DEUS COMO PACIENTE - ASSIM FALAVA ISIDORE DUCASSE(DIEU COMME PATIENT - AINSI PARLAIT ISIDORE DUCASSE)
segundo texto de Lautréamont
encenação de Matthias Langhoff
Este foi um espectáculo que dividiu o público de Almada. Percebeu-se, logo que a cortina caiu, no final. Uns ovacionavam freneticamente, outros aplaudiam paulatinamente. Uns gostaram imenso, outros apreciaram medianamente, sem grande entusiasmo. Todos referiam os cenários, mas uns galvanizaram-se com a vertigem do texto e da montagem de todo o espectáculo, outros acharam-no cansativo, e pobre em relação ao texto que o inspirou. Na base deste “Dieu Comme Patient - Ainsi Parlait Isidore Ducasse” estão os “Cantos de Maldoror”, de Isidore Ducasse, dito “Conde de Lautréamont”. É óbvio que num espectáculo de (quase) duas horas, ninguém pensaria que se iam adaptar fielmente os “Cantos”. O que Matthias Langhoff tentou, quanto a mim com inteiro sucesso, foi criar uma atmosfera, um clima, uma evocação destes “Cantos”, quer através da interpretação de alguns textos escolhidos, portanto excertos, quer através da própria encenação plástica. O resultado é simplesmente fantástico, e “fantástico” é um bom termo para definir a exuberante “feérie” que nos é dado ver no palco. Todo o espectáculo parte de uma proposta inicial de “colagem” (muito na linha das colagens dos surrealistas, de que Lautréamont é um confesso antecessor): um palco dividido em vários sectores, que por sua vez se vão desdobrando em cenários diversos, todos eles revestidos por um telão de gaze caído em frente do proscénio, e que ora se torna opaco e tela de projecção de imagens de cinema, ora se anula numa quase transparência que permite ver toda a cena iluminada por detrás.Deve desde já dizer-se que todo esse cenário que se vai desdobrando e multiplicando à nossa frente é de uma beleza fulgurante, quer pelos motivos que evoca, um interior de casa, um barco, um bar, uma rua, quer pelos próprios desenhos que ilustram certas situações, quer pela iluminação, pela sonoplastia, pela recolha de imagens que são apresentadas no telão. Curiosamente, este dispositivo tem muito de cinematográfico, e as próprias imagens nele apresentadas, da autoria igualmente de Matthias Langhoff, são evocativas de momentos chaves da história do cinema, sobretudo do seu período mudo, obviamente do surrealismo de um Buñuel ou Dali, mas também dos expressionistas, do realismo soviético de Sergei M. Eisenstein, do neo realismo e do cinema verité, do documentarismo e da ficção, etc. A escolha não é isenta de um significado que se encontra quer na recolha de imagens de actualidade, de mendigos nas ruas de Paris, quer da reconstituição da revolta da Comuna de Paris, quer de outras imagens de propósitos nitidamente políticos, de “agit prop”.

Isidore Ducasse, que a si próprio se intitulava Conde de Lautréamont (1846-1870), nasceu em Montevideo, no Uruguai, filho de um funcionário consular. Aos vinte meses perdeu a mãe, que se suicidou; foi enviado pelo pai para França, em 1859, para estudar no liceu, em Pau, como aluno interno e vítima das sevícias de superiores e de colegas mais velhos. Abandonou os estudos superiores, levou vida boémia enquanto teve rendimentos paternos para delapidar, depois fechava-se em quartos de pensões rascas a escrever uma obra que muitos consideram única e inqualificável. Publicou, em 1868, à sua custa, o primeiro dos “Cantos de Maldoror”, que passou totalmente despercebido. No ano seguinte compôs os restantes cinco cantos. Morreu com 24 anos.
Matthias Langhoff, encenador de língua alemã, nascido em 1941 na Suíça, entrou muito jovem para o “Berliner Ensemble”, de que foi co-director em 1992-1993. À excepção desses dois anos em Berlim e do ano e meio em Lausana, nunca teve um lugar fixo. De Berlim a Barcelona, de Paris a Avignon, de Moscovo ao Epidauro, na Grécia, tem mudado constantemente de palcos, de técnicas, de intérpretes e de público. Pode dizer-se que é um dos mais sugestivos criadores teatrais da Europa contemporânea, homem de estética própria, nem sempre compreendido, nem sempre aceite, polémico e independente, procura sobretudo agitar as águas e não deixar instalar o conformismo. “Dieu Comme Patient - Ainsi Parlait Isidore Ducasse” é um bom exemplo deste projecto artístico pessoal de uma coerência e rigor inultrapassáveis.
André Wilms, protagonista desta obra, é um actor e encenador francês, nascido em Estrasburgo em 1947. Trabalhou sob a direcção de vários dos mais importantes encenadores actuais, como Klaus Michael Grüber (“Fausto”, de Goethe, “A Morte de Danton”, de Büchner), André Engel (“Baal”, de Brecht, “À Espera de Godot”, de Beckett, “Hotel Moderno”, a partir de Kafka, “A Noite dos Caçadores”, de Georg Büchner), Deborah Warner, Michel Deutsch e outros. Como actor de cinema, participou em filmes de Aki Kaurismäki, Étienne Chatiliez e Claude Chabrol. Desde finais da década de oitenta passou a fazer as suas próprias encenações no teatro e na ópera, tendo dirigido “A Conferência dos Pássaros”, de Michäel Levinas, “O Castelo do Barba Azul”, de Bela Bartók, “A Filosofia na Alcova”, do Marquês de Sade, etc.A estreia de “Deus como Paciente” no Théâtre de la Ville, em Paris, em Janeiro deste ano, foi destacada pela crítica francesa de forma entusiástica: “Um espectáculo em forma de turbilhão, vertiginoso, estonteante, fascinante, e do qual se sai embasbacado” (Hugues Le Tanneur, in “Les Inrockuptibles”); “Um teatro puro, perturbante e enfeitiçante” (Philippe Chevilley, in Les “Échos”); “Matthias Langhoff é um criador de mundos, que eleva o teatro ao mais alto nível, à grande Arte, como soe dizer-se () “Deus como Paciente” é um tsunami» (in “Mouvement”). É curioso verificar uma constante: o espectáculo oferece-se como um turbilhão, um tsunami, algo de impossível de captar, de aprisionar, de domesticar. Tal como Lautréamont, Matthias Langhoff é um visionário, um iconoclasta, um rebelde que questiona o que de mais puro e cruel existe no Homem. O resultado é de uma grandeza sublime. Que se ama ou de que nos afastamos, mas nunca de forma indiferente.
DEUS COMO PACIENTE - ASSIM FALAVA ISIDORE DUCASSE (“Dieu Comme Patient - Ainsi Parlait Isidore Ducasse”), segundo texto de Lautréamont ; encenação de Matthias Langhoff; Intérpretes: Anne-Lise, Heimburger, Frédérique Loliée, André Wilms; Cenário e filme: Matthias Langhoff; Pintura: Catherine Rankl, Matthieu Lemarié; Figurinos: Catherine Rankl, Corinne Fischer; Desenho de luz: Frédéric Duplessier, assistido por Éric Marynowerv; Som: Brice Cannavo; Assistentes de encenação: Hélène Bensoussan, Caspar Langhoff; Duração: 1h 45; Classificação: M12.

Numa região gelada da Suécia invernosa, Oskar, um miúdo introvertido e furtivo, que olha por detrás das janelas, vive aterrorizado pelos colegas de escola que o martirizam com chacotas e humilhações, para lá de punições corporais, conhece Eli, uma vizinha da mesma idade, que surge inopinadamente do escuro, demonstrando faculdades inverosímeis, não se preocupa com o frio, sai de casa apenas quando a noite cai, alimenta-se de sangue fresco, e tem uma idade não compatível com a sua aparência. Percebe-se lentamente que é uma criatura da noite, uma vampira. Um ser perseguido pelos demais, que vai estabelecer uma estranha amizade com Oskar. São dois acossados pela sociedade, dois seres marginalizados pelos outros, dois adolescente “diferentes” que vivem atormentados por essa “diferença” que lhe desperta no íntimo uma violência defensiva que se exterioriza das formas mais diversas. Oskar percebe que Eli é uma vampira, mas é junto dela que se sente bem. É da sua cumplicidade que precisa para suportar a crueldade dos outros. É da raiva de Eli que se alimenta para criar a sua própria.
John Ajvide Lindqvist é, ao que consta, um admirador de Jim Morrissey, e o seu livro chama-se “Let The Right One Slip In”, precisamente como homenagem ao cantor e poeta que tem um texto que diz aproximadamente “Eu diria que tu tens todo o direito de dar uma mordidela na pessoa certa e dizer: “O que te fez demorar tanto?"”.






A companhia tem participado em festivais internacionais em Helsínquia, Palermo, Avignon, Berlim, Paris, Torum e Lubliana, onde recebeu prémios como o Triomphe, o Masque D’Or e o Herse d’Or. Sob a direcção de Andrzej Bubien, projecta apresentações em Madrid, Seul, Vilnius, Telavive, Nice e Belgrado. Diga-se que este encenador (nascido em 1964) se torna director do teatro Wilam Horzyca, em Torum, na Polónia, e director artístico do festival Contact, em 1997. Em 2007 assume o cargo de director do Teatro de Sátira da Ilha Vassilievski, onde se estreou com uma encenação de um texto da dramaturga sérvia Biljana Srbljanovic. “Compota Russa”, de Liudmila Ulítskaia, é a sua segunda produção neste teatro. Andrzej Bubien demonstra uma inteligência e invenção cénica invulgares, o seu espectáculo cruza a poesia nostálgica dos grandes clássicos russos com um certo burlesco contemporâneo, conseguindo uma homogeneidade de representação e um ritmo de palco que conseguiu sobreviver até a alguns lapsos de legendagem, electrónica (não esquecer que o original que se ouvia era russo!).
Compreende-se, pois, que, em 1978, Édouard Molinaro, um bom realizador francês de comédias, tenha assumido a tarefa de transpor para o ecrã as aventuras emocionais de Zaza Napoli. O elenco era de peso e o êxito foi total. Não só em França. Nos EUA (onde se chamou "Birds of a Feather"), esteve anos em estreia e foi durante muito tempo o filme estrangeiro que conseguiu maiores receitas. Ugo Tognazzi (Renato Baldi), Michel Serrault (Albin Mougeotte/'Zaza Napoli'), Michel Galabru (Simon Charrier), Claire Maurier (Simone), Rémi Laurent (Laurent Baldi), Carmen Scarpitta (Louise Charrier), Benny Luke (Jacob) e Luisa Maneri (Andrea Charrier) eram os actores, sublinhando-se o facto de Michel Serrault voltar a criar o papel que o notabilizara em teatro. A partitura era de Ennio Morricone.
O sucesso impôs continuação e as sequelas não se fizeram esperar: Em 1980, de novo Édouard Molinaro assina “Cage aux folles, II”, e , em 1985, foi a vez de outro experimentado autor de comédias, Georges Lautner, nos dar “La Cage aux Folles 3 - 'Elles' se Marient”. Mas o cinema não ficaria por aqui. Em 1996, surge um remake americano, dirigido por Mike Nichols, “The Birdcage”, que transfere a acção para South Beach, Miami, tendo como actores principais Robin Williams e Nathan Lane.
Entretanto, em 1983, a peça foi adaptada a musical, na Broadway. “La Cage aux Folles”, o musical, com libretto de Harvey Fierstein e música de Jerry Herman, teve depois várias versões, e regressos aos principais palcos mundiais. Recentemente, em Londres, reapareceu no Menier Chocolate Factory, passando depois para o Playhouse Theatre, com Graham Norton no papel de Zaza.
Posto isto passemos ao espectáculo do La Féria. A abrir, este é seguramente um dos seus mais logrados trabalhos, num registo um pouco diferente dos demais musicais até agora por ele erguidos, quer em Lisboa quer no Porto. A grande maioria dos musicais alicerça-se numa história que é entrecortada por números musicais (cantados e/ou dançados). Mas esses números integram-se na história, fazem-na avançar (muito ou pouco, mas avança, depende do conceito de musical). Aqui há uma história por um lado, e por vezes entradas no cabaret “La Cage aux Folles” onde surgem números de music hall nítidos. Portanto o musical equilibra-se, habilmente, diga-se, entre a estrutura narrativa de uma comédia e momentos de relax, que derivam directamente desse outro universo, o music hall.
Finalmente, a encenação de La Féria é realmente esplendorosa, com um guarda-roupa sumptuoso, de muito bom gosto, coreografias certas e divertidas, cenários belíssimos, e uma marcação de ritmo endiabrado. Os actores são excelentes, a começar pela dupla de “gays”, que José Raposo (impagável na sua desconcertante Zazá) e Carlos Quintas compõem de forma muito divertida, mas sem rebaixar ou aviltar as figuras. Rita Ribeiro (pequena contribuição, mas em grande dama), Joel Branco (o deputado do Norte, de imaculada postura, postiça), Helena Rocha (a matrona nortista), Filipe Albuquerque (um tresloucado mordomo), Hugo Rendas (o jovem noivo, a crescer de papel para papel) e Sara Lima (a noiva) são outros nomes que ajudam a brilhar a homogeneidade de elenco de 68 actores, cantores, bailarinos, músicos, contando ainda com a participação especial de alguns inesperados nomes do espectáculo, como Herman José, Ana Bola, Fernando Mendes, Maria Rueff e Maria João Abreu.




Tudo se passa numa América profunda, nos campos de algodão e nas pequenas estradas do Sudeste de Arkansas, estado onde nasceu Jeff Nichols, o realizador e argumentista, que certamente recorda aqui não só personagens e situações da sua infância, como, sobretudo, uma atmosfera irrespirável, muito bem transmitida com uma economia de meios total. Tudo se passa numa América profunda, é verdade, mas a leitura é obviamente metafórica e fala-nos da vingança como modo de comportamento pessoal, social, nacional, internacional, como referência clara ao clima revanchista de uma América traumatizada pelo 11 de Setembro. Jeff Nichols tenta mostrar como o caminho da vingança a nada mais conduz do que a novas respostas e ao recrudescer da violência.


Diz Philippe Sireuil que esta peça “dá-nos o osso, o nervo e a carne de um belo pedaço de teatro que deve ser devorado sem qualquer moderação”. Nascido em 1952, no então Congo Belga, Philippe Sireuil é um dos mais destacados encenadores de língua francesa da actualidade. Ao longo da sua carreira encenou textos de Strindberg, Peter Handke, Bertolt Brecht, Alfred Musset, Tchecov, Koltès, Marguerite Duras, Jean Luc Lagarce, Paul Claudel, Ibsen, Marivaux, Broch, Molière, Shakespeare, entre outros.

Uma leitura mais redutora poderá falar essencialmente da subterrânea luta do senhor e do escravo, numa sociedade estratificada em classes, mas esta versão de Luc Bondy é muito mais complexa, levando o caso do campo estritamente político para o psicanalítico, cruzando luta de classes com sexualidade, bondage, atracção e repulsa, e outras perspectivas. As criadas são irmãs, ambas afrontam a patroa, ambas se amam e se confrontam entre si, ambas se abraçam e chocam, ambas dominam e são dominadas. Com sofrimento e prazer, também. 

Comecemos por uma ponta desta intrincada meada: Cal McAffrey (Russell Crowe) é jornalista sénior num importante diário de Washington. É amigo pessoal há longos anos de Stephen Collings (Ben Affleck), um congressista norte-americano que nessa altura se encontra à frente de um inquérito sobre uma empresa paramilitar privada que foi contratada pelo estado para intervir no Iraque e no Afeganistão. E que tem lucrado de forma escandalosa com o negócio.
Como estamos na América, arauto da democracia e das liberdades individuais, o filme mostra as virtudes do sistema, que apesar de corrupto como qualquer outro, oferece as vantagens de tudo poder ser discutido e investigado e de a verdade vir sempre ao de cima. Será esta a realidade? Há casos que apontam para a resposta positiva, outros não, Watergate é um exemplo, mas quantos não ficaram na sombra? Conhecem, no entanto, melhor sistema? Eu não. Por isso vou comprando como saudáveis estas denúncias possíveis em terra de liberdades mais ou menos asseguradas.
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