SABINA FREIRE 
O pai continuou a apoiá-lo financeiramente, permitindo que Manuel Teixeira Gomes prossiga uma carreira ligada às artes, na literatura, na pintura ou na escultura, acabando por se dedicar à literatura, tornando-se todavia amigo de grandes mestres, como Columbano Bordalo Pinheiro ou Marques de Oliveira. Depois passa ao Porto, onde conhece Sampaio Bruno, tendo colaborado em revistas e jornais, entre eles "O Primeiro de Janeiro" e "Folha Nova" (e “A Luta”, em Lisboa).
Viaja por quase toda a Europa, norte de África e Próximo Oriente, quase sempre em representação comercial da família, para negociar os produtos agrícolas produzidos pelas propriedades do pai (frutos secos, nomeadamente amêndoa e figo). "Fiz-me negociante, ganhei bastante dinheiro e durante quase vinte anos viajei, passando em Portugal poucos meses." (escreve em "Miscelânea"). Após a implantação da República, é nomeado ministro plenipotenciário de Portugal em Inglaterra. Em 11 de Outubro de 1911 apresenta as suas credenciais ao rei Jorge V do Reino Unido, em Londres, cidade onde então se encontrava a família real portuguesa no exílio. A sua simpatia e afabilidade, a sua cultura e civilidade fizeram dele um conviva requisitado, até nos palácios reais.
É de Paris que Afonso Costa sugere a candidatura de Manuel Teixeira Gomes, representante do Partido Democrático. Foi eleito Presidente da República a 6 de Agosto de 1923, viria a demitir-se das suas funções a 11 de Dezembro de 1925, num contexto de grande perturbação política e social. A sua vontade em dedicar-se exclusivamente à literatura foi a sua justificação oficial para a renúncia. Escreveu: "A política longe de me oferecer encantos ou compensações converteu-se para mim, talvez por exagerada sensibilidade minha, num sacrifício inglório. Dia a dia, vejo desfolhar, de uma imaginária jarra de cristal, as minhas ilusões políticas. Sinto uma necessidade, porventura fisiológica, de voltar às minhas preferências, às minhas cadeiras e aos meus livros."
A 17 de Dezembro de 1925, embarca no paquete holandês "Zeus" rumo a Bougie (Argélia), que ele considerava "uma Sintra à beira-mar”, num auto-exílio voluntário, mantendo-se depois sempre opositor frontal ao regime de Salazar, nunca regressando em vida a Portugal. Morreu em 1941 e só em Maio de 1950 os seus restos mortais voltaram à Pátria. As filhas, Ana Rosa Teixeira Gomes Calapez e Maria Manuela Teixeira Gomes Pearce de Azevedo estiveram presentes na cerimónia de "regresso", uma ocasião que veio a tornar-se numa das mais controversas manifestações populares ocorridas na já cidade de Portimão nos tempos da ditadura de Salazar.
Deixou uma importante obra literária, integrada em correntes da época, decadentistas, nefelibatas e uranista (termo que na altura procurava definir uma tendência para a homossexualidade masculina). Há quem levante suposições sobre as suas inclinações sexuais, mas sabe-se que, aos 39 anos, Manuel Teixeira Gomes amou uma bela jovem algarvia de quem terá duas filhas. Chamava-se Belmira das Neves e era oriunda de uma família de pescadores, o que, para a família de Teixeira Gomes terá causado engulhos ao casamento.
Teixeira Gomes terá talvez marcado mais a literatura do que a política. Em 1899 publica "Inventário de Junho", em 1904 "Agosto Azul" e em 1909 "Gente Singular". Toda a sua obra literária está repassada de figuras algarvias (é considerado o escritor do Algarve). A primeira namorada era de Ferragudo, personagens suas são de Aljezur ou Bensafrim, "Sabina Freire" é uma viúva de Portimão.
Manuel Teixeira Comes é uma excepção no panorama dos presidentes da 1ª República. Todas as noites jogava às cartas com o seu secretário. Há quem o considere “um "Corto Maltese" (com mais uns anos) que passa pelo Palácio de Belém até concluir que uma tarefa não era para ele.”
Principais obras: Cartas sem Moral Nenhuma (1904), Agosto Azul (1904), Sabina Freire (1905), Desenhos e Anedotas de João de Deus (1907), Gente Singular (1909), Cartas a Columbano (1932), Novelas Eróticas (1935), Regressos (1935), Miscelânea (1937), Maria Adelaide (1938) ou Carnaval Literário (1938).
“Sabina Freire” é pois de 1905. Crítica severa a costumes políticos e sociais, expressa-se como um drama a roçar o melodrama, e é como tal que deve ser visto. A história põe frente a frente duas mulheres, Sabina Freire e Maria Freire, uma nora, outra sogra, que têm pelo meio o marido e filho, Júlio Freire, que se vê envolvido num conflito fatal de ódios à flor da pele. Maria Freire é uma latifundiária provinciana, algarvia, conservadora, puritana e austera, e Sabina Freire é todo o contrário, uma sequiosa hedonista, irrequieta e temperamental, provocadora e sedutora. Pelo meio, oportunistas e medíocres representantes da política, e dos serviços. O combate faz-se entre as duas mulheres, e todos os outros são personagens secundárias. É um combate sem tréguas. Que conduzirá à tragédia. Esta é uma peça que só assim se pode entender.
Foi esta peça que, em 2009, as companhias do Theatro Circo (Braga) e a do Teatro da Cerca de São Bernardo (Coimbra) levaram à cena, em co-produção, com encenação de Rui Madeira, e interpretação de um elenco constituído por Solange Sá (Sabina), Sílvia Brito (Maria Freire), André Laires (Júlio), Ricardo Kalash (Epifânio), Jaime Soares (Dr. Fino), Carlos Feio (Padre Correia e Procurador Ferreira), António Jorge (Augusto César e Ministro), Miguel Magalhães (Josezinho Soares), Lina Nóbrega (Josefina). O resultado não podia ter sido mais confrangedoramente dramático, pelas premissas que lhe falsearam o caminho. Transformando o melodrama em grotesca paródia, com personagens caricaturais, e dando ao todo um pretensioso sentido jocoso, perde-se todo o sentido e fica um artificioso enredo que é doloroso acompanhar. Neste equívoco total, difícil é descortinar se o elenco tem ou não valor, ainda que, aqui e ali, pareça existir material humano digno de outros voos. A vontade de modernizar a todo o custo, de facilitar ao gosto do público, quase sempre dá maus resultados. É o caso.
(algumas notas sobre Manuel Teixeira Gomes foram recolhidas do site da Presidência da República, dedicado a “Antigos Presidentes”)


























Estamos na América, mas poderíamos estar “no mundo”. Há um homem e uma criança, pai e filho, a percorrer estradas, rumo ao Sul. Mas não há um homem e uma criança apenas. Esse homem e essa criança são mais do que um homem e uma criança. Se fossem só isso, teriam nomes. Mas não os ostentam. São “o” Homem, “a” Criança. Símbolos exemplares de uma parte da Humanidade. De uma Humanidade que colapsou sabe-se lá porquê e como e quando. Estamos num planeta destruído, onde ainda se vão verificando réplicas de tremores de terra que transformam o solo que pisamos num mar agitado. Conflito natural, ou bomba nuclear? Terramoto ou atentado? O que se sabe é que a Terra é um lugar perigoso, muito perigoso, infestado por homens maus, que um homem e uma criança bons procuram evitar, e “chegar ao Sul”. O que divide os “good guys” dos “bad guys”, se todos eles têm fome e frio, vivem ao abandono e sobrevivem vegetando? Uns são canibais e os outros não, teimam em não se alimentarem de carne humana. Uns e outros vão morrer. Alguns suicidam-se para não enfrentar o dilema, a escolha. Os que ficam ou resistem na sua humanidade ou prevaricam na sua desumanidade. Restos humanos são encontrados aqui e ali, caveiras espetadas em estacas ornamentam jardins secos de vida, crianças servem-se grelhadas como pitéus apetecíveis, há mesmo dispensas de carne viva, caves que mais parecem galinheiros onde, à falta de galináceos, se guardam pessoas para serem comidas mais tarde. Quando chegar o momento e o frio do inverno apertar. Neste mundo, as árvores erguem-se mortas ou caem ruidosamente sobre a terra. Secas. Exaustas. As cidades estão desertas, ou quase, pois se pode adivinhar a cada esquina um caçador faminto em busca do que quer que seja que o alimente por mais uns dias, ou de um par de sapatos para os pés em chaga, ou de um cobertor para o proteger do ar gélido e da neve que cai. As estradas estendem-se sem fim na desolação do vazio ou da destruição mais completa e seriam terreno fácil de calcorrear, mesmo puxando um carrinho de supermercado, com os únicos haveres possíveis de transportar, se não existisse por todo o lado o perigo do “ outro homem”, da ameaça latente nos olhos com que se confrontam. Uma ameaça que pode vir de um camião em lento andamento rodeado por predadores esfomeados, ou de um ladrão fortuito, ou de uma família de canibais, ou do simples medo que se interioriza até também ele corroer os ossos.



