quinta-feira, dezembro 29, 2011

2011 - O CINEMA EM PORTUGAL, 1

:


RANKING DOS FILMES MAIS VISTOS 
(1-1-2011/21-12-2011)
No site do Instituto do Cinema e do Audiovisual (http://www.ica-ip.pt/Admin/Files/Documents/contentdoc2187.pdf), podem ler-se as estatísticas referentes ao ano de 2011, no que ao cinema em Portugal diz respeito. O quadro dos 40 filmes que fizeram mais receita e tiveram mais espectadores durante o período que vai de 1 de Janeiro de 2011 a 12 de Dezembro de 10111 é o seguinte: 

TÍTULO
REALIZADOR
DISTRIBUIDOR
REC.BRUTA
ESPECT.
SESSÕES
1
HARRY POTTER E OS TALISMÃS DA MORTE: PARTE 2
DAVID YATES
COLUMBIA TRISTAR WARNER
€ 2.937.937,05
493.700
12.420
2
OS SMURFS
RAJA GOSNELL
COLUMBIA TRISTAR WARNER
€ 2.792.468,88
478.221
11.995
3
PIRATAS DAS CARAÍBAS: POR ESTRANHAS MARÉS
ROB MARSHALL
ZON LUSOMUNDO  AUDIO.
€ 2.880.357,45
476.881
13.878
4
A SAGA TWILIGHT: AMANHECER PARTE I
BILL CONDON
ZON LUSOMUNDO AUDIO.
€ 2.178.407,15
455.528
10.310
5
VELOCIDADE FURIOSA 5
JUSTIN LIN
ZON LUSOMUNDO AUDIO.
€ 2.105.893,09
446.328
11.651
6
O TURISTA
FLORIAN V. DONNERSMARCK
COLUMBIA TRISTAR WARNER
€ 2.002.186,26
421.410
11.401
7
CARROS 2
JOHN LASSETER, B. LEWIS
ZON LUSOMUNDO AUDIO.
€ 2.408.421,75
408.494
11.932
8
RIO
CARLOS SALDANHA
CLMC - MULTIMÉDIA
€ 2.534.365,39
406.626
11.694
9
A RESSACA PARTE II
TODD PHIILLIPS
COLUMBIA TRISTAR WARNER
€ 1.839.990,17
395.418
13.845
10
O REGRESSO DE JOHNNY ENGLISH
OLIVER PARKER
ZON LUSOMUNDO AUDIO.
€ 1.700.125,43
359.121
12.306
11
AS AVENTURAS DE TINTIN: O SEGREDO DO LICORNE
STEVEN SPIELBERG
COLUMBIA TRISTAR WARNER
€ 1.963.577,13
331.072
11.383
12
O DISCURSO DO REI
TOM HOOPER
ZON LUSOMUNDO AUDIO.
€ 1.566.728,55
327.427
9.696
13
O GATO DAS BOTAS
CHRIS MILLER
ZON LUSOMUNDO AUDIO.
€ 1.885.848,29
317.899
6.920
14
O PANDA DO KUNG FU 2
JENNIFER YUH
ZON LUSOMUNDO AUDIO.
€ 1.727.201,34
295.441
12.611
15
TRANSFORMERS 3
MICHAEL BAY
ZON LUSOMUNDO AUDIO.
€ 1.460.196,90
248.427
9.092
16
CISNE NEGRO
DARREN ARONOFSKY
CLMC - MULTIMÉDIA
€ 1.138.288,11
240.076
8.456
17
MEIA-NOITE EM PARIS
WOODY ALLEN
ZON LUSOMUNDO AUDIO.
€ 960.530,12
200.673
8.040
18
CAPITÃO AMÉRICA: O PRIMEIRO VINGADOR
JOE JOHNSTON
ZON LUSOMUNDO AUDIO.
€ 1.095.779,70
188.843
7.936
19
AMIGOS COLORIDOS
WILL GLUCK
COLUMBIA TRISTAR WARNER
€ 864.611,12
185.943
7.142
20
RANGO
GORE VERBINSKI
ZON LUSOMUNDO AUDIO.
€ 845.869,23
182.247
5.799
21
SEXO SEM COMPROMISSO
IVAN REITMAN
ZON LUSOMUNDO AUDIO.
€ 841.285,93
182.072
6.765
22
ENGANA-ME QUE EU GOSTO
DENNIS DUGAN
COLUMBIA TRISTAR WARNER
€ 833.831,49
180.395
7.387
23
CHEFES INTRAGÁVEIS
SETH GORDON
COLUMBIA TRISTAR WARNER
€ 822.085,19
178.882
7.737
24
PROFESSORA BALDAS
JAKE KASDAN
COLUMBIA TRISTAR WARNER
€ 775.646,65
169.507
7.559
25
SUPER 8
J. J. ABRAMS
ZON LUSOMUNDO AUDIO.
€ 733.219,23
159.009
7.050
26
HEREAFTER - OUTRA VIDA
CLINT EASTWOOD
COLUMBIA TRISTAR WARNER
€ 744.928,74
158.006
6.144
27
THOR
KENNETH BRANAGH
ZON LUSOMUNDO AUDIO.
€ 950.603,03
154.647
6.698
28
O PLANETA DOS MACACOS: A ORIGEM
RUPERT WYATT
CLMC - MULTIMÉDIA
€ 715.615,21
153.616
7.063
29
ENTRELAÇADOS
BYRON HOWARD, N. GRENO
ZON LUSOMUNDO AUDIO.
€ 896.400,54
145.133
5.271
30
ALTA GOLPADA
BRETT RATNER
ZON LUSOMUNDO AUDIO.
€ 635.677,88
137.155
6.358
31
NÃO HÁ FAMÍLIA DO PIOR
PAUL WEITZ
ZON LUSOMUNDO AUDIO.
€ 615.937,77
131.579
6.830
32
INDOMÁVEL
ETHAN COEN, JOEL COEN
ZON LUSOMUNDO AUDIO.
€ 616.368,30
130.701
5.274
33
A ÁRVORE DA VIDA
TERRENCE MALICK
ZON LUSOMUNDO AUDIO.
€ 602.671,70
128.077
5.894
34
AMOR, ESTÚPIDO E LOUCO
GLENN FICARRA, J. REQUA
COLUMBIA TRISTAR WARNER
€ 576.380,08
124.506
5.804
35
72 HORAS
PAUL HAGGIS
PRIS AUDIOVISUAIS
€ 571.592,35
123.797
4.838
36
GNOMEU & JULIETA
KELLY ASBURY
ZON LUSOMUNDO AUDIO.
€ 716.891,50
121.310
5.962
37
CUIDADO COM O QUE DESEJAS
DAVID DOBKIN
ZON LUSOMUNDO AUDIO.
€ 518.598,48
113.676
5.950
38
SEM TEMPO
ANDREW NICCOL
BIG PICTURE 2 FILMS
€ 517.532,41
111.611
5.428
39
OS AGENTES DO DESTINO
GEORGE NOLFI
ZON LUSOMUNDO AUDIO.
€ 511.077,60
111.487
5.427
40
COWBOYS & ALIENS
JON FAVREAU
ZON LUSOMUNDO AUDIO.
€ 502.551,14
107.944
5.628

Este quadro é particularmente elucidativo sobre várias questões que é interessante sublinhar.
1. Entre os 40 filmes mais vistos (e mais rentáveis) em Portugal, em 2011, encontram-se 40 produções anglo-saxónicas, com alta predominância para as norte-americanas;
2. Entre esses 40 títulos, existem 9 longas-metragens de animação, 10 comédias (no mínimo), 14 filmes de acção e aventura, e 9 filmes que se podem considerar verdadeiramente de autor, todos norte-americanos (Steven Spielberg, Woody Allen, Darren Ardnofsky, J.J. Abrams, Clint Eastwood, Irmãos Coen, Terence Malick e Paul Haggis), com excepção de um inglês (Tom Hooper). Quase todos estes se podem considerar obras de autor, mas com um apelo comercial muito forte;
3. 24 filmes foram distribuídos pela Zon Lusomundo Audioviaul, 11 pela Columbia Tristar Warner, 3 pela CLMC, e 2 outros (Prisaudiovisuais e Big Pictures 2 Films);
4. Não aparece um filme europeu (fora do mercado anglófono), não aparece um filme da América Latina, de África ou da Ásia;
5. Obviamente não surge também uma única obra portuguesa.

A qualidade dos títulos acima referidos é muito diversa. Da obra-prima ao lixo há de tudo. Mas este prevalece em grande quantidade (estas são considerações pessoais, que valem o que valem), e é inegável uma conclusão: o espectador português prefere a diversão e o entretenimento, sem grande preocupação estética ou inquietação social, ideológica ou temática.
O “cinema-pipoca” impõe-se nas salas portuguesas. Devo dizer que não sou um purista anti-pipoca: há filmes que foram realizados para esse ambiente e alguns interessantes e divertidos, nada me custando a mim desfrutá-los com a aludida pipoca. Outros há, porém, que requerem silêncio e recolhimento intelectual. Haverá quanto muito meia dúzia nesta lista.
Observação final: em quadragésimo lugar encontra-se um filme que recolheu 502.551,14 euros, foi visto por 107.944 espectadores, em 5.628 sessões. Mantenham estes números como referência, quando passarem para o quadro seguinte.

segunda-feira, dezembro 26, 2011

CINEMA: NOS IDOS DE MARÇO



 NOS IDOS DE MARÇO 
Há um aspecto curioso na crítica cinematográfica portuguesa que eu arrisco a chamar de mais “conservadora” e “direitista”, apesar de hoje em dia grande parte dela se poder integrar neste rótulo (ao contrário do que aconteceu nos tempos áureos da crítica, nos anos 50, 60 e 70, onde era maioritariamente “de esquerda” e dita “progressista”). Esse aspecto repete-se de filme para filme, quando estes tentam de alguma forma criticar, ou beliscar sequer, o sistema capitalista e as estruturas políticas norte-americanas ou de outros países de democracias ocidentais. Quando surge um filme destes, como o recente caso de “Nos Idos de Março”, a crítica mais insistente é que o título não traz nada de novo e se mostra uma repescagem do cinema “progressista” dos anos 70, de Sidney Lumet, de Martin Ritt, de Sidney Pollack ou Alan J. Pakula.
Curiosamente (e isto só é visível para quem já tenha uns anos destas lides e alguma memória, como é o meu caso), nos anos 70, não estes críticos, mas alguns outros idênticos a estes, diziam que os filmes de Sidney Lumet, de Martin Ritt, de Sidney Pollack ou Alan J. Pakula não traziam nada de novo e repescavam o cinema “progressista” dos anos 30 e 40, onde aí sim, havia John Ford, Frank Capra, William Wyller e quejandos. Ou seja, quando se problematizam questões sociais e poliíticas, o melhor é enxotar a obra e depreciá-la, sobretudo em função do passado, porque esse já parece não incomodar ninguém, encerrado em cinematecas para cinéfilos e curiosos, longe dos olhares do grande público.
Ora “Nos Idos de Março” não será uma obra-prima, mas é um grande filme. Um dos grandes filmes de 2011. George Clooney, depois do seu excelente “Good Night, and Good Luck” (2005) oferece-nos outra obra de profunda reflexão sobre o estado actual da actividade política nos EUA. Não, não é de maneira nenhuma uma “reprise” dos filmes de Sidney Lumet, de Martin Ritt, de Sidney Pollack ou Alan J. Pakula, agora empreendida por um aprendiz. É uma reflexão sobre a falta de integridade e de dignidade que campeia em todas as frentes, quer se trate de democratas ou republicanos, (quase) todos eles imbuídos de um mesmo fervor corruptor em defesas de causas que nada mais move do que o desejo de satisfazer clientelismos e interesses obscuros (ou não tanto obscuros, para quem tiver os olhos abertos).
A acção passa-se durante uma campanha eleitoral para as primárias dos democratas. Em Ohio. Claro que há filmes absolutamente irrecusáveis para comparar, a começar desde logo pela obra-prima de John Ford, “O Último Hurra” (1958), e continuando com “A Última Testemunha” (Paralax View, 1974), de Pakula, “O Candidato”, de Michael Ritchie (1972) ou “Bulworth - Candidato em Perigo” (1998), de Warren Beatty. Mas o filme de George Clooney vai noutra direcção, dispensando a acção exterior, os atentados e a violência física, para se centralizar na palavra e no silêncio, na conspiração e no segredo. Hoje as intrigas não culminam em cenas de tiros ou explosões, com a aniquilação física dos protagonistas. Entrou-se numa fase muito mais sofisticada, aproveitando os computadores e os telemóveis, as agências de “ratting” e os poderes invisíveis. Neste aspecto, relembra mais “O Mundo a Seus Pés” e a forma como se destrói um candidato na sombra dos bastidores. Mas em Orson Welles o candidato era destruído por um mau passo dado na penumbra da alcova de uma cantora de ópera sem talento. Aqui, o candidato salta a barreira de um caso amoroso mal resolvido, com aborto previsto e suicídio transformado em imprevidente acidente, e quem fica com o ónus do caso é um conselheiro, também ele não isento de culpas no cartório, pois neste caso não há anjos e demónios, apenas homens sem palavra nem dignidade. 
Em “The Ides of March”, tal como em Shakespeare, o que impera é a traição: foi a 15 de Março do calendário romano que Júlio César foi apunhalado por Brutus. Traição que agora não se expressa por um apunhalamento sangrento, mas por algo mais subtil, possivelmente mais letal, e sem deixar marcas visíveis: a deslealdade, o volte face, o truque de baixa política que aniquila uma carreira. Resta saber quem é mais esperto e mais veloz no contra-ataque, quem possui as melhores armas e quem melhor as utiliza.
Em “Nos Idos de Março” há vítimas, mas estas são apenas os votantes que aclamam os seus ídolos sem se aperceberem dos seus pés de barro. Nesta campanha, como em qualquer outra rival, de democratas ou republicanos, o que vemos é ausência de valores. Ou como se diz, no final do filme, de integridade e de dignidade. Na verdade, olhando para qualquer lado para onde nos voltemos, a desilusão é mesma. Na América, na Europa, nos Árabes, unidos ou desunidos, na China ou na Coreia do Norte. 
O filme tem um naipe de actores absolutamente notável, digno de um prémio de elenco global, onde sobressaem Ryan Gosling, George Clooney, Philip Seymour Hoffman, Paul Giamatti, Marisa Tomei, Jeffrey Wright, todos excelentes, e uma Evan Rachel Wood, já vista num recente Woody Allen, e que aqui explode definitivamente. Mas para lá da tão elogiada interpretação conjunta, há que sublinhar a cuidadosa realização de Clooney, segura, austera, criando um clima de intriga ciciada que marca todo o filme e lhe confere uma originalidade absoluta, no que é muito bem acompanhada pela banda sonora, a fotografia e todos os demais elementos técnicos ao serviço da narrativa. A câmara de Clooney tão depressa é intimista, num campo / contra campo serrado (as conversas admiráveis de Gosling e Rachel Wood, por exemplo), como isola uma personagem num vasto cenário (com a bandeira dos EUA por pano de fundo) ou um grupo de conspiradores num “décor” que os ultrapassa. Excelente, eficaz, e de uma completa economia de meios.
Creio que este é um dos grandes candidatos aos Oscars que se aproximam.
NOS IDOS DE MARÇO
Título original: The Ides of March
Realização: George Clooney (EUA, 2011); Argumento: George Clooney, Grant Heslov, Beau Willimon, segundo peça teatral deste último ("Farragut North"); Produção: George Clooney, Leonardo DiCaprio, Guy East, Barbara A. Hall, Grant Heslov, Jennifer Davisson Killoran, Randy Manis, Brian Oliver, Stephen Pevner, Ari Daniel Pinchot, Jonathan Rubenstein, Matthew Salloway, Nigel Sinclair, Todd Thompson, Tyler Thompson, Nina Wolarsky; Música: Alexandre Desplat; Fotografia (cor): Phedon Papamichael; Montagem: Stephen Mirrione; Casting: Ellen Chenoweth; Design de produção: Sharon Seymour; Direcção artística: Chris Cornwell; Decoração: Maggie Martin; Guarda-roupa: Louise Frogley; Maquilhagem: Kevin J Edwards, Julie Hewett; Direcção de Produção: Barbara A. Hall, Michelle Lankwarden, Michael Tinger; Assistentes de realização: Ian Calip, John R. Saunders, David J. Webb; Departamento de arte: Benjamin Dell, Jody Gaber, Justin Noble Lang, George Lee; Som: Edward Tise, Elmo Weber; Efeitos especiais: Russell Tyrrell; Efeitos visuais: Jay Shindell; Companhias de produção: Cross Creek Pictures, Exclusive Media Group, Smoke House, Crystal City Entertainment; Intérpretes: Ryan Gosling (Stephen Meyers), George Clooney (Governador Mike Morris), Philip Seymour Hoffman (Paul Zara), Paul Giamatti (Tom Duffy), Evan Rachel Wood (Molly Stearns), Marisa Tomei (Ida Horowicz), Jeffrey Wright (Senador Thompson), Max Minghella (Ben Harpen), Jennifer Ehle, Gregory Itzin, Michael Mantell, Yuriy Sardarov, Bella Ivory, Hayley Meyers, Maya Sayre, Danny Mooney, John Manfredi, Robert Mervak, Fabio Polanco, Frank Jones Jr., Peter Harpen, Rohn Thomas, David McConnell, etc. Duração: 101 minutos; Distribuição em Portugal: Zon Lusomundo Audiovisuais; Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal: 10 de Novembro de 2011.