segunda-feira, janeiro 14, 2013

VENCEDORES DOS GLOBOS DE OURO 2013


GLOBOS DE OURO – 2013

Acabaram de ser atribuídos os Globos de Ouro 2013, para cinema e televisão. Aqui fica a lista de nomeados e vencedores (estes a vermelho).  

CINEMA  

Best Motion Picture - Drama
 "Argo"
 "Django Unchained"
 "Life of Pi"
 "Lincoln"
 "Zero Dark Thirty"

Best Motion Picture - Comedy Or Musical
 "The Best Exotic Marigold Hotel"
 "Les Miserables"
 "Moonrise Kingdom"
 "Salmon Fishing in the Yemen"
 "Silver Linings Playbook"

Best Performance by an Actress in a Motion Picture - Drama
 Jessica Chastain - "Zero Dark Thirty"
 Marion Cotillard - "Rust and Bone"
 Helen Mirren - "Hitchcock"
 Naomi Watts - "The Impossible"
 Rachel Weisz - "The Deep Blue Sea"

Best Performance by an Actor in a Motion Picture - Drama
 Daniel Day-Lewis - "Lincoln"
 Richard Gere - "Arbitrage"
 John Hawkes - "The Sessions"
 Joaquin Phoenix - "The Master"
 Denzel Washington - "Flight"

Best Performance by an Actress in a Motion Picture - Comedy Or Musical
 Emily Blunt - "Salmon Fishing in the Yemen"
 Judi Dench - "The Best Exotic Marigold Hotel"
 Jennifer Lawrence - "Silver Linings Playbook"
 Maggie Smith - "Quartet"
 Meryl Streep - "Hope Springs"

Best Performance by an Actor in a Motion Picture - Comedy Or Musical
 Jack Black - "Bernie"
 Bradley Cooper - "Silver Linings Playbook"
 Hugh Jackman - "Les Miserables"
 Bill Murray - "Hyde Park on Hudson"
 Ewan McGregor - "Salmon Fishing in the Yemen"  

Best Performance by an Actress In A Supporting Role in a Motion Picture
 Amy Adams - "The Master"
 Sally Field - "Lincoln"
 Anne Hathaway - "Les Miserables"
 Helen Hunt - "The Sessions"
 Nicole Kidman - "The Paperboy"  

Best Performance by an Actor In A Supporting Role in a Motion Picture
 Alan Arkin - "Argo"
 Leonardo DiCaprio - "Django Unchained"
 Philip Seymour Hoffman - "The Master"
 Tommy Lee Jones - "Lincoln"
 Christoph Waltz - "Django Unchained"  

Best Director - Motion Picture
 Ben Affleck - "Argo"
 Kathryn Bigelow - "Zero Dark Thirty"
 Ang Lee - "Life of Pi"
 Steven Spielberg - "Lincoln"
 Quentin Tarantino - "Django Unchained"  

Best Screenplay - Motion Picture
 "Zero Dark Thirty" - Mark Boal
 "Lincoln" - Tony Kushner
 "Silver Linings Playbook" - David O. Russell
 "Django Unchained" - Quentin Tarantino
 "Argo" - Chris Terrio  

Best Original Score - Motion Picture
 "Life of Pi" - Mychael Danna
 "Argo" - Alexandre Desplat
 "Anna Karenina" - Dario Marianelli
 "Cloud Atlas" - Tom Tykwer, Johnny Klimek and Reinhold Heil
 "Lincoln" - John Williams  

Best Original Song - Motion Picture
 Monty Powell, Keith Urban - "For You" - from "Act of Valor"
 Jon Bon Jovi - "Not Running Anymore" from "Stand Up Guys"
 Taylor Swift, John Paul White, Joy Williams and T Bone Burnett - "Safe & Sound" from "The Hunger Games"
 Adele, Paul Epworth - "Skyfall" from "Skyfall"
 Alain Boubil, Claude-Michel Schonberg - "Suddenly" from "Les Miserables"  

Best Animated Feature Film
 "Brave"
 "Frankenweenie"
 "Hotel Transylvania"
 "Rise of the Guardians"
 "Wreck-It Ralph" 

Best Foreign Language Film
 "Amour" (Austria)
 "A Royal Affair" (Denmark)
 "The Intouchables" (France)
 "Kon-Tiki (Norway / UK / Denmark)
 "Rust and Bone" (France)  

TELEVISÃO

Best Television Series - Drama
 "Boardwalk Empire" ''Breaking Bad"
 ''Downton Abbey"
 ''Homeland"
 "The Newsroom" 

Best Television Series - Comedy Or Musical
 "The Big Bang Theory"
 ''Episodes"
 ''Girls"
 ''Modern Family"
 "Smash"  

Best Performance by an Actress In A Television Series - Drama
 Connie Britton - "Nashville"
 Glenn Close - "Damages"
 Claire Danes - "Homeland"
 Michelle Dockery - "Downton Abbey"
 Julianna Margulies - The Good Wife"  

Best Performance by an Actor In A Television Series - Drama
 Steve Buscemi - "Boardwalk Empire"
 Bryan Cranston - "Breaking Bad"
 Jeff Daniels - "The Newsroom"
 Jon Hamm - "Mad Men"
 Damian Lewis - "Homeland"  

Best Performance by an Actress in a Television Series - Musical or Comedy
 Zooey Deschanel - "New Girl"
 Julia Louis-Dreyfus - "Veep"
 Lena Dunham - "Girls"
 Tina Fey - "30 Rock"
 Amy Poehler - "Parks and Recreation"  

Best Performance by an Actor in a Television Series - Musical or Comedy
 Alec Baldwin - "30 Rock"
 Don Cheadle - "House of Lies"
 Louis C.K. - "Louie"
 Matt LeBlanc - "Episodes"
 Jim Parsons - "The Big Bang Theory"  

Best Mini-Series Or Motion Picture Made for Television
 "Game Change" 
 "The Girl"
 "Hatfields & McCoys"
 "The Hour"
 "Political Animals"  

Best Performance by an Actress in a Mini-Series or Motion Picture Made for Television
 Nicole Kidman - "Hemingway & Gellhorn"
 Jessica Lange - "American Horror Story: Asylum"
 Sienna Miller - "The Girl"
 Julianne Moore - "Game Change”
 Sigourney Weaver - "Political Animals" 

Best Performance by an Actor in a Mini-Series or Motion Picture Made for Television
 Kevin Costner - "Hatfields & McCoys"
 Benedict Cumberbatch - "Sherlock (Masterpiece)"
 Woody Harrelson - "Game Change"
 Toby Jones - "The Girl"
 Clive Owen - "Hemingway & Gellhorn" 

Best Performance by an Actress in a Supporting Role in a Series, Mini-Series or Motion Picture Made for Television
 Hayden Panettiere - "Nashville"
 Archie Panjabi - "The Good Wife"
 Sarah Paulson - "Game Change"
 Maggie Smith - "Downton Abbey" (season 2)
 Sofia Vergara - "Modern Family"

Best Performance by an Actor in a Supporting Role in a Series, Mini-Series or Motion Picture Made for Television
 Max Greenfield - "New Girl"
 Ed Harris - "Game Change"
 Danny Huston - "Magic City"
 Mandy Patinkin - "Homeland"
 Eric Stonestreet - "Modern Family"

CINEMA: ARGO


ARGO

“Argo” é um filme curioso sob diversos pontos de vista. Primeiro, confirma o talento e o acerto de Ben Affleck, que já conhecíamos como bom actor, mas que se revela igualmente um cineasta de apreciáveis recursos e um homem preocupado com o seu tempo. A sua carreira como realizador começou com uma curta-metragem, em 1993, “I Killed My Lesbian Wife, Hung Her On A Meat Hook, And Now I Have A Three-Picture Deal At Disney”, passando depois por duas longas, “Vista Pela Última Vez...” (2007) e “A Cidade” (2010), antes de chegar a “Argo”, que o catapultou para a esfera das nomeações aos Oscars e aos prémios mais importantes da indústria norte-americana. Para já, foi considerado o melhor filme do ano e o melhor realizador para associações de críticos tão prestigiadas como as de Nova Iorque e San Diego e encontra-se nomeado para sete Oscars e muitas outras atribuições mais ou menos idênticas.
Depois, “Argo” é um filme de difícil concepção, pelo emaranhado de estilos em que se enreda deliberadamente e donde sai com um estilo próprio. Na verdade, há em “Argo” um pouco de filme de espionagem, estilo “Os Três Dias do Condor”, um pouco de comédia satírica sobre o mundo do cinema e Hollywood, na linha de um “SOB”, um pouco de thriller político, tal como “Traffic”.
Acrescente-se um dado: partindo de um facto real, ocorrido há mais de 30 anos, e cujos dados foram recentemente “desclassificados” (ou seja, abertos à consulta pública), o filme aborda um tema quente da política internacional e fá-lo de uma forma pouco convencional. Pode dizer-se que, no final, a obra elogia o trabalho quase invisível da CIA na resolução de um intrincado drama de política internacional. Mas a verdade é que Bem Affleck inicia a sua obra com um preâmbulo histórico que deixa muito mal colocada a posição dos EUA quanto à Pérsia e o seu sucessor Irão. Aí se explica que um governo legitimamente democrático, chefiado pelo presidente Mohammad Mosaddeq, tenha sido apeado de Teerão, para se colocar no seu lugar um corrupto e ocidentalizado Xá Reza Pahlevi, que exerceu uma violenta ditadura, o que terá estado na origem das revoltas populares e da subida ao poder do Aiatola Khomeini, com as consequências que todos sabemos. Terá sido esta interferência inicial dos serviços secretos americanos a precipitar os acontecimentos, que culminaram com a concessão de asilo político ao Xá, numa altura em que este se encontrava doente com um cancro e fugido do seu país, mas muito bem acomodado nas riquezas entretanto depositadas nos bancos ocidentais.


Os acontecimentos do filme iniciam-se precisamente no dia 4 de Novembro de 1979, quando a revolução iraniana explode nas ruas de Teerão e milhares de iranianos cercam a embaixada americana na cidade e fazem 52 reféns americanos. Acontece que, na barafunda geral, seis outros americanos fugiram pela porta das traseiras e procuraram refúgio na casa do embaixador do Canadá. Serem descobertos e assassinados era uma questão de dias, pelo que a CIA prepara uma acção de resgate, dirigida por um especialista, Tony Mendez (Ben Affleck) que engendra um plano verdadeiramente surrealista (“a melhor má ideia”, como é definida no filme): introduzir-se no Irão como produtor de um filme de ficção científica que Hollywood prepara e sair, dois dias depois, com a sua “equipa de escolha de locais de filmagem” constituída por ele e mais seis elementos devidamente credenciados com falsos passaportes e currículos forjados. Esta a primeira parte do filme. 
Para tornar o plano credível aos olhos dos desconfiados e violentos iranianos, era preciso criar realmente o filme, ou uma forte aparência de filme. Passa a chamar-se “Argos”, é uma obra de secundaríssimo plano, para a qual se escreve um medíocre guião, que é apresentado à imprensa, numa sessão em que os actores lêem o (pavoroso) argumento, fazem-se anúncios de página no “Variety”, contratam-se técnicos reais (como o caracterizador John Chambers, que entre muitos outros trabalhara em “Batalha pelo Planeta dos Macacos” que aparece como inspiração na obra de Affleck) e monta-se a tenda, antes de Tony Mendez partir para Teerão. Claro que toda esta edificação da mentira dá pano para mangas no inteligente e sarcástico argumento de Chris Terrio que, para o escrever, se inspira em artigos do jornalista de investigação Joshuah Bearman. Mendez vai a Hollywood criar um falso filme e respondem-lhe que está no sítio certo. A sátira a Hollywood e aos seus muitos maus filmes é deliciosa, através sobretudo de um diálogo muito saboroso e actores magníficos, entre os quais cumpre destacar Alan Arkin (o produtor Lester Siegel) e John Goodman (o maquilhador John Chambers), ambos brilhantes nas suas composições.


Na terceira parte da obra, o suspense impera, muito embora todos saibamos que o resultado final foi um happy end. Mas Ben Affleck manipula muito bem os condimentos e obriga o espectador a agarrar-se à cadeira até o avião subir nos céus de Teerão e sair do espaço aéreo iraniano. Segurança e mestria de tom, portanto. No que o realizador conta com uma talentosa equipa técnica que faz valer os seus argumentos na fotografia, na montagem, na direcção artística, etc.
Para lá de Ben Affleck, Alan Arkin e John Goodman, o elenco já várias vezes premiado na sua globalidade, conta ainda com Bryan Cranston, Clea DuVall, Kyle Chandler, Zeljko Ivanek, Tate Donovan, Victor Garber, Bob Gunton, Chris Messina, Philip Baker Hall, Michael Parks e Richard Kind, muitos dos quais mais conhecidos da televisão do que do cinema.
No genérico final, Ben Affleck contrapõe os actores aos verdadeiros protagonistas desta gesta e chega mesmo a ouvir-se um discurso de Carter sobre os acontecimentos, que são atribuídos ao Canadá que fica com os louros, para assim impedir represálias sobre os demais prisioneiros norte-americanos no Irão.



ARGO (2012)
Título original: Argo
Realização: Ben Affleck (EUA, 2012); Argumento: Chris Terrio, segundo artigos do jornalista Joshuah Bearman ("Escape from Tehran"); Produção: Ben Affleck, Chris Brigham, Chay Carter, George Clooney, Tim Headington, Grant Heslov, Graham King, David Klawans, Alex Sutherland, Nina Wolarsky; Música: Alexandre Desplat; Fotografia (cor): Rodrigo Prieto; Montagem: William Goldenberg; Casting: Lora Kennedy; Design de produção: Sharon Seymour; Direcçao artistica: Peter Borck, Deniz Göktürk; Decoração: Jan Pascale; Guarda-roupa: Jacqueline West; Maquilhagem: Donna J. Anderson, Aurora Bergere, Kate Biscoe, Jamie Kelman, Ebru Kizilta, Kelvin R. Trahan; Direcção de produção: Tina Anderson, Amy Herman, Zeynep Santiroglu, Katherine Tibbetts; Assistentes de realização: David J. Webb, Ian Calip, Sinan Cevik, Clark Credle, Alfonso Gomez-Rejon, Alison C. Rosa, Sunday Stevens, Stephanie Tull, Belkis Turan; Departamento de arte: Michael Keith Aleshire-Rezendez, Dilek Aydin, Nicole Balzarini, Andrew Campbell, Eunha Choi, Daniel R. Jennings, Brett McKenzie, Barbara Mesney, John H. Samson, Gulriz Sansoy; Som: Erik Aadahl, Ethan Van der Ryn; Efeitos especiais: R. Bruce Steinheimer; Efeitos visuais: Matt Dessero, Rachel Faith Hanson, Thomas J. Smith, Mark Van Ee; Companhias de produção: Warner Bros. Pictures, GK Films, Smoke House; Intérpretes: Ben Affleck (Tony Mendez), Bryan Cranston (Jack O'Donnell), Alan Arkin (Lester Siegel), John Goodman (John Chambers), Victor Garber (Ken Taylor), Tate Donovan (Bob Anders), Clea DuVall (Cora Lijek), Scoot McNairy (Joe Stafford), Rory Cochrane (Lee Schatz), Christopher Denham (Mark Lijek), Kerry Bishé (Kathy Stafford), Kyle Chandler (Hamilton Jordan), Chris Messina (Malinov), Zeljko Ivanek (Robert Pender), Titus Welliver (Bates), Keith Szarabajka (Adam Engell), Bob Gunton (Cyrus Vance), Richard Kind (Max Klein), Richard Dillane, Omid Abtahi, Page Leong, Farshad Farahat, Sheila Vand, Ryan Ahern, Bill Tangradi, Jamie McShane, Matthew Glave, Roberto Garcia, Christopher Stanley, Jon Woodward Kirby, Alborz Basiratmand, Ruty Rutenberg, etc. Duração: 120 minutos, Classificação etária: M/ 12 anos; Distribuição em Portugal: Columbia TriStar Warner Filmes de Portugal; Estreia em Portugal: 8 de Novembro de 2012. 
 

quarta-feira, janeiro 09, 2013

CINEMA: "AMOR"

 
AMOR
 
“Amor”, de Michael Haneke, com dois actores fabulosos, Jean-Louis Trintignant (Georges) e Emmanuelle Riva (Anne), é um filme admirável sobre a velhice, a doença, a morte, mas sobretudo sobre o amor. Um casal de velhos músicos, ela pianista, vive sozinho numa casa em Paris. Vivem bem, apesar de se sentir uma certa solidão, apesar das visitas regulares de uma filha, Eva (Isabelle Huppert), casada, que tem, no entanto, a sua vida e os seus problemas e não pode estar continuamente com eles. Mas Georges e Anne sobrevivem bem, com a lembrança dos seus alunos e as idas a concertos e a música sempre por perto da sua existência. Até que um dia, há sempre um dia nestes casais, Anne adoece, fica cada vez mais dependente dos outros, sobretudo do marido que se esforça por a acompanhar o melhor que sabe e pode. Mas a invalidez, provocada por AVC, vai progredindo inexoravelmente. Anne recusa-se a alimentar-se e George sente-se impotente perante o quadro a que diariamente assiste.

Com um tal argumento, escrito originalmente pelo próprio Michael Haneke, fácil seria cair-se no rodriguinho e no melaço. Tem todos os condimentos para o sentimentalismo lamechas. Haneke, e os seus rigorosos e discretos actores, não vai por aí. O seu filme é de uma austeridade a toda a prova e de uma sensibilidade e pudor notáveis. Olha os seus protagonistas com respeito, pode mesmo dizer-se que com amor, mas coloca-os à distância para impedir qualquer facilidade ou pieguice. Há um humanismo íntegro que sabe bem surpreender a cada plano. A sua câmara regista os gestos mais subtis, os olhares mais íntimos, a beleza das rugas, mas também a debilidade no andar, o sofrimento de quem vê sofrer, a angústia do desconhecido, mas igualmente a serenidade perante o absoluto, e a raiva perante a impotência. Neste aspecto, o trabalho dos actores é de um invulgar virtuosismo e se não podemos deixar de sublinhar Jean-Louis Trintignant (e de o recordar em “Um Homem e Uma Mulher”, por exemplo, no apogeu da sua maturidade), não é menos verdade que Emmanuelle Riva é sublime, justificando todos os adjectivos (ela que fora a presença obsidiante de “Hiroshima, Meu Amor”). Refira-se ainda que entre os intérpretes se destaca Rita Blanco, numa curta mas preciosa aparição.

Austríaco, Michael Haneke é um dos maiores e mais originais cineastas europeus da actualidade. Antes de “Amor”, ele já não tinha dado obras marcantes da última década e meia. Em 2009, realizara o poderoso “O Laço Branco”, que vinha depois de “Brincadeiras Perigosas” (EUA, 2007), “Nada a Esconder” (2005), “O Tempo do Lobo (2003), “A Pianista” (2001), “Código Desconhecido” (2000), “Brincadeiras Perigosas” (Áustria, 1997), “O Castelo” (1997) ou “71 Fragmentos de uma Cronologia do Acaso” (1993). Uma filmografia invulgar, de uma coerência de estilo e de temas que não deixa dúvidas quanto à autoria, com a violência nas relações humanas como obsessão constante. Mas com “Amor” terá atingido um momento sublime na expressão do encanto (e desencanto) das relações humanas. O seu filme é, seguramente, um dos melhores de 2012 e tem sido justamente premiado por todo o lado por onde tem passado. Assim será, certamente, nos Oscars que se avizinham.  

AMOR
Título original: Amour
Realização: Michael Haneke (Áustria, França, 2012); Argumento: Michael Haneke; Produção: Margaret Ménégoz, Michael André, Stefan Arndt, Daniel Goudineau, Veit Heiduschka, Hans-Wolfgang Jurgan, Michael Katz, Wolfgang Lorenz, Heinrich Mis, Bettina Reitz, Bettina Ricklefs, Uwe Schott; Fotografia (cor): Darius Khondji; Montagem: Nadine Muse, Monika Willi; Casting: Kris Portier de Bellair; Design de produção: Jean-Vincent Puzos; Decoração: Susanne Haneke; Guarda-roupa: Catherine Leterrier; Maquilhagem: Thi-Loan Nguyen, Frédéric Souquet ; Direcção de produção: Sophie Boge, Philippinne Cholley, Ulrike Lässer, Ulli Neumann, Olivier Thaon, Stephan von Larcher; Assistentes de realização: Alain Olivieri, Olivier Falkowski, Marine Franssen, Stephanie Guénot, Denis Manin, Justine Selz; Departamento de arte: Jérôme Billa, Fabio Carussi, Alain Chaudet, Sophie Reynaud, etc.; Som: Jean-Pierre Laforce, Guillaume Sciama; Efeitos especiais: Yves Domenjoud, Olivier Gleyze; Efeitos visuais: Béatrice Bauwens, Barthelemy Beaux, Olivier Blanchet, Christophe Courgeau, Sophie Denize, Arnaud Fouquet, Julien Meesters; Companhias de produção: Wega Film, Les Films du Losange, X-Filme Creative Pool, France 3 Cinéma, ARD Degeto Film, Westdeutscher Rundfunk (WDR), Bayerischer Rundfunk (BR), France Télévisions, Canal+, Ciné+, ORF Film/Fernseh-Abkommen; Intérpretes: Jean-Louis Trintignant (Georges), Emmanuelle Riva (Anne), Isabelle Huppert (Eva), Alexandre Tharaud (Alexandre), William Shimell (Geoff), Ramón Agirre (porteiro), Rita Blanco (porteira), Carole Franck (enfermeira 1), Dinara Drukarova (enfermeira 2), Laurent Capelluto, Jean-Michel Monroc, Suzanne Schmidt, Damien Jouillerot, Walid Afkir, etc.; Duração: 127 min; Distribuição em Portugal: Leopardo Filmes; Classificação etária: M/16 anos; Data de estreia em Portugal: 6 de Dezembro de 2012.

sexta-feira, janeiro 04, 2013

OS MISERÁVEIS DO MUSICAL AO CINEMA

 

OS MISERÁVEIS

Um musical como “Les Misérables”, ou “Les Miz” para os incondicionais, merecia uma obra-prima na sua adaptação ao cinema. O que Tom Hooper nos reserva não se aproxima de nada disso, infelizmente. O que há de bom na sua versão vem-lhe do próprio musical, e ele apenas acrescenta ao conjunto uma realização que tropeça a cada passo no seu exibicionismo de contorcionista estilístico, com uma ou outra boa excepção. Mas vamos por partes.

O romance de Victor Hugo é majestoso e brilhante, quer do ponto de vista de escrita, mil e duzentas páginas de uma tumultuosa epopeia humana em busca da liberdade, da igualdade e da fraternidade entre os homens, como do ponto de vista humanista, defendendo fracos e oprimidos contra a ditadura da opressão brutal e da iniquidade social. Uma obra que é certamente das mais adaptadas ao cinema, em versões muito desiguais mas todas elas demonstrando a perenidade e actualidade da mensagem. Miseráveis e injustiças proliferam pelos quatro cantos do mundo e, mesmo nesta tão apregoada Europa da abundância, cada dia se multiplicam os deserdados.

A versão musical que nasceu em 1985 nos palcos de Londres tem sido um sucesso por onde tem passado. Merecidamente, isto digo eu que sou um apaixonado por musicais e tenho “Os Miseráveis” como um dos melhores exemplos do género nos tempos mais próximos (ao lado de “Sunset Boulevard, de “O Fantasma da Ópera” ou de um “Martin Guerre”). Julgo a adaptação do romance notável, na forma como o condensa, sem o ferir na sua fidelidade, na forma como equilibra personagens e situações, na forma como concilia o individual e o colectivo, o romântico e o épico. Julgo a partitura musical das mais inspiradas, tendo em conta sobretudo a especificidade deste musical, todo ele cantado, aproximando-se em muito mais da ópera ou da opereta do que dos musicais da época de ouro (entre os anos 30 e os 50 do século passado). De resto este não é um musical dançando, é um musical essencialmente cantado, pelo que a sua adaptação teria de ter em conta este aspecto, o que julgo Tom Hooper tentou compreender, não dando tanta atenção ao plano de conjunto (para se apreciar a dança na sua globalidade) e mais ao plano aproximado (para se concentrar no canto, o que resulta muito bem nalguns casos, como por exemplo na canção de Fantine, "I Dreamed a Dream", admiravelmente conseguida por Anne Hathaway, e não tanto noutros, onde leva ao preciosismo esta aproximação).

A história desta adaptação a musical é curiosa. Poucos sabem que a primeira versão é francesa, uma encenação de Robert Hossein, com texto de Alain Boublil e Jean-Marc Natel e música de Claude-Michel Schönberg. Estreou-se em 1980 no Palais des Sports, com um elenco encabeçado por Maurice Barrier (Jean Valjean) e Jean Vallée (Javert). Esteve três meses em cena, após o que se despediu sem grande euforia. Mas, passados três anos, o produtor inglês Cameron Mackintosh, que tinha acabado de estrear “Cats” na Broadway, recebeu um álbum deste concerto e ficou impressionado. Entregou a Herbert Kretzmer a versão inglesa que se estreou em Londres, a 8 de Outubro de 1985, no Barbican Centre. Pouco depois, estrearia na Broadway – ao lado de “Cats”, “The Phantom of the Opera”, “Miss Saigon”. Daí para cá transformou-se no maior sucesso de sempre de um musical – mais de 65 milhões de espectadores em todo o mundo.

A adaptação cinematográfica acompanha, pari passu, a versão musical, com uma ou outra liberdade, que todavia não interfere com a partitura. Mas os meios que o cinema põe à disposição da história libertam-na do espaço fechado de um palco, o que é desde logo visível na sequência inicial, com Jean Valjean em trabalhos forçados, numa grandiosa reconstituição do porto militar de Toulon, no sul de França, pouco antes de ser libertado, depois de cumprir uma pena de 19 anos de prisão nas galés, por ter roubado um pão para matar a fome à família (cinco por esse crime, mais 14 por várias tentativas de fuga). Jean Valjean, com uma força sobre-humana e um ódio feroz a quem o aprisionou, tem pela frente Javert, o chefe da polícia que não lhe irá dar tréguas ao longo de toda a existência. É ele quem lhe põe na mão um passaporte amarelo que o irá causticar para sempre como ex-condenado. Todos o afastam até chegar a casa de um padre que o acolhe, lhe dá comida e cama, e lhe desculpa um roubo de pratas, com a promessa de Valjean tornar um honesto cidadão. Este, tocado pela graça na sua empedernida consciência, acaba por se regenerar, transformar a prata em ouro, multiplicando o capital, através de um fábrica que administra, sendo nomeado “maire” da cidade de Montreuil. Estamos em 1823.

Na sua fábrica trabalha Fantine, mãe (solteira) de Cosette, que um dia é despedida e cai de degrau em degrau até à mais profunda desgraça, que a conduzirá à morte. Muitas são as peripécias, mas perto do fim, Valjean que, como maire assumira a identidade de Madeleine, promete a Fantine tomar conta da sua filha que se encontra sob a guarda de uns taberneiros, contumazes na rapina e avidez, de nome Thénardier. A miúda é tratada como uma escrava, Valjean liberta-a a troco de uma considerável quantia, mas Javert anda por perto e quer fazer regressar às galés o seu inimigo de estimação, pois este furtara-se à apresentação obrigatória perante a policia, dada a sua liberdade condicional. Javert é filho de um condenado e jurou cumprir a lei e impor a ordem custe o que custar. Para ele, não há regeneração possível. Victor Hugo tem uma ideia diferente da justiça e quer demonstrá-lo nesta sua obra. Por isso a oposição Javert-Valjean é tão intensa, complexa, insistente e obsessiva. São duas concepções do mundo que se opõem. A velha sociedade absolutista a que a Revolução Francesa tinha posto cobro, a nova ordem do mundo que nascia desse movimento libertador.

De fuga em fuga, Cosette cresce ao lado do seu pai adoptivo, e assim chegamos a 1832, às barricadas nas ruas de Paris, contra o novo rei. Entre os estudantes revoltosos vamos encontrar Marius, filho de um nobre, que renega as origens e que, de bandeira em punho, é um dos chefes do movimento que faz frente aos soldados do rei. No entretanto, Marius e Cosette encontram-se e apaixonam-se e surge a história de amor que irá ocupar grande parte da segunda metade da obra, intercalada com a revolução e a persistente perseguição de Javert a Valjean. Estão reunidas as condições para um final que irá reunir as diferentes linhas de acção, voltando o filme a algumas sequências de grande espectacularidade, sobretudo com as barricadas e confronto final de Javert e Valjean nos esgotos de Paris.

O que, portanto, sobressai no filme vem do musical: a estrutura dramática e a partitura musical. O que Tom Hooper traz de novo é, no mínimo, discutível: o filme nunca tem um tom próprio, oscila entre algumas sequências bem conseguidas e outras insustentáveis, pelos rodriguinhos e um estilo quase grotesco de enquadramentos e lentes mal utilizadas. Há um plano de Valjean no cimo de uma escada que é o paradigma deste estilo arrebicado e pomposo do realizador. Que não é de agora e já lhe mereceu Oscars da Academia. Num texto meu dedicado a “O Discurso do Rei” (Fevereiro de 2011) disse: “(..) a realização, que é verdadeiramente desastrosa, com um recurso insano à utilização da grande angular, que transforma personagens e ambientes em grotescas caricaturas, sempre que é usada. Creio ter percebido a intenção de Tom Hooper, um realizador que vem da televisão e nos dera um interessante “Maldito United” (2009). Ele terá pensado que esta era a melhor maneira de traduzir em imagens a perturbação e a claustrofobia do rei gago, mas apenas optou pela facilidade e o resultado é por vezes simplesmente grotesco. Em lugar de traduzir a gaguez do rei, afirma a gaguez do seu realizador”. O que eu tinha acusado em 2011 mantém-se em 2012. Talvez lhe volte a conferir estatuetas, para mim de todo imerecidas. Mas a Academia parece andar virada para esse tipo de realização acrobática e excêntrica, pois “Cisne Negro”, de Darren Aronofsky, enfermava da mesma doença e também foi muito ovacionado.

Há, no entanto, aspectos positivos nesta obra que certamente não sairá de mãos a abanar da cerimónia dos Oscars que se aproxima. A direcção artística, cenários, guarda-roupa e adereços é bastante boa, e a interpretação merece alguns destaques. Sem surpreender, Hugh Jackman é um eficaz Jean Valjean, Russell Crowe deixa um pouco a desejar como Javert, Anne Hathaway é magnifica como Fantine, Amanda Seyfried não desmerece como Cosette, Sacha Baron Cohen e Helena Bonham Carter, como Thénardiers, são deslumbrantes de graça comedida, Eddie Redmayne é um Marius que foge ao rodriguinho do galã, Aaron Tveit  é um bom Enjolras, Samantha Barks uma Éponine que se afasta um pouco da imagem habitual e Daniel Huttlestone é dos melhores Gavroches de uma extensa lista. Tom Hooper resolveu fazer os actores cantarem em directo, em vez de serem dobrados como era habitual neste género, e não parece que tenha ganho nada com este feito. De resto, quase todos os actores secundários que têm anterior experiência vocal noutros musicais sobressaem pela voz.

Finalizando, quem gosta de musicais e deste em particular deve preferir ficar em casa a ver e ouvir pela enésima vez o concerto do 25º aniversário. Mas quem mesmo assim queira ir ao cinema, haverá certamente quem no final deteste e quem tenha suportado com alguma galhardia. Este último foi o meu caso.  

OS MISERÁVEIS
Título original: Les Misérables
Realizador: Tom Hooper (Inglaterra, EUA, 2012); Argumento: William Nicholson, segundo texto de Claude-Michel Schönberg e Alain Boublil, adaptando o romance de Victor Hugo, com poemas de Herbert Kretzmer, Alain Boublil, Jean-Marc Natel, James Fenton; Produção: Bernard Bellew, Raphaël Benoliel, Tim Bevan, Liza Chasin, Eric Fellner, Debra Hayward, Cameron Mackintosh, Angela Morrison, Thomas Schönberg; Música (não original): Claude-Michel Schönberg; Fotografia (cor): Danny Cohen; Montagem: Chris Dickens, Melanie Ann Oliver; Casting: Nina Gold; Design de produção: Eve Stewart; Direcção artística: Grant Armstrong, Gary Jopling, Hannah Moseley, Su Whitaker; Decoração: John Botton, Leigh Bryant, Stephen Doyle, Billy Edwards, Carrie Garner, James Hendy, Anna Lynch-Robinson, Sarah Whittle, Matt Wyles; Guarda-roupa: Paco Delgado; Maquilhagem: Nicola Buck, Karen Cohen, Julie Dartnell, Audrey Doyle, Patt Foad, Sarah Grispo, etc.; Direcção de produção: Kate Fasulo, Tom O'Shea, Jason Pomerantz, Bobby Prince, Matthieu Rubin, Patrick Schweitzer; Assistentes de Realizador: Ben Howarth, Mark Cockren, Gayle Dickie, Sid Karne, Vaughn Stein, Harriet Worth; Departamento de arte: Julia Castle, Malcolm Roberts; Som: Dominic Gibbs, Lee Walpole, John Warhurst; Efeitos especiais: Hugh Goodbody, David Holt, Paul McGuinness, etc.; Efeitos Visuais: Richard Bain, Fabrizia Bonaventura, Robert Connor, Izzy Field, Tim Field, Ali Ingham, Sean Mathiesen, Nathalie Mathé, Allison Paul, Natalie Reid, Adrian Steel; Animação: Ben Wiggs; Companhias de produção: Working Title Films; Cameron Mackintosh Ltd. Intérpretes: Hugh Jackman (Jean Valjean), Russell Crowe (Javert), Anne Hathaway (Fantine), Amanda Seyfried (Cosette), Sacha Baron Cohen (Thénardier), Helena Bonham Carter (Madame Thénardier), Eddie Redmayne (Marius), Aaron Tveit (Enjolras), Samantha Barks (Éponine), Daniel Huttlestone (Gavroche), Cavin Cornwall (preso 1), Josef Altin (preso 2), Dave Hawley (preso 3), Adam Jones (preso 4), John Barr (preso 5), Tony Rohr, Richard Dixon, Andy Beckwith, Stephen Bent, Colm Wilkinson, Georgie Glen, Heather Chasen, Paul Thornley, Paul Howell, Stephen Tate, Michael Jibson, Kate Fleetwood, Hannah Waddingham, Clare Foster, Kirsty Hoiles, Jenna Boyd, Alice Fearn, Alison Tennant, Marilyn Cutts, Catherine Breeze, John Albasiny, Bertie Carvel, Tim Downie, Andrew Havill, Dick Ward, Nicola Sloane, Daniel Evans, David Stoller, Ross McCormack, Jaygann Ayeh, Adrian Scarborough, Frances Ruffelle, Lynne Wilmot, Charlotte Spencer, Julia Worsley, Keith Dunphy, Ashley Artus, John Surman, David Cann, James Simmons, Polly Kemp, Ian Pirie, Adam Pearce, Julian Bleach, Marc Pickering, Isabelle Allen, Natalya Angel Wallace, Phil Snowden, Hadrian Delacey, Lottie Steer, Sam Parks, Mark Donovan, Lewis Kirk, Leighton Rafferty, Peter Mair, Jack Chissick, Dianne Pilkington, Robyn North, Norma Atallah, Patrick Godfrey, Mark Roper, Paul Leonard, etc. Duração: 157 minutos; Distribuição em Portugal: Zon Lusomundo; Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal: 3 de Janeiro de 2013.

sábado, dezembro 29, 2012

CINEMA: OS PREFERIDOS

CINEMA: OS MELHORES DE 2012 
Confesso que este foi um ano em que fui pouco ao cinema (pouco, para o que era a minha norma, uma norma que às vezes me colocava numa sala de cinema das 8 da manhã até à noite, o que também não era saudável, convenhamos). Mesmo assim vi umas boas dezenas de filmes. Entre os que mais gostei, aqui ficam as minhas preferências:
AMOR, de Michael Haneke (Áustria)
O CAVALO DE TURIM, de Bela Tarr (Hungria)
O GEBO E A SOMBRA, de Manoel de Oliveira (Portugal)
COSMOPOLIS, de David Cronenberg (Canadá)
PROCUREM ABRIGO, de Jeff Nichols (EUA)
A INVENÇÃO DE HUGO, de Martin Scorsese (EUA)
MILENNIUM 1 – OS HOMENS QUE ODEIAM AS MULHERES, de David Fincher (EUA)
A VERGONHA, de Steve McQueen (Inglaterra)
HOLY MOTORS, de Leos Carax (França)
AGRUTA DOS SONHOS PERDIDOS, de Werner Herzog (Alemanha)
AS FLORES DA GUERRA, de Zhan Yimou (China)
4.44 ÚLTIMO DIA DA TERRA, de Abel Ferrara (EUA)
E num ano bom para o cinema português é conveniente não esquecer ainda
TABU, de Miguel Gomes
ESTRADA DE PALHA, de Rodrigo Areias
FLORBELA, de Vicente Alves d’ O
O BARÃO, de Edgar Pera (este não sei se estreou este ano, eu vi-o este ano, e, como gostei, fica)
E a completar, eu sei: foi um ano depressivo para burro! Ou para cavalo.

FICÇÃO PORTUGUESA NA RTP

DE "FLORBELA" A "4."
 
Constipação, período natalício, frio e preguiça têm-me retido algum tempo frente à televisão. Vi por isso os quatro episódios da série “4.” e os três de “Perdidamente Florbela” e, de um modo geral, dei por bem empregue o meu tempo. Começando pela obra de Vicente Alves d’ O, há que referir que já tinha gostado bastante do filme e que a série talvez me tenha ainda agradado mais. Bom trabalho de direcção de actores, realização fluente e sensível, cuidada e geralmente de muito bom gosto, com uma excelente direcção de arte que criou cenários plausíveis e plasticamente bem aproveitados. Os actores comportaram-se a muito bom nível e afigura-se-me que é série para fazer um bom percurso pelos festivais do género do estrangeiro.

Bastante diferente é o caso de “4.”, uma mini-série de 4 telefilmes autónomos entre si, ligados apenas por cada um deles reflectir um olhar sobre “Portugal Hoje”. Quatro escritores dos mais sonantes da nova geração escreveram uma história que representa a sua visão sobre o Portugal contemporâneo. José Luís Peixoto escreveu “Entre as Mulheres”, Pedro Mexia “Bloqueio”, João Tordo “Crónica de uma Revolução Anunciada” e Valter Hugo Mãe “A Morte dos Tolos”. Infelizmente os três primeiro deixaram muito a desejar, histórias algo descabeladas de encontros e desencontros sem grande nexo nem interesse, por vezes pretensiosas e snobs, por vezes demagógicas e primárias. O último episódio, de  Valter Hugo Mãe, “A Morte dos Tolos”, redimiu a série, com bons diálogos, personagens divertidas, situações de saudável crítica social, e bons actores. Diga-se, no entanto, que a realização de Henrique Oliveira foi, nos quatro casos, muito interessante, rigorosa, eficaz, mas a verdade é que, nuns casos, não deu para defender textos pobres e sem ideias.
De qualquer das maneiras, aqui tivemos a RTP a cumprir bem o seu papel de “serviço público”, incentivando a produção nacional. Nem tudo foi bom? Infelizmente não, mas em parte nenhuma o é. Por exemplo: de José Luís Peixoto, já li textos muito bons. Mas nem sempre se acerta.

quarta-feira, dezembro 05, 2012

JOAQUIM BENITE, UM AMIGO


Morreu Joaquim Benite
(1943-2012)


Morreu um amigo. Quando assim é, difícil se torna sequer falar. Fomos muito próximos durante muito tempo. Ambos críticos, eu de cinema, ele de teatro, no “Diário de Lisboa”. Lá pelos anos 60. Ambos apaixonados pelo que escrevíamos. Fizemos depois carreiras diversas, mas lado a lado. Ambos apaixonados pelo que fazíamos. Acompanhei a sua actividade sempre com redobrado interesse, pela qualidade das suas propostas, mas também com o olhar de amigo que gosta de ver o amigo afirmar-se por mérito próprio. Sei que ele me seguia com igual emoção. A emoção que nos unia quando nos encontrávamos, aqui e ali, no Famafest que eu dirigia em Famalicão, onde fez parte do Júri Internacional em 2010, ano em que foi igualmente homenageado, no Teatro Municipal de Almada que dirigia e onde encenava espectáculos que ficarão na nossa recordação, no Festival que superiormente dirigia, um dos melhores da Europa no campo do teatro. Benite partiu mas o seu trabalho, consistente e coerente, a sua alegria de viver, o seu forte abraço, esses ficarão, triste consolação numa carreira brilhante que se finou. Que o exemplo não se cale. Por isso aqui fica um abraço para a Teresa, os filhos e também para o Rodrigo, seu assistente durante anos.
Perguntaram-lhe se achava que ficaria na História. Respondeu: “Os encenadores nunca ficam na história. Só os escritores, como o Shakespeare. Sabe, acho que vale a pena viver para nos divertirmos. Lutar por coisas, para cumprir missões, não. O teatro é um sinal de civilização que está na origem da sociedade. Até nos animais. Quando chego a casa, o meu cão faz uma dança que parece egípcia, pá. São rituais de representação. Mas o teatro não tem missão nenhuma. É uma coisa que as pessoas fazem porque gostam e as outras vêem porque lhes dá prazer”.
É tudo verdade. Mas ficarás na História, claro!

Nota do Teatro Municipal de Almada:

O encenador Joaquim Benite, director do Teatro Municipal de Almada e do Festival de Almada, faleceu esta noite, na sequência de complicações respiratórias motivadas por uma pneumonia. O fundador da Companhia de Teatro de Almada preparava a estreia absoluta em Portugal de Timão de Atenas, de Shakespeare, que representaria o seu regresso à actividade após um período de ausência dos palcos por motivo de doença. O País perde assim um dos seus mais prestigiados encenadores, ligado ao movimento de renovação do Teatro português no período que antecedeu e que se seguiu à Revolução de 1974.
Joaquim Benite nasceu em Lisboa em 1943. Começou a trabalhar como jornalista, aos 20 anos, no jornal República. Posteriormente fez parte da redacção do Diário de Lisboa e foi chefe de redacção dos jornais O séculoe O diário. Foi crítico de teatro no Diário de Lisboa e em diversas revistas e publicações.
Em 1971 fundou o Grupo de Campolide e estreou-se na encenação com O avançado centro morreu ao amanhecer, de Agustin Cuzzani. Com a peça Aventuras do grande D. Quixote de la Mancha e do gordo Sancho Pança, de António José da Silva, ganhou, no ano seguinte, o Prémio da Crítica para o melhor espectáculo de teatro amador.
Em 1976, no Teatro da Trindade, transformou o Grupo de Campolide em companhia profissional. Em 1978 asua companhia instala-se em Almada, cidade de onde não mais sairia, e que transformou num dos principais focos teatrais do País, cujo expoente máximo será porventura o Festival de Almada, criado em 1984, e que em 2013 terá a sua 30ª edição. Em 1988, Joaquim Benite inaugura o primeiro Teatro Municipal dessa cidade, e em 2005 é finalmente concluído o projecto do novo Teatro Municipal de Almada — num edifício da autoria de Manuel Graça Diase Egas José Vieira —, que se tornou num dos principais teatros do País.
Tendo criado mais de uma centena de espectáculos, Joaquim Benite foi responsável pela estreia em teatro de José Saramago, de quem dirigiu A noite (1979) e Que farei com este livro? (1980 e 2007). Encenou ainda obras de Shakespeare, Molière, Brecht, Lorca, Bulgakov, Camus, Adamov, Gogol, Beckett, Albee, Neruda, Thomas Bernhard, Sanchis Sinisterra, Antonio Skármeta, Pushkin, Peter Schaffer, Marguerite Duras, Dias Gomes, Nick Dear, O’Neill, Marivaux, Feydeau, Almeida Garrett, Gil Vicente, Raul Brandão, entre muitos outros.
Entre os seus últimos trabalhos contam-se: Que farei com este livro, de José Saramago(2007); as óperas A clemência de Tito, de Mozart (2008), O doido e a morte(2008) e A rainha louca (2011), de Alexandre Delgado; O presidente, de Thomas Bernhard (2008); Timon de Atenas, de Shakespeare (Festival de Mérida, 2008); A mãe, de Brecht (2010); Tuning, de Rodrigo Francisco (2010); Troilo e Créssida, de Shakespeare (2010); e Hughie e Antes do pequeno-almoço, de Eugene O’Neill (2010).
Entre os numerosos prémios e distinções com que foi distinguido, Joaquim Benite foi agraciado com as Medalhas de Ouro dos Municípios de Almada e da Amadora, e as Medalha de Mérito Cultural do Ministério da Cultura e Mérito Distrital do Governo Civil de Setúbal. Foi-lhe também atribuído o grau de Comendador da Ordem do Infante D. Henrique; os graus de Cavaleiro e Oficial da Ordem das Artes e das Letras de França; e o grau de Comendador da Ordem do Mérito Civil de Espanha.

terça-feira, novembro 20, 2012

BERNARDO SANTARENO NO CARTAXO


Última exibição de “O Crime da Aldeia Velha”, no Centro Cultural do Cartaxo. Última exibição que teve o propósito de homenagear o escritor no dia do seu aniversário. Para o efeito escrevi algumas palavras, relembrando o dramaturgo, que li no final do espectáculo, no palco perante todo o elenco:
 

SOBRE BERNARDO SANTARENO

 

Se fosse vivo, Bernardo Santareno, o autor desta peça que acabaram de ver, completaria hoje 92 anos. Ribatejano por nascimento (foi em Santarém que nasceu no dia 19 de Novembro de 1920), Bernardo Santareno era o pseudónimo literário do cidadão António Martinho do Rosário, que fez estudos no Liceu Nacional de Sá da Bandeira, na sua terra natal, onde permaneceu até 1939, após o que viajou até à capital do reino para frequentar os cursos preparatórios para a Faculdade de Medicina, na Universidade de Lisboa. Em 1945, transferiu-se para a Universidade de Coimbra, e aí se licenciou em medicina psiquiátrica, em 1950.

Iniciou a sua carreira profissional como médico, entre 1957 e 1958, a bordo dos navios “David Melgueiro”, “Senhora do Mar” e também do navio-hospital “Gil Eanes”, acompanhando as campanhas de pesca do bacalhau. Ao mesmo tempo, foi desenvolvendo a sua capacidade literária, inicialmente na poesia, publicando em edições de autor três volumes (1954, “Morte na Raiz”, 1955, “Romances do Mar”, e 1957, “Os Olhos da Víbora”), onde se esboçam já alguns dos seus temas e obsessões, nomeadamente a presença do mar como elemento dramático e a opressão do homem, vítima dos mais diversos condicionalismos sociais, morais ou políticos. O mar estaria igualmente presente no seu volume de narrativas “Nos Mares do Fim do Mundo”.

Num país onde a dramaturgia é rara e medíocre, salvo raras excepções, poucas mais para além de Gil Vicente, de António José da Silva, dito “o Judeu”, de António Ferreira, António Patrício ou de Almeida Garrett, Bernardo Santareno ocupou rapidamente o lugar de dramaturgo por excelência do século XX português. As suas primeiras obras teatrais surgiram em 1957, num volume editado pelo autor e que agrupava “A Promessa”, “O Bailarino” e “A Excomungada”. Depois surgem “O Lugre” e “O Crime de Aldeia Velha”, ambas de 1959; “António Marinheiro ou o Édipo de Alfama”, de 1960; “Os Anjos e o Sangue”, “O Duelo” e “O Pecado de João Agonia”, de 1961; e “Anunciação”, de 1962, todas elas integrando uma estética muito pessoal, que aliava um realismo de características sociais a uma imagética poética, escolhendo temas onde a natureza humana era escalpelizada nos seus contrastes mais gritantes, com a paisagem natural por cenário privilegiado, condicionando o drama e mesmo a tragédia a que a acção quase sempre conduz. 

Foi em meados dos anos 60, tinha eu pouco mais de vinte anos, quando conheci pessoalmente Bernardo Santareno. Em 1964, acompanhara a estreia de “O Crime de Aldeia Velha” no cinema, numa adaptação de Manuel Guimarães, meu amigo e vizinho da Avenida de Roma, e companheiro de boas conversas no Café Vavá. Cheguei mesmo a escrever uma crítica para a revista “O Tempo e o Modo”, onde sublinhava algumas das virtudes e certas limitações do filme que, globalmente, representava uma boa aposta do cinema nacional, numa altura em que o Novo Cinema Português começa a movimentar-se, permitindo que Manuel Guimarães deixasse de ser o quase solitário e quixotesco cineasta da oposição ao regime.

Por essa altura, Santareno era já um autor consagrado e eu um jovem universitário que escrevia sobre cinema e teatro, paixões de sempre, com pretensões a dramaturgo e cineasta. Eu escrevera três peças em um acto, que um editor da altura achou por bem publicar, graça que para sempre fiquei a dever a Fernando Luso Soares. No meu arrojo juvenil, decidi entregar o original a Bernardo Santareno para lhe pedir umas palavras de apresentação do livro, se ele achasse que as pecinhas as mereciam. Por esses tempos, os cafés eram pontos, certos e seguros, de encontro e de tertúlia. Bernardo Santareno era acessível de encontrar em Lisboa, numa pastelaria, confeitaria ou café da Rua Alexandre Herculano, mesmo ao lado de uma editora prestigiada da época, a Ática, que tinha no seu catálogo nada mais do que Fernando Pessoa, Sebastião da Gama, Mário Sá Carneiro e outros tais. Era igualmente a editora de Santareno, e talvez para estar próximo dela, ele frequentava a confeitaria “Paraíso”. Era fácil vê-lo sentado, quase sempre à entrada, numa mesa do lado direito, jornal ou livro na mão, sozinho ou acompanhado por amigos, a bica à frente, sobre o mármore do tampo da mesa. Foi aí que o fui encontrar, foi aí que me apresentei e lhe passei para as mãos o original que ele teve a gentileza de ler e de prefaciar com palavras estimulantes para o que ele considerava ser “um homem de teatro”.

Depois dessa atrevida e insólita apresentação, Santareno revelou-se sempre um homem afável e atento, disponível e encorajador para com os jovens que procurava estimular e alentar. Foram para mim preciosas as suas palavras que me ajudaram a persistir num caminho, apesar dele não ter sido maioritariamente teatral, mas mais ligado ao cinema. Mas nunca abandonei o teatro, quanto mais não seja como espectador apaixonado, e não me espantaria muito que parte desta paixão a tenha passado a outros, como se pode ver pela presença aqui ao lado do meu filho Frederico Corado.

Voltando a Bernardo Santareno e a meados dos anos 60, devo dizer que o meu contacto com o dramaturgo se foi mantendo, em várias ocasiões, por diversas razões. Tenho comigo uma entrevista que lhe fiz para uma revista de espectáculos que então existia, e onde eu colaborava regularmente, a “Plateia”, e onde o autor falava da feliz experiência de ter tido nesse ano de 1967 dois textos seus em cena, “A Promessa” e “António, Marinheiro”, e de ansiar pela estreia em palcos dos seus novos trabalhos que iniciavam, segundo o próprio reconhecia, um novo ciclo no interior da sua obra. “O Judeu” e “O Inferno”, as peças referidas, davam mostras de uma maior intervenção política e social, muito próximas de uma estética brechetiana, o que seria continuado com “A Traição do Padre Martinho” (1969), “Português, Escritor, 45 Anos de Idade” (1974), “Os Marginais e a Revolução” (um volume agrupando quatro originais, “Restos”, “A Confissão”, “Monsanto”, “Vida Breve em Três Fotografias”, 1979) e “O Punho” (que só viria a ser publicado postumamente, em 1987).

Bernardo Santareno pode dizer-se que foi um dos raros portugueses que escreveu tendo em vista o palco, o espectáculo, o contacto com o público, tendo em conta duas vertentes essenciais: por um lado, criar textos de qualidade literária invulgar, que não se satisfazem apenas com a sua existência em livro, mas que aspiram a uma natural respiração no palco. Só aí se completam e se dão por concluídos. Por outro lado, todas as suas obras permitem uma leitura pessoal, de autor, definida por um conjunto de temas constantes e quase direi obsessivos: a luta pela dignificação do ser humano, pelos seus direitos essenciais, em confronto com preconceitos de todo o tipo, quer sejam sexuais, religiosos, económicos, raciais, políticos, sociais.

O que se compreende inclusive pela sua própria postura perante a vida, como declarado defensor da liberdade perante a opressão e, mais ainda, como assumido "homossexual discreto", que via na diferença uma discriminação de que ele mesmo se sentia vítima. Quase toda a sua obra se sente possuída por essa mácula de um “pecado” pessoal que se assume perante o ostracismo geral, tema aliás dominante em “O Crime de Aldeia Velha”, onde uma mulher, só porque é “diferente”, é queimada viva, mercê da intolerância e do fanatismo obscurantista de uma populaça em histeria. Curioso é verificar o papel dos dois elementos da Igreja que surgem nesta obra, desempenhando papéis racionais e contemporizadores, o que demonstra igualmente a abertura do dramaturgo para leituras não demagógicas, ele que noutras obras também criticou a atitude da Igreja em contextos diversos. 

Voltei a cruzar-me com Santareno, por altura da estreia de “A Promessa”, versão cinematográfica de António Macedo da sua peça homónima. Estávamos em 1973, o filme foi um quase escândalo, mas anunciavam-se já tempos novos, que pouco depois iriam desembocar num Abril de cravos. O convívio da obra de Santareno com o cinema ficou por essas duas adaptações, mas, na televisão, iria continuar, com a adaptação de “Português, Escritor, 45 Anos de Idade”, numa realização de Artur Ramos, em 1975, numa recriação de “O Crime de Aldeia Velha”, partindo de uma encenação de Carlos Avilez, em 1997, e, finalmente, em 1999, com a versão televisiva de “Vida Breve em Três Fotografias”, dirigida por Fátima Ribeiro.

Bernardo Santareno morreu cedo, aos 59 anos, em Carnaxide, Oeiras, no dia 30 de Agosto de 1980. Num dos livros que dele possuo, com estimada dedicatória, ele enviava “um grande abraço e a esperança artística no dramaturgo”. Lamento ter-lhe defraudado as esperanças no dramaturgo, mas o amor ao teatro, esse mantém-se. Aqui estou para responder presente às suas esperanças, acompanhado pelo meu filho que vai certamente cumprir novas e renovadas esperanças artísticas e teatrais.  

Lauro António
Cartaxo, 19 de Novembro de 2012