“The Dresser”, de Ronald Harwood, é uma excelente peça sobre o mundo fascinante do teatro, com as luzes do o palco vistas do seu interior e dos bastidores. O que possibilita um jogo de claro-escuro que permite toda a magia do espectáculo. Dois homens dialogam em palco, o actor, encenador, empresário, vedeta shakespeariana que é designado por Sir, e o seu camareiro, amigo e confidente Norman. Eles são respectivamente Ruy de Carvalho e Virgílio Castelo, ambos com duas soberbas interpretações, daquelas para perdurar na memória. Se do primeiro nada de diferente seria de esperar, já a interpretação de Virgílio Castelo ultrapassa tudo o que dele viramos até hoje.
“Sir” é um daqueles actores maiores que a vida, grandiloquentes, excessivos, decadente já, à beira da morte, mas em cena até ao fim, na sua dupla função de actor-encenador e de empresário. Parece que foram muito frequentes em Inglaterra, não o são tanto em Portugal. Vivem do e para o teatro, são majestosos e excêntricos, brilhantes e intoleráveis, explorados e exploradores. Quase sempre têm a seu lado alguém que os mima e acarinha, um camareiro por exemplo, para quem o actor é tudo em que se espelha, em que se revê. Norman é a bengala em quem o actor se apoia, o homem que o carrega às costas quando desmaia nas ruas da cidade onde estão instalados. Mas também aquele que não perdoa uma traição, porque se o seu amor é total e a devoção igual, não admite o desprezo ou a indiferença.
No cinema, Peter Yates havia adaptado esta peça ambientada durante a II Guerra Mundial e originalmente estreada em 1980, três anos depois da sua estreia em palco, tendo como principais actores dois fabulosos Albert Finney e Tom Courtenay, muito bem acompanhados por Edward Fox, Zena Walker, Eileen Atkins e Michael Gough. A adaptação a guião fora da responsabilidade do próprio dramaturgo Ronald Harwood, homem muito habituado a escrever para cinema igualmente (são dele guiões de obras tão importantes quanto “A High Wind in Jamaica” (1965), “Diamonds for Breakfast” (1968), “One Day in the Life of Ivan Denisovich” (1971), “The Browning Version” (1994), “The Pianist” (2002), “The Statement” (2003), “Being Júlia” (2004), “Oliver Twist” (2005), “The Diving Bell and the Butterfly” (2007) ou “Austrália” (2008). Ronald Harwood parece ter baseado esta criação na sua própria experiência pessoal, pois fora em tempos camareiro de um famoso actor-empresário inglês, Donald Wolfit (1902-68). O filme era muito interessante, justificando as nomeações para melhor filme do ano, realização, argumento adaptado, e actores (Albert Finney, Tom Courtenay).
Se o filme era excelente como retrato de uma época e como reflexão sobre o teatro, a encenação de João Mota no Nacional de D. Maria II era igualmente notável, figurando desde já como um dos melhores espectáculos do ano e palcos portugueses. João Mota, falando da peça, considerava-a "uma excelente oportunidade de conhecer o teatro por dentro, os bastidores, os problemas, as tricas, as coscuvilhices, e até a ternura e a amizade que se estabelece frequentemente". Exacto. Uma grande peça, um grande espectáculo, duas grandes interpretações e um gosto acre-doce que fica depois de atravessar este universo povoado por pesadas sombras e iluminado por fulgurantes luzes candentes.
"O Camareiro" estreou no D. Maria II a 10 de Setembro, e ainda por lá devia estar. Merecia-o bem.
No início do ano de 2009, o Piccolo Teatro Milano encenou "Darwin... Tra le Nuvole" para dar a conhecer Charles Darwin através do teatro e do imaginário, numa linguagem imediata, divertida e sempre atenta à exactidão científica. A encenação era de Stefano de Luca, e foi esse mesmo espectáculo que deu à costa lisboeta, para três únicas representações, a 31 de Outubro e 1 de Novembro, na sala Garrett do Teatro Nacional Dona Maria II.Trata-se de uma encenação muito simples, com poucos adereços, certamente para permitir grande mobilidade em deslocações, cinco actores e uns telões, uma fabulosa redacção de texto, inventivo e cheio de graça, e um resultado surpreendente. A peça talvez se dirigisse sobretudo a públicos jovens (em idade escolar, certamente), mas a verdade é que todas as idades aderiam a esta extraordinária versão da viagem de Beagle, por ignotas terras do Brasil, da Patagónia, do Peru ou da mítica Terra do Fogo.
A ideia central é um ovo de Colombo muito bem desenvolvido: na actualidade, duas jovens amigas descobrem uns textos de Darwin que as fascinam e partem numa viagem pelo tempo para acompanhar a vida do cientista, ainda jovem, e a viagem que ele fez a bordo do Beagle, viagem que iria estar na base da escrita de “A Origem das Espécies”.
O Piccolo Teatro di Milano, que se formou no final da década de 40 do século XX, tinha como finalidade apresentar ao seu público personagens credíveis e próximas da realidade social que se vivia então, acompanhando desta forma as temáticas cinematográficas do mesmo período em Itália, nomeadamente o neo-realismo. Com base numa ideia de Luca Boschi (epistemólogo), Stefano de Luca (encenador) e Giulio Giorello (professor catedrático de BD) o espectáculo procurava documentar a vida do cientista, que comemorava este ano 200 anos do seu nascimento, e 150 sobre a edição de “A Origem das Espécies”.
Com interpretação notável de um grupo de jovens actores (Clio Cipolletta, Gabriele Falsetta , Andrea Germani, Adrea Luini e Silva Pernarella), "Darwin... Tra le Nuvole" tinha uma muito simples e eficaz cenografia de Marco Rossi, desenho de luzes de Cláudio de Pace e figurinos de Luísa Spinatelli.
Depois do regresso de Ruy de Carvalho ao D. Maria II, temos a volta de Eunice Muñoz, no monólogo “O Ano do Pensamento Mágico”, da escritora norte americana Joan Didion, baseado num romance do mesmo nome que, por sua vez, recolhia dolorosas memórias íntimas da sua autora. Tanto a peça como o romance se encontram publicados em Portugal, e devo confessar que nem uma nem outro me entusiasmam por aí além. O caso humano é obviamente trágico para quem o viveu, mas não me parece que o seu tratamento dramatúrgico ultrapasse o caso pessoal. Se o faz, é ao nível de uma obra de auto-ajuda, que também não é o meu género preferido.Mas tudo bem, seja, um monólogo sobre uma mulher que no mesmo ano perde o marido e a filha, ele vítima de um fulminante ataque cardíaco, quando se encontrava a jantar, a filha depois de um prolongado sofrimento, internada numa clínica. "Sentam-se para jantar e a vida como a conhecem termina". Percebe-se o trauma da escritora, casada com John Gregory Dunne (igualmente escritor e argumentista, autor de um “best seller” adaptado a cinema, "True Confessions"), mãe de Quintana Roo Dunne Michael, ambos falecidos no ano de 2006, com poucos meses de intervalo.
A peça tem a vantagem de não se assumir como uma vitimização de princípio a fim, contém alguma distanciação e aqui e ali até joga com um leve humor que ajuda a suportar a descrição da tragédia, mas nunca aderi a este monólogo a que falta sobretudo garra e genialidade (o que o faria certamente diferente). É um texto bem escritinho, a puxar ao comovente.
Eunice Muñoz, que nasceu na Amareleja, a 30 de Julho de 1928 (oitenta e um anos, a maioria dos quais dedicados a representar no teatro, na televisão e no cinema, onde tive a sorte de a ter como Dona Estefânia, no meu filme “Manhã Submersa”), não tem, portanto, um texto de alto nível para defender, mas é sempre um prazer vê-la e tudo o que faz é digno de admiração incondicional.
A encenação de Diogo Infante é sóbria e eficaz, deixando a actriz representar a solo e encher um palco, apesar de estar quase sempre sentada numa poltrona, bem no centro da cena. Um espectáculo intimista, uma hora e dez minutos a beber as palavras ditas por Eunice. Vale sempre a pena, acreditem.
No mesmo teatro, “Eunice - Retrato(s) de uma Actriz”, exposição sobre a actriz Eunice Muñoz, patente ao público até dia 31 de Dezembro. Horário: 4ª a dom. das 15H às 18H30.





“Romance”, baseado no “Romance de Tristão e Isolda”, é uma complexa história de amor que reflecte igualmente sobre a paixão e a criação artística, neste caso o teatro e a televisão. Um encenador e actor de teatro, Pedro (Wagner Moura) apaixona-se por Ana (Letícia Sabatella), actriz com quem contracena na peça “Tristão e Isolda”. Enquanto no palco os assaltam dilemas da história que deu origem à ideia do amor romântico, nos bastidores, o casal esbarra nos obstáculos do amor actual, muito mais condimentado com paixão, ciúme, rotina, trabalho, arte e indústria... É possível um amor feliz? Do teatro e de um falhanço sobre o seu próprio amor, passa-se para a televisão e uma segunda oportunidade: Ana propõe a Pedro que a dirija num especial de fim de ano para a TV. A história escolhida é precisamente “Tristão e Isolda”, agora adaptada ao Nordeste brasileiro.
Santiago
“Santiago” é um documentário sobre um filme inacabado. Santiago, uma personagem inesquecível, um homem de vasta cultura e memória prodigiosa, era mordomo em casa de um diplomata, pai do realizador João Moreira Salles que ali viveu a meninice, e cujas recordações o levaram, há uns anos atrás, a tentar dirigir um filme que não conseguiu terminar na altura. Anos depois, retoma o filme em busca das razões que o fizeram falhar. “Santiago” é um filme sobre memória, identidade e a própria natureza do documentário. Uma jóia cinematográfica, arrisco-me a considerá-lo uma obra-prima que não desmerece a cada nova visão e leitura (sobre o mesmo já escrevi 
“Chega de Saudade” é nome de clube de dança, na noite de São Paulo. Nessa sala de baile, frequentada predominantemente pela terceira idade, acompanhamos amor e ciúmes, dramas e alegrias, aventuras e desventuras de cinco núcleos de personagens que frequentam habitualmente aquela sala. Tudo começa quando a sala abre, pelas cinco da tarde, o pano corre quando a sala fecha por volta da meia-noite. Tudo se passa em meia dúzia de horas, crescendo a intensidade dramática (e erótica) à medida que as horas decorrem, os chopes e o whisky desaparecem, e os olhares se vão cruzando com um furioso desejo que mistura impotência e impetuosidade incontida. E repetidas frustrações. E alegrias breves, “uma hora de cama vale bem uma vida sem nada”. A condição humana concentrada num laboratório de análise, prefigurado numa sala de baile, como já o havia feito Ettore Scola, em “O Baile”, mas com outras intenções, ou Sydney Pollack, em “Os Cavalos Também se Abatem”, mas num outro contexto, ou “O Baile dos Bombeiros”, de Milos Forman, mas por detrás da “cortina”.
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Ainda Pirandelo: “Qual é o autor que poderá dizer alguma vez como e porquê nasceu na sua fantasia uma personagem? O mistério da criação artística é o mesmo mistério do nascimento natural. Uma mulher que ama pode desejar ser mãe; mas esse desejo apenas, por mais intenso que seja, não basta. Um belo dia ela descobrirá que vai ser mãe, sem uma advertência precisa de quando tenha acontecido. Assim também um artista, vivendo, acolhe em si germes inúmeros de vida, e nunca poderá dizer como nem porquê, em dado momento, um desses germes vitais, fecundado pela fantasia, se transforma numa criatura viva, situada num plano de vida superior ao da volúvel existência quotidiana.” “Posso apenas dizer que, sem tê-las de maneira nenhuma procurado, encontrei diante de mim aquelas seis personagens que ora se vêem em cena, vivas ao ponto de poder tocar-lhes e ouvir-lhes a respiração. E as seis, na minha frente, esperavam, cada uma com o seu tormento interior e secreto, irmanadas pelo nascimento e pelo entrelaçar das suas vicissitudes recíprocas, que eu as introduzisse no munda da arte e com as suas pessoas, as suas paixões e os seus casos compusesse um drama, um romance ou pelo menos uma novela. Nados vivos, aspiravam a viver.”




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