quinta-feira, dezembro 15, 2011

TEATRO: QUEM TEM MEDO DE VIRGINIA WOOLF?

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 QUEM TEM MEDO DE VIRGINIA WOOLF?

NO CINEMA E NO TEATRO

As possibilidades oferecidas pelas novas tecnologias têm aspectos muito positivos. Mal acabei de ver “Quem tem Medo de Virgínia Woolf’” no Teatro Nacional de D. Maria II, chegado a casa recordei o filme, com o simples gesto de introduzir o DVD no leitor. Algo impensável há anos atrás e que agora permite leituras quase simultâneas, comparações e revisões da matéria dada num ápice. Além de somar às duas horas e meia da peça os 125 minutos do filme. Juro que não foi masoquismo, mas um exercício muito interessante e proveitoso, para perceber estratégias e opções de encenação e realização. E de adaptação.
Claro que é difícil sustentar uma comparação entre a versão portuguesa e a que o filme nos oferece, mas, apesar disso, julgo meritório o esforço de actores e técnicos nacionais. Mas vamos por partes. 
“Who's Afraid of Virginia Woolf?”, a peça de Edward Albee, estreou no Billy Rose Theater, na Broadway, no dia 13 de Outubro de 1962, numa encenação de Alan Schneider, com um elenco constituído por Arthur Hill (George), Uta Hagen (Martha), Melinda Dillon (Honey) e George Grizzard (Nick). Esteve em cena durante dois anos, com 664 representações. Durante esse tempo, o elenco foi substituído. Entraram Henderson Forsythe, Eileen Fulton, Mercedes McCambridge e Elaine Stritch. E como a peça era muito longa, com uma duração que quase atingia as três horas, havia um elenco de substituição para algumas récitas, sobretudo matinées: Kate Reid (Martha), Shepperd Strudwick (George), Avra Petrides (Honey) e Bill Berger (Nick).
Um acontecimento para a época, dado que Albee não era um autor conhecido senão dos circuitos off-Broadway, onde já tinha estreado algumas peças em um acto, nomeadamente “The Zoo Story” (1958) ou “The Sandbox” (1959). Mas “Who's Afraid of Virginia Woolf?”, a princípio recebida com alguma relutância, em função sobretudo da sua linguagem desabrida e pouco habitual em palcos, haveria de recolher o Tony de 1963 para a melhor peça do ano e o Prémio do Círculo de Críticos Teatrais de Nova Iorque. Foi seleccionada para o Pulitzer de 63, mas a Universidade de Columbia, que patrocina o prémio, não permitiu que o mesmo fosse atribuído, com a justificação de que a obra continha alusões sexuais e obscenidades.
Como facilmente se percebe “Who's Afraid of Virginia Woolf?” é uma brincadeira que parte da canção do filme de animação de Walt Disney “The Three Little Pigs”, onde aparece a pergunta: "Who's Afraid of the Big Bad Wolf?". Dado que se trata de um peça que decorre em ambientes universitários, o trocadilho literário impunha-se sintoma de um certo snobismo intelectual.
Albee reúne dois casais na sala de estar da casa de um deles. A peça estrutura-se em três actos que o autor identifica: “Act One - "Fun and Games”, “Act Two - "Walpurgisnacht" e “Act Three - "The Exorcism".
A casa é a de George e Martha, que acabam de regressar de uma festa e que convidam para uma longa noitada um casal recém chegado ao campus universitário. George é professor de História numa universidade americana cujo reitor é o pai da sua mulher Martha. Nick e Honey são os debutantes, sendo que ele vem assegurar uma cadeira de biologia. O álcool já correra na festa de onde vêm, e continuará a circular abundantemente durante o resto da vigília. George e Martha gostam de ter plateia para os seus confrontos verbais. Tudo indica que esta é apenas mais uma das sua típicas discussões, onde se agridem sem pudor, onde deixam extravasar toda a sua frustração e tristeza. George sonha com a cátedra de História, mas não a alcança e Martha humilha-o por isso. Nick e Honey são, aparentemente, os cordeirinhos escolhidos para o sacrifício dessa noite. Eles são os espectadores de um “jeu de massacre” impiedoso, e Nick oferece-se mesmo para concretizar a vingança de Martha.
Mike Nichols passou a cinema esta peça em 1966 e escolheu para o reduzido elenco duas excelentes duplas de actors: Elizabeth Taylor (Martha) e Richard Burton (George), George Segal (Nick) e Sandy Dennis (Honey). A escolha de Burton e Taylor não poderia ter sido melhor, dado que a própria vida privada deste casal poderia ter algo a ver com a de George e Martha. De todas as formas, o que prevalece no filme, que consegue uma extraordinária tensão entre as personagens, servido pelo magnífico preto e branco do notável director de fotografia Haskell Wexler, é a oposição entre um casal carregado de passado, de traumas e frustrações, que explode (regularmente?) como forma de exorcizar esses fantasmas, e um novo casal, sem passado visível e nada assegurando que com muito futuro. O peso da representação dos actores é impressionante, tornado particularmente complexa a relação que se estabelece entre eles. Os três “rounds” deste cruel combate que chega a ser quase de vida ou de morte, não se esgotam numa simples definição. George e Martha coabitam odeiam-se mas também se amam. A sequência final é significativa. Eles estão ali para continuarem, para enlaçarem as mãos e, no próximo fim-de-semana, voltarem a envolver-se numa feroz disputa. Com amor e ódio.
Mike Nichols foi muito inteligente na forma como adaptou a peça ao ecrã, com curtas saídas da sala de estar, nunca permitindo que essas “excursões” cortassem a densidade e a tensão psicológica estabelecida entre as personagens.
Esta nova encenação portuguesa não é deslumbrante, mas cumpre eficazmente o regresso da obra às salas portuguesas. Surge depois das encenações de João Vieira, numa produção Vasco Morgado, em 1971, de Fernanda Lapa, no Teatro de Hoje, em 1990, e de Carlos Otero, no TAS, em 2000.
Com um belíssimo cenário de F. Ribeiro e um excelente desenho de luzes de Nuno Meira, este espectáculo do Teatro Nacional de D. Maria II, último da era Diogo Infante, conta com uma encenação sóbria, mas não muito inspirada, de Ana Luísa Guimarães e um elenco esforçado, com Virgílio Castelo e Maria João Luís, no casal que se auto destrói, e Romeu Costa e Sandra Faleiro nos visitantes inexperientes que assistem a um perigosos jogo de revelações, de mentiras e de ilusões perdidas.
“Se existir uma história daqui a alguns anos e eu fizer parte dela, atrevo-me a dizer que “Quem tem medo de Virginia Woolf?” será a peça que melhor se identifica com o meu nome”. Estas foram palavras proferidas por Edward Albee, no programa do espectáculo apresentado em 1996, em Londres. Ela é indiscutivelmente uma das grandes peças de teatro da dramaturgia do século XX. Só por isso valeu a pena a sua releitura pelo TNDM II.

QUEM TEM MEDO DE VIRGINIA WOOLF?
Título original: Who's Afraid of Virginia Woolf?
Realização: Mike Nichols (EUA, 1966); Argumento: Ernest Lehman, segundo peça teatral de Edward Albee; Produção: Ernest Lehman; Música: Alex North; Fotografia (p/b): Haskell Wexler; Montagem: Sam O'Steen; Design de produção: Richard Sylbert; Decoração: George James Hopkins; Guarda-roupa: Irene Sharaff; Maquilhagem: Gordon Bau, Ron Berkeley, Sydney Guilaroff, Jean Burt Reilly; Assistentes de realização: Bud Grace; Departamento de arte: Craig Binkley, Harold Michelson, Joseph Musso; Som: M.A. Merrick; Direcção de Produção: Richard Barr, Doane Harrison, Clinton Wilder; Genérico: Wayne Fitzgerald; Coreógrafo: Herbert Ross; Companhias de produção: Warner Bros. Pictures, Chenault Productions; Intérpretes: Elizabeth Taylor (Martha), Richard Burton (George), George Segal (Nick), Sandy Dennis (Honey), Agnes Flanaganm Frank Flanagan, etc. Duração: 131 minutos; Distribuição em Portugal: Astória Filmes; Classificação etária: M/ 17 anos; Estreia em Portugal: 1967.

domingo, dezembro 11, 2011

CINEMA: DRIVE


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 DRIVE – RISCO DUPLO

“Drive – Risco Duplo”, de Nicolas Winding Refn, é um filme interessante que não merecia o áspero tratamento que lhe foi reservado por boa parte da crítica portuguesa, que assim desalinhou do coro de enfáticos elogios, algo exagerados também, de muita da crítica internacional, nomeadamente a norte-americana e do júri do festival de Cannes que consagrou Nicolas Winding Refn como o melhor realizador da edição deste ano.
Diga-se que “Drive” começa por ser desconcertante, a sua principal virtude. Anunciado como filme de acção, acaba por se assemelhar no seu ritmo a uma obra do dinamarquês Dreyer. Na verdade Nicolas Winding Refn é dinamarquês por nascimento, e aí estudou, muito embora viva nos EUA desde muito novo. A sua filmografia, como argumentista e realizador, é toda ela norte-americana e com predominância para temas de acção, violência e fantástico, sem nada de muito especialmente chamativo até ao presente. Dir-se-ia que “Drive” é o seu filme de arranque de uma obra pessoal, ainda que inscrita num género que conhece bem.
Com argumento solidamente escrito por Hossein Amini, segundo romance de James Sallis, o filme tem como personagem central uma figura sem nome, que se identifica como o “driver”, um homem de sete ofícios, andando todos eles à volta do carro. Ele é mecânico de automóveis, e parece que muito bom no que faz, é piloto de corridas e “duplo” em filmes de acção, e ainda põe ao serviço de gangs de assaltantes a sua perícia de condução. Ryan Gosling, a coqueluche do momento, é o actor escolhido para dar corpo a este personagem solitário e singular no mundo do gangsterismo. Um dia encontra Irene (Carey Mulligan), sua vizinha do lado, casada, com o marido na prisão, e um miúdo simpático para criar, e acontece o inevitável. 
Enfim, neste filme nada é o inevitável, o que marca pontos a seu favor. Há sempre uma nuance a considerar. O “driver” apaixona-se visivelmente, Irene também, mas quando o marido desta sai da prisão, é o “driver” que o vai tentar salvar da perigosa situação em que se encontra. A paixão, não sendo totalmente platónica, recua para segundo plano. Nada de mulheres fatais, nem Carey Mulligan o permitiria. Neste filme tudo parece andar ao ralenti, tudo muito contido e austero, rostos impassíveis e emoções recolhidas, até que, subitamente, se rasga esta ténue parede de uma (quase) indiferença e explode uma violência de uma brutalidade raras vezes vista. Mas mesmo esta violência é invulgarmente descrita: o “driver” entra num bar, povoado por prostitutas adormecidas, dirige-se a uma mesa, e de jacto, dá uma martelada brutal na mão do proxeneta. O que se vê é apenas um gesto, rápido, brutal, preciso, impiedoso. Depois coloca-lhe uma bala na testa e aponta o martelo, pronto a desferir o golpe final, se o visado não dizer o que ele quer ouvir.
Passada esta cena, aqui referida como um exemplo entre quatro ou cinco outras possíveis de citar, tudo continua como num drama intimista de Dreyer (sem a qualidade deste último, acrescente-se, para sossego dos desprevenidos). Passado este vórtice de violência, o “driver” volta à inexpressividade e sonolência habituais, caminha lento e compassado, fala pouco e olha lentamente à volta. Ele sabe-se o “condutor” eficiente e eficaz que ninguém irá deter. Pelo menos, até onde o filme caminhar.
A realização afasta-se completamente da esquizofrenia nervosa de um “Táxi Driver”, para apostar no seu oposto. Este é um filme de gangsters zen, em que se houvesse alguma cena de amor seria tântrica. Mas é interessante de acompanhar, por vezes irritante no seu esteticismo sofisticado, mas ainda assim curioso pela sua “diferença”. Bons actores (Ryan Gosling, Carey Mulligan, Albert Brooks, Ron Perlman, sobretudo estes), uma boa descrição de uma Los Angeles inóspita, e uma banda sonora que se adapta bem aos propósitos são motivos suficientes para alimentarem o resultado final. Acredito que o título vai figurar nalgumas categorias das nomeações para os Oscars que se adivinham.

DRIVE – RISCO DUPLO
Título original: Drive
Realização: Nicolas Winding Refn (EUA, 2011); Argumento: Hossein Amini, segundo romance de James Sallis; Produção: Frank Capra III, Garrick Dion, David Lancaster, Bill Lischak, Michel Litvak, Linda McDonough, John Palermo, Marc Platt, Gigi Pritzker, Chris Ranta, Adam Siegel, James Smith, Jeffrey Stott, Gary Michael Walters; Música: Cliff Martinez; Fotografia (cor): Newton Thomas Sigel; Montagem: Matthew Newman; Casting: Mindy Marin; Design de produção: Beth Mickle; Direcção artística: Christopher Tandon; Decoração: Lisa K. Sessions; Guarda-roupa: Erin Benach; Maquilhagem: Medusah, Gerald Quist; Direcção de Produção: Jim Behnke, Alice S. Kim; Assistentes de realização: Dieter 'Dietman' Busch, Frank Capra III, Mark Carter, Ronan O'Connor, Darrin Prescott; Departamento de arte: Denis Cordova, Joshua Dobkin, Megan Greydanus; Som: Lon Bender, Victor Ray Ennis; Efeitos especiais: James Lorimer; Efeitos visuais: Jerry Spivack; Companhias de produção: Bold Films, Odd Lot Entertainment, Marc Platt Productions, Motel Movies, Drive Film Holdings, Seed Productions; Intérpretes: Ryan Gosling (Driver), Carey Mulligan (Irene), Bryan Cranston (Shannon), Albert Brooks (Bernie Rose), Oscar Isaac (Standard), Christina Hendricks (Blanche), Ron Perlman (Nino), Kaden Leos (Benicio), Jeff Wolfe, James Biberi, Russ Tamblyn, Joe Bucaro III, Tiara , Tim Trella, Jim Hart, Tina Huang, Andy San Dimas, Steve Knoll, etc. Duração: 100 minutos; Distribuição em Portugal: PRIS Audiovisuais; Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal: 8 de Dezembro de 2011. 

sábado, dezembro 10, 2011

FEST'A FILM - MONTPELLIER, 2011

Durante a IV edição do Fest'A Film, Festival International du Film Lusophone et Francophone de Montpellier, entre 1 e 4 de Dezembro de 2011, de cima para baixo, da esquerda para a direita: Mec, Sala Rabelais, LA, Katia Martin Maresco, responsável pelos festivais "Parole de Femmes" e "Très Courtes", Tito Livio Santos Mota, director da Casa Amadis, organizadora do certame; Anna da Palma, realizadora portuguesa, radicada em França; Nádia Lopes Pierson, franco-caboverdiana, colaboradora do festival "Très Courtes"; Charles Poupot, realizador, francês; Carlos Pereira, director do "LusoJornal"; Ferdinand Fortes, director do Fest'A Film; Florent Robin, dirigente da Casa Amadis, e Yves Jeuland, realizador francês.   
Foram os organizadores do Festival e os membros do Júri Internacional que concedeu os seguintes prémios:
Grande Prémio do Festival (ex-eaquo): 
"Chateau Mouton Rothschild, de Louis Albert (França) 
e "Directo", de Luis Alvarães e Luís Mário Lopes (Portugal)
Melhor Animação: "A Ilha", de Alê Camargo (Brasil);
Melhor Argumento: "Grenouille d'Hiver", de Slony Sow (Frnaça);
Melhor Montagem: "Deus não Quis", de António Ferreira (Portugal)
Prémio Especial do Júri: "Dina", de Nickey Fonseca (Moçambique).


domingo, novembro 27, 2011

O NOSSO LUXO



PATRIMÓNIO IMATERIAL 
DA HUMANIDADE

O Fado é, a partir de hoje, por decreto régio da UNESCO, “Património Imaterial da Humanidade”. Na verdade, há muito que o era. Desde os tempos em que Amália o levou pelo mundo fora a galvanizar plateias de todas as línguas e credos.
Mas ainda bem que uma instância superior o declara. Para nós, portugueses, muitas vezes só o que vem de fora é que é bom. Para muitos, o fado é agora uma canção importante, “reconhecida” lá fora. Para mim, é-o desde criança, e sempre fui avesso a ver colar ao fado a chancela de “fascista”, de choradinho, de canção de putas ou de marialvas, de aristocratas decadentes, ou do que quer que seja. O fado, como qualquer forma de expressão artística, pode ser “aproveitado” por todos, mas não deixa de ser o que é, e pode ser tudo. Agora é “Património Imaterial da Humanidade”.
Dá que pensar.
Num país onde tudo o que cheira a arte e cultura é visto pelos poderes constituídos (infelizmente por quase todos) como algo de menor, algo de acessório, o que se corta primeiro quando há a cortar nalguma coisa, não deixa de ser sintomático que seja precisamente aí que somos grandes.
Em economia e finanças, somos “lixo”, em cultura somos “Património da Humanidade”, somos Nobel, somos tudo o mais. Até na arte do pontapé na bola, temos o melhor treinador do mundo e os melhores jogadores do mundo. Somos um pequeno país de poucos habitantes que desafia os colossos em todos os campos do saber e da sensibilidade. Temos os maiores entre os maiores desde Camões. Mas somos tratados nesse campo, cá dentro, como “lixo”, quando “lixo” são realmente aqueles que não nos sabem governar, nem politica, nem economicamente. “Lixo” não são aqueles que pagam impostos, trabalham, dão o melhor de si pelo país; “lixo” não são os que cantam, pintam, escrevem, compõem, filmam, encenam, interpretam, erguem monumentos, dançam, por vezes com a bola nos pés… Não, esses não são “lixo”.
Nestes campos, o mundo olha-nos com respeito e admiração e muitas vezes dizem que somos tão bons como os melhores.
Mas nestas áreas há sempre uns sabichões da política e da gestão, uns banqueiros e uns economistas que estão sempre a desacreditar o nosso talento, a chamar calaceiros e subsídio- dependentes, a insultar e amesquinhar quem oferece o suor e o sangue do seu talento.
Afinal são esses bem engravatados “senhores”, quase todos, com raras excepções, o “lixo” que nos afunda. Não os artistas. Esses são os que nos salvam da agonia provocada pela corrupção e a ganância. Quem traz dividendos ao país é a inteligência dos cientistas e a sensibilidade dos artistas. É nesses que devemos apostar.
Não é ai que está o lixo. Ai está o luxo. O nosso luxo.

PS. A atribuição da patente “Património Imaterial da Humanidade” acarreta direitos e deveres. Tudo bem. Esperemos, porém, que a ASAE da UNESCO não invente regras para domesticar o fado, não permitindo, por exemplo, que este seja cantado em tabernas com vinho tinto e chouriço que não tenha o controle de qualidade da EU. Ou que as cantadeiras tenham o registo criminal limpo a as licenças em dia.

quarta-feira, novembro 23, 2011

MOMENTO DE REFLEXÃO

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 MOMENTO DE REFLEXÃO 
EM VÉSPERAS DE…

Greve ou não greve? Ok, é um problema interessante e a merecer ponderação. Na verdade, a situação de indignação é geral, enfim, digamos que percentualmente muito grande (dado que para quem tem MUITO dinheiro não há indignação que se note, as viagens mais exóticas, os hotéis de muitas estrelas, os restaurantes mais afamados, os carros de luxo, as lojas de marca das principais avenidas, nada disso se queixa da crise, e pour cause).
Mas estamos a assistir a um fenómeno que sociologicamente é muito curioso. Estamos a assistir à destruição, sistemática e programada, da classe média, sobretudo da media baixa e média. A classe que normalmente não faz revoluções, a classe que é chamada de “maioria silenciosa”, aquela que historicamente apoiou a direita, a sustenta em termos eleitorais, é agora chicoteada impiedosamente pela direita, um pouco por todo o lado, e of course, também em Portugal (e de que maneira!).
Já se saber que as classes menos desfavorecidas estão mal. Obviamente que não se toca no ordenado mínimo nacional, mas também não se prejudica quem já vive de uma economia paralela (muito pelo contrário, apoia-se ainda que indirectamente, pois retirando-se poder de compra à classe média, esta vai favorecer o pequeno e o grande negócio clandestino, que é mais barato). Também não se toca nas grandes fortunas (a menos que se ache que “grande fortuna” é aquela de quem ganhe mais de 1.500 euros por mês).
Mas todas as medidas tomadas em nome da troica dirigem-se, quase exclusivamente, ao poder de compra de quem trabalha. Por isso a indignação da classe média é muita. Por isso não me espanta que a “maioria silenciosa” o deixe de ser. O que pode tornar muito perigosa esta bomba relógio que a troica e seus apoiantes andam por aí a municiar.
Apareça por aí um fala-barato hábil nas artes da retórica a congregar vontades ou um chico-esperto da manipulação das massas e verão no que tudo isto pode dar. Basta ler a História do passado, que está cheia de lições.
De resto, a Europa é bom terreno para fazer germinar este tipo de sementeira. Basta esperar que a terra esteja ávida de ser regada e lançar alguns jactos de loucura bem condimentada. Depois digam que não foram avisados.
Só há uma verdade insofismável desde sempre: os mesmos de sempre nunca são incomodados. Os MUITO ricos continuam a ser muito ricos. Ou então passam outros a ser MUITO ricos. Mas uns e outros não distribuem a riqueza.

domingo, novembro 20, 2011

CINEMA: AS AVENTURAS DE TINTIN

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 AS AVENTURAS DE TINTIN 
- O SEGREDO DO LICORNE
Era um projecto antigo que as novas tecnologias permitiram concretizar. Olhando para a carreira de Steven Spielberg nada o faz estranhar. Tintin integra-se na perfeição no seu universo de aventura, fantasia e de uma certa nostalgia do olhar inocente da criança. Posto isto quem diz que estas “Aventuras de Tintin” sabem a “Indiana Jones” engana-se redondamente. O “Indiana Jones” é que sempre soube a Tintin (além de aos “serials” dos anos 20). De uma forma ou de outra, para o caso tanto faz: Spielberg e Hergé fazem uma dupla perfeita e estas novas aventuras são o resultado feliz desse casamento.
Raras vezes o cinema conseguiu captar tão bem o espírito de uma banda desenhada. Tintin nunca foi tão retintamente Tintin, em imagem real ou desenho animado, como o vimos agora pela mão de Spielberg. Não só as personagens são verosímeis, como os cenários são magníficos, e as situações se adaptam bem, mesmo com os floreados à Piratas das Caraíbas e tudo.
A sequência de animação inicial que funciona como genérico, é brilhante e deixa água na boca para uma adaptação de Tintin a “estes” desenhos animados. Seria uma boa política, agora que já se sabe que o Tintin meio actor/meio desenho veio para ficar e já se anunciam futuras continuações.
De resto, não vale a pena dizer muito mais. Ao contrário do que se poderia temer, “The Adventures of Tintin” é um belíssimo filme de aventuras e entretenimento que nos restitui em toda a sua fragrância a essência de Tintin. Para quem gosta de Hergé (e eu deleito-me com Tintin há muito!) essa é uma boa notícia. 
Ainda por cima as 3D funcionam bem aqui, sem saturar os espectadores de efeitos desnecessários. 

AS AVENTURAS DE TINTIN - O SEGREDO DO LICORNE
Título original: The Adventures of Tintin
Realização: Steven Spielberg (EUA, Nova Zelândia, 2011); Argumento: Steven Moffat, Edgar Wright, Joe Cornish, segundo obra de Hergé (banda desenhada "The Adventures of Tintin"); Produção: Peter Jackson, Ken Kamins, Kathleen Kennedy, Jason D. McGatlin, Nick Rodwell, Stephane Sperry, Steven Spielberg; Música: John Williams; Fotografia (cor): Janusz Kaminski; Montagem: Michael Kahn; Casting: Scot Boland, Victoria Burrows, Jina Jay; Direcção artística: Andrew L. Jones, Jeff Wisniewski; Guarda-roupa: Lesley Burkes-Harding; Maquilhagem: Catherine Maguire, Angela Mooar, Michele Perry, Tegan Taylor; Direcção de Produção: Ralph Bertelle, Candice D. Campos, Georgia Kacandes, Frank Macfarlane, Brigitte Yorke; Assistentes de realização: Jenny Nolan, Adam Somner, Ian Stone, Liz Tan; Departamento de arte: Greg Bartkus, Jackson Bishop, David Moreau, Jim Wallis; Som: Dave Whitehead; Efeitos especiais: Mingzhi Lin; Efeitos visuais: Alberto Abril, Brittany Bell, Andrew Calder, Jong Jin Choi, Nick Connor, Mario de Dios, Jake Lee, Jessica Ponte, Jarom Sidwell, Mark Stanger, Lindsay Thompson; Companhias de produção: Columbia Pictures, Paramount Pictures, Amblin Entertainment, WingNut Films, The Kennedy/Marshall Company, Hemisphere Media Capital, Nickelodeon Movies; Intérpretes: Jamie Bell (Tintin), Daniel Craig (Ivanovich Sakharine), Simon Pegg (Inspector Thompson), Cary Elwes (Piloto), Andy Serkis (Capitão Haddock), Toby Jones (Silk), Nick Frost (Thomson), Sebastian Roché (Pedro), Mackenzie Crook, Tony Curran, Daniel Mays, Phillip Rhys, Gad Elmaleh, Mark Ivanir, Ron Bottitta, Kim Stengel (Bianca Castafiore), Sonje Fortag, Jacquie Barnbrook, Enn Reitel, Ian Bonar, Joe Starr, Mohamed Ibrahim Elkest, Sana Etoile, etc. Duração: 107 minutos; Distribuição em Portugal: Zon Lusomundo Audiovisuais; Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal: 27 de Outubro de 2011.

sábado, novembro 05, 2011

JÚRI NO FEST'A FILM, Montpellier, França


Altura ainda para apresentar algumas obras minhas, entre as quais "Manhã Submersa". 
Depois conto como foi.

sexta-feira, novembro 04, 2011

COMO DISPERSAR MANIFESTANTES

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A ideia vem de 1908, publicada no Almanaque Bertrand:

quarta-feira, novembro 02, 2011

“MANHÃ SUBMERSA” NO BARBICAN, EM LONDRES E GLASGOW

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“MANHÃ SUBMERSA”
NO CENTRO DE ARTES BARBICAN,
EM LONDRES
"Os  Lobos", de Rino Lupo, de 1923, será projectado no próximo dia 13 de  Novembro, a abrir o II Festival de Cinema Português, no Reino Unido, que  decorrerá de 10 a 30 de Novembro. Baseada numa peça de Francisco Lage e João Correia de Oliveira, a película foi recentemente restaurada após a descoberta de uma cópia em França e terá o acompanhamento musical original, composto por Luís Soldado, e executada pelo Grupo de Música Contemporânea de Lisboa, dirigido por Jorge Peixinho.
Este ano, o festival, que decorre em três salas de Londres, tem por tema a relação entre o cinema e a literatura portuguesa. Nele está prevista a ante-estreia britânica de "Mistérios de Lisboa", de Raul Ruiz, adaptação do romance de Camilo Castelo Branco.
Do cartaz fazem parte as longas-metragens "Manhã Submersa", adaptação  por Lauro António do romance de Vergílio Ferreira, "O Crime do Padre Amaro",  do mexicano Carlos Carrera segundo livro de Eça de Queirós, "Filme  do Desassossego", realizado por João Botelho e inspirado nos escritos do  heterónimo pessoano Bernardo Soares, “Uma Abelha na Chuva", dirigido por Fernando Lopes e adaptado do romance  homónimo de Carlos de Oliveira, "Ensaio sobre a Cegueira", adaptação do  livro de José Saramago e dirigido por Fernando Meirelles, e "A Costa dos  Murmúrios", filme de Margarida Cardoso baseado no romance de Lídia Jorge. 
Uma sessão de curtas-metragens inclui trabalhos de Inês Portugal, Jacinto  Lucas Pires, Zepe, Gabriel Abrantes, Miguel Gomes, Joana Toste e Gonçalo  Galvão Teles.  
 e também na Universidade de Glasgow

segunda-feira, outubro 10, 2011

LEITURAS: JULIAN BARNES

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NADA A TEMER? 

Ultimamente tenho lido, lido, lido imenso. Dezenas de policiais de excelente qualidade, alguns prodigiosos, de que tentarei ir dando conta no blogue “Policiais no Cinema”. Mas, entremeados com os policiais, tenho-me deliciado com clássicos e modernos, de Thomas Mann a Gonçalo M. Tavares, de Walter Hugo Mãe a Giorgio Bassani, de Guy de Maupassant aos “Portugueses”, de Barry Hatton, e sei lá mais quê.  Agora ando a ler “Nada a Temer”, do britânico Julian Barnes, um dos meus ingleses actuais preferidos.
“Nada a Temer” é um romance (será?) lúcido, bem documentado, irónico, erudito que pensa e estuda a morte. Coisa aparentemente macabra. Mas Barnes mostra que não. Fala do medo da morte. Medo da morte ou medo de morrer? Foi esta questão que me leva a transcrever um excerto desta obra que acho brilhante e que dá bem a ideia do “problema”. Um “problema” muito democrático que se torna, porém, em condições normais, “premente” para quem ultrapassou os sessenta. 

Diz assim:

“Se temos medo da morte, não temos medo de morrer; se temos medo de morrer, não temos medo da morte. Mas não hã razão lógica para que um medo exclua o outro; não há razão para que o espírito, com um pouco de treino, não possa expandir-se e incluir ambos. Na qualidade de pessoa que não se importava de morrer desde que depois não ficasse morto, posso certamente começar a elaborar quais seriam os meus medos em relação à morte. Receio ser como o meu pai que, sentado numa cadeira ao lado da cama do hospital, me censurava com irritação pouco habitual — «Disseste que vinhas ontem.» — antes de deduzir pelo meu embaraço que fora ele quem confundira as coisas. Receio ser como a minha mãe, quando imaginava que ainda jogava ténis. Receio ser como aquele meu amigo que, ansiando pela morte, nos confidenciava incessantemente que conseguira obter e engolir comprimidos suficientes para se matar, mas se encontrava agora numa agitação ansiosa, porque os seus actos podiam causar problemas a uma enfermeira. Receio ser como aquele homem de letras de uma cortesia inata, que conheci e que, ao ficar senil, começou a falar constantemente à mulher nas fantasias sexuais mais extremas, como se isso fosse o que secretamente sempre desejara fazer-lhe. Receio ser como Somerset Maugham octogenário, que baixava as calças atrás do sofá e defecava no tapete (apesar de isso me fazer lembrar alegremente a minha infância). Receio ser como aquele meu amigo Idoso, homem ao mesmo tempo refinado e cheio de melindres, cujo olhar mostrava um pânico animal quando a enfermeira do lar anunciava, diante das visitas, quo estava na hora de mudar a fralda. Receio o riso nervoso que terei quando não estiver a perceber uma alusão ou tiver esquecido uma lembrança comum ou um rosto familiar, e começar a desconfiar, primeiro duma grande parte e depois de tudo o que julgo saber. Receio o cateter e o elevador de escadas, o corpo incontinente e o cérebro devastado. Receio o destino de Chabrier/Ravel, não saber quem fui nem o que fiz. Talvez Stravinsky, na velhice extrema, tivesse esses finais em mente quando chamava do quarto a mulher ou algum membro da família. «De que precisas?», perguntavam-lhe. «De ter a certeza da minha própria existência», respondia. E a confirmação podia vir sob a forma de um afago de mão, de um beijo ou de lhe porem a tocar um dos seus discos preferidos.
Arthur Koestler, na velhice, orgulhava-se duma adivinha que formulara: «E melhor para um escritor ser esquecido antes de morrer, ou morrer antes de ser esquecido?» (Jules Renard sabia a resposta: «”Poil de Carotte” e eu vivemos juntos, e espero morrer antes dele,») Mas é um «preferimos o quê» suficientemente poroso para deixar que se infiltre uma terceira possibilidade: o escritor, antes de morrer, pode ter perdido toda a memória de ser escritor.
Quando perguntaram a Dodie Smith se ela se lembrava de ter sido uma dramaturga famosa ela respondeu: «Sim, acho que sim», disse-o exactamente da mesma maneira — com uma espécie de concentração, sobrolho franzido, moralmente consciente da exigência da verdade — como eu a vira responder a dezenas de perguntas ao longo dos anos. Por outras palavras, pelo menos continuava igual a si própria. Para além desses medos mais imediatos de deterioração física e mental, é isto que esperamos e desejamos para nós próprios. Queremos que as pessoas digam: «Até ao fim foi ele próprio, mesmo sem conseguir falar/ver/ouvir.» Embora a ciência e o autoconhecimento nos tenham feito duvidar daquilo que compõe a nossa individualidade, queremos continuar a encarnar essa personagem que nos convencemos, talvez erradamente, que é nossa e só nossa.”
Ed. Quetzal.

domingo, outubro 09, 2011

TEATRO NO CASINO DO ESTORIL

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O Melhor de La Féria”


“O Melhor de La Féria” é e não é “o melhor de La Féria”. O nome pode enganar um pouco, pois La Féria não é só o encenador de musicais, muito embora tenha sido através deles que adquiriu a celebridade de que hoje desfruta. Mas, para se ser mais rigoroso, este espectáculo que agora estreou no Salão Preto e Prata do Casino do Estoril deveria chamar-se “O Melhor de La Féria – Os Musicais”. Filipe La Féria tem um historial que vai muito para além dos musicais, os seus tempos na Casa da Comédia são recordados com grande interesse, quando ele era um jovem vanguardista que encenava peças como "A Paixão segundo Pier Paolo Pasolini", "A Marquesa de Sade", "Eva Péron", "Savanah Bay”, "A Bela Portuguesa", " Noites de Anto", "A llha do Oriente", de autores como Marguerite Yourcenar, Marguerite Duras, Mishima, Agustina Bessa-Luís ou Mário Cláudio. Depois há o seu primeiro grande sucesso popular, de público e de crítica, "What Happened to Madalena Iglésias?". Mesmo após a sua “conversão” ao musical, La Féria assina espectáculos memoráveis que não são musicais, desde "Maria Callas" a “A Casa do Lago”, passando por "Rosa Tatuada", entre outros.
Enfim, Filipe La Féria é mais do que aquilo que se mostra em “O Melhor de La Féria”. Mas, nesta antologia laferiana do musical em Portugal, há algo que perpassa e aí sim, temos o melhor de La Féria. O melhor de La Féria é a sua paixão pelo teatro, pelo espectáculo, pelo palco, pelos actores e o público, por esse momento mágico que acontece sempre que as cortinas se abrem (ou sobem) e o milagre acontece. Este milagre não tem muito a ver até com a qualidade do espectáculo. Acontece numa modesta sociedade recreativa de amadores ou no Scala. Em intensidades diferentes, é certo, mas acontece porque quem gosta de teatro e do espectáculo sente esse mergulhar no puro sortilégio do jogo da transformação, da mentira que passa a verdade, do fascínio do milagre das rosas ou da travessia das águas. Ali, naquele local hipnótico que é o palco, tudo é possível. Todos os sonhos de criança se tornam possíveis, o que aliás marca o início deste espectáculo, onde La Féria, miúdo, brinca aos teatrinhos, para depois se abrir perante si o enorme palco do Casino, onde a sua “feérie” irá acontecer. Podem assacar-se a La Féria alguns defeitos, mas não se lhe pode recusar o seu amor ao teatro. Depois da sua encenação de “As Fúrias”, no Nacional D. Maria II, La Féria passou a ser conhecido, para o bem ou para o mal, como “La Fúria”. Essa “fúria” marca bem a sua personalidade, o seu arrojo, a sua temeridade, a sua megalomania, a forma como se lança nos projectos mais loucos, como sobe ao palco e grita “Viva o Teatro!”. Ele é isso mesmo, um amante agitador, um Dom Quixote teatral. “O Melhor de La Féria” faz justiça à figura.
Agora o espectáculo em si mesmo: como já se disse, inicia-se com La Féria criança a imaginar-se no teatro, passa por La Féria no teatro ao longo de uma vasta carreira como autor de musicais, e termina com La Féria na actualidade, a imaginar novas encenações. Não deixa de ser coerente. “La Fúria” não pára. Desde criança. Hoje ainda mantém o mesmo desejo, o mesmo apetite, a mesma obsessão. Se pudesse, não havia musical que lhe escapasse.
A evocação dessa carreira começa por alguns números de “Passa por mim no Rossio”, e depois desfilam “Maldita Cocaína”, “My Fair Lady”, “Amália”, “A Canção de Lisboa”, “Música no Coração”, “West Side Story”, “Piaf”, “Jesus Cristo Superstar”, “ Um Violino no Telhado”, “A Gaiola das Loucas”, “Fado - História de um Povo”, e uma antevisão de todos os que ele ainda sonha realizar, desde “Chapéu Alto” ou “Serenata à Chuva”,  “Sweet Charity” ou “O Feiticeiro de Oz” (que já encenou, e bem), até aqueles que se sabe que andam no seu horizonte próximo, como “Evita” (a sua próxima estreia já anunciada), “O Fantasma da Ópera”, “Man of la Mancha”, “Os Miseráveis”, “Mamma Mia” ou “Hello Dolly”, que lhe serve a preceito como gala de encerramento.
Ao longo de quase duas horas temos um pouco de tudo, para deleite de nostálgicos empedernidos, bons números, encenações criativas, música da melhor, cantores que cumprem galhardamente, coreografias espectaculares, bonito guarda-roupa, cenários discretos, mas quase sempre eficazes (como resulta bem “Piaf” num cenário minimalista), bailarinas, plumas, lantejoulas, luzes, e ainda acrobatas, dependurados do tecto, tal como a cruz de Cristo, como O próprio em arriscada postura. É, portanto, “O Melhor de La Féria” quase em todo o seu esplendor. Há uma ou outra solução que não me parecem as melhores, dispensava bem alguns números de trapézio, por inúteis, mas deixava ficar as belíssimas mariposas que descem do tecto, e quanto à animação dos vídeos, muitas vezes bem conseguida, deixava cair a Maria, de “Música no Coração”, regadeira, a verter águas sobre as verdes montanhas, que me pareceu de muito mau gosto. 
De resto, o que poderia ser uma manta de retalhos, acaba por resultar numa bonita evocação de uma carreira, que é simultaneamente uma homenagem a um autor que bem a merece. É Filipe La Féria quem escreve no programa: “Tantas vezes encontro, a um canto de um velho armazém, velhos adereços, peças de guarda-roupa que já tiveram vida sob as luzes brilhantes dos projectores. O Teatro deu-me também Vida. A ele devo o que sou, com toda a sua luz e sombras. Levou-me a sítios inimagináveis, a países para além do arco-íris, fez-me conhecer pessoas inesquecíveis, deu-me momentos de prazer e glória e também de desilusão e dor, e aprendi com ele a compreender melhor o ser humano. É injusto a vida não ser como o teatro: ter tempo para ensaiar e depois para viver”.
Pois é: no teatro ensaia-se a vida, na vida ensaia-se o teatro. Entre o teatro e a vida vamo-nos todos ensaiando, uns aos outros. Essa a grande lição da arte de representar.
O elenco, bem encabeçado por Alexandra e Henrique Feist, conta ainda com a presença de Gonçalo Salgueiro, Paula Sá, Vanessa, F.F., Eva Santiago, Flávio Gil, Elsa Casanova e João Frizza, um corpo de bailado, dois acrobatas e um orquestra privativa.

No Salão Preto e Prata do Casino do Estoril. A partir de 7 de Outubro, de quarta a sábado às 21h30, e ainda sábados e domingos às 17h00.

THOMAS JEFFERSON ESCREVEU HA 200 ANOS

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THOMAS JEFFERSON, 
terceiro presidente dos EUA,
  escreveu...há 200 anos
(agora sabe-se por quê) 
 com agradecimento especial à mão amiga que me fez chegar a citação por email.

sábado, outubro 08, 2011

CINEMA: MEIA-NOITE EM PARIS

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MEIA-NOITE EM PARIS

“Meia-Noite em Paris” é um excelente divertimento, inteligente e bem saboreado pelo seu autor, Woody Allen. Não está, porém, segundo a minha perspectiva, muito acima de alguns outros filmes rodados recentemente por este cineasta, e que parece que caíram na desdita de alguma crítica, vá-se lá saber porquê. Isto não quer dizer que “Meia-Noite em Paris” seja fraquinho, porque está ao nível de alguns outros títulos recentes. Muito pelo contrário. Quer dizer que Woody Allen não faz maus filmes, pode desiludir aqui e ali, mas muito raramente, e que a qualidade geral é sempre boa ou muito boa. Compreendo que se ressalve “Match Point” (2005), mas não percebo por que razão não se valoriza devidamente obras tão interessantes como “Scoop” (2006), “Vicky Cristina Barcelona” (2008) ou “Tudo Pode Dar Certo” (2009).
“Midnight in Paris” começa desde logo por apresentar um óbice grave à partida: o nome de Owen Wilson como protagonista não augurava nada de auspicioso. É um actor medíocre, de comédias tão idiotas (duas ou três das quais tive a desdita de ver), que fazia prever o pior. Acontece que Woody Allen consegue o milagre de tornar suportável este génio da inexpressividade e da parvoíce, transformando-o numa espécie de alter ego seu. Depois coloca-o a contracenar com actores tão bons que ele sai valorizado: em vez de parvoíce parece inocência e candura a sua pose.
A ideia é interessante, mas nada original. Woody Allen já tinha experimentado o efeito em “Rosa Púrpura do Cairo”, uma das suas obras-primas indiscutíveis. Nos anos 30, uma dona de casa desesperada faz do cinema a sua tábua de salvação e acaba por passar para o outro lado do ecrã, e trazer consigo personagens do filme para a realidade. Era uma nova versão de “Alice no Pais das Maravilhas”. Agora, Gil Pender (Owen Wilson), argumentista de sucesso em Hollywood e aspirante a escritor boémio em Paris, volta a viajar para fora da sua realidade, entrando na Paris dos loucos anos 20. Mas como Woody Allen gosta de contos de fadas, desta feita acrescenta-lhe um cheirinho de “Gata Borralheira”: é à meia-noite que passa o automóvel que o conduzirá à sua época de eleição.
Gil Pender está noivo de Inez (Rachel McAdams), filha de um casal de republicanos radicais. Andam todos a visitar Paris, mas Gil prefere uma Paris que lhe recorda a inspiração e a boémia dos anos 20, e todos os outros membros da família optam por compras e visitas guiadas a museus, conduzidos por um emproado amigo universitário que vem à cidade luz dar uma lição à Sorbonne. Não há muito a esperar do casamento, mas há muita deambulação pela capital de França então povoada pelo mais intenso brilho do génio internacional.
Numa noite em que percorre sozinho os bairros de Paris, Gil apanha uma boleia e vai parar à conversa com Scott Fiztegearld e Zelda, numa festa dada por Jean Cocteau, onde aparecem ainda Cole Porter, Hemingway e Gertrud Stein. Nas noites seguintes, lá continuará a peregrinação pelos cenáculos da cultura e da arte dos anos 20, encontrando Picasso, e a sua paixão do dia, Adriana, Dali, Josephine Baker, Buñuel (a quem oferece a ideia para um filme, que será precisamente “O Anjo Exterminador”), Man Ray, T. S. Elliot, Matisse, etc.
Gil passeia extasiado por estes ambientes de devaneio estético e de efervescência cosmopolita, mas descobre que Adriana, por quem se apaixona secretamente, vive obcecada pela “Belle Epoque”. Afinal ninguém está satisfeito com a realidade que vive e todos sonham com tempos passados. Adriana consegue mesmo viajar com Gil até à “Belle Epoque”, onde se cruzam com Toulouse Lautrec, Degas e Gauguin, mas estes suspiram, por sua vez, pelo Renascimento. A mensagem está dada: o presente é insatisfatório, sobretudo entre artistas que aspiram sempre a “outra coisa” e, neste caso, a um paraíso perdido, onde, todavia, ainda não existe nem valium nem penicilina. Que podem ser muito úteis em certos casos.
“Meia-Noite em Paris” é divertido, sensível, sensual, traumatizado e angustiado como todo o cinema de Woody Allen, mas agora sereno em relação à vida: afinal não é preciso ir buscar a felicidade ao passado, porque Cole Porter continua entre nós e há embaixadoras suas bem interessantes. A viagem por Paris é seguida pelo olhar apaixonado do cineasta e pela câmara de tons nostálgicos do iraniano Darius Khondji. Um belo filme sobre o amor e a vida, com um Owen Wilson, quase irreconhecível, e excelentes aparições de um elenco de luxo: Rachel McAdams, Michael Sheen, Carla Bruni (uma cativante guia turística), Marion Cotillard (a sedutora Adriana), Alison Pill, Kathy Bates, Adrien Brody (fabuloso Dali), Corey Stoll, Tom Hiddleston,  Kurt Fuller, Mimi Kennedy, David Lowe ou Léa Seydoux. Quase no final, um irresistível gag protagonizado por um detective encerra de forma brilhante esta viagem na máquina do tempo.

MEIA-NOITE EM PARIS
Título original: Midnight in Paris.
Realização: Woody Allen (EUA, Espanha, 2011); Argumento: Woody Allen; Produção: Letty Aronson, Raphaël Benoliel, Javier Méndez, Helen Robin, Jack Rollins, Jaume Roures, Stephen Tenenbaum; Fotografia (cor): Johanne Debas, Darius Khondji; Montagem: Alisa Lepselter; Casting: Stéphane Foenkinos, Patricia Kerrigan DiCerto, Juliet Taylor; Design de produção: Anne Seibel; Direcção artística: Anne Seibel; Decoração: Hélène Dubreuil; Guarda-roupa: Sonia Grande; Maquilhagem: Catherine Leblanc, Thi Thanh Tu Nguyen, Jean-Christophe Roger, Olivier Seyfrid; Direcção de Produção: Matthieu Rubin; Assistentes de realização: Mallorie Ballestra-Duquesnoy, Delphine Bertrand, Aurore Coppa, Gil Kenny; Departamento de arte: Tatiana Bouchain, Hélène Dubreuil, Georges Kafian; Som: Jean-Marie Blondel, Lee Dichter, Matthew Haasch; Efeitos especiais: Georges Demétrau; Efeitos visuais: Ryan Duffy, Marika D. Litz, Chris MacKenzie; Companhias de produção: Gravier Productions, Mediapro, Televisió de Catalunya (TV3), Versátil Cinema; Intérpretes: Owen Wilson (Gil), Rachel McAdams (Inez), Kurt Fuller (John), Mimi Kennedy (Helen), Michael Sheen (Paul), Nina Arianda (Carol), Carla Bruni (guia de museu), Maurice Sonnenberg, Thierry Hancisse, Guillaume Gouix, Audrey Fleurot, Marie-Sohna Conde, Yves Heck (Cole Porter), Alison Pill (Zelda Fitzgerald), Corey Stoll (Ernest Hemingway), Tom Hiddleston (F. Scott Fitzgerald), Sonia Rolland (Joséphine Baker), Daniel Lundh (Juan Belmonte), Laurent Spielvogel, Thérèse Bourou-Rubinsztein  (Alice B. Toklas), Kathy Bates (Gertrude Stein), Marcial Di Fonzo Bo (Pablo Picasso), Marion Cotillard (Adriana), Léa Seydoux (Gabrielle), Emmanuelle Uzan (Djuna Barnes), Adrien Brody (Salvador Dalí), Tom Cordier (Man Ray), Adrien de Van (Luis Buñuel), Serge Bagdassarian (Detective Duluc), Gad Elmaleh (Detective Tisserant), David Lowe (T.S. Eliot), Yves-Antoine Spoto (Henri Matisse), Laurent Claret (Leo Stein), Sava Lolov, Karine Vanasse, Catherine Benguigui, Vincent Menjou Cortes (Henri de Toulouse-Lautrec), Olivier Rabourdin (Paul Gauguin), François Rostain (Edgar Degas), Marianne Basler, Michel Vuillermoz, Kenneth Edelson, etc. Duração: 94 minutos; Distribuição em Portugal: Zon Lusomundo Audiovisuais; Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal: 15 de Setembro de 2011.

sexta-feira, setembro 23, 2011

ABERTURA DO CICLO IRMÃOS MARX NO PORTO

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NA BIBLIOTECA ALMEIDA GARRETT,
PROSSEGUE A "INVICTA FILMES"
COM O CINEMA AMERICANO 
DA GRANDE DEPRESSÃO

quarta-feira, setembro 21, 2011

HOJE, NA RTP MEMÓRIA

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O DIA DE... RIBEIRINHO
O DIA DE... RIBEIRINHO

Uma emissão especial dedicada a Ribeirinho, na RTP Memória entre as 17 horas e a 1 da manhã.
Homem multifacetado, Francisco Carlos Lopes Ribeiro, que adoptou como nome artístico Ribeirinho foi, para além de actor, encenador e directo de diversas companhias de teatro. Por ocasião dos 100 anos do nascimento de Ribeirinho, a RTP Memória transmite uma emissão especial de oito horas durante a qual Júlio Isidro conversa com várias personalidades acerca deste nome maior do espectáculo português: José de Matos-Cruz (escritor), Lauro António (cineasta), Salvato Telles de Menezes (diretor executivo da Fundação D. Luis I), Vítor Pavão dos Santos (teatrólogo, museólogo e biógrafo), Jorge Leitão Ramos, um dos mais dinâmicos divulgadores de cinema e o autor Victor de Sousa. 
Os programas da RTP "Há Conversa" e “Fim do Século”, bem como “A Paródia”, de Lauro António, e os filmes “O Pai Tirano”, de António Lopes Ribeiro, e “O Grande Elias”, de Arthur uarte, fazem parte desta emissão especial. A ver.

quinta-feira, setembro 15, 2011

THE PRINTING BLOG

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O primeiro número, que esgotou, saiu em Agosto. O segundo, anunciam-no nas bancas no final desta semana. "The Printing Blog" é uma criação norte-americana que tem agora a sua versão portuguesa. É um trabalho de qualidade e muito interessante. Digamos que é a “outra face da moeda”. Muitos escrevem blogues porque não têm acesso a publicações impressas. Outros escrevem nos blogues porque estão fartos de publicações impressas. Eu escrevo em blogues porque gosto de escrever o que quero, como quero, curto ou longo, sem dar justificações a editores que as não merecem. Agora os escritores de blogues têm uma revista que parte dos blogues, para aparecer em escrita impressa. O slogan é excelente: “Como na Internet, mas inflamável”.
A escolha dos convidados tem sido criteriosa, o grafismo é moderno e sugestivo. Fui convidado para lá escrever, e aceitei de imediato, tanto mais que o convite partiu da amiga Mafalda Samuel Diniz. Aguardo com muita curiosidade este segundo número, cuja bela capa aqui deixo, para aguçar o apetite. O tema é “Qual o Nosso Papel”. Eu começo por dizer que é de embrulho. Saiba mais lendo, depois de comprar.

sábado, setembro 10, 2011

"AMADEUS" NO TEATRO


NO TEATRO NACIONAL DE D. MARIA II


“Amadeus”, de Peter Shaffer, estreado agora no Teatro Nacional D. Maria II, é um sugestivo pretexto para abordar um conjunto de temas de grande actualidade. Antes de mais, a própria escolha do reportório de um Teatro Nacional. Ao que se percebe, pelo que se viu na passada temporada e nesta que agora se inicia, e já foi publicitada, o D. Maria II escolheu, sob a direcção de Diogo Infante, um bom caminho, mesclando clássicos, modernos e vanguardistas, procurando nunca se afastar do grande público, tentando antes captá-lo para o teatro. “Amadeus” é muito bom teatro, moderno, actual, de um dos autores mais representativos do século XX inglês, que tem sido êxito nas principais salas mundiais, desde o West End londrino à Broadway nova-iorquina. Teatro que vai ao encontro do espectador, sem o defraudar.
Segundo ponto: “Amadeus” é uma brilhante criação sobre um dos assuntos que mais se prendem com o homem e o seu futuro. A independência criativa, a importância da criação artística e a relação do homem, qualquer homem, do mais humilde ao mais genial, com o poder, o “establishement”. A peça de Shaffer é uma criação artística ela mesmo, que partindo de factos reais e outros lendários, elabora sobre eles uma ficção. Uma ficção que, em certos aspectos, nos mais cruciais, se transforma em metáfora. Mozart e Salieri encontram-se em Viena, um e outro são compositores, músicos, à partida bem sucedidos na sociedade vienense, mas ambos representam realidades diferentes que aqui não só divergem, como se confrontam. Mozart é o génio que desde criança criou obras-primas que se tornaram alguns dos momentos de eleição da história da arte mundial, Salieri é o representante de uma arte mais convencional, perfeitamente integrada no sistema, respeitadora da ordem estabelecida.
Medíocre? Não tanto. Diz-nos a História real e não a lenda, que ele foi professor de Beethoven, Schubert e Liszt, e que muitas das suas obras sobreviveram ao tempo e ainda hoje são executadas com brio (não há muito, 2004, óperas suas foram ouvidas no Scala de Milão, e a grande Cecília Bartoli lançou um CD dedicado a Salieri, “The Salieri Álbum”). Salieri não foi um ignorado músico, mas uma das maiores glórias do seu tempo. Sabe-se que a glória em vida nem sempre é a glória para a posteridade, mas, neste caso, Salieri não morreu ignorado. Sobreviveu. Não só à custa da sua oposição a Mozart e da lenda de o ter envenenado. Talvez a sua grande tragédia fosse ter sido contemporâneo de um dos mais inspirados génios da música mundial. Tomara todos os medíocres do mundo terem a sorte de Salieri. Não se trata tanto de uns serem medíocres e outros génios. Nesse caso, todos seriamos medíocres ao lado dos raros Mozart da História Mundial.
O que torna o confronto Mozart-Salieri extraordinário e motivo de uma constante avaliação, é o facto de um ser um génio que não se integrou no seu tempo e por isso pagou com a vida e a hostilidade dos poderosos seus contemporâneos, e o outro ser um representante oficial do poder e se ter servido desse factor para destruir Mozart (metaforicamente para o “matar”, quer tenha sido por envenenamento ou por intrigas palacianas que o levaram à mais radical pobreza e à doença). Este, o grande tema de “Amadeus” e este terá sido igualmente o grande interesse de Milos Forman por esta obra, que levou vários anos a convencer Shaffer a adaptá-la ao cinema, e vários meses a reescrevê-la para a incluir na sua filmografia. Na verdade, “Amadeus”, filme, integra-se na perfeição na temática central de Milos Forman, e pode mesmo dizer-se que é a cereja em cima do bolo, o ponto mais perceptível dessa preocupação: o confronto do indivíduo “diferente” com a comunidade convencional, com o poder instituído, com as artimanhas, corrupção, intrigas, mesquinhas vinganças e malvadezas diversificadas que destroem quem não se integra ou se molda. 
O que assistimos durante a inteligente peça de Peter Shaffer e a sua magnífica encenação no D. Maria II, é à sucessão de ardis engendrados por Salieri para destruir Mozart, com uma agravante: Salieri soube, sempre o soube desde o primeiro minuto, que Mozart era um génio. Toda a sua perversidade se dirigia contra alguém que ele sabia superior a si, e só por isso arquitectou todos aqueles (reais ou imaginados) sinistros esquemas de demolição do artista e do homem. Foi a inveja, a vingança, tudo o que há de mais mesquinho no homem que o conduziu, que o orientou.
Medíocres podemos ser todos, mesquinhos e perversos a este ponto, só alguns. Só os que sabem ter por detrás de si o poder, só os que se movimentam nos meandros palacianos, só os que, ao contrário de Mozart, se mostram hábeis no jogo das influências e das conjuras. Mozart compunha música, gostava de ser bem pago por ela, gostava dos aplausos a premiar o seu trabalho, mas não bajulava a corte, não transigia, não pactuava. A sua música era o que ele queria que ela fosse. Julgava-se por isso no direito que lhe assistia de ser recompensado. Mas a velhacaria de quem se sentia ameaçado tudo fez para o destruir. Consegui-o em vida, é verdade. Mas não o conseguiu para a posteridade, neste caso.
Na sua infernizada velhice (quando começa a peça de Shaffer, com o moribundo Salieri a recordar o seu tempo com Mozart), Salieri evoca toda a sua vida passada, toda a maldade que inventou e cometeu para destruir o rival, e sente remorsos por isso. Ele, que desafiou Deus, um Deus que dera a Mozart a inspiração divina e reservara para si um papel subalterno, sente-se agora perdido e injustiçado, perante a glória de Mozart que não se cansa de se elevar nos palcos de todo o mundo. Finalmente, a maldade é castigada e a irreverente tumultuosidade, quase infantil e ingénua, de Mozart é premiada.
A peça de Peter Shaffer não inventa toda esta intriga palaciana, nem sequer o envenenamento de Mozart. A lenda vem de trás, há testemunhos que falam de confissões de Salieri, à beira da morte, e o poeta e dramaturgo russo Aleksandr Pushkin, na sua obra "Mozart e Salieri", de 1831, criou este confronto entre os dois compositores, e colocou-o a circular. Shaffer serviu-se de todo este manancial para desenvolver um ponto de vista. Fê-lo de forma muito hábil e inteligente, cruzando tempos diferentes, com Salieri a ser sempre interpretado pelo mesmo actor, que por vezes se dirige directamente ao público, tornando-o testemunha activa do que vê e ouve. A encenação do britânico Tim Carroll é engenhosa e clarifica o texto, servindo-se de um bom cenário de F. Ribeiro, que, no segundo acto, atinge um momento excelente com o desdobrar do espaço do próprio teatro D. Maria II para os bastidores, criando assim uma zona onde o palco se integra no próprio palco. Os figurinos de StoryTailors são muito bons e o desenho de luz de Daniel Worm D´Assumpção igualmente brilhante.
Entre os actores, há um outro confronto, este bem menos dramático do que o das personagens. Diogo Infante é excelente na criação de Salieri, com dois tempos muito definidos e muito bem diferenciados, e Ivo Canelas atinge momentos notáveis, sobretudo no início do segundo acto. Ambos têm um trabalho difícil pela frente, pois todos recordamos o filme e as soberbas actuações de F. Murray Abraham (Antonio Salieri) e Tom Hulce (Wolfgang Amadeus Mozart). Mas ambos não se saem mal do confronto, bem como o saboroso João Lagarto, na figura do Imperador José II, ou Carla Chambel, na personagem de Constanze, mulher de Mozart. De resto, todo o demais elenco é muito bem dirigido e consegue uma homogeneidade de tom de salientar. A tradução de Maria João da Rocha Afonso é também de saudar.
Temos, portanto, no Teatro Nacional de D. Maria II, um espectáculo a não perder.


AMADEUS
Peça de Peter Shaffer; tradução Maria João da Rocha Afonso; encenação Tim Carroll; cenografia F. Ribeiro; figurinos StoryTailors; cabeleiras Helena Vaz Pereira / Griffe Hairstyle; desenho de luz Daniel Worm D´Assumpção; consultor musical James Oxley; interpretação Ivo Canelas, Diogo Infante, Carla Chambel, João Lagarto, Rogério Vieira, Manuel Coelho, Luís Lucas, José Neves e Martinho Silva; figuração especial Bernardo Chatillon, Isabel Costa, Joana Cotrim, João Pedro Mamede, Luís Geraldo e Maria Jorge (da Escola Superior de Teatro e Cinema); produção TNDM II.