

Esta versão de Robert Zemeckis é particularmente inspirada nalguns aspectos. A reconstituição dos ambientes e das personagens é brilhante (há que sublinhar o excepcional design de produção de Doug Chiang, inspirando-se em gravuras da época e sobretudo nas ilustrações de John Leech que acompanhavam a edição original do texto de Dickens), a fidelidade ao texto de Dickens só a valoriza, e o tipo de espectáculo escolhido, esta mistura entre imagem real e desenho animado (os actores servem de base para a criação da animação) funciona muito bem. Dickens, sobretudo neste Conto de Natal, oferece-nos, não direi estereótipos, mas personagens-símbolo, que representam defeitos e virtudes humanas. Por isso, este recurso a figuras que ultrapassam o seu próprio recorte pessoal e se assumem como símbolos da Humanidade parece-me excelente. O desenho sobre o rosto dos actores confere-lhe uma máscara que ultrapassa o homem, o indivíduo, e se assume como “exemplo”.
A esta técnica chama-se “motion capture”, ou “performance capture”, segundo a designação do próprio Zemeckis. Aliás, foi este cineasta o primeiro a utilizar esta técnica numa longa-metragem, precisamente em “The Polar Express”, depois de ter sido desenvolvida nalguns vídeo-jogos e certas sequências de filmes. Robert Zemeckis é um realizador que gosta de descobrir e utilizar inovações técnicas e muitos dos seus títulos o demonstram (“Forrest Gump”, por exemplo, e a combinação de animação e imagem real em “Who Framed Roger Rabbit”). Em 2006 produziu “Monster House” que desenvolvia a técnica e logo a seguir dirigiu “Beowulf” com o mesmo processo.
O Ebenezer Scrooge de Jim Carey é uma consequência de novos aperfeiçoamentos e o resultado ajusta-se precisamente à criação de Dickens, datada de 1843. Scrooge é um velho sinistro, egoísta, mesquinho, solitário. Um agiota sem escrúpulos, um patrão sem alma, um ser que repudia a família, um individuo sem qualquer ressonância humana. Explora o empregado Bob Cratchit (Gary Oldman), recusa qualquer cêntimo às obras de caridade, não se associa às manifestações de boa vontade do sobrinho Fred (Colin Firth), prefere dormir sozinho enroscado sobre a sua avareza. Até ao dia em que o fantasma de seu falecido sócio Marley (outra vez Gary Oldman) o visita para lhe declarar que vai ser visitado pelos fantasmas de três Natais (Passados, Presente e Futuro), assegurando que esta será a derradeira hipótese de se salvar. Depois de uma noite de pesadelos, descobre que afinal a vida é outra coisa e está a passar-lhe à porta, sem saborear dela o melhor que ela lhe poderia dar. E regenera-se. Redime-se.
Jim Carey descobre-se por detrás de várias outras personagens e o resultado é notável. De plausibilidade. De expressividade. Todas as outras interpretações adquirem igualmente particular relevo, casos de Gary Oldman, Colin Firth, Robin Wright Penn, Bob Hoskins, Cary Elwes ou Fionnula Flanagan.
Até aqui tudo bem. Falta o resto.
Agora vejamos uma nova invenção que está a revolucionar (ou a tentar revolucionar) o cinema norte-americano – as 3D, com as quais os grandes estúdios procuram recuperar os espectadores perdidos das salas de cinema e os direitos autorais “roubados” pelos downloads dos piratas cibernéticos. Os filmes em 3 dimensões só podem ser admirados em toda a sua espectacularidade nas salas de cinema. E, portanto, também não podem ser roubados na Net. Por isso se avança abertamente neste sistema. Que tem efeitos interessantes, mas que, pelo menos por agora, não deixa de ser vítima da sua própria necessidade de “épater le bourgeois”. Os filmes enfermam por isso desse esforço desmedido de demonstrar as virtualidades das 3D. Os filmes são rodados em perspectivas estranhas, os objectos movimentam-se de forma invulgar, tudo se projecta de encontro ao espectador sem qualquer necessidade intrínseca e o resultado final é, por isso, um pouco frustrante. Em “Um Conto de Natal”, para lá de todos estes efeitos, há longos, longuíssimos “travellings” por sobre a cidade de Londres que nem sempre se justificam, a não ser para se dar essa sensação de vertigem que os 3D permitem. Quando este espírito feirante de novo-rico passar, estas técnicas poderão ser bem interessantes e enriquecerem a linguagem cinematográfica. Até lá, esperemos.
Mas não quero com isto dizer que “Um Conto de Natal” não seja uma obra absolutamente a ver, por todas as suas virtudes, nomeadamente pelo tom soturno e sombrio em que decorre e que brota genuinamente da iluminada escrita de Dickens. O que se lamenta apenas são algumas piruetas de câmara que cortam cerce as hipóteses deste filme ser uma pequena obra-prima de um novo estilo.
UM CONTO DE NATALTítulo original: A Christmas Carol
Realização: Robert Zemeckis (EUA, 2009); Argumento: Robert Zemeckis, segundo romance de Charles Dickens; Produção: Katherine C. Concepcion, Jack Rapke, Mark L. Rosen, Heather Smith, Steve Starkey, Peter M. Tobyansen, Robert Zemeckis; Música: Alan Silvestri; Fotografia (cor): Robert Presley; Montagem: Jeremiah O'Driscoll; Casting: Scot Boland, Victoria Burrows, Nina Gold; Design de produção: Doug Chiang; Direcção artística: Marc Gabbana, Norman Newberry, Mike Stassi; Decoração: Karen O'Hara; Maquilhagem: Bill Corso, Ryan McDowell, Tegan Taylor; Direcção de Produção: Wendy Berry, Brian Brecht, Kristen D. Chidel, Robert Keyghobad; Assistentes de realização: Gregory J. Pawlik Jr., Jeffrey Schwartz, David H. Venghaus Jr.; Departamento de arte: Julie Beattie, Michael C. Biddle, Lawson Brown, Andrea Cárter, David Chow, Colin Fix, Will Grant, Richard F. Mays, David Moreau, Dermot Power, Andrew Reeder, Roel Robles, Emmanuel Shiu, Joshua Viers, John Villarino, Tova Weinberg; Som: Dennis Leonard, Randy Thom; Efeitos especiais: Robert Calvert, Robert Cole, Donald Elliott, Michael Lantieri, Bob Mano; Efeitos visuais: Jason Brown, Michael Clemens, Ben Hadden, Sunghwan Hong, Erin King, George Murphy, Zoe Aimee Zaitzeff, Brandon Foster; Animação: Jimmy Almeida, Michael Corcoran, Christian Kubsch, David Shirk; Companhias de produção: Walt Disney Pictures, ImageMovers; Intérpretes: Jim Carrey (Scrooge, Scrooge como rapazinho, jovem, adolescente, homem de meia idade, fantasma do passado, do presente e do futuro), Gary Oldman, Colin Firth, Robin Wright Penn, Bob Hoskins, Steve Valentine, Daryl Sabara, Sage Ryan, Amber Gainey Meade, Ryan Ochoa, Bobbi Page, Ron Bottitta, Sammi Hanratty, Julian Holloway, Cary Elwes, Jacquie Barnbrook, Lesley Manville, Molly C. Quinn, Fay Masterson, Leslie Zemeckis, Paul Blackthorne, Michael Hyland, Kerry Hoyt, Julene Renee, Fionnula Flanagan, Raymond Ochoa, Callum Blue, Matthew Henerson, Aaron Rapke, Sonje Fortag, John Todd, etc. Duração: 98 minutos; Distribuição em Portugal: Zon Lusomundo Audiovisuais; Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal: 19 de Novembro de 2009.
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“The Dresser”, de Ronald Harwood, é uma excelente peça sobre o mundo fascinante do teatro, com as luzes do o palco vistas do seu interior e dos bastidores. O que possibilita um jogo de claro-escuro que permite toda a magia do espectáculo. Dois homens dialogam em palco, o actor, encenador, empresário, vedeta shakespeariana que é designado por Sir, e o seu camareiro, amigo e confidente Norman. Eles são respectivamente Ruy de Carvalho e Virgílio Castelo, ambos com duas soberbas interpretações, daquelas para perdurar na memória. Se do primeiro nada de diferente seria de esperar, já a interpretação de Virgílio Castelo ultrapassa tudo o que dele viramos até hoje.





“Romance”, baseado no “Romance de Tristão e Isolda”, é uma complexa história de amor que reflecte igualmente sobre a paixão e a criação artística, neste caso o teatro e a televisão. Um encenador e actor de teatro, Pedro (Wagner Moura) apaixona-se por Ana (Letícia Sabatella), actriz com quem contracena na peça “Tristão e Isolda”. Enquanto no palco os assaltam dilemas da história que deu origem à ideia do amor romântico, nos bastidores, o casal esbarra nos obstáculos do amor actual, muito mais condimentado com paixão, ciúme, rotina, trabalho, arte e indústria... É possível um amor feliz? Do teatro e de um falhanço sobre o seu próprio amor, passa-se para a televisão e uma segunda oportunidade: Ana propõe a Pedro que a dirija num especial de fim de ano para a TV. A história escolhida é precisamente “Tristão e Isolda”, agora adaptada ao Nordeste brasileiro.
Santiago
“Santiago” é um documentário sobre um filme inacabado. Santiago, uma personagem inesquecível, um homem de vasta cultura e memória prodigiosa, era mordomo em casa de um diplomata, pai do realizador João Moreira Salles que ali viveu a meninice, e cujas recordações o levaram, há uns anos atrás, a tentar dirigir um filme que não conseguiu terminar na altura. Anos depois, retoma o filme em busca das razões que o fizeram falhar. “Santiago” é um filme sobre memória, identidade e a própria natureza do documentário. Uma jóia cinematográfica, arrisco-me a considerá-lo uma obra-prima que não desmerece a cada nova visão e leitura (sobre o mesmo já escrevi 
“Chega de Saudade” é nome de clube de dança, na noite de São Paulo. Nessa sala de baile, frequentada predominantemente pela terceira idade, acompanhamos amor e ciúmes, dramas e alegrias, aventuras e desventuras de cinco núcleos de personagens que frequentam habitualmente aquela sala. Tudo começa quando a sala abre, pelas cinco da tarde, o pano corre quando a sala fecha por volta da meia-noite. Tudo se passa em meia dúzia de horas, crescendo a intensidade dramática (e erótica) à medida que as horas decorrem, os chopes e o whisky desaparecem, e os olhares se vão cruzando com um furioso desejo que mistura impotência e impetuosidade incontida. E repetidas frustrações. E alegrias breves, “uma hora de cama vale bem uma vida sem nada”. A condição humana concentrada num laboratório de análise, prefigurado numa sala de baile, como já o havia feito Ettore Scola, em “O Baile”, mas com outras intenções, ou Sydney Pollack, em “Os Cavalos Também se Abatem”, mas num outro contexto, ou “O Baile dos Bombeiros”, de Milos Forman, mas por detrás da “cortina”.


