domingo, junho 24, 2012

CINEMA: O CAVALO DE TURIM



 O CAVALO DE TURIM
Antes de mais, há que prevenir: este não é um filme como os outros. Ao referir “outros” pretendo incluir na categoria muitos estilos de obras que se projectam nas salas de cinema tradicionais. Não: este não é um filme como todos esses que vemos, quer se trate do cinema americano mais comercial, até ao mais independente, quer se trate do europeu ou do asiático. Não, também não é um daqueles filmes vanguardistas e experimentais, que podem ir do ecrã todo azul ao todo negro, dos riscos às manchas, do plano único de duas horas à montagem entontecedora. Nada disso. Este é um filme muito diferente de tudo isso, e terá de ser visto enquanto tal. Não sou dos que dizem isto sim é cinema, como se este fosse o único modo de fazer filmes. Mas sempre disse que a crítica, e o espectador, deve procurar em cada obra aquilo que ela tem para dar e julgá-la enquanto tal. Longe de mim dizer que só o cinema narrativo, romanesco, a que aderem multidões é “o” cinema. Tal como “O Cavalo de Turim” não é “o” cinema. Porque o cinema, tal como qualquer manifestação artística, da literatura à música e etc., tem muitas faces, e todas elas legítimas desde que honestas, sinceras, íntegras e coerentes com os seus propósitos.
Posto isto, “O Cavalo de Turim”, do húngaro Béla Tarr, é uma experiência apaixonante, para quem a quiser sentir e entender. Depois das suas duas horas e meia de projecção, a sensação com que se fica é que saímos de um daqueles filmes híbridos de início do sonoro, quando alguns génios do mudo prevaleciam na ideia de que o cinema era mudo ou não seria e que aceitavam, apesar de tudo, um ou outro diálogo, aqui e ali, e uma boa sugestão sonora. “O Cavalo de Turim” recorda-nos assim alguns mestres do mudo, como Griffith (“O Lírio Quebrado”), Murnau (“Aurora”), Sjostrom (“O Vento”), ou mesmo alguns continuadores do estilo, como Dreyer (“A Palavra”) ou Bresson (“Peregrinação Exemplar”). Mas, ao mesmo tempo, o que “A Torinói ló” (título original húngaro) nos procura transmitir, sobretudo inquietar, é algo muito actual e que se encontra disseminado num vasto conjunto de obras recentes (“A Árvore da Vida”, “Melancolia”, “Cosmopolis”, “Procurem Abrigo”, para não falar de algumas mais comerciais, como “O Dia Depois de Amanhã” ou outros títulos catástrofe mais espectaculares). 
Béla Tarr não é conhecido do público português, a não ser dos poucos que puderam ver “O Homem de Londres” na sua edição em DVD. É um cineasta que começou como documentarista, nos finais dos anos 70, e que daí até agora construiu uma filmografia extremamente radical na sua secura de processos, na austeridade da imagem, no rigor da composição, dos longos movimentos de câmara, na excessiva duração dos planos (sobretudo se comparada com a média habitual nas salas comerciais) e na abordagem filosófica dos temas escolhidos (ele queria ser filósofo e para ele o cinema é um prolongamento dessa necessidade).
“O Cavalo de Turim” começa com uma história passada com Friedrich Nietzsche que terá visto um cavalo a ser barbaramente chicoteado, se terá intrometido entre o animal e a chibata do cocheiro, mas que a partir daí terá caído doente e enlouquecido. A sequência inaugural mostra-nos um cavalo a galopar e o velho cocheiro a chicoteá-lo até chegar à sua pobre e inóspita habitação, na deserta planície húngara. Terra de fim de mundo, onde, como iremos ver, nada acontece, ou se preferirmos, tudo acontece até ao negrume final que nos anuncia a morte. O preto e branco da deslumbrante fotografia e a quase ausência de diálogos servem plenamente as intenções do autor. 
O cocheiro (János Derzsi) vive apenas com a sua filha (Erika Bók), serve-se somente de um braço (o outro está imobilizado ao longo do corpo), veste-se e despe-se com o auxilio da filha, comem à refeição uma batata e bebem um ou dois cálices de palinka, olham a desoladora paisagem pela janela, deitam-se e acordam ao longo dos dias num ritual repetitivo que chega a rondar o ascetismo e mesmo o puritanismo mais radical. Um dia recebem a visita de um vizinho (Mihály Kormos) que lhes compra um garrafa de palinka, de outra vez passa por perto um grupo de homens e mulheres que eles julgam ciganos, e vai-se ouvindo sempre um vento cortante que assola a paisagem de forma desapiedada. O cavalo adoece e recusa-se a trabalhar mais, nega-se mesmo a comer, depois falta a água, a comida, a bebida, a luz. É o fim. A escuridão total. O fim deste mundo que lentamente fomos delapidando, como no-lo diz o seu vizinho, que denuncia ainda esta sociedade de compra e venda, sem dignidade nem futuro.
A imagem é de uma beleza que atinge por vezes o sublime na sua austeridade e contenção. Os enquadramentos, os movimentos, a duração do tempo, a secura da interpretação, tudo serve um propósito. O filme é de uma coerência estilística notável. Quem entrar na obra sai dela como que purificado, mas acabrunhado pelo desespero e o niilismo destes tempos de desesperança e desconforto. Béla Tarr afirma que este foi o seu último filme. Que nada mais tem para dizer. Este é um testamento terrífico de um visionário pessimista. Convém dar-lhe ouvidos, antes que seja demasiado tarde e a escuridão nos invada a todos.
Numa entrevista explicou: “Nada mudou. Se os tempos do comunismo eram péssimos, os do capitalismo também são. Se antes existia uma censura política, agora existe uma censura económica. Nada mudou”.
                                                                                                         Béla Tarr
O CAVALO DE TURIM
Título original: A Torinói ló
Realização: Béla Tarr e Ágnes Hranitzky (Hungria, França, Alemanha, Suiça, EUA, 2011); Argumento: László Krasznahorkai e Béla Tarr; Produção: Gábor Téni, Martin Hagemann, Juliette Lepoutre, Marie-Pierre Macia, Elizabeth Redleaf, Mike S. Ryan, Ruth Waldburger, Christine K. Walker; Música: Mihály Vig; Fotografia (p/b): Fred Kelemen; Montagem: Ágnes Hranitzky ; Design de produção: Czigler Kata; Assistentes de realização: Yann-Eryl Mer; Som: Gábor ifj. Erdélyi; Efeitos especiais: Zoltán Pataki; Companhias de produção: TT Filmmûhely, Vega Film, Zero Fiction Film, Movie Partners In Motion Film, Werc Werk Works, Fonds Eurimages du Conseil de l'Europe, Medienboard Berlin-Brandenburg, Motion Picture Public Foundation of Hungary; Intérpretes: János Derzsi (cocheiro), Erika Bók (filha do cocheiro), Mihály Kormos (Bernhard), Ricsi (cavalo), etc. Duração: 146 minutos; Distribuição em Portugal: Midas Filmes; Classificação etária: M/ 12 anos; 

PS. Por um lamentável erro, apareceu a Atalanta Filmes como distribuidora, quando se trata da Midas Filmes.  Agradeço a amável correcção da editora e agradeço ainda mais a informação de que a Midas Filmes vai editar em DVD toda a obra de Béla Terra.

domingo, junho 10, 2012

CINEMA: COSMOPOLIS



 COSMOPOLIS
 Raras vezes se encontra uma tão grande fidelidade de um filme a uma obra literária. Fidelidade à história, personagens, situações, mas, sobretudo, fidelidade ao estilo e ao sentido da própria obra. Isso acontece com “Cosmopolis”, de David Cronenberg, adaptado de um romance de Don DeLillo. Poderão alguns dizer que a versão de Cronenberg é, por isso mesmo, demasiado literária e palavrosa. Não é esse o meu entendimento. Quanto muito, poderei admitir ser o romance de Delillo muito cinematográfico, com excelentes diálogos que parecem escritos para cinema (Cronenberg afirmou que adaptou o romance em pouco mais de uma semana, o que se entende). Depois, há um outro aspecto que marca de forma absoluta esta ligação: a obra de DeLillo vai perfeitamente ao encontro de algumas das obsessões maiores de Cronenberg, sobretudo na forma como integra corpos humanos no interior de um universo altamente tecnológico, no que se aproxima muito de um dos títulos mais significativos da carreira do cineasta, “Crash”. Obviamente que “Crash” era mais violento na forma como o metal dos carros e a carne das personagens se interpenetravam. “Cosmopolis” vem directamente desse universo, mas explora outros terrenos, mais filosóficos, onde a palavra adquire um maior significado.
Eric Packer (Robert Pattinson, que vem de um mundo de vampiros adolescentes para continuar num mundo de vampiros adolescentes, mas este muito mais inquietante, pois que real) é um jovem multimilionário que não sabe a fortuna que detém, ganha sobretudo em especulação bolsista. Num dia que começa como todos os outros, sai do seu luxuoso apartamento, em Manhattan, e propõe-se atravessar Nova Iorque, na sua limusina de sete metros, para ir cortar o cabelo a um modesto barbeiro de bairro que lhe recorda a juventude. Mas em Nova Iorque o trânsito não circula. O presidente dos EUA lembrou-se de visitar Manhattan, morreu um célebre músico e o enterro percorre as avenidas em homenagem, o director do FMI foi assassinado em directo quando dava uma entrevista, há manifestações de anarquistas em tudo o que é rua e avenida, e ameaças por todo o lado, que os guarda-costas, que caminham ao lado do majestoso veiculo, vão reportando minuto a minuto. De resto, Eric Packer faz da limusina escritório para seguir e dar ordens sobre os movimentos da bolsa em todo o mundo, quarto para repouso, apartamento para encontros sexuais, clínica privada, onde recebe a visita do seu médico que o observa diariamente, local de encontro, casa de banho… Por ali passam colaboradores, amantes, informadores, médico, enquanto lhe basta descer a janela do blindado para seguir as instruções dos seus “body guards”. Numa das cenas mais ambíguas e perturbantes, o médico examina-o através de um toque rectal para descobrir uma “próstata assimétrica”, enquanto Eric fala com uma colaboradora que mantém entre as pernas uma garrafa de plástico que a excita visivelmente. Excitação que se estende aos dois, aliás. 
Mas, por vezes, Eric sai da limusina para entrar no táxi que passa ao lado, onde vai a sua recente mulher, Elise Shifrin (Sarah Gadon), para tomar o pequeno almoço com ela, para a encontrar no interior de uma livraria, para se deslocar ao barbeiro… A limusina é o seu habitat natural naquele dia, e poderá ser igualmente o carro funerário ou o escritório onde se afunda em minutos uma das maiores fortunas da América. Tudo porque o iene continua a subir no Japão e ele continua a investir, seguindo a sua teoria que, afinal, não compreendia as assimetrias e os desequilíbrios da natureza. Eric é, pois, um símbolo de um capitalismo a entrar no impasse e à beira da auto-destruição. O confronto final com um antigo colaborador, Benno Levin (Paul Giamatti), que o quer assassinar, é disso bem um reflexo. “Cosmopolis” afirma-se como o filme do colapso de uma sociedade tal como hoje a conhecemos e que não traz a felicidade ao Homem, por muito que faça felizes alguns homens, com miragens de um poder irrealista e meramente virtual. A limusina é um casulo insonorizado, ao lado do qual passam os homens e as mulheres “normais”, resignados ou enraivecidos, que prefigura a falta de contacto entre realidades bem distintas. 

O tom algo nervoso e elíptico da narrativa de DeLillo é muito bem adaptado à narrativa cinematográfica, fragmentada e caótica, onde o dinheiro deixa de ter uma história linear e onde a ultra avançada tecnologia penetra no corpo humano, sem no entanto o servir harmoniosamente. De onde resulta uma explanação aparentemente desordenada e actos gratuitos que, todavia, são parte integrante do relato estilhaçado de uma sociedade em crise, que é esta nossa actual. A fotografia de Peter Suschitzky é notável a servir os propósitos, bem como a partitura musical de Howard Shore e a nervótica montagem de Ronald Sanders. A interpretação é toda ela excelente, ainda que pessoalmente mantenha muitas reservas quanto ao talento de Robert Pattinson. Mas, neste caso, parece bem integrado e até o seu passado vampiresco se adapta bem a esta nova personagem de um yuppie à beira do colapso, por falta de hemoglobina financeira. 
Julgamos que, no futuro, “Cosmopolis” será um bom tema de partida para a análise dos tempos conturbados por que actualmente passamos. David Cronenberg prossegue a sua carreira de observador crítico de uma sociedade com ameaças virais nem sempre bem visíveis, mas que o cineasta estripa com inteligência e lucidez.
COSMOPOLIS
Título original: Cosmopolis
Realização: David Cronenberg (França, Canadá, Portugal, Itália, 2012); Argumento: David Cronenberg, segundo romance homónimo de Don DeLillo; Produção: Paulo Branco, Martin Katz, Edouard Carmignac, Walter Gasparovic, Gregoire Melin, Renee Tab, Joseph Boccia; Música: Howard Shore; Fotografia (cor): Peter Suschitzky; Montagem: Ronald Sanders; Casting: Deirdre Bowen; Design de produção: Arvinder Grewal; Guarda-roupa: Denise Cronenberg; Maquilhagem: Seth Rossman; Direcção de Produção: Joseph Boccia, Anne Mattatia, Robin M. Reelis, Lori A. Waters; Assistentes de realização: Jack Boem, Tim Cushen, Jonathan Gajewski, Justin Gajewski, Walter Gasparovic, Gerrod Shully; Departamento de arte: Ron Hewitt, Marc Kuitenbrouwer, Matt Middleton, Brad Milburn; Som: Jonathan Acbard, Rob Bertola, Michael O'Farrell; Efeitos especiais: Warren Appleby, Daniel White; Efeitos visuais: Devin Dawkins, Michael DiCarlo, Naomi Foakes, Matthew Lajoie, Wojciech Zielinski; Companhias de produção: Alfama Films, Prospero Pictures, Kinology, France 2 Cinéma, Talandracas, Téléfilm Canada, Leopardo Filmes, Canal+, Rai Cinema, Radiotelevisão Portuguesa; Intérpretes: Robert Pattinson (Eric Packer), Jay Baruchel (Shiner), Samantha Morton (Vija Kinsky), Paul Giamatti (Benno Levin), Kevin Durand (Torval), Juliette Binoche (Didi Fancher), Sarah Gadon (Elise Shifrin), Emily Hampshire (Jane Melman), Mathieu Amalric (Andre Petrescu), Patricia McKenzie (Kendra Hays), Abdul Ayoola (Ibrahim Hamadou), Anna Hardwick, K'Naan, George Touliatos, Saad Siddiqui, Philip Nozuka, Jadyn Wong, Zeljko Kecojevic, Maria Juan Garcias, Milton Barnes, Gouchy Boy, Paulette Sinclair, etc. Duração: 108 minutos; Distribuição em Portugal: Leopardo Filmes; Classificação etária: M/ 16 anos; Estreia em Portugal: 31 de Maio de 2012. 

quarta-feira, junho 06, 2012

OS CINEMAS DA EUROPA - CONVITE


LANÇAMENTO DE UM NOVO LIVRO
Na próxima terça-feira, dia 12 de Junho, no Auditório Municipal Maestro César Batalha, em Oeiras (Galerias Alto da Barra), pelas 17 horas, será vista e comentada a obra-prima "O Mundo a Seus Pés", de Orson Welles, integrada na "masterclass" "Cinema Americano" (1930-1960). 
Logo a seguir, pelas 19 horas, ocorrerá o lançamento do livro "Os Cinemas da Europa", relativo ao ciclo do ano passado. 
OS CINEMAS DA EUROPA
de Lauro António
O actual mapa da Europa é constituído por 50 países, dos quais 27 pertencem à CE, 5 se candidatam a sê-lo, 17 não aderiram nem o pretendem fazer, e um que proclamou unilateralmente a sua independência. Da Islândia à Grécia, de França ao Azerbaijão, de Espanha à Suécia, de Renoir a Parajanov, de Dreyer a Eisenstein, de Fritz Lang a Aki Kaurismaki, de Buñuel a Oliveira, que identidade?
Em termos de cinema, que Europa é esta?
A resposta a esta pergunta foi o tema de sessões que ocuparam uma “masterclass”, durante o ano de 2011, no Auditório Municipal César Batalha, nas Galerias do Alto da Barra, em Oeiras, através da qual Lauro António, realizador, crítico e professor de cinema, tentou aproximar-se de alguns dos aspectos que podem ou não definir, cinematograficamente, a identidade nacional e continental e descortinar como o cinema interage com a originalidade de cada país, a sua história, a sua cultura, os seus valores mais intrínsecos.
Em cada sessão foi abordado um país, uma cinematografia, e um filme específico de um cineasta particularmente significativo. Do resultado desse trabalho, e das folhas de sessão semanalmente distribuídas pelos espectadores, surgiu a presente obra que agora se apresenta ao público, numa edição da Câmara Municipal de Oeiras.

quinta-feira, maio 31, 2012

"MANHÃ SUBMERSA" EM CERVEIRA

Vão comer a "Manhã Submersa"
em Vila Nova de Cerveira, 
durante as "Curtas de Gastronomia",
na noite do dia 8 de Junho. 

terça-feira, maio 29, 2012

CINEMA: PROCUREM ABRIGO



PROCUREM ABRIGO 

“Procurem Abrigo” é uma experiência profundamente angustiante e inquietante, prolongando de forma particularmente coerente o ambiente de uma América rural, aparentemente bucólica, mas no fundo brutalmente traumatizada, que já vinha do belíssimo filme de estreia de Jeff Nichols, “Histórias de Caçadeiras”. Em ambos os casos, no centro do drama encontram-se células familiares que vivem momentos de crise. Falar aqui de crise, não será tão estranho como possa parecer. Esta crise de “Take Shelter” é uma crise individual, mas tudo leva a crer que a sua leitura possa ser metafórica e envolver não só a sociedade americana actual, mas toda a humanidade.
Curtis (Michael Shannon) vive no Ohio, numa região do Midwest de indesmentível beleza paisagística, serena e quase bucólica. Ele é um homem íntegro e religioso, branco conservador e tradicionalista, devotado ao trabalho e à família, com dedicada mulher, Samantha (Jessica Chastain) e uma muito amada filha, surda-muda, Hannah (Tova Stewart). Tudo parece correr na mais discreta harmonia, o seu companheiro de trabalho, Dewart (Shea Whigham), chega mesmo a invejar a sua vida. De forma insidiosa mas insistente, no entanto, a paranóia instala-se. Curtis começa a ter sonhos e visões perturbadoras. A tempestade agiganta-se no céu toldado de pesadas e negras nuvens, os raios ameaçadores cruzam o horizonte, a chuva é pegajosa e suja, assemelhando-se, nas suas palavras, a óleo de carros. Nos seus sonhos cada vez mais frequentes sente-se atacado pelo seu fiel cão, é assaltado no carro quando viaja com a filha, tem ataques de ansiedade quando conduz, adoece com febre, inunda a cama de urina numa noite de pesadelo… Sempre que olha o céu, a ameaça vislumbra-se, acompanhada de alarmantes sons e presságios funestos. Pássaros negros atacam-no e depois despedem-se do céu caindo com fragor na estrada. Pergunta-se: Sou só eu que vejo e ouço o que se passa?
Curtis sabe que a mãe (Kathy Baker) se encontra num lar há trinta anos desde que lhe foi diagnosticada esquizofrenia paranóica. Um dia vai visitá-la para lhe perguntar quais os primeiros sintomas da sua doença. “Tinha pesadelos?”, pergunta. “Não, mas passei por períodos stressantes, que geravam o pânico. Sentia-me observada e ouvida por toda a gente”. A hereditariedade constrange-o. Ele não acredita que sonhe. Para Curtis aqueles sinais são presságios, pressentimentos: “Tenho medo do que venha aí!” Procura um psiquiatra, é ouvido por uma psicóloga. E começa a preparar um abrigo subterrâneo para se precaver, a si e à sua família, do que há-de vir. A sua normalidade foi para sempre transtornada. Contrai dívidas, perde o emprego, destrói a harmonia familiar, volta-se contra os amigos, explode com violência num jantar durante o qual é acusado de estar louco.
Curtis tem medo do que aí vem. A natureza parece a todos pacifica mas a ele não. Na aragem que varre as árvores ele descobre a tempestade. A chuva que cai em pesadas bátegas ele vê-a nas suas mãos como óleo contaminado. Nas nuvens que toldam o céu descobre tornados malditos. O medo tudo transforma, tudo subverte. Do caso particular, singular, de uma esquizofrenia paranóica, pode facilmente passar-se para o colectivo. E se finalmente não fosse só Curtis a ver aproximar-se a tormenta? Será que esta é real ou será que a sua esquizofrenia se transmitiu a outros? Como o próprio afirma, quando lhe perguntam se anda preocupado, a resposta é “não mais do que os outros”. O que pode querer transformar a experiência pessoal em metáfora colectiva.
“Procurem Abrigo” é definitivamente um filme catástrofe sobre um fim de mundo que se aproxima. Mas, ao contrário de muitos outros, que jogam nos efeitos especiais para provocar o medo, aqui o medo é interior, instala-se no âmago de cada um de nós. O filme de Jeff Nichols é talvez um dos mais belos, rigorosos, implacáveis e austeros filmes americanos dos últimos anos. Anda paredes-meias com “A Árvore da Vida”, de Mallick, com “Melancolia”, de Lars von Trier, aproximando muito de alguns outros títulos surgidos nos anos mais próximos, onde o ambiente rural prefigura um microcosmo americano. Ameaçado. 
Para o sucesso desta obra, a que me apetece chamar obra-prima, muito contribui a interpretação genial de um actor magnifico, Michael Shannon (que há muito merece nomeações para Oscars), e a presença frágil e dúctil dessa perturbante Jessica Chastain, que já notáramos este ano em “A Árvore da Vida” e em “As Serviçais” (entre outros trabalhos). Mas a sumptuosa fotografia de Adam Stone e o seu aproveitamento dramático da paisagem, a partitura musical de David Wingo, bem como a sonoplastia, discreta, minimalista, mas profundamente inquietante, merecem referência especial. Este é bem um filme do nosso tempo, um preocupante sintoma de uma sociedade esquizofrénica, em crise. Um dos mais lancinantes retratos da América actual, sem demagogias, sem retórica, escavando até à alma de um povo dilacerado pelo medo. O medo do exterior, o medo do interior. Uma inspirada projecção deste tempo de crise que a todos nos devora.


PROCUREM ABRIGO
Título original: Take Shelter
Realização: Jeff Nichols (EUA, 2011); Argumento: Jeff Nichols; Produção: Tyler Davidson, Kevin Flanigan, Sarah Green, Brian Kavanaugh-Jones, Christos V. Konstantakopoulos, Sophia Lin, Chris Perot, Richard Rothfeld, Robert Ruggeri, Colin Strause, Greg Strause, Adam Wilkins; Música: David Wingo; Fotografia (cor): Adam Stone; Montagem: Parke Gregg; Design de produção: Chad Keith; Direcção artística: Jennifer Klide; Decoração: Adam Willis; Guarda-roupa: Karen Malecki; Maquilhagem: Julia Lallas; Assistentes de realização: Timothy Johnson, Lia Lockert, Cosmo Pfeil, Darius Shahmir; Som: Joshua Chase, Lyman Hardy; Efeitos especiais: Chad Ball, Timothy R. Hoffman, Francis Link; Efeitos visuais: Chris Wells; Companhias de produção: Hydraulx Entertainment, REI Capital, Grove Hill Productions, Strange Matter Films; Intérpretes: Michael Shannon (Curtis), Jessica Chastain (Samantha), Tova Stewart (Hannah), Kathy Baker (Sarah), Shea Whigham (Dewart), Katy Mixon (Nat), Natasha Randall (Cammie), Ron Kennard (Russell), Scott Knisley (Lewis), Robert Longstreet (Jim), Heather Caldwell, Sheila Hullihen, John Kloock, Marianna Alacchi, Jacque Jovic, Bob Maines, Charles Moore, Pete Ferry, Molly McGinnis, Angie Marino-Smith, Isabelle Smith, Tina Stump, Ken Strunk, Maryanne Nagel, Hailee Dickens, Guy Van Swearingen, etc. Duração: 120 minutos; Distribuição em Portugal: ZON Lusomundo; Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal: 17 de Maio de 2012.

 o realizador Jeff Nichols

sábado, maio 19, 2012

A PARTIR DE AMANHÃ, EM PORTEL



_O CASTELO EM IMAGENS – 2012
Texto de Apresentação
Faz dez anos este pequeno festival de cinema, “O Castelo em Imagens”, que nasceu da ideia de homenagear e sublinhar a importância histórica, social, cultural, artística e cinematográfica do “castelo”. Algo que este ano, nos apraz registar, foi seguido por Guimarães, Capital Europeia da Cultura, que desde o dia 7 de Abril, numa iniciativa a que deu o nome “O Castelo em 3 Actos”, um projecto de Paulo Cunha e Silva em volta do símbolo mais mediático de Guimarães, salientou igualmente a simbologia do seu castelo através de diversas manifestações artísticas a que não faltou o cinema. Interessante verificar esta convergência de intenções.
No ano passado, referimos que este “O Castelo em Imagens” “emanou de um conjunto de vontades com interesses comuns à volta das muralhas de um castelo (o de Portel), de todos os castelos (inicialmente os portugueses, como é óbvio, mas também todos os castelos do mundo, do mundo “visível”, dito “real”, mas também do mundo da fantasia, que só existe no interior de cada um de nós). Falamos de utopias, de castelos idealizados como vida em comum, harmoniosa e fraterna, não dos castelos da violência, da ocupação, da usurpação e da prepotência. O castelo da defesa dos ideais. De Camelot, o castelo dos Cavaleiros da Távora Redonda, por exemplo”. Este ano vamos mais longe e, explorando o tema do western, entramos por terrenos bravios do Velho Oeste norte-americano, para, com base nas incipientes fortificações que por ali se ergueram em tempos de conquista da fronteira e de desbravamento de terras selvagens, muitas vezes ocupadas por índios que se viram espoliados pelos invasores, funcionaram igualmente como símbolo de um tempo e de um espaço.
Não se trata quase nunca do castelo tradicional, enquanto constituição militar, que foram raros, mas neste caso o castelo tanto podia ser uma missão religiosa transformada em forte, como foi o caso de “The Alamo”, como de uma caravana de colonos, fechada em círculo, resguardando-se de ataques adversos, como de uma aldeia mexicana, vítima da prepotência de bandos de pistoleiros saqueadores, ou de uma aldeia índia, a braços com agressores. Por vezes, uma única casa, perdida na planície, é o castelo de resistência de uma família de agricultores. Ou a diligência que atravessa os grandes espaços, exposta à fúria dos elementos e dos assaltantes. O castelo é, pois, o local de refúgio e resistência.
Para lá desse pequeno ciclo que relembra a importância do western que André Bazin considerou “o cinema americano por excelência”, haverá ainda sessões com animação para o público mais jovem, uma sessão com “Frei Luís de Sousa”, integrada no Dia do Autor Português”, e um pequeno workshop sobre “O que é o Cinema”, onde se tentará uma iniciação à linguagem cinematográfica e audiovisual.
Desde a segunda edição de “O Castelo em Imagens” que se alargaram os horizontes do festival e se criou o Concurso Nacional Escolar, dedicado aos jovens em idade escolar, do ensino básico ao superior, que quisessem expressar as suas artes e sensibilidades, os seus conhecimentos e a sua fantasia, em pintura, desenho, fotografia ou vídeo. Com o castelo como tema inspirador, o concurso nasceu, e em boa hora o fez, porque desde a primeira edição se mostrou uma certeza motivadora. Quaisquer que sejam os outros balanços que se possam fazer deste festival (e esperemos que sejam francamente positivos), esta afluência de obras de escolas e alunos de todas as regiões de Portugal (e igualmente de muitas outras partes do mundo onde há comunidades portuguesas, de Timor ao Brasil, da Europa à América!) é já uma realidade insofismável que coloca Portel no centro nevrálgico de uma nova aproximação do nosso património histórico, cultural e artístico que o “castelo” representa. E demonstra uma vez mais que só é preciso um pouco de imaginação para mobilizar jovens e docentes para novos e aliciantes projectos pedagógicos.
As obras concorrentes serão, como sempre, apreciadas por um Júri independente, que incorporará elementos de reconhecida idoneidade ligados ao campo da Cultura, do Cinema e do Audiovisual ou da História, escolhidos pela organização do Festival, e ainda outros convidados de Portel. Este ano estão previstas no Júri as presenças de Alice Vieira e Fernando Dacosta, escritores, Frederico Corado, realizador e encenador, Aurora da Conceição Carapinha, Delegada Regional de Cultura do Alentejo, Jorge Luís Marques Garcia, professor da Escola de Portel, e Patrícia Gomes da Silva, representante da Câmara Municipal de Portel. Teremos ainda outras actividades paralelas, como concertos a abrir e a fechar o certame, reunindo Anabela e Carlos Guilherme e o flamengo de Serva la Bari.

Lauro António
Director de “O Castelo em Imagens”


Programação:

Domingo, 20 de Maio de 2012
21,30 Espectáculo de Abertura: Concerto com Anabela, Carlos Guilherme 
e Banda do Lavre
Segunda-feira, 21 de Maio de 2012
10,00 ANIMAÇÃO: CLÁSSICOS DE ENCANTAR (Walt Disney), A Lebre e a Tartaruga, A
Deusa da Primavera, Crianças no Bosque, etc. M/ 4 anos.
14,00 WESTERN: OS SETE MAGNIFICOS (The Magnificent Seven), de John Sturges
(EUA, 1960), com Yul Brynner, Eli Wallach, Steve McQueen, Charles Bronson, etc.
125 m; M/ 12 anos.
21,30 WESTERN: A QUADRILHA SELVAGEM (The Wild Bunch), de Sam Peckinpah (EUA,
1969); com William Holden, Robert Ryan, Ernest Borgnine, etc. 140 m; M/ 12 anos.

Terça-feira, 22 de Maio de 2012
10,00 ANIMAÇÃO: CLÁSSICOS DE ENCANTAR (Walt Disney), O Príncipe e o Pobre, O
Flautista de Hamelin, O Rei Cole, Cavaleiro por um Dia, etc. M/ 4 anos.
14,00 WESTERN: FORTE APACHE (Fort Apache), de John Ford (EUA, 1948), com John
Wayne, Henry Fonda, Shirley Temple, etc. 127 m; M/ 12 anos.
21,30 WESTERN: JUSTICEIRO SOLITARIO (Pale Rider), de Clint Eastwood (EUA, 1985),
com Clint Eastwood, Michael Moriarty, etc. 111 m; M/ 12 anos.
Quarta-feira, 23 de Maio de 2012
10,00 ANIMAÇÃO: CLÁSSICOS DE ENCANTAR (Walt Disney), O Dragão Relutante, O
Touro Fernando, Golias, Johnny Semente de Maçã, etc. M/ 4 anos.
14,00 DIA DO AUTOR PORTUGUÊS: FREI LUIS DE SOUSA, de António Lopes Ribeiro
(Portugal, 1950); com Maria Sampaio, Maria Dulce, Raul de Carvalho, João
Villaret, Barreto Poeira, Tomás de Macedo, etc. 118 m; M/12 anos.
21,30 WESTERN: O HOMEM QUE MATOU LIBERTY VALANCE (The Man who Shot
Liberty Valance), de John Ford (EUA, 1962), com James Stewart, John Wayne, Vera
Miles, Lee Marvin, etc. 118 m; M/ 6 anos.
Quinta-feira, 24 de Maio de 2012
10,00 ANIMAÇÃO: CLÁSSICOS DE ENCANTAR (Walt Disney), Os Três Porquinhos, O Lobo Mau, Lambert, o Leão Ovelhudo, Os Três Mosrateiros, etc. M/ 4 anos.
14,00 WESTERN: SILVERADO, de Laurence Kasdan (EUA, 1985), com Kevin Kline, Kevin Kostner, Scott Glwenn, Danny Glover, etc. 127 m; M/ 12 anos.
17,00 OBRAS A CONCURSO
21,30 WESTERN: ALAMO, de John Wayne (EUA, 1960), com John Wayne, Richard
Widmark, Laurence Harvey, etc. 154 m; M/ 12 anos.
Sexta-feira, 25 de Maio de 2012
10,00 ANIMAÇÃO: CLÁSSICOS DE ENCANTAR (Walt Disney), A Lebre e a tartaruga, A
Deusa da Primavera, Crianças no Bosque, etc. M/ 4 anos.
14,00 WORKSHOP: “O que é o cinema?” – Lauro António e Frederico Corado
17,00 OBRAS A CONCURSO
21,30 WESTERN: OS PROFISSIONAIS (The Professionals), de Richard Brooks (EA, 1966),
com Burt Lancaster, Lee Marvin, Robert Ryan, Cláudia Cardinale, etc. 
112 m; M/ 12 anos. 

Sábado, 26 de Maio de 2012
14,00 WORKSHOP: “O que é o cinema?” – Lauro António e Frederico Corado
17,00 ENCERRAMENTO E ENTREGA DE PRÉMIOS
18,00 ESPECTÁCULO COM SERVA LA BARI E OS SEUS “AIRES FLAMENCOS”



CINEMA: UMA TRAIÇÃO FATAL


UMA TRAIÇÃO FATAL
Steven Soderbergh é um realizador com quem simpatizo bastante, desde os tempos de “Sexo, Mentiras e Vídeo” (1989). Em cada seu filme sente-se o prazer do cinema, quer sejam obras decisivamente pessoais, mais experimentais, quer se trate de outras mais “comerciais”, mas ainda assim muito marcadas pelo seu estilo. Depois, é um “faz tudo” e faz tudo bem, escreve, realiza, produz, fotografa, monta, etc, etc. e não pára de trabalhar. Chega aos três filmes por ano: em 2011, realizou “The Last Time I Saw Michael Gregg”, “Contágio” e “Uma Traição Fatal”, não falando noutras actividades suas como produtor (ainda em 2011 produziu para outros realizadores “Roman Polanski: Odd Man Out”, “Temos de Falar Sobre Kevin” e “His Way”).
“Uma Traição Fatal” vem na linha da sua série “Ocean's Eleven - Façam as Vossas Apostas” (2001), “Ocean's 12” (2004) e “Ocean's 13” (2007), procurando erguer uma obra de acção intensa, sem grandes preocupações de plausibilidade, jogando no divertimento pelo divertimento. O argumentista Lem Dobbs (o mesmo de “Kafka” e “O Falcão Inglês”, ambos de Soderbergh, e ainda de “Sem Saída” ou de “Cidade Misteriosa”) acompanha a peregrinação de uma espia norte-americana, “não oficial”, Mallory Kane (Gina Carano) que nos é apresentada nas imagens iniciais num café de estrada, onde é vítima de uma cilada engendrada pelo traidor inglês Kenneth (Ewan McGregor), que terá sido seu marido no passado. Foge num carro pedido de empréstimo a um estupefacto Scott (Angarano), a quem depois se entretém a contar parte da sua movimentada vida, introduzida em flashbacks no filme. Depois tudo é cada vez mais confuso e caótico, percebendo-se que anda ao serviço de um americano de nome Coblenz (Douglas) que a tinha enviado a Barcelona, e depois a Dublin, em parceria com um agente da MI6, Paul (Fassbender), tudo isto resvalando de emboscada em emboscada e de demonstrações de artes marciais em demonstrações de artes marciais, que só têm um fito: a vingança e a limpeza do nome de Mallory, filha de um retirado escritor a viver no México. Deve acrescentar-se que, em questões de limpeza, Mallory Kane é um ás, não fosse a simpática Gina Carano uma expert em artes marciais e cenas de pancadaria avulsas, levando tudo à frente, a solo ou em grupo, só com punhos ou contra gangs armados de metralhadoras. Uma espécie de “Kill Bill”, de Tarantino, mas sem metade da graça, ainda que a narrativa esteja sempre à altura do estilo fluído e elegante de Soderbergh. Acontece, porém, que o exercício é desconcertantemente desmiolado e oco, parecendo que roda no vazio, sem âncora a que se agarrar. Saltitando de cidade em cidade, de país em país, qual guia turístico com roteiro para cumprir, a aventura acaba por aborrecer um pouco, que nem a fotografia de Peter Andrews (pseudónimo de próprio Soderbergh), nem a montagem de Mary Ann Bernard (outra vez Soderbergh sob disfarce) logram minimizar. 
Saúde-se, no entanto, a vedeta da companhia, bonita e destemida, a ameaçadora Gina Carano, que relembra a já mítica Lisbeth Salander, de “Millenium”, o que deixa adivinhar uma nova geração de heroínas a povoar o cinema contemporâneo. Mulheres fatais (mas muito diferentes das antigas mulheres fatais do “film noire”) que conduzem o seu próprio jogo depois de fustigadas por sucessivos desencantamentos e traições masculinas. Gina Carano tem tudo para regressar mais vezes e ser bem-vinda.
“Haywire” não é um mau filme, mas sabe a muito pouco, sobretudo assinado por Soderbergh, e mesmo um entretenimento sem pretensões merece um pouco mais. Como a série “Ocean's Eleven” o demonstrava.
Além de Gina Carano, andam por aqui ainda Michael Fassbender, Ewan McGregor, Michael Douglas, Antonio Banderas, Bill Paxton, Mathieu Kassovitz, entre outros, pouco mais do que a facturar uns milhares de dólares.
UMA TRAIÇÃO FATAL
Título original: Haywire
Realização: Steven Soderbergh (EUA, Irlanda, 2011); Argumento: Lem Dobbs; Produção: Ken Halsband, Gregory Jacobs, Alan Moloney, Michael Polaire, Tucker Tooley; Música: David Holmes; Fotografia (cor): Peter Andrews (Steven Soderbergh); Montagem: Mary Ann Bernard (Steven Soderbergh); Casting: Carmen Cuba; Design de produção: Howard Cummings; Direcção artística: Iñigo Navarro; James F. Oberlander, Anna Rackard; Decoração: Barbara Munch; Guarda-roupa: Shoshana Rubin; Maquilhagem: Marie Larkin, Michelle Vittone; Direcção de Produção: Julie M. Anderson, Nicos Beatty, Noëlette Buckley, Bernat Elias, David Kirchner, Michael Polaire; Assistentes de realização: Jim Corr, Catherine Dunne, Eric Glasser, Gregory Jacobs, Jody Spilkoman; Departamento de arte: Robert J. Carlyle, Amahl Lovato, Roberta Marquez Seret, Chad Owens, Schuyler Telleen, Schuyler Telleen, Pilar Valência; Som: Andrew Felton, Thomas W. Jordan, Edwardo Santiago, Dennis Towns; Efeitos especiais: Ron Bolanowski, Kevin Hannigan, Juan Ramón Molina; Efeitos visuais: John Kennedy, Tim Morris; Companhias de produção: Relativity Media, Bord Scannan na hEireann / Irish Film Board / The Irish Film Board; Intérpretes: Gina Carano (Mallory Kane), Michael Fassbender (Paul), Ewan McGregor (Kenneth), Michael Douglas (Coblenz), Antonio Banderas (Rodrigo), Bill Paxton (John Kane), Mathieu Kassovitz (Studer), Julian Alcaraz (Victor), Eddie J. Fernandez (Barroso), Lluís Botella Pont (Helpful Guy), Aaron Cohen (Jamie), Maximino Arciniega (Gomez), Anthony Brandon Wong (Jiang), James Flynn, Karl Shiels, Bobby Burns, Al Goto, R.A. Rondell, John Wylie, Todd Thatcher Cash, Edward A. Duran, Derick Pritchard, J.J. Perry, Michael Angarano, Debby Lynn Ross, Tim Connolly, Natascha Berg, etc. Duração: 93 minutos; Distribuição em Portugal: Atalanta Filmes; Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal: 10 de Maio de 2012.

domingo, maio 13, 2012

CONCERTO INOLVIDÁVEL

BERNARDO SASSETTI ABRE 
"CINE ECO 2010"
Num concerto memorável, Bernardo Sassetti e o seu Trio de Jazz (ele mais Carlos Barreto e Alexandre Frazão) abriram o Festival de Seia de 2010. No mesmo ano em que Fernando Lopes era Presidente do Júri Internacional. Duas perdas irreparáveis para a cultura portuguesa, duas perdas pessoais imensas. 
A presença, entre outros, destes nomes tornou o Cine Eco 2010 inolvidável. (fotos de MEC)

sexta-feira, maio 11, 2012

BERNARDO SASSETTI


Bernardo Sassetti e Beatriz Batarda, marido e mulher, estiveram no Famafest 2010 quando a actriz foi homenageada. Estas são fotos de um dia feliz. Nessa noite ficou combinado que, na edição de 2011, Bernardo Sassetti iria abrir o festival com um concerto especial, só com música de filmes, originais seus e de outros compositores. E ficou prometida a homenagem devida ao grande compositor e pianista. Infelizmente, em 2011 já não houve festival, nem concerto, nem homenagem. Mas ficarei para sempre com a sua presença comigo, e a homenagem essa é a de todos nós ao seu talento. 

domingo, maio 06, 2012

NO DIA DA MÃE

MINHA MÃE

Recordando a minha mãe, em quadros do meu pai. 
No último, a família de então reunida, 
segurada pelo braço de meu pai, Lauro Corado
 Eu a minha mãe.
Auto retrato de meu pai, com a família, minha mãe e eu, acabado de nascer (enfim, por aí...)

quarta-feira, maio 02, 2012

NÓS POR CÁ (NEM) TODOS BEM


FERNANDO LOPES 
(1935-2012)
O que retenho do Fernando Lopes? Para lá dos seus filmes, os encontros no Vavá e no Luanda, com o seu blusão de couro, o seu whisky, o seu café e o seu cigarro. O sorriso no seu rosto, a palavra doce, a generosidade do gesto. “Senta aí!”
Para lá do convívio com os filmes, muitos deles dos mais belos do cinema português, de “Belarmino” a “Uma Abelha na Chuva”, de “O Fio do Horizonte” a “O Delfim”, fica o encontro com o homem, encontro que fiz questão de ser constante ao longo de alguns festivais que fui realizando, onde esteve em todos como Presidente de Júri. Ele era um dos melhores da geração do Cinema Novo, continuou a ser uma dos melhores. Lembro-me dele, em Portel, sentados ambos num banco de jardim, saboreando a aragem alentejana. Saboreando a vida. Agora que partiu, fica essa imagem de quem soube saborear a vida e quem no la deu a saborear. 
 En Seia, no Júri do Cine Eco, à direita, sentado no degrau.
Em Famalicão, durante o Famafest. 
Em Seide, na Casa de Camilo Castelo Branco, durante o Famafest, ao lado de Otelo.
Em Portel, no Júri de "O Castelo em Imagens" 
 Em Seia, durante o Cine Eco, num descanso do guerreiro.

segunda-feira, abril 30, 2012

O CASTELO EM IMAGENS Portel

O CASTELO EM IMAGENS
Entre 20 e 26 de Maio próximo, em Portel, vai decorrer a 10ª edição do Festival "O Castelo em Imagens" e o 9º Concurso Nacional Escolar subordinado ao mesmo tema.
Este ano o western e as fortificações do velho Oeste servem de base à selecção de filmes da mostra, que inclui ainda sessões de animação para jovens, uma sessão dedicada ao Dia do Autor Português, um workshop sobre "O que é o Cinema?", exposições, concertos e etc. A capa do livro catálogo, cujo dossier central é sobre o western, já aqui fica.

sábado, abril 21, 2012

"UM MARIDO IDEAL" NO CARTAXO

UM MARIDO IDEAL
Acabado de chegar do Cartaxo  onde assisti no no Centro Cultural do Cartaxo à estreia de "Um Marido Ideal", de Oscar Wilde, numa encenação de Frederico Corado, com um excelente grupo de amadores (os que amam o teatro) numa experiência de teatro comunitário invulgar. Casa cheio e um verdadeiro sucesso. Há novo espectáculo, hoje sábado à noite, e domingo às 17 horas. Vale a pena ver. Cerca de quarenta pessoas em palco com orquestra incluída, uma encenação inventiva, um ritmo muito bom, um elenco quase todo ele virgem de teatro que dá o melhor de si, tudo a servir uma peça excelente e de grande actualidade. Parabéns a todos. 
fotos de ensaios
Ver mais AQUI.
"Um Marido Ideal", de Oscar Wilde, encenado por Frederico Corado no Centro Cultural do Cartaxo. Ensaios valsa com coreografia de João Santos. Com Ana Raquel Hermínio, Francisco Girardin, Ana Lúcia Marcelino, Constança Lopes, Pedro Cavaca, Paulo Cabral, Mauro Cebolo, José Falagueira, Pedro Lino, Nuno Crespo, Jeanine Steuve, João Pinheiro, André Pita Groz, João Morgado, Mário Pataco, Daniel dos Santos, Mário Júlio, Bruna Seabra, José Monteiro, Lara Pita Groz, Vera Eloi da Fonseca, Ana Vieira, Mafalda Carvalho, Maria Machado, Rosário Narciso, Sara Rey, Ana Machado, Beatriz Costa e Francisca Galhardo. Realização Video de Hélder Magalhães.

segunda-feira, abril 16, 2012

MANHÃ SUBMERSA na Escola Secundária José Augusto Lucas

A Escola Secundária Professor José Augusto Lucas em Linda-a-Velha tem um Clube de Cinema, que cumpriu 100 sessões há dias. A 101º sessão, na próxima quarta-feira, dia 18 de Abril, às 14:30, será ocupada pela exibição de "Manhã Submersa", com debate no final. Lá estarei, até porque "Gostos Discutem-se". 
para saber mais AQUI

quinta-feira, abril 05, 2012

COMISSÃO LIQUIDATÁRIA


COMISSÃO LIQUIDATÁRIA

Todos os dias há novas do meu país
ou são os ordenados que baixam
ou os desempregados que aumentam
os velhos sem regalias
os novos sem perspectivas
Emigrem, dizem eles!
as reformas que encolhem
os anos que diminuem em ordenados
os meses que aumentam em sacrifícios
os hospitais que se fundem
as escolas que desaparecem
os doentes que se lixem
os alunos que se tramem
os professores que se esfolem
quem trabalhe que pague a crise
quem especula que enriqueça
já que inventou a crise
corta-se na função pública
mas aumentam-se os impostos
e mais ainda outro tanto
iva, irs, irc, scuts 
e tudo o mais que inventam
fecha a maternidade
nascer neste país não compensa
Badajoz fica mesmo ali ao lado
e a gasolina lá é mais barata
o crime aumenta, os suicídios abundam
que se lixe a classe média
e os pobres prós cemitérios
corta daqui, aumenta dali
os ratings agradecem
e quanto aos senhores do poder
bla bla bla bla bla bla
só promessa de auteridade
e mentiras ao desbarato
marque-se a data do funeral
não é preciso coroas de flores
e três palmos de terra bastam
economize-se nos sinos e na missa
e vai de roda, e vai de roda
que a troika está contente!

quinta-feira, março 29, 2012

TEATRO: DANÇA DE RODA


DANÇA DE RODA
Arthur Schnitzler, austríaco (Viena, 15 de Maio de 1862 — Viena, 21 de Outubro de 1931), médico, poeta e dramaturgo, é um dos mais importantes autores de finais do século XIX, inícios do século XX, da Europa Central, sobretudo no que ao teatro diz respeito. Filho de Johann Schnitzler, de origem judaica, respeitado médico e director do hospital “Allgemeine Poliklinik”, completou igualmente o curso de medicina, colaborou na revista médica “Allgemeine Klinische Rundschau” e interessou-se desde muito cedo pela psicologia e psiquiatria, fez experiências de hipnose e a sugestão como técnicas terapêuticas. Foi médico no Hospital “Wiener Allgemeines Krankenhaus” e, mais tarde, assistente do seu pai no hospital “Poliklinik”. Em 1893, abriu uma clínica privada, mas começou a dedicar-se cada vez mais à sua absorvente actividade literária, que tinha iniciado aos 18 anos, com a publicação de “A Canção de Amor da Bailarina”.
A sua relação com Sigmund Freud, que se limitou a cartas, muitas das quais desaparecidas, sublinhou a sua importância enquanto autor moderno, explorando 
o “monólogo íntimo”, desvendando o secreto subconsciente dos seus protagonistas. Teve por isso bastantes problemas com as autoridades civis e militares, sendo acusado de “pornografia” nalgumas das suas criações, nomeadamente em “Der Reigen” (Dança de Roda) que provocaria escândalo e alvoroço, sendo censurado.
Mas a similitude de percursos de Schnitzler e Freud é flagrante, ainda que cada um deles tenha as suas próprias vias de aproximação à psicanálise. As semelhanças são indiscutíveis. Ambos viveram, cada um ao seu modo, intensamente a psicanálise. Numa carta endereçada a Schnitzler, de Maio de 1922, Sigmund Freud fazia curiosas considerações sobre a obra do escritor e confessava ter evitado, durante muito tempo, ser-lhe apresentado, pois, ao ler os seus textos, acreditava que tratava-se de seu “duplo”. Alguém que, como ele, era “explorador das profundezas” e que mostrava “as verdades do inconsciente”. Freud escreveu textualmente: “Sempre que me deixo absorver profundamente pelas suas belas criações, parece-me encontrar, sob a superfície poética, as mesmas suposições antecipadas, os interesses e conclusões que reconheço como meus próprios. Ficou-me a impressão de que o senhor sabe por intuição – realmente, a partir de uma fina auto-observação – tudo que tenho descoberto noutras pessoas por meio de laborioso trabalho.”
“Dança de Roda” é uma obra de 1903, que a companhia do Teatro Municipal de Almada encenou com brilho, num trabalho de Rodrigo Francisco, colaborador de longa data de Joaquim Benite, que aqui comprova ter não só aprendido bem a lição, como ainda demonstra sensibilidade e inventiva para uma carreira a seguir com muita atenção. 
A peça é um delicioso exercício cénico, inteligente e sagaz de um ponto de vista crítico. “Dança de Roda” é uma dança em dez quadros, em que cada par vai evoluindo numa ligação sem falhas. A prostituta fala com o soldado, este passa à cena seguinte onde troca galanteios com a criada de quarto que, por sua vez se deixa seduzir pelo jovem senhor na cena 3. Jovem senhor que desvia do bom caminho uma jovem senhora, que depois mostra o seu dia a dia com o marido, que por seu turno se envolve com a doce burguesinha, sendo que esta arrebata o poeta na cena 7, para a seguir o poeta se envolver com a actriz, esta com o conde e finalmente o Conde reencontrar a prostituta da cena 1, no final. Fechado o cerco, o que sai desta girândola muito sensual, onde a libido explode sob os mais diversos pretextos, mostrando os alicerces de uma moral preconceituosa, mas sempre transgressora. Estamos no centro da Europa de inícios do século XX, frívola e efervescente, preparando os loucos anos 20 de uma euforia contagiosa, mas também perigosa. Daí a pouco, surgirão as ditaduras ferozes por todo o continente, para porem em ordem a dita instabilidade social e política, dando como justificação para a repressão a imoralidade e os excessos. Estes acontecimentos são cíclicos e a recuperação de uma obra como esta, neste momento, não deixa de ser criteriosa.
A encenação é cuidada, imaginosa, inteligente, irónica, fluida como convém a uma dança de roda, servida por cenários simples, mas eficazes e plasticamente muito bonitos, com um iluminação e uma sonoplastia que servem habilmente o conjunto. Depois temos uma interpretação globalmente muito conseguida, com um elenco quase todo muito jovem, onde sobressai um conjunto de actrizes que não me arrisco em classificar como uma geração de luxo que se apresenta para ganhar o futuro. Ana Cris, Catarina Campos Costa, Joana Francampos, Joana Hilário e Vera Barreto, cada uma na sua composição, cuidada, sensual, explosiva de talento e personalidade, mostram que o teatro em Portugal está bem servido para os tempos que se aproximam. Quase todas saídas do Conservatório e a rondar os vinte anos, são uma aposta ganha que vale a pena saudar. Certo que a direcção de actores é cuidada e extrai de cada actor o melhor que pode dar, mas sente-se neste grupo de actrizes uma galvanizante generosidade e entrega, sublinhadas por personalidades fortes e presenças marcantes. Um luxo para os espectadores que ainda podem ver André Gomes, Bartolomeu Pães, João Farraia, Miguel Martins e Pedro Walter dar uma boa réplica a este gineceu dramático que promete levar tudo à sua frente, assim lhe sejam dadas oportunidades.
Um belíssimo espectáculo, exigente e popular, que merece bem (ou melhor dizendo: exige) a presença dos espectadores. Quem gosta de teatro não sai defraudado e quem desconhece o teatro, aprenderá a amá-lo. Que melhor se pode dizer?
Dança de roda, de Arthur Schnitzler; Encenação: de Rodrigo Francisco; Tradução: José Palma Caetano; Luz e som: Guilherme Frazão; Cenário e figurinos: Ana Paula Rocha; Movimento: Jean Paul Bucchieri; Caracterização: Sano de Perpessac; Intérpretes: Ana Cris, André Gomes, Bartolomeu Pães, Catarina Campos Costa, João Farraia, Joana Francampos, Joana Hilário, Miguel Martins, Pedro Walter e Vera Barreto.
De 15 de Março a 1 de Abril, no Teatro Municipal de Almada; Sala Principal; M/12 anos; Horário: Quarta a Sábado: 21h30 Terça e Domingo: 16h00; Duração: 1h20.