quinta-feira, julho 09, 2009

FADO: CARMINHO

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CARMINHO
NO VAN GOGO


No Van Gogo, em Cascais, às quartas feiras, há fado. Esta quarta, a presença era a de Carminho, de quem tanto já lera, de quem já ouvira o recente CD, “Fado”. Não a tinha ainda visto “ao vivo” e o fado ao vivo é muito bonito, quando bem cantado. Fui ao Van Gogo, portanto, muito bem recebido pelo Miguel Capucho, que é a alma deste bar de há uns tempos a esta parte. Eu que não sou de bares, fiquei com vontade de regressar.
Mas falemos de Carminho. A voz é magnífica, de eleição, um pouco rouca, inconfundível, uma daquelas vozes que foram feitas para a dolência do fado, para a emoção do lamento da guitarra, para a alegria dorida da marcha do bairro popular, que outra forma de fado. Uma voz como raramente se descobre, numa jovem, de 24 anos. Com uma segurança de timbre notável, uma melodia de sílabas invulgar (pode descobrir-se um bom cantor pela forma como resolve a fraseologia do que canta, pelas pausas, pelo arrastar das sílabas, pelas forma como as ligas ou trunca).
Mas há mais. O fado bem cantado, canta-se com todo o corpo. Canta-se com a alma e com as vísceras, os músculos, os nervos. Olhos negros, cerrados, mãos crispadas, braços lançados como aves em arranque de voo, todo o corpo vibra com as palavras que se soltam da emoção. Aqui não há artifício, há sinceridade, entrega, espontaneidade, as palavras não se soltam somente da boca para o ouvinte, mas brotam do mais profundo, do mais íntimo de um corpo em entrega total.
Carminho, em 2009, é um cristal em estado puro. Felizes aqueles que a ouvem agora, que a vêem nesta altura da sua carreira. Mais tarde ou mais cedo, o cristal vai ser burilado, vai adquirir mais técnica, poderá melhorar o estilo, aprimorar o que há de pessoal na voz. Mas alguma que se irá perder, essa pureza quase inocente de quem se entrega toda ao seu fado, ao nosso fado. Foi um prazer enorme ver e ouvir Carminho. Mais uma carreira, uma vida a seguir com paixão.
Depois de Carminho ainda tivemos dois extras a registar: o próprio Miguel Capucho, e Cuca Roseta, que também não conhecia e que igualmente me impressionou muito. O fado em Portugal está bem e recomenda-se.

CARMINHO POR ELA PRÓPRIA
Chamo-me Carminho, tenho 24 anos, sou fadista e edito agora o meu primeiro álbum. Alguns de vós conhecem-me, já me ouviram cantar ou já ouviram falar de mim. Outros não fazem a mais pequena ideia de quem eu sou. Mas é para todos que eu conto aqui a minha pequena história.
Nasci Carmo Rebelo de Andrade, em Lisboa, filha da fadista Teresa Siqueira e de Nuno Rebelo de Andrade (que não canta mas que diz ser fadista também quem ouve). E, apesar de ter ido viver para o Algarve, o fado esteve sempre comigo. Os meus pais organizavam tertúlias de fado e em casa ouvíamos discos de Lucília do Carmo, de Fernando Maurício, de Amália Rodrigues... De volta a Lisboa, estreei-me a cantar em público, aos doze anos, no Coliseu. A partir daí comecei a cantar regularmente na Taverna do Embuçado, em Alfama, onde tive grandes mestres: a minha mãe, claro, mas também Beatriz da Conceição - com quem aprendi imenso -, Fernanda Maria, Alcindo Carvalho, Paquito, Fontes Rocha, memórias vivas da verdadeira essência do fado. Sentada na mesa da Bia, ouvia com atenção as mil e uma histórias de noites e fadistas. Os tiques e graças, tudo o que tinham para me ensinar... Mas o melhor era quando a luz se apagava e lá iam eles, dar-me a mais verdadeira das lições. Tenho também uma admiração profunda por outras pessoas do fado como Maria Teresa de Noronha, Maria José da Guia, Carlos do Carmo, Fernando Farinha, Camané, entre outros.
Há três anos concluí o meu curso de Marketing e Publicidade, mas ainda durante a faculdade percebi que o meu futuro - porque também já era o meu presente - era cantar fado. Depois de uma viagem à volta do mundo que durou um ano e em que participei em acções humanitárias na Índia, Camboja, Peru e Timor, consegui olhar-me de fora para dentro e descobrir que a minha verdadeira vocação era mesmo o fado.Voltei a cantar na casa de fados, a Mesa de Frades, onde estou todas as segundas e quartas-feiras, cantei na Casa da Música, na Festa do Fado (ao lado da minha mãe e do meu irmão Francisco), no espectáculo comemorativo dos 45 anos de carreira de Carlos do Carmo, na Expo de Saragoça e na recriação de «Amália à L'Olympia». Para trás, nesta minha história, ficou a participação, entre outros, no disco «Fado - Ontem, Hoje e Sempre», no filme «Fados», de Carlos Saura, e concertos na Argentina, Suiça e Malta. Recebi o Prémio «Revelação Feminina» da Fundação Amália Rodrigues.

Durante muitos anos, houve muita gente que me considerou a «grande esperança» do fado. A todos eles - e aos outros que sempre tiveram boas palavras para mim - agradeço-lhes do fundo do coração. Mas também tenho a dizer-lhes que esse carimbo, ia chamar-lhe esse fardo, caiu sobre os meus ombros como uma responsabilidade enorme. E, também por isso, só agora gravei o meu primeiro álbum. Até aqui, ainda não me tinha sentido capaz de vir a poder defender um disco inteiro, um pouco à semelhança de um bom trabalho de faculdade mas que depois tem que ser apresentado oralmente: a teoria pode estar perfeita mas se não estamos seguros da matéria, não a podemos defender.
O meu primeiro disco chama-se «Fado». Não podia, e digo-o com humildade, chamar-se outra coisa. Por respeito às minhas raízes, ao fado e a mim própria. E este disco sou eu. O meu passado (fados que sempre cantei), o meu presente (a evolução que o meu fado tem sofrido ao longo dos anos) e o meu futuro (em que irei, ainda mais, deixar-me guiar pela minha sensibilidade). Neste álbum tive a companhia de Diogo Clemente - produtor e violista deste disco, amigo e conselheiro que me acompanhou desde o início da escolha de reportório e até ao fim - e de alguns dos melhores músicos de fado: Ricardo Rocha, José Manuel Neto, Bernardo Couto e Ângelo Freire, todos na guitarra-portuguesa, e o viola-baixo Marino de Freitas, para além da participação especial do contrabaixista Carlos Barretto no tema «Espelho Quebrado». Sinto-me muito orgulhosa por existirem músicos como eles em Portugal e particularmente honrada por tê-los tido comigo.
Espero que gostem deste meu primeiro passo. / Carminho

CARMINHO NA CÂMARA DE JOÃO BOTELHO

João Botelho realizou cinco vídeo clips para Carminho. São momentos inspirados de um realizador apaixonado pelo fado e que o sente de forma muito particular na voz de Carminho. Aqui ficam como homenagem a ambos, à fadista, ao realizador. Com um abraço de amizade para ambos.

quarta-feira, julho 08, 2009

FESTIVAL DE TEATRO DE ALMADA, 4

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CORTAMOSONDULAMOS
(CORTAMOS E FRISAMOS),
de Inés Saavedra
(segundo contos de Silvina Ocampo)
A “coisa” ia até agora tão bem, que não havia necessidade. Na verdade, com um programa exemplar até hoje, este espectáculo argentino deslustra no cômputo geral desta 26ª edição do Festival de Teatro de Almada. Chama-se “Cortamos e Frisamos” e é um trabalho de uma actriz, encenadora, autora, Inés Saavedra, que há anos transformou a sua própria casa numa sala de teatro, a que deu o nome de “La Maravillosa”, “destinando-a à investigação, estudo e criação de textos dramáticos”. Tudo bem, mas o texto dramático (por acaso uma pretensa comédia) que nos apresentou, com base em contos da escritora argentina Silvina Ocampo, deixa muito a desejar.
No palco, um salão de cabeleireiro, duas irmãs, proprietárias, Mabel e Marta, que comentam a vida das suas clientes e amigos enquanto vão trabalhando. Pequenos “fait divers”, festas, casamentos, divórcios, o fotografo atrasado, o loiro não apresentado, tudo serve para uma má-língua sem outra intenção que não seja a frivolidade do “corte na casaca”, por onde vão perpassando ciúmes e invejas, pequenas vinganças e mesquinhices semelhantes. Nada de particularmente bem escrito, nada de intencional, um texto de corta e cola ao sabor da inspiração de momento. Que, como se pressente, não foi muita.
Para comédia falta-lhe graça, o que seria a única atenuante. Assim, fica o mérito de ser curta, uma hora, e demonstrar alguma qualidade das duas actrizes em palco, Inés Saavedra e Maria Marta Guitart, que mereciam talvez melhor matéria-prima. Mas se não a tiveram, a culpa é também delas.
Melhores dias virão, certamente. E melhores noites de teatro, com menos frio (o que em inícios de Julho, não deixa de ser igualmente patético).

terça-feira, julho 07, 2009

CINEMA. HISTÓRIAS DE CAÇADEIRAS

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HISTÓRIAS DE CAÇADEIRAS
“Shotgun Stories” é indiscutivelmente uma das grandes revelações desta temporada cinematográfica. Uma história simples, que relembra a escrita despojada de alguns escritores americanos actuais, como Cormac McCarthy (o de “Esta Terra não é para Velhos”) ou Raymond Carver (o das curtas histórias), por sua vez entroncados numa tradição ruralista de uma América profunda, tradicionalista e violenta (de John Steinbeck a Erskine Caldwell, entre vários outros).
“Histórias de Caçadeiras” possui o sopro trágico das grandes histórias que começam num equívoco e acabam no irremediável, através de uma progressão de pequenas falhas ou erros que parecem conduzidos pela mão de um destino inexorável. Aliás, o que mais surpreende nesta obra é que ela tem tudo para ser um western moderno, uma tragédia, um melodrama intenso, mas fica-se a meio caminho de tudo isso, cortando deliberadamente a respiração de cada uma dessas vias, e assumindo-se como uma metáfora discreta, mas vigorosa, sobre os perigos da intolerância e o mau exemplo de uma educação preconceituosa.
Um homem morre. Sabe-se no seu enterro, durante a cerimónia fúnebre, que teve duas famílias, uma que abandonou, mulher e três filhos, todos baptizados com nomes impessoais, como “Son” (brilhante Michael Shannon), “Boy” e “Kid”, outra que o vela zelosamente. Frente ao caixão os filhos do primeiro casamento não fazem o elogio público do pai, mas a sua condenação: “Não é por morreres que deixas de ser o patife que sempre foste”. O que cria uma forte tensão que se irá acentuar à medida que o tempo passa. São duas famílias de meios-irmãos que se detestam. Ou melhor, são os irmãos da primeira mulher do pai que detestam a segunda família, porque o ódio da mãe, que nunca perdoou ter sido abandonada, a isso os leva. Ela sempre os educou no ódio. Nada nos diz no filme que esse ódio tenha alguma razão legítima, para lá de uma certa propensão do pai para o alcoolismo, entretanto renegado pela adopção de uma religião. Apenas preconceitos e ódio puro. Que se transmite de mãe para filhos, e que estes concentram no cano de uma caçadeira. Que impõe a resposta, e a resposta à resposta, numa espiral de violência que parece não ter fim. Tudo se passa numa América profunda, nos campos de algodão e nas pequenas estradas do Sudeste de Arkansas, estado onde nasceu Jeff Nichols, o realizador e argumentista, que certamente recorda aqui não só personagens e situações da sua infância, como, sobretudo, uma atmosfera irrespirável, muito bem transmitida com uma economia de meios total. Tudo se passa numa América profunda, é verdade, mas a leitura é obviamente metafórica e fala-nos da vingança como modo de comportamento pessoal, social, nacional, internacional, como referência clara ao clima revanchista de uma América traumatizada pelo 11 de Setembro. Jeff Nichols tenta mostrar como o caminho da vingança a nada mais conduz do que a novas respostas e ao recrudescer da violência.
Filme abertamente “indie”, este "Histórias de Caçadeira" inclui-se numa curiosa tendência do mais recente cinema norte-americano. Ser sóbrio e narrativo, liberal e “político”, contar uma história, sem empolamentos formais, ir ao encontro do verdadeiro cinema norte-americano que vem de Griffith, passa por John Ford, e volta a ter um período áureo nos anos 60 e 70, com cineastas como Arthur Penn (“Vício de Matar” ou “Bonnie e Clyde”), Martin Ritt (“Hud, o mais Perigoso entre Mil” ou “Ultraje” e “Um Homem”), Stuart Rosenberg (“O Presidiário” e “Wusa”). E vai mais longe na evocação de mestres: o David Lean de "Lawrence da Arábia". Clássicos, afinal, homens da narrativa romanesca expurgada de efeitos, reduzida ao essencial.
O que a obra de Jeff Nichols (nascido a 7 de Dezembro de 1978, em Little Rock, Arkansas) demonstra de forma magnifica, na maneira como adensa os climas pela duração do plano e pelo laconismo dos personagens, na maneira hábil e discreta como desenha personagens, os irmãos, é certo, Son, sobretudo, mas igualmente a mãe destes (que surge apenas em dois ou três planos, mas “percebemos” na integra), ou esse “Shampoo” que se intromete constantemente na história.
É curioso como se alterna a vida pacata e tranquila de uma paisagem quase diríamos bucólica, de campo e rio, com a explosão da violência que sentimos crescer de plano para plano, e descobrimos pronta a irromper. A arte de Jeff Nichols permite-nos adivinhar sentimentos e emoções, para lá do visível. O que é um trunfo importante no computo de um título que assinala a estreia do cineasta na longa-metragem.

HISTÓRIAS DE CAÇADEIRAS
Título original: Shotgun Stories
Realização: Jeff Nichols (EUA, 2007); Argumento: Jeff Nichols; Produção: David Gordon Green, Tisha Gribble, Lisa Muskat, Jeff Nichols, John Portnoy, Paul Skidmore, Nick Thurlow, Todd Williams; Música: Lucero, Pyramid; Fotografia (cor): Adam Stone; Montagem: Steven Gonzales; Maquilhagem: Cosmo Pfeil, David Weatherly; Direcção de Produção: Louise Runge, Paul Skidmore; Assistente de realização: Cosmo Pfeil; Casting: Yancey Prosser; Som: Dhyana Carlton-Tims, Jerry Gilbert; Efeitos visuais: Christopher Dusendschon; Companhias de produção: A Lucky Old Sun Production, Muskat Filmed Properties LLC, Upload Films; Intérpretes: Michael Shannon (Son Hayes), Douglas Ligon (Boy Hayes), Barlow Jacobs (Kid Hayes), Natalie Canerday (Nicole), Glenda Pannell (Annie Hayes), Lynnsee Provence (Stephen Hayes), Michael Abbott Jr. (Cleaman Hayes), Coley Canpany (Cheryl), Lance Christopher, Will Hahn, Gary Hawkins, Cole Hendrixson, Mark W. Johnson, Tom Kagy, Vivian Morrison Norman, Hannah Payne, Cosmo Pfeil, Tucker Prentiss, Wyatt Ashton Prentiss, David Rhodes, Travis Smith, G. Alan Wilkins, etc. Duração: 92 minutos; Distribuição em Portugal: Atalanta Filmes; Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia nos EUA: 26 de Março de 2008; Estreia em Portugal: 11 de Junho de 2009.

FESTIVAL DE TEATRO DE ALMADA, 3

DIALOGUE D’UN CHIEN AVEC SON MAITRE
SUR LA NECESSITE DE MORDRE SES AMIS,
de Jean-Marie Piemme
Excelente espectáculo que parte de um texto magnífico de Jean-Marie Piemme, encenado com muita inteligência e ironia por Philippe Sireuil, para o Teatro Nacional da Comunidade Francesa em Bruxelas, servido por dois intérpretes de eleição: Philippe Jeusette e Fabrice Schillaci.
Dizem que constituiu um dos grandes êxitos do último Festival d’Avignon. Justificamente. A cenografia e luzes são também da responsabilidade de Philippe Sireuil e as primeiras a sobressair: num palco que é um largo estrado de madeira, uma caravana deteriorada, um maple a cair de usado, nada mais. Uma luz dourada que tudo envolve, Um homem que se aproxima e começa a falar da sua vida, ele que é porteiro de um hotel de luxo, mas sobrevive mal e porcamente numa caravana escalavrada, sonhando com a filha que lhe foi retirada pelos serviços sociais (que não o julgaram capaz de a educar). Fala também de um cão que por ali anda, enquanto se ouvem, em off, os carros a espatifarem-se uns contra os outros na auto-estrada que passa em frente à caravana. O causador do enorme engarrafamento é o cão que atravessa continuamente a estrada, com esse mesmo propósito: causar acidente, ver os carros engalfinhados uns nos outros. O cão tem uma filosofia de vida, o porteiro do hotel tem uma outra, ambas se vão chocar, confrontar, completar neste palco da vida.
Uma hora e quarenta de filosofia e burlesco, que fazem lembrar “À Espera de Godot” e outras peças de um certo non sense, mas que acabam por ter um grande sentido. É o humor em liberdade, à procura de uma finalidade para a existência de todos nós, um grito de revolta irónico sobre as injustiças da vida, sobre as agruras, mas também sobre a alegria de estar vivo, sobre o gozo de tramar os poderosos, de obrigar os ministros bêbados a virem-nos comer à mão. Ou à pata. De certa forma, a peça relembra igualmente o trágico “O Último dos Homens”, de Murnau, numa versão que troca o drama pelo humor, bem como toda a extraordinária banda sonora é muito felliniana, em certos momentos. Diz Philippe Sireuil que esta peça “dá-nos o osso, o nervo e a carne de um belo pedaço de teatro que deve ser devorado sem qualquer moderação”. Nascido em 1952, no então Congo Belga, Philippe Sireuil é um dos mais destacados encenadores de língua francesa da actualidade. Ao longo da sua carreira encenou textos de Strindberg, Peter Handke, Bertolt Brecht, Alfred Musset, Tchecov, Koltès, Marguerite Duras, Jean Luc Lagarce, Paul Claudel, Ibsen, Marivaux, Broch, Molière, Shakespeare, entre outros.
Quanto ao escritor, Jean-Marie Piemme (Valónia, 1944) estudou literatura na Universidade de Liège e teatro no Instituto de Estudos Teatrais em Paris. Dramaturgo no Ensemble Théâtrale Mobile, colabora em seguida com o Théâtre Varia, de Bruxelas. Entre 1983 e 1988, integra a equipa de Gérard Mortier na Ópera Nacional da Bélgica. A sua primeira peça é de 1986 (“Neige en Décembre”). Seguiram-se mais de trinta textos de teatro, representados na Bélgica e no estrangeiro. Este texto que agora conhecemos, “Dialogue d’un Chien avec son Maître sur la Nécessité de Mordre ses Amis” (Diálogo de um Cão com o seu Dono Sobre a Necessidade de Morder os seus Amigos) é um notável exercício que consegue prender a atenção do público sem uma quebra, apenas com dois actores no palco. Uma revelação que se saúda.

segunda-feira, julho 06, 2009

FESTIVAL DE TEATRO DE ALMADA, 2

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“VIEIRA DA SILVA PAR ELLE MÊME”,
de Maria José Paschoal

“Vieira da Silva par Elle Même” esteve em cena no Museu Vieira da Silva em Lisboa. Recolheu boas referências, mas na altura passou-me. Ainda bem que Almada o recuperou depois da sua intérprete (e autora da ideia do texto, encenadora, cenógrafa e figurinista) Maria José Paschoal ter conquistado o Globo de Ouro para Melhor Actriz de Teatro na edição de 2009.
Maria José Paschoal estreou-se como actriz, em 1981, em “Casamento Branco”, de Tadeus Rozewicz, no Teatro Aberto. Entre 1986 e 1993, no Teatro da Graça, participou em peças de autores como Fassbinder, Tennessee Williams, Edward Bond, Edward Albee, Turgueniev, A. Galine, Tchecov e Gorki. Recentemente, no TMA, interpretou o papel de D. Francisca de Aragão em “Que Farei com este Livro?”, de José Saramago, com encenação de Joaquim Benite. Com “Vieira da Silva par Elle Même” assume como mulher de sete ofícios, mas confirma-se sobretudo como excelente actriz.
Apaixonada por Vieira da Silva, concebeu um espectáculo de uma hora que recorre apenas às palavras da pintora Maria Helena Vieira da Silva, expressas em entrevistas concedidas a diversos jornalistas ao longo da sua carreira. São reflexões sobre a vida e a arte, confidências e episódios auto-biográficos que Maria José Paschoal cerze com agilidade e desenvoltura, e vai desenrolando num cenário pobre, com adereços parcos, mas que ilumina com a força do seu talento de actriz. Ficamos facilmente colados às palavras, mas sobretudo fascinados pela sensibilidade e a delicada finura da voz da actriz, a reviver o pulsar de uma existência dedicada à pintura. Esquece-se a grisalha cabeleira, um pouco amadora na sua execução, perante o fulgor das palavras e o (discreto mas seguro) brilho de quem as profere.
Assim se demonstra que, quando o talento existe, a ausência de meios pode ser sentida, mas não é impeditiva de uma boa performance.

FESTIVAL DE TEATRO DE ALMADA, 1

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AS CRIADAS, de Jean Genet
Abriu mais uma edição do magnífico Festival de Teatro de Almada (desta feita na sua 26ª edição), com uma encenação de Luc Bondy, da célebre peça de Jean Genet, “As Criadas”, numa produção da Volksbühne (em co-produção com Wiener Festwochen). Explique-se antes de mais que a Volksbühne am Rosa-Luxemburg-Platz é não só um espaço teatral, como uma companhia e uma escola de teatro. “Construído entre 1913 e 1914, o edifício da Volksbühne – literalmente: “teatro do povo”, situado na praça Rosa-Luxemburgo – veio responder aos anseios da associação Freie Volksbühne (Teatro do Povo Livre), a qual procurava, desde 1890, um espaço onde se praticasse um teatro pedagógico, mas de qualidade, para as classes trabalhadoras.”
A Volksbühne situa-se em Berlim Leste, no território alemão que até 1989 era conhecido por República Democrática Alemã. Foi sempre uma companhia de vanguarda, de teatro político, tendo sido dirigida por homens como Max Reinhardt ou Erwin Piscator, alguns dos nomes maiores do teatro alemão do século XX. Nos anos 70, Benno Besson, discípulo de Bertolt Brecht, marcou o seu rumo, mas desde 1992 é Frank Castorf, um encenador nascido em 1951, que a dirige e a transformou “numa das companhias mais inovadoras das artes performativas de hoje, atitude reflectida na atenção dada à música rock e pop e ao novo cinema e, ainda, na abertura à desconstrução assumida pela performance (inaugura mesmo uma nova sala em Berlim – o Prater –, extensão acentuadamente experimental da Volksbühne).”
“Les Bonnes”, editada em 1947, tem sido uma obra particularmente motivadora de encenações polémicas. Em Portugal, ficou lendária a ritualista encenação de Victor Garcia, apresentada em 1972, no Teatro Experimental de Cascais, com Eunice Muñoz, Glicínia Quartin e Lurdes Norberto. Trata-se de uma óbvia e metafórica abordagem da luta de classes, colocando Genet em cena duas criadas e uma “senhora” que exacerbam situações de interdependência classista. As criadas, na ausência da patroa, mimam o comportamento desta, desenvolvendo uma complexa relação de amor-ódio, que acaba por resultar numa tentativa de assassinato e/ou suicídio, que leva o espectador a interrogar-se sobre o que finalmente agita o mais íntimo de cada um de nós, na sua relação com o outro.
Uma leitura mais redutora poderá falar essencialmente da subterrânea luta do senhor e do escravo, numa sociedade estratificada em classes, mas esta versão de Luc Bondy é muito mais complexa, levando o caso do campo estritamente político para o psicanalítico, cruzando luta de classes com sexualidade, bondage, atracção e repulsa, e outras perspectivas. As criadas são irmãs, ambas afrontam a patroa, ambas se amam e se confrontam entre si, ambas se abraçam e chocam, ambas dominam e são dominadas. Com sofrimento e prazer, também.
Esta produção estreou em Junho de 2008, no Festival de Viena, com interpretações excepcionais de Edith Clever (Madame), Caroline Peters (Claire) e Sophie Rois (Solange). Edith Clever já a conhecia de filmes de Syberberg (de quem foi mulher), é uma das grandes divas do palco e do cinema alemães. Caroline Peters e Sophie Róis, não as conhecia e são duas admiráveis actrizes que povoam o drama de energia, ternura, vigor, ódio, amor, sensualidade durante duas intensas horas de representação fulgurante. Deve dizer-se que a cenografia de Bert Neumann é notável; muito bons e eficazes os figurinos de Tabea Braun; brilhante (e essencial à atmosfera criada) o desenho de luz de Dominique Bruguère. A encenação de Luc Bondy é particularmente interessante em vários aspectos. É de uma eficácia total, rigorosa, inventiva, intimamente brutal, mas irónica, sem procurar nunca chamar gratuitamente a atenção para qualquer efeito. Entrega o palco às actrizes e ao texto, e serve aquelas e este de forma exemplar. Um espectáculo perfeito, que ficará na memória dos espectadores, como ficou, no ano passado, a encenação de Peter Zadek, de Peer Gynt, pelo fantástico Berliner Ensemble.

sexta-feira, julho 03, 2009

MÉRITO MUNICPAL EM SEIA


SEIA ATRIBUI MEDALHAS
DE MÉRITO MUNICIPAL

Medalhas de Mérito Municipal atribuidas pela Câmara Municipal no dia 3 de Julho de 2009, Feriado Municipal, cuja cerimónia solene decorrerá a partir das 14:30 H no cineteatro da Casa Municipal da Cultura de Seia:

Mérito Cultural
Centro Cultural “Os Serranos”
Edgar Alexandre da Mota Veiga Dolgner (LICRASE)
Gracinda Silva Rodrigues (Conservatório Música)
José Camacho Costa (título póstumo) (Cine'Eco)
Lauro António de Carvalho Torres Corado (Cine'Eco)

Maria Helena Pais de Abreu (Pintora)
Sérgio Pinto Miranda (Rancho F. Seia)

Mérito e Dedicação
António Júlio Vaz Saraiva
Carlos João Teodoro Tomás
José Pinto Mendes
Manuel Teixeira Plácido
Pe. Francisco Borges de Assunção (título póstumo)
Pe. Joaquim Teixeira

Mérito Empresarial
Alberto Trindade Martinho
Ana Filipa Osório Mayer de Carvalho Sacadura Botte
António Simão Cardoso
Cândido Abrantes da Silva
Jorge Manuel Saraiva Camelo
Luís Filipe Mendes Coelho
Paulo Alexandre Duque Santos
Vítor Manuel Costa Caetano

Mérito Desportivo
Paulo Jorge da Silva Abrantes Fontes (título póstumo)


Citado, com a devida vénia, do blogue seia portugal, de Mário Jorge Branquinho

quinta-feira, julho 02, 2009

CINEMA: LIGAÇÕES PERIGOSAS

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LIGAÇÕES PERIGOSAS
“Ligações Perigosas”, de Kevin Macdonald, adapta uma mini série inglesa da BBC, com seis horas de duração, a filme americano de 127 minutos. Esta adaptação só por si já diz algo sobre a obra. Ou seja, a base conspirativa em que assenta tanto pode acontecer, presentemente, em Inglaterra como nos EUA (e, alargando a metáfora, pode situar-se em qualquer lugar deste mundo). A “conspiração” está na ordem do dia, as “ligações perigosas” entre a política e o mundo financeiro, os interesses económicos das guerras e as empresas privadas, a comunicação social e o serviço público, tudo isto anda ligado, e de que maneira!
O cinema norte-americano desde sempre tem dedicado grande interesse ao universo da comunicação social, quer seja os jornais mais tradicionais, a rádio ou a televisão. “State Of Play” é apenas mais um caso, mas não deixa de ser um caso sintomático a vários níveis, o que torna o filme particularmente interessante. Interessante de um ponto de vista político, reportando-se ainda aos tempos de Bush, mas interessante igualmente em termos de actualidade jornalística. Comecemos por uma ponta desta intrincada meada: Cal McAffrey (Russell Crowe) é jornalista sénior num importante diário de Washington. É amigo pessoal há longos anos de Stephen Collings (Ben Affleck), um congressista norte-americano que nessa altura se encontra à frente de um inquérito sobre uma empresa paramilitar privada que foi contratada pelo estado para intervir no Iraque e no Afeganistão. E que tem lucrado de forma escandalosa com o negócio.
O filme começa por um “fait divers” que parece não ter nada de muito especial a sublinhá-lo: um suposto ajuste de contas entre traficantes de droga culmina com o assassinato de um deles. Horas mais tarde, porém, a principal colaboradora de Stephen Collings (e sua amante, sabe-se depois) é encontrada morta, num possível acidente de Metro. Mas, o que aparentemente se julga não ter qualquer relação entre si, acaba por se mostrar muito mais estranho, quando o jornalista inicia investigações e descobre pontos de convergência inesperados.
Cal McAffrey é o centro desta reportagem escaldante, tendo a seu lado uma jovem colaboradora, Della Frye, que abastece “on line” o blogue do jornal. Altura para a investigação jornalística sobre política, meios militares e empresariais e capital se cruzarem com a situação actual do jornalismo. O jornal está ameaçado de falência, os blogues são os mais procurados pelo público leitor, Cal tem uma visão da blogosfera nada optimista, Dale é um produto de uma nova era e de tempos diferentes, e a editora chefe, Cameron Lynne (Helen Mirren), está sobretudo preocupada com a sobrevivência do periódico, agora sob a alçada de uma nova administração que exige resultados, ou seja mais leitores, e portanto uma nova linha editorial, possivelmente menos rigorosa, mas mais lucrativa. Dê-se ao leitor aquilo que ele quer: escândalos e vítimas servidos a quente. No fundo, tudo se liga de uma maneira profunda e muito clara, ainda que tudo se faça para que a mesma não seja transparente: o capital domina política, guerras e meios de comunicação. Como estamos na América, arauto da democracia e das liberdades individuais, o filme mostra as virtudes do sistema, que apesar de corrupto como qualquer outro, oferece as vantagens de tudo poder ser discutido e investigado e de a verdade vir sempre ao de cima. Será esta a realidade? Há casos que apontam para a resposta positiva, outros não, Watergate é um exemplo, mas quantos não ficaram na sombra? Conhecem, no entanto, melhor sistema? Eu não. Por isso vou comprando como saudáveis estas denúncias possíveis em terra de liberdades mais ou menos asseguradas.
Cal é persistente e teimoso, não olha a amizades e interesses instalados, vai furando de reviravolta em reviravolta até chegar a uma verdade final que demonstra bem como se fazem os negócios e alguma politica. Nos EUA, na Rússia, na China, na Índia ou em Portugal. Não tenhamos ilusões. Faz parte da condição humana e não serão programas para implementar um “homem novo” que vão modificar essa condição. Ela não irá mudar, está provado, apenas poderá ser mais e melhor controlada, prevenindo uns casos e castigando com 150 anos de prisão outros.
Há, sempre houve e haverá, heróis incorruptíveis que levam a sua perseverança e obstinação até ao limite. Cal é um exemplo desse jornalismo de causas que tende cada vez mais a ser raridade fóssil e que é assim mesmo descrito (veja-se como Cal se veste, como (des)organiza o seu espaço na redacção do jornal, como reage às novidades que acha perigosas, mas como se converte, quando descobre as suas potencialidades). Dale é um produto novo, hesitante de início, mas que aceita aprender as regras do veterano e a ele se associa, por admiração pessoal, mas porque ambos são feitos da mesma massa. O que instila uma aragem de esperança na geração blogue que, com outras armas, promete continuar a mesma luta.
Mas o filme é mais interessante e importante ainda porque mostra como se devem continuar a impor regras na comunicação social (se calhar cada vez mais necessárias!), como se deve ser sempre mais exigente, como não se pode acusar levianamente, como só se deve publicar o que está provado com dados, como por vezes se é obrigado a perder a oportunidade de uma edição de venda certa, recusando noticiar um facto não confirmado. Esta ética do jornalista, que se descobre vilipendiada por todo o lado, em nome do lucro dos meios, e do triunfo pessoal de quem destapa o furo (de quem mesmo às vezes inventa o furo, para depois dele se poder servir), esta ética deontológica é bem matizada na película de Kevin Macdonald, que aproveita um excelente naipe de actores, jogando bem com ambientes e atmosfera habilidosamente reconstituídos, num ritmo de narrativa que impõe o acelerar do “thriller”, mas não abafa à sua cadência a exploração dos meandros por onde passa.
Kevin Macdonald era já conhecido por três outros títulos interessantes, “O Último Rei da Escócia”, “Touching The Void - Uma História de Sobrevivência” e o documentário “Terror em Setembro”, todos eles interventivos politicamente e liberais nos seus contornos. Em “Ligações Perigosas” mostra-se um cineasta a seguir com atenção.
LIGAÇÕES PERIGOSAS
Título original: State of Play
Realização: Kevin Macdonald (EUA, Inglaterra, França, 2009); Argumento: Matthew Michael Carnahan, Tony Gilroy, Billy Ray, segundo série de televisão escrita por Paul Abbott; Produção: Paul Abbott, Tim Bevan, Liza Chasin, Eric Fellner, Andrew Hauptman, Eric Hayes, Debra Hayward, Kwame Parker, E. Bennett Walsh; Música: Alex Heffes; Fotografia (cor): Rodrigo Prieto; Montagem: Justine Wright; Casting: Avy Kaufman; Design de produção: Mark Friedberg; Direcção artística: Richard L. Johnson, Adam Stockhausen; Decoração: Cheryl Carasik; Guarda-roupa: Jacqueline West; Maquilhagem: Sandy Andrle, Felicity Bowring, Sherri Bramlett, John Caglione Jr., Rhonda O'Neal; Direcção de Produção: Paul Abbott, Robert Huberman, Kwame Parker; Assistentes de realização: Timothy Blockburger, Doug Coleman, Carlos De La Torre, Frank Ferro, Scott Foster, Alfonso Gomez-Rejon, Gary Marcus, Dawn Massaro, Kurt Uebersax; Departamento de arte: Doreen Austria, Susan A. Burig, Noelle King, William J. Law III, Jeff Ozimek; Som: Craig Berkey, Skip Lievsay; Efeitos especiais: Martin Bresin, Phaedra Eason, Jeremy Hays, Jonathan Kombrinck; Efeitos visuais: Tim T. Cunningham, Bob Mercier; Companhias de produção: Andell Entertainment, Bevan-Fellner, Relativity Media, Studio Canal, Universal Pictures, Working Title Films; Intérpretes: Russell Crowe (Cal McAffrey), Ben Affleck (Stephen Collins), Rachel McAdams (Della Frye), Helen Mirren (Cameron Lynne), Robin Wright Penn (Anne Collins), Jason Bateman (Dominic Foy), Jeff Daniels (George Fergus), Michael Berresse (Robert Bingham), Harry Lennix (Det. Donald Bell), Josh Mostel (Pete), Michael Weston (Hank), Barry Shabaka Henley (Gene Stavitz), Viola Davis (Dr. Judith Franklin), David Harbour, Sarah Lord, Tuck Milligan, Steve Park, Brennan Brown, Maria Thayer, Wendy Makkena, Zoe Lister Jones, Michael Jace, Rob Benedict, LaDell Preston, Dan Brown, Katy Mixon, Shane Edelman, Maurice Burnice Harcum, Cornell Womack, Nat Benchley, Gregg Binkley, Trula M. Marcus, Carolyn Barrett, Wil Love, John Badila, Brigid Cleary, Joy Spears, Brandi Oglesby, Stacey Walker, R.B. Brenner, Lucía Navarro, Chris Matthews, Lou Dobbs, James Vance III, Sharon Dugan, Noel Werking, Rose Coleman, etc. Duração: 127 minutos; Distribuição em Portugal: ZON Lusomundo; Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal: 18 de Junho de 2009.

quarta-feira, julho 01, 2009

HISTÓRIAS DO CINEMA, NA PÓVOA


COLECTIVA “HISTÓRIAS DO CINEMA”
Biblioteca Municipal Rocha Peixoto - Póvoa de Varzim
3 a 31 de Julho de 2009
INAUGURA DIA 3, SEXTA-FEIRA, PELAS 21H30 COM CONCERTO DOS PORTO RUBY

O Clube de Cinema 8 e Meio / ESEQ e o Pelouro da Cultura do Município da Póvoa de Varzim convidam-no para a inauguração da Exposição Colectiva de Artes Plásticas "Histórias do Cinema", sexta-feira dia 3 de Julho, pelas 21H30, na Galeria da Biblioteca Municipal da Póvoa de Varzim.
Programa extra: Concerto da banda Porto Ruby. Será servido um Porto de Honra.

A EXPOSIÇÃO

Os filmes de que gostamos têm essa capacidade... Trabalham-nos por dentro quando os vemos e deixam-nos uma cicatriz perpétua, um rasgão que nos tatua a alma para o resto da vida. Para o bem e para o mal eles são os filmes da nossa vida, aqueles que desenham os territórios onde gostamos de nos encontrar/perder.

O projecto "Histórias do Cinema" consta de uma mostra de trabalhos originais realizados em formato A5 e construídos a partir da memória ficcional de filmes seleccionados por convidados de diversas áreas profissionais. Foram aceites todas as formas de intervenção: desenho, colagem, pintura, fotografia, texto, etc. No leque de convidados estão representadas muito sensibilidades, algumas delas, inclusivé, sem uma ligação directa às artes plásticas ou gráficas. Pelo exposto decorre que o objectivo do projecto não passa obviamente por uma curadoria baseada em critérios puramente estéticos (nem serão estes os mais determinantes), interessando mais o lado afectivo que a actividade promove.

A exposição pública dos trabalhos decorre entre os dias 3 e 31 de Julho na galeria da Biblioteca Municipal Rocha Peixoto, Póvoa de Varzim.
As verbas auferidas com a exposição - todos os trabalhos estarão à venda pelo preço simbólico de 50 euros - revertem para o clube de cinema 8 e Meio, que as utilizará para as suas actividades: concurso de vídeo escolar 8 e Meio e organização de sessões com convidados.

O CONCERTO

Porto Ruby: Do charme gangster de Frank Sinatra, à diva do playback Britney Spears, da suavidade - pomada de Caetano Veloso ao desafinar de Bob Dylan, da anca de Nina Simone aos aranhiços de David Bowie, das quebras de tensão dos Jefferson Airplane aos desamores de bar de hotel de Leonard Cohen dos blues cubistas de Tom Waits às negras distâncias de uns Depeche Mode... Tudo num Porto Ruby.
MySpace: http://www.myspace.com/portoruby

PARTICIPANTES E FILMES SELECCIONADOS
(por ordem alfabética de nome de autor)

ALZIRA GUEDES (professora)
GATO PRETO, GATO BRANCO (Ex-Jugoslávia, 1998) de EMIR KUSTURICA

ANA ROMERO (artista plástica)
IN THE MOOD FOR LOVE (Hong Kong, 2000) de WONG KAR WAI

ANDRÉ CHIOTE (arquitecto)
LOST IN TRANSLATION (EUA, 2003) de SOFIA COPPOLA

ANDRÉ LEMOS (ilustrador)
NÃO TE MEXAS, MORRE E RESSUSCITA! (URSS, 1989) de VITALI KANEVSKY

ANTÓNIO FERNADEZ (arquitecto)
AMARCORD (Itália, 1973) de FEDERICO FELLINI

ANTÓNIO GONÇALVES (artista plástico)
OS IDIOTAS (Dinamarca, 1998) de LARS VON TRIER

ANTÓNIO JORGE GONÇALVES (artista visual)
HANA-BI (Japão, 1997) de TAKESHI KITANO

ANTÓNIO NORONHA NASCIMENTO (juiz-conselheiro/presidente do supremo tribunal de justiça)
ROCCO E SEUS IRMÃOS (ITALIA, 1960) de LUCHINO VISCONTI

ANTÓNIO PINTO (professor/artista plástico)
BRUSCAMENTE NO VERÃO PASSADO (EUA, 1959) de JOSEPH L. MANKIEWICZ

ARMANDA VILAR (designer)
L’ATALANTE (França, 1934) de JEAN VIGO

CAROLINA PINHO (designer gráfica)
ET: O EXTRA-TERRESTRE (EUA, 1982) de STEVEN SPIELBERG

CÉLIA NEVES (professora)
CINEMA PARAÍSO (Itália, 1988) de GIUSEPPE TORNATORE

DANIEL CURVAL (fotógrafo)
STALKER (URSS, 1979) de ANDREI TARKOVSKI

DANIEL SILVESTRE DA SILVA (ilustrador)
ZELIG (EUA, 1983) de WOODY ALLEN

ESGAR ACELERADO (ilustrador)
FREAKS (EUA, 1932) de TOD BROWNING

FRANCISCO CUNHA (ilustrador)
LA VEUVE DE SAINT-PIERRE (França, 2000) de PATRICE LECONTE
FRANCISCO LARANJEIRA (artista plástico)
ZABRISKIE POINT (EUA, 1970) de MICHELANGELO ANTONIONI

GRAÇA DINIS (professora)
ÚLTIMO TANGO EM PARIS (Itália, 1972) de BERNARDO BERTOLUCCI

HELDER LUÍS (designer)
LARANJA MECÂNICA (GB, 1971) de STANLEY KUBRICK

ISABEL ABOIM INGLEZ (cineasta)
OITO E MEIO (Itália, 1963) de FEDERICO FELLINI

ISABEL LHANO (artista plástica)
OS LIVROS DE PRÓSPERO (GB, 1991) de PETER GREENAWAY

ISABEL PADRÃO (artista plástica)
ERASERHEAD (EUA, 1977) de DAVID LYNCH

ISAQUE FERREIRA (leitor de poesia)
THE SHINING (EUA, 1980) de STANLEY KUBRICK

JOANA RÊGO (artista plástica)
CITIZEN KANE (EUA, 1941) de ORSON WELLES

JAIME EUSÉBIO (arquitecto)
MÓNICA E O DESEJO (Suécia ,1953) de INGMAR BERGMAN

JOÃO RIOS (poeta)
UN CHIEN ANDALOU (França, 1929) de LUIS BUÑUEL

JOSÉ CARLOS MARQUES (fotógrafo)
PULP FICTION (EUA, 2002) de QUENTIN TARANTINO

JOSÉ MIGUEL GERVÁSIO (artista plástico/professor)
FEIOS, PORCOS E MAUS (Itália, 1976) de ETTORE SCOLLA

JOSÉ ROSINHAS (artista plástico)
FIREWORKS (EUA, 1953) de KENNETH ANGER

JÚLIO DOLBETH (ilustrador)
MISTER LONELY (EUA, 2007) de HARMONY KORINE

LEONEL CUNHA (professor)
MAD MAX I (Austrália, 1979) de GEORGE MILLER

LUÍS NOGUEIRA (professor/artista plástico)
TAXI DRIVER (EUA, 1976) de MARTIN SCORSESE

LUÍS SILVA (ilustrador)
ANDREI RUBLIOV (URSS, 1966) de ANDREI TARKOVSKI

MARCEL SAINT-PIERRE (artista plástico)
O DESERTO VERMELHO (Itália, 1964) de MICHELANGELO ANTONIONI

MARIA JOÃO OLIVEIRA (professora)
O CASTELO ANDANTE (Japão, 2004 ) de HAYAO MIYAZAKO

MARIANA PEREIRA (designer gráfica)
NATURAL BORN KILLERS (EUA, 1994) de OLIVER STONE

MENINA LIMÃO (designer gráfica)
MAGNOLIA (EUA, 1999) de PAUL THOMAS ANDERSON

MIGUEL DIAS (director festival curtas metragens vila do conde)
SAMUEL FULLER

NELSON D’AIRES (fotógrafo)
O FIEL JARDINEIRO (GB, 2005) de FERNANDO MEIRELLES

NUNO BARROS (professor/artista plástico)
FANNY E ALEXANDRE (Suécia, 1982) de INGMAR BERGMAN

NUNO SARAIVA (ilustrador)
IL SORPASSO (Itália, 1962) de DINO RISI

ONDINA MORIM (professora)
AS ASAS DO DESEJO (Alemanha, 1987) de WIM WENDERS

PEDRO CALDAS (estudante de design)
TRAINSPOTTING (GB, 1996) de DANNY BOYLE

PEDRO EIRAS (escritor/professor)
JE VOUS SALUE, MARIE (França, 1985) de JEAN-LUC GODARD

PEDRO MOURA (realizador/ilustrador)
BULLITT (EUA, 1968) de PETER YATES

RICARDO CARVALHO (arquitecto)
WILD AT HEART (EUA, 1990) de DAVID LYNCH

RITA MENDES (designer)
CAT PEOPLE (EUA, 1942) de JACQUES TOURNEUR

RUI BALTHAZAR (artista plástico)
HISTOIRE(S) DU CINEMA (França, 1988-1998) de JEAN-LUC GODARD

RUI PINHEIRO (fotógrafo)
BLOW-UP (GB/Itália, 1966) de MICHELANGELO ANTONIONI

RUI RICARDO (ilustrador)
O PLANETA DOS MACACOS (EUA, 1968) de FRANKLIN J. SCHAFFNER

RUI VITORINO SANTOS (ilustrador/designer)
UM Z E DOIS ZEROS (GB, 1985) de PETER GREENAWAY

SARA MACEDO (estudante de música)
O DESPERTAR DA MENTE (EUA, 2004) de Michel Gondry

SARA SOTTOMAYOR (professora)
OS CAVALOS TAMBÉM SE ABATEM? (EUA, 1969) de SIDNEY POLLACK

SUSANA VASSALO (arquitecta)
DE TANTO BATER O MEU CORAÇÃO PAROU (França, 2005) de JACQUES AUDIARD

SÉRGIO LEMOS (fotógrafo/músico)
BLOW-UP (GB/Itália, 1966) de MICHELANGELO ANTONIONI

SIGLA-D (designer)
THE WALL (GB, 1982 ) de ALAN PARKER

TERESA GUEDES (professora)
O PERFUME (Alemanha, 2006) de TOM TYKWER

valter hugo mãe (escritor)
MANHÃ SUBMERSA (Portugal, 1980) de LAURO ANTÓNIO

VÍTOR LAGO SILVA (artista plástico)
NOSTALGIA (Itália, 1983) de ANDREI TARKOVSKY

ZBIGNIEV KONIEC (artista plástico)
BRANCA DE NEVE E OS SETE ANÕES (EUA, 1937) de WALT DISNEY
Informação retirada, com a devida vénia, de "casadeosso"

CINEMA: A RESSACA

:

TODD PHILLIPS E “A RESSACA”
“A Ressaca”, de Todd Phillips, não era filme que eu fosse ver assim sem mais nem menos. Sabia que estava a bater records de público este verão nos EUA, mas já estou muito queimado em relação ao gosto do público americano quanto a comédias. Bons eram os tempos de Howard Hawks, de Billy Wilder, de Jerry Lewis, de Richard Quine, e de alguns mais. Mas para a última revoada de comédias (!?) para adolescentes frustrados com sexo, não tenho muita paciência. “The Hangover” parecia-me algo assim. Acontece que fui a uma sessão da meia-noite que os jornais anunciavam como a última oportunidade para ver um filme que me interessava não perder, e, na bilheteira, fui informado que afinal ia passar “A Ressaca”. Em ante-estreia! Só seria estreado no dia seguinte. Acabei por ficar.
Não dei por mal empregue o tempo. A comédia de Todd Phillips é divertida, tem ritmo, bons actores, que compõem personagens interessantes, e globalmente é um bom entretenimento como há muito não via, no género, vindo da América.

Quatro amigos, trintões, Phil Wenneck (Bradley Cooper), Stu Price (Ed Helms), Alan Garner (Zach Galifianakis) e Doug Billings (Justin Bartha), juntam-se para uma despedida de solteiro. Um é casado e engana a mulher quanto ao destino da viagem. O outro vai casar. Os outros são solteiros. Todos diferentes entre si, mas todos a quererem experimentar uma noitada de loucura na cidade que nunca dorme (Las Vegas também é assim!). Chegados à cidade, alugada a fabulosa suite de hotel, partem à aventura. Corte. Nada se sabe dessa noite, até que três deles acordam nessa mesma suite, mas agora virada de pernas para o ar. E perdido o noivo. E um dente a menos na boca do dentista profissional. E uma galinha no quarto e um tigre na casa de banho. E um colchão espetado num dos pináculos do hotel. E um bebé à porta do quarto. E uma dor de cabeça que cheira a ressaca. E uma amnésia do tamanho do mundo. Ou do céu iluminado a neons de Las Vegas.
Que terá acontecido durante aquela noite de que ninguém no grupo de três se lembra nada? Que terá acontecido ao noivo cujo paradeiro todos desconhecem? E assim se parte da manhã do dia seguinte para se descobrir a noite anterior. Boa ideia, que Todd Phillips explora bem, e os actores ajudam. O que aconteceu na realidade não se pode revelar aqui, mas todos supõem que bebida e droga, mulheres e jogo estejam presentes. Já poucos calculariam que Mike Tyson, himself, pudesse estar no centro desta intriga, nem que Fu Manchu, ou derivados, pudessem andar por ali, sobretudo enjaulados nas bagageiras de carros da polícia furtados.
Despertou-me então curiosidade saber quem era Todd Phillips. E fui investigar. Hoje em dia é fácil saber estas coisas, com um bom motor de buscas. Nascido a 20 de Dezembro de 1970, em Brooklyn, New York, foi argumentista e agora é realizador, estudou na New York University Film School (na altura era conhecido pelo seu nome de baptismo, Todd Bunzl), onde realizou um primeiro filme, um documentário sobre a vida de um cantor de rock punk, GG Allin, “GG Allin and the Murder Junkies”. Trabalhou depois em St. Mark's Place, numa loja de vídeo, especializando-se em pornos. Em 1994, Phillips fundou o “New York Underground Film Festival”, juntamente com Andrew Gurland, começando igualmente a distribuir comercialmente algumas dessas obras mais controversas, como o documentário “Chicken Hawk: Men Who Love Boys”, uma realização de Adi Sideman, premiada na primeira edição do seu festival.
A sua actividade como realizador continuou com “Frat House”, um documentário sobre a fraternidade nos colégios, produzido e realizado em colaboração com o seu amigo Andrew Gurland. O filme acabaria por ser premiado em 1998, no Sundance Film Festival, com o Grande Premio do Júri. Foi nessa altura que conheceu Ivan Reitman, que apadrinhou e produziu (através da Reitmans' Montecito Picture Company) os seus filmes seguintes, “Road Trip”, “Old School” e “School for Scoundrels”.
Em 2006, Phillips escreveu e preparava-se para dirigir “Borat: Cultural Learnings of America for Make Benefit Glorious Nation of Kazakhstan”, que acabaria por ser realizado por Larry Charles (desencontros de orientação entre o protagonista e o realizador geraram o conflito). Mas, apesar disso, foi nomeado para o Óscar de melhor argumento desse ano.
Pode dizer-se que Todd Phillips tem já um certo passado, de que fui à procura na Fnac. Encontrei quatro títulos de comédias que não tinha visto e algumas delas “brilhantemente” traduzidas para português. Consegui ver “Road Trip” (Road Trip – Sem Regras) (2000), “Old School” (Dias de Loucura) (2003), “Starsky & Hutch” (Starsky & Hutch) (2004) e “School for Scoundrels” (Escola para Totós) (2006), todos portanto anteriores a “The Hangover” (A Ressaca) (2009).
Nenhuma das anteriores comédias se equivale à última, mas também nenhuma delas é nulidade sem préstimo. Todd Phillips é obviamente um cinéfilo e em muitos aspectos das suas comédias existem citações claras de clássicos, com “Duas Feras”, de Howard Hawks (o tigre num lado, o leopardo no outro), “Três Homens e um Bebé” e não sei mesmo se não terá bebido em “Belle Toujours”, de Manoel de Oliveira, a inspiração para o aparecimento da insólita galinha no quarto de hotel.
Passemos em relance rápido as anteriores comédias do cineasta:

“Road Trip – Sem Regras”, é um típico filme de estudantes de universidade. Na linha de imbecilidades como “Porkys” ou “American Pie”, mas menos alarve, mais sensível, mais sorriso e menos gargalhada grosseira. Josh (Breckin Meyer) namora, mas tem um caso esporádico com Beth (Amy Smart). Caso gravado numa cassete. Cassete que é enviada à namorada que estuda noutro estado, em lugar de uma bonita declaração de amor gravada em vídeo. Quando Josh descobre a funesta troca, resolve partir num carro emprestado, com três colegas penduras, para tratarem de impedir que a cassete cumpra o seu destino. Esta corrida contra o tempo é a base da comédia, que passa por diversas peripécias. Nada de muito especial, mas menos mau do que é costume neste género.
"Dias de Loucura” deve prolongar, em ritmo de comédia louca, mas não muito criativa, o anterior “Frat House”. O grupo de amigos, que já não tem idade para frequentar a Universidade, acaba por fundar uma irmandade precisamente no campus Universitário. Tudo isto porque um deles chega mais cedo do que o aprazado e encontra a mulher num “ménage a trois” que ameaça aumentar de número de cúmplices. Frank (Will Ferrell), Mitch (Luke Wilson) e Beanie (Vince Vaughn) tornam-se, pois, confrades e camaradas de festas e de farras, até que um dia o Reitor resolve intervir e acabar com a brincadeira. Mas a hipocrisia do decano é descoberta e posta a nu. Algum humor, mas não muito.
"Starsky & Hutch" baseia-se num série popular de TV dos anos 70, que reúne uma dupla de agentes da polícia, que trabalham em Bay City, na Califórnia. Ambos são patuscos e disparatados, mas o detective David Starsky (Ben Stiller) é um homem honesto e dedicado à causa, procurando não deixar escapar qualquer crime nem qualquer criminoso. Pelo seu lado, o detective Ken 'Hutch' Hutchinson (Owen Wilson) parece não saber muito bem de que lado está a lei, e junta-se muitas vezes ao pessoal do lado errado. O filme tem alguma graça, mas não muita.
Mais interessante é "School for Scoundrels", que parte de uma boa ideia. Roger (Jon Heder), agente cobrador de parquímetros de Nova Iorque, é um tipo cheio de problemas de auto-estima, medroso e tímido. Um amigo manda-o ir ter com um misterioso Dr. P (Billy Bob Thornton), que tem como assistente abrutalhado um negro de invejável compleição física, Lesher (Michael Clarke Duncan), que, com métodos pouco ortodoxos e perigosos, transforma receosos idiotas em valentes guerreiros do “struggle for life” americano. Cada um liberta o leão que tem dentro de si, mas os resultados não são os melhores. A comédia começa a ter sentido, e a crítica a uma certa mentalidade americana é bem conseguida.
“A Ressaca” parece ser assim o culminar de uma carreira de realizador de comédias, que, se nunca atingiu até aqui brilhantismo ofuscante, também nunca primou pelo desbragado mau gosto, e o humor infantiloide que acomete estas comédias para adolescentes. Parece que se anuncia já uma sequela de “The Hangover”, com todos os participantes assegurados. Esperemos que a carreira de Todd Phillips vá melhorando de filme para filme. Podem depositar-se algumas esperanças neste nome.
Todd Phillips
A RESSACA
Título original: The Hangover
Realização: Todd Phillips (EUA, Alemanha, 2009); Argumento: Jon Lucas e Scott Moore; Produção: Daniel Goldberg, Todd Phillips, David Siegel, Jeffrey Wetzel, Chris Bender, Scott Budnick, William Fay, Jon Jashni, J.C. Spink, Thomas Tull; Música: Christophe Beck; Fotografia (cor): Lawrence Sher; Montagem: Debra Neil-Fisher; Casting: Juel Bestrop, Seth Yanklewitz; Design de produção: Bill Brzeski; Direcção artística: Andrew Max Cahn, A. Todd Holland; Decoração: Danielle Berman; Decoração: Louise Mingenbach; Maquilhagem: Tony Gardner, Lori McCoy-Bell, Janeen Schreyer; Direcção de Produção: Mark Scoon; Assistentes de realização: David Mendoza, Courtenay Miles, Kevin O'Neil, Paul Schneider, Jeffrey Wetzel; Departamento de arte: Jane Fitts, Anshuman Prasad; Som: Tim Chau; Efeitos especiais: John J. Downey, Mario Vanillo; Efeitos visuais: Gray Marshall; Companhias de produção: Warner Bros. Pictures, Legendary Pictures, Green Hat Films, IFP Westcoast Erste, BenderSpink, IFP Westcoast; Intérpretes: Bradley Cooper (Phil Wenneck), Ed Helms (Stu Price), Zach Galifianakis (Alan Garner), Justin Bartha (Doug Billings), Heather Graham (Jade), Sasha Barrese (Tracy Garner), Jeffrey Tambor (Sid Garner), Ken Jeong (Mr. Chow), Rachael Harris (Melissa), Mike Tyson, Mike Epps, Jernard Burks, Rob Riggle, Cleo King, Bryan Callen, Matt Walsh, Ian Anthony Dale, Michael Li, Sondra Currie, Gillian Vigman, Nathalie Fay, Chuck Pacheco, Jesse Erwin, Dan Finnerty, Keith Lyle, Brody Stevens, Todd Phillips, Mike Vallely, James Martin Kelly, Murray Gershenz, Andrew Astor, Casey Margolis, Joe Alexander, Ken Flaherty, Constance Broge, Sue Pierce, Floyd Levine, Robert A. Ringler, etc. Duração: 90 minutos; Distribuição em Portugal: Columbia TriStar Warner; Classificação etária: M/ 16 anos; Estreia em Portugal: 18 de Junho de 2009 (Portugal).

segunda-feira, junho 29, 2009

GRACINDA CANDEIAS, ARTE PÚBLICA

:GRACINDA CANDEIAS
(1992-2002)

Terminava ontem, e só ontem tive oportunidade e tempo para ir ver a exposição de Gracinda Candeias na galeria do Torreão Nascente da antiga Cordoaria Nacional. No piso térreo estava a parte de Instalações e Performances e no 1º andar um mural e três vídeos sobre obras da artista. Tudo relativo à década de 1992-2002, onde imperou a arte pública, e algumas incursões por instalações, performances, assemblages, utilização de signos e grafias de simbólicas diversas (numa das estações de metro de Lisboa, por exemplo, podem ver-se homenagens à permanência árabe, aos portugueses, ao fado e à Severa, e à actual presença africanos, e mais além a influência da escrita chinesa e da sua estética caligráfica).
Muito interessantes são “Altar”, peça de grandes proporções, jogando com elementos orientais, e todas as pesquisas que rodam em torno de Angola (terra da artista) e da rainha angolana N'Zinga.
Organizada pela Câmara Municipal de Lisboa, esta exposição retrospectiva sobre uma década da obra de Gracinda Candeias, mostrou-se uma iniciativa particularmente curiosa, permitindo uma visão global de uma pesquisa que se estende por diversos locais. Devo dizer, no entanto, que a Gracinda Candeias que mais gosto é a pintora de um gestualismo abstracto de uma sensualidade envolvente, nas cores, nas formas, nas sugestões. Infelizmente quase ausente nesta exposição, que privilegiava uma faceta “pública” da sua arte.
Três vídeos documentam o percurso desta artista plástica. Um produzido pela Videoteca de Lisboa “Arte Publica”, cremos que da autoria de António Cunha (8’), outro sobre as suas obras que têm o Oriente como tema, “A Oriente do Oriente”, de Vítor Candeias (8’), ambos relativamente académicos, documentários muito estereotipados, e, finalmente, uma aproximação mais livre do trabalho de Gracinda Candeias, realizado por Raquel Freire, “O Importante é o Agora” (25’), um improviso sobre a pintora e uma tela, que pouco adianta igualmente.
Acompanhando a exposição foi editado um album sobre Gracinda Candeias, que me parece muito interessante e bem documentado, mas que infelizmente não se encontrava à venda naquele local.
Gracinda Candeias "Antologia 1992-2002"
Galeria do Torreão Nascente, Cordoaria Nacional, Av. da Índia, Lisboa

domingo, junho 28, 2009

DIGAM-ME QUE NÃO É VERDADE!

:

REFORMA A JACTO
COM 40 SEGURANÇAS PRIVADAS
No “DN” de hoje, notícia de primeira página: Jardim Gonçalves, ex-administrador do BCP, reformado há uns tempos, depois de um folhetim rocambolesco, e agora com problemas com a justiça, usufrui certamente de uma bela reforma, e conta ainda com alguns privilégios acumulados. Como, por exemplo, informa o jornal, dispor de um jacto particular do banco, sempre que quiser, e andar rodeado de 40 (quarenta) seguranças. Este senhor que viaja de Falcon, e que consta pertencer à Opus Dei (“Prelatura Pessoal da Igreja Católica que ajuda os cristãos correntes a procurar a santidade no seu trabalho e nas suas actividades”, assim a definem), tem estas regalias consignadas na sua reforma.
Por favor: digam-me que não é verdade, ou então exijo, no mínimo, para complemento da minha reforma, um passe da Carris e um colete à prova de bala.
Antigamente as pessoas “dignas” tinham vergonha, mesmo pejo, sobretudo pudor, de falar em dinheiro. Depois entrou-se numa época em que se ostentava o dinheiro, ele dava status, especular na bolsa era “o que estava a dar”, e não interessava a forma como se adquiria a riqueza, desde que ela fosse bem visível. Os “yuppies” andaram por aí a esmerarem-se numa tecnocracia do aparato financeiro. Deu no que deu, a crise está aí, alguns banqueiros a caminho da choldra, mas sempre com muito status, e era conveniente que alguém aprendesse com a História.
Na realidade, é conveniente ter um certo pudor ao falar em dinheiro, sobretudo quando este é ganho e gasto da forma que estamos a ver. E não se pode acabar com tais práticas?

por favor, um passe da Carris!

sábado, junho 27, 2009

"casadeosso" ESCOLHE, EU AGRADEÇO

:
Descobri no blogue "casadeosso", de walter hugo mãe,
esta bonita homenagem a um filme.
No que me toca agradeço.
uma escolha sem hesitações


o clube de cinema oito e meio - póvoa de varzim - organiza uma exposição colectiva para a qual convidaram alguns artistas e amigos a interpretarem plasticamente um filme que os tenha marcado. eu escolhi a «manhã submersa» do lauro antónio, que foi criado suportado no livro de vergílio ferreira. o meu trabalho é o que vêem acima. não sou artista plástico, de todo, esforço-me de boa vontade para fazer o melhor que possa e, tendo sido convidado, quis muito homenagear um filme que me impressiona. um filme português - como alguns outros - que me impressiona de facto, pelo retrato claustrofóbico de um país que, aqui e acolá, ainda tende a guardar-se do tempo, como medo de amadurecer. é uma vergonha não pintar melhor, mas a homenagem é sincera.aqui podem encontrar

YANN ARTHUS-BERTRAND E "HOME"

:
Yann Arthus-Bertrand
Yann Arthus-Bertrand, o autor de “Home”, era mais conhecido até há bem pouco tempo como fotógrafo e repórter do que como realizador, apesar de ter assinado uma série de certo renome: “La Terre vue du Ciel”. Nascido em Paris a 13 de Março de 1946, Yann Arthus-Bertrand descende de uma família bem instalada na vida, possuindo um reputado negócio de joalheiros medalhistas, a casa Arthus-Bertrand, fundada por Claude Arthus-Bertrand e Michel-Ange Marion. Mas terá sido através da sua irmã, Catherine, entusiasta da natureza e dos animais, que Yann Arthus-Bertrand se começou a interessar pela ecologia.
Aos 17 anos, em 1963, torna-se assistente de realização, depois actor (em filmes como “Dis-moi qui Tuer”, de Étienne Périer, 1965, e “OSS 117 Prend des Vacances”, de Pierre Kalfon, 1970). Em 1967, passa a dirigir uma reserva natural de animais no centro da França, no “Parque de Château de Saint-Augustin”, em Château-sur-Allier. Em 1976, com 30 anos, parte para o Quénia, com a mulher, Anne, passando ambos a viver no parque nacional “Massaï Mara”, juntamente com os Masaïs, aproveitando para estudar o comportamento de uma família de leões que fotografa todos os dias durante três anos, trabalho que estará na base do seu álbum “Lions”, publicado em 1983, no seu regresso a França. Foi a partir daqui que se apaixonou pela natureza e a sua relação com a imagem. É disputado como repórter fotográfico, quer se trate de grandes reportagens internacionais sobre aventura, desporto, natureza, animais, ou fotografia aérea, no que irá especializar-se. Trabalha sobretudo para o “Paris Match” e “Géo”. Cobre dez dos rallies Paris-Dakar, e é ele que organiza anualmente o livro do torneio de Roland-Garros. Fotografa o Salão de Agricultura de Paris ou colabora com pesquisadores da natureza como Dian Fossey e os seus gorilas das montanhas do Ruanda.
Em 1991, cria a agência “Altitude”, que inicia um banco de imagens de fotografias aéreas único no mundo, com cerca de 100 fotógrafos a sobrevoarem centenas de países, recolhendo mais de 500 000 imagens. Três anos depois lança-se na sua primeira grande aventura, efectuar um trabalho de fundo sobre o estado do planeta, mostrando as belezas da Terra e alertando para os perigos que esta corre. O projecto, que contou com o apoio da Unesco, dará origem a um álbum com mais de 3 milhões de exemplares vendidos em todo o mundo (em 24 línguas), e a uma série de televisão, ambos com o mesmo título: “La Terre Vue du Ciel”, Pretendeu com esta iniciativa, “testemunhar a beleza do mundo e tentar proteger a Terra.” Outra das componentes deste projecto foi uma exposição, de visita gratuita e apresentada ao ar livre, que iniciou o seu trajecto através do mundo, em 2000, nos jardins do Luxemburgo, e já viajou por mais de 110 cidades, contando com 120 milhões de visitantes.
Em Julho de 2005, Yann Arthus-Bertrand cria a associação ecologista “GoodPlanet”, que acciona o plano “Action carbono”, destinado a compensar as emissões de gás libertadas pela actividade de fotógrafo aéreo. O programa alargou-se depois para outros públicos e empresas, procurando todos minimizar o efeito da sua actividade no clima, procurando energias renováveis, lutar contra a desflorestação e outras ameaças muito concretas.
O objectivo primeiro da associação é colocar “a ecologia e o ambiente no coração das consciências”, o que a leva a criar novos desafios: distribuição gratuita por todas as escolas de França de cartazes sobre temas relacionados com o ambiente (em 2006, o desenvolvimento sustentável, em 2007, a biodiversidade, em 20, a energia), uma exposição vídeo “6 Milliards d'Autres”, estreada no Grand Palais, com cerca de 5 000 vídeos rodados no mundo inteiro, onde pessoas muito diferentes falam de temas universais, como a alegria, a dor, a vida, a morte, o amor, o ódio, etc.; “Vivants”, uma exposição itinerante, com mais de 100 imagens de animais, acompanhadas de legendas que explicam o impacto do homem sobre a natureza; sites informativos, actividades para jovens, etc.
Em 2006, roda “Vu du Ciel”, uma série documental, que passou na France 2, em episódios de hora e meia, abordando temas diferentes. Nesse mesmo ano, nas edições “La Martinère”, sai o album “L'Algérie vue du ciel”, obra que o autor considera uma das mais conseguidas da sua carreira.
Home
A rodagem de “Home”, primeira longa-metragem de Yann Arthus-Bertrand, durou dezoito meses, iniciando-se em 2007. Nessa altura chamava-se “Boomerang”. Produzido pelo cineasta e produtor francês Luc Besson (também ele desde sempre preocupado com questões ambientais, vejam-se os seus filmes “O Último Combate” ou “O Grande Azul”), “Home” foi financiado integralmente pelo grupo francês PPR (que detém marcas como a Fnac e a Conforama) e estreado mundialmente no dia 5 de Junho, Dia Mundial do Ambiente, uma organização das Nações Unidas, que se comemora desde 1972. Nesse dia foi exibido numa versão de 90 minutos no canal de televisão francês “France 2”, às 20h35 e, logo a seguir, em versão alargada, em Paris, no “Champ de Mars”, e em muitas outras cidades. Sempre com entrada gratuita. O filme também foi exibido em simultâneo em todo o mundo e distribuído gratuitamente, tanto no cinema, como em DVDs, e na internet (sendo permitido legalmente fazer o download da obra). Foi a primeira vez na história que um acontecimento deste género ocorreu, demonstrando bem a intenção de sensibilizar todos os cidadãos do planeta para os problemas que o mesmo defronta. No jornal “Público”, que em Portugal se associou ao lançamento do DVD, podiam ler-se palavras de Yan Arthus-Bertrand: “Vivemos tempos excepcionais. Os cientistas dizem-nos que temos dez anos para alterar a forma como vivemos, para evitar o esgotamento dos recursos naturais e a catastrófica evolução do clima terrestre.” (excerto de um comentário divulgado no site do Programa das Nações Unidas para o Ambiente (Pnua). E continuava: “O documentário apela para uma nova consciência, convidando o espectador a parar por um momento e olhar para o nosso planeta, para os seus tesouros e beleza…”.
Na verdade assim é. Em cerca de duas horas de projecção (versão do DVD) assistimos a uma deslumbrante panorâmica aérea sobre mais de meia centena de países do mundo (54 para ser mais preciso), onde as imagens de uma beleza por vezes sufocante se cruzam com outras profundamente inquietantes, sublinhadas por um comentário que vai alertando para os desafios que temos pela frente: o nosso planeta está gravemente doente, ferido de forma dramática, exaurido nos seus recursos essenciais, ameaçado pelo aquecimento global, os ecossistemas em perigo, acossada a harmonia da vida natural, as grandes cidades transformadas em gigantescas metrópoles sem qualidade de vida, a água a ser disputada como bem essencial rarefeito, o petróleo e o carvão a multiplicarem guerras e cobiças, à medida que se tornam cada vez mais caros.
O filme começa por evocar a formação da Terra, referindo que há vida neste planeta há quatro milhares de milhões de anos e só existem humanos há duzentos mil anos. Jogando com imagens (obviamente) actuais, o filme procura restituir a ambiência desses tempos primordiais. Numa perspectiva muito darwineana, fornece elementos para a cadeia evolucionista, desde o caos de uma bola de fogo, até ao milagre do aparecimento da vida na Terra, a origem das plantas, dos insectos, dos animais, do primeiro homem. A vida do homem vista como apenas um elo entre diversos. Os humanos que moldam a Terra à sua imagem, com tudo o que isso representa de extraordinário, mas também de perigoso. A agricultura é ainda hoje o labor dominante, metade da humanidade emprega-se nessa actividade, ¾ da qual ocupa-se da agricultura manualmente.
Aborda-se então, ainda que genericamente, o caso da energia retirada do solo, petróleo, gás ou carvão. A explosão demográfica impõe um ritmo de exploração suicida. Em 30 anos, em Xangai construíram-se 3.00 arranha-céus. As cidades consomem cada vez mais carvão, petróleo, electricidade. O petróleo tem um poder revolucionário. Cidades como Nova Iorque ou Tóquio documentam-no. Mas também a agricultura – 35 % da agricultura da Terra é realizada através de tractores. Para assegurar energia, mais energia, os cereais deixam de ser só consumidos pelos humanos, passam a gerar biocombustíveis (e alimentos para o gado).
O que representa um avanço tecnológico por um lado, é uma ameaça pelo outro: a água consumida pela agricultura é cada vez mais, os parasitas são combatidos pelos pesticidas, tornam as colheitas mais férteis, maiores, mas criam excedentes, e esses mesmos pesticidas são tóxicos e prejudiciais para o homem. As monoculturas (sobretudo soja) tornam-se mais rentáveis, mas extinguem a biodiversidade (3/4 das variedades da flora desapareceram).
O consumo da carne multiplica-se pelo mundo. A pecuária industrializa-se a extremos, criando verdadeiros campos de concentração onde os animais são criados, sem verem durante toda a sua vida um centímetro de verdura. Com outras agravantes: para produzir um quilo de carne são necessários 13.000 litros de água.
Mas uma vez a biodiversidade em perigo. A dependência do petróleo é manifesta, mas o petróleo barato acabou. O automóvel é um símbolo do progresso. O sonho americano está bem sublinhado em Los Angeles, onde o número de carros é quase igual ao número de habitantes. As cidades tendem a uniformizar-se. Nos subúrbios das grandes metrópoles as casas, tipo vivendas, são iguais na América e em Pequim, onde a casa estilo pagode desaparece.
Os minérios são extraídos da Terra a uma velocidade impressionante. Cada vez mais e mais rápido. Nos próximos vinte anos, serão extraídos da terra mais minerais do que durante toda a História do Homem. Mas apenas 20% da população mundial irá usufruir desta regalia. Rapidamente também se esgotarão os recursos da Natureza. Os contentores atravessam os oceanos carregados de recursos. A globalização permite-o, impõe-no. O Dubai é um dos países do mundo com menos recursos naturais. Mas tem petróleo, e o dinheiro que o petróleo gera. Por isso são dos maiores construtores do mundo. Criam ilhas artificiais, promovem turismo de luxo, multiplicam arranha-céus no deserto. E esgotam a terra, não ali, no Dubai, mas algures, donde importam os materiais.
O ciclo de vida que nos foi oferecido pela Natureza está a ser transformado, destruído. A pesca industrial, as grandes frotas que utilizam o arrastão, vão despovoando os oceanos de peixe. As grandes espécies tendem a desaparecer. Há preocupantes sinais de esgotamento de recursos. As colónias de mamíferos ao longo das costas são cada vez mais pequenas, porque o alimento escasseia e impera a fome. As aves marinhas têm que percorrer cada vez maiores distâncias para se alimentarem. Os pequenos barcos ficam abandonados, porque os mares já não têm peixe.
Os recursos são cada vez mais escassos. A água tem um valor cada vez maior. No deserto dá-se valor à água, e vive-se de água fóssil, extraída de poços. Mas esta água não é renovável e esgota-se. Na Arábia Saudita percebe-se o drama. Apostou-se numa agricultura industrial no deserto, irrigada pela água fóssil. O esgotamento provocou o abandono dos terrenos.
O rio Jordão, outrora um grande rio, é agora um riacho. Um em cada dez grandes rios já não desagua no mar. Perdeu caudal. O Mar Morto, que assim se chama por causa do seu elevado índice de salinidade, perde um metro de nível por ano, e concentra sal. Na Índia brotam palácios em lagos artificiais. Las Vegas é uma cidade construída sobre um deserto. Os seus habitantes são dos maiores consumidores de água em todo o mundo. Palm Spring e os seus campos de golfe consomem água de forma trágica. Tudo isto é uma miragem, afirma “Home” e pergunta até quando ela pode durar. Em 2025, as perspectivas apontam para dois mil milhões de pessoas vítimas de secas.
Os pântanos são essenciais ao equilíbrio da terra. Mas tendem igualmente a desaparecer. Bem como as florestas. Metade dos pântanos foi drenada. Pântanos e florestas são locais onde toda a matéria viva vive ligada entre si, mas ¾ da biodiversidade está ameaçada. Drenam-se os pântanos e derrubam-se florestas, porquê? Para construção, para fabricar papel, para monoculturas, para campos de concentração de gado. A Amazónia já foi reduzida em 20% da sua extensão, trocada por ranchos de gado, campos de soja (para alimentar gado ou aves exóticas, ou para biocombustível). A floresta transforma-se em carne. Muitas vezes incendeiam-se as florestas, libertando carbono em proporções inimagináveis, que vai provocar o aquecimento global, e o desaparecimento das espécies. Mas a desflorestação tem a ver sobretudo com as monoculturas. Não só a soja. Agora também o óleo de palma, utilizado na comida, mas também nos combustíveis e nos cosméticos. E na cultura intensiva do eucalipto, para alimentar de papel as rotativas de todo o mundo. “Home” prevê que nos próximos cinco anos se consuma cinco vezes mais papel. O cultivo do eucalipto consome imensa água, por outro lado, e liberta camadas tóxicas.
A vida das pessoas, apesar de toda essa ganância de uma vida insustentável, não é boa na maior parte do mundo. Vive-se em condições de extrema pobreza. Locais inóspitos, lixeiras com índices de poluição catastróficos. É necessário aproveitar a luz solar, as energias alternativas. Impedir que o dióxido de carbono se continue a libertar desta forma assassina. A calote de gelo nas regiões polares diminuiu 40%, iniciou-se o degelo no Árctico, criando icebergs, provocados pelo aquecimento. Estas alterações climatéricas têm consequências previsíveis: a água doce perde-se, aumenta a salinidade nos mares, a água do mar sobe, a harmonia quebra-se. As correntes de ar mudam, os ventos também. O que estará reservado à maioria das cidades que se localizam nas costas de todos os continentes, quando o nível dos mares subir? 70% da população mundial vive nas costas, junto ao mar. No Kilimanjaro, 70 % dos glaciares desaparecem. O Bangladesh, um dos países mais pobres do mundo, será dos mais afectados.
Restam pouco mais de dez anos para se inverter esta situação e para não se saber o que é a vida na Terra como nunca a imaginámos. Não se pode deixar quebrar a ligação tradicional entre o ar, a água e a terra. Este equilíbrio é fundamental. E as desigualdades gritantes também. 20% da população mundial consome 80% dos recursos da Terra. Gasta-se doze vezes mais em armas do que em ajuda humanitária a países em desenvolvimento. Morrem todos os dias cinco mil pessoas com falta de água potável. Mil milhões de seres humanos morrem de fome no mundo. 50% dos cereais são para alimentar gado ou para biocombustíveis. 40% da terra arável esta degradada. 13 milhões de hectares de floresta desapareceram. ¾ das zonas de pesca do mundo estão esgotadas, reduzidas ou em risco. Os últimos quinze anos foram os que registaram uma temperatura média mais alta. Em quarenta anos, 40% da calote de gelo foi consumida. Em 2050 prevêem-se 200 milhões de refugiados devido a alterações climatéricas.
Apesar de toda esta onda de ameaças que nos batem à porta, ou que já entraram pela porta dentro, “Home” termina num clima de confiança: “É tarde demais para se ser pessimista”. E dá exemplos: multiplicam-se os parques naturais, estabelece-se a reflorestação, luta-se pela reciclagem, nalguns pontos impõe-se o abate selectivo de árvores, “a Costa Rica que acabou com o exército”, incentiva-se um comércio justo que proporcione um rendimento decente para todos, exploram-se novas fontes de energia, painéis solares, eólica, etc. É tarde demais para se ser pessimista. Ou seja, já se passou o tempo em que se podia ser pessimista. Temos que ser obrigatoriamente optimistas, lançar mãos à obra, e mudar o que há que mudar.
Tanto mais que o filme de Yann Arthus-Bertrand nos permite percorrer paisagens admiráveis de uma Terra que dá gosto habitar, usufruir, amar. Para que tais imagens se possam perpetuar no presente e no futuro, ao natural, e não apenas em bancos de imagens do passado, é necessário intervir, agir, testemunhar. O que a equipa comandada por Yann Arthus-Bertrand faz de forma equilibrada, inteligente, sensível, inquietante. O seu filme é nesse aspecto um modelo, que nem os críticos radicais, que lhe reprovam o facto de andar a filmar de helicóptero e a provocar libertação de carbono, conseguem empalidecer.
HOME
Título original: Home
Realização: Yann Arthus-Bertrand (França, 2009); Argumento: Isabelle Delannoy e Yann Arthus-Bertrand; Isabelle Delannoy, Tewfik Fares e Yann Arthus-Bertrand (comentário); Conselheiro científico: Bruno Anselme; Produção: Luc Besson, Denis Carot; Música: Armand Amar; Fotografia (cor): Michel Benjamin, Dominique Gentil; Fotografia aérea: Richard Brooks Burton; Montagem: Yen Le Van; Direcção de Produção: Courau Camille, Claude Canaple, Jean de Trégomain, Emmanuel Sajot, Sidonie Waserman, Fabiola Claz, Juliette Jacobs, Stéphanie Melo, Sandrine Vitali; Assistentes de realização: Laurence Guérault, Dorothée Martin, Thomas Sorrentino; Som: Thomas Gauder, Olivier Walczak; Efeitos visuais: Anita Lech Bedez, Bénédicte Hostache, Julien Imbert ; Companhias de produção: Elzévir Films, Europa Corp., France 2 (FR2); Intérpretes: Glenn Close (Narradora, no original); Duração: 95 minutos (versão curta) EUA:118 minutos (DVD) Portugal: 114 minutos (DVD) 120 minutos (versão longa); Distribuição em Portugal: Zon Lusomundo; Classificação etária: M/ 6 anos; Estreia em Portugal: 5 de Junho de 2009.

sexta-feira, junho 19, 2009

PEDRO RUELLA RAMOS

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DIRECTOR DO "DIÁRIO DE LISBOA"
Morreu António Pedro Ruella Ramos. Contava 70 anos. Nascido em 1938, Ruella Ramos era actualmente administrador da gráfica Lisgráfica, mas ficou mais conhecido por ter sido director do extinto "Diário de Lisboa", propriedade da sua família. O "Diário de Lisboa" saiu para as bancas pela primeira vez a 21 de Abril de 1921 e acabou a 30 de Novembro de 1990, sendo considerado um jornal de referência durante sete décadas, cobrindo assim uma parte importante da História de Portugal e do Mundo do século XX. Francisco Manso foi um dos seus directores, a que se seguiu Norberto Lopes até 1967, e Ruella Ramos depois.
Tive o privilégio de ter sido colaborador do "Diário de Lisboa" durante o período áureo da sua publicação. Durante a ditadura. Entrei em 1968, com o Eduardo Prado Coelho, ambos como críticos diários de cinema, actividade que até aí era desconhecido nos jornais portugueses. Antes disso havia alguns velhos jornalistas que iam de sala em sala de cinema recolher os programas impressos, onde se podia ler uma ficha técnica reduzida e uma sinopse do filme em estreia,, e depois remendavam textos laudatórios que apareciam no dia seguinte. Não havia filmes maus.
As nossas críticas levantaram desde cedo protestos nos empresários, mal habituados a opinião livre. A Cineasso, que agrupava várias salas de cinema de Lisboa, escreveu à direcção do jornal, informando que cortava toda a publicidade “enquanto se mantivessem esses críticos em actividade”. O jornal, em lugar de se encolher e de fazer o jogo do capital e da censura, escarranchou a carta na primeira página da edição seguinte, e a censura oficial deixou passar. De um dia para o outro, os críticos de cinema do DL e o jornal foram arvorados em heróis nacionais, defensores da liberdade de impressa. Durante cerca de quinze dias choveram cartas, telegramas, telefonemas, artigos em defesa dessa liberdade que não existia em Portugal. O DL foi publicando na primeira página esses testemunhos e Ruella Ramos aguentou firme na defensa de um direito tão vilipendiado no nosso país durante a vigência do Estado Novo, e defendendo igualmente a integridade de opinião de dois jovens recem chegados a estas lides.
Durante cerca de oito anos permaneci por ali. Atravessei o 25 de Abril e, em pleno "período revolucionário em curso", como continuei a defender algum cinema americano, começaram a aparecer na redacção do DL cartas, mais ou menos anónimas, a acusarem-me de reaccionário (cá fora, o MRPP acusava-me, no jornal do partido, de ser “social fascista”, isto é comunista!). Eu que sempre lutara pela liberdade de expressão, comecei a achar o ambiente um pouco opressivo e saí. Fui para o “Diário de Noticias”. Mas anos depois, o Mário Mesquita tentou reabilitar o saudoso DL e convidou-me para voltar a assinar críticas nesse regresso não muito bem sucedido. Mas foi uma aventura inesquecível e uma honra ter estado ao lado de um grupo de jornalistas e de colaboradores hoje em dia impensável de reunir num mesmo jornal.
Ruella Ramos (e Lopes do Sotto, o homem das massas, a quem um dia eu e o Eduardo pedimos uma reunião para reivindicar aumento de salário – estávamos a receber 2,50 escudos por crónica, saímos da reunião a receber 5 escudos!!) foi um bom patrão e um bom estimulo. O jornal tinha a sua marca e o espírito dos que nele colaboravam.
Saudades de si, Pedro Ruella Ramos!
Mas, mais dia menos dias, tem junto de si a mesma equipa e pode já ir pensando num “Diário do Céu”. Se não tiver critico para os filmes projectados nas nuvens, conte comigo, mas vá guardando o lugar o mais tempo que possa. Não se apresse comigo. Um abraço amigo.