quarta-feira, março 03, 2010

CINEMA: O LAÇO BRANCO

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O LAÇO BRANCO

“O Laço Branco” explode no interior de uma paisagem triste de uma aldeia alemã em meados da primeira década do século XX, em pleno período pré I Guerra Mundial. Mas explode sobretudo no contexto de uma geografia humana que oscila entre o mais completo negrume e a cinza magoada. É um universo de adultos e crianças, num desolador horizonte onde se vão precipitando inquietantes acontecimentos, que resultam em indecifráveis enigmas. De um lado, os impolutos cidadãos de uma sociedade feudal, machista, autoritária, prepotente e exploradora dos mais fracos. Do outro lado, os rostos puros mas muito pouco ingénuos das crianças da aldeia que frequentam a escola do jovem professor que procura colocar alguma humanidade nas suas vidas. Quando se assiste a esta obra-prima de Michael Haneke não podemos deixar de recordar um outro excelente filme, “A Aldeia dos Malditos”, de Wolf Rilla (1960), ambientado igualmente numa pequena aldeia, desta feita no Midwich de Inglaterra, onde surge uma geração de jovens concebidos no mesmo dia e à mesma hora, uma hora de um dia parado no tempo, que permitiu a extraterrestres invasores apoderarem-se dos úteros das mulheres e conceberem seres maléficos que serão os seus pioneiros na Terra. Em “O Laço Branco” os extraterrestres são bem humanos, na sua desumanidade. Não descem do céu, vivem na terra e concebem crianças que não chegam com o Mal dentro de si, mas o vão aprendendo lenta e dolorosamente no dia a dia. “Das Weisse Band” é a crónica intimista dessa aprendizagem. O ódio instila-se, ganha-se, apodera-se de nós, inscreve-se no corpo dúctil de uma criança, cresce com as imagens que se vêem, com as dores que se sentem, com as injustiças que se interiorizam. É uma aprendizagem rigorosa, até se sentir o ressentimento, até se dominar a dor, até se calar o sofrimento, até que os olhos só vomitem ódio, até que se aprenda a lição de que temos de ser fortes, muito fortes, porque só os mais fortes resistem, porque são os mais fortes que comandam a aldeia, a cidade, o país, o mundo. “Sieg Heil!, Heil Hitler!, Heil mein Führer!”
É isso mesmo que Michael Haneke nos procura fazer ver com o seu angustiante “O Laço Branco”. Foi deste barro que se fizeram os soldados que invadiram a Europa, tentando impor uma raça ariana. Foi desta argamassa que se criaram os cidadãos que se transformaram em turbas assassinas ao som de trombetas imperais. Foram estas crianças que, vinte anos depois, invadiram a Polónia e atravessaram Paris. Foram justamente elas que guardaram os campos de concentração onde se deu o Holocausto. Foram crianças crispadas pelo horror de uma educação sem amor, sem ternura, sem o afago de uma mão ou a doçura de um olhar, com a ponta do chicote em punho, para vergastar o mais pequeno desvio, ou manter sob o jugo da prepotência e da exploração trabalhadores e mulheres. Muitas delas cúmplices nada inocentes do que presenciavam e aplaudiam.
Aparentemente a aldeia onde decorrem esses perturbantes factos é um local idílico. A calma é total, ou parece sê-lo. Até ao dia em que o cavalo do médico da aldeia tropeça num arame que une dois troncos de árvores e envia o homem para o hospital e o cavalo para abate. Depois há um incêndio de que ninguém descobre as causas, um agricultor que aparece enforcado, crianças que são torturadas e desaparecem na floresta, um pássaro que sai da gaiola para aparecer estripado por uma tesoura na secretária do barão todo-poderoso. A violência existe, por debaixo de uma capa de austeridade, de rigoroso puritanismo, de asfixiante pobreza e miséria moral.
Haneke não dá tréguas ao espectador, mas sem nunca entrar pelo caminho mais fácil da violência exposta. O que vemos, quase sempre, são sintomas ou consequências dessa violência calada, interiorizada, estrangulada. O que há de absolutamente notável neste filme surpreendente é que com a maior economia de meios se cria uma tensão insustentável. O que impera no filme não é o terror barato do “mata e esfola”, mas o horror institucionalizado, normalizado, quotidiano. É o terror imposto do interior, no interior. Um terror que marca fundo, que sulca de estigmas perenes quem o vive e a ele sobrevive. Um terror que fortalece e fulmina nos olhos das crianças. Crianças que avançam em bandos disciplinados e secretos, que progridem ameaçadoramente, com a aparente doçura da sua pele branca e olhos claros (as crianças de “A Aldeia dos Malditos” eram igualmente louras, de olhos transparentes). Que no seu íntimo, porém, vão gerando “O Ovo da Serpente” de que falou Bergman.
Haneke é austríaco e sabe do que fala, mesmo quando fala de jovens alemães, os mesmos que invadiram o seu país e foram saudados por muitos compatriotas que se associavam às ideias do nacional-socialismo emergente. O cinema de Haneke nunca deixou de ser inquietante, e nunca se furtou a abordar formas de violência quotidiana, geradas no silêncio e que explodem na clandestinidade do tempo proibido (“Jogos Proibidos”, “Brincadeiras Perigosas”, “Código Desconhecido”, “A Pianista”, “Caché - Nada a Esconder”, “O Tempo do Lobo”, ou essa adaptação de “O Castelo”, revelada em Portugal pelo Famafest, numa das suas primeiras edições).
A realização do cineasta austríaco atinge aqui um rigor e uma depuração que relembram os grandes mestres nórdicos (de Stroheim a Dreyer ou Bergman). A direcção de actores é majestosa na sobriedade e na fulgurância dos resultados, nessa inquietante atmosfera que se cria na combinação da tensão da atmosfera humana e da densa paisagem. A fotografia de Christian Berger é simplesmente magistral, num preto e branco pesado que cria as cores do terror do nada e veste o ecrã de uma magnitude de sombras tenebrosas. Um filme que tudo indica vai conquistar dois merecidos Oscars, o de melhor filme em língua não inglesa e o de melhor fotografia. Uma obra opressiva que o espectador demora a digerir, que se instala no seu subconsciente e diariamente o martela, sem complacências. O cinema no seu estádio mais puro, mais exigente, mais absorvente.

O LAÇO BRANCO
Tìtulo original: Das Weisse Band
Realização: Michael Haneke (Áustria, Alemanha, França, Itália, 2009); Argumento: Michael Haneke; Produção: Stefan Arndt, Veit Heiduschka, Michael Katz, Margaret Ménégoz, Ulli Neumann, Andrea Occhipinti; Fotografia (cor): Christian Berger; Montagem: Monika Willi; Casting: Simone Bar, Carmen Loley, Markus Schleinzer; Design de produção: Christoph Kanter; Direção artística: Anja Müller; Decorações: Heike Wolf; Guarda-roupa: Moidele Bickel; Maquilhagem: Anette Keiser, Waldemar Pokromski; Director de produção: Miki Emmrich; Assistente de realização: Hanus Polak Jr., Patrick Winkler; Departamento de Arte: Enzo Enzel, Gonda Hinrichs, Ilse Töpfer; Som: Vincent Guillon, Jean-Pierre Laforce, Michel Monier, Guillaume Sciama; Efeitos Especiais: Gerd Feuchter; Companhias de Produção: X-Filme Creative Pool, Wega Film, Les Films du Losange, Lucky Red, Medienboard Berlin-Brandenburg, Mitteldeutsche Medienförderung (MDM), German Federal Film Board, Mini-Traité Franco-Canadien, Deutsche Filmförderfonds (DFFF), Austrian Film Institute, Vienna Film Financing Fund, Ministère de la Culture et de la Communication, Eurimages, Canal+; Intérpretes: Christian Friedel (Professor), Ernst Jacobi (Professor - voz), Leonie Benesch (Eva), Ulrich Tukur (Barão), Ursina Lardi (Baronesa), Fion Mutert (Sigi), Michael Kranz (Professor de casa), Burghart Klaußner (Padre), Steffi Kühnert (Mulher do padre), Maria-Victoria Dragus (Klara), Leonard Proxauf (Martin), Levin Henning (Adolf), Johanna Busse (Margarete), Thibault Sérié, Josef Bierbichler, Gabriela Maria Schmeide, Janina Fautz, Enno Trebs, Theo Trebs, Rainer Bock, Susanne Lothar, Eddy Grahl, Branko Samarovski, Klaus Manchen, Birgit Minichmayr, Sebastian Hülk, Kai-Peter Malina, Kristina Kneppek, Stephanie Amarell, Aaron Denkel, Detlev Buck, Anne-Kathrin Gummich, Carmen-Maja Antoni, Christian Klischat, Michael Schenk, Hanus Polak Jr., Sara Schivazappa, etc. Duração: 144 minutos; Distribuição em Portugal: Atalanta Filmes; Classificação etária: M/ 16 anos; Estreia em Portugal: 7 de Janeiro de 2010.

terça-feira, março 02, 2010

VERGILIO FERREIRA, PARA SEMPRE

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RECORDANDO VERGILIO FERREIRA



A RTP 2 recorda Vergilio Ferreira com muitos excertos de um filme meu,
"Vergilio Ferreira numa "Manhã Submersa".
(Obrigado Pires F. por mo ter recordado)
e, já agora, uma outra sugestão, esta da Vanessa:

igualmente com muitos excertos do mesmo meu filme

sexta-feira, fevereiro 26, 2010

SPORTING, POR QUE NÃO JOGAS SEMPRE ASSIM?

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SPORTING, 3 - EVERTON, 0
SPORTING, POR QUE NÃO JOGAS SEMPRE ASSIM?
Será que só funciona para "inglês ver"? E para o negócio das transferências?
Os jogadores são os mesmos, o campo também, os sócios os de sempre.
Que muda? A sorte? Sim, pode ser.
Mas já era altura de mudar com mais frequência.

domingo, fevereiro 21, 2010

CINEMA: NAS NUVENS

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NAS NUVENS
Jason Reitman, filho de Ivan Reitman, é daqueles jovens que começam a vida no cinema. Como faz-tudo, de assistente a actor, de argumentista até se impor como realizador, até agora com três títulos no activo: Thank You for Smoking (2005), Juno (2007) e agora este Up in the Air (2009). Bom percurso, a meio caminho entre a indústria instalada de Hollywood e os independentes. Contam as crónicas que, desde 2005, andava às voltas com a escrita da adaptação de Up in the Air, um romance de Walter Kim, aparecido em 2001. Interessante conferir as datas, porque o filme parece ter sido escrito e rodado em meia dúzia de meses para estar nas salas quando a crise de 2009 explodiu na banca e nas empresas, quando o desemprego galopou, quando o clima económico e social alastrou pelo mundo fora. Afinal, a coisa não foi assim tão inesperada, havia escritores e realizadores que já tinham detectado o caos muito antes dele aparecer à luz do dia, impossível de ser mais escondido dos olhos de todos.
De que fala, portanto, Nas Nuvens? Das várias maneiras de despedir pessoal, quando a crise aperta, ou mesmo quando, aproveitando-se da crise, as empresas resolvem “emagrecer os quadros” do pessoal. Nestes casos, os administradores não gostam de dar a cara, contratam companhias de despedimento, que têm zelosos funcionários que estudam os relatórios, prevêem as melhores formas de despedir, e capricham na dialéctica do “vai-te embora que já não és preciso.” Sobretudo dando a ideia ao despedido que o facto dele ser dispensado é a grande oportunidade da sua vida para abrir o tal negócio que ele há tanto tempo tinha na imaginação. Agora está livre para fazer o que quiser. Abençoado despedimento, portanto. Uns choram, outros protestam, alguns, raros, atiram-se de pontes abaixo, há quem se sinta humilhado e ofendido, “depois de tantos anos”, mas não há nada a fazer, os dados estão lançados, quem pode manda, quem não pode obedece. O argumento foi escrito pelo próprio realizador, de colaboração com Sheldon Turner e está entre os nomeados para os Oscars do ano.
Ryan Bingham (Clooney) é o protagonista, um tipo simpático e desportivo, que leva a vida na boa, e adora andar de avião, arrastando a mala de aeroporto em aeroporto. Arrasta também um caudal de queixas e lamúrias que vai deixando para atrás de si. Para ele os empregados são números que é preciso abater para “agilizar” as estruturas empresariais. Não há sentimentos nem emoções a sobreporem-se à eficácia. A sua presença é humana, obviamente, mas o seu escritório pensa que pode ser facilmente substituído por um computador, em sessão de vídeo-conferência: de um lado quem despede, do outro os sucessivos futuros desempregados. Jason Reitman mostra como se faz, colocando uma rápida montagem de rostos que acabam de ouvir a sentença final. Diga-se que quase todos são actores não profissionais que foram escolhidos num casting onde só entraram despedidos recentes que assim revivem um pouco da sua própria experiência pessoal. Ryan Bingham revolta-se contra este processo. Por o achar desumano? Não me parece tanto assim, Mas sobretudo por ele anular a sua vida de passageiro de avião, um dos únicos sete em todo o mundo a possuir um cartão de cliente ultra especial. Adicionada a sua quilometragem anual, facilmente se percebe que Bingham vai e vem à Lua e ainda lhe sobram milhas. Se os despedimentos forem feitos através de vídeo-conferência, passa a ficar sentado no seu escritório, o que para ele não tem graça nenhuma. Para Ryan Bingham nada mais existe do que essa vida de excursionista da desgraça, posando de aeroporto em aeroporto para disseminar a má notícia e partir para outra. Lembra o portador da peste da Idade Média, mas vestido com as regalias de um executivo, um ar simpático e um sorriso irresistível para as mulheres com quem se cruza, para rápidas ligações sem consequências. Dá conferências sobre este modo de vida. Frente a anfiteatros repletos, coloca a malinha de mão a seu lado e explica como se sobrevive em permanente excursão. Não há vida fora da sua carreira, nem família, nem amigos, nem afectos. A família existe, aliás, mas é um transtorno (nem sequer encaixa na sua bagagem, vai de fora, à pendura).
O seu principal combate vai ser anular a ideia peregrina de Natalie Keener (Anna Kendrick), uma jovem tecnocrata que acha que despedir por pc é muito mais económico e eficiente. Cada um esgrime as suas razões e depois partem ambos para analisar in loco o efeito da novidade. É nessa altura que o empedernido Ryan Bingham se dá conta de que há mais vida para além da sua, e que o seu apartamento é um deserto. Nem tudo se pode acomodar dentro de uma malinha portátil que se arrasta como um dócil canídeo. Há mesmo uma altura em que duas malinhas dessas, deslizando lado a lado, podem dar a ideia de alguma cumplicidade e felicidade. Na verdade, há versões femininas de Ryan Bingham. Mas a cumplicidade é fortuita. Puro engano, como se verá no final.
“Up in the Air” não é o supra-sumo da comédia romântica, nem sequer do filme social, mas é um retrato muito interessante de uma realidade social que deflagrou a nossos olhos com uma força impressionante. Este é um filme que se pode ver como complemento ficcionista dos telejornais de todos os dias. E como ficção tem o poder de alertar para algo que nos telejornais começa a perder impacto, pela recorrência. Por vezes é preciso contarem-nos uma história para se perceber o que se passa ao nosso lado. É estranho e bizarro, mas é verdade.
O filme é bem contado, escorreito, nervoso, sincopado, adopta o estio do protagonista para seu próprio estilo, e as interpretações são muito boas. George Clooney parece que andou a vida toda, de aeroporto em aeroporto, a arrastar uma malinha de mão com rodas. Tem o físico e o rosto que se adaptam às mil maravilhas à personagem. Vera Farmiga (Alex Goran) e Anna Kendrick (Natalie Keener), cada uma no seu estilo, são magníficas e merecem amplamente figurar entre as nomeadas para melhor actriz secundária.
NAS NUVENS
Título original: Up in the Air
Realização: Jason Reitman (EUA, 2009); Jason Reitman, Sheldon Turner, segundo romance de Walter Kirn; Produção: Ali Bell, Michael Beugg, Jason Blumenfeld, Jeffrey Clifford, Daniel Dubiecki, Helen Estabrook, Ted Griffin, Joe Medjuck, Tom Pollock, Ivan Reitman, Jason Reitman; Música: Rolfe Kent; Fotografia (cor): Eric Steelberg; Montagem: Dana E. Glauberman; Casting: Mindy Marin; Design de produção: Steve Saklad; Direcção artística: Andrew Max Cahn; Decoração: Linda Lee Sutton; Guarda-roupa: Danny Glicker; Maquilhagem: Natasha Allegro, Jeff Lewis, Frances Mathias; Direcção de Produção: Ralph Bertelle, Kaylene Carlson, Patty Long, Tricia Miles; Assistentes de realização: Sonia Bhalla, Jason Blumenfeld, Steve Dale, Heather L. Hogan; Som: Barney Cabral, Trevor Metz, Perry Robertson, Scott Sanders; Efeitos especiais: William Dawson; Efeitos visuais: Justin Jones, Edson Williams; Companhia de produção: Companhia :Paramount Pictures; Intérpretes: George Clooney (Ryan Bingham), Vera Farmiga (Alex Goran), Anna Kendrick (Natalie Keener), Jason Bateman (Craig Gregory), Amy Morton (Kara Bingham), Melanie Lynskey (Julie Bingham), J.K. Simmons (Bob), Sam Elliott, Danny McBride, Zach Galifianakis, Chris Lowell, Steve Eastin, Marvin Young, Lucas MacFadden, Adrienne Lamping, Meagan Flynn, Dustin Miles, Tamara Tungate, Laura Ackermann, Meghan Maguire, Courtney Kling, Matt O'Toole, Alan David, Erin McGrane, Cari Mohr, Jerry Vogel, Adhir Kalyan, etc. Duração: 109 minutos; Distribuição em Portugal: Zon Lusomundo; Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal: 21 Janeiro 2010.

domingo, fevereiro 07, 2010

O QUE SE PASSOU FOI ISTO....

... MAS FALTA A "NOVIDADE" CARLOS QUEIROZ

A DITADURA DA INFORMAÇÃO UNIVOCA

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A asfixia democrática instalou-se definitivamente. Os meios de comunicação social em Portugal estão dominados pelo terror. O Estado concentra nas suas mãos todas as decisões. A pluralidade da informação não existe. A situação começa a ser insustentável.
Hoje fui ao posto de venda de jornais onde me desloco com frequência e pedi um jornal onde viesse a vitória do Sporting sobre a Académica e não existia um único diário onde pudesse ler esta notícia.
O mesmo resultado reproduzia-se de manchete em manchete.
É impossível viver-se nu país assim.
O risco de regresso à ditadura é evidente. Se é que não estamos já.

quarta-feira, fevereiro 03, 2010

OS NOMEADOS SÃO…

O
OSCARS DE 2010
Foram hoje revelados os nomeados para os Oscars de 2010, referentes aos filmes estreados em 2009. A cerimónia de atribuição decorrerá no Kodak Theatre em Hollywood, no próximo dia dia 7 de Março. Até façam as vossas apostas. Eu também prometo fazer as minhas.

MELHOR FILME
Avatar
The Blind Side
Distrito 9
An Education
Estado de Guerra
Sacanas Sem Lei
Precious
A Serious Man
Up - Altamente!
Nas Nuvens

MELHOR REALIZADOR
Kathryn Bigelow
James Cameron
Quentin Tarantino
Lee Daniels
Jason Reitman

MELHOR ACTOR
Jeff Bridges - Crazy Heart
George Clooney - Nas Nuvens
Colin Firth - A Single Man
Morgan Freeman - Invictus
Jeremy Renner - Estado de Guerra

MELHOR ACTRIZ
Sandra Bullock - The Blind Side
Helen Mirren - A Última Estação
Carey Mulligan - An Education
Gabourey Sidibe - Precious
Meryl Streep - Julie e Júlia

MELHOR ACTOR SECUNDÁRIO
Matt Damon - Invictus
Woody Harrelson - The Messenger
Christopher Plummer - A Última Estação
Stanley Tucci - Visto do Céu
Christoph Waltz - Sacanas Sem Lei

MELHOR ACTRIZ SECUNDÁRIA
Penelope Cruz – Nove
Vera Farmiga - Nas Nuvens
Maggie Gyllenhaal - Crazy Heart
Anna Kendrick - Nas Nuvens
Mo'nique - Precious

MELHOR ARGUMENTO ORIGINAL
Mark Boal - Estado de Guerra
Quentino Tarantino - Sacanas Sem Lei
Alessandro Camon & Oren Moverman - The Messenger
Joel & Ethan Coen - A Serious Man
Peter Docter, Bob Peterson, Tom McCarthy - Up-Altamente!

MELHOR ARGUMENTO ADAPTADO
Neill Blomkamp & Terri Tatchell - Distrito 9
Nick Hornby - An Education
Jesse Armstrong, Simon Blackwell, Armando Iannucci & Tony Roche - In The Loop
Geoffrey Fletcher, Precious
Jason Reitman & Sheldon Turner - Nas Nuvens

MELHOR FILME EM LINGUA NÃO INGLESA
Ajami - Israel
El Secretro de sus Ojo - Argentina
The Milk of Sorrow - Chile
O Profeta - França
O Laço Branco - Alemanha

MELHOR FILME DE ANIMAÇÃO
Coraline
O Fantástico Senhor Raposo
Princesa e o Sapo
The Secrets of Kells
Up - Altamente!

MEHOR DIRECÇÃO ARTÍSTICA
"Avatar" - Rick Carter and Robert Stromberg; Set Decoration: Kim Sinclair
"Parnassus - O Homem que Queria Enganar o Diabo" - Dave Warren and Anastasia Masaro; Set Decoration: Caroline Smith
"Nove" - John Myhre; Set Decoration: Gordon Sim
"Sherlock Holmes" - Sarah Greenwood; Set Decoration: Katie Spencer; Patrice Vermette; Set Decoration: Maggie Gray

MELHOR FOTOGRAFIA
"Avatar” - Mauro Fiore
"Harry Potter e o Principe Misterioso" - Bruno Delbonnel
"Estado de Guerra" - Barry Ackroyd
"Sacanas Sem Lei" - Robert Richardson
"O Laço Branco" - Christian Berger

MELHOR GUARDA-ROUPA
"Bright Star" - Estrela Cintilante” Janet Patterson
"Coco before Chanel” Catherine Leterrier
"Parnassus - O Homem que Queria Enganar o Diabo" - Monique Prudhomme
"Nove" Colleen Atwood
"A Jovem Vitória” Sandy Powell

MELHOR DOCUMENTÁRIO
"Burma VJ" Anders Østergaard and Lise Lense-Møller
"The Cove" Nominees to be determined
"Food, Inc." Robert Kenner and Elise Pearlstein
"The Most Dangerous Man in America: Daniel Ellsberg and the Pentagon Papers" Judith Ehrlich and Rick Goldsmith
"Which Way Home" Rebecca Cammisa

MELHOR DOCUMENTÁRIO - CURTA-METRAGEM
“China’s Unnatural Disaster: The Tears of Sichuan Province” Jon Alpert and Matthew O’Neill
“The Last Campaign of Governor Booth Gardner” Daniel Junge and Henry Ansbacher
“The Last Truck: Closing of a GM Plant” Steven Bognar and Julia Reichert
“Music by Prudence” Roger Ross Williams and Elinor Burkett
“Rabbit à la Berlin” Bartek Konopka and Anna Wydra

MELHOR MONTAGEM
“Avatar” Stephen Rivkin, John Refoua and James Cameron
“District 9” Julian Clarke
“The Hurt Locker” Bob Murawski and Chris Innis
“Inglourious Basterds” Sally Menke
“Precious: Based on the Novel ‘Push’ by Sapphire” Joe Klotz

MELHOR MAQUILHAGEM
“Il Divo” Aldo Signoretti and Vittorio Sodano
"Star Trek” Barney Burman, Mindy Hall and Joel Harlow
“The Young Victoria” Jon Henry Gordon and Jenny Shircore

MELHOR BANDA SONORA
“Avatar” James Horner
“Fantastic Mr. Fox” Alexandre Desplat
“The Hurt Locker” Marco Beltrami and Buck Sanders
“Sherlock Holmes” Hans Zimmer
“Up” Michael Giacchino

MELHOR CANÇÃO
“Almost There” from “The Princess and the Frog” Music and Lyric by Randy Newman
“Down in New Orleans” from “The Princess and the Frog” Music and Lyric by Randy Newman
“Loin de Paname” from “Paris 36” Music by Reinhardt Wagner Lyric by Frank Thomas
“Take It All” from “Nine” Music and Lyric by Maury Yeston
“The Weary Kind (Theme from Crazy Heart)” from “Crazy Heart” Music and Lyric by Ryan Bingham and T Bone Burnett

MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
“French Roast” Fabrice O. Joubert
“Granny O’Grimm’s Sleeping Beauty” Nicky Phelan and Darragh O’Connell
“The Lady and the Reaper (La Dama y la Muerte)” Javier Recio Gracia
“Logorama” Nicolas Schmerkin
“A Matter of Loaf and Death” Nick Park

MELHOR CURTA-METRAGEM EM IMAGEM REAL
“The Door” Juanita Wilson and James Flynn
“Instead of Abracadabra” Patrik Eklund and Mathias Fjellström
“Kavi” Gregg Helvey
“Miracle Fish” Luke Doolan and Drew Bailey
“The New Tenants” Joachim Back and Tivi Magnusson

MELHOR MONTAGEM SONORA
“Avatar” Christopher Boyes and Gwendolyn Yates Whittle
“The Hurt Locker” Paul N.J. Ottosson
“Inglourious Basterds” Wylie Stateman
“Star Trek” Mark Stoeckinger and Alan Rankin
“Up” Michael Silvers and Tom Myers

MELHOR SONOPLASTIA
“Avatar” Christopher Boyes, Gary Summers, Andy Nelson and Tony Johnson
"The Hurt Locker” Paul N.J. Ottosson and Ray Beckett
“Inglourious Basterds” Michael Minkler, Tony Lamberti and Mark Ulano
“Star Trek” Anna Behlmer, Andy Nelson and Peter J. Devlin
“Transformers: Revenge of the Fallen” Greg P. Russell, Gary Summers and Geoffrey Patterson

MELHORES EFEITOS VISUAIS
“Avatar” Joe Letteri, Stephen Rosenbaum, Richard Baneham and Andrew R. Jones
“District 9” Dan Kaufman, Peter Muyzers, Robert Habros and Matt Aitken
“Star Trek” Roger Guyett, Russell Earl, Paul Kavanagh and Burt Dalton.

UM BEIJO PARA ROSA LOBATO FARIA

ROSA LOBATO FARIA
Morreu aos 77 anos
A actriz, escritora e compositora Rosa Lobato Faria, de 77 anos, morreu hoje, 2 de Fevereiro, depois de ter sido internada há uma semana com uma anemia grave num hospital privado de Lisboa. O seu editor na ASA e agora na PortoEditora, Manuel Alberto Valente, recorda-a como "uma pessoa extraordinária" e revela que Lobato Faria desejava publicar um novo romance este ano. Lauro António, realizador, frisa que "ela deixa uma marca forte no mundo do espectáculo e da cultura portuguesa".
Rosa Lobato Faria estava internada num hospital privado de Lisboa há uma semana devido a anemia e já há mais de seis meses que sofria de complicações devidas a uma cirurgia motivada por uma infecção intestinal. Era viúva de Joaquim Figueiredo Magalhães, editor literário, desde 26 de Novembro de 2008.
"É uma grande dor e uma grande perda", lamenta Manuel Alberto Valente ao PÚBLICO, que editou o primeiro romance da autora - "Para além de ser muito bem escrito, trazia para a área da ficção essa marca poética muito forte de todo o trabalho dela" - e quase toda a sua obra desde então.
"Foi crescendo entre nós uma amizade muito grande. Eu era uma das primeiras pessoas a ler cada original que ela terminava. Tinha prometido entregar-nos brevemente o novo romance que queria publicar ainda este ano. Não sei em que fase estava da escrita desse romance, mas vou agora tentar saber junto da família."
Lauro António, realizador de cinema que dirigiu Rosa Lobato Faria em "Paisagem Sem Barcos" (1983) e "O Vestido Cor de Fogo" (1986), elogia a sensibilidade e a elegância da actriz, que "ao mesmo tempo [era] muito intensa ao nível das suas convicções e paixões". O realizador assinala ainda que "a imagem que se tinha dela correspondia muito à sua essência. Tinha uma beleza interior e exterior e uma certa serenidade – curiosamente aproveitei essa serenidade para lhe dar papéis em que era fria, distante, personagens um pouco hipócritas".
"E, não sendo uma feminista militante, tinha uma personalidade forte, e deu um bom retrato da mulher, ajudando a alterar a imagem da mulher em Portugal nos últimos 50 anos", sublinha Lauro António ao PÚBLICO.
O Ministério da Cultura manifestou, em comunicado, "grande pesar pelo falecimento" da poetisa e romancista, destacando que "a actividade que desenvolveu na área da escrita, fundamentalmente como autora de romances, mas também de poemas, contos, peças de teatro, argumentos para televisão e letras de músicas e, ainda, como actriz em filmes e séries televisivas constituem um legado que atesta a sua criatividade e extrema sensibilidade e que perpetuará como fonte de inspiração para novas gerações".
A escritora (poeta e romancista) e actriz nasceu em Lisboa em abril de 1932. O seu primeiro romance, "O Pranto de Lúcifer", foi editado em 1995, mas publicara já antes vários volumes de poesia - como "Os Deuses de Pedra" (1983) ou "As Pequenas Palavras" (1987). O essencial da sua poesia está reunido no volume "Poemas Escolhidos e Dispersos" (1997). Em 1999, na ASA, publica "A Gaveta de Baixo", um longo poema inédito acompanhado por aguarelas do pintor Oliveira Tavares.
Como romancista publicou ainda "Os Pássaros de Seda" (1996), "Os Três Casamentos de Camilla S." (1997), "Romance de Cordélia" (1998), "O Prenúncio das Águas" (1999, que foi Prémio Máxima de Literatura em 2000) e "A Trança de Inês" (2001). Escreveu também "O Sétimo Véu" (2003), "Os Linhos da Avó" (2004), "A Flor do Sal" (2005), "A Alma Trocada" (2007) e "A Estrela de Gonçalo Enes" (2007), além de ter assinado vários livros infantis. Os dois primeiros romances tiveram tradução na Alemanha e "O Prenúncio das Águas" foi publicado em França pelas Éditions Métailié. O seu último livro, "As Esquinas do Tempo", foi publicado em 2008 pela Porto Editora.
Como actriz, Lobato Faria integrou o elenco da primeira novela portuguesa, "Vila Faia" (1983), e trabalhou com Herman José em "Humor de Perdição" também como argumentista. Filmou com João Botelho ("Tráfico, de 1998, e "A Mulher Que Acreditava Ser Presidente dos Estados Unidos da América", de 2003). Foi também dirigida por Lauro António em "Paisagem Sem Barcos" (1983) e "O Vestido Cor de Fogo" (1986). Estreou-se como locutora na RTP na década de 1960.
Escreveu ainda dezenas de letras para canções, muitas delas para festivais da canção. Entre elas o conhecido "Chamar a Música", interpretado por Sara Tavares.
02.02.2010 - 17:19 Por PÚBLICO
Nas imagens, Rosa Lobato Faria em Paisagem sem Barcos e O Vestido Cor de Fogo,
aqui ao lado se Josefina Silva e Adelaide Joao

domingo, janeiro 24, 2010

CINEMA: A ESTRADA

:
A ESTRADA

Estamos na América, mas poderíamos estar “no mundo”. Há um homem e uma criança, pai e filho, a percorrer estradas, rumo ao Sul. Mas não há um homem e uma criança apenas. Esse homem e essa criança são mais do que um homem e uma criança. Se fossem só isso, teriam nomes. Mas não os ostentam. São “o” Homem, “a” Criança. Símbolos exemplares de uma parte da Humanidade. De uma Humanidade que colapsou sabe-se lá porquê e como e quando. Estamos num planeta destruído, onde ainda se vão verificando réplicas de tremores de terra que transformam o solo que pisamos num mar agitado. Conflito natural, ou bomba nuclear? Terramoto ou atentado? O que se sabe é que a Terra é um lugar perigoso, muito perigoso, infestado por homens maus, que um homem e uma criança bons procuram evitar, e “chegar ao Sul”. O que divide os “good guys” dos “bad guys”, se todos eles têm fome e frio, vivem ao abandono e sobrevivem vegetando? Uns são canibais e os outros não, teimam em não se alimentarem de carne humana. Uns e outros vão morrer. Alguns suicidam-se para não enfrentar o dilema, a escolha. Os que ficam ou resistem na sua humanidade ou prevaricam na sua desumanidade. Restos humanos são encontrados aqui e ali, caveiras espetadas em estacas ornamentam jardins secos de vida, crianças servem-se grelhadas como pitéus apetecíveis, há mesmo dispensas de carne viva, caves que mais parecem galinheiros onde, à falta de galináceos, se guardam pessoas para serem comidas mais tarde. Quando chegar o momento e o frio do inverno apertar. Neste mundo, as árvores erguem-se mortas ou caem ruidosamente sobre a terra. Secas. Exaustas. As cidades estão desertas, ou quase, pois se pode adivinhar a cada esquina um caçador faminto em busca do que quer que seja que o alimente por mais uns dias, ou de um par de sapatos para os pés em chaga, ou de um cobertor para o proteger do ar gélido e da neve que cai. As estradas estendem-se sem fim na desolação do vazio ou da destruição mais completa e seriam terreno fácil de calcorrear, mesmo puxando um carrinho de supermercado, com os únicos haveres possíveis de transportar, se não existisse por todo o lado o perigo do “ outro homem”, da ameaça latente nos olhos com que se confrontam. Uma ameaça que pode vir de um camião em lento andamento rodeado por predadores esfomeados, ou de um ladrão fortuito, ou de uma família de canibais, ou do simples medo que se interioriza até também ele corroer os ossos.
Como se terá chegado aqui, a este extremo?
(Sem sequer o imaginar, Cormac McCarthy na escrita, e depois o realizador australiano John Hillcoat no cinema, antecipavam imagens e sentimentos que se projectam de Port-au-Prince, no Haiti).
“Nós somos os bons, nós não comemos pessoas, pois não?”, pergunta o filho ao pai, para se certificar pela milionésima vez de que são diferentes. O pai responde sempre que não, e vai afirmando que tudo está bem, que hão-se chegar ao Sul, à terra das “pessoas boas”. Curiosa regressão, ou inversão, no ideário americano, habituado a ir para Oeste, em busca de novas fronteiras, e para Norte, para a industrialização e o progresso. Terá sido a ideia de novas fronteiras e a sugestão de progresso que conduziram o mundo ao apocalipse? Será a descida para Sul, para o mar (“desculpa, não é azul, como te tinha prometido”, justifica-se o pai), o regresso ao passado rural e mais de acordo com a harmonia do homem com a natureza?
Um pai e um filho, numa paisagem inóspita, num mundo atroz, numa terra que escorre sangue, num território sem lei (recordando o farwest dos filmes de cowboys, onde as armas impunham a lei, tal como aqui, só sobrevive quem tem uma arma), caminham para Sul. São sobreviventes de algo de catastrófico, de um terror imenso que paira sobre a América do pós-11 de Setembro. Caminham com base num velho mapa, sem outras coordenadas que não seja a intuição. Palmilham quilómetros sem outra convicção que não seja uma esperança absurda numa remota hipótese de que nem toda a humanidade tenha desaparecido no coração dos homens. As areias das praias de Leste e o prometido aroma das terras do Sul são o destino.
"Naqueles primeiros anos, as estradas estavam cheias de refugiados amortalhados nas suas roupas. Usavam máscaras e óculos de protecção, sentados na berma com os seus andrajos no corpo, quais aviadores reduzidos à indigência. Traziam carrinhos de mão a abarrotar de bugigangas, puxavam carroças ou reboques. De olhos a brilhar no crânio. Carapaças de homens sem uma réstia de fé aos tropeções pelos viadutos, como bandos migratórios numa terra febril. A fragilidade das coisas enfim revelada." (in “The Road”).
Esta a obra de Cormac McCarthy, escrita numa linguagem descarnada e despida de ornamentos, tão seca e inóspita quanto a paisagem que descreve e os sentimentos que retrata. Uma escrita de que já se conhecia a rudeza e a limpidez de outras obras, mas que não deixa de surpreender pela secura. Um grande romance que valeu, em 2007, o Prémio Pulitzer ao seu autor, o escritor de que um outro romance já servira de base ao fabuloso filme dos irmãos Cohen, “Este País não é para Velhos” (“No Country for Old Men”).
O introspectivo e solitário Cormac McCarthy, avesso a entrevistas e aparições públicas, é, hoje em dia, considerado um dos grandes da moderna literatura norte-americana, colocado apenas ao lado de Philip Roth, Don DeLillo e Thomas Pynchon (foi o crítico literário Harold Bloom quem o afirmou). A sua carreira já conta com mais de quarenta anos, ao longo dos quais publicou dez romances, alguns editados em Portugal, “O Guarda do Pomar” (The Orchard Keeper, 1965), “Filho de Deus” (Child of God, 1974), “Belos Cavalos” (All the Pretty Horses, 1992), “Meridiano de Sangue” (Blood Meridian, or the Evening Redness in the West, 1985), “Este País Não é Para Velhos” (No Country for Old Men, 2005), “A Estrada” (The Road, 2006) e “Suttree” (1979). Os outros são “Outer Dark” (1968), The Crossing” (1994) e “Cities of the Plain (1998), além de duas peças de teatro, “Sunset Limited”, “The Stonemason” (1995). Não há complacências neste olhar angustiado e algo desesperado sobre o futuro do homem, mas a posição metafísica e a mitologia religiosa do autor nunca deixam de acenar na perspectiva de uma regeneração do Homem, de uma qualquer esperança, que até pode ser o nome de um barco encalhado junto à costa.
Cormac McCarthy não é novo no cinema, ainda que o seu universo só muito recentemente tenha começado a interessar a indústria cinematográfica. Diga-se que os seus romances não são o que normalmente se adapta bem a rentáveis produtos audiovisuais e nem a sua intransigência de trato se presta muito a compromissos. Mas já escrevera um argumento original para televisão, para um episódio da série "Visions" (1977), que tinha como título “The Gardener's Son”, dirigido por Richard Pearce. Depois, em 2000, Billy Bob Thornton adaptara a cinema “All the Pretty Horses” ("Espírito Selvagem"), antes dos Cohen o tornarem célebre com a sua magnífica versão de “Este País não é para Velhos” ("No Country for Old Men", 2007). Há ainda a referir uma curta-metragem de Stephen Imwalle, retirada de “Outer Dark”, em 2009. Agora “A Estrada” (2009) e já se anunciam “Blood Meridian” (2011), uma realização e adaptação de Todd Field, o mesmo que nos dera em 2006, “Pecados Íntimos”, "Little Children", e ainda uma versão de “Cities of the Plain”, escrita e dirigida por Andrew Dominik (o realizador de “O Assassínio de Jesse James pelo Cobarde Robert Ford” (2007)), e prevista para 2012. Finalmente, “The Sunset Limited” está a ser adaptado a televisão, por Tommy Lee Jones (2010). Tarde descoberto, mas depressa recuperado pela indústria, pode dizer-se.
Se “Este País não é para Velhos” era uma obra notável, recriando sabiamente personagens situações e clima de Cormac McCarthy, “A Estrada” não andará longe, dado que recupera com grande fidelidade o espírito do romance, recriando-o numa atmosfera demencial de destruição e solidão, com excelente direcção artística, uma óptima escolha de locais de filmagem (na Pensilvânia, em redor do lago Erié e em zonas mineiras, na Louisiania batida pelo furacão Katrina, e ainda no Oregon), uma fotografia densa e dramática, e um envolvimento sonoro que, mesmo para um admirador de Nick Cave, se tenha mostrado um pouco excessiva, mas, como sempre, de grande qualidade.
John Hillcoat é australiano (nasceu em 1961, em Queensland), onde iniciou a carreira de argumentista e realizador. Documentários e vídeo clipes (1) foram a base da sua filmografia inicial, com uma colaboração íntima com Nick Cave que se estende até hoje (“The Road” tem banda sonora assinada por ele). Os seus filmes foram “Ghosts... of the Civil Dead” (1988), “To Have & to Hold” (1996), “Nick Cave and the Bad Seeds: Babe, I'm on Fire” (2003), “The Proposition” (2005), único conhecido do público português, com o título “Escolha Mortal”, e agora “A Estrada” (2009).
Para interpretar as duas figures centrais, sobre as quais repousa toda a duração do filme, Hillcoat escolheu dois actores excelentes, o rigoroso Viggo Mortensen, que se auto domina de filme para filme com um brilhantismo inexcedível, e o jovem Kodi Smit-McPhee, surpreendente na sua contribuição. Em pequenos papéis, Charlize Theron consegue emocionar em duas ou três cenas, Robert Duvall é precioso de concisão e Guy Pearce, a imagem requerida da esperança na continuação dos “homens bons”.
O filme não é pêra doce de consumo fácil, amarga na recordação de quem o vê, mas é um impressionante sintoma de uma época de mau estar que urge não perder de vista. Sob pena de um dia nos encontrarmos todos nessa mesma “estrada” sem fim.

(1) Videos: Siouxsie and the Banshees – “Stargazer” (1995), Manic Street Preachers – “Australia” (1996), Bush – “Personal Holloway” (1997), Placebo - "You don't care about us"(1998), “Therapy? - Church of Noise” (1998), “Therapy? - Lonely, Cryin' Only” (1998), Depeche Mode – “I Feel Loved” (2001), “Freelove” (2001) e “Goodnight Lovers” (2002). “Gemma Hayes - Hanging Around” (2002), “Nick Cave and the Bad Seeds - Babe I'm On Fire” (2003), AFI - "Silver and Cold" (2003). Documentários: “The INXS: Swing and Other Stories” (1985), “Alleys and Motorways” (1997) – “Documentary of the band Bush e Digital Hardcore Videos (2001).
A ESTRADA
Título original: The Road
Realização: John Hillcoat (EUA, 2009); Argumento: Joe Penhall, segundoo romance de Cormac McCarthy; Produção: Paula Mae Schwartz, Steve Schwartz, Nick Wechsler, Marc Butan, Mark Cuban, Erik Hodge, Rudd Simmons, Todd Wagner; Música: Nick Cave, Warren Ellis; Fotografia (cor): Javier Aguirresarobe; Montagem: Jon Gregory; Casting: Francine Maisler; Design de produção: Chris Kennedy; Direção artística: Gershon Ginsburg; Cenário: Robert Greenfield; Guarda-roupa: Margot Wilson; Maquilhagem: Mandi Crane, Rocky Faulkner, Toni G, Deborah Patino, Yoichi Art Sakamoto, Jennifer Santiago, Geordie Sheffer; Director de produção: Buddy Enright, Michelle Krumm, Jamey Pryde; Assistente de realização: Vernon Davidson, Ryan Krayser, John Nelson, Karen Radzikowski; Departamento de Arte: Edgar Um Bucholtz, Robert Greenfield III, Charles Miller, Mary O'Brien, Joseph Waterkotte; Som: Leslie Shatz; Efeitos Especiais: David Fletcher, Ken Gorrell, Thomas Kittle; Efeitos visuais: Joseph DiValerio, Mark O. Forker, John Karner, Adica Manis, Eric J. Robertson, Robert Stromberg; Companhias de Produção: Dimension Films, 2929 Productions, Nick Wechsler Productions, Chockstone Pictures, Road Rebel; Intérpretes: Viggo Mortensen (Homem), Kodi Smit-McPhee (Rapaz), Robert Duvall (Velho), Guy Pearce (Veterano), Molly Parker (Mãe), Michael K. Williams (Ladrão), Garret Dillahunt (Membro de Gang), Charlize Theron (Mulher), Bob Jennings, Agnes Herrmann, Buddy Sosthand, Kirk Brown, Jack Erdie, David August Lindauer, Gina Preciado, Mary Rawson, Jeremy Ambler, Chaz Moneypenny, Kacey Byrne-Houser, Brenna Roth, Jarrod DiGiorgi, Mark Tierno, Nick Pasqual, etc. Duração: 111 minutos; Classificação etária: M/ 16 anos; Distribuição em Portugal: Zon Lusomundo Audiovisuais; Estreia em Portugal: 7 Janeiro 2010.
para ler mais sobre Cormac McCarthy: AQUI
para ler sobre "Este País não é para Velhos: AQUI

segunda-feira, janeiro 18, 2010

GLOBOS DE OURO - VENCEDORES

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Os vencedores da 67.ª edição dos Globos de Ouros foram:

EM CINEMA

Prémio Cecil B DeMille
Martin Scorcese

Melhor filme dramático
Avatar

Melhor realizador
James Cameron – Avatar

Melhor comédia ou musical
A Ressaca

Melhor actor em filme dramático
Jeff Bridges – Crazy Heart

Melhor actriz em filme dramático
Sandra Bullock – The Blinde Side

Melhor actor em comédia ou musical
Robert Downey Jr. - Sherlock Holmes

Melhor actriz em comédia ou musical
Meryl Streep – Julie e Júlia

Melhor actor secundário em cinema
Christoph Walltz – Sacanas Sem Lei

Melhor actriz secundária em cinema
Mo'nique – Precious

Melhor Argumento
Jason Reitman, Sheldon Turner – Nas Nuvens

Melhor filme de animação
Up – Altamente!

Melhor Banda Sonora
Michael Giacchino - Up – Altamente!

Melhor Canção
Ryan Bingham e T Bone Burnett "The Weary Kind” - Crazy Heart

Melhor filme de Lingua Estrangeira
O Laço Branco - Michael Haneke

EM TELEVISÃO

Melhor série dramática
Mad Men

Melhor série cómica ou musical
Glee

Melhor actor em série dramática
Maichael C. Hall – Dexter

Melhor actriz em série dramática
Julianna Margulies – The Good Wife

Melhor actor em série cómica ou musical
Alec Baldwin – 30 Rock

Melhor Actriz em série cómica ou musical
Toni Collete – United States of Tara

Melhor mini-série ou filme para televisão
Grey Gardens

Melhor actor para mini-série ou filme para televisão
Kevin Bacon – Taking Chance

Melhor actriz para mini-série ou filme para televisão
Drew Barrimore – Grey Gardens

Melhor actor secundário série de televisão
John Lithgow – Dexter

Melhor actriz secundária série de televisão
Chloë Sevigny – Big Love

Quem acompanhar o que se escreve neste blogue sobre os filmes nomeados já estreados em Portugal vai descobrir uma quase total sintonia entre o que aqui se escreveu e os prémios atribuídos, com a excepção de "Up - Altamente!", que não provocu a minha completa adesão.

domingo, janeiro 17, 2010

"A NEVE" NA COVILHÃ

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EM BUSCA DE "A NEVE" PELOS CAMINHOS DA COVILHÃ

Partida de e regresso a Lisboa no Inter-Cidades, com dois dias e meio de paragem e permanência na Covilhã. Pouco vi da cidade, que tem uma parte antiga com vestígios abandonados dos tempos áureos dos lanifícios e amargas recordações humanas de misérias e prepotências, pouco vi da cidade que ostenta marcas bem conservadas da arquitectura do Estado Novo (a praça do município é um sóbrio e elegante recanto, infelizmente desfigurada pela intromissão de modernidades mal encaixadas), apenas percorri de carro as avenidas novas que estendem a cidade até fora de (antigas) portas, demonstrando certamente algum rejuvenescimento e novas actividades, onde a universidade tem um destacado papel. Dificilmente se andava na rua, o passeio turístico era quase impossível. Não pela neve, que só vi no teatro, mas pela chuva e o frio. E um nevoeiro denso. Ainda deu tempo para passar por um agradável museu, na companhia da Eduarda e do José Carretas, percorrendo cinco andares de arte sacra com algumas revelações curiosas. De resto, a agenda apertada em redor de Vergílio Ferreira não deixava igualmente tempo para outras delongas. Uma paragem no café Montiel, rápidos almoços e jantares para recordar algumas fortes tipicidades da região (e as papas de carolo), e o resto foi passado na companhia do Grupo de Teatro das Beiras, 30 anos de persistência na Serra, e no interior de Portugal, a representar textos como este “A Neve” segundo cinco contos de Vergílio Ferreira (“O Encontro”, “A Palavra Mágica”, “A Fonte”, “A Galinha” e “A Estrela”).
Durante a entrevista à Beira TV e durante o debate,
entre o professor Luis Nogueira, da UBI, e Sónia Botelho, do GTB
Dada a minha proximidade com o escritor e os filmes que sobre ele e com ele realizei, fui convidado a “abrilhantar” os festejos em redor de tão grato amigo e tão admirado escritor. A 14 de Janeiro passaram quatro filmes meus num dos auditórios da Universidade da Beira Interior, que assim se juntou igualmente às comemorações. A UBI tem um curso de cinema que funciona já há algum tempo, com resultados satisfatórios, e muitos alunos (cerca de 200 dispersos por cinco anos, segundo nos contaram). Em duas sessões por ali passaram “Vergílio Ferreira numa “Manhã Submersa” (50 ‘) e “Prefácio a Vergílio Ferreira” (15’), ambos documentários, e “Mãe Genoveva” (50’) e “Manhã Submersa” (127’), duas ficções sobre textos do escritor de Melo. O público não foi muito, mas a recepção parece ter sido muito simpática da parte de alunos, professores e actores. No dia seguinte, uma longa entrevista para uma televisão local e um demorado debate na sala do Café Concerto do Teatro das Beiras ocuparam a tarde toda a recordar Vergílio Ferreira, a sua obra, os filmes dela retirados, as grandezas e as misérias do cinema português. Enfim, o normal, mas com boa adesão de público e de questões.
À noite, na sala do Teatro das Beiras, vi “A Neve”.
Impressões? Globalmente boas mas, antes de lá chegar, reforçar a heróica resistência do que é ser uma companhia de teatro residente no interior do país. Fazer teatro na Covilhã, há trinta anos, é obra. Uma média de quatro espectáculos por ano: dois em sala, um ao ar livre e um infantil. Um sala com 90 lugares, desviada do centro da cidade, para lá se chegar descem-se rampas, ruas e azinhagas, depois escadas e mais escadas. Numa noite chuvosa e fria como aquela em que lá estive, havia aquecimentos aqui e ali para cortar o agreste do ambiente. Cerca de 50 espectadores bem agasalhados, dispersos pelas cadeiras vermelhas. É heróico encenar e representar assim, mas também é heróico ser-se espectador. Entretanto, na praça principal da Covilhã, quase ao lado do palácio do Município, jaz (quase) morto e arrefece um Cine-Teatro que deverá ter tido os seus dias áureos nos anos 50 do século passado (quando os cine-teatros eram populares e se disseminavam pela província em réplicas do lisboeta Monumental). Olha-se e percebe-se que está “encerrado para obras” há anos. Portanto nada de muito urgente, certamente. “É a cultura!”, como diz o outro.

Agora a peça: dois reparos iniciais em relação à adaptação e que têm a ver seguramente com uma opinião pessoal, que se rege por gosto e estilo próprios. Acho que globalmente o tom do espectáculo está um pouco distante do universo agreste e trágico de Vergílio Ferreira, mesmo quando este se serve do humor e da ironia. Talvez esta sensação derive do facto de existirem, como ponto de partida, cinco contos, cinco unidades distintas, cinco pequenas histórias entrelaçadas. Este aspecto talvez impeça uma progressão dramática que imponha uma outra densidade de clima que me parece essencial. Cada episódio esboça uma situação, recria um ambiente, mas na totalidade sinto que não consegue impor um clima denso. Questão de fundo, é certo, mas apesar disso uma observação que não invalida o resultado final do esforço da companhia. O despojamento e a simplicidade funcionam bem, a poesia dura e fria paira no palco, a desesperança e o rigor da noite beirã estão lá, o ressuscitar de um tempo de angústia e solidão maior pressentem-se. Este é um cenário sem amor, com rara solidariedade, com temor e “neve”. Neve que é branca, mas fere como uma faca afiada.
Aceitando esta premissa, a encenação é bastante boa, inteligente, cheia de pequenos apontamentos (o início com a apresentação do escritor, a cena das galinhas, o episódio da “estrela”) que denotam o talento e a experiencia de José Carretas. O elenco é jovem, mas eficaz e homogéneo (Fernando Landeira, Pedro Damião, Pedro da Silva, Rui Raposo Costa, Sónia Botelho e Teresa Baguinho), cenários, adereços e figurinos funcionam muito bem (Nuno Lucena, José Carretas e Margarida Wellenkamp), o desenho de luz cria a ambiência requerida, a música original mostra-se inspirada (Telmo Marques).
Vergílio Ferreira continua vivo, com fervorosos admiradores, que passam de geração em geração esta “neve” serrana que esteve na génese de tanta da sua criação literária.




Com José Carretas, ladeando a estátua A Mãe.

Com Sónia Botelho, actriz, entusiasta maior de Vergilio Ferreira,
Fernando Sena, director da Companhia do Teatro das Beiras, e Rui Raposo Costa, actor.
(fotos gentilmente cedidas por MEC)

quarta-feira, janeiro 13, 2010

VERGÍLIO FERREIRA NO CINEMA E NO TEATRO

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No Teatro das Beiras, Aqui:
Lauro António encontra
Vergílio Ferreira na Covilhã

Como introdução ao espectáculo "A NEVE", e dentro das actividades “Vergiliando – viagem ao universo de Vergílio Ferreira”, temos o prazer de receber Lauro António, apreciador de Vergílio Ferreira e da sua obra. A 14 de Janeiro, na Cinubiteca da Universidade da Beira Interior serão projectados o documentário “Vergílio Ferreira numa Manhã Submersa”, a longa metragem “Mãe Genoveva”, o documentário “Prefácio a Vergílio Ferreira” e a longa metragem “Manhã Submersa”. A 15 de Janeiro, no café teatro do Teatro das Beiras, às 16:00, haverá uma conversa sobre "Vergílio Ferreira no cinema" com Lauro António.


Horário das actividades:

(todos os filmesde Lauro António sobre Vergílio Ferreira)


Dia 14, na Cinubiteca da Universidade da Beira Interior
18,00 H “Vergílio Ferreira numa “Manhã Submersa” – doc. 50 ‘
19,00 H “Mãe Genoveva” - ficção 50’
22,00 H “Prefácio a Vergílio Ferreira”– doc. 15’
22,20 H “Manhã Submersa”- ficção 127’


Dia 15, no Café teatro do Teatro das Beiras
16,00 H Conversa sobre Vergílio Ferreira no cinema com Lauro António
21,30 H Espectáculo “A Neve”

Lauro António nasceu a 18 de Agosto de 1942, em Lisboa. Licenciado em História, foi membro do Cine-clube Universitário de Lisboa e, mais tarde, director do ABC Cine-Clube, actividades que o levam à crítica cinematográfica a partir de 1963 e, mais tarde, à coordenação da programação de algumas salas e festivais de cinema. Como sucedeu com outros cineastas da sua geração, particularmente activos após a Revolução de 25 de Abril de 1974, uma forte componente do seu trabalho destinou-se à televisão. Foi para a RTP que realizou em 1983 um conjunto de longas-metragens, sob a designação comum de Histórias de Mulheres, constituído por quatro títulos: Paisagem sem Barcos, Mãe Genoveva, Casino Oceano e A Bela e a Rosa.
Lauro António tem prosseguido a sua actividade como ensaísta e documentarista, tendo-se, porém, nos últimos anos mantido afastado do cinema. Manhã Submersa estreada no Festival de Cannes de 1980 permanece como a obra maior do realizador. Nos inícios da década de 1990 esteve associado com a rede de televisão portuguesa TVI para a qual foi programador de cinema e na qual teve um horário especial em que apresentava filmes da sua escolha, chamado Lauro António apresenta.
Para mais informações sobre o cineasta:
http://www.imdb.com/name/nm0031642/
http://pt.wikipedia.org/wiki/Lauro_Ant%C3%B3nio
http://lauroantonioapresenta.blogspot.com/
Janeiro 12, 2010 (transcrição da notícia do site do "Teatro das Beiras")

HOMENAGEM


Lhasa de Sela

(27 de Setembro de 1972-1 de Janeiro de 2010)

CANTAR PELA PAZ

ALL YOU NEED IS LOVE

165 países em uníssono cantam pela Paz
(roubado à Mec, porque merece)

segunda-feira, janeiro 11, 2010

CINEMA: AVATAR

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AVATAR

Sim, julgo que “Avatar” é um acontecimento. Uma revolução nos caminhos do cinema, mas não me parece que o seja somente no campo das novidades tecnológicas, quer se fale da imagem, da animação, das 3D ou mesmo do som. “Avatar” é realmente o primeiro filme em 3D que os jovens podem (e devem) ver, mas que se destina a todos os públicos e que, sobretudo, os adultos colherão muitos ensinamentos se não o perderem. Ensinamentos e prazer.
“Avatar” é uma experiência única até hoje no cinema. É evidente que os irredutíveis, aqueles para quem o cinema acabou em Murnau, ou quanto muito nos clássicos dos anos 40 e 50, esses acharão “Avatar” uma monstruosidade tecnológica. Mas em arte, como em tudo o mais na vida, nada pára, tudo se transforma, e “Avatar” representa hoje em dia, por exemplo, o que “Citizen Kane” representou em 1942. Uma revolução no cinema, possibilitada por novos meios técnicos, mas que um realizador de génio coloca ao serviço de uma narrativa e de uma ideia.
Se “Avatar” não fosse em 3D seria um filme extremamente interessante. Não compreendo os que falam de uma historieta simples e fraquinha. Sem interesse. Muito pelo contrário. O argumento de “Avatar”, criado por James Cameron, é excelente. Fala-nos de Jake Sully, um ex-fuzileiro naval, agora paraplégico, que se arrasta numa cadeira de rodas, a quem é proposta uma segunda vida: dele será retirado um avatar, um ser geneticamente reconstruído, mesclando o seu ADN com o dos indígenas de Pandora, os chamados Na`vi, considerados bárbaros inimigos do progresso, que se opõem à extracção de um minério raro, o “unobtanium”, que os humanos perseguem. É conveniente recordar que Pandora é uma lua que tem um ambiente muito semelhante ao da Terra. Ela gira em redor de uma massa gasosa a que dão o nome de Polyphemus, situada em Alpha Centauri-A, num longínquo sistema estelar a quatro anos-luz do nosso planeta. Mas, aí a atmosfera é altamente tóxica, os homens só podem viver de máscara, ou através de “avatares”, réplicas que combinam os ADNs humanos com os dos Na`vi.
O avatar de Jake Sully é o enviado da Terra para que a pilhagem se cumpra. Parte com essas intenções, mas cedo descobre que os Na`vi são um povo pacífico que apenas procura continuar a viver no seu habitat natural em perfeita harmonia com a natureza. Lentamente Jake Sully vai descobrindo o que está por detrás da invasão, desta colonização selvagem, em busca de lucro fácil e de formas de prolongar a política de terra queimada dos humanos insensíveis a tudo o que não seja rentabilizar os meios colocados sob a sua alçada. A sua integração entre os Na`vi é completa, acabando mesmo por casar com Neytiri, uma das guerreiras da tribo. Como aliada na nave espacial apenas conta de início com a Drª. Grace Augustine, mas à medida que a brutalidade da intervenção se vai tornando evidente, mais aderentes conquista para a sua causa: impedir a destruição dessa lua utópica chamada Pandora.
Retirem-se os adornos dos Na`vi e a história poderia ser a de um qualquer western clássico. Ou não clássico. Em vez de peles-vermelhas substituam-nos por peles-azuis. Em vez da conquista do Oeste, a conquista do espaço. Sempre a conquista de “novas fronteiras”. De novo a corrida ao ouro, mas agora o ouro tem um outro nome. Basta, pois, recordar “Dança com Lobos”, de Kevin Costner (1990), história de um ex-soldado que é recolhido por uma tribo de índios e, depois de os compreender, se integra na sua maneira de viver, que acha muito mais justa do que a do exército a que pertencia e se coloca do lado dos índios, combatendo antigos camaradas de armas. “Avatar” resume a mesma filosofia, mas com ressonâncias mais modernas. Há o aspecto ecológico a ressalvar, quando se levanta contra a destruição de uma civilização antiga e onde impera a harmonia homem-natureza, em nome de um falso progresso, movido apenas pelo lucro. Mas mais ainda. Este é um filme anti-imperialista, que combate a ideia de um povo se sentir autorizado, apenas pelo seu poderio militar, a invadir outro, com um único propósito, que pode ser o petróleo ou o “unobtanium” (num caso como noutro, elementos que são fonte de energia).
Curiosamente, o paralelismo com os índios americanos é mais do que evidente e em várias perspectivas. Vermelhos e azuis deparam-se com a cupidez dos “rostos pálidos”, usam vestimentas ou simples adereços muito semelhantes, caçam com arco e flecha, têm gritos de guerra e danças rituais idênticas, e até os deuses se aproximam (os Na’vi adoram Eywa que tem muitos pontos de contactos com divindades índias). De resto, matam somente para comer e aceitam esse sacrifício como “justo”.
Não ficam muitas dúvidas sobre as intenções da obra e se James Cameron esperou quase duas décadas para poder ter as condições tecnológicas para se permitir erigir o universo de Pandora, não é menos verdade que a espera teve igualmente o condão do filme se encaixar no seu tempo histórico e ideológico: esperemos que este seja um filme da era Obama.
Este híbrido que nasce do cruzamento de “A Conquista do Oeste” com “A Guerra das Estrelas”, e de “Pocahontas” com “O Gigante”, mistura igualmente imagem real e animação digital. Situa-se hipoteticamente em 2156, mas a verdade é que, se nada se fizer rapidamente, em termos ecológicos e militares, impondo limites decentes à ambição desmedida de (alguns) homens (infelizmente os mais poderosos, e não pelas melhores razões), muito poucas hipóteses teremos de chegar a essa data.
Deixando agora de lado o argumento, atentemos em toda a parafernália tecnológica que o reveste. Será necessária? Funciona como roupagem para “épater le bourgeois”? Creio que raras vezes a tecnologia se mesclou tão harmoniosamente com a história que quer contar. James Cameron sabia que precisava de alguns recursos técnicos para tornar plausível o seu projecto que esperou longos anos até ser concretizado. O resultado é deslumbrante. Sobretudo não há um plano desnecessário para “mostrar” a excelência dos efeitos, não existe um movimento excessivo para explorar as 3D. Tudo está lá porque é essencial, indispensável para o resultado final. A descrição de Pandora é admirável, de uma beleza sufocante e sufocante é um bom termo porque nos encontramos inscritos, emergidos na natureza, sentimos animais e flores, árvores e insectos, indígenas e carros de assalto a passarem a nosso lado de forma tão realista quanto fantástica. A criação em imagem virtual, digital, das paisagens, dos ambientes, das sugestões imagéticas é algo até agora nunca visto. A forma como são plasticamente criadas, como são iluminadas tridimensionalmente, como a luz as atravessa (efeito que as 3D acentua), é absolutamente entorpecedor, como se de uma viagem psicadélica se tratasse, em que o fascínio nos conduzisse mansamente até ao efeito desejado. A partir de agora, desde que saímos da projecção de “Avatar”, Pandora existe algures, nem que seja só na nossa imaginação. Esse efeito de sugestão é brilhantemente conseguido, e, repetimo-lo, de forma absolutamente harmoniosa, sem se impor abusivamente, impondo-se antes subtilmente à medida que as imagens se sucedem e vamos mergulhando no seu turbilhão. Cameron consegue o prodígio de criar um universo fantástico e de o tornar “real”. Não que o saibamos real, mas porque o aspiramos utópico.
O mesmo se pode dizer das personagens, mais uma vez criadas pelo processo de “performance capture” que combina o corpo e a representação do actor com o revestimento da silhueta pela capa da animação. Jake, Neytiri ou a Dr.ª Grace são criações notáveis de um realismo-irrealista que é uma novidade absoluta em cinema, muito embora se saiba que esta técnica foi de certa forma aperfeiçoada por Peter Jackson para a sua trilogia “O Senhor dos Anéis”, e que muitos outros realizadores já a utilizaram (ainda há pouco Zemeckis, em “Conto de Natal”).
Refira-se que muitos dos efeitos especiais de “Avatar” foram criados pela celebérrima “Industrial Light & Magic”, de George Lucas, mas a “captura de movimento” dos avatares e dos indígenas de Pandora foi desenvolvida pela “Weta Digital”, de Peter Jackson, que a utilizou na construção da personagem Gollum, em “O Senhor dos Anéis”, e, mais tarde, na derradeira versão de “King Kong”.
Este é um filme importante, pois, por diversos motivos e uma aventura para os sentidos de quem o for ver no cinema. No cinema e preferencialmente em 3D. É como entrar num aquário e flutuar ao sabor da magia de um demiurgo que nos conduz por terras de sonho e, todavia, nos acorda, sobressaltados, para o futuro do nosso planeta e para os perigos das ingerências abusivas dos negócios sujos nas vidas dos povos.

James F. Cameron é canadiano de Ontário, filho de uma enfermeira e de um engenheiro electricista. Cresceu em Chippawa (agora Niagara Falls), estudou no Stamford Collegiate e mudou-se com a família para a Califórnia em 1971. Estudou filosofia na Universidade de Toronto, em 1973, e era visita frequente dos arquivos de filmes da University of Southern Califórnia. Aí se começou a interessar por cinema, ficando fã de “A Guerra das Estrelas IV” em 1977, quando a viu pela primeira vez. Dedicou-se então inteiramente ao cinema, abandonando a profissão de camionista de longo curso. Foi admitido como colaborador de Roger Corman, onde começa a aperfeiçoar um modelo de mini câmara e aprendeu a trabalhar com orçamentos mínimos (o que veio a contrariar no futuro!). Produziu o seu primeiro filme, “Battle Beyond the Stars” e, posteriormente, assinou os efeitos especiais numa obra de John Carpenter, “Fuga de Nova York”. Grande parte das suas principais obsessões estavam traçadas. Iniciou a carreira como realizador com “Xenogenesis” (1978), a que se seguiu “Piranha Part Two: The Spawning” (1981). “O Exterminador Implacável” (The Terminator, 1984), “This Time It's War” (1985), “Aliens, O Resgate” (Aliens, 1986), “O Abismo” (The Abyss, 1989), “Exterminador Implacável 2: O Dia do Julgamento” (Terminator 2: Judgment Day, 1991), “A Verdade da Mentira” (True Lies, 1994) e “T2 3-D: Battle Across Time” (1996) foram os títulos que cimentaram uma carreira que lhe permitiu abalançar-se num dos filmes mais caros de sempre, “Titanic” (1997), e que foi, simultaneamente, o mais premiado de sempre nos Oscars e o mais rentável de sempre nas bilheteiras (até agora – veremos o que faz “Avatar”). Seguem-se filmes para televisão, “Earthship.TV” (2001), "Dark Angel - Freak Nation” (2002), “Expedition: Bismarck” (2002), “Ghosts of the Abyss” (2003) ou “Aliens of the Deep” (2005), enquanto se preparava para “Avatar” (2009). Tem em pré-produção um novo projecto, “Battle Angel” (que se anuncia para 2011).


AVATAR
Título original: Avatar
Realização: James Cameron (EUA, Inglaterra, 2009); Argumento: James Cameron; Produção: Brooke Breton, James Cameron, Jon Landau, Josh McLaglen, Janace Tashjian, Peter M. Tobyansen, Colin Wilson; Música: James Horner; Fotografia (cor): Mauro Fiore; Montagem: James Cameron, John Refoua, Stephen E. Rivkin; Casting: Margery Simkin; Design de produção: Rick Carter, Robert Stromberg; Direcção artística: Todd Cherniawsky, Kevin Ishioka, Kim Sinclair; Decoração: Kim Sinclair; Guarda-roupa: Mayes C. Rúbeo, Deborah Lynn Scott; Maquilhagem: Rick Findlater; Direcção de Produção: Helen Clare, Mika Saito, Jennifer Teves, Brigitte Yorke; Assistentes de realização: Maria Battle-Campbell, Bruno Dubois, Sarah Lowe, Richard Matthews, Josh McLaglen, Steven Quale, Sharon Swab, Judith Wayers; Departamento de arte: C. Scott Baker, Luke Caska, Andrew Chan, Scott Herbertson, Joseph Hiura, Tammy S. Lee, Darryl Longstaffe, Karl J. Martin, Richard F. Mays, Michael Smale; Som: Christopher Boyes; Efeitos especiais: Karl Chisholm, Iain Hutton, Steve Ingram; Efeitos visuais: Laia Alomar, Malcolm Angell, Manasi Ashish, Dean Lewandowski, Brice Liesveld, Jennifer Loughnan, Steve Riera, Mahria Sangster, Bryan Searing, Wayne Stables, Colin Strause, Greg Strause, Guy Williams, Michael Zavala; Animação: Richard Baneham, Miguel A. Fuertes, Aldo Gagliardi, Scott Patton, Ben Sanders, Jarom Sidwell, Danny Testani; Companhias de produção: Twentieth Century-Fox Film Corporation, Dune Entertainment, Giant Studios, Ingenious Film Partners, Lightstorm Entertainment; Intérpretes: Sam Worthington (Jake Sully), Zoe Saldana (Neytiri), Sigourney Weaver (Dr. Grace Augustine), Stephen Lang (Coronel Miles Quaritch), Michelle Rodriguez (Trudy Chacon), Giovanni Ribisi (Parker Selfridge), Joel Moore (Norm Spellman), CCH Pounder, Wes Studi, Laz Alonso, Dileep Rao, Matt Gerald, Sean Anthony Moran, Jason Whyte, Scott Lawrence, Kelly Kilgour, James Pitt, Sean Patrick Murphy, Peter Dillon, Kevin Dorman, Kelson Henderson, David Van Horn, Jacob Tomuri, Michael Blain-Rozgay, Jon Curry, Julene Renee, Luke Hawker, Woody Schultz, Peter Mensah, Sonia Yee, Ilram Choi, Kyla Warren, Dean Knowsley, Nikie Zambo, etc. Duração: 162 minutos; Distribuição em Portugal: Castello Lopes Multimédia; Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal: 17 de Dezembro de 2009.

quinta-feira, janeiro 07, 2010

CINEMA: ÁGORA

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ÁGORA
Alexandria, no séc. IV, era uma cidade charneira no Médio Oriente, e essa época era igualmente um período de profundas transformações políticas, sociais e religiosas. Alexandria era uma cidade situada no Egipto, administrada pelo Império Romano, onde se cruzavam várias culturas e diversas religiões. É sabido que a convivência entre religiões não é quase nunca pacífica, e muitas vezes os políticos servem-se disso para inflamar os ânimos e provocar a violência e a guerra. Nunca de uma forma ingénua, acrescente-se. As guerras santas são as mais hipócritas e indefensáveis das guerras. Mas muitas das mais sangrentas guerras da História da Humanidade tiveram justificações religiosas, quando o que estava sempre em jogo eram questões de lutas pelo poder. Em Alexandria tal também aconteceu, como o demonstra, de alguma forma, “Ágora”, de Alejandro Amenábar, segundo um argumento escrito por si e por Mateo Gil, tendo como personagem central e aglutinadora de factos a figura de Hipátia (Rachel Weisz), mítica matemática, filósofa, astrónoma e professora.
O filme decorre nos últimos anos do século IV e inícios do V (Hipátia é assassinada em 415) e mostra-nos, em termos gerais, as lutas pela supremacia religiosa na região. O Império Romano tinha-se cristianizado, mas em Alexandria coexistiam diversas crenças, com uma relativa liberdade de culto. Os deuses antigos do Egipto conviviam com o Cristo de Judeus e Cristãos. Estes haviam sido violentamente perseguidos durante séculos, mas conseguiram impor-se. Não contente com ser aceite, e mesmo proclamada a religião oficial dos Romanos, a Igreja Católica procura agora ser hegemónica, sendo necessário para isso ilegalizar todos os outros cultos e exterminar os seus seguidores. O filme inicia-se em 391 e assinala o momento mais aceso da luta pelo poder entre adoradores de Osíris, Íris e Horus, os judeus das sinagogas e os cristãos das catedrais. Não é uma luta de palavras e de crenças, mas uma luta armada com as armas que tinham na mão. O representante de Roma procura manter uma certa neutralidade, apesar de se dizer cristão, mas no resto cada um procurava tirar desforço e vingar-se do que o ou os rivais haviam feto anteriormente. Nada de dar a outra face às agruras da agressão. Antes o quem com ferro fere, com ferro morre. Portanto, em escalada. Os cristãos que tinham criado os “parabolanos”, uma espécie de exército de salvação para ajudar os desvalidos, transportar doentes, tratar dos leprosos, etc., tudo coisas da maior grandeza espiritual e do mais sagrado humanismo, cedo esqueceram essas tarefas e transferiram a multidão desse corpo de soldados, que chegou a atingir os 800 elementos, para outro tipo de tarefas: perseguir “bárbaros” (o “bárbaros” são sempre os outros, os que não são como nós), destruir tempos pagãos (ou seja, os que professam uma crença que não é a nossa), assassinar e prender os ímpios (mais uma vez os “outros”) e impor a sua crença (porque acreditam que ela é “a verdadeira” e, como tal, tem de ser a “única”, logo imposta, se necessário for). Primeiro anularam-se as crenças primitivas que já vinham do antigo Egipto e assinalavam a ligação do Homem à Terra, e eram de certa forma femininas e matriarcais. Depois os judeus encurralados agrediram os cristãos que ripostaram e limparam o terreno, levando tudo à frente, templos destruídos e até a importante biblioteca, onde se guardava toda a sabedoria do mundo, incendiada e esventrada. Estátuas e monumentos, templos e papiros tudo voou na voragem da intolerância. A horda assassina de cristãos era fundamentalmente constituída pelos “parabolanos”, a guarda do patriarca, mas muitos historiadores falam igualmente de monges e outros clérigos que conseguiram inflamar as mentes da populaça. Foram eles que conduziram os assaltos e a pilhagem e propagaram a destruição. Este o quadro geral.
O pormenor: Hipátia.
Pouco se sabe de Hipátia de Alexandria, com base em documentação histórica factual. A totalidade dos seus escritos desapareceu (alguns historiadores falam apenas na sobrevivência de dois manuscritos que sobraram, duas revisões de obras do pai, mas nada assegura que sejam da sua mão). O que se sabe é por portas e travessas e muito através da correspondência que Sinésio, um aluno seu, manteve com ela ou com outros colegas de aulas. Não se sabe quando nasceu, apenas se avançam datas possíveis. Sabe-se que morreu em 415 e que dava aulas muito frequentadas por alunos pertencentes à elite de Alexandria (e arredores), nas décadas de 380 e 390 (continuando até à data da sua morte). Uns afiançam que morreu com cerca de 60 anos, outros um pouco mais nova.
Hipátia parece ter sido uma astrónoma notável para o seu tempo, uma matemática inspirada, uma filósofa com um instinto de curiosidade e de compreensão do mundo notáveis, e sobretudo uma mulher muito especial para a época. Num mundo dominado pelos homens (e que seria depois cada vez mais patriarcal em certos aspectos), ela conseguiu sobressair de forma invulgar, ser ouvida nos negócios da cidade, respeitada e olhada com admiração por iguais e alunos. Apesar de alguns inimigos seus a fazerem passar por bruxa e feiticeira e outros lhe chamarem prostituta, particularmente em virtude do seu relacionamento com um aluno em especial, Oreste, que viria mais tarde a ser o representante de Roma em Alexandria, Hipátia jurou não manter qualquer tipo de relações mais íntimas com nenhum humano. Ela casara com a ciência, com a astronomia, e parece que era assim feliz, até se iniciarem as perseguições. Há mesmo um episódio na sua vida muito sintomático, e que aparece no filme, referindo-se a Oreste, mas que aconteceu com outro aluno (uma liberdade narrativa que reuniu num só pretendente factos pertencentes a dois, o que tem de se admitir numa obra que não é precisamente um documentário). Na verdade, segundo relatos de um tal Damáscio (1), um jovem aluno de Hipátia, perdidamente enamorado da professora, conseguiu a coragem necessária para se declarar. Esta resolveu castigá-lo. No dia seguinte trouxe-lhe uma prenda, um pano contendo o sangue da sua menstruação, e perguntou-lhe” É isto o que na realidade amas?”. Mostrou-lhe assim a dimensão física do corpo, ao lado da beleza inexpugnável dos conceitos da matemática ou da filosofia. Discutível, claro, mas uma forma de afirmar a sua invulnerabilidade aos prazeres carnais.
O filme de Alejandro Amenábar vai buscar esta mulher para o centro do seu “Ágora” alexandrino e é ela que serve de fio condutor às peripécias políticas e religiosas que marcaram aquele tempo e que haviam de a marcar a ela. Acompanhamos as suas aulas, o seu gosto pela astronomia (e pela astrologia, nesta altura duas disciplinas que se confundiam), a discussão sobre as teorias de Ptolomeu, a forma como impunha uma convivência tolerante nas suas aulas (onde todos os alunos eram “companheiros” e “irmãos”, apesar das suas diferenças religiosas), a maneira como convivia com os escravos, sobretudo com Davus, o seu escravo pessoal, as suas conversas e trocas de ideias com Theon, seu pai e director da importante biblioteca de Alexandria, a sua importância como personalidade da cultura e da política na cidade. Até ao dia em que se tornou indesejável, por tudo isso, perante os fanáticos religiosos, que viam nela um obstáculo ao seu completo domínio. Ela representava a voz da tolerância e da diferença, ela era aquela que defendia a coexistência, ela era o grão de areia que impedia a engrenagem de avançar a todo o vapor numa só direcção. Por isso aproveitaram-se de uma oportunidade, um pretexto, uma inventona, chamaram-lhe bruxa, foram-na buscar a casa, arrastaram-na pelos cabelos até ao tempo mais próximo, onde a desmembraram e cortaram a cabeça, uns dizem que a esfolaram viva, todos são unânimes em afirmar que a humilharam e a destruíram, antes de conduzirem os restos para o centro de uma praça e para o cimo de um fogueira. Em Nome de Deus.
Estas lutas religiosas, como começou por se dizer, são as mais sangrentas e as mais dolorosas. O filme de Amenábar procura mostrar isso mesmo e não se ficar por relatar um caso exemplar da Antiguidade Clássica (precisamente o momento em que, para muitos, termina a Antiguidade Clássica e começa a Idade Média). Obviamente que lhe interessa documentar de que forma caem certas civilizações e sobre esses escombros outras se erguem, como se estabelecem certos ciclos culturais, religiosos, civilizacionais, como se atinge o poder e se procura manter o mesmo, de como as ditaduras surgem, com base da mentira, na propaganda, no medo. Obviamente que é esse um dos seus intentos, mas não o único. O bando de “parabolanos” não é por acaso que se vestem de uma forma que se confundem com os modernos talibãs. Aliás, é o próprio cineasta que o confessa em entrevistas: ele queria um guarda-roupa que distinguisse facilmente cristãos de Judeus e de alexandrinos e, mais do que isso, pediu à figurinista que criasse uma associação entre os “parabolanos” cristãos que assaltavam o poder e os talibãs de agora (que assaltam igualmente o poder mundial, e procuram destruir o Ocidente). A metodologia é a mesma, as intenções idênticas. Destruir para reinar, criar a terra queimada para sobre ela lançar uma nova semente. A ver vamos.
Sobre o filme muito há a dizer, ainda que, desde já, e apesar de todas as boas intenções e algumas qualidades, esta me parecer a menos conseguida de todas as obras de Amenábar (“Tesis”, “Abre os Olhos”, “Os Outros” e “Mar Adentro”). O cineasta pretendeu construir uma obra na melhor tradição dos filmes históricos que ficaram na recordação dos anos 60, como “A Queda do Império Romano”, “Spartacus”, “Barrabás”, “Ben Hur”, “Lawrence da Arábia” ou “Lord Jim”. Para o conseguir foi ao ponto de reconstruir grande parte de Alexandria, em Malta, e de utilizar muito pouco imagem digital (afirmando que assim tudo seria mais real). O orçamento subiu até aos 50 milhões de euros, metade do qual para cenários. O resultado é bom, mas não é brilhante, apesar de algumas cenas de exteriores, no ágora e nas ruas, serem bem conseguidas, e haver alguns interiores bem trabalhados. Mas curiosamente a movimentação das multidões, onde não há muita utilização de digital, parece paradoxalmente falsa, assim como a interpretação da maioria dos actores não é convincente, com excepção de Rachel Weisz, muito boa, e do eficaz e sóbrio Michael Lonsdale (Theon). Nestas condições, muito embora o significado da metáfora política e religiosa, “Ágora” coloca-se mais perto dos “peplums” italianos da mesma época do que das obras de Kubrick, Mann, Wyller ou Brooks.

(1) Muito interessante será ler “Hipátia de Alexandria”, da polaca Maria Dzielska, recentemente editado pela “Relógio d’ Água”.
:ÁGORA
Título original: Agora
Realização: Alejandro Amenábar (Espanha, Malta, 2009); Argumento: Alejandro Amenábar, Mateo Gil; Produção: Álvaro Augustín, Fernando Bovaira, Simón de Santiago, José Luis Escolar, Jaime Ortiz de Artiñano; Música: Dario Marianelli; Fotografia (cor): Xavi Giménez; Montagem: Nacho Ruiz Capillas; Casting: Jina Jay, Edward Said; Design de produção: Guy Dyas; Direcção artística: Dominique Arcadio, Matthew Gray, Stuart Kearns, Jason Knox-Johnston, Frank Walsh; Decoração: Larry Dias; Guarda-roupa: Gabriella Pescucci; Maquilhagem: Marcelle Genovese, Graham Johnston, David Martí, Jan Sewell, Suzanne Stokes-Munton; Direcção de Produção: Carlos Ruiz Boceta, Oliver Mallia, Gina Marsh; Assistentes de realização: Luis Casacuberta, Javier Chinchilla, Pierre Ellul, José Luis Escolar, Julian Galea, Ben Lanning, Mónica Sánchez, Carlos Santana; Departamento de arte: Lino Chetcuti, Bonello Chris; Som: Tom Sayers; Efeitos especiais: Kenneth Cassar; Efeitos visuais: Félix Bergés; Companhias de produção: Mod Producciones, Himenóptero, Telecinco Cinema, Canal+ España, Cinebiss; Intérpretes: Rachel Weisz (Hipátia), Max Minghella (Davus), Oscar Isaac (Orestes), Ashraf Barhom (Ammonius), Michael Lonsdale (Theon), Rupert Evans (Synesius), Richard Durden (Olympius), Sami Samir (Cyril), Manuel Cauchi (Theophilus), Homayoun Ershadi (Aspasius), Oshri Cohen, Harry Borg, Charles Thake, Yousef 'Joe' Sweid, Andre Agius, Paul Barnes, Christopher Dingli, Clint Dyer, Wesley Ellul, Angele Galea, George Harris, Jordan Kiziuk, Ray Mangion, Samuel Montague, Alan Paris, Christopher Raikes, Amber Rose Revah, Charles Sammut, Nikovich Sammut, Juan Serrano, etc. Duração: 126 minutos; Distribuição em Portugal: Castello Lopes Multimédia; Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal: 10 de Dezembro de 2009.

quarta-feira, janeiro 06, 2010

MANUEL ALEGRE À PRESIDÊNCIA

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DECLARAÇÃO DE VOTO
(a tempo por causa do tempo)
Para os devidos efeitos, declaro que, quaisquer que sejam os outros eventuais candidatos à Presidência da República apresentados pela esquerda (ou as esquerdas), eu votarei Manuel Alegre, se este se candidatar, pois acho-o o único com possibilidades de se opor com eficácia a possíveis adversários políticos.
Julgo que é importantes que a esquerda (ou as esquerdas) saiba (ou saibam) o que pensa o eleitorado e se deixe (ou deixem) de floreados e jogos de bastidores que mais não farão do que dividir votos e oferecer de bandeja e mão beijada a vitória a quem for escolhido pela direita.
Por mim, tenho dito, a um ano e tal da eleição. Para que conste.
ilustração de André Carrilho