NO VAN GOGO

No Van Gogo, em Cascais, às quartas feiras, há fado. Esta quarta, a presença era a de Carminho, de quem tanto já lera, de quem já ouvira o recente CD, “Fado”. Não a tinha ainda visto “ao vivo” e o fado ao vivo é muito bonito, quando bem cantado. Fui ao Van Gogo, portanto, muito bem recebido pelo Miguel Capucho, que é a alma deste bar de há uns tempos a esta parte. Eu que não sou de bares, fiquei com vontade de regressar.
Mas falemos de Carminho. A voz é magnífica, de eleição, um pouco rouca, inconfundível, uma daquelas vozes que foram feitas para a dolência do fado, para a emoção do lamento da guitarra, para a alegria dorida da marcha do bairro popular, que outra forma de fado. Uma voz como raramente se descobre, numa jovem, de 24 anos. Com uma segurança de timbre notável, uma melodia de sílabas invulgar (pode descobrir-se um bom cantor pela forma como resolve a fraseologia do que canta, pelas pausas, pelo arrastar das sílabas, pelas forma como as ligas ou trunca).
Mas há mais. O fado bem cantado, canta-se com todo o corpo. Canta-se com a alma e com as vísceras, os músculos, os nervos. Olhos negros, cerrados, mãos crispadas, braços lançados como aves em arranque de voo, todo o corpo vibra com as palavras que se soltam da emoção. Aqui não há artifício, há sinceridade, entrega, espontaneidade, as palavras não se soltam somente da boca para o ouvinte, mas brotam do mais profundo, do mais íntimo de um corpo em entrega total.
Carminho, em 2009, é um cristal em estado puro. Felizes aqueles que a ouvem agora, que a vêem nesta altura da sua carreira. Mais tarde ou mais cedo, o cristal vai ser burilado, vai adquirir mais técnica, poderá melhorar o estilo, aprimorar o que há de pessoal na voz. Mas alguma que se irá perder, essa pureza quase inocente de quem se entrega toda ao seu fado, ao nosso fado. Foi um prazer enorme ver e ouvir Carminho. Mais uma carreira, uma vida a seguir com paixão.
Depois de Carminho ainda tivemos dois extras a registar: o próprio Miguel Capucho, e Cuca Roseta, que também não conhecia e que igualmente me impressionou muito. O fado em Portugal está bem e recomenda-se.
Nasci Carmo Rebelo de Andrade, em Lisboa, filha da fadista Teresa Siqueira e de Nuno Rebelo de Andrade (que não canta mas que diz ser fadista também quem ouve). E, apesar de ter ido viver para o Algarve, o fado esteve sempre comigo. Os meus pais organizavam tertúlias de fado e em casa ouvíamos discos de Lucília do Carmo, de Fernando Maurício, de Amália Rodrigues... De volta a Lisboa, estreei-me a cantar em público, aos doze anos, no Coliseu. A partir daí comecei a cantar regularmente na Taverna do Embuçado, em Alfama, onde tive grandes mestres: a minha mãe, claro, mas também Beatriz da Conceição - com quem aprendi imenso -, Fernanda Maria, Alcindo Carvalho, Paquito, Fontes Rocha, memórias vivas da verdadeira essência do fado. Sentada na mesa da Bia, ouvia com atenção as mil e uma histórias de noites e fadistas. Os tiques e graças, tudo o que tinham para me ensinar... Mas o melhor era quando a luz se apagava e lá iam eles, dar-me a mais verdadeira das lições. Tenho também uma admiração profunda por outras pessoas do fado como Maria Teresa de Noronha, Maria José da Guia, Carlos do Carmo, Fernando Farinha, Camané, entre outros.
Há três anos concluí o meu curso de Marketing e Publicidade, mas ainda durante a faculdade percebi que o meu futuro - porque também já era o meu presente - era cantar fado. Depois de uma viagem à volta do mundo que durou um ano e em que participei em acções humanitárias na Índia, Camboja, Peru e Timor, consegui olhar-me de fora para dentro e descobrir que a minha verdadeira vocação era mesmo o fado.Voltei a cantar na casa de fados, a Mesa de Frades, onde estou todas as segundas e quartas-feiras, cantei na Casa da Música, na Festa do Fado (ao lado da minha mãe e do meu irmão Francisco), no espectáculo comemorativo dos 45 anos de carreira de Carlos do Carmo, na Expo de Saragoça e na recriação de «Amália à L'Olympia». Para trás, nesta minha história, ficou a participação, entre outros, no disco «Fado - Ontem, Hoje e Sempre», no filme «Fados», de Carlos Saura, e concertos na Argentina, Suiça e Malta. Recebi o Prémio «Revelação Feminina» da Fundação Amália Rodrigues.
O meu primeiro disco chama-se «Fado». Não podia, e digo-o com humildade, chamar-se outra coisa. Por respeito às minhas raízes, ao fado e a mim própria. E este disco sou eu. O meu passado (fados que sempre cantei), o meu presente (a evolução que o meu fado tem sofrido ao longo dos anos) e o meu futuro (em que irei, ainda mais, deixar-me guiar pela minha sensibilidade). Neste álbum tive a companhia de Diogo Clemente - produtor e violista deste disco, amigo e conselheiro que me acompanhou desde o início da escolha de reportório e até ao fim - e de alguns dos melhores músicos de fado: Ricardo Rocha, José Manuel Neto, Bernardo Couto e Ângelo Freire, todos na guitarra-portuguesa, e o viola-baixo Marino de Freitas, para além da participação especial do contrabaixista Carlos Barretto no tema «Espelho Quebrado». Sinto-me muito orgulhosa por existirem músicos como eles em Portugal e particularmente honrada por tê-los tido comigo.
Espero que gostem deste meu primeiro passo. / Carminho
CARMINHO NA CÂMARA DE JOÃO BOTELHO


Tudo se passa numa América profunda, nos campos de algodão e nas pequenas estradas do Sudeste de Arkansas, estado onde nasceu Jeff Nichols, o realizador e argumentista, que certamente recorda aqui não só personagens e situações da sua infância, como, sobretudo, uma atmosfera irrespirável, muito bem transmitida com uma economia de meios total. Tudo se passa numa América profunda, é verdade, mas a leitura é obviamente metafórica e fala-nos da vingança como modo de comportamento pessoal, social, nacional, internacional, como referência clara ao clima revanchista de uma América traumatizada pelo 11 de Setembro. Jeff Nichols tenta mostrar como o caminho da vingança a nada mais conduz do que a novas respostas e ao recrudescer da violência.


Diz Philippe Sireuil que esta peça “dá-nos o osso, o nervo e a carne de um belo pedaço de teatro que deve ser devorado sem qualquer moderação”. Nascido em 1952, no então Congo Belga, Philippe Sireuil é um dos mais destacados encenadores de língua francesa da actualidade. Ao longo da sua carreira encenou textos de Strindberg, Peter Handke, Bertolt Brecht, Alfred Musset, Tchecov, Koltès, Marguerite Duras, Jean Luc Lagarce, Paul Claudel, Ibsen, Marivaux, Broch, Molière, Shakespeare, entre outros.

Uma leitura mais redutora poderá falar essencialmente da subterrânea luta do senhor e do escravo, numa sociedade estratificada em classes, mas esta versão de Luc Bondy é muito mais complexa, levando o caso do campo estritamente político para o psicanalítico, cruzando luta de classes com sexualidade, bondage, atracção e repulsa, e outras perspectivas. As criadas são irmãs, ambas afrontam a patroa, ambas se amam e se confrontam entre si, ambas se abraçam e chocam, ambas dominam e são dominadas. Com sofrimento e prazer, também. 

Comecemos por uma ponta desta intrincada meada: Cal McAffrey (Russell Crowe) é jornalista sénior num importante diário de Washington. É amigo pessoal há longos anos de Stephen Collings (Ben Affleck), um congressista norte-americano que nessa altura se encontra à frente de um inquérito sobre uma empresa paramilitar privada que foi contratada pelo estado para intervir no Iraque e no Afeganistão. E que tem lucrado de forma escandalosa com o negócio.
Como estamos na América, arauto da democracia e das liberdades individuais, o filme mostra as virtudes do sistema, que apesar de corrupto como qualquer outro, oferece as vantagens de tudo poder ser discutido e investigado e de a verdade vir sempre ao de cima. Será esta a realidade? Há casos que apontam para a resposta positiva, outros não, Watergate é um exemplo, mas quantos não ficaram na sombra? Conhecem, no entanto, melhor sistema? Eu não. Por isso vou comprando como saudáveis estas denúncias possíveis em terra de liberdades mais ou menos asseguradas.
LIGAÇÕES PERIGOSAS

“A Ressaca”, de Todd Phillips, não era filme que eu fosse ver assim sem mais nem menos. Sabia que estava a bater records de público este verão nos EUA, mas já estou muito queimado em relação ao gosto do público americano quanto a comédias. Bons eram os tempos de Howard Hawks, de Billy Wilder, de Jerry Lewis, de Richard Quine, e de alguns mais. Mas para a última revoada de comédias (!?) para adolescentes frustrados com sexo, não tenho muita paciência. “The Hangover” parecia-me algo assim. Acontece que fui a uma sessão da meia-noite que os jornais anunciavam como a última oportunidade para ver um filme que me interessava não perder, e, na bilheteira, fui informado que afinal ia passar “A Ressaca”. Em ante-estreia! Só seria estreado no dia seguinte. Acabei por ficar.
Pode dizer-se que Todd Phillips tem já um certo passado, de que fui à procura na Fnac. Encontrei quatro títulos de comédias que não tinha visto e algumas delas “brilhantemente” traduzidas para português. Consegui ver “Road Trip” (Road Trip – Sem Regras) (2000), “Old School” (Dias de Loucura) (2003), “Starsky & Hutch” (Starsky & Hutch) (2004) e “School for Scoundrels” (Escola para Totós) (2006), todos portanto anteriores a “The Hangover” (A Ressaca) (2009).



Gracinda Candeias "Antologia 1992-2002"



O filme começa por evocar a formação da Terra, referindo que há vida neste planeta há quatro milhares de milhões de anos e só existem humanos há duzentos mil anos. Jogando com imagens (obviamente) actuais, o filme procura restituir a ambiência desses tempos primordiais. Numa perspectiva muito darwineana, fornece elementos para a cadeia evolucionista, desde o caos de uma bola de fogo, até ao milagre do aparecimento da vida na Terra, a origem das plantas, dos insectos, dos animais, do primeiro homem. A vida do homem vista como apenas um elo entre diversos. Os humanos que moldam a Terra à sua imagem, com tudo o que isso representa de extraordinário, mas também de perigoso. A agricultura é ainda hoje o labor dominante, metade da humanidade emprega-se nessa actividade, ¾ da qual ocupa-se da agricultura manualmente.
Os minérios são extraídos da Terra a uma velocidade impressionante. Cada vez mais e mais rápido. Nos próximos vinte anos, serão extraídos da terra mais minerais do que durante toda a História do Homem. Mas apenas 20% da população mundial irá usufruir desta regalia. Rapidamente também se esgotarão os recursos da Natureza. Os contentores atravessam os oceanos carregados de recursos. A globalização permite-o, impõe-no. O Dubai é um dos países do mundo com menos recursos naturais. Mas tem petróleo, e o dinheiro que o petróleo gera. Por isso são dos maiores construtores do mundo. Criam ilhas artificiais, promovem turismo de luxo, multiplicam arranha-céus no deserto. E esgotam a terra, não ali, no Dubai, mas algures, donde importam os materiais.
O rio Jordão, outrora um grande rio, é agora um riacho. Um em cada dez grandes rios já não desagua no mar. Perdeu caudal. O Mar Morto, que assim se chama por causa do seu elevado índice de salinidade, perde um metro de nível por ano, e concentra sal. Na Índia brotam palácios em lagos artificiais. Las Vegas é uma cidade construída sobre um deserto. Os seus habitantes são dos maiores consumidores de água em todo o mundo. Palm Spring e os seus campos de golfe consomem água de forma trágica. Tudo isto é uma miragem, afirma “Home” e pergunta até quando ela pode durar. Em 2025, as perspectivas apontam para dois mil milhões de pessoas vítimas de secas.



