segunda-feira, janeiro 04, 2010

DOSSIER SHERLOCK HOLMES, 1

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SHERLOCK HOLMES, A CRIAÇÃO LITERÁRIA


1. NA CASA DE SHERLOCK HOLMES
Diz a lenda (e as histórias literárias) que Sherlock Holmes é uma criação de Sir Arthur Conan Doyle, portanto alguém que nunca teve uma existência física palpável. Engano. “Eu” estive na casa de Sherlock Holmes, subi as escadas íngremes do número 221B, de Baker Street, em Londres, atravessei a sala onde Holmes permaneceu dias e noites embrenhado nos seus casos, dialogando com o amigo Watson. Fui conduzido pela voz mecânica e automatizada de uma guia que nos ia indicando cada um dos objectos de culto, criteriosamente dispersos pela divisão. O jornal que diariamente lia, a bengala, o cachimbo, o tabaco, o chapéu, o improvisado laboratório, o violino das horas mortas, o cadeirão onde se sentava, a “chaise longue” onde adormecia. Diversos disfarces. Espreitei a rua da janela do primeiro andar. Senti o arrepio de pressentir a chegada de um novo cliente, de uma tímida jovem que atravessava a rua, tocava sofregamente à porta, era atendida pela governanta e mandada subir por Holmes que, depois de um rápido olhar, enunciava desde logo ao que vinha, donde vinha, e como tinha sido a jornada. A casa estava agora desabitada, é certo, sentia-se o vazio, eu que gosto de visitar casas museus, conheço este incómodo decorrente de invadir uma privacidade, de espiolhar uma vida e tentar descobri-la pelos despojos onde se procura um pouco da alma de quem por lá passou. Mas também sei que a maioria dos móveis já não são os originais, que muito do que vemos não tem correspondência com o que foi, mas sim com o que pensamos que foi, com o que nos dizem que foi. O que vemos é mais o que a lenda impõe, do que a realidade do que realmente existiu. Por exemplo, onde está a cocaína que Holmes consumia regularmente? Todos sabem que por essa altura não era crime, era mesmo prática corrente e remédio aconselhado por médicos e psicanalistas (veja-se o caso de Freud). Mas sabemos também que familiares do defunto e curadores dos museus fazem por esquecer ou encobrir certas práticas menos consentâneas com a faixa etária que frequenta estas visitas guiadas a casas ilustres. Fica, portanto, um vazio indizível, que anuncia apenas uma presença que todos querem sentir. A esta casa já fui pelo menos duas vezes, uma quando era ainda solteiro, outra com um filho que se interessa igualmente por estas curiosidades (sim, também visitámos a Old Curiosity Shop). Há obsessões que passam de geração em geração. Baker Street é lugar de peregrinação inadiável para qualquer admirador de Sherlock Holmes de passagem por Londres. Ou mesmo para os muitos londrinos que não esquecem um dos seus símbolos maiores. É impossível que esta casa com um ar tão desabitado, não tenha já sido habitada. Desabitada quer dizer que se sente a falta de quem a habitou anteriormente. O vazio é o vazio de uma ausência. Esta invasão de privacidade só o é porque houve anteriormente uma privacidade. Sherlock Holmes esteve aqui, seguramente, a falar com John Watson. Até retenho alguns traços fisionómicos, com um pouco de Basil Rathbone, algo de Peter Cushing, muito de Jeremy Brent, também de Robert Stephens ou Nicol Williamson, agora até de Robert Downey Jr. É, pois, um retrato estranho, uma espécie de puzzle que combina na memória rostos e silhuetas diferentes, mas que todas elas asseguram a individualidade de um ser. Sherlock Holmes existiu mesmo.

2. UMA CRIAÇÃO DE CONAN DOYLE

Dizem os factos, para lá da lenda, que Sherlock Holmes é uma criação de Sir Arthur Conan Doyle, médico e escritor, que apareceu pela primeira vez no romance “A Study in Scarlet” (Um Estudo em Vermelho), publicado originalmente na revista “Beeton's Christmas Annual”, em Novembro de 1887. Holmes não teve biografia traçada desde início, mas foi amealhando currículo ao longo da série de novelas, contos e romances que se lhe seguiram. Curiosamente, sabe-se que não era para ser assim chamado, pois existem rascunhos de um outro nome para a personagem: Sherringford Holmes.
O que se sabe, desde logo, é que Sherlock Holmes viveu em Londres, entre os anos 1881 e 1903, portanto nos derradeiros anos do período vitoriano, num apartamento no nº 221B, de Baker Street (onde, presentemente, se encontra instalado um museu dedicado a Sherlock Holmes). Dividiu, durante largo tempo, esse apartamento com um amigo e colega médico, o Dr. John H. Watson, recém-chegado do Afeganistão. Essa amizade de convívio diário, transforma Watson num companheiro de aventuras e no biógrafo encartado de Holmes.
Conan Doyle admitiu que a inspiração para a criação desta figura que rapidamente se tornaria lendária, a foi buscar a um seu professor de medicina, o Dr. Joseph Bell (1837-1911), um cirurgião de Edimburgo, que tinha excelentes capacidades dedutivas e era capaz de descobrir imensos aspectos da vida e dos hábitos dos seus pacientes. O Dr. Joseph Bell terá inspirado não só a criação da personalidade, mas até alguns aspectos físicos da figura do detective. Num texto publicado no periódico “The National Weekly”, em 1923, Doyle recorda os tempos passados na faculdade de medicina, e como iniciou então o processo de criação da sua célebre personagem. Ao descrever o seu professor Bell, afirma: “Era magro, vigoroso, com rosto agudo, nariz aquilino, olhos cinzentos penetrantes, ombros reptos e um jeito sacudido de andar. A voz era esganiçada. Era um cirurgião muito capaz, mas o seu ponto forte era o diagnóstico, não só das doenças, mas das ocupações e da personalidade dos doentes." Dr. Joseph Bell parece ter negado ser a fonte inspirativa e tomou mesmo a comparação como pejorativa – não se considerava arrogante.
Sherlock Holmes descreve-se a si mesmo como um "detective consultor". Diz: “Tenho um ofício próprio. Suponho que sou o único no mundo. Sou um detective consultor”. Não tinha realmente muita simpatia pelos detectives particulares que iam à procura de casos e clientes. Pode considerar-se um certo pretensiosismo da sua parte, uma jactância social. Não fazia parte da sua índole descer tão baixo. Não precisava. Não ia à procura de casos, esperava que eles viessem ter a si. Esperava-os no seu salão de Baker Street, folheando jornais, fumando tabaco em cachimbo ou drogando-se com cocaína (esta só seria proibida em 1930). Tocava violino ou aborrecia-se de morte em tempos de ociosidade. Era capaz de trabalhar dias e noites, sem comer nem dormir, quando se encontrava envolvido nalgum caso mais melindroso. Bastava, como nos conta Conan Doyle, recuperando os cadernos de apontamentos de Watson, ver entrar pela porta dentro uma mulher em desespero ou um homem em perigo de morte e olhar-lhe para os sapatos, a cor dos olhos, as manchas do casaco, o vestido amarrotado, para desatar a enumerar um infindável número de “evidências” que deixavam atónitos todos os circundantes. Doyle assegura que Holmes é capaz de resolver os mais complexos problemas sem sair do seu apartamento. Mas muitas vezes desloca-se ao local do crime, e não poucas vezes vê-se envolvido em episódios violentos.
Em todos os casos, a dedução é a base da sua estratégia alicerçada numa forte faculdade de observação dos mais pequenos sintomas ou pormenores. Senhor de uma vastíssima cultura geral, sobretudo científica, que é conveniente não indagar de onde lhe vem (certamente de dezenas de anos de estudo), Holmes identifica um aroma, um perfume, um cheiro, a marca de um tabaco, os vestígios de umas cinzas, a origem de um pedaço de terra, a textura de um pó. Estudou química e física, além de medicina, e não raro faz experiências, nem todas bem sucedidas. Mas no final acabarão por se tornar especialmente úteis. De vez em quando desaparece no nevoeiro londrino para reaparecer não se sabe como, disfarçado das mais diversas formas, para levar a bom porto as suas investigações, que, não raro, exigem dele o manejo da espada, ou mesmo umas boas cenas de pugilismo (Watson assevera mesmo que teria dado um bom pugilista profissional). Essa sua faceta de actor que lhe permitia o disfarce exemplar colheu-a certamente durante alguns meses como intérprete, na sua juventude, chegando a integrar o elenco de peças como “Hamlet”. Entre os disfarces mais conhecidos e relatados por Watson, contam-se alguns vagabundos, um velho bibliógrafo, um venerável padre italiano, uma velha senhora, um marinheiro, o capitão Basil, muito conhecido no East End, um fumador de ópio, um canalizador libertino de nome Escott, um operário francês mal barbeado, um espião irlando-americano, um oficial de marinha asmático, um clérigo não conformista, simplório e amável, um criado de quarto, dado à bebida, etc.
3. UMA CRONOLOGIA
Sherlock Holmes não teve existência física, nasceu da pena de um inspirado escritor, mas ao longo das suas aventuras pode inventariar-se uma história passada: terá nascido a 6 de Janeiro de 1854, ao norte de Yorshire, filho de um agricultor e de uma mãe de origem francesa, dado que a avó era filha do pintor Horace Vernet. É o próprio detective quem confidencia a Watson: “Os meus antepassados eram fidalgos de província que parecem ter levado o tipo de vida próprio de pessoas da sua classe social.”
6 de Janeiro de 1854? Obviamente que esta data de nascimento é calculada, com base em referências surgidas em obras que relatam as suas aventuras, pois não há nenhuma menção precisa. Entre 1852 e 1867 várias foram as hipóteses aventadas, mas a que reúne maior consenso é a de 1854. No conto “O Mistério do Vale Boscombe”, que se desenrola em Junho de 1889, Holmes descreve-se como um homem de "meia-idade”, o que na altura quereria dizer de cerca de 35 anos. Em “His Last Bow“, de 1914, Watson descreve Holmes como alguém de sessenta anos. Ambas as referências apontam para 1854.
Quanto ao dia e ao mês, as divagações não são menores. Em “O Vale do Terror”, há uma referência a um dia 7 de Janeiro, e Watson pergunta-se se o amigo terá festejado o seu aniversário na véspera. Logo, “elementar, meu caro Watson”... (frase que Conan Doyle nunca terá escrito!). Elementar? Nada disso. Nick Rennison, na sua recente “biografia não autorizada”, “Sherlock Holmes”, opta por uma outra data, 27 de Junho de 1854, para o nascimento de William Sherlock Holmes (1).
Tinha um irmão mais velho, Mycroft, que trabalhava para o serviço secreto inglês. É Holmes quem afirma que o irmão é muito superior a si em observação e dedução. Numa das suas aventuras, Holmes encontra-se com Mycroft, em frente do Diogenes Club, o clube onde o irmão passava os tempos livres, e os dois mantêm um diálogo repleto de deduções, cada uma mais bizarra que a outra, sobre um transeunte que se atravessa no seu caminho, conjecturas que deixam Watson profundamente intrigado e estupefacto.
Segundo o “Canon” de Sherlock Holmes (isto é, a globalidade das obras escritas realmente por Conan Doyle, excluindo todas as sequelas e derivações posteriores, assinadas por outros autores, que se inspiraram nas personagens e lhe deram continuação, e foram algumas), é possível estabelecer alguma cronologia para a vida do popular detective. Assim, por exemplo, dando crédito a uma cronologia estabelecida por Thierry Saint-Joanis (2), em 1877, Holmes instala-se como detective privado; em 1878, Watson obtém o seu diploma de médico na universidade de Londres, torna-se cirurgião e é incorporado no 5º Regimento de Fuzileiros de Northumberland; em 27 de Julho de 1880, inicia-se a segunda guerra do Afeganistão, Watson participa na batalha de Maïwand onde é ferido. Convalescença e regresso a Inglaterra com uma curta pensão.
Em 1881, um amigo comum apresenta Holmes a Watson e os dois decidem partilhar o aluguer de um apartamento em Baker Street, em Londres. “Um Estudo em Vermelho” é o primeiro caso que ambos resolvem. Seis anos mais tarde, em 1887, Watson vem em socorro do seu amigo, gravemente doente, em Lyon, durante o caso dos proprietários de Reigate. Voltam para Londres, onde os espera o caso do “Signo dos Quatro”, durante o qual Watson encontra Mary Morstan, com quem irá casar.
Em 1889, Holmes afirma ter completado mais de quinhentos inquéritos importantes desde o início da sua carreira. Em 1891, duplica. No dia 4 de Maio desse mesmo ano, Sherlock Holmes desaparece nas cataratas de Reichenbach, perto de Meiringen, na Suíça (episódio relatado em “The Adventure of the Final Problem”), quando lutava corpo a corpo com o professor James Moriarty, arqui-rival e génio do crime. Para os leitores é dado como morto.
Este período, entre 1891 a 1893, compreendido entre a "morte" e a "ressurreição" do detective, é conhecido pelos sherlockianos como o grande hiato (The Great Hiatus). Curiosamente, "O caso da Vila Glicínia" (The Adventure of Wisteria Lodge) é datado pelo Dr. Watson como ocorrido no ano de 1892. Sabe-se depois que, nesse grande hiato, o detective viaja incógnito pelo Tibete e a Pérsia, visita a Meca, espia em Cartum para o Foreign Office, depois regressa por Montpellier, onde faz pesquisas. Durante este período, em Londres, Watson, que acredita que o amigo morreu na Suíça, perde também a sua jovem e muito amada mulher.
Interessante aprofundar as razões do desaparecimento do detective. Arthur Conan Doyle quis realmente fazer desaparecer a sua personagem, interessado em explorar outros temas, aspirando a mudanças na sua obra literária. Julgava “The Adventure of the Final Problem” um final apropriado para o seu famoso detective que, finalmente, encontrava e vencia, ainda que à custa da própria vida, um adversário à altura, Moriarty.
Durante dez anos, Doyle volta-se para outras paisagens e outros personagens, e não se entrega a Sherlock Holmes a não ser em 1902, quando redige “O Cão dos Baskerville”, para satisfazer as imperiosas necessidades do seu público. Mas este não se sacia e quer mais. Os editores também querem e, em 1903, perante uma oferta irrecusável de direitos autorais, retorna com “O Regresso de Sherlock Holmes”. Holmes retoma oficialmente o seu trabalho com o “Caso da Casa Vazia”, onde captura o coronel Moran, último membro da organização de Moriarty. A República Francesa agracia-o com a Legião de Honra por ter preso Huret, o “assassino do boulevard”. Em 1895, será a Rainha Vitória a recompensá-lo com uma esmerada incrustada num alfinete de gravata pelo seu triunfo em “Os Planos do Submarino Bruce-Partington”.
Em 1897, para evitar a depressão, repousa. Confia a Watson que nunca amou, o que arruma assim sumariamente a sua questão com as mulheres (a única por quem terá sentido alguma atracção terá sido Irene Adler). Em Junho de 1902 recusa o título de Cavaleiro que o Rei lhe procura atribuir. No ano seguinte, Watson casa pela segunda vez e retoma a sua actividade de médico. A 6 de Janeiro de 1904, Holmes reforma-se e retira-se para uma herdade em Sussex, onde passa a dedicar-se à apicultura. Escreve mesmo um ensaio sobre o tema.
A 2 de Agosto de 1914, depois de dois anos de espionagem nos EUA, na Irlanda e em Inglaterra, Holmes reencontra Watson para prenderem um agente alemão, no início da Primeira Guerra Mundial. A seguir o mundo não voltará a ouvir falar de Sherlock Holmes e de John Watson. Esta foi a sua derradeira aventura.
Sherlock Holmes é portador de uma personalidade singular e perturbante, que faz dele certamente um ícone. Aparentemente sem defeitos e com enormes virtudes, culto e sabedor, mesmo erudito, é todavia arrogante, convencido e pretensioso, não raro de uma inteligência fria, optando quase sempre por ser racional em lugar de emocional. Faz justiça pelas próprias mãos, no que se julga deus, deixa em liberdade alguns criminosos, executa outros, ironiza com as poucas faculdades do inspector Lestrade, da Scotland Yard, que deixa sempre para trás e em dificuldades de raciocínio. Não é muito dado a práticas violentas, mas foi sensação no boxe, e alguns asseguravam-lhe um bom futuro na profissão, assim como, paradoxalmente, poderia ter sido um exímio executante musical, o que recorda amiúde com o seu violino.


4. AS OBRAS DE SIR ARTHUR CONAN DOYLE
As obras de Sir Arthur Conan Doyle, dedicadas a Sherlock Holmes são:
Um Estudo em Vermelho (A Study in Scarlet), romance (1887),
O Signo dos Quatro (The Sign of the Four), romance (1890)
O Cão dos Baskervilles (The Hound of the Baskervilles), romance (1902)
O Vale do Terror (The Valley of Fear), romance (1915)
E ainda:
As Aventuras de Sherlock Holmes (The Adventures of Sherlock Holmes), série de 12 contos (1892)
Memórias de Sherlock Holmes (The Memoirs of Sherlock Holmes), série de 11 contos (1894)
O Regresso de Sherlock Holmes (The Return of Sherlock Holmes), série de 13 contos (1905)
O Último Adeus de Sherlock Holmes (His Last Bow), série de 8 contos (1917)
Os Casos de Sherlock Holmes (The Case-Book of Sherlock Holmes), série de 12 contos (1927)
Mas Conan Doyle dedicou-se ainda como escritor a muitas outras áreas. Temos, por exemplo, a série dedicada ao Professor Challenger, com alguns romances:
O Mundo Perdido (The Lost World) (1912)
A Cintura de Veneno (The Poison Belt) (1913)
A Terra das Brumas (The Land of Mist) (1926)
Quando o Mundo Gritou (When the World Screamed) (1928)
A Máquina de Desintegração (The Disintegration Machine) (1929)

Outros romances:
Micah Clarke (Micah Clarke) (1888)
A Companhia Branca (The White Company) (1891)
Os Refugiados – Uma História de Dois Continentes (The Refugees – A Tale of two Continents)
Sir Nigel (1906)
J. Habakuk Jephson's Statement (1884)
The Mystery of Cloomber (1889)
The Firm of Girdlestone (1890)
The Parasite (1894)
Rodney Stone (1896)
The Exploits of Brigadier Gerard (1903)
The Maracot Deep (1929)
Nota: As obras de Arthur Conan Doyle estão editadas em português por diversas editoras, Publicações Europa-América, Livros do Brasil, mais recentemente, em 2009, pela Global Noticias (Colecção Sherlock Holmes, em 12 caprichados pequenos volumes).

5. SIDNEY PAGET E FREDERICK DORR STEELE
Quase todas as histórias de Sherlock Holmes apareceram inicialmente publicadas na mais importante revista literária inglesa dessa época, a “The Strand Magazine”. A capa era quase sempre ocupada por uma ilustração relativa a uma história com a assinatura de Conan Doyle e, no interior, surgiam pequenas ilustração quase sempre da autoria de Sidney Paget, que assim deu corpo e forma às personagens de Sherlock Holmes e Watson, moldando-as para sempre no imaginário colectivo. Sidney Paget, que começou a desenhar muito cedo, estudou no British Museum durante dois anos, e depois na Heatherley's School of Art, e na Royal Academy Schools, era o irmão do meio de uma talentosa ninhada de três, o mais famoso dos quais, Walter Paget, era igualmente ilustrador. Diz a lenda que era para este que deveria ter sido endereçado o convite para ilustrar "Adventures of Sherlock Holmes", mas a carta foi cair nas mãos de Sidney que aproveitou a oportunidade que não mais largou. Segundo a lenda teria sido o irmão Walter a servir de modelo para a figura de Sherlock Holmes, mas nada se sabe de certo. Os estudiosos atribuem a Sidney Paget a invenção do chapéu de caçador de veados (dito “Deerstalker” e mais tarde conhecido como chapéu de detective por associação com Sherlock Holmes) e a capa de inverno, elementos que não são referidos nos textos de Conana Doyle. Quando Sidney morreu, depois de ter desenhado 356 ilustrações para Sherlock Holmes, Walter Paget ilustrou finalmente uma história.
Entretanto, na América, as aventuras de Conan Doyle começaram igualmente a ser publicadas na “Collier's Weekly”, a partir de 1903, sendo ilustradas por Frederic Dorr Steele. Descendente de William Bradford, Frederic era natural do Michigan, estudou na National Academy of Design e depois em New York City, tornando-se um ds desenhadores do The Illustrated American, passando depois a “freelance”, tanto na “Scribner's Magazine” como na “Collier's Weekly”, onde foi convidado a ilustara “The Return of Sherlock Holmes”. Para Frederic Dorr Steele, o modelo que escolheu para Sherock Holmes foi colhê-lo a William Gillette, actor. Parece ter sido Frederic a criar a dependência do cachimbo, baseano-se precisamente na criação teatral de Gillete.
O excelente Frederic Dorr Steele, muito mais moderno e cosmopolita que Sidney Paget, e que utilizava uma leve coloração nas suas obras (ao contrário de Sidney Paget que preferia o preto e branco nuanceado), trabalhou ainda no “The Century Magazine”, “McClure's”, “The American Magazine”, “Metropolitan Magazine”, “Woman’s Home Companion” e “Everybody’s Magazine”.
Estas ilustrações de Sidney Paget e Frederic Dorr Steele tornaram-se raridades vendidas e compradas em leilões a preços invulgares. O original de Paget que captou e imortalizou a luta de Holmes e Moriarty nas cataratas de Reichenbach foi vendido, num leilão da Sotheby, em Nova Iorque, por 220.000 dólares, em 16 de Novembro de 2004.

sábado, janeiro 02, 2010

CINEMA: UM CONTO DE NATAL

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UM CONTO DE NATAL


Charles Dickens deverá ser dos escritores que conta com mais adaptações de obras suas ao cinema. “Oliver Twist”, “As Grandes Esperanças” e “Um Conto de Natal” devem ser dos títulos mais repetidos na filmografia mundial. Obviamente que as cinematografias anglo saxónicas levam a dianteira, mas há versões para todos os gostos e pronúncias. Do Brasil ao Japão, à China, de Espanha a França. São obras que dizem respeito a todos e que todos compreendem, são personagens e situações que, muito embora referidas a um tempo e local específicos (a Inglaterra, no início do industrialização, em pleno século XIX), fazem parte do imaginário colectivo humano. Dickens fala-nos dos mais mesquinhos vícios do Homem e contrapõe-lhes as mais solidárias e fraternas virtudes deste mesmo ser tão contraditório, e deste confronto saíram obras que, adaptadas regularmente ao ecrã, satisfazem o sentido de justiça e de generosidade das plateias de todo o mundo, que se sentem tocadas por esse ímpeto justiceiro que fica sobretudo muito bem numa quadra como a do Natal.
Esta versão de Robert Zemeckis é particularmente inspirada nalguns aspectos. A reconstituição dos ambientes e das personagens é brilhante (há que sublinhar o excepcional design de produção de Doug Chiang, inspirando-se em gravuras da época e sobretudo nas ilustrações de John Leech que acompanhavam a edição original do texto de Dickens), a fidelidade ao texto de Dickens só a valoriza, e o tipo de espectáculo escolhido, esta mistura entre imagem real e desenho animado (os actores servem de base para a criação da animação) funciona muito bem. Dickens, sobretudo neste Conto de Natal, oferece-nos, não direi estereótipos, mas personagens-símbolo, que representam defeitos e virtudes humanas. Por isso, este recurso a figuras que ultrapassam o seu próprio recorte pessoal e se assumem como símbolos da Humanidade parece-me excelente. O desenho sobre o rosto dos actores confere-lhe uma máscara que ultrapassa o homem, o indivíduo, e se assume como “exemplo”.
A esta técnica chama-se “motion capture”, ou “performance capture”, segundo a designação do próprio Zemeckis. Aliás, foi este cineasta o primeiro a utilizar esta técnica numa longa-metragem, precisamente em “The Polar Express”, depois de ter sido desenvolvida nalguns vídeo-jogos e certas sequências de filmes. Robert Zemeckis é um realizador que gosta de descobrir e utilizar inovações técnicas e muitos dos seus títulos o demonstram (“Forrest Gump”, por exemplo, e a combinação de animação e imagem real em “Who Framed Roger Rabbit”). Em 2006 produziu “Monster House” que desenvolvia a técnica e logo a seguir dirigiu “Beowulf” com o mesmo processo.
O Ebenezer Scrooge de Jim Carey é uma consequência de novos aperfeiçoamentos e o resultado ajusta-se precisamente à criação de Dickens, datada de 1843. Scrooge é um velho sinistro, egoísta, mesquinho, solitário. Um agiota sem escrúpulos, um patrão sem alma, um ser que repudia a família, um individuo sem qualquer ressonância humana. Explora o empregado Bob Cratchit (Gary Oldman), recusa qualquer cêntimo às obras de caridade, não se associa às manifestações de boa vontade do sobrinho Fred (Colin Firth), prefere dormir sozinho enroscado sobre a sua avareza. Até ao dia em que o fantasma de seu falecido sócio Marley (outra vez Gary Oldman) o visita para lhe declarar que vai ser visitado pelos fantasmas de três Natais (Passados, Presente e Futuro), assegurando que esta será a derradeira hipótese de se salvar. Depois de uma noite de pesadelos, descobre que afinal a vida é outra coisa e está a passar-lhe à porta, sem saborear dela o melhor que ela lhe poderia dar. E regenera-se. Redime-se.
Jim Carey descobre-se por detrás de várias outras personagens e o resultado é notável. De plausibilidade. De expressividade. Todas as outras interpretações adquirem igualmente particular relevo, casos de Gary Oldman, Colin Firth, Robin Wright Penn, Bob Hoskins, Cary Elwes ou Fionnula Flanagan.
Até aqui tudo bem. Falta o resto.
Agora vejamos uma nova invenção que está a revolucionar (ou a tentar revolucionar) o cinema norte-americano – as 3D, com as quais os grandes estúdios procuram recuperar os espectadores perdidos das salas de cinema e os direitos autorais “roubados” pelos downloads dos piratas cibernéticos. Os filmes em 3 dimensões só podem ser admirados em toda a sua espectacularidade nas salas de cinema. E, portanto, também não podem ser roubados na Net. Por isso se avança abertamente neste sistema. Que tem efeitos interessantes, mas que, pelo menos por agora, não deixa de ser vítima da sua própria necessidade de “épater le bourgeois”. Os filmes enfermam por isso desse esforço desmedido de demonstrar as virtualidades das 3D. Os filmes são rodados em perspectivas estranhas, os objectos movimentam-se de forma invulgar, tudo se projecta de encontro ao espectador sem qualquer necessidade intrínseca e o resultado final é, por isso, um pouco frustrante. Em “Um Conto de Natal”, para lá de todos estes efeitos, há longos, longuíssimos “travellings” por sobre a cidade de Londres que nem sempre se justificam, a não ser para se dar essa sensação de vertigem que os 3D permitem. Quando este espírito feirante de novo-rico passar, estas técnicas poderão ser bem interessantes e enriquecerem a linguagem cinematográfica. Até lá, esperemos.
Mas não quero com isto dizer que “Um Conto de Natal” não seja uma obra absolutamente a ver, por todas as suas virtudes, nomeadamente pelo tom soturno e sombrio em que decorre e que brota genuinamente da iluminada escrita de Dickens. O que se lamenta apenas são algumas piruetas de câmara que cortam cerce as hipóteses deste filme ser uma pequena obra-prima de um novo estilo.
UM CONTO DE NATAL
Título original: A Christmas Carol
Realização: Robert Zemeckis (EUA, 2009); Argumento: Robert Zemeckis, segundo romance de Charles Dickens; Produção: Katherine C. Concepcion, Jack Rapke, Mark L. Rosen, Heather Smith, Steve Starkey, Peter M. Tobyansen, Robert Zemeckis; Música: Alan Silvestri; Fotografia (cor): Robert Presley; Montagem: Jeremiah O'Driscoll; Casting: Scot Boland, Victoria Burrows, Nina Gold; Design de produção: Doug Chiang; Direcção artística: Marc Gabbana, Norman Newberry, Mike Stassi; Decoração: Karen O'Hara; Maquilhagem: Bill Corso, Ryan McDowell, Tegan Taylor; Direcção de Produção: Wendy Berry, Brian Brecht, Kristen D. Chidel, Robert Keyghobad; Assistentes de realização: Gregory J. Pawlik Jr., Jeffrey Schwartz, David H. Venghaus Jr.; Departamento de arte: Julie Beattie, Michael C. Biddle, Lawson Brown, Andrea Cárter, David Chow, Colin Fix, Will Grant, Richard F. Mays, David Moreau, Dermot Power, Andrew Reeder, Roel Robles, Emmanuel Shiu, Joshua Viers, John Villarino, Tova Weinberg; Som: Dennis Leonard, Randy Thom; Efeitos especiais: Robert Calvert, Robert Cole, Donald Elliott, Michael Lantieri, Bob Mano; Efeitos visuais: Jason Brown, Michael Clemens, Ben Hadden, Sunghwan Hong, Erin King, George Murphy, Zoe Aimee Zaitzeff, Brandon Foster; Animação: Jimmy Almeida, Michael Corcoran, Christian Kubsch, David Shirk; Companhias de produção: Walt Disney Pictures, ImageMovers; Intérpretes: Jim Carrey (Scrooge, Scrooge como rapazinho, jovem, adolescente, homem de meia idade, fantasma do passado, do presente e do futuro), Gary Oldman, Colin Firth, Robin Wright Penn, Bob Hoskins, Steve Valentine, Daryl Sabara, Sage Ryan, Amber Gainey Meade, Ryan Ochoa, Bobbi Page, Ron Bottitta, Sammi Hanratty, Julian Holloway, Cary Elwes, Jacquie Barnbrook, Lesley Manville, Molly C. Quinn, Fay Masterson, Leslie Zemeckis, Paul Blackthorne, Michael Hyland, Kerry Hoyt, Julene Renee, Fionnula Flanagan, Raymond Ochoa, Callum Blue, Matthew Henerson, Aaron Rapke, Sonje Fortag, John Todd, etc. Duração: 98 minutos; Distribuição em Portugal: Zon Lusomundo Audiovisuais; Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal: 19 de Novembro de 2009.

quarta-feira, dezembro 30, 2009

FELIZ "2010: ANO DO CONTACTO"

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Em 1984, Peter Hyams realizou “2010: The Year We Make Contact” (que em Portugal se chamou “2010: O Ano do Contacto”), com argumento retirado de um romance de Arthur C. Clarke (o mesmo que havia escrito “2001:Uma Odisseia no Espaço”, de que “2010” pretendia ser uma sequela). Entre os actores estavam Roy Scheider, John Lithgow, Helen Mirren, Bob Balaban e Keir Dullea.
Nove anos depois da infausta missão da nave “Discovery”, “perdida” na proximidade de Júpiter, provocando a morte de toda a tripulação, “assassinada” pelo computador Hal 9000, os EUA e a URSS enviam uma equipa mista, numa nave de nome “Leonov”, com o intuito de descobrir o que teria acontecido à “Discovery” e deslindar os segredos do célebre monólito negro que aparecia no filme de Kubrick. O que ignoram é que estão também muito próximos de encontrar algumas das respostas para os mais profundos mistérios da Humanidade. Este o tema de “2010”, o “ano do contacto”. Não era uma obra-prima como “2001”, mas era um filme interessante.

Cá estamos, com 2010 à porta. Faltam algumas horas. O que se deseja é que ele seja realmente o “ano do contacto” entre os povos da Terra, um contacto solitário e fraterno, de mútuo respeito. Um contacto amigo e digno. Feito de amizade e de amor. Feito sobretudo de Humanidade.
É o que desejo para mim, para os meus familiares, para os amigos de longa ou curta data, para todos “os homens e mulheres de boa vontade”. Aqui ficam, portanto, com uma imagem de cinema, os melhores votos de Boas Entradas em 2010 e que este seja o melhor ano das nossas vidas e o primeiro de um longo futuro repleto de bons sonhos concretizados.

Nota singular: Stanley Kubrick, realizador de “2001”, faleceu em Março de 1999, dois anos antes da data referida no seu filme. Arthur C. Clarke, escritor de “2001” e “2010”, morreu em Março de 2008, dois anos antes da data mencionada no seu segundo romance desta saga. Nenhum deles chegou, portanto, a ver o ano das suas previsões. Apenas uma curiosidade.

terça-feira, dezembro 29, 2009

CINEMA: CAPITALISMO: UMA HISTÓRIA DE AMOR

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CAPITALISMO: UMA HISTÓRIA DE AMOR

Michael Moore começa por ser um tipo curioso. Um verdadeiro self made man, um típico individualista americano, um justiceiro daqueles que investe contra a cidade em nome da justiça e dos princípios. Lembram-se de Gary Cooper, em “O Comboio Apitou Três Vezes”? é parecido, ainda que Gary Cooper fosse mais elegante e os seus olhos nunca oferecessem o menor vestígio de não estar a lutar por uma honrada causa. Mas a verdade é que Michael Moore é o puro herói americano, neste filme é mais o James Stewart de “Peço a Palavra”, com o elogio a Roosevelt e tudo o mais. Não há neste americano vestígios de “perigoso comunista” ou de suicida anarquista. O que Michael Moore quer é redimir a América onde vive e onde quer continuar a viver. Segundo os sólidos valores da fundação da nação. Não pode ser mais claro quando afirma: “I refuse to live in a country like this, and I'm not leaving” (recuso-me a viver num país como este e não me vou embora). Ou seja: eu fico, o país é que terá de mudar. Em quê?
Depois da sua longa metragem de estreia, “Roger and Me”, sobre a sua cidade natal, Flint, e a falência da GM local, depois de se ter atirado como gato a bofe contra a violência quotidiana e a venda de armas, em “Bowling for Columbine”, contra a politica Bush, em “Fahrenheit 9/11”, contra (a inexistência) do sistema de saúde norte americano, em “Sicko”, Michael Moore vai direito ao coração do problema: Wall Street, a banca, a economia norte americana de um capitalismo desenfreado e selvagem que, segundo Moore, campeia desde Reagan, quando a aliança entre capital e poder político se começou a tornar mais insidiosa, até culminar em plena era Bush.
O seu filme arranca de forma magnífica, com uma montagem que mescla imagens do império romano e do império americano. Fala–se de um, vêem-se imagem de um e do outro, indiferenciadamente, e o resultado é acutilante e divertido (ok, também é um pouco demagógico, mas não vem mal ao mundo por isso, é “obviamente” demagógico). Depois vem uma demonstração pedagógica sobre os perigos do capitalismo selvagem e da forma como este se afastou dos ideais da democracia. Muitos sobrepõem os significados de democracia e capitalismo e Michael Moore mostra como estão intrinsecamente errados. Nada a ver. Os ínvios caminhos do capitalismo que gerou a monstruosa crise económica e financeira de 2007 (como já havia criado a de 1927) nada têm a ver com a substância da democracia. Num lado temos a ganância do lucro que ronda o roubo descarado (por isso Michael Moore veda o terreno da Bolsa de Nova Iorque com a fita amarela que isola os locais dos crimes, e arroga-se no direito de ir prender os criminosos, de megafone em punho), do outro lado homens que lutam por princípios bem diferentes (de Franklin Roosevelt a Obama, nitidamente nomes de referência no ideário de Moore). No meio, milhões de cidadãos, mais ou menos indefesos, que tentam lutar por uma sobrevivência condigna, numa sociedade que continuamente os (e nos) surpreende. Vários são os casos indicados no filme de abusos legais e práticas irregulares que tornam incompreensível a “democracia” norte-americana (que curiosamente apresenta algumas vantagens como, por exemplo, a de ser dos únicos países a permitir que filmes como estes se produzam e realizem e estreiem no seu interior).
Bancos falidos por patifarias praticadas por gestores que são auxiliados pelo erário público, enquanto os cidadãos depositantes são ignorados, são alguns. Bancos falidos que levam ao desespero quem neles confiou, são às dezenas. Empresas que seguram em proveito próprio os empregados, e que lucram milhões com as suas mortes, eis uma prática altamente inventiva mas um pouco imoral, não acham? Mas a verdade é que tudo serve para que o lucro cresça de forma exponencial. O mais facilmente possível. Com rapidez. Para os gestores receberem “prémios” astronómicos e ordenados principescos e o comum dos mortais não passar de isso mesmo, um comum mortal.
A crise entre capital e trabalho agudiza-se então, mas a análise não vai no sentido das teorias de Marx e Lenine, mas mais da igreja católica que toma posição por diversas vezes ao longo do filme e dá a cara para se colocar ao lado dos pobres e dos trabalhadores, afirmando mesmo que Jesus não estaria certamente satisfeito com as práticas capitalistas actuais.
Michael Moore tem uma forma de actuar muito própria. Realmente existe alguma manipulação na estrutura narrativa dos seus documentários. Mas, como é sabido, toda a narração é manipulação. Resta analisar de que forma ela se processa. Acontece, porém, que a sua é uma manipulação não direi inocente, mas “naïf”. É uma manipulação com os cordelinhos à vista de todos. Há quem afirme que a montagem dos filmes de Michael Moore é excelente, acusando-os depois de demagógicos e manipuladores. Ora uma montagem só é “excelente” quando for excelente ao serviço de uma ideia. Não há montagens excelentes em abstracto. A montagem dos trabalhos de Michael Moore é realmente minuciosa, trabalhada, inventiva, dialéctica. Ao serviço de uma estratégia. É essa estratégia, com algo de demagógico sim, muito de manipulador, é verdade, que faz ou não o interesse dos filmes deste cineasta que consegue ter audiências mundiais para os seus documentários tão numerosas como muitos filmes de ficção. Michael Moore é, pois, um documentarista popular. Pelos processos que usa, que o aproximam do espectador tipo, e por ser realmente uma personalidade incómoda. O público sente que é necessário que existam obras como as suas para agitar as águas e provocar polémica. E, já agora, para tentar mudar o estado a que se chegou.
CAPITALISMO: UMA HISTÓRIA DE AMOR
Título original: Capitalism: A Love Story
Realização: Michael Moore (EUA, 2009); Argumento: Michael Moore; Produção: Anne Moore, Michael Moore, Tia Lessin, Carl Deal, Cory Fisher, Kathleen Glynn, Basel Hamdan, Jennifer Latham, Pearl Lieberman, Kristen Vaurio, Eric Weinrib, Bob Weinstein, Harvey Weinstein; Música: Jeff Gibbs; Fotografia (cor): Daniel Marracino, Jayme Roy; Montagem: Jessica Brunetto, Alex Meillier, Tanya Meillier, Conor O'Neill, Pablo Proenza, Todd Woody Richman, John W. Walter: Direcção de Produção: Riva Marker; Som: Francisco La Torre, Mark Roy, Hilary Stewart; Efeitos visuais: Stefano De Gennaro; Robert A. Morris; Agradecimentos a Joan Baez, Louis C.K., Jeff Garlin, Iggy Pop; Companhias de produção: Overture Films, Paramount Vantage, The Weinstein Company, Dog Eat Dog Films; Intérpretes: Michael Moore, Thora Birch, William Black, Baron Hill, Marcy Kaptur, Congressista Elijah Cummings, Wallace Shawn, Elizabeth Warren, e ainda em imagens de arquivo Jimmy Carter, John McCain, Sarah Palin, Ronald Reagan, Franklin Delano Roosevelt, Arnold Schwarzenegger, George W. Bush, Nancy Davis, Martin Luther King, Helmut Kohl, Bela Lugosi, Barack Obama, Robert Powell, Joseph Stalin, etc. Duração: 127 minutos; Distribuição em Portugal: EcoFilmes; Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal: 26 de Novembro de 2009.

segunda-feira, dezembro 28, 2009

CINEMA: TETRO

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TETRO

Ao que parece, Francis Ford Coppola terá dito que “Tetro” é “o seu filme mais pessoal.”
- Autobiográfico?, terão perguntado depois.
Coppola: "Nada é verdade, mas tudo aconteceu realmente".
Não custa a acreditar que assim tenha sido, ainda que se esta foi uma obra assim tão especialmente pessoal, toda a filmografia de Coppola a terá sido igualmente, mesmo que umas vezes em maior, outras em menor grau. Mas o cinema de Coppola foi sempre um cinema de autor e um cinema nitidamente “pessoal”.
Coppola tem sido o cineasta da família. Aliás, conclusão curiosa, quase todos os cineastas ítalo-americanos se mostram particularmente sensíveis a este tema, quer sejam Martin Scorsese, Abel Ferrara ou tantos outros, mas F.F. Coppola é notoriamente o patrono desta temática (basta reparar nos seus títulos mais emblemáticos, a começar pela trilogia “O Padrinho”, que não é senão uma vigorosa análise do conceito de família e de patriarca, nos seus significados mais amplos).
A família como célula social essencial a uma determinada ordem apresenta aspectos positivos e outros negativos. “O Padrinho” é bem sintomático dos dois aspectos, sublinhando não só o lado mafioso, quando a família se defende colectivamente pelo crime, perante o crime, como o lado fraterno e solidário. A família está muitas vezes inquinada pela prepotência de um chefe. Normalmente, o patriarca, mas também pode ser a matriarca. Ou outro qualquer elemento da família. Nos casos de “O Padrinho” e de “Tetro”, é o pai essa figura tutelar que paira mais ou menos impune sobre os restantes membros do clã.
Em “Tetro”, um dos filhos de um compositor célebre revolta-se contra a presença obsessiva do pai que comanda com mão de ferro os destinos da família e se mostra profundamente egocêntrico. Não será pura retórica relembrar-se aqui Carmine Coppola, pai de Francis Ford Coppola. Compositor. Não será igualmente despiciente recordar que Carmine Coppola (o autor das bandas sonoras de “O Padrinho”, I, II e III e de “Apocalipse Now”), nascido em Nova Iorque de família ítalo-americana, tinha um irmão, igualmente músico, o maestro Anton Coppola. Foi pai de August Coppola, Francis Ford Coppola e Talia Shire e avô de Nicolas Cage, Roman Coppola, Sofia Coppola, Jason Schwartzman e Robert Schwartzman. Repare-se ainda como Francis Ford Coppola tem colaborado e amparado, e sustentado, vários membros deste enorme clã, que vai do pai à filha, da irmã ao sobrinho. Ele é, possivelmente, o novo “godfather”, aquele que poderá ter razões de queixa da família, mas não a desampara.
O drama de Tetro (Vincent Gallo), o protagonista, que assim se chama para se afastar do seu nome de família, Angie Tetrocini, mas de que, sintomaticamente, conserva uma raiz, é precisamente essa ambiguidade frente à sua família, família de que se afastou mas que continua a amar e onde gostaria de estar integrado e feliz. Mas a figura do pai Carlo Tetrosini (Klaus Maria Brandauer), omnipresente e possessivo, leva-o a afastar-se e a tornar-se num ser quase associal, pelo menos no plano familiar.
Cria o seu próprio círculo, vive com Miranda (Maribel Verdú), no bairro boémio de La Boca, em Buenos Aires (o filme é todo rodado na Argentina e nos estúdios “Ciudad de la Luz”, em Alicante, Espanha), voluntariamente afastado da família. Queria ser escritor e afirmar a sua voz pessoal, mas o pai já o tinha avisado de que na família só havia lugar para um génio, e ele já tinha ocupado esse trono. Por isso, exila-se. Da família. De si próprio.
O filme começa com o regresso do irmão mais novo, que ele ama, mas de quem se quer afastar (apesar de lhe escrever repetidas vezes a convidá-lo a aparecer na sua nova casa). Por isso Bennie (Alden Ehrenreich), o marinheiro em licença com o navio a ser reparado, não é bem recebido. Com ele regressam os fantasmas da família, de que ele se quer afastar. Já mudou de nome, abandonou a casa materna, vive suspenso de um acidente que vitimou a mãe e de que se sente culpado, quer esquecer o passado e mesmo as ambições de ser escritor jazem enterradas numa mala abandonada a um canto escuso da casa. Ele está ferido (fisicamente ferido, arrastando-se numas canadianas, mas também psicologicamente ferido). A sua companheira ampara-o, compreende-o e tem o tacto necessário para não se imiscuir demasiado nas sombras do passado. Esse passado ficará reservado a Bennie, que vem reavivar as feridas e impor a sua presença e retirar dos armários os segredos que qualquer família encerra ou esconde. Tetro, por exemplo, vive igualmente obcecado com o caso da namorada que perdeu no dia em que a apresentou ao pai, passando rapidamente de namorada a madrasta. Caso que encobre ainda outros segredos que guardará até final, até à noite em que oferece a Bennie o machado com que ele imaginou “matar o pai”, e que estende ao irmão com igual intenção. “Matar o pai” é um conceito psicanalítico essencial para compreender Tetro e para este se entender a si próprio. Só depois de “matar o pai”, de presenciar a sua morte física na majestosa vigília que a sociedade lhe reserva, é que Tetro assume a completa independência e se inicia a catarse, a relação de igual para igual com Bennie: “Agora somos uma família!”
Tendo por cenário natural a Argentina, Francis Ford Coppola joga com o ambiente deste país e os sons do tango para criar um clima operático e de tragédia iminente que, desde sempre foi o seu. Estes aspectos e a fotografia (sobretudo a a preto e branco) de Mihai Malaimare Jr que os sublinha admiravelmente, transformam “Tetro” numa obra absolutamente fascinante, com sequências que atingem o sublime, como quase todas as passadas no bairro de La Boca ou a viagem até à Patagónia. Estamos em presença do melhor cinema, perpassado por uma emoção intensa e uma dolorosa exposição do que de mais íntimo um artista possui. Em compensação, e para afastar infelizmente “Tetro” da perfeição da obra-prima, há uma ou outra incursão por um fantasioso e artificial universo de teatro e de transexualidade, de festivais e de ajustes de contas pessoais de Coppola com o universo do espectáculo, que desequilibra a obra e a faz fraquejar. Relembra, em certos aspectos, o infeliz “Stardust Memories”, de Woody Allen, passando pelas mesmas influências mal digeridas (de Bergman a Fellini). Mas há referências directas a outros realizadores que se impõem de imediato, como as que remetem para a dupla inglesa, Michael Powell e Emeric Pressburger, de quem se cita directamente "Os Contos de Hoffmann" (1951), e "Os Sapatos Vermelhos" (1948), e que permitem a Coppola recuperações de tom e estilo (nalgumas sequências a cor) que são avassaladoras (que dizer desse bailado em que o palco é banhado pelas ondas do oceano?).
Apesar de algumas ressalvas, “Tetro” é, pois, um filme magnífico que nos restitui um Coppola ao seu melhor nível, com um sopro melodramático que lhe advém obviamente do seu gosto pela ópera italiana e que é trabalhado no cinema de forma impar. Este segundo argumento original escrito por Coppola (o outro anterior tinha sido “The Conversation”, em 1972) recupera algo do ambiente plástico de “Rumble Fish”, muito do tom dramático e trágico da trilogia “The Godfather”, um pouco do onirismo de “One From The Heart”, e é cem por cento Coppola. Mas quando é que Coppola não é cem por cento Coppola?
Os actores são quase todos excelentes. Vicente Gallo é brilhante na forma discreta e contida como representa. Maribel Verdú é um vulcão auto-dominado. Klaus Maria Brandauer é a presença que se impunha. Alden Ehrenreich é o rosto de uma candura misteriosa que promete uma boa carreira. Carmen Maura destoa, numa personagem de diva e protectora literária e teatral, com quem Coppola ajusta contas ("a tua opinião já não me interessa", diz-lhe no final). Brilhantes são a música de Osvaldo Golijov e a fotografia de Mihai Malaimare (a preto e branco e a cor, esta sobretudo nas sequências de memórias e de filmes citados ou recriados).


TETRO
Título original: Tetro
Realização: Francis Ford Coppola (EUA, Itália, Espanha, Argentina 2009); Argumento: Francis Ford Coppola; Produção: Francis Ford Coppola, Anahid Nazarian, Fred Roos, Masa Tsuyuki; Música: Osvaldo Golijov; Fotografia (p/b e cor): Mihai Malaimare Jr.; Montagem: Walter Murch; Design de produção: Sebastián Orgambide; Decoração: Paulina López Meyer; Guarda-roupa: Cecilia Monti, Gabriela Minzi, Mariela Rossi; Maquilhagem: Osvaldo Esperón, Norberto Poli, Beata Wojtowicz; Direcção de Produção: Yousaf Bokhari, Helen Marti Donoghue, Adriana Rotaru; Assistentes de realização: Sol Aramburu, Roman Coppola, Juan Pablo Laplace, Óscar Manero, Mariana Wainstein; Departamento de arte: Charly Carnota, Javier Gonzalez Duato, Martín Libert, Luciana Quartaruolo; Som: Leandro de Loredo, Federico Esquerro, Juan Ferro; Efeitos visuais: Ezequiel Borovinsky, Vít Komrzy, Juan Pablo Menchon, Viktor Muller, Katerina Pokorova; Casting: Walter Rippell; Companhias de produção: American Zoetrope, BIM Distribuzione, Instituto Nacional de Cine y Artes Audiovisuales (INCAA), Tornasol Films, Zoetropa; Intérpretes: Vincent Gallo (Tetro), Maribel Verdú (Miranda), Alden Ehrenreich (Bennie), Klaus Maria Brandauer (Carlo), Carmen Maura (Alone), Rodrigo De la Serna (Jose), Leticia Brédice (Josefina), Mike Amigorena (Abelardo), Sofía Castiglione (Maria Luisa), Francesca De Sapio (Amalia), Adriana Mastrángelo (Angela), Silvia Pérez (Silvana), Erica Rivas (Ana), etc. Duração: 127 minutos; Distribuição em Portugal: Clap - Produção de Filmes; Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal: 19 de Novembro de 2009.

quinta-feira, dezembro 24, 2009

AS MINHAS MELHORES CANÇÕES DE NATAL

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White Christmas - Bing Crosby

Have Yourself A Merry Little Christmas - Judy Garland

Silent Night - Pavarotti Domingo Carreras

O, Holy Night - Kiri te Kanawa

The Christmas Song - Nat King Cole

All I want for Christmas is you - Mariah Carey

Santa Claus Is Comin' To Town - Bruce Springsteen

Jingle Bells - Looney Tunes

Blue Christmas - Elvis Presley

Silver Bells - Doris Day

Merry Christmas, War Is Over - Boy George e Anthony Heggerty

quarta-feira, dezembro 23, 2009

20 CANÇÕES DE NATAL

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Para Amigos e Conhecidos que por bem vierem, aqui fica uma selecção (discutível) das 20 mais célebres canções de Natal, segundo uma proposta recolhida no You Tube.
Com votos de FELIZ NATAL.

UM NATAL FELIZ E UM ÓPTIMO ANO NOVO




PARA OS AMIGOS
COM VOTOS DE UM FELIZ NATAL
E DE UM ANO NOVO CHEIO DE TUDO
O QUE MAIS DESEJAREM.

(David Fonseca canta "Last Christmas", em especial deferência do You Tube)

sábado, dezembro 19, 2009

LISBON FILM ORQUESTRA

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CONCERTO NA AULA MAGNA
Concerto na Aula Magna: a Lisbon Film Orchestra toca temas de filmes. Estreada em 2007, é a primeira orquestra sinfónica portuguesa a dedicar-se, em exclusivo, ao repertório das bandas sonoras cinematográficas. São 80 jovens músicos, quase todos na casa de entre 20 e 30 anos, que, sem apoios oficiais, de moto próprio, resolveram criar uma orquestra sinfónica que, para quem não percebe nada de música, a não ser gostar ou não do que ouve, parece tocar afinadinha e com alguma alma, um evidente profissionalismo e uma igualmente extrema entrega emotiva nas suas actuações. Os responsáveis deste projecto são Nuno de Sá, na direcção da orquestra, e Francisco Santiago, na produção musical. A iniciativa é da responsabilidade da MusinAction, entidade que visa inovar o panorama cultural português nos domínios musicais.
Na noite de 18 de Dezembro, a Aula Magna estava quase repleta de um público maioritariamente jovem, o que é outra verificação a sublinhar. Este tipo de concerto pode atrair público que vem no engodo que o cinema sempre desperta e aprende a entender música sinfónica e a ouvir grandes bandas sonoras.
O concerto de Dezembro teve de tudo um pouco: “O Fantasma da Ópera”, de Andrew Lloyd Webber; “Mission: Impossible”, de Lalo Schifrin; “Forrest Gump”, de Alan Silvestri; “Spider Man”, de Danny Elfman; “Titanic”, de James Horner; “Gladiator”, de Hans Zimmer; “Home Alone”, de John Williams; “Polar Express”, de Alan Silvestri; “The Lord of the Rings”, de Howard Shore; “Música no Coração”, de Richard Rodgers e Oscar Hammerstein; “West Side Story”, de Leonard Bernstein; “Schindler´s List”, de John Williams; “Harry Potter”, de John Williams; “Chicago”, de John Kander; “Star Wars”, de John Williams; “Pirates of the Caribbean”, de Klaus Badlet e “Indiana Jones –Os Salteadores da Arca Perdida”, de John Williams.
Conclusões a tirar do reportório: quase tudo música norte-americana, quase tudo composições de “blockbusters”, quase tudo temas espectaculares, quase tudo filmes das últimas duas ou três décadas, quase tudo originais de compositores de qualidade reconhecida, é certo, mas… Faltam clássicos dos anos 30, 40, 50, 60, 70, faltam franceses, ingleses, italianos, espanhóis, alemães, portugueses… para ficarmos por aqui, por agora.
De resto, o que há já é muito bom, mas melhor ficará se se diversificarem origens e épocas. Esperemos que a orquestra tenha uma vida longa e que vá multiplicando público e espectáculos.

sexta-feira, dezembro 18, 2009

VAVADIANDO DE NATAL: AMANHÃ, 20 H

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PORTALEGRE, 1958

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PORTALEGRE, LICEU MOUZINHO DA SILVEIRA, 1958


De romagem a Portalegre para integrar o Encontro dedicado a José Régio.
Dia em cheio, com regresso a Lisboa em comboio regional, com transbordo no Entroncamento (quase 40 minutos de atraso, mas uma simpatia de pessoal da CP). Quando cheguei a casa, a surpresa de uma fotografia, enviada por mail, pelo amigo Prof. Martinó, reunindo alunos e professores da minha última turma, corria o ano de 1958. Bom rever tanta cara amiga e conhecida. Obrigado Prof. Martinó.
(Há caras reconheciveis na foto. Um doce a quem descobrir "onde está a Wally").

sábado, dezembro 12, 2009

CINEMA: JULIE E JULIA

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JULIE & JULIA
Nora Ephron é uma realizadora interessante que se tornou conhecida inicialmente como argumentista, sobretudo depois de ter assinado, em 1989, o brilhante guião de "Um Amor Inevitável". Depois passou à realização, e foi adicionando obras que não deslustram, e mesmo uma ou outra que sabem muito bem, como é o caso de “Sleepless in Seattle” (Sintonia de Amor, 1993) ou deste “Julie & Júlia” (Julie e Júlia, 2009). Nos intervalos assinou “This Is My Life” (1992), “Mixed Nuts” (1994), “Michael” (1996), “Lucky Numbers” (2000) “You've Got Mail” (Você Tem uma Mensagem, 1998), ou “Bewitched” (Casei com uma Feiticeira, 2005).
Não é genial, é correcta, eficaz, sensível, e por vezes deixa-se possuir por uma rasgo de talento. “Julie e Júlia” está neste caso, e será seguramente dos títulos mais conseguidos da autora, mercê de diversos aspectos que se reúnem para que o efeito seja o requerido.
Antes de mais há que sublinhar um excelente argumento, extremamente bem estruturado, partindo de material de base que era difícil de entrelaçar. A história, com a assinatura da própria Nora Ephron, parte de uma obra de Julie Powell ("Julie & Julia") e de uma autobiografia de Julia Child e Alex Prud'homme ("My Life in France"). É, portanto, um guião que junta duas histórias verídicas, cada uma delas relato mais ou menos autobiográfico de uma mulher, e que conta a relação que se estabelece entre ambas, sem que no entanto se cheguem a conhecer pessoalmente. Há inclusive uma distância temporal a afastá-las (ou será a uni-las?).
Julia Child é mulher de um diplomata americano a viver em Paris, depois da II Guerra Mundial, em pleno período quente da Guerra-fria. Gosta de comer e de conhecer a gastronomia francesa, por que se apaixona. Com duas amigas resolve escrever um livro para “as americanas começarem a apreciar devidamente” a comida que ela admira em restaurantes parisienses. O livro acaba por encontrar editor e sobe em flecha na estima das leitoras. É um fenómeno de vendas, um best seller. Muitos anos depois, Julie Powell, uma jovem cujo emprego é tentar resolver problemas pessoais decorrentes do 11 de Setembro de 2001, descobre a sua paixão pela gastronomia e pelo livro de Julia Child, resolvendo escrever um blogue onde diariamente vai registando as suas impressões pessoais sobre as receitas de Julia Child que vai ensaiando, uma a uma, dia após dia. O blogue é um sucesso. Nora Ephron enlaça as duas experiências e o gosto comum pela boa comida, entrega a representação de cada mulher a uma actriz admirável, que dá livre curso à sua inspiração, e o resultado não é uma obra prima da comédia moderna, mas não anda assim tão longe disso. Não lhe falta inteligência, sensibilidade, humor, ternura, voluptuosidade e indescritíveis descrições de pratos a fumegar de apetitosa gulodice.
Mas se tudo isto é verdade, o espanto, esse fica mesmo reservado para os actores. Meryl Streep é simplesmente fabulosa. Está uma actriz admirável que saboreia com especial prazer os últimos papéis que aceita criar. Depois da sua incursa pelos Abba, constrói aqui outra personagem de antologia que relembra um Jacques Tati de saias numa Paris dos anos 50. A sua figura, desengonçada e invariavelmente risonha, não compreende sequer o porquê de certas perseguições, não percebe muito bem o “maccarthismo” na América, que o pai admira e de que o marido é vítima. Para ela a vida não tem preocupações que ultrapassem o espaço da sua cozinha (agora recuperado num museu norte americano). Meryl Streep ergue um trabalho de composição invulgar. Merecedor de uma nova nomeação para os Oscars (mas o filme vai por lá andar noutras categorias também, acredito). Amy Adams, uma actriz não muito conhecida e muito jovem ainda, é outra presença de peso, numa doce Julie que vive o seu sonho de afirmação construindo um blogue pessoal. Stanley Tucci, no diplomata, marido de Julia, é igualmente excelente.
Diga-se ainda que a cidade de Paris dos anos 50 é recuperada com uma atmosfera de encanto e bonomia que ajuda à festa dos sentidos, e dos sabores adivinhados.
Se é um hedonista, não perca. Até a receita cinematográfica é muito saborosa. Um filme para ter estrela no Michelin.
JULIE & JULIA
Título original: Julie & Julia
Realização: Nora Ephron (EUA, 2009); Argumento: Nora Ephron, segundo obras de Julie Powell ("Julie & Julia") e Julia Child e Alex Prud'homme ("My Life in France"); Produção: Laurence Mark, Amy Robinson, Nora Ephron, Eric Steel, John Bernard, Dianne Dreyer, Donald J. Lee Jr., Scott Rudin, J.J. Sacha, Dana Stevens; Música: Alexandre Desplat; Fotografia (cor): Stephen Goldblatt; Montagem: Richard Marks; Casting: Kathy Driscoll, Francine Maisler; Design de produção: Mark Ricker; Direcção artística: Ben Barraud; Decoração: Susan Bode; Guarda-roupa: Ann Roth; Maquilhagem: Jerry DeCarlo, J. Roy Helland, Kyra Panchenko; Direcção de Produção: Jerome Albertini, Gilles Castera, Ann Gray, Erica Kay, Donald J. Lee Jr., Paul A. Levin; Assistentes de realização: Jeffrey T. Bernstein, Ali Cherkaoui, Estelle Gérard, Alfonso Gomez-Rejon, Nancy Herrmann, Guilhem Malgoire; Departamento de arte: Hélène Dubreuil, Claire Kirk, Joan Winters; Som: Ron Bochar, Sean Garnhart, Debby VanPoucke; Efeitos especiais: Fred Buchholz, Doug Coleman; Efeitos visuais: Glenn Allen; Companhias de produção: Columbia Pictures, Easy There Tiger Productions, Scott Rudin Productions; Intérpretes: Meryl Streep (Julia Child), Amy Adams (Julie Powell), Stanley Tucci (Paul Child), Chris Messina (Eric Powell), Linda Emond (Simone Beck), Helen Carey (Louisette Bertholle), Mary Lynn Rajskub (Sarah), Jane Lynch (Dorothy McWilliams), Joan Juliet Buck (Madame Brassart), Crystal Noelle, George Bartenieff, Vanessa Ferlito, Casey Wilson, Jillian Bach, Andrew Garman, Michael Brian Dunn, Remak Ramsay, Diane Kagan, Pamela Stewart, Jeff Brooks, Frances Sternhagen, Brooks Ashmanskas, Eric Sheffer Stevens, Brian Avers, Kacie Sheik, Megan Byrne, Deborah Rush, Helen Coxe, Amanda Hesser, Maryann Urbano, Simon Jutras, Felicity Jones, Meg Kettell, Stephen Bogardus, Byron Jennings, Kelly AuCoin, Richard Bekins, Luc Palun, Rémy Roubakha, Marceline Hugot, Erin Dilly, Robert Emmet Lunney, Guiesseppe Jones, Jeff Talbott, Johnny Sparks, etc. Duração: 123 minutos; Distribuição em Portugal: Columbia TriStar Warner Filmes de Portugal; Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal: 19 de Novembro de 2009.

domingo, dezembro 06, 2009

PORTALEGRE: JOSÉ RÉGIO EM "ENCONTRO" RENOVADO

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Comemorações dos 80 anos da chegada de José Régio a Portalegre

Encontro
José Régio, a Literatura e o Cinema:
diálogos e encruzilhadas
Escola Superior de Educação de Portalegre
17 de Dezembro de 2009
Programa

10.00 – Sessão de Abertura
10.15 – José Régio: a letra e a Literatura
“O jogo modernista de José Régio: o esquecimento e a importância”
Eunice Cabral (Universidade de Évora)
“José Régio em Portalegre: uma solidão propícia?”
Fernando J. B. Martinho (Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa)
Moderador – Sérgio Silva (ESEP)

11.30 – Pausa para café
11.45 – José Régio e o Cinema: um caso cor de fogo
Lauro António (realizador do filme “O vestido cor de fogo”)
“Régio e o Cinema”
Sérgio Guimarães Sousa (Universidade do Minho)
Moderador – Luís Miguel Cardoso (ESEP)

13.00 – Sessão de Encerramento

As comemorações são promovidas pela Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Portalegre, pela Escola Secundária Mouzinho da Silveira – Portalegre,
e pela Escola Básica 2.3 José Régio – Portalegre.

No âmbito das Comemorações dos 80 anos da chegada de José Régio a Portalegre, a Escola Superior de Educação de Portalegre promove um encontro destinado a revisitar os diálogos e as encruzilhadas que o escritor teceu na sua vida e na sua obra literária.
José Régio assume-se, enquanto criador literário, como um individualista, marcado pelo imaginário cristão e pelo tormento da angústia. A sua escrita procura encontrar um espaço de diálogo com outras expressões artísticas como a pintura e a música. Como crítico e historiador literário, José Régio fornece à crítica sistemas de abordagem e critérios de avaliação teoricamente bem sustentados, acompanhando, de perto, as linhas de leitura mais avançadas do seu tempo.
As relações de Régio com o universo cinematográfico são variadas e revelam-se muito ricas em percursos e intersecções, criando, em distintos níveis, laços e simbioses que perpassam os seus itinerários pessoais e criacionais. O “caso” (de) Régio com o Cinema distingue-se, com evidência e prova empírica, nos textos que produziu, na relação que estabeleceu com realizadores (destacamos, naturalmente, Manoel de Oliveira e Lauro António), e nos filmes e documentários que inspirou.
Com este encontro, a ESEP presta homenagem ao homem e ao escritor que incorporou Portalegre na sua alma e que viveu (n)a palavra e (n)a imagem em diálogo e em encruzilhada.
A Comissão Organizadora,
Luís Miguel Cardoso / Sérgio Silva

domingo, novembro 22, 2009

NOVO LIVRO DE CINEMA

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No novo bar-livraria dos cinemas King foi apresentado um livro de cinema, da autoria de José Varregoso, dedicado a Alfred Hitchcock. A edição é Chiado Editores. Convidado a apresentar essa obra, alinhavei o seguinte comentário:
EU, HITCHCOCKIANO, ME CONFESSO
No princípio era um blogue que eu visitava por vezes. Chamava-se, e chama-se, “Eu, Hitchcockiano, Me Confesso”, e por lá ia lendo apaixonadas declarações de amor ao cinema e a um cineasta em particular, Alfred Hitchcock, como devem calcular.
Mas o blogue organizava-se de uma maneira muito curiosa. Primeiramente a coerência e o método: durante cerca de três anos, cento e cinquenta semanas, para ser mais exacto, o autor colocava um novo post, um texto relativamente longo onde falava de um filme, de um tema, de um aspecto da vida, de uma curiosidade, de um colaborador de Alfred Hitchcock, mas sempre numa perspectiva muito pessoal.
Depois, estes não eram textos de um crítico encartado sobre um cineasta, eram e são divagações de um cinéfilo que escreve, na primeira pessoa do singular, sobre cinema e um cineasta que admira e ama. São diálogos, quase em tu cá tu lá, entre quem vê um filme e aquele que o concebeu. São dois eus em confronto, de forma descomplexada e simples, mas nem por isso menos profunda, intelectualmente ágil e estimulante.
Quem é este José Varregoso que assim aparece primeiro num blogue, agora em livro reunindo as crónicas, os cento e cinquenta posts ali previamente publicados? Pouco sei do autor, falei com ele uma vez, para ele me entregar o livro que li com proveito e curiosidade, mas acho que o que ele diz de si próprio no prefácio do volume que temos agora nas mãos é o bastante, pelo menos o essencial:
Escreve ele na apresentação do blogue e no primeiro texto desta obra: “Isso da identidade pessoal de cada um de nós tem muito que se lhe diga. Deixem-me contar-vos desde já que estudei Antropologia e que, portanto, me sinto rudimentarmente habilitado para falar daquilo que pode moldar a personalidade de um ser humano. Bem sei que é inevitável que se fale da soma de muitos factores biológicos, sociais e culturais. Mas é também certo que o percurso biográfico de alguém é sempre marcado pelo nível dos seus interesses e paixões particulares. Pelas suas inclinações emocionais ou psicológicas. Cada pessoa representa uma soma imensa de factores. Vejam-me como um hitchcockiano.”
E precisa o contexto do seu trabalho: “Conto publicar aqui, com regularidade, crónicas sobre o Cinema, a Vida e o Suspense. Três valores esses que serão temáticas permanentes nas minhas reflexões.”
José Varregoso tem depois algumas qualidades apreciáveis. Escrever sobre cinema (como sobre qualquer forma de expressão artística) pode ser tarefa a cumprir de muitas formas e algumas delas bastante entediantes para quem lê. Escrever simples e claro, sem que isso torne linear e desprovido de qualquer profundidade de análise o que se escreve, não é tarefa fácil. Por isso muitos escrevem “difícil” e “arrevesado” para se darem ares e assim julgarem colmatar a falta de profundidade e de originalidade.
José Varregoso sabe-o bem e tem consciência disso quando afirma: “Procurarei aqui nunca parecer entediante nem presunçoso; escrever sobre o que me agrada e motiva a compor um texto; e não esquecer que escrevo para ser lido. Porque escrever é um meio de comunicação e não tão só um meio de encontro do escritor consigo mesmo e com os seus ideais.”
E precisa o objecto da sua análise: “Claro está que um dos pontos de referência das minhas crónicas será a figura de Alfred Hitchcock. O que ela significa para o Cinema e como reflecte perspectivas de vida e conceitos culturais variados. Já saberão portanto que Hitchcock será uma figura emblemática da minha escrita neste blog. Mas não pretendo construir um site sobre o cineasta e sobre a sua filmografia. Procurarei antes contar a quem me ler como algum do cinema de Hitchcock me tem influenciado. Quero escrever sem moldes estritamente definidos. Escrever sem orientações rígidas. Cada crónica terá a sua vida própria e cumprirá o seu objectivo, mas gostava de pensar que o conjunto de todos os textos aqui apresentados reflectirá uma lógica e uma coerência uniformes.”
José Varregoso apresenta-se também de forma discreta: “Sou um cinéfilo mas não me devem ler como um crítico de cinema esclarecido, nem tão pouco como um filósofo ou um cientista social.”
O que me interessou particularmente neste trabalho, além da paixão que testemunha, é a reflexão sobre temas tão caracteristicamente hitchcockeanos como a construção do suspense, a utilização do medo, a definição de personagens femininas, o amor e o sexo na obra deste cineasta, o falso culpado, o mistério da morte, entre muitos outros. Depois, José Varregoso é também um coleccionador de curiosidades, um cocabichinhos que nos dá a lista das aparições de Hitchcock em todos os seus filmes, todos os seus trabalhos para a televisão, um nota sobre o trabalho fotográfico que a “Vanity Fair” fez para homenagear o cineasta, e tantas outras preciosidades. Muitas de difícil conhecimento e acesso para o leitor comum.
Mas como de um blogue se tratava “Eu, Hitchcockiano, Me Confesso” acompanhava também o dia a dia do autor, que tanto pode falar de amigos e amizade (citando os bons e maus amigos dos filmes de Hitch), como saudava as celebrações de um novo ano com champanhe made in Hitchcock.
“Perdoem-me se estas linhas carecerem de humor e de irreverência.”, diz José Varregoso. “Acho que sou um homem sério e frequentemente sisudo e circunspecto. Mas não me levem demasiadamente a sério. Nem tão pouco me identifiquem com um intelectual esclarecido apostado em ensinar aos outros como devem entender a Vida e o Cinema. Vejam-me antes como um hitchcockiano... Nada mais...”
Lendo “Eu, Hitchcockiano, Me Confesso” cedo se perceberá que Varregoso não só tem humor, como também o utiliza de forma criteriosa. Esta última citação testemunha-o. E se não está saudavelmente “apostado em ensinar aos outros como devem entender a Vida e o Cinema” (basta os que já existem e são tantos!), não deixa de ser verdade que é um esclarecido e apaixonado hitchcockiano. Que para quem gosta de cinema, de suspense, e da vida… é quanto basta.

Lauro António, Cinemas King, bar, 21 de Novembro de 2009

TEATRO NACIONAL DE D.MARIA II - 3 PEÇAS

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No Teatro Nacional de D. Maria II vi três espectáculos muito diferentes, mas cada um deles a recomendar por variadas razões. Dois infelizmente já não se encontram em cena, mas gostaria de sobre eles deixar aqui ainda exarada uma opinião. Passemos ao rápido relance:
O CAMAREIRO

“The Dresser”, de Ronald Harwood, é uma excelente peça sobre o mundo fascinante do teatro, com as luzes do o palco vistas do seu interior e dos bastidores. O que possibilita um jogo de claro-escuro que permite toda a magia do espectáculo. Dois homens dialogam em palco, o actor, encenador, empresário, vedeta shakespeariana que é designado por Sir, e o seu camareiro, amigo e confidente Norman. Eles são respectivamente Ruy de Carvalho e Virgílio Castelo, ambos com duas soberbas interpretações, daquelas para perdurar na memória. Se do primeiro nada de diferente seria de esperar, já a interpretação de Virgílio Castelo ultrapassa tudo o que dele viramos até hoje.
“Sir” é um daqueles actores maiores que a vida, grandiloquentes, excessivos, decadente já, à beira da morte, mas em cena até ao fim, na sua dupla função de actor-encenador e de empresário. Parece que foram muito frequentes em Inglaterra, não o são tanto em Portugal. Vivem do e para o teatro, são majestosos e excêntricos, brilhantes e intoleráveis, explorados e exploradores. Quase sempre têm a seu lado alguém que os mima e acarinha, um camareiro por exemplo, para quem o actor é tudo em que se espelha, em que se revê. Norman é a bengala em quem o actor se apoia, o homem que o carrega às costas quando desmaia nas ruas da cidade onde estão instalados. Mas também aquele que não perdoa uma traição, porque se o seu amor é total e a devoção igual, não admite o desprezo ou a indiferença.
No cinema, Peter Yates havia adaptado esta peça ambientada durante a II Guerra Mundial e originalmente estreada em 1980, três anos depois da sua estreia em palco, tendo como principais actores dois fabulosos Albert Finney e Tom Courtenay, muito bem acompanhados por Edward Fox, Zena Walker, Eileen Atkins e Michael Gough. A adaptação a guião fora da responsabilidade do próprio dramaturgo Ronald Harwood, homem muito habituado a escrever para cinema igualmente (são dele guiões de obras tão importantes quanto “A High Wind in Jamaica” (1965), “Diamonds for Breakfast” (1968), “One Day in the Life of Ivan Denisovich” (1971), “The Browning Version” (1994), “The Pianist” (2002), “The Statement” (2003), “Being Júlia” (2004), “Oliver Twist” (2005), “The Diving Bell and the Butterfly” (2007) ou “Austrália” (2008). Ronald Harwood parece ter baseado esta criação na sua própria experiência pessoal, pois fora em tempos camareiro de um famoso actor-empresário inglês, Donald Wolfit (1902-68). O filme era muito interessante, justificando as nomeações para melhor filme do ano, realização, argumento adaptado, e actores (Albert Finney, Tom Courtenay).
Se o filme era excelente como retrato de uma época e como reflexão sobre o teatro, a encenação de João Mota no Nacional de D. Maria II era igualmente notável, figurando desde já como um dos melhores espectáculos do ano e palcos portugueses. João Mota, falando da peça, considerava-a "uma excelente oportunidade de conhecer o teatro por dentro, os bastidores, os problemas, as tricas, as coscuvilhices, e até a ternura e a amizade que se estabelece frequentemente". Exacto. Uma grande peça, um grande espectáculo, duas grandes interpretações e um gosto acre-doce que fica depois de atravessar este universo povoado por pesadas sombras e iluminado por fulgurantes luzes candentes.
"O Camareiro" estreou no D. Maria II a 10 de Setembro, e ainda por lá devia estar. Merecia-o bem.



DARWIN... TRA LE NUVOLE
No início do ano de 2009, o Piccolo Teatro Milano encenou "Darwin... Tra le Nuvole" para dar a conhecer Charles Darwin através do teatro e do imaginário, numa linguagem imediata, divertida e sempre atenta à exactidão científica. A encenação era de Stefano de Luca, e foi esse mesmo espectáculo que deu à costa lisboeta, para três únicas representações, a 31 de Outubro e 1 de Novembro, na sala Garrett do Teatro Nacional Dona Maria II.
Trata-se de uma encenação muito simples, com poucos adereços, certamente para permitir grande mobilidade em deslocações, cinco actores e uns telões, uma fabulosa redacção de texto, inventivo e cheio de graça, e um resultado surpreendente. A peça talvez se dirigisse sobretudo a públicos jovens (em idade escolar, certamente), mas a verdade é que todas as idades aderiam a esta extraordinária versão da viagem de Beagle, por ignotas terras do Brasil, da Patagónia, do Peru ou da mítica Terra do Fogo.
A ideia central é um ovo de Colombo muito bem desenvolvido: na actualidade, duas jovens amigas descobrem uns textos de Darwin que as fascinam e partem numa viagem pelo tempo para acompanhar a vida do cientista, ainda jovem, e a viagem que ele fez a bordo do Beagle, viagem que iria estar na base da escrita de “A Origem das Espécies”.
O Piccolo Teatro di Milano, que se formou no final da década de 40 do século XX, tinha como finalidade apresentar ao seu público personagens credíveis e próximas da realidade social que se vivia então, acompanhando desta forma as temáticas cinematográficas do mesmo período em Itália, nomeadamente o neo-realismo. Com base numa ideia de Luca Boschi (epistemólogo), Stefano de Luca (encenador) e Giulio Giorello (professor catedrático de BD) o espectáculo procurava documentar a vida do cientista, que comemorava este ano 200 anos do seu nascimento, e 150 sobre a edição de “A Origem das Espécies”.
Com interpretação notável de um grupo de jovens actores (Clio Cipolletta, Gabriele Falsetta , Andrea Germani, Adrea Luini e Silva Pernarella), "Darwin... Tra le Nuvole" tinha uma muito simples e eficaz cenografia de Marco Rossi, desenho de luzes de Cláudio de Pace e figurinos de Luísa Spinatelli.



O ANO DO PENSAMENTO MÁGICO

Depois do regresso de Ruy de Carvalho ao D. Maria II, temos a volta de Eunice Muñoz, no monólogo “O Ano do Pensamento Mágico”, da escritora norte americana Joan Didion, baseado num romance do mesmo nome que, por sua vez, recolhia dolorosas memórias íntimas da sua autora. Tanto a peça como o romance se encontram publicados em Portugal, e devo confessar que nem uma nem outro me entusiasmam por aí além. O caso humano é obviamente trágico para quem o viveu, mas não me parece que o seu tratamento dramatúrgico ultrapasse o caso pessoal. Se o faz, é ao nível de uma obra de auto-ajuda, que também não é o meu género preferido.
Mas tudo bem, seja, um monólogo sobre uma mulher que no mesmo ano perde o marido e a filha, ele vítima de um fulminante ataque cardíaco, quando se encontrava a jantar, a filha depois de um prolongado sofrimento, internada numa clínica. "Sentam-se para jantar e a vida como a conhecem termina". Percebe-se o trauma da escritora, casada com John Gregory Dunne (igualmente escritor e argumentista, autor de um “best seller” adaptado a cinema, "True Confessions"), mãe de Quintana Roo Dunne Michael, ambos falecidos no ano de 2006, com poucos meses de intervalo.
A peça tem a vantagem de não se assumir como uma vitimização de princípio a fim, contém alguma distanciação e aqui e ali até joga com um leve humor que ajuda a suportar a descrição da tragédia, mas nunca aderi a este monólogo a que falta sobretudo garra e genialidade (o que o faria certamente diferente). É um texto bem escritinho, a puxar ao comovente.
Eunice Muñoz, que nasceu na Amareleja, a 30 de Julho de 1928 (oitenta e um anos, a maioria dos quais dedicados a representar no teatro, na televisão e no cinema, onde tive a sorte de a ter como Dona Estefânia, no meu filme “Manhã Submersa”), não tem, portanto, um texto de alto nível para defender, mas é sempre um prazer vê-la e tudo o que faz é digno de admiração incondicional.
A encenação de Diogo Infante é sóbria e eficaz, deixando a actriz representar a solo e encher um palco, apesar de estar quase sempre sentada numa poltrona, bem no centro da cena. Um espectáculo intimista, uma hora e dez minutos a beber as palavras ditas por Eunice. Vale sempre a pena, acreditem.
No mesmo teatro, “Eunice - Retrato(s) de uma Actriz”, exposição sobre a actriz Eunice Muñoz, patente ao público até dia 31 de Dezembro. Horário: 4ª a dom. das 15H às 18H30.



domingo, novembro 15, 2009

JÁ HÁ TREINADOR!


SPORTING JÁ TEM TREINADOR!
José Eduardo Bettencourt anunciava ontem:
"Treinador será uma surpresa" ("Record" de hoje)
Hoje sabe-se que o treinador é Carlos Carvalhal.
Surpresa?
Não foi José Eduardo Bettencourt quem contratou Caicedo e Angulo?
Onde está a surpresa?
O Sporting está cada vez mais homogéneo.
Havia adeptos sportinguistas que não gostavam de Paulo Bento?
Na verdade, Paulo Bento estava a mais.
Agora os adeptos devem estar felicíssimos.
A ver vamos onde iremos parar.
Ficaria muito feliz se me enganasse...

sexta-feira, novembro 13, 2009

34º JANTAR VAVADIANDO - INÚTIL

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UM VAVADIANDO COMPLETAMENTE "INÚTIL"

O "Vavadiando" vai regressar com um jantar dedicado ao nº 1 de uma revista INÚTIL. Esplendidamente INÚTIL.
Directores e muitos colaboradores saíram dos anteriores Vavadiandos. E vão estar presentes.Vamos, pois, admirar a revista, que vos afianço que vale a pena!, e rever caras amigas. Sexta feira, 20 de Novembro, pelas 20,00 horas.
Nada melhor para combater a crise que um bom jantar de amigos, falando de artes e letras. E tretas.

quinta-feira, novembro 12, 2009

ROBERT McKEE NA FNAC

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Robert McKee
Há poucos anos passou por salas de cinema um filme norte-americano, assinado por Spike Jonze, chamado “Adaptation” no original, “Inadaptado” em português, que contava com um complexo e fascinante argumento assinado por dois irmãos gémeos, Charlie e Donald Kaufman. O filme abordava a escrita de um guião que adaptava uma obra literária. Sobre orquídeas, o que não vem agora para o caso. O que nos interessa é que os dois irmãos se debatiam com problemas diversos na escrita de guiões para cinema. Um deles, mais expedito e menos angustiado com as suas tarefas, socorria-se de um workshop sobre escrita para cinema e recomendava-o mesmo ao outro irmão, que recusava a ideia, afirmando mais ou menos que há coisas que não se ensinam, e escrita criativa é uma delas. Se é criativa não pode conter o ensino de regras que tornam os filmes não originais, mas todos semelhantes.
Mas Charlie Kaufman acabava mesmo por ir assistir às lições do mestre em “Story”, “substância, estrutura, estilo e os princípios da escrita para cinema e televisão.” Teve uma discussão pública com o mestre, mas acabaria por esperá-lo à saída e com ele tomar um copo que haveria de se revelar particularmente proveitoso para o futuro do argumento que tinha entre mãos. O mestre chamava-se Robert McKee, era precisamente este que temos aqui connosco, ainda que interpretado por um actor, Brian Cox, que funcionava com um alter-ego prefeito.
Deve dizer-se que Charlie Kaufman é um dos mais prestigiados argumentistas americanos da actualidade, recentemente passado a realizador com o inquietante “Synecdoche, New York”, e sobretudo um homem que não pactua em nada com o conformismo da grande produção industrializada de Hollywood. Uma referência a Robert Mckee numa obra sua só pode assumir-se como uma homenagem. Que partilhamos.
Também ensinei durante quase duas décadas, e ainda o faço esporadicamente, escrita de argumento nas universidades. Mas devo dizer que uma das actividades que mais me desagrada comentar é a chamada “escrita criativa”, quer seja literária ou para audiovisual. Há compêndios e workshops de “escrita criativa” para todos os gostos e formatos, a maior parte dos quais “ensinam” como criar o verdadeiro guião de sucesso garantido, desde que tenha os seus momentos choque bem doseados, os plots e os ganchos distribuídos com dosagem certa, que logo ali explicam como se faz. Ora eu acho que essas regras não existem em escrita criativa, quanto muito podem existir em escrita industrial.
O que me agrada sobretudo no trabalho de Robert McKee é que também ele é contrário às regras, o que fica definido logo na abertura da sua “Story”, por muitos considerada a bíblia da actividade. Diz ele “Story é uma questão de princípios, não de regras.” Uma regra diz: “Isto tem de ser feito assim.” Um princípio diz: “Isto funciona… e sempre funcionou desde que há memória.” A diferença é crucial. O vosso trabalho não tem de ser moldado conforme a peça “bem feita”; deve antes ser bem feito dentro dos princípios que dão forma à nossa arte. Os escritores ansiosos e inexperientes obedecem às regras. Os escritores rebeldes, instintivos, quebram as regras. Os artistas dominam a forma.”
Julgo que nesta citação se concretiza muito do saber de Roberty Mckee, a que se junta uma outra característica para mim sábia. Robert McKee ensina a escrever analisando estruturas de guiões que se tornaram clássicos, como por exemplo o de “Casablanca”, que ele considera “o melhor argumento alguma vez escrito”. Também eu penso que escrever se aprende sobretudo a ver e a estudar grandes obras literárias e escrever para cinema ou televisão se aprende vendo filmes clássicos, e há clássicos para todos os gostos, de John Ford a Godard, de Hitchcock a Marguerite Duras, de Steven Spielberg a Manoel de Oliveira. A tarefa do mestre não será nunca a de impor um caminho, mas a de despertar, no interior de cada aluno, a sua vocação encoberta. E de ajudá-lo a encontrar as ferramentas que a tornem possível. Lendo Robert Mckee aprende-se sobretudo a amar o cinema, as suas histórias, a compreender as suas estruturas, a distinguir estilos, a perceber como foi feito, para depois cada um fazer à sua maneira.

Robert McKee, nascido em 1941, tornou-se conhecido sobretudo desde que, como professor na Universidade da Califórnia do Sul, criou o seu popular "Story Seminar". Mas a sua vida artística começa cedo, aos nove anos, como actor, em Detroit, sua cidade natal. Forma-se em Literatura Inglesa, antes de cursar “artes teatrais” e fazer algumas temporadas como actor na Broadway. Dirige uma companhia de teatro, a Toledo Repertory Company, e passa por director artístico do Aaron Deroy Theater. Viaja até Londres, trabalha no National Theater e estuda as produções shakespeareanas no Old Vic. De regresso a Nova Iorque volta à Broadway, como actor e encenador, onde permanece sete anos.
Decide mudar o rumo da sua vida e interessa-se pelo cinema. Frequenta a Cinema School na Universidade do Michigan, e dirige duas curtas metragens, “A Day Off” e “Talk To Me Like The Rain”, esta última adaptando Tennessee Williams. Os dois filmes ganham vários prémios e participam em vários festivais.
Em 1979, McKee muda-se para Los Angeles, começa a escrever argumentos para cinema e televisão, e é contratado para analisar guiões para algumas produtoras, como United Artists ou NBC.
Em 1983 inicia a sua já referida actividade como professor de escrita de guiões, e cria cursos públicos, de três dias e trinta horas que vai dispensando por todo o mundo. Desde 1984, Robert McKee trabalhou com mais de 50.000 estudantes em cidades como Los Angeles, Nova Iorque, Londres, Paris, Sidney, Toronto, Boston, Las Vegas, São Francisco, Helsínquia, Oslo, Munique, Telavive, Singapura, Barcelona, Lisboa e muitas mais.
De resto, julgo que haverá entre nós algumas diferenças (eu acho que o autor de um filme é o realizador, ele acha que é o argumentista, segundo li algures), mas nada disso impede que saúde aqui a presença entre nós de um dos grandes nomes que animam o panorama audiovisual mundial e que nele tanta influência tem exercido ao longo das últimas décadas.

Texto da apresentação de Robert McKee, hoje na Fnac do Chiado, pelas 18,30 horas.

sábado, novembro 07, 2009

4ª MOSTRA DE CINEMA BRASILEIRO

4.ª Mostra de Cinema Brasileiro

A decorrer, entre 5 e 8 de Novembro, no Cinema São Jorge, em Lisboa, a 4.ª Mostra de Cinema Brasileiro, organizada pela Fundação Luso-Brasileira, apresenta 12 filmes contemporâneos, não exibidos no circuito comercial: Entre eles, dois dias dedicados a homenagens, uma ao realizador Domingos de Oliveira, outra ao actor Matheus Nachtergaele.
Hoje, 6 de Novembro, foram projectados três filmes, enquadrados na Cinematografia Brasileira Contemporânea: “Romance”, “Santiago” e “Chega de Saudade”. À última da hora, não foi exibido “Meu Nome não é Johnny”. Uma falha que só foi anunciada às 23, 30, quando a sessão devia ter começado às 23, com uma lotação esgotada à espera no hall e que foi devolvida à rua, porque a cópia não terá sido revista a tempo de se ter remediado a falha. Enfim, alguma falta de profissionalismo, numa iniciativa que até agora mostrou muito bons filmes, e que atraiu muito público nas suas sessões da noite.
Romance
Realização: Guel Arraes (Brasil, 2008), com Wagner Moura, Letícia Sabatella, Andréa Beltrão, Marco Nanini, Vladimir Brichta, José Wilker, Bruno Garcia, Edmilson Barros, Tonico Pereira, etc. (105 min)
“Romance”, baseado no “Romance de Tristão e Isolda”, é uma complexa história de amor que reflecte igualmente sobre a paixão e a criação artística, neste caso o teatro e a televisão. Um encenador e actor de teatro, Pedro (Wagner Moura) apaixona-se por Ana (Letícia Sabatella), actriz com quem contracena na peça “Tristão e Isolda”. Enquanto no palco os assaltam dilemas da história que deu origem à ideia do amor romântico, nos bastidores, o casal esbarra nos obstáculos do amor actual, muito mais condimentado com paixão, ciúme, rotina, trabalho, arte e indústria... É possível um amor feliz? Do teatro e de um falhanço sobre o seu próprio amor, passa-se para a televisão e uma segunda oportunidade: Ana propõe a Pedro que a dirija num especial de fim de ano para a TV. A história escolhida é precisamente “Tristão e Isolda”, agora adaptada ao Nordeste brasileiro.
Filme inteligente e delicado, por vezes aqui e ali um pouquinho artificial na sua construção demasiado intelectual, sobretudo ao discutir o amor “no interior do amor” e as relações entre a arte e o comércio, tem todavia óptimos actores, e acompanha-se com agrado na sua construção e na ironia com que aborda o mundo da televisão, carregado de compromissos (é conveniente saber-se que Guel Arraes é um apreciado autor de mini-séries de tv, como “O Auto da Compadecida”, que passa igualmente nesta mostra).
Santiago
Realização: João Moreira Salles (Brasil, 2007)
Documentário (80 min) “Santiago” é um documentário sobre um filme inacabado. Santiago, uma personagem inesquecível, um homem de vasta cultura e memória prodigiosa, era mordomo em casa de um diplomata, pai do realizador João Moreira Salles que ali viveu a meninice, e cujas recordações o levaram, há uns anos atrás, a tentar dirigir um filme que não conseguiu terminar na altura. Anos depois, retoma o filme em busca das razões que o fizeram falhar. “Santiago” é um filme sobre memória, identidade e a própria natureza do documentário. Uma jóia cinematográfica, arrisco-me a considerá-lo uma obra-prima que não desmerece a cada nova visão e leitura (sobre o mesmo já escrevi aqui , quando o descobri no Brasil, em 2008).

Chega de Saudade
Realização: Laís Bodanzky (Brasil, 2008), com Leonardo Villar, Tônia Carrero, Cássia Kiss, Betty Faria, Stepan Nercessian, Maria Flor, Paulo Vilhena, Elza Soares, Marku Ribas, Conceição Senna, Marcos Cesana, Clarisse Abujamra, Luiz Serra, Miriam Mehler, Marly Marley, etc. (92 min)
“Chega de Saudade” é nome de clube de dança, na noite de São Paulo. Nessa sala de baile, frequentada predominantemente pela terceira idade, acompanhamos amor e ciúmes, dramas e alegrias, aventuras e desventuras de cinco núcleos de personagens que frequentam habitualmente aquela sala. Tudo começa quando a sala abre, pelas cinco da tarde, o pano corre quando a sala fecha por volta da meia-noite. Tudo se passa em meia dúzia de horas, crescendo a intensidade dramática (e erótica) à medida que as horas decorrem, os chopes e o whisky desaparecem, e os olhares se vão cruzando com um furioso desejo que mistura impotência e impetuosidade incontida. E repetidas frustrações. E alegrias breves, “uma hora de cama vale bem uma vida sem nada”. A condição humana concentrada num laboratório de análise, prefigurado numa sala de baile, como já o havia feito Ettore Scola, em “O Baile”, mas com outras intenções, ou Sydney Pollack, em “Os Cavalos Também se Abatem”, mas num outro contexto, ou “O Baile dos Bombeiros”, de Milos Forman, mas por detrás da “cortina”.
Esta é a segunda longa-metragem de Laís Bodanzky (que, em 2000, dirigira “Bicho de Sete Cabeças”), e trata-se de um verdadeiro sucesso, com um naipe de actores a roçar o genial (Leonardo Villar, intimista, Tônia Carrero, sublime, Cássia Kiss, magistral, Betty Faria, tocante, Clarice Abujamra, fulgurante, Stepan Nercessian, sem mácula, Maria Flor, de uma candura a rondar a perversidade, entre outros).
Laís Bodanzky cria uma envolvência emocional notável, com planos de conjunto e outros, aproximados, cerrados sobre rostos ou pormenores, com movimentos de câmara insidiosos e reveladores, com olhares trocados e pensamentos expressos pelo rosto ou o gesto. Emocionante e belo. Com um daqueles “puzzles” admiráveis de Robert Altman, mas com o sabor da música brasileira a envolver o pacote. Elza Soares e Marku Ribas são os cantores de serviço, de uma banda sonora para não esquecer. Notável a fotografia de mestre Walter Carvalho.
Sobre a terceira idade, o desespero e a recusa de ser “enterrado à espera da morte”, só vindo do Brasil nos poderia chegar um filme tão cheio de optimismo, no meio da solidão e da decrepitude. Mas com um calor humano que ultrapassa qualquer barreira de angústia existencial.