIRA
Texto dedicado aos Caros Amigos da tertúlia, e ali lido:
Um café é, sempre foi, tende a deixar de ser, mas há quem procure manter essa boa tradição, um lugar de encontro, de diálogo, de confraternização, de tertúlia. Durante esse tempo de encontro, fazem-se (e às vezes desfazem-se) amizades que se prolongam pela vida fora. No Vavá, este café a que me encontro ligado há quase 50 anos, desde o tempo da sua fundação, fiz uma boa parte da minha vida social (e até pessoal e íntima, aqui fiz e desfiz namoros, aqui almoço quase todos os dia, só, ou com a Eduarda, com o Frederico, agora também com a namorada do Frederico…).
Mas tudo isto para vos dizer que aqui fiz muitas e boas amizades. Uma delas partiu esta semana, e eu gostaria de a recordar muito rapidamente. O Aventino Teixeira, militar de Abril e de Novembro, conselheiro pessoal do General Eanes, habitual frequentador deste espaço durante anos a fio. Ligado ao MRPP, de início, depois aderente ao grupo de Melo Antunes, Aventino Teixeira era um espírito de uma acutilância crítica e de uma inteligência rara. Tivemos por aqui muitas conversas sobre política arrasadoras, foi ele que me convidou em nome do General Eanes, a integrar a Comissão de Honra da sua Recandidatura, foi através dele que convidei o Presidente Eanes a assistir à ante-estreia da Manhã Submersa numa das salas do Quarteto. Com ele que me divertia muitas vezes à hora do almoço com os mexericos do Procópio da noite anterior. Partiu sem eu o saber, li a notícia estupefacto na Visão, e não queria deixar de o recordar hoje aqui. Nesta sala que ele habitou em tertúlia quase diária à hora de almoço.
Estamos a dois dias das comemorações do 25 de Abril. Os mais velhos sabem que sem esse dia, nunca teriam existido, por exemplo, estas tertúlias. Existiam outras, que espontaneamente brotavam em cada mesa do velho Vavá, onde se falava a medo de política, onde se conspirava brandamente, onde o “reviralho” aquecia a esperança de transformações. Mas estas, que nos permitem ouvir e dialogar em liberdade, com Otelo Saraiva de Carvalho ou Marcelo Rebello de Sousa, baptista Bastos ou Lídia Jorge, Feytor Pinto ou Fernando Rosas, Iva Delgado ou Paulo Portas, Maria do Céu Guerra ou Raul Solnado ou Nicolau Breyner, estas nunca teriam sido possíveis sem o 25 de Abril, que aqui gostaria de recordar.
Há muita coisa mal no nosso País, há de certeza, como em todos os países do mundo. Mas estaríamos muito pior sem o 25 de Abril, não tenho dúvidas. E devo dizer-vos, ao contrário de muitos velhos do Restelo do bota abaixo nacional, que este é um belo país onde apetece viver, apesar de tudo poder ser melhor. Lutar por essa melhoria é a herança do 25 de Abril que todos nós teremos de ajudar a cumprir.
Mas queria dizer-vos mais: hoje é dia mundial do livro, temos connosco vários autores de livros, e temos um convidado brasileiro, que além de embaixador do Brasil junto da CPLP (Comunidade dos Povos de Língua Portuguesa), é ele próprio um embaixador da Língua Portuguesa e do Livro. A biografia de Lauro Moreira está resumida de forma muito sucinta no folheto que vos foi distribuído. Não está ai, porém, o seu amor à Cultura, em especial o seu amor à Poesia, à Música, ao Livro. Organizou em Lisboa dois eventos magníficos para dar a conhecer a obra de dois dos maiores escritores brasileiros de sempre (e não só brasileiros, mas da língua portuguesa, e da literatura mundial). Machado de Assis e Clarice Lispector. Continua a pugnar pela cultura lusófona e é um prazer tê-lo connosco, hoje, aqui.

segunda-feira, abril 13, 2009

VAVADIANDO COM LAURO MOREIRA

31 º J A N T A R D A T E R T Ú L I A
V Á . V Á . D I A N D O
23.ABRIL.2009
20,00 horas


VAMOS FALAR DE
“LUSOFONIA, POESIA E BRASIL”
CONVIDADO:
LAURO MOREIRA

(Embaixador do Brasil junto da CPLP)

Depois de RAÚL SOLNADO, FERNANDO DACOSTA, NUNO JÚDICE, TEOLINDA GERSÃO, IVA DELGADO, LÍDIA JORGE, MARIA DO CÉU GUERRA, EURICO GONÇALVES, PAULO PORTAS, LAURO ANTÓNIO, ROGÉRIO SAMORA, CARLOS DO CARMO, CELINA PEREIRA, OTELO SARAIVA DE CARVALHO, MARCELO REBELO DE SOUSA, IRENE PIMENTEL, PADRE FEYTOR PINTO, FERNANDO ROSAS, BÁRBARA GUIMARÃES, NICOLAU BREYNER, GONÇALO RIBEIRO TELLES, FRANCISCO MOITA FLORES, BAPTISTA BASTOS, ALICE VIEIRA, SÃO JOSÉ LAPA, INÊS LAPA LOPES, ANTÓNIO VICTORINO D’ALMEIDA, JOSÉ MANUEL ANES, ANTHÌMIO DE AZEVEDO CONTINUAM OS NOSSOS ENCONTROS, MANTENDO UMA TRADIÇÃO DE TERTÚLIA DO CAFÉ-RESTAURANTE VÁVÁ.

ENTRADA: 17,5 EUROS POR PESSOA. COM DIREITO A ENTRADAS, SOPA, UM PRATO DO DIA, PEIXE OU CARNE, SOBREMESA, BEBIDA (VINHO É O DA CASA!) E CAFÉ. EXTRAS POR CONTA DO FREGUÊS.


[ LOTAÇÃO LIMITADA A 50 CADEIRAS. ACEITAM-SE INSCRIÇÕES NO BALCÃO DO VÁVÁ. ]
Para informações e marcações de lugares:
LAURO ANTÓNIO - Blogue Va.Va.diando (http://vava-diando.blogspot.com/][mail: laproducine@gmail.com]
RESTAURANTE - CAFÉ VÁVÁ AV. EUA, Nº 100 - 1700-179 – LISBOA (TELF 21.7966761).

LAURO MOREIRA

Embaixador Lauro Barbosa da Silva Moreira nasceu em Anápolis, Estado do Goiás, Brasil, em 1940. É licenciado em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUCRJ). Ingressou no serviço diplomático em 1965, tendo nesse mesmo ano integrado o Grupo de Coordenação com os Países Socialistas da Europa de Leste (COLESTE), na qualidade de Secretário Executivo Adjunto. Serviu em postos diplomáticos em Buenos Aires, Genebra, Washington, Barcelona e Marrocos, além de chefiar a Divisão de Difusão Cultural e, mais tarde, o Departamento Cultural do Itamaraty. De 1981 a 1983 foi Director Superintendente da Trading Company COMEXPORT (em São Paulo) e Presidente da firma de consultoria Lauro Moreira & Castro. Em 1997 foi nomeado Presidente da Comissão Nacional para as Comemorações do V Centenário do Descobrimento do Brasil e Presidente, ainda, da Comissão Executiva Bilateral Brasil/Portugal para as Comemorações do Descobrimento do Brasil. Em 2003 foi Director da Agência Brasileira de Cooperação. É, desde 2006, o Representante Permanente do Brasil junto da CPLP.
Para além das suas actividades profissionais de diplomata de carreira, foi sempre um militante da causa cultural e artística, dedicando-se às artes cénicas (actor, director e autor), ao cinema (documentarista) e à fotografia (premiado em concursos nacionais). Em todos os postos diplomáticos por onde passou dedicou-se à promoção das artes e da cultura brasileiras, sobretudo da música e da poesia em língua portuguesa, proferindo palestras, escrevendo textos e organizando recitais. Em 1998 lançou o CD duplo Mãos Dadas, onde interpreta poetas de todos os países de língua portuguesa e, em 2005, gravou o álbum Manuel Bandeira: o poeta em Botafogo. Criou também o grupo Solo Brasil para apresentar o que há de mais representativo na música brasileira do século XX. O grupo já esteve em 16 países, alcançando sempre um marcante sucesso.Recebeu as seguintes distinções honoríficas: Do Brasil, Medalha do Mérito da Marinha do Brasil (1984), Medalha do Mérito Santos Dumont (1985); Comendador da Ordem do Mérito Militar (1999); Grã-Cruz da Ordem do Rio Branco (1999) e Grã-Cruz da Ordem do Anhanguera do Estado de Goiás (2000); de Portugal, Grã-Cruz da Ordem do Infante.

sábado, abril 11, 2009

COM VOTOS DE BOA PÁSCOA

:

TRÊS "OVOS DE PÁSCOA" PARA
AS AMIGAS E OS AMIGOS DA BLOGOSFERA

(Duas cantigas de “amor” e uma de “maldizer” certas existências,
nesta "bloglândia" por vezes tão filatelista)

REFERÊNCIA
(Maria Teresa Horta)

Quantas vezes te digo
quantas vezes...
que és para mim
o meu homem amado?

O que chega primeiro
e só parte, por vezes
antes de eu perceber
que já tinhas voltado

Quantas vezes te digo
quantas vezes...
que és para mim
o meu homem amado?

Aquele que me beija
e me possui,
me toma e me deixa
ficando a meu lado

Quantas vezes te digo
quantas vezes...
que és para mim
o meu homem amado?

Que sempre me enlouquece
e só aí percebo
como estava perdida
sem te ter encontrado

PRINCÍPIOS
(Nuno Júdice)

Podíamos saber um pouco mais
da morte. Mas não seria isso que nos faria
ter vontade de morrer mais
depressa.

Podíamos saber um pouco mais
da vida. Talvez não precisássemos de viver
tanto, quando só o que é preciso é saber
que temos de viver.

Podíamos saber um pouco mais
do amor, Mas não seria isso que nos faria deixar
de amar ao saber exactamente o que é o amor, ou
amar mais ainda ao descobrir que, mesmo assim, nada
sabemos do amor.

ZEITGEIST
(Fernando Pino do Amaral)

Os meus contemporâneos falam muito
e dizem: “Então é assim”,
com o ar desenvolto de quem se alimenta
do som da própria voz, quando começam
a explicar longamente as actuais tendências
das artes ou das letras ou das sociedades
a pouco e pouco iguais umas às outras
neste primeiro mundo em que nascemos,
agora que o segundo deixou de existir
e que o terceiro, mais guerra, menos fome,
continua abstracto, em folclore distante.

Parece que está morta a metafísica
e que a verdade adormeceu, sonâmbula,
nos corredores vazios, onde às escuras
se vão cruzando alguns milhões de frases
dos meus contemporâneos. Todavia,
falam de tudo com o entusiasmo
de quem lança «propostas» decisivas
e percorre as «vertentes» de novos caminhos
para a humanidade, enquanto saboreiam
a cerveja sem álcool, o café
sem cafeína e sobretudo
o amor sem amor, pra conservarem
o equilíbrio físico e mental.

Os meus contemporâneos dizem quase sempre
que não são moralistas, e é por isso
que forçam toda a gente, mesmo quem não quer,
a ser livre, saudável e feliz:
proíbem o tabaco e o açúcar
e se por vezes sofrem, tomam comprimidos
porque a alegria é uma questão de química
e convém tê-la a horas certas, como
o prazer vigiado por preservativos
e outros sempre obrigatórios cintos
de segurança, pra que um dia possam
sentir que morrem cheios de saúde.
Quando contemplo os meus contemporâneos
entre as conversas trendy e os lugares da moda,
«tropeço de ternura», queria ser
pelo menos tão ingénuo como eles,
partilhar cada frémito dos lábios,
a labareda vã das gargalhadas
pela madrugada fora. No entanto,

assedia-me a acédia de ficar
assim, mais preguiçoso do que um Oblomov
à escala portuguesa — ó doce anestesia
a invadir-me o corpo, a libertar-me
desse feitiço a que se chama o “espírito
do tempo” em que vivemos, sob escombros
de um céu desmoronado em mil pequenos cacos
ainda luminosos, virtuais
estrelas que se apagam e acendem
à flor de todos os écrans
que os meus contemporâneos ligam e desligam
cada dia que passa, nunca se esquecendo
de carregar nas teclas necessárias
para a operação “save”
e assim alcançarem a eternidade.

in, Colecção “Poesia e Prosa” Ed. Publicações Dom Quixote, Visão, Lisboa 2009
Ao preço de 50 cêntimos cada (e ainda dizem que o livro está caro!).
Nesta colecção de 8 volumes, Nuno Júdice, Maria Teresa Horta, Fernando Pinto do Amaral, Mário Cláudio, Manuel Alegre, Mia Couto, João de Melo e Ondjaki. A não perder.

quinta-feira, abril 09, 2009

CINEMA: GRAN TORINO

:
UMA (QUASE) OBRA-PRIMA
Clint Eastwood teve, nos seus tempos de actor iniciado, dois belíssimos mestres, Don Siegel e Sergio Leone. Depois começou o seu próprio percurso como realizador, herdando de um e outros certas características, mas criando um caminho muito pessoal. Homem de visão conservadora e de estilo clássico, enveredou por um tipo de cinema que, oscilando entre o policial e o western, se podia colocar entre o mais reaccionário americanismo, algo racista e mesmo um pouco afascistizado, sobretudo nas aventuras do “justiceiro” “Dirty Harry”. Já então, todavia, excelente realizador e brilhante actor. Conservador continua, americano até à medula também, excelente realizador e brilhante actor igualmente, refinando com o passar dos anos. Insurgi-me (e insurjo-me hoje em dia) com a mentalidade Dirty Harry, mas este cineasta conquistou-me completamente.
“Gran Torino” não sei se será uma obra-prima ou não, sei que é um dos grandes filmes que vi recentemente (acrescentando que não há muito também vira “A Troca”, que me deixara igualmente emudecido pela grandeza do porte ético deste homem que sabe lidar como poucos com as emoções extremadas e com o que de mais profundo e secreto existe na alma humana).
Com argumento de Nick Schenk, sobre história sua e de Dave Johannson, “Gran Torino” tem como protagonista Walt Kowalski (Clint Eastwood), veterano da Guerra da Coreia, que nos é apresentado de forma magistral no velório da mulher, onde grunhe de desaprovação perante os piercings e o telemóvel da neta e os impropérios de um outro neto. Kowalski, assim mesmo para os que não são seus amigos, é homem de outros tempos e de outras maneiras. Não gosta do comportamento dos filhos e demais família, no que tem razão, diga-se em abono da verdade, não é preciso ser conservador, racista e reaccionário, vive sozinho numa vivenda de um bairro de Detroit invadido por orientais e latino americanos, infestado por bandos de jovens violentos e desbragados. Não tolera que os americanos actuais comprem carros japoneses, ele que trabalhou na Ford e conserva como relíquia o “Gran Torino”, modelo de 1972, que ele próprio ajudou a montar. Não conserva só o carro, símbolo que dá o nome ao filme, conserva também armas e relíquias da guerra da Coreia, onde matou e viu morrer, em nome da pátria e da sobrevivência.
Kowalski é um duro, daqueles de antes quebrar que torcer. O espírito de Dirty Harry anda por ali e pensamos mesmo que pode ir até ao fim, mas o fim será outro, e com esta obra Clint Eastwood parece ter assinado o seu testamento (ainda que não tenha arrumado as botas, já está na África do Sul a filmar “The Human Factor”, com argumento de Anthony Peckham, segundo romance de John Carlin, que fala de Nelson Mandela e da forma como este lutou contra o “apartheid” e conseguiu unir o seu país, durante o campeonato do mundo de rugby de 1995). Um testamento que reforça o que acha justo e contrapõe algumas ideias à sua imagem de justiceiro por conta própria ou de proto-racista. O que o leva mesmo a dizer como é possível gostar mais destes “hmongs” (refugiados vietnamitas de uma etnia do sudeste da Ásia, que combateu no Vietname ao lado dos americanos) do que da própria família. Mas a verdade é que se não escolhe a família, mas se pode escolher quem nos trate por Walt. Portanto, o filme é uma longa (ou rápida) aprendizagem da vida e dos seus valores, que tanto pode ser levada a cabo por um duro americano de 78 anos, como por um adolescente “hmong”.
A personagem de Kowalski é admiravelmente composta por Clint Eastwood, num misto de herói solitário e de velho marreta (o humor está sempre presente neste retrato de amargo ressentimento e de apego à vida) que oscila entre a figura enraivecida de uma desencantada ruína dos anos 70 que aponta uma arma à cabeça de um gang de facínoras e a desenvolta personagem de um familiar cliente de barbeiro, com quem troca insultos de fraterna cumplicidade (a iniciação do jovem “hmong”, que deve entrar na barbearia como um “homem”, é divertidíssima, e mostra bem a faceta de humor deste cineasta).
De resto, “Gran Torino” é uma lição de cinema, sereno, vigoroso, profundo, dramático, angustiante, perverso e inocente, maduro, clássico e moderno. Cinema que apetece ver e ficar a apreciar durante dias, sonhando recordá-lo anos depois.
O que faz a grandeza de certos Homens que nos fazem ultrapassar todas as barreiras? 53 anos como actor, 37 como realizador, vários Oscars, dezenas de prémios nos maiores festivais, alguns dos melhores filmes do mundo, uma silhueta inesquecível e inimitável, um nome que se venera – Clint Eastwood!
GRAN TORINO
Título original: Gran Torino
Realização: Clint Eastwood (EUA, Austrália, 2008); Argumento: Nick Schenk, Dave Johannson; Produção: Clint Eastwood, Bill Gerber, Jenette Kahn, Robert Lorenz, Tim Moore, Adam Richman; Música: Kyle Eastwood, Michael Stevens; Fotografia (cor): Tom Stern; Montagem: Joel Cox, Gary Roach; Casting: Ellen Chenoweth; Design de produção: James J. Murakami; Direcção artística: John Warnke; Decoração: Gary Fettis; Guarda-roupa: Deborah Hopper; Maquilhagem: Tania McComas; Direcção de Produção: Tim Moore; Assistentes de realização: Peter Dress Michael Judd, Donald Murphy; Departamento de arte: Kai Blomberg, Steven Ladish, Scott Schutzki; Som: Bub Asman, Walt Martin, Alan Robert Murray; Efeitos especiais: Hank Atterbury, Steve Riley; Efeitos visuais: Kelly Port; Companhias de produção: Matten Productions, Double Nickel Entertainment, Gerber Pictures, Malpaso Productions, Media Magik Entertainment, Village Roadshow Pictures, Warner Bros.;
Intérpretes: Clint Eastwood (Walt Kowalski), Christopher Carley (padre Janovich), Bee Vang (Thao Vang Lor), Ahney Her (Sue Lor), Brian Haley (Mitch Kowalski), Geraldine Hughes (Karen Kowalski), Dreama Walker (Ashley Kowalski), Brian Howe (Steve Kowalski), John Carroll Lynch (barbeiro Martin), William Hill (Tim Kennedy), Brooke Chia Thao (Vu), Chee Thao (avó), Choua Kue (Youa), Scott Eastwood (Trey), Xia Soua Chang, Sonny Vue, Doua Moua, Greg Trzaskoma, John Johns, Davis Gloff, Thomas D. Mahard, Cory Hardrict, Nana Gbewonyo, Arthur Cartwright, Austin Douglas Smith, Conor Liam Callaghan, Michael E. Kurowski, Julia Ho, Maykao K. Lytongpao, Carlos Guadarrama, Andrew Tamez-Hull, Ramon Camacho, Antonio Mireles, Ia Vue Yang, Zoua Kue, Elvis Thao, Jerry Lee, Lee Mong Vang, Tru Hang, Alice Lor, Tong Pao Kue, Douacha Ly, Parng D. Yarng, Nelly Yang Sao Yia, Marty Bufalini, etc.
Duração: 116 minutos; Distribuição em Portugal: Zon Lusomundo; Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal: 12 de Março de 2009.

segunda-feira, abril 06, 2009

LEONARD COHEN: LIVE IN LONDON

:

Leonard Cohen: "I' m your Man"
Tem-se ouvido (e visto), cá por casa, com agrado, o DVD de Leonard Cohen em Londres. Mais de duas horas de um reportório que fez História na música das últimas décadas, e onde se encontram alguns dos "musts" do cantor, poeta e compositor canadiano, nascido em Montreal no ano de 1934. Tudo nele é uma marca expressiva de um estilo próprio, da voz ao lirismo das palavras, da apresentação em palco á temática (por onde passa religião, pacifismo, amor e sexo, cidadania ou poder prepotente).
Leonard Norman Cohen. que começou a carreira de cantor tarde (“Songs of Leonard Cohen”, de 1967, foi um acontecimento que o projectou internacionalmente), conta com uma dúzia de álbuns, passou por Lisboa no ano passado, actuando no Passeio de Algés, e vai voltar dia 30, agora ao Pavilhão Atlântico, em Lisboa.
Não sei se me apetece um recinto como esse para ouvir Cohen. Não sei se não prefiro o ecrã do televisor e este registo de um concerto dado em Londres, “Live in London”, por acaso nada mal gravado, captando bem, e de forma discreta, o intimismo de uma comunicação que se quer perto.


If you want a lover
I'll do anything you ask me to
And if you want another kind of love
I'll wear a mask for you
If you want a partner
Take my hand
Or if you want to strike me down in anger
Here I stand
I'm your man

If you want a boxer
I will step into the ring for you
And if you want a doctor
I'll examine every inch of you
If you want a driver
Climb inside
Or if you want to take me for a ride
You know you can
I'm your man

Ah, the moon's too bright
The chain's too tight
The beast won't go to sleep
I've been running through these promises to you
That I made and I could not keep
Ah but a man never got a woman back
Not by begging on his knees
Or I'd crawl to you baby
And I'd fall at your feet
And I'd howl at your beauty
Like a dog in heat
And I'd claw at your heart
And I'd tear at your sheet
I'd say please, please
I'm your man

Dance me to your beauty with a burning violin
Dance me through the panic 'til I'm gathered safely in
Lift me like an olive branch and be my homeward dove
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love

Oh let me see your beauty when the witnesses are gone
Let me feel you moving like they do in Babylon
Show me slowly what I only know the limits of
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love

Dance me to the wedding now, dance me on and on
Dance me very tenderly and dance me very long
We're both of us beneath our love, we're both of us above
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love

Dance me to the children who are asking to be born
Dance me through the curtains that our kisses have outworn
Raise a tent of shelter now, though every thread is torn
Dance me to the end of love

Dance me to your beauty with a burning violin
Dance me through the panic till I'm gathered safely in
Touch me with your naked hand or touch me with your glove
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love

quinta-feira, abril 02, 2009

NA CASA FERNANDO PESSOA




CLARICE LISPECTOR E O CINEMA

Para abordar o tema “Clarice Lispector e o Cinema” vou ater-me essencialmente a duas obras desta escritora: “Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres” (1969) e “A Hora da Estrela” (1977). As razões são diversas. Primeiro, não conheço toda a obra de Clarice Lispector e entre os títulos que melhor conheço estão estes dois, que reli agora; segundo, ambos me parecem paradigmáticos de dois aspectos fulcrais desta relação da obra de Lispector com o cinema. Uma relação de contaminação intensa e de dificuldade extrema na passagem de uma narrativa para outra.
Coisa singular: encontro a escrita de Clarice Lispector muito influenciada pelo cinema e vejo uma dificuldade quase total em verter a escrita de Clarice Lispector em cinema. Acho “Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres” uma obra muito cinematográfica. Revejo “A Hora da Estrela” num belíssimo filme de Suzana Amaral (1985) e não encontro nele senão resquícios do romance de Clarice Lispector.
Vamos então por partes, resumindo muito o essencial: literatura e cinema possuem duas estruturas narrativas diferentes. Adaptar um romance ao cinema não é ilustrá-lo, mas sim recriá-lo. Em princípio, quando se adapta uma obra literária, na base dessa adaptação está uma opção que quase sempre se reconhece numa escolha por admiração e identificação: o realizador admira e identifica-se com a obra que adapta, fazendo-a sua. Há algumas outras razões para adaptações deste tipo, mas as mais vulgares são estas.
Quando adaptei ao cinema “Manhã Submersa”, de Vergílio Ferreira, as razões foram essas: admiração pela obra, identificação com o seu espírito, com o tom da escrita, com o sentir e as intenções do autor.
Tal como quem ergue um argumento de cinema partindo de factos reais, o argumentista de cinema faz da obra que adapta uma realidade pré-existente que molda segundo a sua leitura, a sua perspectiva, o seu sentir, o seu olhar. A obra escrita organiza-se de uma determinada forma, a cinematográfica irá obedecer a uma outra arquitectura. Os signos são diferentes, a ordem por que se estruturam obedece a regras diversas. Será necessário controlar duas escritas, não copiar uma na outra, mas reinventar uma na outra. Se se quiser ser fiel à primeira. Mas fidelidade aqui não é nunca mimetismo. Muito pelo contrário: muitas vezes, quando mais livre é uma da outra, melhor serão os resultados, para se atingirem metas semelhantes.
Ao adaptar um romance ao cinema, muitas vezes há que cortar, deslocar, condensar, inventar. O que é dito por palavras num romance pode não aparecer ilustrado tal e qual numa situação visual, mas sim num pequeno apontamento recriado numa nova ordem. Uma descrição de muitas palavras pode ser sugerida numa pequena imagem. Pelo contrário, uma palavra ou uma frase podem necessitar de uma sequência no cinema.
Há quem procure recuperar um estilo, há quem desista do estilo do original, que não é o seu, e imponha este sobre o do autor que adapta. Há quem agarre num romance de trezentas páginas, e escolha vinte para repovoar num outro universo, o do cineasta. Há quem pegue numa obra anónima e insípida e a transforme numa obra-prima de cinema, e quem destrua um marco da literatura numa xaropada audiovisual sem ponta por onde se pegue. Há momentos de felicidade e inspiração que prolongam em imagens magníficas palavras inesquecíveis. Cada um de nós se lembrará de exemplos que elucidem o que atrás tento descrever. Nestas áreas de contaminação artística tudo é possível. Literatura, cinema, teatro, artes plásticas, música, arquitectura interpenetram-se sem fronteiras, sobretudo desde meados do século passado, quando essa tendência da especificidade das linguagens deu origem a uma miscigenação que tudo admite e muitas vezes instiga.
Reli há dias um dos romances de Clarice Lispector que mais me fascina: “Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres”. Peguei nele e iniciei a leitura sem relembrar o ano da sua escrita. Deliberadamente. Li cada página e à medida que as páginas se iam somando, deu-se uma curiosa sensação que se foi cimentando. Recordei “O Último Ano em Marienbad”, de Resnais, vieram-me à lembrança romances e filmes de Marguerite Duras e Alain Robbe-Grillet (sobretudo de Marguerite Duras), não esquecia Antonioni, de “A Noite”, “A Aventura”, “O Eclipse” ou “Deserto Vermelho”.
Acabada a leitura, fui confrontar datas. O romance era de 1969, os filmes quase todos anteriores. Nada me garante que Clarice Lispector os tivesse visto, mas tenho quase a certeza que sim, ela que era uma cosmopolita que viajava entre Nova Iorque e a casa no Leme, passava por Itália, Suíça, Paris e pela Polónia.
O neo-realismo da primeira fase dos anos 40 tinha dado origem a outros realismos, e sobretudo a uma arte algo desiludida com a identificação directa com os problemas sociais e com ideologias que propunham “homens novos” que afinal nada tinham de novo.
Clarice Lispector é ainda mal vista por aqueles que não tinham abandonado esses ditames, exigia-se-lhe um ingénuo comprometimento com a realidade política e social, e ela sentia uma literatura nova, mais livre, nem por isso menos angustiada. Não errarei muito se a pressentir admiradora de Simone de Beauvoir e de uma certa ideia do existencialismo, e sobretudo muito próxima do “nouveau roman”. Não errarei nada se a vir ligada a movimentos de libertação da mulher, mas movimentos profundos e enraizados em sólidas convicções e sentires.
Lendo “Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres”, a influência do cinema que então se fazia na Europa é-me mais que evidente. Sobretudo ao nível da estrutura da linguagem, a ruptura com o romanesco tradicional, o prazer na utilização da palavra, o ritmo da frase, a repetição, a melopeia, a criação de um clima de uma sensualidade extrema pela voluptuosa exaltação da palavra. “A palavra é o meu domínio sobre o muno”, dirá. Mas se a influência da Europa parece evidente, o espírito do Brasil, de um certo Brasil nordestino, mas também carioca, nunca deixa de ser a terra fértil sobre que assenta toda a estrutura da obra de Clarice.
Nascida na Ucrânia, mas brasileira por formação, a escrita de Lispector é moderna, vanguardista, antecede e acompanha a explosão do Cinema Novo, mas nunca deixa de ser original, sinceramente pessoal e intransmissível, única, cosmopolita, nordestina, urbana e europeia, numa palavra: universal.
Que o diga “Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres”. A estória quase não existe.
Lóri mora num apartamento de Ipanema. Veio de Campos, de família rica, mas escolheu a solidão e o ordenado de professora primária. Uma vida adiada, como tantas em Lispector. Adepta de cartomante, respeitadora de Deus, encontra Ulisses, professor de filosofia numa faculdade. Homem paciente, que sabia dominar o desejo e ensinava a Lóri o prazer da aprendizagem. Encontram-se raramente, ela tem dúvidas sobre si e os outros, sobre assumir ou não, umas quantas vezes falam ao telefone, até ao dia em que a aprendizagem parece estar pronta. Aprender por si própria a “ser eu”, a viver, a ter prazer na vida. E no amor. E na dor.
Estranho romance este, que começa com uma vírgula e termina em dois pontos. Uma vida toda pela frente, é certo. E a descoberta do amor.
Em Clarice Lispector o essencial é a palavra e o prazer em manuseá-la. Mas também os conceitos, cada frase uma máxima a merecer reflexão e citação. Aqui relembra-me a nossa Agustina, na escrita solta e livre, no gosto pelos aforismos, e sobretudo em algo em que ambas são únicas: este tipo de literatura facilmente pode cair na snobeira e na arrogância, mas Lispector “escreve simples”, escreve enxuto e sem efeitos, escreve na linguagem coloquial de todos os dias, apenas a estrutura das suas obras é complexa, mas de uma complexidade que sentimos brotar directamente das entranhas desta escritora aristocrática no porte, distante no discurso, de cintilante olhar de raposa, grega no perfil, que transmite uma inteligência fulgurante e uma sensibilidade vulcânica envoltas numa serenidade majestática que impressiona quem a vê.
Basta olhar a entrevista que concedeu em 1977, pouco tempo antes da sua morte, à TV Cultura. Todos os filmes que vi retirados de obras de Clarice Lispector, não lhe fazem justiça, ainda que quase todos, curtas e longas metragens, me parecem merecer destaque especial, havendo mesmo um, “A Hora da Estrela”, de Suzana Amaral, de 1985, que se aproxima muito da obra-prima. Mas, sendo um filme excelente, uma das obras mais marcante da história do cinema brasileiro, “não é” toda a Clarice Lispector, é uma intriga idealizada por Clarice Lispector e recriada de forma brilhante por uma outra personalidade que a trabalha cinematograficamente de forma diversa.
Creio, porém, que adaptar Clarice Lispector ao cinema, mantendo os valores estruturais da sua criação literária, é (quase) impossível. A construção das suas obras é labiríntica e mantém um diálogo quase permanente entre a escritora, as personagens e o leitor. Este desdobrar de campos narrativos ou de níveis expositivos não facilita a adaptação.
Atentemos no caso de “A Hora da Estrela”. Antes de mais, assinale-se a presença de uma personagem-narrador, escritor, homem, que todavia se identifica obviamente com Clarice Lispector-escritora, que inventa treze títulos para a mesma obra. Treze títulos poderia representar apenas um efeito, mais ou menos gratuito, uma “private joke”, mas na realidade não o é: são treze enfoques diversos, complementares, uma forma de mostrar que o que se vai ler tem múltiplas leituras. O que é verdade.
O narrador, “eu, Rodrigo S. M.” (na verdade Clarice Lispector, anuncia a escritora na dedicatória da obra), afirma: “Proponho-me a que não seja complexo o que escreverei, embora obrigado a usar as palavras que vos sustentam. A história – determino com falso livre arbítrio – vai ter uns sete personagens e eu sou um dos mais importantes deles, é claro.”
A assim será: o narrador não só relata a história das desventuras de Macabéa, uma nordestina no Rio de Janeiro, como vai muito mais longe: fala de si próprio, do ofício de escritor, comenta a acção que descreve, distancia-a ou aproxima-a do leitor, dirige-se a este, enfim, cria uma teia de observações que o torna omnipresente e omnisciente.
Ele é o escritor que comanda a estória e a faz evoluir no sentido que pretende, mas é simultaneamente o autor que se anula, ao anunciar-se enquanto tal. Ao tornar claro o processo criativo.
O romance é assim uma obra de um complexidade extrema, que o leitor tem de acompanhar com uma invulgar atenção, para saber sempre – se é que o consegue – qual o nível da narrativa, se a descrição da estória, se o seu comentário irónico, se a auto-avaliação do escritor, se Nordeste, se Rio, se a ingenuidade de Macabéa é dela só, se retrato de um Brasil que migra e se suicida, se a dor de dentes de Macabéa é fingida para arrolar um dia de folga ou se corresponde às aspirinas que toma para controlar esse mal estar geral que vem de dentro de si, inlocalizável. “Não se trata apenas de narrativa, é antes de tudo vida primária que respira, respira, respira”, volto a citar Rodrigo S. M.
Esta proposta do narrador foi por completo (e deliberadamente) ignorada por Suzana Amaral, que abandonou o relato na primeira pessoa do singular e optou por um relato desde sempre na terceira pessoa do singular, contando, é certo de forma austera e rigorosa, a vida de Macabéa. Mas este desdobrar de olhares, esta invectiva ao leitor, este desenrolar de textos sobre textos, esta metalinguagem perde-se e, no entanto, é um dos pontos essenciais deste romance.
Curiosamente, o romance sofre obviamente forte influência da montagem cinematográfica, com os seus contínuos “flashbacks”, que alternam passado e presente, que recusam a ordem linear da narrativa.
Escrito como vimos em 1977, “A Hora da Estrela”, último romance de Clarice Lispector é simultaneamente a despedida da escritora, que morre pouco depois. Macabéa é um retrato fragmentado de uma mulher, uma alagoana órfã, que vive só, depois da morte dos pais, depois de ter sido criada por uma tia despótica que lhe batia na cabeça e lhe arranjou um lugar de dactilógrafa, que executa mal, por um ordenado abaixo do ordenado mínimo, que a leva a comer cachorro quente e Coca Cola a todas as refeições.
Ouve a Rádio Relógio que lhe fornece anúncios, informações horárias e pequenas efemérides culturais. É virgem, sente um calor pecaminoso pelo corpo, acha a vida bela, mas pressente a morte, não sabe quem é e por que vive (pergunta-se mesmo que é “ser eu”?), tem um olhar de princípio de mundo e um destino traçado na ponta da estrela de um Mercedes Benz. Quer ser artista de cinema, acha que Marilyn é cor-de-rosa e esta história “é escrita na hora mesma em que é lida, como explica Rodrigo, isto é Clarice Lispector. Uma história de vida adiada e de morte anunciada.
"Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens", diz Rodrigo. Por isso se identifica com Macabéa, e com ela morre.
Muito de todo este novelo ficcional se perde no filme. Resta a vida de Macabéa, descrita de uma forma linear, num estilo discreto, seco, com um lirismo forte, mas contido, sem floreados de qualquer espécie. Aí sim, Suzana Amaral respeita o tom de Clarice Lispector, sustenta a ironia, aprofunda a psicologia das personagens, mantém as obsessões temáticas da escritora: o retrato da mulher e da sua condição num mundo dominado pelo homem, o mistério da vida e da morte, a busca do amor e a descoberta da sexualidade, a inocência ofendida no seu confronto com uma realidade social inóspita, o diálogo com o desconhecido, a religião (e a cartomancia), sobretudo a procura do significado do “eu”.
Macabéa, que tem 19 anos, nunca teve namorado ou homem dito seu. Cruza-se com Olímpico de Jesus Moreira Chaves, "metalúrgico", e não “operário”, vindo da Paraiba, onde deixou para trás o cadáver de quem se lhe opôs.
Ele chama-a de “senhorinha” e convida-a a dar um passeio. Diz ser forte e muito inteligente e ter um destino a cumprir, ser talvez deputado. Adorava ver sangue, e sonha ser toureiro. Detesta ser encostado à parede, e tem sempre resposta pronta para o que não sabe: “Na Rádio Relógio disseram uma palavra que achei meio esquisita: “mimetismo”, fala Macabéa. Ao que Olímpico contrapõe: “Isso é lá coisa para moça virgem falar?”
O namoro termina rápido quando Glória, a companheira de escritório, moça sabida, frequentadora de cartomante, se interpõe entre os dois. Macabéa, que não sabe revoltar-se e pede desculpa de todas as ofensas de que é vítima, parece ultrapassar a tristeza que sente, vai também ela à cartomante, que lhe troca as voltas e lhe inventa um príncipe encantado que será afinal o seu matador. “Grávida de um futuro” que não terá, é atropelada por um carro na sua “Hora da Estrela”. “Hoje, pensa ela, hoje é o primeiro dia de minha vida: nasci.” É na morte que se assume “eu”: “Eu sou, eu sou, eu sou, eu sou”.
Tal como Clarice Lispector, ela afirma: “Eu vou ter tanta saudade de mim, quando morrer.”
Tendo na sua obra tanto das estruturas cinematográficas, nunca encontrou no cinema (até hoje) réplica da complexidade dessa construção literária. Muito embora, num registo diverso, Suzana Amaral, inspirando-se na “Hora da Estrela”, tenha concebido um filme admirável, que restitui muito das personagens, situações e clima do romance. Mas neste inesgotável universo da contaminação das linguagens o que está certo ou o que está errado?
Fica a certeza de que o romance de Clarice Lispector é um torrencial rio de leituras plurais e o filme de Suzana Amaral é outro perfeito objecto artístico de novas interpretações.
E fica ainda uma última convicção: a de que a obra de Clarice Lispector não deixará de justificar novas aproximações da parte de cineastas apaixonados pela sua criação inesgotável e pelo seu talento que ninguém conseguirá aprisionar ou conter.
Lauro António, Lisboa, Casa Fernando Pessoa, 2 de Abril de 2009.
FILMES RETIRADOS DE OBRAS DE CLARICE LISPECTOR OU SOBRE A ESCRITORA:

PERTO DE CLARICE
Título original: Perto de Clarice
Realização: João Carlos Horta (Brasil, 1982); curta-metragem.

A ESTRELA NUA
Título original: A Estrela Nua
Realização: José Antonio Garcia, Ícaro Martins (Brasil, 1984); Argumento: José Antonio Garcia, Ícaro Martins, segundo história de Clarice Lispector; Produção: Ary Fernandes, Adone Fragano; Música: Arrigo Barnabé; Fotografia (cor): Antonio Meliande; Montagem: Eder Mazzini; Design de produção: Oswaldo Afonso Mesquita Filho; Guarda-roupa: Emilia Duncan; Maquilhagem: Vavá Torres; Direcção de Produção: Geraldo José Martinho Filho; Assistente de realização: Paulo José Correa; Companhias de produção: Olymbus Filmes; Intérpretes: Cristina Aché, Patricio Bisso, Carla Camurati, Selma Egrei, José Antonio Garcia, Ícaro Martins, Jardel Mello, Cida Moreira, Ricardo Petráglia, Vera Zimmerman, etc. Duração: 90 minutos.

A HORA DA ESTRELA
Título original: A Hora da Estrela
Realização: Suzana Amaral (Brasil, 1985); Argumento: Suzana Amaral, Alfredo Oroz, segundo romance de Clarice Lispector; Produção: Assunção Hernandes; Música: Marcus Vinícius; Fotografia (cor): Edgar Moura; Montagem: Idê Lacreta; Design de produção: Clovis Bueno; Guarda-roupa: Mauricio Kawamura; Maquilhagem: Maria Antonia Lombardi; Direcção de Produção: Eliane Bandeira; Assistente de realização: Sylvia Bahiense; Departamento de arte: João Paulo Schlittler; Efeitos especiais: Paulo Schettino; Companhias de produção: Raíz Produções Cinematográficas; Intérpretes: Marcélia Cartaxo (Macabéa), José Dumont (Olímpico de Jesus), Tamara Taxman (Glória), Fernanda Montenegro (Madame Carlota (a macumbeira), Manoel Luiz Aranha (fotógrafo), Marli Botoletto (assistente de Macumba), Denoy de Oliveira (Pereira), Maria Do Carmo Soares (Maria do Carmo), Walter Filho (homem no Mercedes), Sonia Guedes (Mrs. Joana), Umberto Magnani (Seu Raimundo), Miro Martinez (cego), Euricio Martins (guarda do Metro), Raymundo Matos (Arnaldo), Dirce Militello (Mãe de Glória), Lizete Negreiros (Maria), Cláudia Rezende (Maria de Penha), Rubens Rollo (pai de Gloria), etc. Duração: 96 minutos.

BRASILIÁRIOS
Título original: Brasiliários
Realização: Sérgio Bazzi, Zuleica Porto (Brasil, 1986); Duração: 16 minutos.

O CORPO
Título original: O Corpo
Realização: José Antonio Garcia (Brasil, 1991); Argumento: José Antonio Garcia, segundo obra de Clarice Lispector; Produção: Adone Fragano, Anibal Massaini Neto; Música: Arrigo Barnabé, Paulo Barnabé; Fotografia (cor): Antonio Meliande; Montagem: Eder Mazzini, Danilo Tadeu; Direcção artística: Felipe Crescenti; Guarda-roupa: Luiz Fernando Pereira; Direcção de Produção Sara Silveira; Assistentes de realização: Ana Arantes, Alexandre de Oliveira; Som: Tide Borges, Lia Camargo; Coreografia: Lennie Dale; Companhias de produção: Cinearte Produções Cinematográficas, Olympus Filmes; Intérpretes: Antônio Fagundes (Xavier), Marieta Severo (Carmem), Cláudia Jimenez (Bia), Sérgio Mamberti (chefe da polícia), Carla Camurati (Monique), Maria Alice Vergueiro (mulher do chefe de polícia), Ricardo Pettine, Lala Deheinzelin, Arrigo Barnabé, Guilherme de Almeida Prado, Daniel Filho, Carlos Reichenbach, etc. Duração: 80 minutos.

CHAMADA FINAL
Título original: Chamada Final ou Final Call
Realização: Ana Maria Magalhães (Brasil, Alemanha, China e EUA, 1994); Argumento inspirado no conto “A língua do P.”, do livro “A Via Crucis do Corpo”;”Intérpretes: Claudia Ohana, Guilherme Leme, etc. Episódio de média-metragem integrado no filme “Erotique”. Outros realizadores: Lizzie Borden (episódio "Let's Talk About Love"), Clara Law (episódio "Wonton Soup") e Monika Treut (episódio "Taboo Parlor").

RUÍDO DE PASSOS
Título original: Ruído de Passos
Realização: Denise Tavares Gonçalves (Brasil, 1995); Argumento segundo o conto homónimo, do livro “A Via Crucis do Corpo”; curta-metragem. Duração: 11 minutos.

CLANDESTINA FELICIDADE
Título original: Clandestina Felicidade
Realização: Beto Normal e Marcelo Gomes (Brasil, 1998 - curta metragem que trata da infância da autora); Intérpretes: Luisa Phebo.

MACABÉIA
Título original: Macabéia
Realização: Erly VieiraJr., Lizandro Nunes e Virgínia Jorge (Brasil, 2000 -curta-metragem).

AEROPORTO EM O EMBARQUE
Título original: Aeroporto em o embarque
Realização: Nicole Algranti (Brasil, 2002 - curta-metragem); Intérpretes: Marcélia Cartaxo.

INFINITIVAMENTE GUIOMAR NOVAES
Título original: Infinitivamente Guiomar Novaes
Realização: Norma Bengell (Brasil, 2003); Argumento: Anna Akhmatova, Clarice Lispector; Intérpretes: Norma Bengell, Lauro Machado Coelho, José Antônio de Almeida Prado, Sônia Goulart, Gilbert Matté, Guiomar Novaes, Maria Stella Orsini, Roberto Tibiriçá, etc.; Companhias de produção: RioCine; Duração: 40 minutos.

O OVO
Título original: O Ovo
Realização: Nicole Algranti (Brasil, 2003); Argumento: Luiz Carlos Lacerda, Segundo conto de Clarice Lispector; Produção: Nicole Algranti, Pedro Maranhão; Música: Marcelo S. Petraglia; Fotografia (cor): Araken Dourado; Montagem: Lucas Margutti; Direcção artística: Marcella Morizot; Guarda-roupa: Fernanda Lomonaco; Som: Pedro Sá Earp, Juliano Zanoni; Companhias de produção: Fora do Eixo Filmes, Taboca Filmes; Intérpretes: Maria Bethânia (narrador), Carla Camurati, Louise Cardoso, Chico Díaz, Karla Martins, Rodney Pereira, Cláudio Perotto, Lucélia Santos, etc. Duração: 11 min

O MISTÉRIO SEGUNDO CLARICE LISPECTOR
Título original: O Mistério Segundo Clarice Lispector
Realização: Patrícia Lino (Portugal, 2008); Argumento: Patrícia Lino; Música: Caetano Veloso – “Clarice”; Fotografia (cor) : Patrícia Lina; Montagem: Patrícia Lino; Som: Patrícia Lino; Intérpretes: Andreia Oliveira, Cristina Felgueiras, Dinis Leitão, Edson Basílio, Henrique Monteiro, Hugo Lima, Patrícia Lino, Tayna Borges, Tiago Lino, Tiago Sousa Garcia. Duração: 5 minutos.

OBRAS PARA TELEVISÃO:

FELIZ ANIVERSÁRIO, Rede Globo, 1978

ESPECIAL CLARICE LISPECTOR - TV Cultura, 1999
Inclui a entrevista concedida por Clarice Lispector a Júlio Lerner, em 1977.

A HORA DA ESTRELA, Rede Globo, 2003

CLARICE LISPECTOR NO TEATRO:

PERTO DO CORAÇÃO SELVAGEM (1965)
Encenação: Fauzi Arap; Intérpretes: Glauce Rocha, José Wilker e outros

UM SOPRO DE VIDA (1979)
Encenação: José Possi Neto; Intérpretes: Marilena Ansaldi.

A HORA DA ESTRELA (1984)
Encenação: Naum Alves de Souza; Intérpretes: Maria Bethânia.

A PAIXÃO SEGUNDO G. H. (1989)
Encenação: Cibele Forjaz; Intérpretes: Marilena Ansaldi.

A PECADORA QUEIMADA E OS ANJOS HARMONIOSOS (1992)
Encenação: José Antônio Garcia; Intérpretes: Sérgio Mambertti e outros.

A MULHER QUE MATOU OS PEIXES (1994)
Encenação: Lúcia Coelho; Intérpretes: Zezé Polessa.

A MULHER QUE MATOU OS PEIXES (1998)
Adaptação: Adriane Azenha.

A HORA DA ESTRELA (1998)
Encenação: Roberto Vignatti; Intérpretes: Alexandra Tavares.

QUE MISTÉRIOS TEM CLARICE? (1998)
Encenação: Luiz Arthur Nunes; Intérpretes: Rita Elmôr (monólogo)

CLARICE - CORAÇÃO SELVAGEM (1998)
Encenação: Maria Lucya de Lima; Intérpretes: Aracy Balabanian.

QUASE DE VERDADE (2001)
Encenação: Ulisses Cohn; Intérpretes: Cia. Delas de Teatro

A HORA DA ESTRELA (2001)
Encenação: Marcus Vinicius Faustini; Intérpretes: Marcélia Cartaxo e outros.

A DESCOBERTA DO MUNDO (2001)
Encenação: Marco Antonio Rodrigues; Intérpretes: Cia. Delas de Teatro

A HORA DA ESTRELA (2002)
Encenação: Naum Alves de Souza; Intérpretes: Célia Borbes, Ester Lacava e Edgar Jordão.

A PAIXÃO SEGUNDO G. H. (2002)
Adaptação: Fauzi Arap.
Encenação: Enrique Diaz; Intérpretes: Mariana Lima.

AMOR - UMA ODE AO UNIVERSO FEMININO DE CLARICE LISPECTOR (2002)
Adaptação: Marta Baião e Conceição Acioli.
Encenação: Conceição Acioli; Intérpretes: Marta Baião.

ÁGUA VIVA (2003)
Encenação: Maria Pia Scognamiglio; Intérpretes: Susana Vieira.

ENCONTRO COM CLARICE (2003)
Encenação: Ítalo Rossi; Intérpretes: Ester Jablonski

QUE MISTÉRIOS TEM CLARICE (2008)
Encenação e interpretação: Rita Elmôr.

LEITURAS:

CLARICE LISPECTOR - Áudio (1998)
Selecção de contos feita por Paulinho Lima. Interpretação: Aracy Balabanian; Luz da Cidade, colecção Poesia Falada.

DOZE LENDAS BRASILEIRAS - Clarice Lispector (V. 1) (2000)
Ideia e produção de Paulinho Lima; Luz da Cidade.

CLARICE LISPECTOR - A MULHER QUE MATOU OS PEIXES (V. 4) (2000)
Ideia e produção de Paulinho Lima; Luz da Cidade.

A DESCOBERTA DO MUNDO (2002)
Selecção de crónicas feita por Teresa Montero, interpretação: Aracy Balabanian; Luz da Cidade, Coleção Os cronistas.

LA PASSION SELON G. H. (sem data)
Gravação de trechos do romance “A Paixão segundo G. H.” pela actriz Anouk Aimée; Des Femmes, Paris.

LIENS DE FAMILLE (sem data)
Gravação de contos do livro “Laços de Família” por Chiara Mastroianni; Des Femmes, Paris.

quarta-feira, abril 01, 2009

O SOPRO EXTINGUIU-SE

:
A carne começa a ser roída por dentro, a pele cola-se aos ossos, os olhos encovam-se por detrás de uma pálpebras corridas pelo cansaço, a respiração é ofegante, mas tímida, os dias vão passando e sente-se um sopro de vida preso, enjaulado num corpo já cadáver. A morte caminha, pressente-se, hoje está pior que ontem, há dias ainda dormia na cama e via televisão no cadeirão. Depois passou a pernoitar de dia na cama almofadada que as enfermeiras lhe vão colocando dos lados para não ferir a pele amarelecida. Toco-lhe na mão e sinto ainda um leve apertar de tendões. Tenta abrir os olhos, procura dizer o que lhe vai no coração. Faz um esforço para entreabrir os olhos. Hoje nem isso, à tarde. À noite, voava sabe-se lá para onde. Vestiram-na com o “vestido de ver a Deus”, que ela escolhera, negro e abotoado até cima, jaz na cama onde passou os últimos dias, mãos sobrepostas sobre o corpo, olhos fechados, um lenço a amparar-lhe a boca. Havia ainda há minutos um sopro de vida neste corpo. Que mistério é este que faz da matéria uma força desconhecida e que, num ápice, a devolve às cinzas? Que força é essa, Tia Ivone?

CLARICE LISPECTOR EM ENCONTRO

:

Hoje e amanhã, a Casa Fernando Pessoa recebe o Colóquio Clarice Lispector (1920-1977). Conferências, debates, leituras, uma peça de teatro, visionamento de filmes, a apresentação da fotobiografia de Clarice, e uma exposição/instalação dedicada à autora de "Perto do Coração Selvagem" preenchem o programa que segue abaixo. Todas as actividades têm entrada gratuita.
PROGRAMA
1 de Abril
9h30: Recepção
10h00: Abertura
10h30: Conferência: “Clarice Lispector: da biografia à fotobiografia”
Profª Nádia Battella Gotlib – Universidade de São Paulo –USP
11h15: Debate
11h30: Conferência: “Clarice Revisitada
Profº Carlos Mendes de Sousa – Universidade do Minho
12h15: Debate
12h30: Abertura da Exposição de Fotografias de Clarice e Lançamento do
Livro: “Clarice: Fotobiografia”, de autoria da Profª Nádia Battella
Gotlib
13h30: Pausa para almoço
15h00: Conferência: “Com uma fixidez reverberada de cego: visão e
distorção em Clarice Lispector”
Profª Clara Rowland – Universidade de Lisboa
16h15: Debate
16h30: Conferência: “Impossível Explicar”
Francisco José Viegas – Jornalista e Escritor
17h15: Debate
18h00: Peça Teatral: “Que mistérios tem Clarice” , Rita Elmôr
2 de Abril
10h00: Leitores de Clarice:
Maria Antónia Fiadeiro
Ana Paula Tavares
Patrícia Lino
Depoimento de Paulo Gurgel Valente por Lauro Moreira
11h00: Debate
11h15: Pausa para café
11h30: Leituras de Clarice:
Inês Pedrosa
Cristina Elias
Vasco Durão
Lauro Moreira
13h00: Pausa para almoço
14h30: Palestra: “Clarice no Cinema”, cineasta Lauro António
15h00: Exibição de curta-metragens extraídos da obra de Clarice Lispector
16h00: Pausa para café
16h15: CINEMA: Exibição de “A hora da Estrela”, de Suzana Amaral
18h00: Encerramento