segunda-feira, agosto 24, 2009

CINEMA: INIMIGOS PÚBLICOS


INIMIGOS PÚBLICOS

“Inimigos Públicos”, de Michael Mann, pode considerar-se uma (quase) obra-prima do cinema moderno, afirmando-se uma realização de uma inteligência e actualidade gritantes, ao mesmo tempo que se impõe como filme com um estilo e um originalidade invulgares. Michael Mann já nos dera excelentes exemplos de filmes de acção que cruzavam o “filme negro” com o policial, como "Heat - Cidade Sob Pressão", “O Informador” (The Insider), “Colateral” ou “Miami Vice” e já nos presenteara com certas características muito próprias de uma estética definida, que poderíamos integrar nos domínios do “tecno”, do “cool”, do “postmodernismo”. Creio que “Public Enemies” é, senão o seu melhor trabalho até ao presente, um dos seus melhores.
O filme merece certamente um desenvolvimento especial. Estamos em 1933, na América em plena crise económica e social. Depois do “crash” de 1929, a “Grande Depressão” vai estender-se pela década de 30, dando azo ao aparecimento de uma fortíssima instabilidade social, ao aparecimento de uma sucessão de gangsters que se tornariam célebres, muitos deles quase acarinhados pela população, que viam neles justiceiros populares, dado que desafiavam os detentores do poder, em primeiro lugar os banqueiros (olhados como os principais fautores da crise), os políticos e os agentes da autoridade (que lhe davam cobertura legal). São desse tempo Dillinger, Bonnie e Clyde, Baby Face Nelson, Pretty Boy Floyd, Al Capone, George Clarence 'Bugs' Moran, Joe Sante, Kate 'Ma' Barker, e tantos outros.

John Herbert Dillinger nasceu em Indianápolis, a 22 de Junho de 1903 e viria a ser liquidado em Chicago, a 22 de Julho de 1934. Filho de John Wilson Dillinger (1864-1943) e da primeira mulher deste, Mary Ellen "Mollie" Lancaster (1860-1907), teve uma infância não muito feliz, com uma educação ora severa e ríspida, ora permissiva e descuidada. Aos três anos a mãe morre e, quando o pai se volta a casar, anos mais tarde, não suporta a madrasta e a convivência torna-se mais difícil. Logo que pode, alista-se na Marinha, donde desertou poucos meses depois. De volta a Indiana, casa-se em 12 de Abril de 1924 com Beryl Ethel Hovious. Mas as dificuldades em assentar eram muitas, borbulhava no seu íntimo uma rebeldia nata. A sua vida não dava um filme, já deu vários.
Em poucos anos tornou-se no mais famoso ladrão de bancos dos EUA, sendo considerado uma espécie de Robin dos Bosques da época. Ao roubar os banqueiros e ao nunca interferir com o dinheiro dos cidadãos, que respeitava e nunca molestava, criou essa lenda (no filme de Michael Mann pode ver-se ele a assaltar um banco e afirmar a um depositante: “Nós assaltamos bancos, não pessoas”). Ora os bancos e os banqueiros eram responsabilizados pelo cidadão comum pela desgraça nacional que a América atravessava, pelo desastre financeiro que a ganância e os jogos de bolsa provocavam, pela especulação desenfreada que arrastou para a miséria, a fome, a desonra, mesmo a morte milhões de inocentes cidadãos que de um dia para o outro viram aos suas economias ruírem sem motivo aparente. A segurança e a prosperidade prometidas pelos bancos e pela bolsa afinal nada valiam, eram zero. Dillinger e outros como ele só repunham um pouco de justiça no sistema – contra ladrões instalados no poder, os ladrões de armas na mão chegavam a ser bem vindos e bem vistos pela populaça.
Dillinger tinha uma técnica afinada, actuava rápido e fugia com destreza quer dos locais dos assaltos, como das prisões para onde era enviado sempre que o logravam capturar. A imprensa começou a chamar-lhe “o inimigo publico nº 1”, numa acção concertada com a polícia, que procurava criar em seu redor uma auréola de violência, com intuitos secretos, mas que ficaram depois bem à vista de todos, quando o sagaz e ambicioso J. Edgar Hoover impôs a criação do FBI.
Iniciada a sua vida de fora da lei, foi preso em 1924 na Cadeia Estatal de Indiana. Foi aí que conheceu gangsters com longo historial, como Harry Pierpont de Muncie (Indiana) e Russell "Boobie" Clark, de Terre Haute. Dillinger trabalhava na lavandaria da prisão, o que lhe permitiu ajudar na fuga de Pierpont, Clark e outros. Em 1933, saiu em liberdade condicional e juntou-se ao grupo que ajudara, integrando a quadrilha, formando "o primeiro gang de Dillinger" que, além de Pierpont e Clark, ainda contava com Charles Makley, Edward W. Shouse Jr., Harry Copeland, "Oklahoma Jack" Clark, Walter Dietrich e John "Red" Hamilton. O "segundo gang de Dillinger", criado depois da sua fuga Crown Point (Indiana), contaria ainda com Homer Van Meter e Lester Gillis (Baby Face Nelson).
Partindo dos relatos da imprensa da época (e da lenda que se construiu à sua volta), Dillinger era um perfeccionista na forma como preparava os assaltos, que revelavam astúcia e imaginação, além de grande coragem. Fez-se passar facilmente por vendedor de alarmes de segurança em Indiana e Ohio, e chegou a existir um assalto em que o gang se disfarçou de equipa cinematográfica que filmava o roubo de um banco, enquanto o roubava na realidade. O que remete para a relação de Dillinger com o cinema, que o filme de Michael Mann sublinha.
Algum tempo de depois da saída da cadeia de Indiana, voltou à prisão, desta feita em Lima (Ohio), donde foi libertado pelo gang, que na ocorrência matou o xerife Jessie Sarber. Muitos dos participantes da quadrilha foram capturados no fim do ano em Tucson, Arizona, num violento incêndio no Historic Hotel Congress. Dillinger também voltou a ser preso e enviado para a cadeia de Crown Point, Indiana. Julgado sob a acusação de homicídio do guarda William O'Malley durante um tiroteio num banco em East Chicago, Indiana. Foi durante esse julgamento que foi registada a célebre foto dele a apontar uma arma ao promotor de justiça Robert Estill. A 3 de Março de 1934, Dillinger voltava a fugir, agora de Crown Point, usando uma arma moldada numa barra de sabão, mais um elemento a ser explorado na mitologia do crime e dos gangsters norte-americanos. O xerife Lillian Holley, posto em xeque, jurou matar Dillinger. Quando este cruza a fronteira dos Estados de Indiana e Illinois num carro roubado, comete um crime federal, violando o “National Motor Vehicle Theft Act”, o que o coloca sob a alçada do FBI. Entra então em acção J. Edgar Hoover, que procura extrair da prisão, ou morte, de Dillinger dividendos políticos para impor junto do governo o “seu” FBI.
Será em Abril desse mesmo ano que a quadrilha aparece em Manitowish Waters, Wisconsin, em busca de um esconderijo. Fazem parte do gang nessa altura, além de Dillinger e de Evelyn Frechette, Homer Van Meter, Lester ("Baby Face Nelson") Gillis, Eddie Green, e Tommy Carroll, além de outros. Denunciados à polícia de Chicago, esta chama o FBI, que manda uma equipa de agentes, chefiada por Hugh Clegg e Melvin Purvis, que cerca o local. Avisados igualmente os foragidos, segue-se forte tiroteio que possibilita a fuga de quase toda a quadrilha, mas deixa para trás o corpo do agente W. Carter Baum, atingido por "Baby Face" Nelson. Segue-se um período de refúgio, com Dillinger escondido em Chicago, sob um nome falso, Jimmy Lawrence, época em que ele é visto com uma prostituta, Polly Hamilton, que nada sabia da sua verdadeira identidade. Mas o FBI encontra o carro de Dillinger, percebendo que ele se encontra na cidade. Preparam a caça ao homem. Servem-se de uma amiga de Dillinger, Ana Cumpanas, conhecida por Anna Sage, dona de um bordel, que era romena e estava nos EUA com problemas de imigração, e levam-na a denunciar Dilliger, que ela vira entrar no seu estabelecimento acompanhado por Polly Hamilton, e identificara através de uma fotografia de jornal. Prepara-se uma cilada, aproveitando uma ida ao cinema de Dillinger e da namorada.
O título escolhido foi ”Manhattan Melodrama” (que, em português, se chamou oportunistamente “O Inimigo Publico nº 1”, pois só se estreou em 1935), uma realização de W.S. Van Dyke (com a colaboração não creditada de George Cukor), partindo de uma história de gangsters, violência de traições, escrita por Oliver H.P. Garrett e Joseph L. Mankiewicz, segundo ideia de Arthur Caesar, com Clark Gable, na figura de Edward J. 'Blackie' Gallagher, contracenando com William Powell e Myrna Loy.
"Imaginem ser John Dillinger ali sentado no cinema", sugere o realizador. "Todos os teus amigos morreram; a tua mulher, o amor da tua vida, desapareceu. Há cada vez menos pessoas como tu. Estás a enfrentar forças evolutivas gigantescas que tentam esmagar-te – o crime organizado de um lado e o FBI do outro. E o fim está próximo. Não és sentimental em relação a isso – de qualquer forma, não pensas que vais viver para sempre. E tu, Dillinger, estás ali sentado e o Clark Gable diz-te aquelas coisas, ao mesmo tempo que, sem saberes, a menos de cem metros estão 30 agentes do FBI à tua espera, a planear matar-te".
O filme projectava-se no Biograph Theater, em Lincoln Park, Chicago, e Dillinger foi vê-lo na companhia da Polly Hamilton e de Anna Sage, que usava um vestido de cor de laranja para ser facilmente referenciada. Havia duas hipóteses de salas de cinema, mas numa delas passava um filme de Shirley Temple, que foi quase de imediato descartado. Mas a equipe de agentes federais dividiu-se em dois grupos, e à saída do Biograph Theater, fuzilaram Dillinger, atingindo-o com três balas, uma delas no coração. Sage ficaria conhecida como a "dama de vermelho" (a iluminação artificial fez confundir as cores), uma figura sinistramente traiçoeira, que, apesar da denúncia e dos pretensos acordos com as autoridades, acabaria por ser deportada para Roménia, dois anos depois. Dillinger seria sepultado no Cemitério de Crown Hill, em Indianápolis.
Os agentes que fuzilaram Dillinger foram Charles B. Winstead, Clarence O. Hurt, e Herman E. Hollis, não se sabendo qual deles lhe teria provocado a morte com a bala no coração. Mas todos foram louvados por J. Edgar Hoover pelo heroísmo e coragem. Com a morte de Dillinger, fechou a “época de ouro do crime” de rua na América. O crime organizado continuou a existir, mas de forma menos espectacular, mais discreta, controlado do interior de gabinetes e possivelmente do âmago de bancos (veja-se a crise actual, e o estendal de acusações a banqueiros corruptos).
O filme de Michael Mann acompanha os últimos catorze meses de vida de Dillinger, precisamente entre 1933-34. Segundo informações do FBI, só entre Setembro de 1933 e a data da sua morte, em Julho de 1934, “Dillinger e o seu gang aterrorizaram o Midwest, matando dez homens, ferindo sete outros, assaltando bancos e arsenais da polícia, e organizando três fugas de cadeias, durante as quais morreu um xerife e ficaram feridos dois guardas”.
“Public Enemies” começa por ser uma boa reconstituição de época, que funciona como pano de fundo, mas agarra-se fundamentalmente a um aspecto essencial desse período: as transformações tecnológicas e sociais, que umas às outras se influenciavam. Estamos realmente num período charneira da história dos EUA, saídos há pouco da “Lei Seca”, numa transição de um capitalismo selvagem, que levou os bancos à bancarrota e à maior miséria grande parte da população americana (e mundial, por arrastamento), e que, com a política do “New Deal”, do presidente Roosevelt, tende para uma sociedade algo diferente, mais solidária, a que alguns chegaram mesmo a chamar socialista. As semelhanças com o que se passa na actualidade são gritantes nesse aspecto e não deixa de ser curioso ser este mais um filme que aborda a década de 30, entre os recentemente produzidos pelos estúdios norte-americanos.
John Dillinger (Johnny Depp) é, neste contexto, um anti-herói nacional como Bonie e Clyde, mas um homem que se serve das transformações tecnológicas para surpreender o sistema. Ele utiliza o mais moderno armamento e os carros mais velozes (o filme mostra bem a sua preocupação com os carros que usa e que lhe irão permitir movimentar-se com rapidez, bem como as armas que manuseia). As auto-estradas cruzam os Estados, agora mais Unidos. A aviação comercial lança-se em força. O cinema começara a falar, não há muito. Curiosamente J. Edgar Hoover (Billy Crudup) quer criar uma polícia moderna, usando meios mais sofisticados e menos convencionais. Utiliza os meios de comunicação social (nessa altura os jornais sobretudo, mas também a rádio e o cinema, como veremos mais à frente) para lançar a caçada ao “Inimigo Público Número Um”, como passa a designar bombasticamente Dillinger. Hoover sabe como criar dramaticidade. Quer dar força ao seu FBI (Federal Bureau of Investigation) e serve-se do obstinado Melvin Purvis (Christian Bale) para o efeito.
Este monta modernas salas de escutas telefónicas que irão ser vitais para localizar Dillinger, utiliza o poder mobilizador de cinema, recrutando as plateias para denunciarem Dilinger, “se ele estiver ao seu lado” (numa bela cena que Michael Mann encena com humor, mas como se fosse um pesadelo, que de certa forma prenuncia a “caça às bruxas” do macchartismo, onde J. Edgar Hoover vai desempenhar importante papel na sua frenética cruzada anti-comunista). As forças da ordem servem-se ainda de interrogatórios de uma enorme brutalidade, mas Purvis prefere-lhes abertamente outro tipo de coação, a que leva Anna Sage a trair o amigo e entregá-lo às balas à porta de um cinema. Utiliza igualmente armamento sofisticado, e abate perseguidos pela justiça como se de caça grossa se tratasse.
Mas há um outro aspecto muito curioso que Michael Mann explora de forma discreta, não deixando de sublinhar porém esta transformação quase imperceptível: o próprio tipo de crime muda. O assalto a bancos através de tiroteio dá lugar ao crime de colarinho branco. Enquanto por um lado o FBI monta salas de escuta, o crime organizado monta salas de apostas que geram lucros muito mais substanciais do que aqueles que os assaltos proporcionam, e sobretudo muito mais seguros. Os chefes destes negócios não os querem pôr em risco, chamando a desnecessária atenção das autoridades. Logo, interessa-lhes uma cidade tranquila, sem crime nas ruas e sem a polícia a patrulhá-las. Interessa-lhe que homens como Dillinger deixem de exercer o seu “ofício” para que o deles prospere na segurança do esquecimento. Depois, é muito mais fácil “pagar” para as autoridades “esquecerem” este negócio, do que para menosprezarem o crime violento, que assusta o cidadão e o atemoriza. Tudo portanto a favor dos novos tempos, tudo contra o gangster “romântico” (enfim, é uma maneira de dizer, mas o filme de Michael Mann envereda precisamente por esse caminho) que tem os dias contados. Terá sido a polícia a recrutar Anna Sage para a emboscada, mas terão sido os novos processos da Máfia de Chicago que permitiram e incentivaram que o ajuste de contas se processasse. Com Dillinger morto, a cidade tranquilizava à superfície, permitindo que os negócios obscuros prosperassem.
"Dillinger nunca foi considerado responsável pela morte de qualquer cidadão particular inocente", explicou Christian Bale aos jornalistas em Paris. E acrescentou: "Os bancos eram claramente o inimigo. Executavam as hipotecas e roubavam as vidas às pessoas.” “Não que hoje as coisas sejam muito diferentes", continua Johnny Depp no "Ain't It Cool News". "O filme que eu queria fazer tinha a ver com este tipo um bocado selvagem que quer tudo, e que o quer agora, com paixão", disse Michael Mann ao "Guardian". Rodado nos locais onde tudo aconteceu na realidade, e em alta-definição digital, o cineasta explica: "O vídeo parece a realidade, é mais imediato, tem uma superfície de 'vérité'. A película tem uma superfície tipo líquida, parece algo inventado".
Michael Mann inspirou-se numa obra do jornalista e ensaísta Bryan Burrough, "America's Greatest Crime Wave and the Birth of the FBI", e na verdade o seu argumento acompanha com certo rigor (e algumas liberdades “poéticas” obvias) as peripécias da vida de Dillinger e seus companheiros de existência. Uma existência que o próprio gangster quer que seja para “viver e morrer depressa, sem se deixar arrastar”, como aconselha uma jovem que com ele se cruza. Estamos em plena lufada de romantismo, que é explorada na sua vertente de Robin dos Bosques e de apaixonado. Algumas das cenas mais conseguidas neste aspecto, assinalam o encontro de Dillinger com Billie Frechette (Marion Cotillard), a sua namorada em final de vida, suscitando algumas interrogações metafísicas (“Donde vens, para onde vais, para onde me guias?”), culminando nessa cena antológica de sedução e charme num baile, com “Bye, bye, blackbird” por banda sonora. O cinema também serve de pretexto e espelho para Michael Mann criar um contraponto entre realidade e ficção, sobretudo quando, nas cenas finais, Dillinger no cinema se enfrenta com outro gangster, Edward J. 'Blackie' Gallagher (sob a aparência do mítico Clark Gable), num campo/contra-campo premonitório da tragédia que o aguardava à saída dessa “fábrica de sonhos” que, por vezes, também é causa de pesadelos.
Michael Mann exercita uma narrativa brilhante, rodada em HD e com muita câmara à mão, acompanhando os actores e libertando uma tensão inabitual. Há momentos de uma emoção invulgar. Dillinger invadindo o "Dillinger Bureau" da polícia de Chicago, passeando por entre as fotos e as notas recolhidas pelo departamento sobre si próprio, interrogando os agentes sobre o resultado do jogo que ouviam na rádio, é o instante de glória que saboreia em êxtase. Se foi verdade, é magnífico. Se foi uma invenção de Mann, é brilhante. A fotografia é esplendorosa, nas tonalidades nocturnas nimbadas por um matiz entre o castanho carregado e denso e o dourado que reflecte bem o clima da acção (veja-se a excelente chegada do preso Dillinger, de avião, numa noite iluminada pelo tungsténio dos fotógrafos). A montagem consegue o equilíbrio necessário entre a duração febril das acções violentas e o “tempo” necessário ao desenvolver das emoções. Os actores são todos eles brilhantes, mas será justo destacar o magnífico Johnny Deep (numa composição de grande sobriedade e intimismo, o que não surpreende num actor como ele é, mas convém não esquecer) e Christian Dale (absolutamente impecável, é o termo, no cerebral, frio e pragmático Purvis). Este é um encontro de vidas que tinham de ter este frente a frente. Cada um deles parece ter sido feito para o outro. Dillinger o anti-sistema, Purvis o guardião da ordem que assegura o sistema. Enfim, uma obra de uma actualidade notável, reconstruindo uma época e personagens históricas para sobre elas se repensar o presente. Se a História nunca se repete, olhar o passado pode ser uma boa lição para o futuro.
Antes deste “Inimigos Públicos”, de Michael Mann, Dillinger já fora várias vezes recriado no cinema, sendo o mais interessante o filme, escrito e dirigido por John Milius, “Dillinger, Inimigo Público nº 1”, com um magnifico Warren Oates no papel do célebre gangster, ao lado de Ben Johnson (Purvis), Harry Dean Stanton e Cloris Leachman.
Outras versões: em 1945, Lawrence Tierney foi o primeiro a interpretar a personagem de Dillinger, num filme do mesmo nome, dirigido por Max Nossecks. Em 1957, o excelente Don Siegel roda “Baby Face Nelson”, com Mickey Rooney como Nelson e Leo Gordon como Dillinger. Dois anos depois, em 1959, "The FBI Story", protagonizada por James Stewart, Scott Peters interpreta a figura de Dillinger, numa realização de Mervyn LeRoy. O italiano Marco Ferreri assina em 1969 o filme “Dillinger Is Dead”que incluía sequências documentais do autêntico John Dillinger. “The Lady in Red”, de Lewis Teague (1979), apresenta Pamela Sue Martin como a famosa “mulher de vermelho”, mas muda-lhe o nome, passa a Polly, em vez de Anna Sage (Louise Fletcher). Dillinger é Robert Conrad. Em 1991, surge “Dillinger”, um teledramático, com Mark Harmon no papel que dá nome ao filme.
Finalmente, acaricie-se o ego português, com uma boa novidade: Johnny Depp e demais actores do elenco de “Inimigos Públicos” usam chapéus de feltro manufacturados na fábrica Fepsa, em São João da Madeira. Mas antes deles, já Robert de Niro, Nicolas Cage e Clint Eastwood usavam os chapéus de feltro de origem portuguesa, que hoje em dia são coqueluche na América (55% da produção destina-se aos EUA). Até Bush não dispensa o seu feltro nacional, mas isso já é outra conversa, sem tanta graça.

INIMIGOS PÚBLICOS
Título original: Public Enemies
Realização: Michael Mann (EUA, 2009); Argumento: Ronan Bennett, Michael Mann, Ann Biderman, segundo obra de Bryan Burrough ("Public Enemies: America's Greatest Crime Wave and the Birth of the FBI, 1933-34"); Produção: Michael Mann, Kevin Misher, Bryan H. Carroll, Gusmano Cesaretti, Kevin De La Noy, G. Mac Brown, Robert De Niro, Karl McMillan, Maria Norman, Jane Rosenthal; Música: Elliot Goldenthal; Fotografia (cor): Dante Spinotti; Montagem: Jeffrey Ford, Paul Rubell; Casting: Avy Kaufman, Bonnie Timmermann; Design de produção: Nathan Crowley; Direcção artística: Patrick Lumb, William Ladd Skinner; Decoração: Rosemary Brandenburg; Guarda-roupa: Colleen Atwood; Maquilhagem: Danielle Friedman, Jane Galli, Rob Hinderstein, Lisa Jelic, Emanuel Millar, Gregory Nicotero, Linda Rizzuto, Patty York; Direcção de Produção: Julie Herrin, Sean T. Stratton; Assistentes de realização: Bob Wagner, Kwame Amoaku, Bryan H. Carroll, David Kelley, Allen Kupetsky, Charles Mueller, Andy Spellman, Michael Waxman; Departamento de arte: Jeff B. Adams Jr., Karen Fletcher Trujillo, David W. Krummel, Phillis Lehmer, Scott Matula, David Tennenbaum; Som: Derek Casari, Tim Gomillion, Laurent Kossayan, Ed Novick, Jeremy Peirson; Efeitos especiais: Jeff Miller, Don Parsons, Bruno Van Zeebroeck; Efeitos visuais: Collin Fowler, Ben Marks, Andy Schwab, Doyle Smith, Robert Stadd; Companhias de produção: Universal Pictures, Relativity Media, Forward Pass, Misher Films, Tribeca Productions, Appian Way; Intérpretes: Johnny Depp (John Dillinger), Christian Bale (Melvin Purvis), Marion Cotillard (Billie Frechette), Billy Crudup (J. Edgar Hoover), Rory Cochrane (Agente Carter Baum), Jason Clarke (John 'Red' Hamilton), Stephen Dorff (Homer Van Meter), Branka Katic (Anna Sage), Channing Tatum (“Pretty Boy” Floyd), Stephen Graham ("Baby Face" Nelson), Stephen Lang (Charles Winstead), Giovanni Ribisi (Alvin Karpis), James Russo (Walter Dietrich), David Wenham (Harry 'Pete' Pierpont), Christian Stolte, John Judd, Michael Vieau, John Kishline, Wesley Walker, John Scherp, Elena Kenney, William Nero Jr., Madison Dirks, Len Bajenski, Adam Clark, Carey Mulligan, Andrzej Krukowski, John Michael Bolger, Peter Defaria, Jonathan Macchi, Jeff Shannon, Michael Sassone, Emilie de Ravin, Brian Connelly, Ed Bruce, Geoffrey Cantor, Chandler Williams, Robert B. Hollingsworth Jr., David Paul Innes, Joe Carlson, Ben Mac Brown, Diana Krall (cantora), Duane Sharp, Domenick Lombardozzi, Bill Camp, John Ortiz, Richard Short, Randy Ryan, Shawn Hatosy, Kurt Naebig, John Hoogenakker, Adam Mucci, Rebecca Spence, Danni Simon, Don Harvey, Shanyn Leigh, Spencer Garrett, Don Frye, Matt Craven, Laurence Mason, Randy Steinmeyer, Kris Wolff, Lili Taylor, Donald G. Asher, Andrew Steele, Philip M. Potempa, Brian McConkey, Alan Wilder, David Warshofsky, Peter Gerety, Michael Bentt, John Lister, Jim Carrane, Joseph Mazurk, John Fenner Mays, Rick Uecker, Craig Spidle, Jason T. Arnold, Andrew Blair, Mark Vallarta, Daniel Maldonado, Sean Rosales, Stephen Spencer, Patrick Zielinski, Gareth Saxe, Guy Van Swearingen, Jeff Still, Lance Baker, Steve Key, Leelee Sobieski, David Carde, Gerald Goff, Aaron Roman Weiner, Keith Kupferer, Turk Muller, Tim Grimm, Martie Sanders, Robyn Scott, etc. Duração: 140 minutos; Distribuição em Portugal: Zon Lusomundo; Classificação etária: M/ 16 anos; Estreia em Portugal: 6 de Agosto de 2009.


quinta-feira, agosto 20, 2009

AGORA SÃO AS ESCUTAS!?

:
CHEGA DE BANDALHEIRA!

Quase a um mês das eleições, alguém do Palácio de Belém veio dizer que alguém do governo anda a escutar os telefonemas dos assessores do Presidente da República.
Ao contrário do BE e do PCP que não deram especial importância a estas “tontices”, eu, e julgo que a maioria dos cidadãos portugueses, dou muita importância a este facto. De há uns tempos para cá parece que vivemos numa república das bananas, com casos sobre casos, anónimos sobre anónimos, insinuações sobre insinuações, e nada se sabe, fica tudo como está. É altura de dizer basta a esta bandalheira que nos submerge.
Vou votar daqui a um mês e quero saber quem roubou, e se roubaram no Freeport, ou se procuraram apenas linchar o Primeiro-ministro e o governo. Vou votar e quero saber antes se o governo ou alguém do governo anda a escutar Belém, ou se Belém inventa escutas para queimar o governo e beneficiar os seus camaradas partidários.
Eu, e julgo que alguns milhões de portugueses, quero saber quem são efectivamente os senhores que detêm o poder e em quem podemos confiar.
Era bom acabar com as insinuações, era excelente pôr fim a esta onda de calúnias sem rosto de cobardes sem provas ou sem a coragem de as apresentar. Estou farto deste País cada vez mais doente e sem dignidade.
Não estou a brincar: estou mesmo farto desta bandalheira.
Isto não é atmosfera saudável para viver.

segunda-feira, agosto 17, 2009

A LIGA COMEÇOU - MAIS DO MESMO?

Acabada a pré-época e os amigáveis, começamos a ver quem tem unhas para tocar guitarra. Os 3 grandes empataram todos a 1, depois de todos estarem a perder durante quase todo o jogo. Mas uns jogaram fora, em terrenos tradicionalmente difíceis, e o outro em casa, campo que também não lhe é habitualmente muito favorável. Dos três, o pior resultado foi o do Benfica ultra reforçado que se anunciava ir ganhar tudo, mas que só o faz desde que seja a feijões (ou para taças de torneios de preparação). Dos três, o que me pareceu ter melhor equipa e mais equilibrada, foi o Porto, que aliás defrontou o adversário mais difícil. Dos três, o Sporting é o que mais se contenta com a prata da casa e que quase não gastou capital em compras de reforços de peso (o que tem vantagens óbvias e algumas desvantagens a considerar).Para já todos iguais na tabela classificativa, mas uns mais iguais que outros (nesse aspecto, o Benfica parece ser mais do mesmo).Começou a Liga. Vivam as emoções! (fortes? Ou mornas?).

quinta-feira, agosto 13, 2009

SHERLOCK HOLMES, 2

:
"SHERLOCK HOLMES" DE NOVO NO CINEMA

“Sherlock Holmes” vai voltar aos ecrãs de cinema de todo o mundo, no dia 25 de Dezembro de 2009. Esta nova versão, de que apresentamos algumas imagens, conta com realização de Guy Ritchie e argumento, retirado livremente das obras de Arthur Conan Doyle, assinado por Michael Robert Johnson, Anthony Peckham, Simon Kinberg e Lionel Wigram.
No elenco, algumas surpresas: Robert Downey Jr. é Sherlock Holmes e Jude Law é Dr. John Watson. Depois há ainda a referir Rachel McAdams (Irene Adler), Mark Strong (Lord Blackwood), Kelly Reilly (Mary Morstan), Eddie Marsan (Inspector Lestrade), James Fox (Sir Thomas), Hans Matheson (Lord Coward), Bronagh Gallagher (Palm Reader), entre muitos outros.
Guy Ritchie, que já foi casado com Madona, dirigiu alguns filmes interessantes, como “The Hard Case” (1995), “Lock, Stock and Two Smoking Barrels” (1998), “Snatch.” (2000), “Star” (2001), Swept Away (2002), “Revolver (2005), “RocknRolla” (2008) até chegar a este “Sherlock Holmes” (2009), estando já a preparar nova obra, “The Gamekeeper” (anunciada para 2010).
Esperemos que esta incursão pelo universo de Conan Doyle esteja à altura do mestre. O “trailer” deixa algumas dúvidas, muito embora as boas indicações a nível de cenários e fotografia.


SHERLOCK HOLMES, 1

:
AVENTURAS DE SHERLOCK HOLMES EM 12 LIVROS


Ora vamos lá começar por fazer publicidade. Gratuita.
Já não sei quantas vezes li e reli todos os livros do Conan Doyle, sobre Sherlock Holmes. Contos, novelas e romances. Desde a adolescência. Numa colecção que ainda guardo. Depois já comprei outras colecções, até um volume inglês que reproduz textualmente a revista onde inicialmente foram editados (com desenhos originais e tudo, uma preciosidade, que só folheio, e leio aqui e ali, o meu inglês não é o meu forte!, já sabem, não é?).
Agora, o DN, publica e distribui grátis, a quem comprar o jornal das terças, quintas e domingos, doze pequenos volumes com as aventuras de Sherlock Holmes e do seu amigo Dr. Watson, todos assinados por Sir Arthur Conan Doyle. As edições são muito bonitas, eu não resisto e ando a reler tudo. De novo. Convido-vos a darem uma espreitadela. Depois de Edgar Allan Poe, que “inventou” o romance policial, Conan Doyle deu-lhe carta de cidadania e um herói inesquecível. É uma leitura fascinante, que os mais velhos e os assim-assim não esquecem, mas que julgo que os mais novos irão apreciar e “descobrir” com um gosto redobrado.
É publicidade gratuita a minha: não percam estas preciosidades às terças, quintas e domingos.

quarta-feira, agosto 12, 2009

SELECÇÃO NACIONAL

:
POP ARTE OU SURREALISMO?
LICHTENSTEIN 0 - PORTUGAL 3

Alguém me sabe explicar para que é que serviu este Lichtenstein-Portugal?
Para Carlos Queirós "descobrir" que estes jogadores do Lichtenstein
são muito parecidos com os da Dinamarca?
Na verdade, ambos são humanos...

CINEMA: DUPLO AMOR

:

DUPLO AMOR
“Duplo Amor”, de James Gray, é um drama sentimental que radica a sua construção e estética no mais tradicional, ou clássico, cinema norte-americano, para lhe subverter as regras nalguns momentos, sem que todavia se possa dizer que atraiçoa um estilo. Senão vejamos: uma personagem masculina central oscila entre duas mulheres, constituindo um daqueles triângulos que parece já não oferecer qualquer surpresa ao espectador. Puro engano. Se tudo já foi inventado, se tudo já foi escrito, e filmado, há sempre forma de lhe dar a volta.
Leonard (Joaquin Phoenix) é um jovem atraente que sofre de bipolaridade. Sofre no seu quarto de adolescente por um amor perdido. Atenta contra a própria vida por diversas vezes, a última das quais atirando-se do alto de uma ponte sobre um rio. Arrepende-se e pede auxílio, o que o salva. Os pais vivem preocupados com a instabilidade de sentimentos e de comportamento do filho, que trabalha na lavandaria familiar e se entretém a entregar encomendas. De repente vê-se confrontado com duas mulheres que se atravessam na sua vida: de um lado uma bela vizinha loura, Michelle (Gwyneth Paltrow), que habita um apartamento frente ao seu, onde se encontra com o amante, um homem casado que é simultaneamente seu patrão. Por outro lado, surge a morena Sandra (Vinessa Shaw), delicada e dedicada filha de um amigo do pai de Leonard, que quer reunir as famílias e os negócios.
O ambiente é o do judaico bairro de Brighton Beac, com incursões pelo coração de Nova Iorque. O suspense é o que é ditado pela ignorância de saber como irá finalizar este invulgar dueto feminino aos olhos de um atarantado jovem que, depois de um período de carência, vê a fome tornar-se fartura. O dilema põe-se entre conquistar a loura ao poderoso amante que a sustenta e lhe paga o apartamento ou aceitar a devotada Sandra. Pode parecer, mas não estamos no domínio da comédia. Estamos nos abismos do drama, e um dos feitos da obra de James Gray é conseguir durante o tempo da sua projecção criar no espectador um clima de tragédia latente, que paira sobre cada um dos belíssimos planos deste filme invernoso, denso, carregado de sombras de mau presságio. Cada nova sequência arrasta consigo o potencial desbloquear de uma ameaça que pode ferir de morte um ou vários dos intervenientes, mas a arte de James Gray está precisamente nesse aspecto não muito frequente no cinema: furtar-se aos grandes desenlaces dramáticos, estar mais interessado no desenho das personagens do que no precipitar das situações. E ainda ter escolhido “Estranha Forma de Vida”, cantada por Amália Rodrigues, para acompanhar, pianíssimo, uma das sequências chaves do filme.

A música portuguesa não será evocada apenas aí. Não será tão “vulgar” como isso dizer-se que esta obra é como que a versão erudita, e psicanalítica, do conhecido “Eu Tenho Dois Amores”, onde, como todos sabem, também havia alguém dividido entre uma loura e uma morena. A canção é popular e desenvolve um conceito de idêntico significado. Em “Duplo Amor” a coisa fia mais fino. Leonard, o protagonista, é assumidamente bipolar, e este facto faz toda a diferença. Não se trata de escolher entre uma loura que representa a aventura, a loucura sensorial e a insegurança, e uma morena que simboliza a paz e a tranquilidade (tudo isto na aparência, claro, porque há muita complexidade a moldar o quadro).
O caso de existirem duas mulheres diante das quais ele oscila, é a concretização visível da sua patologia. Sabe-se que a bipolaridade é um distúrbio de que sofre cerca de 1,6% da população mundial e que é tratável no plano médico. Consiste em bruscas mudanças de humor, que, no entanto, podem ser controladas por alguns medicamentos. O mais antigo é o carbonato de lítio, mas parece haver muitos mais nesta altura, sobretudo ao nível dos antidepressivos, o que aliás Leonard toma. Quando a medicação funciona podem atravessar-se longos períodos de saúde e de vida regular. Mas o acompanhamento, apoio e compreensão da família ou dos amigos mais chegados constituem uma boa base de sustentação. Importante contributo para a completa percepção do filme. Segundo informações recolhidas, os indivíduos bipolares são muitas vezes pessoas que se destacam nas actividades que exercem, principalmente nos meios artísticos (Mozart, Vivien Leigh, Schumman, Jaco Pastorius, Agatha Christie, Virginia Woolf, Ernest Hemingway, Edgar Allan Poe, Graham Greene, Hans Christian Andersen, Fernando Pessoa, T. S. Eliot, Walt Whitman, Cazuza, Axl Rose, Kurt Cobain, Elvis Presley, Janis Joplin, Jimmy Hendrix, Thelonius Monk, Tchaikosvky, Maria Callas, Robin Williams, Jim Carrey, Marilyn Monroe, Elizabeth Taylor, Paul Gauguin, Vincent van Gogh, Platão, Isaac Newton, entre outros) e políticos (Abraham Lincoln, Winston Churchill, Ulisses Guimarães).
Volte-se ao filme de James Gray. Leonard oscila entre um estado de euforia amorosa e sexual, quando se aproxima de Michelle e a tenta roubar ao seu amante casado, e um estado de conforto e segurança emocional quando se encontra com Sandra. No início do filme sabe-se que, embora sem grande convicção (convicções parece ser coisa que Leonard não tem), tenta suicidar-se atirando-se ao rio, mas regressando à tona de água, pedindo socorro rapidamente. Depois, haverá todo o trajecto que percorre entre as duas mulheres, ziguezagueando entre uma e outra, até parecer optar por uma e acabar com a outra, o que nos oferece um final que, sendo obviamente inesperado, poderá ser considerado um pouco de tudo, desde uma desastrosa renuncia à felicidade até um falso “happy end” ou mesmo um verdadeiro “happy end”, conclusão que cada espectador retirará tendo em conta vários factores, entre os quais a própria condição de bipolar de Leonard.
O que me agrada de sobremaneira no filme? A delicadeza de análise das personagens, a justeza do tom, o clima de tragédia latente que o percorre sem que todavia nada aconteça de particularmente grave, as cores sobrecarregadas e densas que emprestam uma vivência especial à obra. Gosto ainda da maneira discreta como se escreve de uma forma clássica uma história de amor moderna (sim, a bipolaridade de Leonard é obviamente um sinal de modernidade, um sintoma da esquizofrenia da actual sociedade ocidental). Gosto da maneira de representar de Joaquin Phoenix que, esperemos, não se tenha despedido aqui do cinema, para enveredar unicamente por uma carreira de cantor. Ele é magnifico na forma de exteriorizar um comportamento disfuncional, sem grandes alardes, muito pelo contrário recorrendo aos mais ínfimos sinais, à completa e discreta interiorização de uma conduta. Muito bom é também o trabalho dessa espantosa Gwyneth Paltrow, aqui frágil e insegura, e da pouco conhecida Vinessa Shaw, que surpreende num papel difícil, misturando sensualidade e maternal segurança. Isabella Rossellini e Moni Monoshov, os pais de Leonard, são igualmente brilhantes na forma discreta e íntima como inspiram um casal atormentado pela doença do filho e que procuram tecer à sua volta a teia da segurança que julgam preservar Leonard de um futuro incerto.
Há quem chame a James Gray o “novo Martin Scorsese”, certamente tendo em conta sobretudo os seus três primeiros filmes, de ambiente bem negro. Nascido em 1969, em Nova Iorque, Gary descende de uma família de emigrantes russos. Começou por querer ser pintor, mas depois de tomar contrato com a obra de alguns cineastas norte-americanos, como Coppola, optou pelo cinema, tendo estudado na School of Cinematic Arts, na Universidade da Califórnia (1991), onde se tornou notado com um filme de fim de curso, "Cowboys and Angels", chamando a atenção do produtor Paul Webster, que lhe pediu para escrever um argumento que ele pudesse produzir.
Foi em 1994 que escreveu e realizou a sua obra de estreia, “Viver e Morrer em Little Odessa” (Little Odessa), com Tim Roth, Edward Furlong, Vanessa Redgrave e Maximillian Schell, que ganharia o Leão de Ouro de Veneza. Começava aqui uma carreira muito pessoal, muito centrada em temas obsessivos, família, “famílias” mafiosas (a máfia russa), violência e sexo, amor fraternal e filiar, divisão entre Bem e Mal, Nova Iorque, o bairro de Brighton Beach, em Brooklyn, e, invariavelmente, uma dicotomia que percorre todos os filmes de forma labiríntica e simbólica.
Em 2000, para a Miramax, dirige “Nas Teias da Corrupção” (The Yards), com um elenco notável, Mark Wahlberg, Joaquin Phoenix, Charlize Theron, James Caan, Ellen Burstyn e Faye Dunaway, um filme negro, como todos os que até agora realizou. “Nós Controlamos a Noite” (We Own the Night), com Joaquin Phoenix, Eva Mendes, Mark Wahlberg, Robert Duvall, Alex Veadov, Dominic Colon, Oleg Taktarov, Moni Moshonov, Tony Musante, entre outros, esteve em Cannes, e marcou pontos na carreira do cineasta, muito embora a sua desigual recepção crítica. Mas o filme é uma magnífica história bíblica (Abel e Caim) que tem no centro da acção a máfia russa instalada em Nova Iorque, procurando controlar bares e droga. Dois irmãos, filhos de um impoluto comandante da polícia, escolhem percursos diversos na vida. Um segue as peugadas do pai, ingressando na polícia, o outro dirige um bar, propriedade de um russo que tem uma família muito suspeita. A bipolaridade aqui é fraterna, e o filme oferece um clima de profunda inquietação, rondando sempre a tragédia, recortando-se de cenários nocturnos, rasgados por sangrentos néons de mau presságio. O actor fetiche de James Gray, Joaquim Phoenix (três presenças numa filmografia de quatro), compõe uma atormentada personagem que tem de escolher o seu lado da barricada. Um doloroso filme que deixa antever uma brilhante carreira, agora continuada com “Duplo Jogo”. Para 2010 anuncia-se nova obra: “The Lost City of Z”.
Há uma frase atribuída a James Gray que teria muito interesse desenvolver: “Apparently I'm the dramatic version of Jerry Lewis. Someone wrote that I'm the object of Gallic fetish.” Não esquecer que Jerry Lewis na sua comédia esquizofrénica desenvolveu muitas vezes o conceito de bipolaridade, como em “As Noites Loucas do Dr. Jerryl”. Ou “O Médico e o Monstro” na sua versão actual.

DUPLO AMOR
Título original: Two Lovers
Realização: James Gray (EUA, 2008); Argumento: James Gray, Ric Menello; Produção: Donna Gigliotti, James Gray, Anthony Katagas, Couper Samuelson, Mike Upton, Todd Wagner, Agnès Mentre, Marc Butan, Mark Cuban; Fotografia (cor): Joaquín Baca-Asay; Montagem: John Axelrad; Casting: Douglas Aibel; Design de produção: Happy Massee; Direcção artística: Marc Benacerraf, Peter Zumba; Decoração: Carol Silverman; Guarda-roupa: Michael Clancy; Maquilhagem: LuAnn Claps, Jorjee Douglas; Direcção de Produção: Anthony Katagas, Jamey Pryde; Assistentes de realização: Lauren Guilmartin, Jason Hightower, Francisco Ortiz, Doug Torres; Departamento de arte: Leni Calas, John J. Ciccimarro, Eddie DeCurtis, Heather Prendergast, Kevin L. Raper; Som: Douglas Murray; Efeitos especiais: Andrew Mortelliti; Efeitos visuais: J. Cody Baker, Michael Boggs, David Neuberger; Companhias de produção: 2929 Productions, Tempesta Films; Intérpretes: Joaquin Phoenix (Leonard Kraditor), Gwyneth Paltrow (Michelle Rausch), Vinessa Shaw (Sandra Cohen), Moni Moshonov (Reuben Kraditor), Isabella Rossellini (Ruth Kraditor), John Ortiz (Jose Cordero), Bob Ari (Michael Cohen), Julie Budd (Carol Cohen), Elias Koteas (Ronald Blatt), Shiran Nicholson, David Cale, Kathryn Gerhardt, Nick Gillie, Carmen M. Herlihy, Samantha Ivers, Anne Joyce, Mari Koda, RJ Konner, Evan Lewis, Marion McCorry, David Ross, Jeanine Serralles, Jose Edwin Soto, Uzimann, Elliot Villar, Mark Vincent, Craig Walker, Franco Bulaon, Luis Dalmasy Jr., Bianca Giancoli, Andrew Ginsburg, Christy Bella Joiner, Doug Wright, etc. Duração: 110 minutos; Distribuição em Portugal: Zon Lusomundo; Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal: 30 de Julho de 2009; Locais de filmagem: Brighton Beach, Sheepshead Bay, Brooklyn, Central Park West, Manhattan, Columbus Circle Subway, Central Park, Waldorf-Astoria Hotel - 301 Park Avenue, New York City, Lincoln Center, Nova Iorque, Hoboken, New Jersey, Jersey City, Kensington Avenue, Springfield, Jersey City, Lana Lounge - 92 River Street, Hoboken, Lincoln Park, New Jersey, EUA.

segunda-feira, agosto 10, 2009

NO DIA DA DESPEDIDA

A última vez que falei com Raul Solnado, foi por engano.
Aconteceu há já algumas semanas. O meu telemóvel tocou, li o seu nome no mostrador, atendi e saudei de imediato: “Olá, Raul”. Ele perguntou: “Quem é?” Identifiquei-me. E ele: - “Desculpa, queria falar com a Leonor. Enganei-me no número.” Concordei, não era eu, mas agradeci o engano, “é sempre bom falar consigo, mesmo por engano”. E desligámos. O telefone, não a amizade.
Hoje estive no Cemitério dos Olivais e, infelizmente, não era engano. Era mesmo verdade, e o mar de gente que ali acorreu também era verdade. Gente do espectáculo, muitos amigos, mas sobretudo povo, “malmequeres” bem portugueses que gostavam do Raul como ele gostava deles e lhe foram oferecer uma última salva de palmas, um último adeus, uma última lágrima.
Foi bonito de ver, e o Raul terá gostado de o sentir, ele que, como todos os homens do espectáculo, e ao contrário do que foi dito nalguns jornais, tanto gostava de uma sincera e comovida homenagem. Não das oficiais que se promovem por obrigação, certamente. Mas das que saíam espontâneamente do coração do “seu público”, que era afinal Portugal (quase) inteiro. Solnado pelava-se por uma boa salva de palma bem conquistada, bem merecida. E tantas ele mereceu!
Um actor só vive plenamente num palco. Mesmo que esse seja o palco da vida ou o da morte. “Eu não tenho medo da morte”, dizia. “Eu tenho é pena de deixar a vida. Eu gosto muito da vida”.
A vida gostava muito de ti, Raul, e nunca te esquecerá. Ela tem apenas pena que tenhas partido.


domingo, agosto 09, 2009

SOLNADO PELO OLHAR DE ANDRÉ CARRILHO



A mais bonita homenagem que vi hoje na imprensa portuguesa. (no Diário de Notícias)

sábado, agosto 08, 2009

MAIS UM AMIGO

Fotografia de Teresa Sá
RAÚL SOLNADO
(Raul Augusto de Almeida Solnado,
Lisboa, 19 de Outubro de 1929, Lisboa, 8 de Agosto de 2009).
Fotografia Maria Eduarda Colares
Raul Solnado morreu. No hospital de Santa Maria, na manhã de hoje, vítima de complicações cardíacas. Depois de (quase) oitenta anos de vida cheia e bem curtida, que nos fez curtir a nós também, seus espectadores incondicionais. Trabalhei com ele num “Conto de Natal”, para a noite de 24 de Dezembro de 1988, da RTP. Foi uma semana de rodagem magnífica, pelo seu profissionalismo, a sua inteligência, a sua entrega, a sua espontaneidade no acto de representar. Ele estudava com rigor e atenção o que tinha de fazer, mas depois deixava a sua intuição e a sua inteligência levá-lo, sempre a bom porto. Não pactuava com facilidade ou grosseria, era um humorista fino, delicado, elegante, mas incisivo, corrosivo, brilhante. Era um amigo para a eternidade, no convívio de quem se era feliz. Fui-o muitas vezes, ao longo dos anos, em Festivais de Cinema por mim organizados, onde fez parte dos Júris (“Famafest”, em Famalicão, “Cine Eco”, em Seia, “O Castelo em Imagens”, em Portel), onde foi justamente homenageado (com a Pena de Camilo em Famalicão). Foi o nosso primeiro convidado nas tertúlias do “Vavadiando” (e ia aparecendo depois, sempre que o trabalho lhe dava pausa).
Conhecia-o desde há muito. Assisti a algumas sessões de pose, quando o meu pai o pintou num belo retrato que há tempos ofereci ao Museu do Teatro (espero que se aproveite agora este infausto acontecimento para o quadro ser exposto e colocado no lugar a que tem direito). Depois, a admiração da família prolongou-se e o meu filho Frederico homenageou-o igualmente na primeira edição do Festival Rir em Lisboa.
Irrequieto e imaginativo, foi tudo o que quis ser, e dono de teatros (o belíssimo Villaret, que ele inventou) até director da Casa do Artista (que ele impulsionou desde a primeira hora). Fica na nossa lembrança no Teatro de Revista, e no declamado, da comédia ao drama, passando até pela ópera. Fez tudo na televisão (e não lhe pagaram na mesma moeda, nos últimos tempos, na RTP, onde só agora ia regressar num novo programa), e está ligado a alguns dos maiores momentos da história da televisão portuguesa (do “Zip Zip” à “Cornélia”), fez rádio e cinema, e também aqui marcou momentos brilhantes (como na “Balada da Praia dos Cães”). Interveio generosamente na vida social, cultural e política portuguesa. Era um ser humano magnífico, sempre apaixonado, sempre enamorado, sempre cativante.
*
Ser actor! Comunicar.
Ser humorista! Criticar.
Ser pessoa! Amar o próximo, mesmo quando dele se discorda, mesmo quando se critica.
Raul Solnado é, possivelmente, o maior actor cómico português vivo. Sublinho o “português”. É ele quem melhor encarna, ainda hoje, nas suas composições, o que de melhor (e de pior) existe no português típico. O melhor, essa ternura do pobre diabo do desenrascanço crónico, esse amoroso cultivo da banalidade e da vitimização, esse olhar cândido do “arrebenta” que solta a imaginação, quando não pode soltar mais nada. O pior? O mesmo, sem a ternura, sem o amoroso, sem o olhar cândido.
Solnado descobriu o Malmequer lusitano. Cantou-o, imortalizou-o. Todos somos Malmequeres do seu canteiro. Ele é o Malmequer deste jardim à beira mar plantado. Quando se quiser saber o que somos, o que fomos, para onde vamos, basta colocar o disco a girar e recordar Solnado nas suas/nossas representações. Para o melhor e o pior somos aquelas figuras. Para o melhor, fica-nos a certeza de termos sido interpretados pelo génio de um grande actor, e, sobretudo, pela generosidade de um grande homem.

Ver mais sobre Raul Solnado no blogue “Vavadiando” AQUI

quarta-feira, agosto 05, 2009

CINEMA: A VERDADE E SÓ A VERDADE

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A VERDADE E SÓ A VERDADE
Na realidade

“A Verdade e só a Verdade” (Nothing But The Truth), filme de Rod Lurie, aparece como sendo baseado em factos reais, mas que, apesar disso, não segue à letra nem factos nem personagens que lhe serviram de base. Compreende-se por quê depois de se saber um pouco mais sobre o caso em que se baseia.
Nos alicerces desta obra está a jornalista Judith Miller, nascida em 1948 em Nova Iorque, que se tornou uma polémica e contestada jornalista de investigação trabalhando no “New York Times”. Especialista em assuntos do Médio Oriente, de Árabes e de terrorismo internacional, nomeadamente bioterrorismo, Judith Miller desenvolveu várias reportagens sobre exilados políticos iraquianos que permaneciam nos EUA, tal como Ahmed Chalabi, que lhe serviam como fonte de informação privilegiada.
Em 2005, vê-se envolvida num caso controverso que abalou a América e que ficou conhecido pela designação “Cooper-Miller-Novak”. É especialmente este caso que serve de inspiração ao filme “Nothing But The Truth” que, neste caso, é tudo menos a verdade sobre o que então se passou e sobre a personalidade de Judith Miller.
Judith Miller começou a sua carreira de jornalista no “New York Times” em 1977. Em 1986 já era manifesta a sua simpatia pelos falcões americanos, ao escrever uma série de artigos sobre a Líbia de Mouammar Kadhafi, que muitos incluíram numa campanha de desinformação sobre aquele país, campanha essa orquestrada pelo almirante John Poindexter, depois caído em desgraça. Em 1993, casa com Jason Epstein, escritor e editor literário. Depois de 2000, Judith Miller vê-se sobrecarregada de acusações, todas elas com a mesma orientação política: ela servia os interesses da administração Bush.
Publica falsas informações sobre a existência de armas de destruição massiva no Iraque (mais tarde o jornal explica que cinco dos seus seis artigos continham informação falsa), descobre possível material (tubos metálicos) que se destinavam ao Iraque e que ela conota com a fabricação de armas atómicas (o que depois alguns cientistas contradizem), afirma ter recebido uma carta no seu escritório do NYT, contendo antrax, numa altura em que vários meios de comunicação social americanos receberam realmente cartas com antrax, como ABC News, CBS News, NBC News ou New York Post, todos em Nova Iorque, ou ainda o National Enquirer na Flórida. Ou os senadores Tom Daschle e Patrick Leahy, em Washington. Deste ataque resultaram 22 pessoas infectadas, das quais cinco morreram, mas, analisada a carta de Judith Miller, veio a verificar-se que não era antrax o que continha. Nesse ano ela recebe o Prémio Pulitzer sobre as suas investigações sobre a Al-Qaida e Oussama Bin Laden.
Aquando da morte de Yasser Arafat, dirigente palestiniano, a necrologia aparecida no NYT (11 de Novembro de 2004) continha gritantes erros, e fora redigida por Miller. Choveram mais críticas, o que voltaria a acontecer com o caso “Cooper-Miller-Novak”. Que se resume assim:
Judith Miller escreve no “New York Times”, que Valerie Plame, mulher do diplomata Joe Wilson, era agente da CIA. Pensa-se que foi a própria Casa Branca a espalhar a notícia como forma de manchar a honra de Joe Wilson e mulher, dado que o diplomata havia criticado a política da administração Bush, acusando-o de impor uma guerra sobre falsas informações. Em 6 de Julho de 2005, Judith Miller é presa porque se recusa a revelar as fontes em que se baseara para denunciar uma agente da CIA. Nos EUA denunciar um agente secreto é crime. Permanece algumas semanas em prisão, mas, em 30 de Setembro, admite depor, dado que a sua fonte aceitou levantar a confidencialidade. Em Novembro, depois de um acordo negociado entre a jornalista e o NYT, afasta-se do jornal e escreve um texto dirigido ao editor do NYT, onde explica a demissão.

A VERDADE E SÓ A VERDADE
Na óptica de Judith Miller
O Adeus de Judith Miller (9 de Novembro de 2005)

Ao editor:
Em 6 de Julho escolhi ir para a prisão para defender o meu direito de jornalista de proteger uma fonte confidencial, o mesmo direito que permite que advogados garantam a confidencialidade dos seus clientes, padres a de seus paroquianos e médicos ou psicoterapeutas a de seus pacientes. Embora 49 estados tenham estendido este privilégio a jornalistas, pois sem tal protecção a imprensa livre não pode existir, não há lei federal equivalente. Escolhi ir para a prisão não apenas para honrar meu juramento de confidencialidade, mas também para dramatizar a necessidade desta lei federal.
Após 85 dias, mais que o dobro de tempo que qualquer outro jornalista americano passou na cadeia por esta causa, concordei em testemunhar perante o grande júri do procurador especial Patrick J. Fitzgerald sobre as minhas conversas com a minha fonte, I. Lewis Libby Jr. Fiz isso somente depois de as minhas duas condições terem sido atendidas: primeiramente, o Sr. Libby libertou-me voluntariamente, por escrito e por telefone, da minha promessa de proteger as nossas conversas; e, em segundo, o procurador especial limitou as suas perguntas somente às questões relevantes ao caso Valerie Plame Wilson. Diferentemente do que afirmaram relatos inexactos, estes dois acordos não poderiam ter sido alcançados antes de eu ter ido para a prisão. Sem eles, eu ainda estaria na cadeia, talvez, advertiram os meus advogados, acusada de obstrução da justiça, um crime. Embora alguns colegas tivessem discordado da minha decisão de testemunhar, permanecer na cadeia após ver atendidas minhas condições pareceria um martírio autólatra ou pior, um esforço deliberado para obstruir a investigação sobre crimes sérios do procurador.
Em parte por essas objecções de alguns colegas, decidi-me, após 28 anos e com sentimentos misturados, deixar o Times. Sinto-me honrada por ter feito parte deste jornal extraordinário e orgulhosa de minhas realizações – um Pulitzer, um DuPont, um Emmy e outros prémios –, mas triste por deixar minha casa profissional.
Mas principalmente escolhi demitir-me porque nos últimos meses me transformei em notícia, algo que um repórter do New York Times nunca quer ser.
Mesmo antes de ir para a prisão eu já me tinha transformado num pára-raios da fúria pública sobre as falhas da área de informações que ajudaram a levar o nosso país para a guerra. Diversas matérias que escrevi ou co-escrevi foram baseadas nesta falha dos serviços secretos, e em Maio de 2004 o Times concluiu, em nota dos editores, que a cobertura deveria ter reflectido um cepticismo maior.
Num discurso que fiz no Barnard College em 2003, um ano antes da publicação desta nota, perguntei se as informações dos serviços secretos sobre armas de destruição em massa (ADM) eram meramente erradas, ou se eram exageradas ou mesmo falsificadas. Acreditei então, e ainda acredito, que a resposta à má informação é mais reportagem. Lamento que não me tenha sido permitido buscar respostas para as perguntas que levantei em Barnard. A falta das respostas continua a corroer a confiança na imprensa e no governo.
O direito de resposta e a obrigação de corrigir imprecisões são também marcas de uma imprensa livre e responsável. Estou satisfeita por Bill Keller, editor-executivo do Times, finalmente ter esclarecido as observações feitas por ele, sem apoio nos factos e pessoalmente dolorosas. Alguns de seus comentários sugeriram insubordinação da minha parte. Eu sempre escrevi as matérias que me cabiam de acordo com as normas éticas e de apuramento da verdade do jornal, e cooperei com as decisões editoriais, mesmo quando delas discordei.
Saúdo a página editorial do Times por advogar uma lei federal de protecção dos jornalistas antes, durante e depois da minha prisão e por apoiar recentemente, apenas duas semanas atrás, minha disposição de ir para a cadeia em defesa deste princípio vital. Quero agradecer sobretudo aos colegas que me apoiaram depois de ter sido criticada nessas páginas. A minha resposta a esta crítica pode ser lida na íntegra no meu site: JudithMiller.org.
Continuarei a defender uma lei federal de protecção do jornalista. Nos meus escritos futuros, pretendo chamar a atenção para as ameaças internas e externas às liberdades no nosso país – al-Qaida e outras formas de extremismo religioso, terrorismo convencional e com ADM e o sigilo crescente no governo em nome da segurança nacional –, assuntos que têm definido há muito tempo o meu trabalho. Saio sabendo também que o Times continuará a sua tradição de excelência que o tornou indispensável aos seus leitores, um padrão para os jornalistas e um reduto da democracia.”
A VERDADE E SÓ A VERDADE
No filme de Rod Lurie
Este é apenas mais um filme sobre jornalismo e os problemas que o mesmo encontra para levar as notícias ao público? Sim e não. É verdade que, por um lado, se trata precisamente disso, de como exercer a profissão de jornalista e de como enfrentar algumas das dificuldades que se levantam a essa prática. Mas, por outro lado, este filme (como por exemplo o também recente “Ligações Perigosas”), parece recuperar uma via liberal do cinema norte-americano (dos anos 30, 40, 50, retomada depois periodicamente por alguns cineastas isolados) onde se faz a defesa dos princípios e das virtudes democráticas. De certa forma, uma confissão de confiança no sistema e na sua regeneração através do quinto poder, a comunicação social.
Desta feita, o caso da jornalista Judith Miller e da sua polémica investigação ao serviço do “New York Times” serve não tanto para ser adaptada fielmente, mas como base para ficcionar um caso idêntico, mas curiosamente de sinal contrário. Enquanto Judith Miller era acusada de direitista e apologista de Bush, o que argumentista e realizador de “Nothing But The Truth” faz é rigorosamente algo de efeito oposto, um libelo na defesa de princípios e de comportamentos que defendem a liberdade de imprensa e do jornalista, lutando pela confidencialidade das fontes. E porquê? O jornalista vive muitas vezes de dicas “off de record”, que poderá utilizar caso não mencione as fontes. Esta prática é discutível, mas tem vantagens e desvantagens democráticas (ambas exemplificadas ou no caso verídico e ou no ficcionado de Judith Miller). Por mim, acho que o anonimato nunca foi bom conselheiro em democracia, mas a verdade é que se não fosse ele não teríamos tido conhecimento do Watergate, para só citar um exemplo do conhecimento geral.
Em “Nothing But The Truth” a jornalista em causa chama-se Rachel Armstrong (Kate Beckinsale) e é igualmente repórter num (fictício) jornal diário de grande tiragem na América. É ela que descobre que Erica Van Doren (Vera Farmiga), mulher de um diplomata norte-americano que escreveu um artigo contra a política externa da Casa Branca, pertence à CIA. Erica Van Doren viajou pela América Latina e investigou se a Venezuela estivera ou não associada ao assassinato de um presidente dos EUA. Retirou dessa investigação conclusões negativas, que o governo resolveu ignorar para poder actuar em território venezuelano. Dar a conhecer a identidade de agente secreta de Erica Van Doren pode ser uma manobra da própria administração Bush, para desprestigiar a sua investigação, ou simplesmente uma forma de pressão, sobre a comunicação social e sobre as “fontes informativas” anónimas. O governo, estribado numa lei que permite perseguir quem denuncie a identidade de agentes secretos, e servindo-se de uma outra lei, federal, que obriga à identificação de fontes, coloca Rachel Armstrong em tribunal, respondendo perante um grande júri, num processo dirigido pelo promotor público “especial” destacado para este caso, Patton Dubois (Matt Dillon).
O filme acompanha esta batalha jurídica, e a luta do elegante advogado Albert Burnside (Alan Alda), que, de início, parece mais interessado nos seus fatos de marca e na sua aparência cosmopolita, mas que finalmente, empolgado pela causa, tudo fará para ajudar Rachel Armstrong que se vê envolvida num escabroso processo, com direito a prisão (mais de 350 dias), humilhação pública, violenta tareia na cela, afastamento de marido e filho, críticas de colegas, levando mesmo ao assassinato de Erica Van Doren, executado por um demente extremista.
O filme é particularmente interessante, eficaz na sua narrativa, bem interpretado, com saliência para Kate Beckinsale, Matt Dillon (excelente em Patton Dubois, que ele interpreta como se fosse o “bom da fita”, segundo palavras do próprio), Angela Bassett e Alan Alda (bom regresso à ribalta num papel à sua medida). Não será obviamente um filme inesquecível, a sua construção é por demais banal a nível cinematográfico, mas não deixa de tratar um tema forte e importante, fazendo-o de forma interessante e inteligente, que permite relançar uma polémica que a todos diz respeito.
A VERDADE E SÓ A VERDADE
Título original: Nothing But The Truth
Realização: Rod Lurie (EUA, 2008); Argumento: Rod Lurie; Produção: Dennis Brown, Marc Frydman, David Glasser, William J. Immerman, Rod Lurie, James Spies, Bob Yari; Música: Larry Groupé; Fotografia (cor): Alik Sakharov; Montagem: Sarah Boyd; Casting: Mary Jo Slater; Design de produção: Eloise Crane Stammerjohn; Guarda-roupa: Lynn Falconer; Maquilhagem: Gloria Belz, Janice Byrd; Direcção de Produção: Ed Cathell III, Buddy Enright, Jill Greenblatt, Shana Fischer Huber, Linda L. Miller; Assistentes de realização: John Greenway, Thomas A. Reilly, Scott Rorie; Departamento de arte: Rachel Boulden, Frank Hendrick, Dane Moore; Som: Anna MacKenzie; Efeitos visuais: Daniel Kumiega, Curt Miller, Doug Spilatro; Companhias de produção: Battleplan Productions, Yari Film Group (YFG); Intérpretes: Kate Beckinsale (Rachel Armstrong), Matt Dillon (Patton Dubois), Angela Bassett (Bonnie Benjamin), Alan Alda (Alan Burnside), Vera Farmiga (Erica Van Doren), David Schwimmer (Ray Armstrong), Courtney B. Vance (Agente O'Hara), Noah Wyle (Avril Aaronson), Floyd Abrams (Juiz Hall), Preston Bailey (Timmy Armstrong), Kristen Bough (Allison Van Doren), Julie Ann Emery, Robert Harvey, Michael O'Neill, Kristen Shaw, Angelica Torn, Jamey Sheridan, Pamela Jones, Jennifer McCoy, David Bridgewater, Jenny Odle Madden, Rod Lurie (Larry), Janie Paris, Jim Palmer, Clay Chamberlin, Joseph Murphy, Ashley LeConte Campbell, Scott Williamson, Dan Abrams, Elizabeth Annewilson, Jon W. Sparks, Erin Dangler, Randall Hartzog, Craig Wright, Phil Darius Wallace, Kelly Holleman, Allen O. Battle III, Teri Itkin, Angie Gilbert, Antonio Morton, Blake Brooks, Carol Russell-Woloshin, Verda Davenport, Robert P. Campbell, Michael Detroit, Jeffrey W. Bailey, Garnet Brooks, William J. Immerman, D'Army Bailey, Lowell Perry, etc. Duração: 108 minutos; Distribuição em Portugal: Atalanta Filmes; Classificação etária: M/ 12 anos; Locais de filmagens: Memphis, Tennessee, EUA; Estreia em Portugal: 30 de Julho de 2009.

terça-feira, agosto 04, 2009

CINEMA, ELEGIA

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ELEGIA

"O Animal Moribundo", de Philip Roth, que é definitivamente um dos maiores escritores norte-americanos vivos, está na base de “Elegia”, o novo filme de Isabel Coixet. Devo confessar que Philip Roth é escritor de minha muito particular estima, quer pelos temas abordados, quer pelo seu estilo, que muito bem se coaduna com o seu universo, quer ainda pelas suas posições políticas e preocupações sociais.
Quando li “O Animal Moribundo” afirmei que, por várias razões, o livro me tocou profundamente. Curiosamente, dias antes, alguém lera uns textos meus e me disse: “Relembram-me “O Animal Moribundo””. Fui ler e concordei: era verdade. Seguramente, com uma longa distância de talento a separar-nos. Mas as preocupações estão lá e as formas de as enfrentar também.
“O Animal Moribundo" é um escritor, professor universitário de literatura, semi-reformado, que já só dá um seminário de Crítica Prática, embora continue a ser um considerado crítico cultural, respeitado pelas suas intervenções semanais na televisão, e por uma ou outra ocasional crítica teatral. Tem sessenta e alguns anos, está divorciado há muito, desde os libertadores “anos 60”, tem um filho com quem se relaciona mal (que nunca lhe perdoou o divórcio da mãe), sente a velhice aproximar-se e a morte rondar. Vai rodando casos amorosos ou, melhor dizendo, vai multiplicando aventuras sexuais com alunas actuais e antigas. Até que um dia encontra, numa das suas aulas, Consuela, muito mais nova que ele, com vinte e quatro anos de origem cubana, ardentes e apaixonados. David Kepesh leva-a a jantar e depois para casa, fala de Kafka e de Velásquez, mas a obsessiva ideia inicial é levar Consuelo para a cama. Sexo duro e puro parece ser o horizonte, mas o que nasce dessa aproximação é algo de muito mais profundo, uma história de amor que tem o corpo e o sexo como origem, mas se transfigura à medida que o tempo passa e os sentimentos se fortalecem.
O que se conta no livro e no filme é o angustiante encontro de um homem a caminho da velhice e de uma mulher, na sua plenitude, ao encontro da morte. O resultado em livro é brilhante, notável, arrasador, escrito com a secura de um Hemingway, mas com o olhar do início de século XXI. Uma viagem ao mais secreto da alma humana, empreendida por um escritor verdadeiramente invulgar, numa obra de uma densidade e força inusitadas. A sua transposição para o cinema não é menosprezável, muito pelo contrário. Isabel Coixet é uma realizadora catalã com imenso talento e um definido gosto por histórias inesperadas de emoções conturbadas (são dela filmes muito interessantes como “Cosas que Nunca te Dije”, 1996, “Mi Vida sin Mí”, "A Minha Vida sem Mim", 2003, “La Vida Secreta de las Palabras”, "A Vida Secreta das Palavras", 2005).
Obviamente a adaptação não é fiel, na íntegra, ao texto literário, corta sequências, condensa outras, altera factos, reduz substancialmente o clima erótico e atenua a linguagem desbragada utilizada no romance, mas de um modo geral procura ser fiel ao espírito e à essência da obra. Isabel Coixet escolheu um elenco de grande maturidade e rigor, Ben Kingsley (David Kepesh) não é a figura que eu imaginei quando li o romance, mas é um actor magnífico, que se transmuda, que se adequa a cada nova situação, Penélope Cruz (Consuela Castillo) consegue conciliar a sensualidade e uma certa inocência de comportamento, ainda que lhe falte algum “fogo cubano”, e seja demasiado trintona para fazer de rapariga de vinte e quatro anos, Dennis Hopper (na composição da personagem George O'Hearn, poeta galardoado com um Pulitzer, amigo de Kepesh) é igualmente notável de bonomia e rigor, bem como Patricia Clarkson (a anterior amante Kepesh, Carolyn). Excelente é ainda Peter Sarsgaard (Kenny Kepesh, o filho).
Um elenco que oferece uma solidez inequívoca e uma eficácia notável na transmissão de emoções fortes e devastadoras e, por vezes, de um infinito desencanto. Um dos outros grandes méritos de Isabel Coixet é conseguir transmitir a todo o filme um ambiente de melancolia e solidão, de quase desespero, sem recorrer a truques ou efeitos fáceis. A toada do filme é lenta, nocturna, magoada, entrecortada por cenas de um ardor sensual visceral, de quem procurar morder a vida e a ela se agarrar, como forma de sobrevivência, não tanto frente à morte, mas sobretudo perante o inexorável declínio físico, à proximidade da doença e do que ela acarreta de perca de faculdades, de perca de juventude, de perca das potencialidades da vida. As sombras do entardecer dos corpos projectam-se nestas paisagens humanas em decadência. Neste caso, “fazer amor” (ou foder, como Philip Roth gosta de rectificar) não é só “fazer amor” ou foder, é afirmar uma vontade, é revoltar-se contar o destino, é erguer um desejo de imortalidade (certamente irrisório) diante do irremediável. É o próprio David Kepesh quem afirma: “Quando fazes amor com uma mulher vingas-te de todas as coisas que te destruíram durante a vida”
(When you make love to a woman you get revenge for all the things that defeated you in life”. )
Outro aspecto muito curioso neste filme, é que a adaptação cinematográfica é empreendida por uma mulher, baseada num livro que só podia ter sido escrito por um homem, onde aqui e ali se poderiam mesmo notar certas facetas de um machismo “domesticado”, “civilizado”. Mas David Kepesh é claramente uma personagem típica do universo de Philip Roth, muito parecida com Coleman Silk, o reitor reformado de “The Human Stain” (“Culpa Humana”, 2003), um filme de Robert Benton, curiosamente igualmente adaptado ao cinema por Nicholas Meyer (que acompanha Isabel Coixet nesta nova adaptação). A caminho da velhice, solitário, neurótico, obcecado pela juventude e as mulheres, ofuscado pelo sexo, através do qual procura afirmar-se, e mais do que isso, prolongar a sua vida, Kepesh é uma figura fascinante e de uma humanidade dilacerante. Esta personagem é muito bem entendida por uma mulher que a filma com uma enorme ternura e compreensão, que a olha de frente na sua frágil dignidade e na sua total solidão. Esta “Elegia”, que por definição é um poema triste, é também um belo poema triste sobre a descoberta do amor num homem de sessenta e muitos anos, empedernido por sucessivos casos descartáveis, mas que subitamente descobre dentro de si a força do amor, a incerteza da dúvida e do ciúme, a perenidade da carne, e até a força da paternidade. “O Último Tango em Paris”, de Bertolucci, entre alguns outros exemplos passíveis de citar, já abordava o caso de um homem maduro envolvido sexualmente com uma voluptuosa jovem muito mais nova, numa troca de experiências que revificava ambos. Esta “Elegia” retoma o tema com sensibilidade e uma dorida compreensão.
ELIGIA
Título original: Elegy
Realização: Isabel Coixet (EUA, 2008); Argumento: Nicholas Meyer, segundo romance de Philip Roth (“O Animal Moribundo – The Dying Animal); Produção: Andre Lamal, Gary Lucchesi, Eric Reid, Tom Rosenberg; Fotografia (cor): Jean-Claude Larrieu; Montagem: Amy E. Duddleston; Casting: Heike Brandstatter, Coreen Mayrs; Design de produção: Claude Pare; Direcção artística: Helen Jarvis; Decoração: Lin MacDonald; Guarda-roupa: Katia Stano; Maquilhagem: Gitte Axen, Martin Samuel, Susan Boyd; Direcção de Produção: Terra Abroms, Penny Gibbs; Assistentes de realização: Misha Bukowski, Sandra Mayo, Louisa Phung, Rhonda Taylor; Departamento de arte: Gordon Brunner, Jan Kobylka, Ray Lai, Sharon Thompson, Mario Tomas-Niedworok; Som: Karen Schell; Efeitos especiais: William H. Orr; Efeitos visuais: Alexandre Cancado, Vincent Cirelli, Payam Shohadai, Steven Swanson; Companhias de produção: Lakeshore Entertainment; Intérpretes: Penélope Cruz (Consuela Castillo), Ben Kingsley (David Kepesh), Dennis Hopper (George O'Hearn), Patricia Clarkson (Carolyn), Peter Sarsgaard (Kenny Kepesh), Deborah Harry (Amy O'Hearn), Charlie Rose (Charlie Rose), Antonio Cupo, Michelle Harrison, Sonja Bennett, Emily Holmes, Chelah Horsdal, Marci T. House, Alessandro Juliani, Tiffany Lyndall-Knight, Laura Mennell, Andre Lamal, Shaker Paleja, Kris Pope, Julian Richings, Tania Saulnier, Michael Teigen, Ryan McDonell, etc. Duração: 112 minutos; Distribuição em Portugal: Zon Lusomundo; Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal: 3 de Julho de 2009; Locais de filmagens: Coquitlam, Vancouver Island, Vancouver, University of British Columbia, British Columbia, Canadá.
De Philip Roth, "O Animal Moribundo", citações:

“(…) Por muito que saibamos, por muito que pensemos, por muito que maquinemos, compactuemos e planeemos, não somos superiores ao sexo. É um jogo muito arriscado. Um homem não teria dois terços dos problemas que tem se não se aventurasse a ser fodido. É o sexo que traz a desordem às nossas vidas normalmente ordenadas. Eu sei isto tão bem como qualquer outra pessoa. Toda e qualquer vaidade regressa para troçar de nós. Lê o “DonJuan”, de Byron. No entanto, que podemos nós fazer se temos sessenta e dois anos e estamos convencidos de que nunca mais voltaremos a ter ao nosso alcance uma coisa tão perfeita? Que fazemos se temos sessenta e dois anos e a ânsia de aproveitar seja o que for que seja aproveitável não poderia ser mais forte? Que fazemos se temos sessenta e dois anos e tomamos consciência de que todas aquelas partes do corpo até então invisíveis (rins, pulmões, veias, artérias, cérebro, intestinos, próstata, coração) estão a começar a tornar-se desoladoramente patentes, enquanto o órgão mais conspícuo ao longo de toda a nossa vida está condenado a mirrar até à insignificância?
Não me interpretes mal. Não se trata de, por intermédio de uma Consuela, podermos cair na ilusão de pensar que regressamos uma última vez à nossa juventude. Não é possível sentir mais a diferença relativamente à nossa juventude. Na energia dela, no seu entusiasmo, na sua ignorância juvenil, na sua sabedoria juvenil, a diferença é dramatizada em cada instante. Nunca há a mínima dúvida de que é ela, e não nós, quem tem vinte e quatro anos. Só um grande idiota sentiria que é de novo jovem. Se nos sentíssemos jovens, seria uma armadilha. Longe de nos sentirmos jovens, sentimos o tormento do futuro ilimitado dela em comparação com o nosso futuro limitado, sentimos ainda mais do que normalmente o tormento de todos os derradeiros dons que fomos perdendo. É como jogar basebol com um grupo de miúdos de vinte anos. Não que nos sintamos com vinte anos por jogarmos com eles. Notamos a diferença durante cada segundo de jogo. Mas pelo menos não estamos sentados nas linhas laterais.
O que acontece é o seguinte: sentimos lancinantemente que estamos velhos, mas de uma maneira nova.” (pag.s 36-37)
“(…) Enquanto cresci, o homem não era emancipado no reino sexual. Era um homem de segunda apanha. Era um ladrão no reino sexual. Surripiávamos uma apalpadela. Roubávamos sexo. Adulávamos, suplicávamos, lisonjeávamos, insistíamos - todo o sexo exigia luta, tinha de ser disputado aos valores, senão à vontade da rapariga. O conjunto de regras determinava que tínhamos de impor a nossa vontade à rapariga. Era assim que ela era ensinada a manter o espectáculo da sua virtude. Ficaria confuso se uma rapariga comum se oferecesse, sem uma infinita importunação, para quebrar o código e praticar o acto sexual. Porque ninguém, de qualquer dos sexos, tinha alguma noção de que recebia à nascença um direito erótico. Era desconhecido. Ela podia, se estivesse caída por nós, concordar com uma punheta - que significava essencialmente usar a nossa mão com a dela como um encaixe -, mas que alguém consentisse alguma coisa sem o ritual do cerco psicológico, de perseverante e monomaníaca tenacidade e exortação, bem, isso era impensável. Não havia, com certeza, possibilidade de conseguir um broche a não ser usando de uma perseverança sobre-humana. Eu consegui um em quatro anos de universidade. Era tudo quanto nos era permitido. Na cidade rústica das Catskill, onde a minha família tinha um pequeno hotel de férias e eu atingi a maioridade nos anos quarenta, a única maneira de ter sexo consensual era ou com uma prostituta ou com alguém que fora a nossa namorada durante a maior parte da nossa vida e com quem toda a gente calculava que íamos casar. E nesse caso pagávamos o que devía­mos, pois frequentemente casávamos com ela.” (pag.61)

“(…) A última pessoa a tomar estas questões a sério foi John Milton, há trezentos e cinquenta anos. Alguma vez leram os seus panfletos sobre o divórcio? No seu tempo, isso valeu-lhe muitos inimigos. Estão aqui, estão entre os meus livros com as margens densamente anotadas nos anos 60. “O nosso Salvador abriu para nós esta arriscada e acidental porta do casamento para no-la fechar como o portão da morte...?” Não, os homens não sabem nada - ou procedem voluntariamente como se não soubessem - a respeito do lado difícil e trágico daquilo em que vão entrar. Na melhor das hipóteses, pensam estoicamente: Sim, eu compreendo que mais cedo ou mais tarde vou renunciar ao sexo neste casamento, mas será a fim de ter outras coisas mais valiosas. Mas compreenderão aquilo de que estão a abdicar? Ser casto, viver sem sexo... bem, como encararão as derrotas, os compromissos, as frustrações? Ganhando mais dinheiro, ganhando todo o dinheiro que puderem? Fazendo todos os filhos que puderem? É uma ajuda, mas não é a mesma coisa. Porque a outra coisa se baseia no seu ser físico, na carne que nasce e na carne que morre. Porque só quando fodemos é que tudo aquilo de que não gostamos na vida e tudo aquilo que nela nos derrota é puramente, ainda que momentaneamente, vinga­do. Só então estamos mais limpamente vivos e somos mais limpamente nós mesmos. A corrupção não é o sexo, a corrupção é o resto. O sexo não é apenas fricção e divertimento superficial. O sexo é também vingança contra a morte. Não esqueçam a morte. Não a esqueçam nunca. Sim, o sexo também é limitado no seu poder. Eu sei muito bem a que ponto é limitado. Mas, digam-me, há algum poder maior? (pag. 63)

“(…) Tocava Beethoven e masturbava-me. Tocava Mozart e masturbava-me. Tocava Haydn, Schumann, Schubert e masturbava-me com a imagem dela no pensamento. Porque não podia esquecer os seios, os seios plenos, os mamilos e a maneira como ela conseguia envolver neles o meu pénis e acariciar-me assim. Outro pormenor. Um último pormenor e paro. Estou a tornar-me um pouco técnico, mas isto é importante. Este foi o contacto que fez de Consuela uma obra-prima de volupté. Ela é uma das poucas mulheres que conheci que se vinha empurrando a vulva para fora, empurrando-a involuntariamente como o corpo macio, não segmentado e espumoso de uma bivalve. A primeira vez apanhou-me de surpresa. Sentimo-la e temos uma sensação da fauna desse outro mundo, de qualquer coisa vinda do mar. Como se fosse relacionado com a ostra, o polvo ou a lula, uma criatura oriunda de quilómetros abaixo e eternidades atrás. Normalmente, vemos a vagina e podemos abri-la com as nossas mãos, mas no seu caso ela abria-se como se florescesse, a cona na sua própria forma, emergindo do seu esconderijo. Os pequem lábios eram expelidos para fora, entumesciam para fora, e era muito excitante, aquela tumefacção viscosa e sedosa, estimulante ao contacto e estimulante para os olhos. O segredo extasiadamente exposto. Schiele teria dado os seus caninos para o pintar. Picasso tê-lo-ia transformado numa guitarra.
Quase nos vimos de a ver vir-se. Consuela revirava os olhos quando era assim para ela. Os seus olhos voltavam-se para cima e só podíamos ver as escleróticas, e também isso valia a pena ver. Tudo nela valia a pena ver. Fosse qual fosse a agitação causada pelo ciúme, fosse qual fosse a humilhação e a infinda incerteza, sentia-me sempre orgulhoso quando a fazia vir-se. Às vezes nem sequer nos importamos se uma mulher se vem ou não: acontece apenas, a mulher parece encarregar-se disso por si mesma e não é da nossa responsabilidade. Não é um acontecimento com outras mulheres; a situação é suficiente, há excitação bastante e isso nunca está em questão. Mas com Consuela, sim, com ela era definitivamente uma responsabilidade que me cabia e sempre, sempre, uma questão de orgulho.” (pag. 88-89)
Philip Roth, "O Animal Moribundo", ed. Dom Quixote. Ficção Universal.

segunda-feira, agosto 03, 2009

CRITICA EM CRISE OU EM MUDANÇA?

The Critic, de Arthur Dove
Críticos em extinção?

Levantamento do jornal "The Salt Lake Tribune" indica que ao menos 55 críticos de cinema foram demitidos ou mudaram de área na imprensa americana desde 2006. O dado, citado em reportagem na edição dominical do New York Times, ilumina um aspecto da crise que afeta os jornais americanos e, em particular, ajuda a compreender uma mudança significativa que vem ocorrendo na relação de Hollywood com a imprensa.

O New York Times dedica-se a tentar entender a perda de importância dos jornais ― e o crescimento da influência dos blogs ― no processo de divulgação dos filmes pelos grandes estúdios. O sinal mais aparente deste fenômeno ― importante pelo volume de recursos que Hollywood movimenta em marketing ― é que os jornais contribuem cada vez menos com aquelas publicidades repletas de frases retiradas de críticas. Uma das mais antigas ferramentas de marketing de um filme, a citação tirada de uma crítica de cinema (coisas como "eletrizante" "imperdível", "muito engraçado", "ri do início ao fim") já foi motivo de muita polêmica. Há alguns anos, descobriu-se que um estúdio, a Sony, havia publicado um anúncio com uma frase inventada, dita por um crítico que não existia. Também é comum tirar palavras ou frases de contexto, mudando o sentido do que o crítico quis dizer para realçar qualidades inexistentes de um filme. O que inquieta o New York Times agora é o fato de que os grandes estúdios de Hollywood preferem recorrer a críticas publicadas em blogs do que em jornais. Escreve o diário: "Os seis grandes estúdios gostam de ir à internet em busca de frases para usar em publicidade porque há uma variedade muito grande de sites de onde tirar a palavra ou a frase certa. Alguns sites, é claro, são sérios. Outros, incluindo sites como Ain't It Cool News, não fazem segredo do seu olhar de 'animador de torcida' em relação a alguns gêneros de filmes". Em outras palavras, raciocina o New York Times, os estúdios preferem recorrer a sites e blogs porque eles tratam os filmes de forma mais generosa e complacente que os jornais. O grande diário americano está, evidentemente, fazendo uma generalização injusta, já que há também muitos críticos em jornais que funcionam mais como "animadores de torcida" do que, propriamente, como analistas sérios e isentos. Em todo caso, dois entrevistados do jornal reforçam a tendência de recorrer a sites e blogs no lugar dos jornais na leitura das críticas de cinema. Um vice-presidente da Universal, Michael Moss, diz ao jornal: "Alguns dos melhores críticos de cinema e a maioria das boas críticas são encontradas on-line". Já Mike Vollman, presidente de marketing da MGM e United Artists, afirma que vai preferir se basear mais em blogs do que na revista Time para promover o remake do filme Fama. "A realidade, e lamento dizer isso para você, é que os jovens que vão ao cinema são mais influenciáveis por um blog do que por um crítico de jornal". A reportagem, em resumo, confirma as previsões mais pessimistas dos que enxergam na revolução promovida pela nova mídia um sinal de empobrecimento e decadência cultural. Ainda assim, o próprio New York Times reconhece que há sites "sérios", publicando textos sobre cinema com o mesmo grau de rigor que os jornais ditos de prestígio.

E o Brasil? ― algum leitor perguntará. O problema, ainda que em grau menor, até porque a indústria de cinema nacional é minúscula comparada a Hollywood, já aparece por aqui. Ainda estamos, pelo que observo, numa etapa anterior. Há um crescimento impressionante de sites e blogs dedicados ao cinema, mas o mercado ainda observa com desconfiança, procurando entender ― e separar o joio do trigo de toda essa movimentação. Em todo caso, é possível observar que alguns produtores já utilizam frases retiradas de sites e blogs para divulgação de seus filmes.


Nota do Editor: Texto gentilmente cedido pelo autor.
Originalmente publicado no blog de Mauricio Stycer, que integra o portal iG, em 08 de junho de 2009.
Mauricio Stycer São Paulo, 22/6/2009.
Transcrito do site Digestivo.com.br. Mantida a grafia de português do Brasil.