segunda-feira, janeiro 14, 2013

CINEMA: ARGO


ARGO

“Argo” é um filme curioso sob diversos pontos de vista. Primeiro, confirma o talento e o acerto de Ben Affleck, que já conhecíamos como bom actor, mas que se revela igualmente um cineasta de apreciáveis recursos e um homem preocupado com o seu tempo. A sua carreira como realizador começou com uma curta-metragem, em 1993, “I Killed My Lesbian Wife, Hung Her On A Meat Hook, And Now I Have A Three-Picture Deal At Disney”, passando depois por duas longas, “Vista Pela Última Vez...” (2007) e “A Cidade” (2010), antes de chegar a “Argo”, que o catapultou para a esfera das nomeações aos Oscars e aos prémios mais importantes da indústria norte-americana. Para já, foi considerado o melhor filme do ano e o melhor realizador para associações de críticos tão prestigiadas como as de Nova Iorque e San Diego e encontra-se nomeado para sete Oscars e muitas outras atribuições mais ou menos idênticas.
Depois, “Argo” é um filme de difícil concepção, pelo emaranhado de estilos em que se enreda deliberadamente e donde sai com um estilo próprio. Na verdade, há em “Argo” um pouco de filme de espionagem, estilo “Os Três Dias do Condor”, um pouco de comédia satírica sobre o mundo do cinema e Hollywood, na linha de um “SOB”, um pouco de thriller político, tal como “Traffic”.
Acrescente-se um dado: partindo de um facto real, ocorrido há mais de 30 anos, e cujos dados foram recentemente “desclassificados” (ou seja, abertos à consulta pública), o filme aborda um tema quente da política internacional e fá-lo de uma forma pouco convencional. Pode dizer-se que, no final, a obra elogia o trabalho quase invisível da CIA na resolução de um intrincado drama de política internacional. Mas a verdade é que Bem Affleck inicia a sua obra com um preâmbulo histórico que deixa muito mal colocada a posição dos EUA quanto à Pérsia e o seu sucessor Irão. Aí se explica que um governo legitimamente democrático, chefiado pelo presidente Mohammad Mosaddeq, tenha sido apeado de Teerão, para se colocar no seu lugar um corrupto e ocidentalizado Xá Reza Pahlevi, que exerceu uma violenta ditadura, o que terá estado na origem das revoltas populares e da subida ao poder do Aiatola Khomeini, com as consequências que todos sabemos. Terá sido esta interferência inicial dos serviços secretos americanos a precipitar os acontecimentos, que culminaram com a concessão de asilo político ao Xá, numa altura em que este se encontrava doente com um cancro e fugido do seu país, mas muito bem acomodado nas riquezas entretanto depositadas nos bancos ocidentais.


Os acontecimentos do filme iniciam-se precisamente no dia 4 de Novembro de 1979, quando a revolução iraniana explode nas ruas de Teerão e milhares de iranianos cercam a embaixada americana na cidade e fazem 52 reféns americanos. Acontece que, na barafunda geral, seis outros americanos fugiram pela porta das traseiras e procuraram refúgio na casa do embaixador do Canadá. Serem descobertos e assassinados era uma questão de dias, pelo que a CIA prepara uma acção de resgate, dirigida por um especialista, Tony Mendez (Ben Affleck) que engendra um plano verdadeiramente surrealista (“a melhor má ideia”, como é definida no filme): introduzir-se no Irão como produtor de um filme de ficção científica que Hollywood prepara e sair, dois dias depois, com a sua “equipa de escolha de locais de filmagem” constituída por ele e mais seis elementos devidamente credenciados com falsos passaportes e currículos forjados. Esta a primeira parte do filme. 
Para tornar o plano credível aos olhos dos desconfiados e violentos iranianos, era preciso criar realmente o filme, ou uma forte aparência de filme. Passa a chamar-se “Argos”, é uma obra de secundaríssimo plano, para a qual se escreve um medíocre guião, que é apresentado à imprensa, numa sessão em que os actores lêem o (pavoroso) argumento, fazem-se anúncios de página no “Variety”, contratam-se técnicos reais (como o caracterizador John Chambers, que entre muitos outros trabalhara em “Batalha pelo Planeta dos Macacos” que aparece como inspiração na obra de Affleck) e monta-se a tenda, antes de Tony Mendez partir para Teerão. Claro que toda esta edificação da mentira dá pano para mangas no inteligente e sarcástico argumento de Chris Terrio que, para o escrever, se inspira em artigos do jornalista de investigação Joshuah Bearman. Mendez vai a Hollywood criar um falso filme e respondem-lhe que está no sítio certo. A sátira a Hollywood e aos seus muitos maus filmes é deliciosa, através sobretudo de um diálogo muito saboroso e actores magníficos, entre os quais cumpre destacar Alan Arkin (o produtor Lester Siegel) e John Goodman (o maquilhador John Chambers), ambos brilhantes nas suas composições.


Na terceira parte da obra, o suspense impera, muito embora todos saibamos que o resultado final foi um happy end. Mas Ben Affleck manipula muito bem os condimentos e obriga o espectador a agarrar-se à cadeira até o avião subir nos céus de Teerão e sair do espaço aéreo iraniano. Segurança e mestria de tom, portanto. No que o realizador conta com uma talentosa equipa técnica que faz valer os seus argumentos na fotografia, na montagem, na direcção artística, etc.
Para lá de Ben Affleck, Alan Arkin e John Goodman, o elenco já várias vezes premiado na sua globalidade, conta ainda com Bryan Cranston, Clea DuVall, Kyle Chandler, Zeljko Ivanek, Tate Donovan, Victor Garber, Bob Gunton, Chris Messina, Philip Baker Hall, Michael Parks e Richard Kind, muitos dos quais mais conhecidos da televisão do que do cinema.
No genérico final, Ben Affleck contrapõe os actores aos verdadeiros protagonistas desta gesta e chega mesmo a ouvir-se um discurso de Carter sobre os acontecimentos, que são atribuídos ao Canadá que fica com os louros, para assim impedir represálias sobre os demais prisioneiros norte-americanos no Irão.



ARGO (2012)
Título original: Argo
Realização: Ben Affleck (EUA, 2012); Argumento: Chris Terrio, segundo artigos do jornalista Joshuah Bearman ("Escape from Tehran"); Produção: Ben Affleck, Chris Brigham, Chay Carter, George Clooney, Tim Headington, Grant Heslov, Graham King, David Klawans, Alex Sutherland, Nina Wolarsky; Música: Alexandre Desplat; Fotografia (cor): Rodrigo Prieto; Montagem: William Goldenberg; Casting: Lora Kennedy; Design de produção: Sharon Seymour; Direcçao artistica: Peter Borck, Deniz Göktürk; Decoração: Jan Pascale; Guarda-roupa: Jacqueline West; Maquilhagem: Donna J. Anderson, Aurora Bergere, Kate Biscoe, Jamie Kelman, Ebru Kizilta, Kelvin R. Trahan; Direcção de produção: Tina Anderson, Amy Herman, Zeynep Santiroglu, Katherine Tibbetts; Assistentes de realização: David J. Webb, Ian Calip, Sinan Cevik, Clark Credle, Alfonso Gomez-Rejon, Alison C. Rosa, Sunday Stevens, Stephanie Tull, Belkis Turan; Departamento de arte: Michael Keith Aleshire-Rezendez, Dilek Aydin, Nicole Balzarini, Andrew Campbell, Eunha Choi, Daniel R. Jennings, Brett McKenzie, Barbara Mesney, John H. Samson, Gulriz Sansoy; Som: Erik Aadahl, Ethan Van der Ryn; Efeitos especiais: R. Bruce Steinheimer; Efeitos visuais: Matt Dessero, Rachel Faith Hanson, Thomas J. Smith, Mark Van Ee; Companhias de produção: Warner Bros. Pictures, GK Films, Smoke House; Intérpretes: Ben Affleck (Tony Mendez), Bryan Cranston (Jack O'Donnell), Alan Arkin (Lester Siegel), John Goodman (John Chambers), Victor Garber (Ken Taylor), Tate Donovan (Bob Anders), Clea DuVall (Cora Lijek), Scoot McNairy (Joe Stafford), Rory Cochrane (Lee Schatz), Christopher Denham (Mark Lijek), Kerry Bishé (Kathy Stafford), Kyle Chandler (Hamilton Jordan), Chris Messina (Malinov), Zeljko Ivanek (Robert Pender), Titus Welliver (Bates), Keith Szarabajka (Adam Engell), Bob Gunton (Cyrus Vance), Richard Kind (Max Klein), Richard Dillane, Omid Abtahi, Page Leong, Farshad Farahat, Sheila Vand, Ryan Ahern, Bill Tangradi, Jamie McShane, Matthew Glave, Roberto Garcia, Christopher Stanley, Jon Woodward Kirby, Alborz Basiratmand, Ruty Rutenberg, etc. Duração: 120 minutos, Classificação etária: M/ 12 anos; Distribuição em Portugal: Columbia TriStar Warner Filmes de Portugal; Estreia em Portugal: 8 de Novembro de 2012. 
 

quarta-feira, janeiro 09, 2013

CINEMA: "AMOR"

 
AMOR
 
“Amor”, de Michael Haneke, com dois actores fabulosos, Jean-Louis Trintignant (Georges) e Emmanuelle Riva (Anne), é um filme admirável sobre a velhice, a doença, a morte, mas sobretudo sobre o amor. Um casal de velhos músicos, ela pianista, vive sozinho numa casa em Paris. Vivem bem, apesar de se sentir uma certa solidão, apesar das visitas regulares de uma filha, Eva (Isabelle Huppert), casada, que tem, no entanto, a sua vida e os seus problemas e não pode estar continuamente com eles. Mas Georges e Anne sobrevivem bem, com a lembrança dos seus alunos e as idas a concertos e a música sempre por perto da sua existência. Até que um dia, há sempre um dia nestes casais, Anne adoece, fica cada vez mais dependente dos outros, sobretudo do marido que se esforça por a acompanhar o melhor que sabe e pode. Mas a invalidez, provocada por AVC, vai progredindo inexoravelmente. Anne recusa-se a alimentar-se e George sente-se impotente perante o quadro a que diariamente assiste.

Com um tal argumento, escrito originalmente pelo próprio Michael Haneke, fácil seria cair-se no rodriguinho e no melaço. Tem todos os condimentos para o sentimentalismo lamechas. Haneke, e os seus rigorosos e discretos actores, não vai por aí. O seu filme é de uma austeridade a toda a prova e de uma sensibilidade e pudor notáveis. Olha os seus protagonistas com respeito, pode mesmo dizer-se que com amor, mas coloca-os à distância para impedir qualquer facilidade ou pieguice. Há um humanismo íntegro que sabe bem surpreender a cada plano. A sua câmara regista os gestos mais subtis, os olhares mais íntimos, a beleza das rugas, mas também a debilidade no andar, o sofrimento de quem vê sofrer, a angústia do desconhecido, mas igualmente a serenidade perante o absoluto, e a raiva perante a impotência. Neste aspecto, o trabalho dos actores é de um invulgar virtuosismo e se não podemos deixar de sublinhar Jean-Louis Trintignant (e de o recordar em “Um Homem e Uma Mulher”, por exemplo, no apogeu da sua maturidade), não é menos verdade que Emmanuelle Riva é sublime, justificando todos os adjectivos (ela que fora a presença obsidiante de “Hiroshima, Meu Amor”). Refira-se ainda que entre os intérpretes se destaca Rita Blanco, numa curta mas preciosa aparição.

Austríaco, Michael Haneke é um dos maiores e mais originais cineastas europeus da actualidade. Antes de “Amor”, ele já não tinha dado obras marcantes da última década e meia. Em 2009, realizara o poderoso “O Laço Branco”, que vinha depois de “Brincadeiras Perigosas” (EUA, 2007), “Nada a Esconder” (2005), “O Tempo do Lobo (2003), “A Pianista” (2001), “Código Desconhecido” (2000), “Brincadeiras Perigosas” (Áustria, 1997), “O Castelo” (1997) ou “71 Fragmentos de uma Cronologia do Acaso” (1993). Uma filmografia invulgar, de uma coerência de estilo e de temas que não deixa dúvidas quanto à autoria, com a violência nas relações humanas como obsessão constante. Mas com “Amor” terá atingido um momento sublime na expressão do encanto (e desencanto) das relações humanas. O seu filme é, seguramente, um dos melhores de 2012 e tem sido justamente premiado por todo o lado por onde tem passado. Assim será, certamente, nos Oscars que se avizinham.  

AMOR
Título original: Amour
Realização: Michael Haneke (Áustria, França, 2012); Argumento: Michael Haneke; Produção: Margaret Ménégoz, Michael André, Stefan Arndt, Daniel Goudineau, Veit Heiduschka, Hans-Wolfgang Jurgan, Michael Katz, Wolfgang Lorenz, Heinrich Mis, Bettina Reitz, Bettina Ricklefs, Uwe Schott; Fotografia (cor): Darius Khondji; Montagem: Nadine Muse, Monika Willi; Casting: Kris Portier de Bellair; Design de produção: Jean-Vincent Puzos; Decoração: Susanne Haneke; Guarda-roupa: Catherine Leterrier; Maquilhagem: Thi-Loan Nguyen, Frédéric Souquet ; Direcção de produção: Sophie Boge, Philippinne Cholley, Ulrike Lässer, Ulli Neumann, Olivier Thaon, Stephan von Larcher; Assistentes de realização: Alain Olivieri, Olivier Falkowski, Marine Franssen, Stephanie Guénot, Denis Manin, Justine Selz; Departamento de arte: Jérôme Billa, Fabio Carussi, Alain Chaudet, Sophie Reynaud, etc.; Som: Jean-Pierre Laforce, Guillaume Sciama; Efeitos especiais: Yves Domenjoud, Olivier Gleyze; Efeitos visuais: Béatrice Bauwens, Barthelemy Beaux, Olivier Blanchet, Christophe Courgeau, Sophie Denize, Arnaud Fouquet, Julien Meesters; Companhias de produção: Wega Film, Les Films du Losange, X-Filme Creative Pool, France 3 Cinéma, ARD Degeto Film, Westdeutscher Rundfunk (WDR), Bayerischer Rundfunk (BR), France Télévisions, Canal+, Ciné+, ORF Film/Fernseh-Abkommen; Intérpretes: Jean-Louis Trintignant (Georges), Emmanuelle Riva (Anne), Isabelle Huppert (Eva), Alexandre Tharaud (Alexandre), William Shimell (Geoff), Ramón Agirre (porteiro), Rita Blanco (porteira), Carole Franck (enfermeira 1), Dinara Drukarova (enfermeira 2), Laurent Capelluto, Jean-Michel Monroc, Suzanne Schmidt, Damien Jouillerot, Walid Afkir, etc.; Duração: 127 min; Distribuição em Portugal: Leopardo Filmes; Classificação etária: M/16 anos; Data de estreia em Portugal: 6 de Dezembro de 2012.

sexta-feira, janeiro 04, 2013

OS MISERÁVEIS DO MUSICAL AO CINEMA

 

OS MISERÁVEIS

Um musical como “Les Misérables”, ou “Les Miz” para os incondicionais, merecia uma obra-prima na sua adaptação ao cinema. O que Tom Hooper nos reserva não se aproxima de nada disso, infelizmente. O que há de bom na sua versão vem-lhe do próprio musical, e ele apenas acrescenta ao conjunto uma realização que tropeça a cada passo no seu exibicionismo de contorcionista estilístico, com uma ou outra boa excepção. Mas vamos por partes.

O romance de Victor Hugo é majestoso e brilhante, quer do ponto de vista de escrita, mil e duzentas páginas de uma tumultuosa epopeia humana em busca da liberdade, da igualdade e da fraternidade entre os homens, como do ponto de vista humanista, defendendo fracos e oprimidos contra a ditadura da opressão brutal e da iniquidade social. Uma obra que é certamente das mais adaptadas ao cinema, em versões muito desiguais mas todas elas demonstrando a perenidade e actualidade da mensagem. Miseráveis e injustiças proliferam pelos quatro cantos do mundo e, mesmo nesta tão apregoada Europa da abundância, cada dia se multiplicam os deserdados.

A versão musical que nasceu em 1985 nos palcos de Londres tem sido um sucesso por onde tem passado. Merecidamente, isto digo eu que sou um apaixonado por musicais e tenho “Os Miseráveis” como um dos melhores exemplos do género nos tempos mais próximos (ao lado de “Sunset Boulevard, de “O Fantasma da Ópera” ou de um “Martin Guerre”). Julgo a adaptação do romance notável, na forma como o condensa, sem o ferir na sua fidelidade, na forma como equilibra personagens e situações, na forma como concilia o individual e o colectivo, o romântico e o épico. Julgo a partitura musical das mais inspiradas, tendo em conta sobretudo a especificidade deste musical, todo ele cantado, aproximando-se em muito mais da ópera ou da opereta do que dos musicais da época de ouro (entre os anos 30 e os 50 do século passado). De resto este não é um musical dançando, é um musical essencialmente cantado, pelo que a sua adaptação teria de ter em conta este aspecto, o que julgo Tom Hooper tentou compreender, não dando tanta atenção ao plano de conjunto (para se apreciar a dança na sua globalidade) e mais ao plano aproximado (para se concentrar no canto, o que resulta muito bem nalguns casos, como por exemplo na canção de Fantine, "I Dreamed a Dream", admiravelmente conseguida por Anne Hathaway, e não tanto noutros, onde leva ao preciosismo esta aproximação).

A história desta adaptação a musical é curiosa. Poucos sabem que a primeira versão é francesa, uma encenação de Robert Hossein, com texto de Alain Boublil e Jean-Marc Natel e música de Claude-Michel Schönberg. Estreou-se em 1980 no Palais des Sports, com um elenco encabeçado por Maurice Barrier (Jean Valjean) e Jean Vallée (Javert). Esteve três meses em cena, após o que se despediu sem grande euforia. Mas, passados três anos, o produtor inglês Cameron Mackintosh, que tinha acabado de estrear “Cats” na Broadway, recebeu um álbum deste concerto e ficou impressionado. Entregou a Herbert Kretzmer a versão inglesa que se estreou em Londres, a 8 de Outubro de 1985, no Barbican Centre. Pouco depois, estrearia na Broadway – ao lado de “Cats”, “The Phantom of the Opera”, “Miss Saigon”. Daí para cá transformou-se no maior sucesso de sempre de um musical – mais de 65 milhões de espectadores em todo o mundo.

A adaptação cinematográfica acompanha, pari passu, a versão musical, com uma ou outra liberdade, que todavia não interfere com a partitura. Mas os meios que o cinema põe à disposição da história libertam-na do espaço fechado de um palco, o que é desde logo visível na sequência inicial, com Jean Valjean em trabalhos forçados, numa grandiosa reconstituição do porto militar de Toulon, no sul de França, pouco antes de ser libertado, depois de cumprir uma pena de 19 anos de prisão nas galés, por ter roubado um pão para matar a fome à família (cinco por esse crime, mais 14 por várias tentativas de fuga). Jean Valjean, com uma força sobre-humana e um ódio feroz a quem o aprisionou, tem pela frente Javert, o chefe da polícia que não lhe irá dar tréguas ao longo de toda a existência. É ele quem lhe põe na mão um passaporte amarelo que o irá causticar para sempre como ex-condenado. Todos o afastam até chegar a casa de um padre que o acolhe, lhe dá comida e cama, e lhe desculpa um roubo de pratas, com a promessa de Valjean tornar um honesto cidadão. Este, tocado pela graça na sua empedernida consciência, acaba por se regenerar, transformar a prata em ouro, multiplicando o capital, através de um fábrica que administra, sendo nomeado “maire” da cidade de Montreuil. Estamos em 1823.

Na sua fábrica trabalha Fantine, mãe (solteira) de Cosette, que um dia é despedida e cai de degrau em degrau até à mais profunda desgraça, que a conduzirá à morte. Muitas são as peripécias, mas perto do fim, Valjean que, como maire assumira a identidade de Madeleine, promete a Fantine tomar conta da sua filha que se encontra sob a guarda de uns taberneiros, contumazes na rapina e avidez, de nome Thénardier. A miúda é tratada como uma escrava, Valjean liberta-a a troco de uma considerável quantia, mas Javert anda por perto e quer fazer regressar às galés o seu inimigo de estimação, pois este furtara-se à apresentação obrigatória perante a policia, dada a sua liberdade condicional. Javert é filho de um condenado e jurou cumprir a lei e impor a ordem custe o que custar. Para ele, não há regeneração possível. Victor Hugo tem uma ideia diferente da justiça e quer demonstrá-lo nesta sua obra. Por isso a oposição Javert-Valjean é tão intensa, complexa, insistente e obsessiva. São duas concepções do mundo que se opõem. A velha sociedade absolutista a que a Revolução Francesa tinha posto cobro, a nova ordem do mundo que nascia desse movimento libertador.

De fuga em fuga, Cosette cresce ao lado do seu pai adoptivo, e assim chegamos a 1832, às barricadas nas ruas de Paris, contra o novo rei. Entre os estudantes revoltosos vamos encontrar Marius, filho de um nobre, que renega as origens e que, de bandeira em punho, é um dos chefes do movimento que faz frente aos soldados do rei. No entretanto, Marius e Cosette encontram-se e apaixonam-se e surge a história de amor que irá ocupar grande parte da segunda metade da obra, intercalada com a revolução e a persistente perseguição de Javert a Valjean. Estão reunidas as condições para um final que irá reunir as diferentes linhas de acção, voltando o filme a algumas sequências de grande espectacularidade, sobretudo com as barricadas e confronto final de Javert e Valjean nos esgotos de Paris.

O que, portanto, sobressai no filme vem do musical: a estrutura dramática e a partitura musical. O que Tom Hooper traz de novo é, no mínimo, discutível: o filme nunca tem um tom próprio, oscila entre algumas sequências bem conseguidas e outras insustentáveis, pelos rodriguinhos e um estilo quase grotesco de enquadramentos e lentes mal utilizadas. Há um plano de Valjean no cimo de uma escada que é o paradigma deste estilo arrebicado e pomposo do realizador. Que não é de agora e já lhe mereceu Oscars da Academia. Num texto meu dedicado a “O Discurso do Rei” (Fevereiro de 2011) disse: “(..) a realização, que é verdadeiramente desastrosa, com um recurso insano à utilização da grande angular, que transforma personagens e ambientes em grotescas caricaturas, sempre que é usada. Creio ter percebido a intenção de Tom Hooper, um realizador que vem da televisão e nos dera um interessante “Maldito United” (2009). Ele terá pensado que esta era a melhor maneira de traduzir em imagens a perturbação e a claustrofobia do rei gago, mas apenas optou pela facilidade e o resultado é por vezes simplesmente grotesco. Em lugar de traduzir a gaguez do rei, afirma a gaguez do seu realizador”. O que eu tinha acusado em 2011 mantém-se em 2012. Talvez lhe volte a conferir estatuetas, para mim de todo imerecidas. Mas a Academia parece andar virada para esse tipo de realização acrobática e excêntrica, pois “Cisne Negro”, de Darren Aronofsky, enfermava da mesma doença e também foi muito ovacionado.

Há, no entanto, aspectos positivos nesta obra que certamente não sairá de mãos a abanar da cerimónia dos Oscars que se aproxima. A direcção artística, cenários, guarda-roupa e adereços é bastante boa, e a interpretação merece alguns destaques. Sem surpreender, Hugh Jackman é um eficaz Jean Valjean, Russell Crowe deixa um pouco a desejar como Javert, Anne Hathaway é magnifica como Fantine, Amanda Seyfried não desmerece como Cosette, Sacha Baron Cohen e Helena Bonham Carter, como Thénardiers, são deslumbrantes de graça comedida, Eddie Redmayne é um Marius que foge ao rodriguinho do galã, Aaron Tveit  é um bom Enjolras, Samantha Barks uma Éponine que se afasta um pouco da imagem habitual e Daniel Huttlestone é dos melhores Gavroches de uma extensa lista. Tom Hooper resolveu fazer os actores cantarem em directo, em vez de serem dobrados como era habitual neste género, e não parece que tenha ganho nada com este feito. De resto, quase todos os actores secundários que têm anterior experiência vocal noutros musicais sobressaem pela voz.

Finalizando, quem gosta de musicais e deste em particular deve preferir ficar em casa a ver e ouvir pela enésima vez o concerto do 25º aniversário. Mas quem mesmo assim queira ir ao cinema, haverá certamente quem no final deteste e quem tenha suportado com alguma galhardia. Este último foi o meu caso.  

OS MISERÁVEIS
Título original: Les Misérables
Realizador: Tom Hooper (Inglaterra, EUA, 2012); Argumento: William Nicholson, segundo texto de Claude-Michel Schönberg e Alain Boublil, adaptando o romance de Victor Hugo, com poemas de Herbert Kretzmer, Alain Boublil, Jean-Marc Natel, James Fenton; Produção: Bernard Bellew, Raphaël Benoliel, Tim Bevan, Liza Chasin, Eric Fellner, Debra Hayward, Cameron Mackintosh, Angela Morrison, Thomas Schönberg; Música (não original): Claude-Michel Schönberg; Fotografia (cor): Danny Cohen; Montagem: Chris Dickens, Melanie Ann Oliver; Casting: Nina Gold; Design de produção: Eve Stewart; Direcção artística: Grant Armstrong, Gary Jopling, Hannah Moseley, Su Whitaker; Decoração: John Botton, Leigh Bryant, Stephen Doyle, Billy Edwards, Carrie Garner, James Hendy, Anna Lynch-Robinson, Sarah Whittle, Matt Wyles; Guarda-roupa: Paco Delgado; Maquilhagem: Nicola Buck, Karen Cohen, Julie Dartnell, Audrey Doyle, Patt Foad, Sarah Grispo, etc.; Direcção de produção: Kate Fasulo, Tom O'Shea, Jason Pomerantz, Bobby Prince, Matthieu Rubin, Patrick Schweitzer; Assistentes de Realizador: Ben Howarth, Mark Cockren, Gayle Dickie, Sid Karne, Vaughn Stein, Harriet Worth; Departamento de arte: Julia Castle, Malcolm Roberts; Som: Dominic Gibbs, Lee Walpole, John Warhurst; Efeitos especiais: Hugh Goodbody, David Holt, Paul McGuinness, etc.; Efeitos Visuais: Richard Bain, Fabrizia Bonaventura, Robert Connor, Izzy Field, Tim Field, Ali Ingham, Sean Mathiesen, Nathalie Mathé, Allison Paul, Natalie Reid, Adrian Steel; Animação: Ben Wiggs; Companhias de produção: Working Title Films; Cameron Mackintosh Ltd. Intérpretes: Hugh Jackman (Jean Valjean), Russell Crowe (Javert), Anne Hathaway (Fantine), Amanda Seyfried (Cosette), Sacha Baron Cohen (Thénardier), Helena Bonham Carter (Madame Thénardier), Eddie Redmayne (Marius), Aaron Tveit (Enjolras), Samantha Barks (Éponine), Daniel Huttlestone (Gavroche), Cavin Cornwall (preso 1), Josef Altin (preso 2), Dave Hawley (preso 3), Adam Jones (preso 4), John Barr (preso 5), Tony Rohr, Richard Dixon, Andy Beckwith, Stephen Bent, Colm Wilkinson, Georgie Glen, Heather Chasen, Paul Thornley, Paul Howell, Stephen Tate, Michael Jibson, Kate Fleetwood, Hannah Waddingham, Clare Foster, Kirsty Hoiles, Jenna Boyd, Alice Fearn, Alison Tennant, Marilyn Cutts, Catherine Breeze, John Albasiny, Bertie Carvel, Tim Downie, Andrew Havill, Dick Ward, Nicola Sloane, Daniel Evans, David Stoller, Ross McCormack, Jaygann Ayeh, Adrian Scarborough, Frances Ruffelle, Lynne Wilmot, Charlotte Spencer, Julia Worsley, Keith Dunphy, Ashley Artus, John Surman, David Cann, James Simmons, Polly Kemp, Ian Pirie, Adam Pearce, Julian Bleach, Marc Pickering, Isabelle Allen, Natalya Angel Wallace, Phil Snowden, Hadrian Delacey, Lottie Steer, Sam Parks, Mark Donovan, Lewis Kirk, Leighton Rafferty, Peter Mair, Jack Chissick, Dianne Pilkington, Robyn North, Norma Atallah, Patrick Godfrey, Mark Roper, Paul Leonard, etc. Duração: 157 minutos; Distribuição em Portugal: Zon Lusomundo; Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal: 3 de Janeiro de 2013.

sábado, dezembro 29, 2012

CINEMA: OS PREFERIDOS

CINEMA: OS MELHORES DE 2012 
Confesso que este foi um ano em que fui pouco ao cinema (pouco, para o que era a minha norma, uma norma que às vezes me colocava numa sala de cinema das 8 da manhã até à noite, o que também não era saudável, convenhamos). Mesmo assim vi umas boas dezenas de filmes. Entre os que mais gostei, aqui ficam as minhas preferências:
AMOR, de Michael Haneke (Áustria)
O CAVALO DE TURIM, de Bela Tarr (Hungria)
O GEBO E A SOMBRA, de Manoel de Oliveira (Portugal)
COSMOPOLIS, de David Cronenberg (Canadá)
PROCUREM ABRIGO, de Jeff Nichols (EUA)
A INVENÇÃO DE HUGO, de Martin Scorsese (EUA)
MILENNIUM 1 – OS HOMENS QUE ODEIAM AS MULHERES, de David Fincher (EUA)
A VERGONHA, de Steve McQueen (Inglaterra)
HOLY MOTORS, de Leos Carax (França)
AGRUTA DOS SONHOS PERDIDOS, de Werner Herzog (Alemanha)
AS FLORES DA GUERRA, de Zhan Yimou (China)
4.44 ÚLTIMO DIA DA TERRA, de Abel Ferrara (EUA)
E num ano bom para o cinema português é conveniente não esquecer ainda
TABU, de Miguel Gomes
ESTRADA DE PALHA, de Rodrigo Areias
FLORBELA, de Vicente Alves d’ O
O BARÃO, de Edgar Pera (este não sei se estreou este ano, eu vi-o este ano, e, como gostei, fica)
E a completar, eu sei: foi um ano depressivo para burro! Ou para cavalo.

FICÇÃO PORTUGUESA NA RTP

DE "FLORBELA" A "4."
 
Constipação, período natalício, frio e preguiça têm-me retido algum tempo frente à televisão. Vi por isso os quatro episódios da série “4.” e os três de “Perdidamente Florbela” e, de um modo geral, dei por bem empregue o meu tempo. Começando pela obra de Vicente Alves d’ O, há que referir que já tinha gostado bastante do filme e que a série talvez me tenha ainda agradado mais. Bom trabalho de direcção de actores, realização fluente e sensível, cuidada e geralmente de muito bom gosto, com uma excelente direcção de arte que criou cenários plausíveis e plasticamente bem aproveitados. Os actores comportaram-se a muito bom nível e afigura-se-me que é série para fazer um bom percurso pelos festivais do género do estrangeiro.

Bastante diferente é o caso de “4.”, uma mini-série de 4 telefilmes autónomos entre si, ligados apenas por cada um deles reflectir um olhar sobre “Portugal Hoje”. Quatro escritores dos mais sonantes da nova geração escreveram uma história que representa a sua visão sobre o Portugal contemporâneo. José Luís Peixoto escreveu “Entre as Mulheres”, Pedro Mexia “Bloqueio”, João Tordo “Crónica de uma Revolução Anunciada” e Valter Hugo Mãe “A Morte dos Tolos”. Infelizmente os três primeiro deixaram muito a desejar, histórias algo descabeladas de encontros e desencontros sem grande nexo nem interesse, por vezes pretensiosas e snobs, por vezes demagógicas e primárias. O último episódio, de  Valter Hugo Mãe, “A Morte dos Tolos”, redimiu a série, com bons diálogos, personagens divertidas, situações de saudável crítica social, e bons actores. Diga-se, no entanto, que a realização de Henrique Oliveira foi, nos quatro casos, muito interessante, rigorosa, eficaz, mas a verdade é que, nuns casos, não deu para defender textos pobres e sem ideias.
De qualquer das maneiras, aqui tivemos a RTP a cumprir bem o seu papel de “serviço público”, incentivando a produção nacional. Nem tudo foi bom? Infelizmente não, mas em parte nenhuma o é. Por exemplo: de José Luís Peixoto, já li textos muito bons. Mas nem sempre se acerta.

quarta-feira, dezembro 05, 2012

JOAQUIM BENITE, UM AMIGO


Morreu Joaquim Benite
(1943-2012)


Morreu um amigo. Quando assim é, difícil se torna sequer falar. Fomos muito próximos durante muito tempo. Ambos críticos, eu de cinema, ele de teatro, no “Diário de Lisboa”. Lá pelos anos 60. Ambos apaixonados pelo que escrevíamos. Fizemos depois carreiras diversas, mas lado a lado. Ambos apaixonados pelo que fazíamos. Acompanhei a sua actividade sempre com redobrado interesse, pela qualidade das suas propostas, mas também com o olhar de amigo que gosta de ver o amigo afirmar-se por mérito próprio. Sei que ele me seguia com igual emoção. A emoção que nos unia quando nos encontrávamos, aqui e ali, no Famafest que eu dirigia em Famalicão, onde fez parte do Júri Internacional em 2010, ano em que foi igualmente homenageado, no Teatro Municipal de Almada que dirigia e onde encenava espectáculos que ficarão na nossa recordação, no Festival que superiormente dirigia, um dos melhores da Europa no campo do teatro. Benite partiu mas o seu trabalho, consistente e coerente, a sua alegria de viver, o seu forte abraço, esses ficarão, triste consolação numa carreira brilhante que se finou. Que o exemplo não se cale. Por isso aqui fica um abraço para a Teresa, os filhos e também para o Rodrigo, seu assistente durante anos.
Perguntaram-lhe se achava que ficaria na História. Respondeu: “Os encenadores nunca ficam na história. Só os escritores, como o Shakespeare. Sabe, acho que vale a pena viver para nos divertirmos. Lutar por coisas, para cumprir missões, não. O teatro é um sinal de civilização que está na origem da sociedade. Até nos animais. Quando chego a casa, o meu cão faz uma dança que parece egípcia, pá. São rituais de representação. Mas o teatro não tem missão nenhuma. É uma coisa que as pessoas fazem porque gostam e as outras vêem porque lhes dá prazer”.
É tudo verdade. Mas ficarás na História, claro!

Nota do Teatro Municipal de Almada:

O encenador Joaquim Benite, director do Teatro Municipal de Almada e do Festival de Almada, faleceu esta noite, na sequência de complicações respiratórias motivadas por uma pneumonia. O fundador da Companhia de Teatro de Almada preparava a estreia absoluta em Portugal de Timão de Atenas, de Shakespeare, que representaria o seu regresso à actividade após um período de ausência dos palcos por motivo de doença. O País perde assim um dos seus mais prestigiados encenadores, ligado ao movimento de renovação do Teatro português no período que antecedeu e que se seguiu à Revolução de 1974.
Joaquim Benite nasceu em Lisboa em 1943. Começou a trabalhar como jornalista, aos 20 anos, no jornal República. Posteriormente fez parte da redacção do Diário de Lisboa e foi chefe de redacção dos jornais O séculoe O diário. Foi crítico de teatro no Diário de Lisboa e em diversas revistas e publicações.
Em 1971 fundou o Grupo de Campolide e estreou-se na encenação com O avançado centro morreu ao amanhecer, de Agustin Cuzzani. Com a peça Aventuras do grande D. Quixote de la Mancha e do gordo Sancho Pança, de António José da Silva, ganhou, no ano seguinte, o Prémio da Crítica para o melhor espectáculo de teatro amador.
Em 1976, no Teatro da Trindade, transformou o Grupo de Campolide em companhia profissional. Em 1978 asua companhia instala-se em Almada, cidade de onde não mais sairia, e que transformou num dos principais focos teatrais do País, cujo expoente máximo será porventura o Festival de Almada, criado em 1984, e que em 2013 terá a sua 30ª edição. Em 1988, Joaquim Benite inaugura o primeiro Teatro Municipal dessa cidade, e em 2005 é finalmente concluído o projecto do novo Teatro Municipal de Almada — num edifício da autoria de Manuel Graça Diase Egas José Vieira —, que se tornou num dos principais teatros do País.
Tendo criado mais de uma centena de espectáculos, Joaquim Benite foi responsável pela estreia em teatro de José Saramago, de quem dirigiu A noite (1979) e Que farei com este livro? (1980 e 2007). Encenou ainda obras de Shakespeare, Molière, Brecht, Lorca, Bulgakov, Camus, Adamov, Gogol, Beckett, Albee, Neruda, Thomas Bernhard, Sanchis Sinisterra, Antonio Skármeta, Pushkin, Peter Schaffer, Marguerite Duras, Dias Gomes, Nick Dear, O’Neill, Marivaux, Feydeau, Almeida Garrett, Gil Vicente, Raul Brandão, entre muitos outros.
Entre os seus últimos trabalhos contam-se: Que farei com este livro, de José Saramago(2007); as óperas A clemência de Tito, de Mozart (2008), O doido e a morte(2008) e A rainha louca (2011), de Alexandre Delgado; O presidente, de Thomas Bernhard (2008); Timon de Atenas, de Shakespeare (Festival de Mérida, 2008); A mãe, de Brecht (2010); Tuning, de Rodrigo Francisco (2010); Troilo e Créssida, de Shakespeare (2010); e Hughie e Antes do pequeno-almoço, de Eugene O’Neill (2010).
Entre os numerosos prémios e distinções com que foi distinguido, Joaquim Benite foi agraciado com as Medalhas de Ouro dos Municípios de Almada e da Amadora, e as Medalha de Mérito Cultural do Ministério da Cultura e Mérito Distrital do Governo Civil de Setúbal. Foi-lhe também atribuído o grau de Comendador da Ordem do Infante D. Henrique; os graus de Cavaleiro e Oficial da Ordem das Artes e das Letras de França; e o grau de Comendador da Ordem do Mérito Civil de Espanha.

terça-feira, novembro 20, 2012

BERNARDO SANTARENO NO CARTAXO


Última exibição de “O Crime da Aldeia Velha”, no Centro Cultural do Cartaxo. Última exibição que teve o propósito de homenagear o escritor no dia do seu aniversário. Para o efeito escrevi algumas palavras, relembrando o dramaturgo, que li no final do espectáculo, no palco perante todo o elenco:
 

SOBRE BERNARDO SANTARENO

 

Se fosse vivo, Bernardo Santareno, o autor desta peça que acabaram de ver, completaria hoje 92 anos. Ribatejano por nascimento (foi em Santarém que nasceu no dia 19 de Novembro de 1920), Bernardo Santareno era o pseudónimo literário do cidadão António Martinho do Rosário, que fez estudos no Liceu Nacional de Sá da Bandeira, na sua terra natal, onde permaneceu até 1939, após o que viajou até à capital do reino para frequentar os cursos preparatórios para a Faculdade de Medicina, na Universidade de Lisboa. Em 1945, transferiu-se para a Universidade de Coimbra, e aí se licenciou em medicina psiquiátrica, em 1950.

Iniciou a sua carreira profissional como médico, entre 1957 e 1958, a bordo dos navios “David Melgueiro”, “Senhora do Mar” e também do navio-hospital “Gil Eanes”, acompanhando as campanhas de pesca do bacalhau. Ao mesmo tempo, foi desenvolvendo a sua capacidade literária, inicialmente na poesia, publicando em edições de autor três volumes (1954, “Morte na Raiz”, 1955, “Romances do Mar”, e 1957, “Os Olhos da Víbora”), onde se esboçam já alguns dos seus temas e obsessões, nomeadamente a presença do mar como elemento dramático e a opressão do homem, vítima dos mais diversos condicionalismos sociais, morais ou políticos. O mar estaria igualmente presente no seu volume de narrativas “Nos Mares do Fim do Mundo”.

Num país onde a dramaturgia é rara e medíocre, salvo raras excepções, poucas mais para além de Gil Vicente, de António José da Silva, dito “o Judeu”, de António Ferreira, António Patrício ou de Almeida Garrett, Bernardo Santareno ocupou rapidamente o lugar de dramaturgo por excelência do século XX português. As suas primeiras obras teatrais surgiram em 1957, num volume editado pelo autor e que agrupava “A Promessa”, “O Bailarino” e “A Excomungada”. Depois surgem “O Lugre” e “O Crime de Aldeia Velha”, ambas de 1959; “António Marinheiro ou o Édipo de Alfama”, de 1960; “Os Anjos e o Sangue”, “O Duelo” e “O Pecado de João Agonia”, de 1961; e “Anunciação”, de 1962, todas elas integrando uma estética muito pessoal, que aliava um realismo de características sociais a uma imagética poética, escolhendo temas onde a natureza humana era escalpelizada nos seus contrastes mais gritantes, com a paisagem natural por cenário privilegiado, condicionando o drama e mesmo a tragédia a que a acção quase sempre conduz. 

Foi em meados dos anos 60, tinha eu pouco mais de vinte anos, quando conheci pessoalmente Bernardo Santareno. Em 1964, acompanhara a estreia de “O Crime de Aldeia Velha” no cinema, numa adaptação de Manuel Guimarães, meu amigo e vizinho da Avenida de Roma, e companheiro de boas conversas no Café Vavá. Cheguei mesmo a escrever uma crítica para a revista “O Tempo e o Modo”, onde sublinhava algumas das virtudes e certas limitações do filme que, globalmente, representava uma boa aposta do cinema nacional, numa altura em que o Novo Cinema Português começa a movimentar-se, permitindo que Manuel Guimarães deixasse de ser o quase solitário e quixotesco cineasta da oposição ao regime.

Por essa altura, Santareno era já um autor consagrado e eu um jovem universitário que escrevia sobre cinema e teatro, paixões de sempre, com pretensões a dramaturgo e cineasta. Eu escrevera três peças em um acto, que um editor da altura achou por bem publicar, graça que para sempre fiquei a dever a Fernando Luso Soares. No meu arrojo juvenil, decidi entregar o original a Bernardo Santareno para lhe pedir umas palavras de apresentação do livro, se ele achasse que as pecinhas as mereciam. Por esses tempos, os cafés eram pontos, certos e seguros, de encontro e de tertúlia. Bernardo Santareno era acessível de encontrar em Lisboa, numa pastelaria, confeitaria ou café da Rua Alexandre Herculano, mesmo ao lado de uma editora prestigiada da época, a Ática, que tinha no seu catálogo nada mais do que Fernando Pessoa, Sebastião da Gama, Mário Sá Carneiro e outros tais. Era igualmente a editora de Santareno, e talvez para estar próximo dela, ele frequentava a confeitaria “Paraíso”. Era fácil vê-lo sentado, quase sempre à entrada, numa mesa do lado direito, jornal ou livro na mão, sozinho ou acompanhado por amigos, a bica à frente, sobre o mármore do tampo da mesa. Foi aí que o fui encontrar, foi aí que me apresentei e lhe passei para as mãos o original que ele teve a gentileza de ler e de prefaciar com palavras estimulantes para o que ele considerava ser “um homem de teatro”.

Depois dessa atrevida e insólita apresentação, Santareno revelou-se sempre um homem afável e atento, disponível e encorajador para com os jovens que procurava estimular e alentar. Foram para mim preciosas as suas palavras que me ajudaram a persistir num caminho, apesar dele não ter sido maioritariamente teatral, mas mais ligado ao cinema. Mas nunca abandonei o teatro, quanto mais não seja como espectador apaixonado, e não me espantaria muito que parte desta paixão a tenha passado a outros, como se pode ver pela presença aqui ao lado do meu filho Frederico Corado.

Voltando a Bernardo Santareno e a meados dos anos 60, devo dizer que o meu contacto com o dramaturgo se foi mantendo, em várias ocasiões, por diversas razões. Tenho comigo uma entrevista que lhe fiz para uma revista de espectáculos que então existia, e onde eu colaborava regularmente, a “Plateia”, e onde o autor falava da feliz experiência de ter tido nesse ano de 1967 dois textos seus em cena, “A Promessa” e “António, Marinheiro”, e de ansiar pela estreia em palcos dos seus novos trabalhos que iniciavam, segundo o próprio reconhecia, um novo ciclo no interior da sua obra. “O Judeu” e “O Inferno”, as peças referidas, davam mostras de uma maior intervenção política e social, muito próximas de uma estética brechetiana, o que seria continuado com “A Traição do Padre Martinho” (1969), “Português, Escritor, 45 Anos de Idade” (1974), “Os Marginais e a Revolução” (um volume agrupando quatro originais, “Restos”, “A Confissão”, “Monsanto”, “Vida Breve em Três Fotografias”, 1979) e “O Punho” (que só viria a ser publicado postumamente, em 1987).

Bernardo Santareno pode dizer-se que foi um dos raros portugueses que escreveu tendo em vista o palco, o espectáculo, o contacto com o público, tendo em conta duas vertentes essenciais: por um lado, criar textos de qualidade literária invulgar, que não se satisfazem apenas com a sua existência em livro, mas que aspiram a uma natural respiração no palco. Só aí se completam e se dão por concluídos. Por outro lado, todas as suas obras permitem uma leitura pessoal, de autor, definida por um conjunto de temas constantes e quase direi obsessivos: a luta pela dignificação do ser humano, pelos seus direitos essenciais, em confronto com preconceitos de todo o tipo, quer sejam sexuais, religiosos, económicos, raciais, políticos, sociais.

O que se compreende inclusive pela sua própria postura perante a vida, como declarado defensor da liberdade perante a opressão e, mais ainda, como assumido "homossexual discreto", que via na diferença uma discriminação de que ele mesmo se sentia vítima. Quase toda a sua obra se sente possuída por essa mácula de um “pecado” pessoal que se assume perante o ostracismo geral, tema aliás dominante em “O Crime de Aldeia Velha”, onde uma mulher, só porque é “diferente”, é queimada viva, mercê da intolerância e do fanatismo obscurantista de uma populaça em histeria. Curioso é verificar o papel dos dois elementos da Igreja que surgem nesta obra, desempenhando papéis racionais e contemporizadores, o que demonstra igualmente a abertura do dramaturgo para leituras não demagógicas, ele que noutras obras também criticou a atitude da Igreja em contextos diversos. 

Voltei a cruzar-me com Santareno, por altura da estreia de “A Promessa”, versão cinematográfica de António Macedo da sua peça homónima. Estávamos em 1973, o filme foi um quase escândalo, mas anunciavam-se já tempos novos, que pouco depois iriam desembocar num Abril de cravos. O convívio da obra de Santareno com o cinema ficou por essas duas adaptações, mas, na televisão, iria continuar, com a adaptação de “Português, Escritor, 45 Anos de Idade”, numa realização de Artur Ramos, em 1975, numa recriação de “O Crime de Aldeia Velha”, partindo de uma encenação de Carlos Avilez, em 1997, e, finalmente, em 1999, com a versão televisiva de “Vida Breve em Três Fotografias”, dirigida por Fátima Ribeiro.

Bernardo Santareno morreu cedo, aos 59 anos, em Carnaxide, Oeiras, no dia 30 de Agosto de 1980. Num dos livros que dele possuo, com estimada dedicatória, ele enviava “um grande abraço e a esperança artística no dramaturgo”. Lamento ter-lhe defraudado as esperanças no dramaturgo, mas o amor ao teatro, esse mantém-se. Aqui estou para responder presente às suas esperanças, acompanhado pelo meu filho que vai certamente cumprir novas e renovadas esperanças artísticas e teatrais.  

Lauro António
Cartaxo, 19 de Novembro de 2012

segunda-feira, setembro 24, 2012

NO TEATRO NACIONAL D. MARIA II




 CENAS DA VIDA CONJUGAL 
“Cenas da Vida Conjugal” ("Scener ur ett äktenskap", no original sueco) é uma peça teatral da autoria de Ingmar Bergman que inicialmente se concretizou na televisão, como série, em 1973, depois foi condensada em filme, e só mais tarde adaptada a teatro pelo próprio autor. "Levei dois meses e meio a escrever estas cenas, mas levei uma vida inteira a vivê-las”, disse Ingmar Bergman acerca deste seu trabalho que, como muitos outros da sua carreira, de cineasta, dramaturgo e encenador, se debruça sobre a vida familiar em particular e a difícil e complexa relação entre os seres humanos, sobretudo quando as ligações se estabelecem entre os membros dos dois sexos. A obra original é muito mais extensa do que a peça teatral e apresenta um outro tipo de contextura dramática, seguramente mais intrincada. Na peça existem apenas dois protagonistas (a que se acrescenta uma presença rápida de uma jornalista na cena inicial da entrevista), enquanto nas obras televisiva e cinematográfica surgem outras personagens que adensam o clima e o tornam um pouco mais soturno. A evolução da vida em comum de Mariana e João na peça reflecte dramas e vivências exteriores ao espaço cénico, mas na obra cinematográfica algumas dessas personagens confronta-se directamente com o casal central e tornam mais pesadas as relações e os conflitos. Há definitivamente um peso maior do exterior no desenrolar do conflito interior das duas figuras centrais. 

Filme e peça são duas obras que, vivendo da mesma intriga central, a desenvolvem de forma diferente e com resultados ligeiramente diversos. Ambas são obras admiráveis na forma como analisam o envolvimento amoroso (ou a ausência desse envolvimento e a frustração que essa inexistência causa) e a fragilidade da vida em comum, em ambos os casos o final não sendo o “happy end” que alguns podem suspeitar não deixa de ser uma afirmação de esperança nesse tipo de relacionamento, pois o amor é sempre possível, por vezes das formas mais inesperadas. A verdade é que a dificuldade na coexistência essa irá permanecer, e o final destas “Cenas de Vida Conjugal” não é mais do que uma etapa no decorrer de uma vida, e tudo voltará e repetir-se e o imprevisível regressará sempre e só por isso vale a pena tentar, uma e outra vez, “ad eternum”. 

A busca da felicidade é algo que todos nós sabemos utópico, mas que não nos cansamos de perseguir. A felicidade possivelmente são esses fugazes momentos que urge aproveitar, no intervalos de intempéries e vertigens várias, ou no alvoroço da sonolência de vidas aparentemente conformadas. Por isso nos faz bem assistir a uma obra como esta que relembra nalguns aspectos tantas e tantas outras que antes dela, e depois dela, já vimos tratando do mesmo assunto, um tema inesgotável, diga-se de passagem. Quem vir “Cenas de Vida Conjugal” facilmente pensará em “Quem tem Medo de Virgínia Woolf?” ou em vários Woody Allen, ou em… ou em… seria fastidioso enumerar.
Interessante, porém, será referir a forma eficaz, densa e emotiva como Solveig Nordlund, sueca por nascimento, mas meia portuguesa por adopção, trabalhou o texto e o encenou com sobriedade e inteligência, num cenário minimalista mas convincente no clima que cria, por vezes plasticamente muito bonito (todas as cenas com o arvoredo ao fundo são excelentes) e sempre muito bem aproveitado e iluminado. Depois há que sublinhar a qualidade da interpretação de Adriano Luz e Margarida Marinho, ambos magníficos nas suas composições. Obviamente que são “outros” João e Mariana, diferentes daqueles que conhecíamos no cinema vividos por Erland Josephson e Liv Ullmann. Mas aí está a magia destas recriações: partindo de um mesmo texto, cada personagem ganha a vida do seu novo intérprete, impondo-lhe um sopro de existência própria. Não é só o olhar do encenador que é diferente, é a própria carne e sentimentos dos actores que tornam a realidade “outra”. Sem ser infiel ao original. O texto, que pode ser encenado na Suécia, nos EUA, em Inglaterra ou em Portugal (existe, aliás, da parte de Solveig o cuidado de o tornar algo inlocalizável, apesar de ter aportuguesado os nomes das personagens), permite adaptar-se a novas realidades físicas. Liv Ullmann era uma Marianne magnífica, Margarida Marinho confirma-se como uma das grandes actrizes portuguesas que com o seu talento (e a sua beleza e discreta sensualidade) ilumina o palco do D. Maria II. Só para a ver vale a pena a deslocação. Se Erland Josephson era mais afirmativo e “presente”, Adriano Luz opta por uma figura mais nuanceada, por vezes frágil, mas sempre sugestivo e convincente. Excelente trabalho de actores, portanto, num texto difícil pelo seu intimismo. 

Um belíssimo espectáculo, em suma, que vale mesmo a pena ver num palco português. Bergman é Bergman, já se sabe. Sempre magnifico, inteligente, sensível. Mas aqui apresenta-se muito bem servido pelo talento nacional. A não perder.

sábado, setembro 22, 2012

PLANO NACIONAL DE CINEMA


 PLANO NACIONAL DE CINEMA: 
UM INÉDITO EM REPOSIÇÃO
Os jornais de hoje anunciam com grande ênfase a criação de um Plano Nacional de Cinema, apresentado em Lisboa, na passada sexta-feira, e que vai arrancar numa primeira fase em 23 escolas de todo o país. A ideia é boa, mas já tinha sido concretizada há muitos anos atrás, na época em que o Eng. Roberto Carneiro foi Ministro da Educação e me havia confiado a direcção de um grupo de trabalho para a introdução do Cinema e do Audiovisual no Ensino. Estávamos em 1991, a concretização do projecto durou somente ano e meio, porque o ministro entretanto mudou e, com a chegada de Manuela Ferreira Leite a esse ministério, tudo se alterou, abortando por completo esta iniciativa.
Ora se esta nova acção não é inédita, deve pelo menos ser saudada, nesta “reposição” de 2012. Com algumas ressalvas: uma das condições que então coloquei ao Senhor Ministro Roberto Carneiro para aceitar presidir ao grupo de trabalho, foi que a iniciativa não se restringisse a algumas “escolas piloto”. Sou totalmente contra iniciativas elitistas, que não pretendem mais nada do que mostrar que em Portugal também existe o que na realidade não existe. 23 escolas em todo o país é simplesmente ridículo. É mandar areia para os olhos dos desprevenidos. Depois enviar uns quantos DVDs para estas escolas e esperar que professores e alunos estejam preparados para os aproveitar é algo que só muito remotamente funciona, e sempre na perspectiva de existir nessas escola uma alma caridosa que goste de cinema e saiba aproveitar a dádiva. No tempo de Roberto Caneiro, cada um dos 24 filmes postos à disposição em VHS (ainda não existiam DVDs) eram acompanhados por brochuras informativas, críticas, pedagógicas. Foram enviadas, anexadas aos VHS, para 500 escolas do País (as que estavam apetrechadas com material técnico e humano para poderem aproveitar o que lhes era oferecido), e lançadas acções de formação para professores, no Continente (em Tróia), na Madeira e nos Açores, como forma de os familiarizar com as ferramentas que eram postas ao seu dispor.
Tempos depois apresentei uma comunicação sobre esta iniciativa, durante os "Encontros de Cinema", na Sala de Estudos Cinematográficos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, texto incluído posteriormente no meu livro “Memória das Sombras”, que passo a transcrever. A iniciativa mereceu, igualmente, em 1996, uma chamada ao “Forum du Cinéma Européen”, durante as “Journées du Cinéma de l'Union Européene”, em Estrasburgo, onde expus o que então tinha sido feio em Portugal. Essa apresentação segue em anexo, transcrita do mesmo livro.

CINEMA E AUDIOVISUAL EM PORTUGAL: QUE FORMAÇÃO?

Quando se fala de Formação ao nível do Cinema e do Audiovisual, é importante distinguir duas vertentes e ambas absolutamente indispensáveis e urgentes: a mais óbvia é a que procura a Formação de quadros técnicos, que vão desde o realizador ou o argumentista até ao electricista ou ao director de fotografia, do produtor ou da anotadora até ao director de som ou ao montador. Mas existe um outro tipo de Formação, não tão evidente, mas igulamente imperiosa: a Formação do público em geral. Se do primeiro desses vectores de Formação parece não existirem dúvidas quanto à sua necessidade, já o mesmo se não dirá em relação ao segundo.
Não sei se será por se sentir efectivamente a necessidade de existir um Cinema Nacional e um Audiovisual Português, a verdade é que existem em Portugal uma Escola Superior de Cinema em Lisboa, um Curso Superior de Tecnologia da Comunicação Audiovisual, no Porto, e ainda, em várias cidades portuguesas, algumas Escolas Secundárias Especializadas de Ensino Artístico, consideradas técnico profissionais, como a António Arroio e a Soares dos Reis. Universidades e escolas privadas têm aparecido igualmente a oferecer Cursos nestas áreas, como os recém criados Cursos de Cinema em 16 e 35 mm, Televisão, Cinema de Animação e Criação e Produção de Publicidade, promovidos pela Universidade Moderna, ou os Cursos Profissionais da ETIC, entre outras... É evidente que, tanto para governantes, como para particulares, estes Cursos são não só úteis, como rentáveis, basta ver o montante das propinas exigidas. De outra maneira não se perceberia tamanho interesse na sua criação e proliferação. É evidente que é necessário abastecer o mercado dos quatro canais de televisão, das produtoras particulares, das empresas de publicidade, dos produtores de Cinema, dos departamentos de audiovisuais de escolas e municípios, de empresas em geral e do marketing político em particular. Mas será que o mercado comporta tamanha oferta? E será que essa oferta preenche os requisitos básicos mínimos exigíveis para um bom desempenho futuro? Muitas são as dúvidas que este surto de formação especializada nos coloca. Mas uma realidade ressalta: há efectivamente muita oferta nesta área específica.
Já o mesmo não se dirá da formação do cidadão em termos de fruidor do fenómeno Cinematográfico em particular, e Audiovisual em geral. Se hoje em dia é impensável não ensinar todo o cidadão português a ler e escrever, não para fazer de todos eles escritores da estirpe de Camilo, Eça, Vergílio Ferreira ou Agustina, mas apenas para lhes possibilitar o prazer futuro de usufruir da sua leitura, em relação ao Audiovisual quase nada se fez, e muito menos se faz.
Com esse sentido específico, e a nível do administração central, conheço apenas uma iniciativa, à qual estive ligado, no tempo do então Ministro da Educação, Eng. Roberto Carneiro, e do seu Secretário de Estado da Reforma Educativa, Dr. Pedro D'Orey da Cunha. Em princípios de 1991, iniciou-se uma acção tendente a implantar o ensino do Cinema e do Audiovisual a todos os níveis do ensino em Portugal. Não se pode dizer que antes desta iniciativa não tivessem existido já no nosso País vários esboços de sensibilização para o Cinema e o Audiovisual. A todos os níveis do ensino, desde o primeiro ciclo do Básico até ao Secundário, mesmo até nas Universidades, vários esforços se empreenderam, quase sempre movidos pela carolice de apaixonados professores cinéfilos que procuravam transmitir aos alunos o seu amor pela chamada "Sétima Arte". Mas a verdade é que a vontade política que desencadeasse um esforço central, sistemático, coerente e organizado para integrar o Cinema e o Audiovisual no plano curricular do ensino português nunca tinha sido observada com a mesma ambição.
Professores do Ensino Básico e do Secundário mostrando filmes "históricos" para melhor esclarecer aspectos da disciplina de História que leccionavam, são …às centenas os exemplos que o passado recente encerra. O mesmo se poderá dizer de professores de Português ou de Literatura Portuguesa que se serviam de adaptações cinematográficas de obras literárias para melhor sublinharem questões literárias ou até linguísticas. Muitas vezes fui convidado para acompanhar a "Manhã Submersa" por essas escolas do País,  algumas delas com a saudosa presença de Vergílio Ferreira a meu lado, para, cada um de per si, falarmos da experiência comum. E quantos professores de Música não se serviram de "Amadeus" para abordar o fenómeno da criação artística musical? E quantos professores não mostraram "A Floresta Esmeralda" para mobilizar os seus alunos para discussões sobre ecologia e defesa do ambiente?
Os exemplos podiam multiplicar-se, recolhidos desde as camadas mais jovens aos alunos universitários, desde os desenhos animados de Walt Disney, eleitos para justificar reflexões sobre certos temas inscritos nos contos de fadas, até obras de uma maior complexidade, apresentadas como testemunhos de uma determinada cultura nacional ou regional. Estariam estas iniciativas erradas? Muito pelo contrário. Um dos fascínios do Cinema é a multiplicidade de leituras que cada obra pode ter e o aproveitamento interdisciplinar de qualquer filme é não só legítimo como desejável, demonstrando que a Arte não existe isolada, mas indissociavelmente ligada a tudo. Mas, e o Cinema? Muito raros terão sido os professores que se preocuparam em mostrar filmes aos seus alunos com a única ambição de lhes falar de Cinema, da sua linguagem específica, da sua história, dos aspectos estéticos, éticos, sociológicos, económicos, industriais ou técnicos que o próprio Cinema (e o Audiovisual, por extensão) coloca.
E se falarmos do Cinema e do Audiovisual como meros auxiliares de ensino, sem se recorrer já a obras de ficção, mas sim ao documentário e à série educativa, então muito haveria a referir. Praticamente desde os anos 60 que esta prática se desenvolve entre nós com alguma sequência lógica, através de organismos estatais, como o IMAVE e o posterior ITE (Instituto de Tecnologia Educativa), a Direcção Geral de Educação de Adultos, a Tele-Escola e a subsequente EEBM (Estrutura do Ensino Básico Mediatizado), a Universidade Aberta, entre muitos outros. Ensinar Biologia ou Zoologia, História ou Literatura servindo-se de apoios audiovisuais não será ainda hoje uma prática corrente em todas as nossas escolas, mas é, mesmo assim, algo de absolutamente normal. No entanto, vários estudos que recorrem a elementos estatísticos, efectuados recentemente, nalgumas regiões portuguesas, nomeadamene como consequência de trabalhos de mestrado a que tive acesso, mostram que afinal são muito menos do que seria de supor as escolas e os professores que utilizaram sistematicamente o audiovisual no ensino. Mas, mesmo assim, essa prática existe e assume já uma certa importância, ainda que muito menor do que aquela que efectivamente  deveria pressupor.
Mas, e a formação destinada especificamente ao ensino do Cinema e do Audiovisual?
A primeira intenção desse esforço desenvolvido nos anos de Roberto Carneiro à frente do Ministério da Educação foi chamar a atenção para o Cinema e o Audiovisual, não como meios privilegiados para difundir conhecimentos, mas como meta de conhecimento a atingir. Ou seja: o Cinema e o Audiovisual não podem continuar a ser usados unicamente como meios transmissores de conhecimentos, mas têm de ser olhados como meios de expressão que necessitam de ser ensinados e aprendidos como se ensina e aprende a ler um romance, uma sinfonia ou um quadro. Há que sublinhar devidamente este aspecto que julgamos ser o elemento decisivamente novo nessa iniciativa que presentemente se encontra mais ou menos esquecida.
Numa época em que a informação é essencial ao conhecimento e em que este se assume como o cerne de toda a estrutura das sociedades modernas, numa época em que quase  toda a informação se transmite por meios audiovisuais, é absolutamente imprescindível incentivar o ensino do Audiovisual para se terem artistas e técnicos cada vez mais competentes, mas sobretudo para se poder ter "consumidores de imagens e de sons" cada vez mais atentos, mais críticos,  mais despertos para as informações que lhes chegam de todo o lado.
Em plena década de 90 parece-nos desnecessário enfatizar a importância crescente do Cinema e do Audiovisual nos mais variados domínios da vida moderna. A imagem impôs-se como meio de comunicação por excelência a todos os níveis do quotidiano e escusado será justificar com exemplos esta verificaçãoo que cada um pode retirar por si próprio, olhando à sua volta. Uma recente obra de Alvin Toffler, "Os Novos Poderes", apenas vem sistematizar o que já se suspeitava: o conhecimento é o novo poder que rege as sociedades, e o conhecimento adquire-se hoje em dia sobretudo através de meios audiovisuais. Numa sociedade assim organizada, com natural propensão para absolutizar esta tendência, é indispensável preparar os jovens, não para um futuro que se adivinha, mas para um presente que se consolida hora a hora.
Se, porém, a imagem impera no nosso quotidiano, a verdade é que muito poucos estarão aptos a absorvê-la em todos os seus significados. Tal como a palavra escrita, a imagem necessita de ser decifrada, descodificada, analisada, compreendida, para melhor se poder retirar dela toda a mensagem, para melhor usufruir o seu prazer, para melhor nos precavermos contra as suas ciladas. É urgente exercitar os jovens no seu manuseamento.  Nenhum outro local será, à partida, mais indicado do que a Escola.
Curiosamente, porém, quando se fala de ensino do Cinema e do Audiovisual, no que hoje em dia se pensa de imediato é no ensino tecnológico - colocar nas mãos dos jovens câmaras de video e partir com eles "à descoberta do mundo". Esta tendência é também ela preocupante. Por várias razões. A primeira das quais porque se deixa pressupor que a linguagem Audiovisual não tem segredos, que cada um é senhor de filmar e gravar imagens e sons a seu belo prazer, sem uma assimilação gradual que a aprendizagem e a exercitação da sensibilidade pressupõem. O resultado dessas experiências balbuciantes e desconexas, em lugar de entusiasmar os utentes, abrem-lhes as mais negras perspectivas, e não raro criam as mais traumáticas frustrações.
Pouco importa saber carregar nos botões da câmara se não se sabe orientar a objectiva. Pode ser particularmente contraproducente colocar câmaras de vídeo nas mãos de quem nada mais sabe do que captar imagens. Se a escrita literária pressupõe um tempo de aprendizagem e de experimentação ao nível do consumo da obra literária, é inconsciência manifesta ignorar-se toda a aprendizagem de uma linguagem, de uma história, de uma estética ligadas ao Cinema e ao Audiovisual.
A orientação a adoptar por quem de direito, neste caso pelo Ministério da Educação deveria, portanto, não descuidar a formação de técnicos e de artistas competentes e inspirados, mas estar atento sobretudo a uma sensibilização genérica para os valores veículados pelo Cinema e o Audiovisual, preparando o aluno para ser, primeiramente um bom espectador, exigente e crítico, e depois, se for caso disso, fornecer-lhe as possibilidades  para ele dar o salto qualitativo para a  área da criatividade.
Julgo neste caso ser interessante recordar o que se tentou realizar nessa época no ministério de Roberto Carneiro, quando este formou um grupo especialmente vocacionado para estudar e implementar o ensino do Cinema e do Audiovisual a todos os níveis do ensino português.
Tendo em conta a estrutura da Reforma Educativa, sobretudo no referente ao Ensino Artístico, e sabendo-se da impossibilidade de, de um momento para o outro, se implementar o estudo do Cinema e do Audiovisual a todos os níveis do ensino, elegeu-se uma fórmula julgada realista, progressiva e harmoniosa, que permitisse rentabilizar os recursos existentes por forma a, de ano para ano, se optimizar esta experiência. Assim, seleccionou-se como  área preferêncial imediata, beneficiada desde o primeiro ano (1991), os 2º e 3º ciclos do Ensino Básico. Nada se procurou fazer de forma desarticulada e irresponsável. Com o apoio da Direcção Geral do Ensino Básico e Secundário (DGEBS), do Gabinete de Educação Tecnológica, Artística e Profissional (GETAP), da Direcção Geral da Extensão Educativa, do Instituto de Inovação Educacional e da própria Secretaria de Estado da Reforma Educativa tentou primeiramente estabelecer-se um mapa de recursos das escolas portuguesas.
Enviou-se um inquérito a todas elas, procurando saber quais os estabelecimentos de ensino apetrechados com televisões e vídeos e que, além disso, possuíssem nos seus quadros professores interessados em dinamizar uma experiência como aquela de que se anunciavam os contornos. As respostas, trabalhadas estatisticamente, concluiram que, de um total de pouco mais de mil escolas, em Portugal Continental, Madeira e  Açores, cerca de quinhentas estavam aptas e interessadas em aderir ao projecto. Foi em função desse número que posteriormente se pensaram todas as acções subsequentes. Se nem toda a população estudantil estava abrangida, conseguira-se no entanto fugir à tentação de criar "escolas-pilotos" que permitem afirmar que certas reformas se instituiram no tecido educativo português, sem que todavia elas ultrapassem o âmbito de meia dúzia de eleitos bafejados pela sorte. Com a solução encontrada, estava em princípio assegurada a integral rentabilização dos meios utilizados e, simultaneamente, esconjurado o perigo de experiências laboratoriais mais ou menos inconsequentes.
 Por isso nos parece louvável que o primeiro esforço do Ministério da Educação se tenha orientado para os 2º e 3º ciclos do Ensino Básico, virando-se essencialmente para uma sensibilização, não elitista, mas verdadeiramente democrática, da quase totalidade dos jovens que frequentam aqueles níveis pedagógicos, e cujas idades vão dos 10 aos 14 ou 15 anos, período particularmente importante para a criação e uma boa receptividade para com um outro Audiovisual e um Cinema diferente daquele que acriticamente consomem no seu dia a dia, através das poucas salas de Cinema que restam no parque cinematográfico nacional, dos écrans da televisão, ou ainda, e sobretudo, da gravosa situação de aluguer de videocassetes com filmes pré-gravados numa rede de video-clubes que propõe, na sua generalidade, produtos da pior qualidade, de fácil apelo à violência e ao sexo, que negam qualquer esforço de inteligência e anulam a sensibilidade e os valores.
Através da edição em cassete vídeo de um conjunto representativo de filmes que ocupam um lugar de relevo na história da cinematografia mundial, filmes esses acompanhados de monografias especialmente concebidas por  críticos cinematográficos portugueses, pretendeu-se sobretudo criar o gosto pelo bom Cinema, introduzir noções de linguagem e de estética cinematográfica, abordar alguns aspectos da história do Cinema mundial e problematizar uma realidade complexa que era quase totalmente ignorada até então pelos poderes públicos.
Numa primeira fase, que se estendeu de Maio de 1991 até aos primeiros dias de 1992, dezoito títulos foram distribuídos pelas escolas, sendo talvez interessante enunciá-los e retirar algumas ilações da sua escolha (já que as razões da mesma nos parecem particularmente evidentes).
Foram eles:
1. A CANÇÃO DE LISBOA, de Cottinelli Telmo;
2. SERENATA A CHUVA, de Gene Kelly e  Stanley Donen;
3. ADEUS,RAPAZES, de Louis Malle;
4. A DESAPARECIDA, de John Ford;
5. 2001,UMA ODISSEIA NO ESPAÇO, de Stanley Kubrick;
6. PAMPLINAS MAQUINISTA,de Buster Keaton e Clyde Bruckman 
7. OS SAPATOS VERMELHOS, de Michael Powel e Emeric  Pressburger;
8. SUPER-HOMEM, O FILME, de Richard Donner;
9. A ESTRADA, de Frederico Fellini;
10.O BARÃO AVENTUREIRO, de Josef Von Baky;
11.A ROSA PURPURA DO CAIRO, de  Woody Allen;
12.DERSU UZALA, A ÁGUIA DA ESTEPE, de Akira  Kurosawa;
13.CLUBE DOS POETAS MORTOS, de Peter Weir;
14.DOIDO COM JUIZO, de Frank Capra;
15.ENCONTROS IMEDIATOS DO 3º GRAU (EDIÇÃO ESPECIAL), de Steven Spielberg;
16.JERRY 8 3/4, de Jerry Lewis;
17.CINEMA PARAISO, de Giuseppe   Tornatore;
18.ANIKI-BÓBÓ, de Manoel de Oliveira;
A estes títulos, mais seis se lhe acrescentaram, em fins de 1992, o que prolonga a lista até aos 24 filmes editados:
19.ESPERANÇA E GLÓRIA, de John Boorman;
20. HENRIQUE V, de Laurence Olivier;
21. O PAI TIRANO, de António Lopes Ribeiro;
22. O ÚLTIMO IMPERADOR, de Bernardo Bertolucci;
23. AGUIRRE,O AVENTUREIRO, de Werner Herzog;
24. CYRANO DE BERGERAC, de Jean-Paul  Rappeneau;
Facilmente se podem tirar algumas conclusões mais ou menos óbvias. Procurou-se documentar aspectos vários da história do Cinema, do mudo até à actualidade. Por décadas, foram editados:
Dos anos 20 - 1 filme
Dos anos 30 - 2 filmes
Dos anos 40 - 5 filmes
Dos anos 50 - 3 filmes         
Dos anos 60 - 2 filmes
Dos anos 70 - 4 filmes
Dos anos 80 - 6 filmes
Dos anos 90 - 1 filme
Também se pretendeu não privilegiar excessivamente qualquer Cinematografia, muito embora a americana se encontre necessariamente mais representada:
Alemanha/RFA - 2 filmes
EUA - 9 filmes
França - 2 filmes
Inglaterra - 4 filmes
Itália - 3 filmes
Portugal - 3 filmes
URSS/Japão - 1 filme
Por géneros, e numa classificação objectivamente redutora, foram editados:
Aventuras - 5 filmes
Comédias - 6 filmes
Dramas - 9 filmes
Ficção-científica - 2 filmes
Musicais - 2 filmes
Refira-se ainda que a escolha destes filmes teve em vista a sua qualidade e representatividade histórica e estética indiscutíveis, sendo obras exemplares no conjunto da filmografia de um autor, de um género, de um actor, de um técnico reputado ou de uma Cinematografia, mas também o facto de poderem ser facilmente assimilados pelos jovens a que primeiramente se dirigem, quer por alguns deles terem crianças como protagonistas (o que facilita as identificações), quer por serem obras acessíveis e sugestivas.
Recorde-se ainda que todos os títulos seleccionados estão classificados pela Direcção Geral dos Espectáculos ou para "maiores de 6 anos" ou para "maiores de 12 anos", de forma a os mesmo não poderem de maneira alguma molestar o equilíbrio dos alunos.
Como já salientámos anteriormente, a edição de cada filme (integrados numa colecção que tinha por designação genérica "Os Filmes na Escola") foi sempre acompanhada por uma brochura de 16 ou 24 páginas, impressa e ilustrada, escrita especialmente por um crítico cinematográfico português, convidado para o efeito (João Lopes, Jorge Leitão Ramos, Manuel Cintra Ferreira, Manuel S. Fonseca e Lauro António foram alguns dos autores representados). De uma forma que se queria clara e rigorosa, foram facultados elementos e informações sobre:
1. Ficha técnica e artística do filme.
2. Biofilmografia do realizador.
3. Notas julgadas úteis sobre actores e técnicos.
4. Resumo do argumento.
5. Análise crítica da obra.
6. Elementos que permitam integrar o filme no tempo e local que o originaram.
7. Pistas sobre um possível aproveitamento interdisciplinar.
8. Bibliografia sumária.
9. Videografia complementar.
10.Anexos vários (declarações de autores, citações de críticas, excertos de entrevistas, etc.).
Teria todo o interesse que estas obras pudessem ser vistas e comentadas em aulas plenamente integradas na actividade curricular dos alunos, mas inicialmente, e no que diz respeito aos 2º e 3 º ciclo do Ensino Básico, esta actividade circunscreveu-se, na sua maior parte, a acções extra curriculares, se bem que acompanhadas pelos professores. Clubes de Cinema e Clubes de Vídeo, orientados pelos alunos, com o apoio dos professores, proliferaram um pouco por todo o lado, com resultados desiguais certamente, mas invariavelmente positivos. Muitas escolas adquiriram outros títulos para complementar os editados pelo M.E. e vários Clubes de Cinema abriram as suas portas aos encarregados de educação, mesmo nalguns casos à população "civil" que quisesse comparecer às suas sessões, o que estreitou os laços de convívio entre a Escola e o meio social envolvente.
Como actividade curricular regular, as sessões deveriam ter a duração de duas horas ou duas horas e meia, para poderem compreender a exibição integral do filme, seu comentário e debate posterior, sensibilizando-se os alunos para os valores do Cinema, ainda que, nestas idades, sem uma excessiva preocupação sistemática. Não se deve sobretudo transformar uma actividade lúdica num novo pesadelo curricular. Ver Cinema deve entender-se como o prazer de desfrutar uma obra de arte ou um entretenimento de fundo cultural, nunca como uma nova fonte de preocupações escolares. Podem e devem mostrar-se os clássicos como algo que diverte, que ensina, que ajuda a compreender certos problemas do dia a dia, que reflete aspectos marcantes de determinada época e que nos ajuda a distinguir e valorizar o Belo e o Bem, não como normas fixas e imutáveis, mas como ideais a atingir, que os artistas (neste caso realizadores, argumentistas, actores, técnicos...) sempre perseguem. É evidente que o facto destes filmes deverem ser apresentados como obras que valem por si só, que devem ser apreciadas e estudadas por si mesmas, não quer dizer que não possam ser aproveitadas por professores de outras  áreas curriculares, numa saudável convergência interdisciplinar. Um filme é, primeirmente, uma obra de arte e um espectáculo, mas pode ser uma excepcional fonte de conhecimentos sobre vários temas e também uma base possível para despoletar um frutuoso debate sobre uma imensidão de assuntos. Pegue-se num exemplo: O Pai Tirano dará preciosos elementos sobre a cidade de Lisboa na década de 40, o Chiado já desaparecido, a arquitectura, os usos e costumes, os meios de comunicação, a linguagem, os espectáculos de teatro amador, a querela Teatro versus Cinematógrafo, o tipo de humor, a influência dos actores de "revista" na Comédia Cinematográfica portuguesa...
Estas actividades curriculares ou extra curriculares deverão ser, sempre que possível, complementarizadas pelos alunos, com deslocações a salas de Cinema, devidamente acompanhados pelos professores. Em muitas cidades de Portugal existem salas de Cinema dependentes dos  Municípios. É possível estabelecer protocolos entre as Câmaras e as Escolas, de forma a viabilizar estas sessões que podem estender-se até visitas guiadas às cabines de projecção, antes ou depois do filme ser exibido, e até durante a sua projecção. Em Lisboa, seria interessante organizarem-se igualmente visitas guiadas à  Cinemateca Portuguesa, aos estúdios da Tóbis e da Lisboa Filmes, aos Estúdios da RTP-1 e 2, da SIC e da TVI, a cenários de filmagens, etc. Por experiência própria podemos adiantar alguns excelentes resultados conseguidos com a colaboração de Escolas, Municípios e Festivais de Cinema (Festival  Cinema de Portalegre, FestiViana - Festival Internacional de Cinema de Viana do Castelo, "A Festa do Cinema", no Teatro de São Luiz, "Os Filmes do Padrão", no Padrão dos Descobrimentos, as duas últimas realizadas com o apoio do Pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa).
O Cinema deve ser visto em salas de Cinema e a visão de um filme em vídeo deve ser entendida como um simples sucedâneo que não se substitui ao próprio Cinema. Mas, quando se não podem ver Picasso's, Miguel Angelo's ou Da Vinci's ao natural, as reproduções dessas obras podem abrir o apetite para se ir mais longe. Foi com essa intenção que se estruturou este plano de sensibilização para o Cinema e o Audiovisual, jogando com as armas que nos são colocadas nas mãos. Porque o vídeo, por muitas desvantagens que apresente, também oferece algumas vantagens que, em termos de ensino, se não devem negligenciar. A facilidade de manuseamento, a possibilidade de rever certas sequências, os condicionalismos económicos e tecnológicos do filme (cópias em película, mesmo em 16 milímetros, são muitíssimo mais caras que uma cassete,e ter um projector de Cinema não é a mesma coisa que ter um gravador de video...), tudo isso são aspectos que tornam o vídeo particularmente acessível e funcional em termos de escola, sobretudo num País de reduzidos recursos económicos como é o nosso.
Outro problema que se colocou neste período de arranque foi o da falta de professores qualificados para iniciarem esta sensibilização ao Cinema e ao Audiovisual. Não quer dizer que, integrados no ensino, não se encontrem muitos apaixonados da sétima arte e técnicos abalizados do audiviosual. Mas eles encontram-se no ensino por outras razões                                                e são poucos comparados com as necessidades. Era por isso urgente estabelecer um plano de formação de professores a vários níveis. A médio e longo alcance é absolutamente necessário formar professores dentro da especialidade. A curto prazo era imprescindível encontrar professores previamente motivados para esta acção. Para isso se realizaram três acções de formação, entre Maio de 1991 e Janeiro de 1992, em Troia (para professores de Portugal continental), no Funchal (para os da Madeira) e em Ponta Delgada (para os dos Açores). Estas acções foram obviamente breves e pouco aprofundadas, funcionando sobretudo como plataforma organizativa, planeamento de esquemas conjuntos, por forma a definir um espírito comum para todo o espaço pedagógico nacional, fazendo apelo às contribuições individuais de cada professor, com a sua  experiência própria.
Entre os docentes que se ofereceram voluntariamente para desempenhar estas novas funções e outros, indicados para o efeito pelos conselhos directivos das escolas, reuniram-se cerca de 550 elementos, vindos das áreas mais díspares (as estatísticas dizem que Educação Visual, História, Filosofia, Letras, mas também Trabalhos Manuais, Matemática ou Ciências foram as áreas que forneceram mais voluntários), tendo em comum o interesse pelo Cinema e o Audiovisual (uns mais ligados ao Cinema, outros ao Vídeo, os primeiros mais "humanistas" e "estéticos", os segundos mais "técnicos" e "práticos").
Nessas acções foram explicadas as intenções gerais, facultados elementos bibliográficos, selecções de textos essenciais, dando-se pistas para futuros aprofundamentos pessoais e personalizados das matérias. Foram também analisadas, em grupos mais ou menos restritos, as primeiras seis cassetes editadas com filmes, mostrando-se diferentes formas de aproveitamento das fichas publicadas, confrontando-se situações e experiências diversas e daí se retirando ensinamentos para o posterior desempenho das funções de um dinamizador Cinematográfico.
Mas era necessário ser muito mais ambicioso e organizar verdadeiros cursos de formação para pequenos grupos de professores, reunidos por zonas (Norte, Centro, Sul, Madeira, Açores, ou mesmo regiões mais circunscritas, reduzidas a distritos ou concelhos, o que permitiria um melhor aproveitamento), e usufruindo de possibilidades compatíveis com a carga horária e os conhecimentos curriculares indispensáveis à sua missão. Isso mesmo se tentou por essa altura, com a criação de cursos de formação de professores para estas áreas, integrados no Projecto Foco, cursos que forneciam aos docentes conhecimentos históricos, estéticos, técnicos e artísticos sobre o Cinema e o Audiovisual suficientes para o cabal desempenho da sua actividade.
Mas, se estes cursos de formação podiam permitir, de certa forma, reciclar alguns dos professores actuais e colocá-los com possibilidades de actuarem com alguma eficácia, não resolveriam o problema de base que permanecia inalterável. São necessários professores devidamente apetrechados e isso só se consegue através da Universidade. Tanto mais que há outras carências para os demais níveis do ensino, como o Secundário, o Técnico-profissional, o Profissional, o Universitário.
Para isso seria indispensável a criação de cadeiras de História, Estética e Sociologia do Cinema e do Audiovisual nas Universidades portuguesas. Cremos que as Faculdades de Letras e de Belas Artes serão as mais indicadas para comportarem estas cadeiras. Das Faculdades de Letras sai o maior contigente que abastece a docência nacional; nas Escolas Superiores de Belas Artes encontram-se as maiores afinidades. Todos os professores que saíssem dessas Faculdades, desde que tivessem frequentado as cadeiras (de opção?) ligadas ao Cinema e ao Audiovisual poderiam leccionar estas matérias, conjuntamente ou não, com as do seu curso. 
Quer isto dizer que um professor de História ou de Educação Visual, para além de leccionar História e Educação Visual poderia ainda ministrar Cinema e Audiovisual, desde que tivesse frequentado com sucesso na Universidade as cadeiras correspondentes. Para lá destes professores saídos das Universidades e que dariam indiscriminadamente as disciplinas teóricas do secundário, do técnico profissional e do profissional, seria necessário cativar técnicos de reconhecida competência, e se possível com formação universitária, para leccionarem disciplinas de prioritária inspiração tecnológica. Uma das naturais fontes de recrutamento seriam os alunos formados pela Escola Superior de Cinema ou do Curso de Tecnologia da Comunicação Audio Visual do Porto, mas infelizmente estes nem sequer se podem candidatar à carreira de professores!...
E chegamos, assim, ao cume da pirâmide, ao ensino universitário. Para aí leccionarem, numa primeira fase, dar-se-ia prioridade à contratação de ensaístas e críticos, realizadores e técnicos de Cinema, com cursos universitários, o que, de alguma forma, conciliaria a bagagem técnico- artística com os rudimentos pedagógicos requeridos. Seriam escolhidas personalidades com obra de reconhecido valor artístico para garantirem credibilidade às cadeiras. De entre os melhores alunos, seriam posteriormente seleccionados assistentes e professores, estabelecendo-se deste modo uma cadeia que asseguraria o normal funcionamento de todos os níveis do ensino do Cinema e do Audiovisual em Portugal.         
Outra das tarefas empreendidas pelo Grupo Trabalho de Cinema e Audiovisual nomeado pelo M.E. foi a elaboração de legislação especial, tendente a integrar oficialmente no ensino uma formação técnico-artística na área do Cinema e do Audiovisual. Ou seja: criar os mecanismos legais que permitissem fazer funcionar muito do que para trás ficou enunciado. Desta maneira, os professores que outrora, por custos e risco próprios, exercitavam os seus alunos em matérias deste tipo, tidas por vezes por heréticas, contariam desde já com o beneplácito da legislação a defendê-los dessa acusação de heresia, que não raro os perseguia. O Cinema e o Audiovisual, logo que promulgada a legislação necessária, deixam de ser aqueles instrumentos diabólicos que desviavam os alunos do regular aproveitamento escolar, para fazerem parte integrante de um todo curricular onde ocupam um lugar por direito próprio conquistado
Nessa legislação, para lá do ensino básico, cuja estrutura aqui se esboçava, contemplam-se ainda o ensino secundário e o universitário. No secundário preparam-se os alunos (com idades que   vão dos 15 aos 17 anos, correspontes aos 10º, 11º e 12º anos) para entrarem nas universidades ou administram-se conhecimentos que lhes permitam o ingresso na vida activa. Ramificam-se assim as matérias curriculares, consoante a via escolhida pelo aluno. Se este opta pela Universidade, terá à sua disposição uma cadeira anual de opção que iria sistematizar os conhecimentos adquiridos até aí, abrindo-lhe novas perspectivas que lhe permitirão um  interesse renovado pelo Cinema e o Audiovisual, agora segundo critérios mais rigorosos.
O aluno já tomou contacto com muitos clássicos da história do Cinema, que foi vendo e discutindo, cada um de per si, ao longo dos dois ciclos finais do básico. Está, portanto, na altura ideal para integrar esses conhecimentos numa planificada Iniciação à Linguagem do Cinema e do Audiovisual, numa História do Cinema Mundial e do Cinema Português ou numa Evolução Estética e Sociológica do Cinema  e do Audiovisual.
Interessante seria, assim, no 10º ano, existir uma disciplina de Iniciação à Linguagem do Cinema e do Audiovisual, no 11º, uma História do Cinema Mundial e do Cinema Português, e, no 12º, uma Evolução Estética e Sociológica do Cinema e do Audiovisual, acompanhada já de alguns pequenos exercícios de prática Audiovisual. Cada aula semanal teria de ter, no máximo, 3 horas de duração, para  permitir ver e discutir filmes, programas de televisão, vídeos, etc. No ensino oficial, e no ensino privado, correspondendo ao secundário, existem duas opções para uma carreira virada para um ingresso rápido na vida activa, as escolas técnico-profissionais e as escolas profissionais. É  um ensino que procura conciliar o curriculum tradicional (a chamada "Formação geral", com disciplinas de Português, Introdução à Filosofia, Línguas Estrangeiras, etc.) com uma forte componente técnica, garantida por várias disciplinas da área profissional escolhida (de "Formação específica" e de "Formação técnica", respectivamente), e que, em termos de grau académico, equivale ao nível 3 na Europa comunitária.
A Reforma do Ensino Artístico, no que diz respeito ao Cinema e ao Audiovisual, estava apenas a começar no nosso País, dado que muito pouco se tinha feito até agora. Mas tudo pareceu emperrar daí para cá. Estamos por isso muito atrasados, se compararmos com outros países da Europa e da América, mas o facto tem também as suas vantagens: o pouco que há feito deixa o terreno quase virgem para os esforços que há que promover e acelerar. Saiba-se aproveitar o tempo perdido, para, sobre ele, se ganhar o futuro.
"Encontros de Cinema", Sala de Estudos Cinematográficos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 26 de Outubro de 1996
 
CINEMA  E AUDIOVISUAL NA EUROPA: 
QUE FORMAÇÃO?

Minhas Senhoras e meus Senhores,
Antes de mais, o agradecimento à organização deste Forum du Cinéma Européen, particularmente à direcção destas Journées du Cinéma de l'Union Européene, por me convidar a estar aqui, apresentando uma comunicação integrada no atelier que aborda as questões da Formação.
Uma comunicação que deliberadamente foge um pouco a alguns dos temas propostos, e talvez até caminhe no sentido contrário a algumas teorias dominantes, ao tentar acentuar uma componente por vezes algo esquecida, mas que julgo estar na base de todas as demais questões que irão aqui ser debatidas, desde a formação efectiva dos profissionais até aos problemas da produção e da distribuição, desde a fidelização de um público europeu para o Cinema dos seus países até à valorização do potencial criativo destas cinematografias.
Sem uma formação de base, a ministrar desde logo na escola, creio ser impossível alterar a actual situação que acentua um evidente divórcio das grandes massas populares do Cinema Europeu, e coloca o público de quase todo o mundo na dependência de narrativas e códigos de escrita de inspiração norte americana. Convém frisar que nada tenho contra o cinema norte-americano, que aprendi a amar desde muito novo, mas devo dizer também que tenho tudo a favor de modos diversos de imaginar e pensar o Cinema.
Quando se fala de formação ao nível do Cinema e do Audiovisual, é importante distinguir duas vertentes, ambas absolutamente indispensáveis e urgentes de cumprir: a mais óbvia é a que procura a Formação de quadros técnicos, que vão desde o realizador ao argumentista, do electricista ao director de fotografia, do produtor à anotadora, do director de som ao montador, obviamente todos eles com necessidades e níveis curriculares diferenciados. É sabido que o Cinema e o Audiovisual continuam a enfeitiçar a imaginação dos jovens de todas as latitudes, e que são aos milhares os candidatos que anualmente concorrem a vagas nas mais diversas escolas, institutos e universidades que abrem as portas de variados cursos onde a linguagem específica da imagem e do som coexistem.
Longe estão os tempos em que o "Cinematógrafo" era olhado com desprezo pela "inteligência", que nele via apenas um divertimento de feira. Mas, por muito modificados que os tempos estejam, a verdade é que continua a haver por essa Europa fora países onde o Cinema só consegue entrar no campus universitário envolto nas roupagens aparentemente mais credíveis de cursos denominados de comunicação social, de belas artes, de artes visuais, mesmo de psicologia e áreas afins ou ainda sob outras designações que comportam indesculpáveis alibis culturais. Não são muitos os países que abertamente ofereçam cursos de Cinema e Audiovisual, e ainda mais raros os que os dotem de licenciaturas condignas, quer no campo da criatividade pura, quer no da exegése crítica. O cinema é oriundo de uma cultura popular e por isso mesmo menorizado. O nível de bacharelato parece ser o que melhor corporiza ainda essa menoridade de tratamento que se sente um pouco por quase todo o lado. E, no entanto, hoje em dia, a comunicação Audiovisual é indiscutivelmente aquela que maior impacto provoca nos media, e a que curiosamente mais procurada é por políticos de todos os quadrantes que cedo se aperceberam das suas virtualidades e também dos seus limites e permissividade, por vezes explorados despudoramente.
À medida que a tecnologia se torna mais complexa, que o Cinema se cruza com o multimedia, que a ficção envereda pelos terrenos da realidade virtual, pela utilização do computador e da imagem digitalizada, à medida que o hipermedia se implanta e conquista espaço vital, o Cinema, e todo o Audiovisual por extensão, requer uma maior especilização, com ramificações de saber que tendem a uma exagerada compartimentação.
Assistimos assim a um processo com duas componentes quase antagónicas: por um lado, o Cinema profissional tende a uma especialização disforme: muitos técnicos, recolhidos nos seus laboratórios de pesquisa, criam sequências virtuais que se irão encaixar em obras de que por vezes desconhecem todo o enquadramento. Por outro lado, o vídeo amador, o home vídeo, tende a uma cada vez maior facilidade de manuseamento que leva o cidadão comum a pensar que nada mais precisa de saber do que carregar no botão que qualquer empregado de uma loja de electrodomésticos de um qualquer centro comercial lhe ensina a manejar com destreza.
Em ambos os casos, os imperativos da indústria predominam: ou impondo obras onde a sobrecarga de efeitos especiais tende a abafar o sopro de humanidade dos seus protagonistas, procurando assim rentabilizar super produtos sem alma, mas envoltos nos cada vez mais surpreendentes e espectaculares efeitos de laboratório; ou criando uma falsa imagem de democratização na utilização do Audiovisual, através do home video, para promover vendas igualmente espectaculares de câmaras de vídeo e  apetrechos afins.
Na nossa sociedade, as imagens bem pode dizer-se que circulam à velocidade da luz, criando no espírito do candidato a profissional a vertigem da grande especialização tecnológica, e no cidadão comum a voragem do registo muitas vezes acrítico e insensível.

Este estado de espírito justifica dedicar uma atenção muito especial a um outro tipo de formação, não tão evidente como a do profissional, mas igualmente imperiosa: a formação do público em geral. Se da formação dos profissionais não parecem restar dúvidas quanto à sua necessidade, já o mesmo se não dirá em relação à formação do cidadão comum, aquele que mais não pretende ou procura senão ser um fruidor atento e apaixonado de uma forma de arte que tem a sua linguagem específica, os seus códigos, os seus insuspeitados perigos. Assiste-se, na Europa e no mundo, a um debate angustiado sobre o futuro da televisão, sobretudo sobre os excessos que a privatização de canais acarretou, sobre o recrudescimento da violência quotidiana, de que ela poderá ser uma das causas, sobre a exploração imoral do espectador, simultaneamente emissor e receptor de dramas e de farsas que em seu redor se constroem, em nome de uma qualquer interactividade por vezes despudorada. Mas quase nada se faz para desenvolver no espectador anónimo, longe da qualquer paternalismo moralista ou estético, a capacidade crítica, a sensibilidade, o gosto pela tolerância por narrativas diversas, por culturas variadas, por diferenciações individuais ou colectivas.
É altura dos governos dos países europeus, dos seus ministérios da cultura e da educação se debruçarem efectivamente sobre este dado preocupante, e descobrirem de uma vez por todas que, ao lado, por exemplo, do ensino da língua e da literatura nacionais, ao lado do ensino da música e das artes plásticas, é necessário ensinar e apreender a ver e a amar o Cinema e o Audiovisual. Não através de escolas piloto ou de experiências laboratoriais, mas de uma forma efectivamente democrática, incluindo o ensino do Cinema e do Audiovisual no curriculum das escolas básicas e secundárias. Não falamos da universidade, onde essa atenção já existe, mas de etapas anteriores da educação, de jovens com idades compreendidas entre os 9,10 anos e os 16, 17 anos. É neste período da adolescência e juventude que a formação artística é mais necessária, pois é nesta época que se forma ou deforma a sensibilidade, que se criam ou destroem apetências, que se definem as grandes opções.
Não será criando leis repressivas, roçando a censura, que se educa uma geração. É educando-a desde a base, permitindo-lhe a opção por diferentes tipos de Cinema, despertando-a para a evolução histórica e estética do Cinema, mostrando-lhe os grandes clássicos, fomentando o gosto pela crítica e o debate franco, desenvolvendo sensibilidades adormecidas, descobrindo vocações, que o Cinema e Audiovisual poderão conquistar novos públicos e sobretudo públicos novos, isentos de vícios e deturpações.
As maravilhas das novas tecnologias só não serão monstros insensíveis se se souberem submeter à fragilidade do rosto humano. Numa época em que a informação é essencial ao conhecimento e em que este se assume como o cerne de toda a estrutura das sociedades modernas, numa época em que quase  toda a informação se transmite por meios audiovisuais, é absolutamente imprescindível incentivar o ensino do Cinema e do Audiovisual para se terem artistas e técnicos cada vez mais competentes e solidários, mas também para se poder ter "consumidores de imagens e de sons" cada vez mais atentos, mais críticos, mais despertos para as informações que lhes chegam de todo o lado.
Em plena década de 90 parece-nos desnecessário enfatizar a importância crescente do Cinema e do Audiovisual nos mais variados domínios da vida moderna. A imagem impôs-se como meio de comunicação por excelência a todos os níveis do quotidiano e escusado será justificar com exemplos esta verificação, que cada um pode retirar por si próprio, olhando à sua volta. Alvin Toffler, por exemplo, apenas vem sistematizar o que já se suspeitava: o conhecimento é o novo poder que rege as sociedades, e o conhecimento adquire-se hoje em dia sobretudo através de meios audiovisuais. Numa sociedade assim organizada, com natural propensão para absolutizar esta tendência, é indispensável preparar os jovens, não para um futuro que se adivinha, mas para um presente que se consolida hora a hora.
Se, porém, a imagem impera no nosso quotidiano, a verdade é que muito poucos estarão aptos a absorvê-la em todos os seus significados. Tal como a palavra escrita, a imagem necessita de ser decifrada, descodificada, analisada, compreendida, para melhor se poder retirar dela toda a mensagem, para melhor usufruir o seu prazer, para melhor nos precavermos contra as suas ciladas. É urgente exercitar os jovens no seu manuseamento.  Nenhum outro local será, à partida, mais indicado do que a Escola.
Curiosamente, porém, quando se fala de ensino do Cinema e do Audiovisual, mesmo no que diz respeito aos ensinos básicos e secundário, no que hoje em dia se pensa de imediato é no ensino tecnológico - colocar nas mãos dos jovens câmaras de video e partir com eles "à descoberta do mundo". Esta tendência é também ela preocupante. Por várias razões. A primeira das quais porque se deixa pressupor que a linguagem Audiovisual não tem segredos, que cada um é senhor de filmar e gravar imagens e sons a seu belo prazer, sem uma assimilação gradual que a aprendizagem e a exercitação da sensibilidade pressupõem. O resultado dessas experiências balbuciantes e desconexas é que, em lugar de entusiasmar os utentes, abrem-lhes as mais negras perspectivas, e não raro criam as mais traumáticas frustrações.
Pouco importa saber carregar nos botões da câmara se não se sabe orientar a objectiva, enquadrar a imagem, tirar o melhor partido da luz e das sombras, saber no fundo que nada acontece por acaso, ainda que a intuição seja um valor a não menosprezar. Mas mesmo a intuição se prepara. Pode ser particularmente contraproducente colocar câmaras de vídeo nas mãos de quem nada mais sabe do que captar imagens. Se a escrita literária pressupõe um tempo de aprendizagem e de experimentação ao nível do consumo da obra literária, é inconsciência manifesta ignorar-se toda a aprendizagem de uma linguagem, de uma história, de uma estética ligadas ao Cinema e ao Audiovisual.
A orientação a adoptar por quem de direito, neste caso pelo Ministérios da Educação e da Cultura, deveria, portanto, não descuidar a formação de técnicos e de artistas competentes e inspirados, mas estar atento sobretudo a uma sensibilização genérica para os valores veículados pelo Cinema e o Audiovisual, preparando o aluno e o jovem para ser, primeiramente um bom espectador, sensível, exigente e crítico, e depois, se for caso disso, fornecer-lhe as possibilidades  para ele dar o salto qualitativo para a  área da criatividade.
É evidente que são multiplas as dificuldades, a começar pela escassa percentagem de professores que neste momento existem, habilitados para ensinarem esta nova disciplina. Mas se as dificuldades são muitas, imensas são as potêncialidades do nosso tempo e das novas tecnologias. Investir na formação de professores para o ensino básico e secundário é indispensável e, neste aspecto, a Comunidade Europeia bem poderia organizar um programa comum, que partindo de um corpo central não deixasse de ter em conta as especificidades de cada País e de cada Cultura, para o implementar a nível Europeu. A utilização da Internet e das "estradas da informação" poderia ser uma forma de rentabilizar experiências e custos comuns.
Só existirá um Cinema Europeu, ou melhor dizendo só existirão Cinematografias Europeias, livres e diferentes, criando um público que as exija. Só se combate a pornografia dos reality shows, dos talk shows de corações solitários, dos concursos onde se vende a privacidade de cada um a troco de uma mão cheia de ecus, se existir um público crítico e exigente. Só haverá mais e melhores criativos, no campo do Cinema e do Audiovisual, se eles sentirem frente aos grandes e pequenos écrans da sua arte uma massa de espectadores firmemente disposta a exigir o exercício da inteligência.
Estrasburgo, Forum Europeu de Cinema, 15 de Novembro de 1996