terça-feira, fevereiro 12, 2013

CINEMA: HITCHCOCK

 
 
 
HITCHCOCK


 
“Hitchcock” não é uma biografia de Alfred Hitchcock, mas o relato de um momento da sua vida, precisamente o que antecede a estreia de “Psyco”, um dos seus filmes de maior sucesso, reunindo elogios da crítica e as benesses da bilheteira. O cineasta acabara de estrear “Intriga Internacional” e fica impressionado com um caso que ocupou as páginas dos jornais e que levou o romancista Robert Bloch a escrever “Psycho”: Ed Gein, um serial killer, atormentado pela imagem da mãe, com quem aliás dormia, não sendo já esta mais do que um cadáver ressequido. Estamos em 1959, Hitch (como gostava de ser tratado, “esqueçam o “cock”, costumava acrescentar) inicia a preparação de um filme algo raro na sua filmografia que o tornara conhecido como o “mestre do suspense”. “Psico” manterá as características de suspense, levando-as mesmo a limites invulgares, mas entra abertamente do terreno do filme de terror. A Paramount, sua produtora na altura, apesar do prestígio do cineasta, não está muito convencida a alinhar nesta aventura demasiado chocante para a época e para os rigores da comissão de censura (apesar de tudo nessa altura já a perder a força de outros tempos). Mas Hitch acredita profundamente nas virtualidades do projecto, abalança-se na realização, mesmo hipotecando casa e piscina, sempre apoiado na sua grande colaboradora de sempre, a mulher Alma Reville, sua secretária, montadora, co-autora de argumentos e inspiradora.
 
 
Claro que para um cinéfilo admirador de Hitchcock, este filme de Sasha Gervasi não deixa de ser interessante, apesar de nada trazer de novo. Vai repescar alguns episódios e frases que tornaram o cineasta mítico, reconstitui com alguma fidelidade o ambiente dos estúdios durante o final da década de 50, mas não vai muito além disso, tanto mais que um dos factores em que apostou deliberadamente, a caracterização das personagens, fica aquém dos resultados pretendidos. Anthony Hopkins, no protagonista, é como sempre um actor excelente, consegue a postura física e o tom de voz do modelo original, mas parece-se muito mais, sobretudo de perfil, com Nicolau Breyner do que com Hitchcock. A magnífica Helen Mirren ergue uma figura interessante, sobretudo na sua disputa de ciúmes com o marido, ele olhando com suspeição a relação da mulher com o escritor Whitfield Cook, ela tendo a certeza das lúbricas intenções do marido para com as suas louras de estimação. Mas as honras da casa vão para Scarlett Johansson (Janet Leigh) e James D'Arcy (Anthony Perkins), que conseguem compor figuras que se aproximam muito dos originais.
 
 
Há situações que julgamos mal resolvidas (a presença obcecante de Ed Gein, como fantasma inspirador, é uma delas), há curiosidades que são interessantes de conhecer (para lá de todo o seu prestígio, Hitch não consegue levar a Paramount a investir capital neste seu novo projecto; Hitch lutando pelo “final cut” apesar de o financiamento da obra ser seu e a Paramount apenas distribuir o filme; “Psico” estreia nos EUA somente em duas salas; a campanha de marketing preparada pelo cineasta, com destacamentos de policias à porta dos cinemas e alarmantes avisos dirigidos aos espectadores, etc.).
Não sendo o grande filme que poderia ser, “Hitchcock” justifica alguma atenção, sobretudo por parte daqueles que gostam de ver o outro lado do cinema, de Hollywood, e dessa fábrica de sonhos. Mas para se conhecer o mestre, o melhor mesmo é ver “Psico” ou “Vertigo”, cuja reposição em cópia nova, remasterizada, anda por aí anunciada, agora que a revista inglesa “Sight and Sound” o considera o melhor filme de sempre, após consulta a algumas dezenas de críticos e cineastas de todo o mundo.
Sacha Gervasi, inglês de nascimento, é talvez mais conhecido como argumentista do que realizador (escreveu, entre outros, “The Big Tease”, 1999, “Terminal de Aeroporto”, 2004, ou “O Crime de Henry”, (2010). Como realizador, é autor de um documentário bem recebido, “Anvil: The Story of Anvil”, antes deste “Hitchcock”. Prepara “My Dinner with Herve”.
 
 
HITCHCOCK
Título original: Hitchcock
Director: Sacha Gervasi (EUA, 2012); Argumento: John J. McLaughlin, segundo obra de Stephen Rebello ("Alfred Hitchcock and the Making of Psycho"); Produção: Alan Barnette, Ali Bell, Joe Medjuck, Richard Middleton, Tom Pollock, Ivan Reitman, John Schneider, Tom ThayerM ; Música: Danny Elfman; Fotografia (cor): Jeff Cronenweth; Montagem:  Pamela Martin; Casting: Terri Taylor; Design de produção: Judy Becker; Direcção artística: Alexander Wei; Decoração: Robert Gould; Guarda-roupa: Julie Weiss; Maquilhagem: Julie Hewett, Maha, Martin Samuel, Kimberley Spiteri; Direcção de Produção: Beverley Ward; Assistentes de realização: Peter Kohn, Brandon Lambdin, Lauren Pasternack; Departamento de arte: Andrew Birdzell, Susannah Carradine, Cristina Colissimo, Kevin Kalaba, Thomas Machan, Daniel Turk; Som: Mildred Iatrou, Jason Johnston, Ai-Ling Lee; Efeitos especiais: Josh Hakian, David Waine; Efeitos visuais: Erik Courtney, Andrew Lewitin, Ken Locsmandi, Kevin London, Bhavini Ashwinkumar Shah, Amir Shahinsha; Companhias de produção: Fox Searchlight Pictures, Cold Spring Pictures, The Montecito Picture Company; Intérpretes: Anthony Hopkins (Alfred Hitchcock), Helen Mirren (Alma Reville), Scarlett Johansson (Janet Leigh), Danny Huston (Whitfield Cook), Toni Collette (Peggy Robertson), Michael Stuhlbarg (Lew Wasserman), Michael Wincott (Ed Gein), Jessica Biel (Vera Miles), James D'Arcy (Anthony Perkins), Richard Portnow, Kurtwood Smith, Ralph Macchio, Kai Lennox, Rita Riggs, Wallace Langham, Paul Schackman, Currie Graham, Spencer Garrett, Terry Rhoads, Tom Virtue, Karina Deyko, Steven Lee Allen, Richard Chassler, Frank Collison, Melinda Chilton, Mary Anne McGarry, Jon Abrahams, Gil McKinney, Emma Jacobs, Spencer Leigh, Sean MacPherson, Gerald V. Casale, Tara Arroyave, Judith Hoag, Josh Yeo, Danielle Burgio, etc. Duração: 98 minutos; Distribuição em Portugal: Big Picture 2 Films; Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal: 7 de Fevereiro de 2013.

quarta-feira, fevereiro 06, 2013

OS CINEMAS DE LISBOA

 

DOS FILMES E DAS SALAS
ONDE ELES SE VÊEM (E SE VIAM)
Neste momento encontram-se em exibição em salas de cinema portuguesas vários filmes de grande qualidade, a maioria dos quais norte-americanos, o que se compreende por esta ser uma regra geral na nossa exibição (não a qualidade, mas o facto dos filmes serem anglófilos), acrescida do facto de nos encontrarmos em vésperas de atribuição de Oscars. Nesta altura do ano costumam acumular-se os filmes nomeados, o que mais uma vez acontece.

“Lincoln”, de Steven Spielberg, “Django Libertado”, de Quentin Tarantino, “00,30 – A Hora Negra”, de Kathryn Bigelow, “Argo”, de Ben Affleck, “Guia para um Final Feliz”, de Davi O. Russell, “Amor”, de Michael Haneke são obras a ver sem hesitação. Mas há mais a considerar: “Os Miseráveis”, de Tom Holland, “A Vida de Pi”, de Ang Lee, são outras hipóteses, com algumas reticências. Acrescente-se-lhes duas estreias recentes, “Bárbara”, de Christian Petzold, e “Seis Sessões”, de Bem Levin. Há muito por onde escolher, e para todos os gostos, do western à comédia, do drama ao filme histórico, do filme de amor trágico ao musical.

Para ver todos estes filmes, porém, hoje em dia há várias hipóteses. Vê-los directamente numa sala de cinema, esperar algum tempo e assistir a eles na poltrona da nossa sala de estar, através de um DVD, de um canal de televisão generalista ou por TV por cabo, ou ter o privilégio de os ver antes de todos os outros sem pagar nada, fazendo um download pirata, via internet. Mau costume é certo, mas uma realidade que não se pode escamotear.

Ver filmes tornou-se, portanto, uma actividade que pode ser levada a cabo através de várias vias. O que não acontecia, por exemplo, nos anos 40 do século passado. Por isso não se pode dizer que a indústria cinematográfica, no que diz respeito à produção, esteja em crise. Em crise estará seguramente a exibição, e, em certa medida, a distribuição (ainda que, neste campo, a associação que existe muitas vezes entre distribuição cinematográfica e edição de DVD atenue ligeiramente a crise no sector).

Por isso, o recente anúncio do encerramento de quase 50 salas no nosso país justifica curiosas, complexas e até contraditórias considerações. São essas salas exemplos arquitectónicos a lamentar? Na maioria dos casos são multiplexes no interior de centros comerciais sem nada que as faça recordar com nostalgia. Eram salas especialmente vocacionadas para cinema de qualidade? Nem por isso. Eram salas comerciais, que faziam negócio, ou, neste caso, deixaram de fazer negócio. Por isso encerram. Leis do mercado concorrencial e da competição desenfreada, portanto, que tanto entusiasma os neo-liberais que nos governam. Eles que se entendam!

Claro que se lamenta que as populações fiquem sem salas onde vejam cinema. Tanto mais que os prejudicados são os poucos que ainda iam ao cinema. Mas tudo isto são consequências de novas tecnologias que não recuam e de hábitos que se perdem e se trocam por novos usos e costumes.

No entanto a memória dessas belas salas de outrora fica para sempre e um livro como “Os Cinemas de Lisboa”, de Margarida Acciaiuoli, numa edição Bizâncio, com 384 páginas de evocações, não pode deixar de nos entusiasmar. A obra tem uma característica que a torna diferente de todas as que até agora se publicaram sobre o mesmo tema: privilegia a arquitectura das salas e enquadra-as na urbanização da cidade. Fala-nos das diferentes épocas e define-as através dos espaços e da relação da sala de cinema com a sua envolvência urbana e humana. Não observa só as salas de cinema, mas a sua conexão com cafés e snacks, com avenidas e estreitas ruas, com o centro da cidade e os bairros periféricos. Recorda as grandes salas, os templos dessa liturgia do século XX, que, para a autora, as viu nascer, as viu explodir na sua magnificência e as viu morrer de morte lenta. Ali se recorda os tempos gloriosos do Monumental e do Império, do São Luís e do Alvalade, do Chiado-Terrasse, do Tivoli, do Éden e tantos outros. Na obra se lembra como ir ao cinema era um acto elegante, que merecia indumentária apropriada, e também um acto social, ia-se para ver e ser visto, para se confraternizar. As grandes salas de cinema foram desaparecendo da cidade e, hoje, vai-se ao cinema nos centros comerciais, no intervalo de umas compras. A história deste percurso é feita de modo notável, pela autora, numa obra onde o rigor caminha a par das memórias afectuosas que todos temos em relação àquela especial sala de cinema que fez a delicia da nossa adolescência, onde vimos os títulos que nos marcaram para sempre, ou onde se namorou, sim porque no escuro da sala de cinema não se viam só os filmes. Também se inventaram muitas histórias de amor feliz ou melodramas de desencontros funestos.

Margarida Acciaiuoli é professora de História de Arte no Instituto de Ciências Sociais e Humanas e tem atrás de si uma importante obra dedicada à arte portuguesa dos séculos XIX e XX, com volumes sobre o pintor Fernando Lemos (ver aqui: Fernando Lemos) (2006, Editorial Caminho) ou as Exposições do Estado Novo (ver aqui: Exposições do Estado Novo) (1998, Livros Horizonte). Da autora espera-se mais sobre o mesmo tema.

segunda-feira, fevereiro 04, 2013

DUAS CRISES EM CONFRONTO: FEVEREIRO

 
Próximas sessões de "Duas Crises em Confronto". Na próxima quinta-feira, pelas 18 horas, lá estarei para apresentar "Peço a Palavra", de Frank Capra.
 
 

quarta-feira, janeiro 30, 2013

CINEMA: LINCOLN


LINCOLN
 
 

Quem espere um filme sobre a Guerra da Secessão nos EUA, apenas irá encontrar uma ou outra cena de batalha, que localiza historicamente o período, que enuncia os adversários e a questão em discussão (a abolição da escravatura nos EUA) e que coloca o problema visto dos dois lados dos contendores. Na verdade, o que interessa essencialmente a Spielberg é um outro aspecto, complexo e pouco conhecido, e que se debate em gabinetes e no Congresso. Ao mesmo tempo que a guerra se aproxima do seu fim, com os estados do sul próximos da rendição, no Congresso irá votar-se a 13ª Emenda que proclama o fim da escravatura. Para Lincoln este é o propósito primordial. Para fazer passar no Congresso este diploma, mostra-se capaz de tudo. Quer que todos os Republicanos (o partido que na altura defende a abolição) assumam esse voto e necessita de pelo menos mais vinte senadores Democratas (que recusam o fim da escravatura), para atingir a percentagem necessária. Portanto, no segredo dos gabinetes, há que fazer mudar o sentido de voto de uns quantos, prometendo-lhes o que for preciso, empregos, promoções, possivelmente benesses. Trata-se de corrupção ao mais alto nível. Tony Kushner, o argumentista desta obra e de “Munique” e “Anjos na América”, baseia-se parcialmente na obra de Doris Kearns Goodwin, "Team of Rivals: The Political Genius of Abraham Lincoln", onde tudo isto estará documentado.
O filme começa por uma rápida cena de batalha, nocturna e lamacenta, violenta e feroz, que relembra a brutalidade de iguais cenas de “O Resgate do Soldado Ryan” ou “Cavalo de Guerra”. Mas rapidamente se passa para a intimidade de uma conversa entre Lincoln e alguns soldados negros que reivindicam direitos e igualdades. Lincoln ouve e está de acordo. Esse será o seu caminho. Obstinadamente irá cruzá-lo até à votação final, derrubando todos os obstáculos que encontra no acidentado percurso. Mas a questão é mais complexa. A guerra tem de ser a pressão necessária para impor a Emenda. Se a paz chegar, se as tropas sulistas se renderem antes do dia da votação, é muito possível que a votação lhe seja contrária. Não pôr fim à guerra é um argumento poderoso para levar avante os seus intentos. Por isso, não pode aceitar a rendição do exército confederado antes da hora certa.
Talvez seja oportuno relembrar um pouco da história: a guerra civil norte-americana começou em 1861, depois de Abraham Lincoln ter sido eleito Presidente da República no ano anterior, com um programa abolicionista, e só terminaria em 1865. Em consequência desta eleição, dez estados do Sul, que se baseavam numa economia latifundiária, estribada no trabalho escravo e na produção de algodão, revoltaram-se, pois viam a sua sobrevivência ameaçada. Criaram em Richmond uma confederação, à frente da qual se encontrava Jefferson Davis. Por outro lado, o Norte, que defendia a abolição da escravatura, tinha interesses igualmente comerciais e lucrativos: a sua economia era sobretudo industrial e tornava-se mais rentável com operários livres do que com o trabalho escravo. Este conflito de interesses desencontrados conduziu à guerra. Morreram mais de 600 mil pessoas. Os confederados sulistas, comandados pelo general Lee, venceram batalhas importantes, como Richmond ou Fredericksburg, mas perderam em Gettysburg ou Petersburg. Os federados nortistas tiveram no general Grant o seu chefe máximo, que mais tarde viria a ser também Presidente da República. Quanto a Abraham Lincoln, dias depois da rendição de Robert Lee a Ulisses Grant, ocorrida no Palácio da Justiça, em Appomatox, na Virgínia, foi assassinado num camarote do Teatro Ford, em Washington, no dia 15 de Abril de 1865. Seria o primeiro Presidente dos EUA a ser assassinado.
 
 
No plano das ideias e da reconstituição histórica, o principal interesse do filme de Steven Spielberg é precisamente desenvolver esta teia de interesses que se desenhava durante a guerra e perante o debate no Congresso. Pondo a claro os processos corruptos que levaram um congressista, precisamente o chefe da ala radical dos Republicanos, a afirmar que “a lei mais importante do século XIX tinha sido aprovada com base em corrupção.”
Desenvolvendo-se numa escrita clássica, sóbria, rigorosa, “Lincoln” traça um retrato da época, nos cuidados ambientes, nos cenários plasticamente de grande beleza, nos adereços e guarda-roupa, na direcção de actores, servida por um magnífico elenco, onde avultam dois soberbos intérpretes, Daniel Day-Lewis, um Lincoln de antologia, sereno, confiante, discreto, impositor, e Tommy Lee Jones, um radical Thaddeus Stevens absolutamente deslumbrante. O filme está nomeado para 12 Oscars e trará para casa certamente alguns deles, tanto mais que a obra se encontra imbuída de um espírito americano que faz apelo a algumas das suas mais celebradas virtudes democráticas, a esperança no potencial humano, a crença nos valores da liberdade e da democracia, os ideais de igualdade e, neste caso, a perseverança de um presidente ciente da justeza de uma luta, o que de certa forma pode ser extrapolado para a actualidade, e ver ali reflectir-se Obama e as suas lutas pelo serviço de saúde. Não se trata tanto de um filme de acção, mas mais de um ensaio cinematográfico sobre os meandros da política, com uma ou outra incursão pela vida privada de certas figuras preponderantes, o que funciona quer para explicitar certos traços psicológicos quer para sublinhar simbolicamente algumas situações. Curioso é ver como a política mantinha uma certa transparência ingénua, onde tudo, ou quase tudo, era permitido dentro dos quadros institucionais. Já falámos da corrupção por uma boa causa, mas haverá ainda que citar um episódio magnífico e para nós hoje verdadeiramente estranho. Mal acaba a votação no Congresso da 13ª emenda, o chefe da ala radical dirige-se à mesa, pede emprestado papel onde esta está redigida (“amanhã trago-o, apenas com um vinco a mais”) e leva-o para casa, para o mostrar a uma senhora negra que o lê. Plano seguinte: ambos se encontram na mesma cama. Afinal o congressista tinha mesmo motivos ponderosos para ser tão radical.
A morte de Lincoln não nos é evitada no final da obra, mas Spielberg opta por uma solução extremamente engenhosa, colocando a sua câmara num outro teatro, onde a notícia é dada aos espectadores, entre os quais se encontra o filho mais novo do Presidente. Spielberg continua igual a si próprio, mestre no entretenimento inteligente, agarrado a ideias e valores que não descura, senhor de um estilo importado dos maiores e que ele cuida de forma devotada. Belo filme sobre um grande homem e uma excelente ideia, mesmo que argamassada sobre vícios e maus costumes. Mas essa é, igualmente, uma das características do cinema norte-americano: repensar erros e dá-los a conhecer, sobretudo se do seu espectáculo puder retirar dividendos económicos. 

 

LINCOLN
Título original: Lincoln
Realização: Steven Spielberg (EUA, 2012); Argumento: Tony Kushner, segundo obra de Doris Kearns Goodwin ("Team of Rivals: The Political Genius of Abraham Lincoln"); Produção: Kathleen Kennedy, Steven Spielberg, Jonathan King, Daniel Lupi, Kristie Macosko, Jeff Skoll, Adam Somner; Música: John Williams; Fotografia (cor): Janusz Kaminski; Montagem: Michael Kahn; Casting: Avy Kaufman; Design de produção: Rick Carter; Direcção artística: Curt Beech, David Crank, Leslie McDonald; Decoração: Jim Erickson, Peter T. Frank; Guarda-roupa: Joanna Johnston; Maquilhagem: Leo Corey Castellano, Kay Georgiou, Dean Jones, Mo Stemen, Mo Stemen;  Direcção de produção: Robert Bella, Susan McNamara, Corey Sklov, John Burton West; Assistentes de realização: Adam Somner, Ian Stone, Eliot John Hagen; Departamento de arte: Richard Blankenship, Alex Brandenburg, Jimmy L. Carmickle, Christina Garnett, Steven Harris, Jim Hewitt, Keith S. Jackson, Tina Allen Pleasants, Josh Sheppard, Karen Teneyck; Som: Ben Burtt; Efeitos especiais: Steve Cremin; Efeitos visuais: Ben Morris, Lee Chan Popo, Sara Trezzi; Companhias de produção: DreamWorks Pictures, Twentieth Century Fox Film Corporation, Reliance Entertainment, Participant Media, Amblin Entertainment, The Kennedy/Marshall Company, Imagine Entertainment, Office Seekers Productions, Parkes/MacDonald Productions; Intérpretes: Daniel Day-Lewis (Abraham Lincoln), Sally Field (Mary Todd Lincoln), David Strathairn (William Seward), Joseph Gordon-Levitt (Robert Lincoln), James Spader (W.N. Bilbo), Hal Holbrook (Preston Blair), Tommy Lee Jones (Thaddeus Stevens), John Hawkes (Robert Latham), Jackie Earle Haley (Alexander Stephens), Bruce McGill (Edwin Stanton), Tim Blake Nelson, Joseph Cross, Jared Harris (Ulysses S. Grant), Lee Pace, Peter McRobbie, Gulliver McGrath, Gloria Reuben, Jeremy Strong, Michael Stuhlbarg, Boris McGiver, David Costabile, Stephen Spinella, Walton Goggins, David Warshofsky, Colman Domingo, David Oyelowo, Lukas Haas, Dane DeHaan, Carlos Thompson, Bill Camp, Elizabeth Marvel, Byron Jennings, Julie White, Charmaine White, Ralph D. Edlow, Grainger Hines, Richard Topol, Walt Smith, Dakin Matthews, James 'Ike' Eichling, Wayne Duvall, Bill Raymond, Michael Stanton Kennedy, Ford Flannagan, Robert Ayers, Robert Peters, John Moon, Kevin Lawrence O'Donnell, etc. Duração: 150 minutos, classificação etária: M7 12 anos; Distribuição em Portugal: Big Picture; Estreia em Portugal: 31 de Janeiro de 2013.

CINEMA: DJANGO LIBERTADO

 
 
 

DJANGO LIBERTADO
 
Creio que os dois melhores filmes norte-americanos nomeados para o Oscar de Melhor Filme de 2013, são “Lincoln” e “Django Libertado”, ambos curiosamente ambientados no mesmo período histórico e abordando igual tema, a escravatura negra. Em nenhum dos casos os realizadores, Steven Spielberg ou Quentin Tarantino, obedecem a qualquer oportunismo político da era Obama: ambos sempre pugnaram por essa causa e ambos têm nas respectivas filmografias exemplos claros disso mesmo. Mas o percurso narrativo e o estilo dos dois filmes são bem diferentes, ainda que as intenções se possam justapor: ambos se batem contra a escravatura, pela igualdade de direitos e pela dignidade humana. Spielberg avança pelo campo da seriedade e da reconstituição histórica, Tarantino joga na cartada da rábula ao western spaghetti, reinventando “Django”, um filme italiano de 1966, dirigido por Sergio Corbucci e protagonizado por Franco Nero. Depois das obras de Sergio Leoni, que são de uma outra constelação, esta de Sergio Corbucci é muito curiosa e, entretanto, tornou-se um “cult movie” que um cinéfilo fanático da série B, como Tarantino, não podia desdenhar. Esta é a sua homenagem, que vai ao ponto de chamar Franco Nero para interpretar um pequeno papel, em jeito de tributo a um dos mais populares actores do western spaghetti, claro que depois de Clint Eastwood (que por acaso era americano e se notabilizou em películas de Leoni).
Mas a inspiração de Tarantino em “Django” fica-se pelo título e pelo estilo. Toda a história é bem diversa e baseia-se numa vingança. As personagens parecem realmente retiradas de um western spaghetti, dada a caracterização brutal, o amoralismo, a baixeza das intenções dos vilões, e os processos nada digno dos anti-heróis.
Tudo começa pelo aparecimento do Dr. King Schultz (Christoph Waltz), um médico alemão que viaja pelo oeste americano numa carroça transformada em clínica dentária, mas que no fundo não passa de um muito eficiente caçador de prémios. Para chegar junto de um gang de irmãos muito cobiçado, tem de libertar um escravo negro, Django (Jamie Foxx), e ambos passam a constituir uma dupla de peso. Um continua a perseguir cadastrados que quer levar às autoridades, vivos ou mortos (de preferência mortos), para arrecadar os prémios prometidos, o outro quer resgatar a noiva, Broomhilda (Kerry Washington), que se encontra escrava numa fazenda de um latifundiário sem escrúpulos (mas quem é que tem escrúpulos neste filme?). Na sua dupla perseguição viajam em conjunto e vão organizando as tarefas com sucesso, até chegarem à propriedade de um verdadeiro tarado sanguinolento, Calvin Candie (Leonardo DiCaprio), que se entretém a ver morrer negros desfeitos pelas dentadas de cães ou a assistir a duelos mortais entre negros mandingos. E chega de falar na intriga que, como em todos os westerns spaghetti, é intrincada, ainda que progrida em linha recta até ao massacre final.
 

Primeira constatação: Tarantino é fiel ao cinema e não à história. Mandingo existe como filme de Richard Fleischer (um dos preferidos do cineasta, segundo revelações do próprio), e a existência ou não real desses combates interessa-lhe pouco. Existem no cinema, é quanto basta. De resto, já vi quem criticasse o aparecimento da KKK, antes de ela ter existido (historicamente e organizada só aparece depois do fim da Guerra da Secessão), mas o que vemos não é a KKK, mas uma pré-KKK que existiu, que parece ter sido conhecida por "The Regulators". Mas a Tarantino, o que interessa é que depois de aparecer no seu filme, passa a existir. O filme não se reclama da fidelidade histórica, quanto muito de uma fidelidade de estilo cinematográfico e de uma coerência ideológica.
Posto isto, se nas sequências finais o massacre atinge um tom de uma violência quase insuportável (o que provocou protestos na América, e o que terá levado a algum constrangimento da Academia nas nomeações, e creio que nos próprios Oscars, o que confirmaremos daqui a alguns dias), a verdade é que todo o filme se desenvolve num tom de paródia, com personagens particularmente bem construídas e divertidas (o Dr. King Schultz, de Christoph Waltz, é uma figura inesquecível, uma das melhores criações da mente pervertida de Tarantino, bem assim como o Calvin Candie, de Leonardo DiCaprio), situações magnificamente sustentadas, uma narrativa nervosa de uma arquitectura quase esquizóide, e uma componente técnica de mestre, desde a sumptuosa fotografia, ao requinte dos ambientes, da inspirada partitura musical à montagem e à sonoplastia. Cremos mesmo que este é dos melhores Tarantinos de sempre. Rapidamente se tornara um cult movie e deixa rasto na história do cinema, mesmo que passe quase desapercebido na cerimónia dos Oscars. Onde se deve sublinhar, todavia, um agradável e bem-vindo regresso de um cinema interventivo, certamente consequência de uma era Obama, incrustada num período de crise que leva os criadores a questionarem a realidade social e política, uma das boas características do cinema norte-americano de esquerda liberal.



DJANGO LIBERTADO
Título original: Django Unchained
Realização: Quentin Tarantino (EUA, 2012); Argumento: Quentin Tarantino; Produção: William Paul Clark, Reginald Hudlin, Shannon McIntosh, Pilar Savone, Michael Shamberg, Stacey Sher, James W. Skotchdopole, Bob Weinstein, Harvey Weinstein; Fotografia (cor): Robert Richardson; Montagem: Fred Raskin; Casting: Victoria Thomas; Design de produção: J. Michael Riva; Direcção artística: Page Buckner, David F. Klassen, Mara LePere-Schloop, Suzan Wexler; Decoração: Leslie A. Pope; Guarda-roupa: Sharen Davis; Maquilhagem: Camille Friend, Heba Thorisdottir; Direcção de produção: Tina Anderson, Marc A. Hammer, Alex G. Scott, James W. Skotchdopole; Assistentes de realização: William Paul Clark, Greg Hale, Melinda Johnson, Teresa Jolene Lee, Leonardo Corbucci, Juana Franklin; Departamento de arte: Ernie Avila, Andrea Babineau, Andrew Birdzell, Caleb Guillotte, Nancy A. King, Molly Mikula, Paul Sonski, Eric Sundahl, Brian Walker, Suzan Wexler; Som: Harry Cohen, Wylie Stateman; Efeitos especiais: John McLeod; Efeitos visuais: John Dykstra, Sheila Giroux, Rachel Faith Hanson, Mohamad Sharil Harees, Tom Rubendall, Wineeth Wilson; Agradecimentos e homenagens: Ralph Bakshi, Sacha Baron Cohen, David Carradine, Sergio Corbucci, Lady Gaga, Joseph Gordon-Levitt, Sid Haig, Isaac Hayes, Sergio Leone, Gordon Parks, Sam Peckinpah, Robert Rodriguez, Richard Roundtree, Kurt Russell, Tony Scott, Michael Kenneth Williams; Companhias de produção: The  Weinstein Company, Columbia Pictures, Brown 26 Productions, Double Feature Films, Super Cool Man Shoe Too, Too Super Cool ManChu; Intérpretes: Jamie Foxx (Django), Christoph Waltz (Dr. King Schultz), Leonardo DiCaprio (Calvin Candie), Kerry Washington (Broomhilda), Samuel L. Jackson (Stephen), Walton Goggins (Billy Crash), Dennis Christopher (Leonide Moguy), James Remar (Butch Pooch / Ace Speck), David Steen (Mr. Stonesipher), Dana Michelle Gourrier (Cora), Nichole Galicia (Sheba), Laura Cayouette (Lara Lee Candie-Fitzwilly), Ato Essandoh (D'Artagnan), Sammi Rotibi (Clay Donahue Fontenot), Miriam F. Glover, Don Johnson (Big Daddy), Franco Nero (Amerigo Vessepi), James Russo (Dicky Speck), Tom Wopat (U.S. Marshall Gill Tatum), Don Stroud (Sheriff Bill Sharp), Russ Tamblyn (filho do pistoleiro), Amber Tamblyn, Bruce Dern (velho), M.C. Gainey, Cooper Huckabee, Doc Duhame, Jonah Hill, Lee Horsley, Zoe Bell, Michael Bowen, Robert Carradine, Jake Garber, Ted Neeley, James Parks, Tom Savini, Michael Parks, John Jarratt, Quentin Tarantino, Amari Cheatom, Keith Jefferson, Marcus Henderson, etc. Duração: 165 minutos; Distribuição em Portugal: Zon Lusomundo; Classificação etária: M/16 anos; Estreia em Portugal: 24 de Janeiro de 2013. 



domingo, janeiro 27, 2013

ORIGINALIDADES

INVICTA FILMES

 
Há quatro temporadas que existe, no Porto, uma iniciativa, criada por mim, com o designação Invicta Filmes, a decorrer semanalmente na Biblioteca Municipal Almeida Garrett. Lembrei-me do nome como homengaem à velhinha "Invicta Filmes", a primeira grande produtora portuguesa, que existiu ainda no período do mudo. Conta com o patrocínio da Câmara Municipal do Porto. Agora a Casa da Música, com uma inspiração súbita, lança uma inicitiva a que chamou, com uma evidente originalidade, "Invicta. Música. Filmes."
Claro que se trata se uma coincidência. Ele há tantas!
 

quarta-feira, janeiro 23, 2013

NA RTP-1, UM TRABALHO NOTÁVEL


PORTUGAL DE PATRÍCIA REIS

Acabei de ver na RTP-1 um documentário belíssimo, “Portugal de Patrícia Reis”. Faz parte de uma série produzida pela “Até ao Fim do Mundo”, ao que soube este é o segundo de um grupo de oito (o primeiro teria sido o “Portugal de José Luís Peixoto”, que infelizmente não vi), Luís Osório conduziu a entrevista à escritora e jornalista e André Banza realizou. Brilhante. Acreditem que tem sido muito difícil eu chamar brilhante a trabalhos da televisão portuguesa. Mas este é-o.

Patrícia Reis é uma mulher fascinante, fica-se facilmente preso ao seu discurso, é certeira na forma como caracteriza os portugueses e Portugal, tem uma forma amarga e terna de nos olhar (de se olhar), gosta de fados e de pastéis de nata e de bolos de bacalhau, atravessa o Tejo e vai à Feira da Ladra, vive na Expo e tem um marido igualmente interessante de acompanhar, apesar de ser do Benfica. Mas enfim, ninguém é perfeito. E a inteligência tudo desculpa.

Depois a realização é notável, de inteligência, de sensibilidade, de acerto na forma como enquadra, como se aproxima das pessoas, como nos restitui climas e ambientes, como se empenha em cada imagem, como recusa a preguiça de encher chouriços, como procura o plano certo para acompanha uma frase.

Fica o aviso: revejam o episódio no site da RTP-1, vale a pena, e estejam atentos a próximas quartas-feiras, cerca das 22 horas. A série promete.

CINEMA: 00:30 A HORA NEGRA

 
 
 00:30 A HORA NEGRA
 

Kathryn Bigelow andou alguns anos a preparar uma carreira que se impôs em definitivo e com algum fragor com “Estado de Guerra”, que em 2009 se tornaria a coqueluche dos Oscars. Mas para trás tinha filmes muito apreciáveis que já apontavam para uma talentosa cineasta. “Depois do Anoitecer” (1987), “Aço Azul” (1989), “Ruptura Explosiva” (1991) e sobretudo “Estranhos Prazeres” (1995) já anunciavam não só um talento narrativo, como uma certa temática pessoal onde a violência ocupa um lugar destacado, pouco comum numa realizadora, e sobretudo uma preocupação por enredos obsessivos e explosivos. “00:30 A Hora Negra” vem confirmar tudo isso e sublinhar algumas qualidades, ao mesmo tempo que reafirma o prazer da autora no confronto polémico. “Zero Dark Thirty” não podia ter sido mais controverso e a vários níveis.
Digamos que a qualidade narrativa, o ritmo frenético que consegue impor às suas obras, roçando a esquizofrenia, o cuidado técnico, o apuro na direcção de actores não deixa dúvidas a ninguém e creio que, não fora as polémicas, que lhe trouxeram vozes críticas da esquerda e da direita, este seria o mais sério candidato aos Oscars de 2013. Mas assim, julgo que as esperanças serão poucas, a não ser para uma quase certeza, a de Jessica Chastain como Melhor Actriz.
“00:30 A Hora Negra”, que parte de um argumento de Mark Boal, que já havia escrito “Estado de Guerra”, era um projecto acalentado há alguns anos a que a morte de Osama Bin Laden, em 2012, veio impor uma reformulação de estratégia. Inicialmente, julga-se que o filme iria acompanhar os esforços da equipa da CIA que tentava localizar, prender ou matar o dirigente da Al-Qaeda, “o mais procurado homem de toda a história dos EUA”, e o que resultaria seriam as tentativas infrutíferas. Com o êxito da missão, a história altera-se completamente. O argumento é reescrito e procura-se a maior fidelidade com o que acontecera em Abbottabad, no Paquistão, aldeia onde Osama Bin Laden acaba por ser abatido. Há um contágio documental no filme que é sobretudo visível na sua primeira hora, com interrogatórios e torturas, perseguições e ciladas, gabinetes da CIA e discussões, e tudo o mais que parece não levar a lado nenhum. Mas desde início temos Maya, uma mulher, que parece ser uma coisa e depois se descobre ser uma outra, totalmente diferente. Julgamo-la tímida e fraca, distante e talvez crítica, para se verificar depois que é fria e calculista, perseverante e dura, obsessiva na sua vingança. Ela será o símbolo da América ferida de morte no 11 de Setembro? Ou pelo menos de uma certa América?
 

Kathryn Bigelow é ela também um retrato de mulher igualmente obsessiva e rigorosa na sua narrativa. Não se preocupa em enfrentar o politicamente correcto e em resvalar para o equívoco. A esquerda liberal americana não lhe desculpa algumas cenas de tortura, a direita radical quer atingi-la, acusando-a de ter tido acesso a informações confidenciais e de o filme ser uma apologia da política de Obama, para estear antes das eleições presidenciais. Julgo que ambas as acusações carecem de fundamento. Nada no filme exalta a tortura, muito pelo contrário. Nada se consegue com ela, e será através de outros meios que se chegará ao esconderijo do “homem mais procurado na Terra”. De resto, ao mostrar cenas de tortura, Kathryn Bigelow confirma que houve tortura, e deixa ao espectador a decisão de a aceitar ou não.
O filme é por vezes chocante, sobretudo na forma como mostra como são tratados, de parte a parte, homens que se abatem com a frieza de quem não tem o mais leve escrúpulo ou consciência. Percebe-se que neste universo de terror e contra terror nada importa, nada tem significado, a vida é um pormenor insignificante que se anula sem pestanejar. De um lado e do outro, repito. Quem assassina e quem responde, quem mata e quem se vinga.
Nesse aspecto, a obra é impressionante na forma como projecta uma imagem de um universo completamente dessacralizado, mesmo quando se mata em nome de princípios e de crenças religiosas ou políticas. Destaque-se enfim a presença fascinante e profundamente perturbadora de Jessica Chastain, uma actriz que em pouco mais de dois anos conquistou os públicos internacionais, com intervenções em filmes como “Procurem Abrigo”, “The Killing Fields - O Campo da Morte”, “As Serviçais”, “A Árvore da Vida” ou “Coriolano”. Tem aqui o papel de uma vida, pela complexidade e ductilidade de que dá sobejas mostras. Mas todo o elenco é notável e a qualidade técnica invulgar, da fotografia à montagem, da direcção artística ao som, da partitura musical à credibilidade dos ambientes criados. Uma excelente realização, num filme obviamente polémico, mas que por isso mesmo merece debate e a controvérsia que o acompanha.  
 
 
00:30 A HORA NEGRA
Título original: Zero Dark Thirty
Realização: Kathryn Bigelow (EUA, 2012); Argumento: Mark Boal; Produção: Kathryn Bigelow, Mark Boal, Megan Ellison; Música: Alexandre Desplat; Fotografia (cor): Greig Fraser; Montagem: William Goldenberg, Dylan Tichenor; Casting: Mark Bennett, Richard Hicks, Gail Stevens; Design de produção: Jeremy Hindle; Direção artística: Ben Collins, Rod McLean; Decoração: Lisa Chugg, Onkar Khot; Guarda-roupa: George L. Little; Maquilhagem: Mahmoud Karjoghly, Natasha Nikolic, Daniel Parker; Direcção de produção: Kaushik Guha, James Masi, Philie Naughtenm, Angela Quiles, Chanpreet Singh; Assistentes de realização: Tarik Afifi, John Mahaffie, Kirti Nandakumar, Ananya Rane, Scott Andrew Robertson, Shyamalee Sharma, Krishan Pratap Singh, David Ticotin; Departamento de arte: Christopher Brändström, Ryan Church, Martin J. Gibbons, Samy Keilani, Chris Kitisakkul, Gurubaksh Singh; Som: Paul N.J. Ottosson; Efeitos especiais: Blair Foord, Richard Stutsman; Efeitos visuais: Chris Harvey, Jeremy Hattingh, Mike Uguccioni; Companhias de produção: Annapurna Pictures; Intérpretes: Jessica Chastain (Maya), Kyle Chandler (Joseph Bradley), Édgar Ramírez (Larry), Joel Edgerton (Patrick), Mark Strong (George), Jason Clarke (Dan), James Gandolfini (director da CIA), Reda Kateb (Ammar), Jennifer Ehle (Jessica), Harold Perrineau (Jack), Jeremy Strong (Thomas), Chris Pratt (Justin), Taylor Kinney (Jared), Mark Duplass (Steve), Frank Grillo (oficial), Stephen Dillane (conselheiro de segurança), Fares Fares (Hakim), Scott Adkins (John), Mark Valley (piloto), Ricky Sekhon (Osama bin Laden), John Barrowman (Jeremy), Christopher Stanley (William McRaven), J.J. Kandel (J.J.), Homayoun Ershadi, Yoav Levi, Eyad Zoubi, Christian Contreras, Lauren Shaw, Jessica Collins, Tushaar Mehra, John Schwab, Martin Delaney, Nabil Koni, Anthony Edridge, Jeff Mash, Callan Mulvey, Siaosi Fonua, Phil Somerville, Nash Edgerton, Mike Colter, Brett Praed, Aron Eastwood, Heemi Browstow, Chris Scarf, Barrie Rice, Robert Young, Spencer Coursen, Chris Perry, Alex Corbet Burcher, Robert G. Eastman, Tim Martin, Mitchell Hall, Alan Pietruszewski, Kevin LaRosa Jr., M.D. Selig, Benjamin John Parrillo, etc. Duração: 157 minutos; Distribuição em Portugal: Zon Lusomundo; Classificação etária: M/16 anos; Data de estreia em Portugal: 17 de Janeiro de 2013.

CINEMA: A VIDA DE PI



A VIDA DE PI
 
Ang Lee nasceu em 1954, em Taiwan, mas vive nos EUA desde há muito. A sua filmografia agrupa um conjunto de excelentes filmes que vão de “O Banquete de Casamento” (1993) ou “Comer Beber Homem Mulher” (1994), até “Sensibilidade e Bom Senso” (1995), “A Tempestade de Gelo” (1997), “Ride with the Devil” (1999), “O Tigre e o Dragão” (2000), “Hulk” (2003), “Chosen” (2001), “O Segredo de Brokeback Mountain” (2005), “Sedução, Conspiração” (2007) até chegar a este recente “A Vida de Pi” (2012), que recebeu várias nomeações para os Oscars de 2013. Todos os títulos atrás referidos são particularmente curiosos e denotam sobretudo um intenso interesse pelo estudo do choque de culturas, de mentalidades, pelo enfrentar de preconceitos, onde a diferença é olhada de soslaio, por vezes com consequências nefastas.
“A Vida de Pi” parte de um romance de Yann Martel que continua a ter grande sucesso mundial e que nos fala de uma estranha aventura, vivida por um indiano, Pi Patel que deve o seu nome ao interesse do pai pelas piscinas francesas.
O filme inicia-se com um diálogo entre o protagonista e um escritor que o visita para conhecer essa invulgar viagem que ocupará o centro do filme. Pi Patel conta-lhe a sua infância passada na India, onde a família tinha um Zoo, até que um dia o pai resolve partir de barco para o Canadá, onde pensa vender a arca de Noé que viaja consigo. Mas uma tempestade tremenda faz naufragar o navio, Pi Patel perde toda a família, consegue içar-se para um bote, onde anda à deriva no Oceano Pacífico, na companhia de um tigre de Benguela (de nome Richard Parker!), e inicialmente também uma zebra, uma hiena e um orangotango, que vão sendo alimento do tigre. 
Não vou revelar muito mais sobre a acidentada jornada marítima, que tem paragem numa fascinante mas feroz ilha povoada por uma multidão de suricatas e vegetação carnívora, mas gostaria de sublinhar dois ou três aspectos da obra que me parecem interessantes. Inicialmente, o facto de Pi Patel ser um coleccionador de religiões, retendo, de cada uma delas, algum ensinamento e proveito. Isso o irá ajudar a sobreviver e sobretudo a criar um universo de fantasia (ou de realidade?) que torna “maravilhosa”, isto é “fantástica”, e muito pouco provável (ou será real?) toda a sua descrição final, quando é confrontado com dois japoneses de uma companhia de seguros que querem saber o que aconteceu a Pi e por que razão naufragou o navio.
 

É neste momento que acontece o diálogo que dá sentido à obra, depois de Pi narrar uma outra história, alternativa da primeira, e muito mais prosaica. Pi pergunta então ao escritor qual a sua versão preferida e qual gostaria de contar no seu romance. Este não hesita e prefere a primeira, com o mar encrespado, o batel carregado de animais, a tempestade enfurecida, a ilha que se transforma do dia para a noite… enfim toda a fantasia que dá cor à vida e lhe retira o colorido quando Pi conta a versão aparentemente mais realista. A simbologia relembra “O Homem que Matou Liberty Valance” que afirmava que “quando a lenda é mais forte que a realidade, o jornalista imprime a lenda”.
“A Vida de Pi” equilibra-se entre o relato de uma aventura maravilhosa e a receita do livro de ajuda, de como saber viver à maneira oriental. Percebo quem detesta a obra, mas também compreendo quem a coloca entre os grandes filmes de 2012. O estilo garrido, colhendo as cores berrantes da Índia tradicional, e a mensagem de uma espiritualidade simples, pode ser visto como kitsch para converter almas fracas e espíritos carenciados, um pouco à maneira de um Paulo Coelho do Hare Krishna, mas não deixa de ser uma aposta curiosa, transformando a obra numa proposta que pessoalmente não recuso e vou mesmo ao ponto de aconselhar.
Não será Ang Lee de melhor colheita, mas em tempo de vacas magras, um tigre de Benguela, ainda por cima chamado Richard Parker, não deixa de surpreender. 
 
 
A VIDA DE PI
Título original: Life of Pi
Realização: Ang Lee (EUA, Taiwan, 2012); Argumento: David Magee, segundo romance de Yann Martel; Produção: Ang Lee, David Lee, Gil Netter, Pravesh Sahni, David Womark; Música: Mychael Danna; Fotografia (cor): Claudio Miranda; Montagem: Tim Squyres; Casting: Avy Kaufman; Design de produção: David Gropman; Direcção artística: Al Hobbs, Ravi Srivastava, James F. Truesdale, Dan Webster, Decoração: Terry Lewis, Anna Pinnock; Guarda-roupa: Arjun Bhasin; Maquilhagem:  Kirstin Chalmers, Barrie Gower, Fae Hammond; Direcção de produção: Sandrine Gros d'Aillon, Kaushik Guha, Marc A. Hammer, Steven Kaminsky, Sanjay Kumar, Michael J. Malone, Sharon Miller; Assistentes de realização: William M. Connor, Renato De Cotiis, Sarah Hood, Nitya Mehra, Tiya Tejpal, David Ticotin; Departamento de arte: Sarah Contant, Shemi Dabhade, Wylie Griffin, Seema Kashyap, Malcolm Roberts, Gurubaksh Singh, Easton Michael Smith; Som: Shalini Agarwal, John Morris, Philip Stockton; Efeitos especiais: Jean-Martin Desmarais; Efeitos visuais: Lubo Hristov; Companhias de produção: Fox 2000 Pictures, Haishang Films, Rhythm and Hues; Intérpretes: Suraj Sharma (Pi Patel), Irrfan Khan (Pi Patel, adulto), Ayush Tandon (Pi Patel, adolescente), Gautam Belur (Pi Patel, criança), Adil Hussain (Santosh Patel), Tabu (Gita Patel), Ayan Khan (Ravi Patel, criança), Mohd Abbas Khaleeli (Ravi Patel, adolescente), Vibish Sivakumar Ravi Patel (19 anos), Rafe Spall (escritor), Gérard Depardieu (cozinheiro), James Saito, Jun Naito, Andrea Di Stefano, Shravanthi Sainath, Elie Alouf, Padmini Ramachandran, T.M. Karthik, Amarendran Ramanan, Hari Mina Bala, Bo-Chieh Wang, Ko Yi-Cheng, Jian-wei Huang, etc. Duração: 127 minutos; Distribuição em Portugal: Big Picture 2 Films; Classificação etária: M/12 anos; Data de estreia em Portugal: 20 de Dezembro de 2012. 



Ang Lee e os protagonistas de "A Vida de Pi"

 

terça-feira, janeiro 22, 2013

TERTÚLIAS DE CINEMA NO ALVALADE CITY

CINEMA NA REITORIA: DUAS CRISES EM CONFRONTO




 Organização
Reitoria da Universidade de Lisboa
Coordenação
Lauro António, Cineasta


 


As sessões realizam-se semanalmente entre 31 de janeiro e 16 de maio de 2013.
Cada sessão inclui, no início, uma apresentação do filme.
Algumas sessões são seguidas de debate com a participação de um ou mais especialistas.
Entrada livre, mas sujeita à capacidade da sala.

Tema: A Grande Depressão dos Anos 30

31 de janeiro | 18h00



AS VINHAS DA IRA (“The Grapes of Wrath”), de John Ford (EUA, 1940), com Henry Fonda, Jane Darwell, John Carradine, etc. 128 min; M/ 12 anos. Legendado em Português. Com debate no final.

7 de fevereiro | 18h00



PEÇO A PALAVRA (“Mr. Smith Goes to Washington”), de Frank Capra (1939), com James Stewart, Jean Arthur, Claude Rains, etc. 105 min. M/ 12 anos. Legendado em Português.

14 de fevereiro | 18h00



BONNIE E CLYDE (“Bonnie and Clyde”), de Arthur Penn (EUA, 1967), com Warren Beatty, Fay Dunaway, etc. 112 min. M/ 16 anos. Legendado em Português.

21 de fevereiro | 18h00



A ROSA PÚRPURA DO CAIRO (“The Purple Rose of Cairo”), de Woody Allen (EUA, 1985), com Mia Farrow, Jeff Daniels, Danny Aiello, etc. 84 min. M/ 12 anos. Legendado em Português. Com debate no final.

28 de fevereiro | 18h00



HERÓIS ESQUECIDOS (“The Roaring Twenties”), de Raoul Walsh (EUA, 1939), com James Cagney, Priscilla Lane, Humphrey Bogart, etc. 103 min. Legendado em Português.

7 de março | 18h00



DO CÉU CAIU UMA ESTRELA (“It’s a Wonderful Life”), de Frank Capra (EUA, 1946), com James Stewart, Donna Reed, Lionel Barrymore, etc. 130 min. M/ 6 anos. Legendado em Português.

14 de março | 18h00



OS CAVALOS TAMBÉM SE ABATEM (“They Shoot Horses, Don't They?"), de Sydney Pollack (EUA, 1969), com Jane Fonda, Michael Sarrazin, Susannah York, etc. 129 min. M/ 12 anos. Legendado em Português.

21 de março



15h00 - DOCUMENTARISMO SOBRE A ÉPOCA (atualidades do tempo do “New Deal”). Em Inglês, sem legendas. Com debate no final.
18h00 - O PÃO-NOSSO DE CADA DIA (“Our Daily Bread”), de King Vidor (EUA, 1934), com Karen Morley, Tom Keene, Barbara Pepper, etc. 80 min. M/ 12 anos. Em Inglês.

28 de março | 18h00



ESPLENDOR NA RELVA (“Splendor in the Grass”), de Elia Kazan (EUA, 1961), com Warren Beatty, Natalie Wood, Pat Hingle, etc. 124 min. M/ 12 anos. Legendado em Português. Com debate no final.


Tema: A Crise Atual

4 de abril | 18h00



“INSIDE JOB” - A VERDADE DA CRISE (“Inside Job”), de Charles Ferguson (EUA, 2010), com Matt Damon 120 min. M/ 12 anos. Legendado em Português. Com debate no final.

11 de abril | 18h00



O DIA ANTES DO FIM (“Margin Call”), de J.C. Chandor (EUA, 2011), com Zachary Quinto, Stanley Tucci, Jeremy Irons, Kevin Spacey, etc. 107 min. M/ 12 anos. Legendado em Português.

18 de abril | 18h00



WALL STREET: O DINHEIRO NUNCA DORME (“Wall Street: Money Never Sleeps”), de Oliver Stone (EUA, 2010), com Shia LaBeouf, Michael Douglas, Carey Mulligan, etc. 133 min. M/ 12 anos. Legendado em Português.

2 de maio | 18h00



HOMENS DE NEGÓCIOS (“The Company Men”), de John Wells (EUA, 2010); com Ben Affleck, Maria Bello, Tommy Lee Jones, Chris Cooper, etc. 104 min; M/ 12 anos. Legendado em Português. Com debate no final.

9 de maio | 18h00



NAS NUVENS (“Up in the Air”), de Jason Reitman (EUA, 2009); com George Clooney, Vera Farmiga, Anna Kendrick etc. 109 min; M/ 12 anos. Legendado em Português.

16 de maio | 18h00



CAPITALISMO: UMA HISTÓRIA DE AMOR (Capitalism: A Love Story), de Michael Moore (EUA, 2009); Com Michael Moore, Thora Birch, William Black, Congressista Elijah Cummings, etc. 127 min. M/ 12 anos. Legendado em Português. Com debate no final.

 

Informações

Reitoria da Universidade de Lisboa
Núcleo Cultural do Departamento de Estratégia e Relações Externas