quarta-feira, julho 10, 2013

CINEMA: HOMEM DE AÇO



HOMEM DE AÇO


Inaugurou-se em Lisboa, no Colombo, uma sala IMAX, 3 D. Já tinha visto várias salas IMAX em diversas cidades, mesmo Vila Franca de Xira já tivera a sua.
IMAX é ecrã maior, maior precisão de imagem, som mais envolvente e mais potente. Em suma, mais de tudo.
Tudo o que tinha visto até hoje em salas IMAX explorava sobretudo as possibilidades das belezas naturais e do património arquitectónico, sempre bem acondimentado nalguns efeitos espectaculares. Muito espectáculo, é verdade, mas nada de muito especial em termos de cinema. Como não sou por natureza negativista nem radical, acredito que dali possam vir experiências a reter.
Mas não foi ainda com “Homem de Aço” que o IMAX se me impôs. Na verdade, cheguei apenas a uma constatação: se um filme é mau, em IMAX é muito pior. Foi esta a minha dolorosa conclusão.
Vejamos: nada tenho contra o “Super-Homem”. Muito pelo contrário. É dos heróis de banda desenhada de que mais gosto. E os filmes com Clark Kent/Superman, interpretados por Christopher Reeves, são dos meus favoritos no domínio dos “comics” norte-americanos adaptados ao cinema (juntamente com “Batman” e “Homem Aranha”).
Fui, pois, ver esta aventura pela curiosidade de experimentar o IMAX do Colombo, e de ver o que tinham feito ao Super-Homem nesta nova versão. Esportulei 10 euros para entrar na sala, munido de óculos e alguma boa vontade, tanto mais que Christopher Nolan, um cineasta que muito prezo, assina argumento e entra na produção, e a realização vinha assinada por Zack Snyder, que tinha dirigido um curioso “300”, muito visual e com algum bom gosto. Mas, quando à saída se entregam os óculos aos solícitos empregados que nos esperam à porta, meu Deus!, que alívio!


Este “Homem de Aço” procura ir aos alicerces da figura e perceber o que aconteceu a esta personagem antes de chegar a ser jornalista no “The Planet”. Tudo começa no planeta “Cripton” à beira de extinção, com facções rivais a disputarem o poder. Jor-El (Russell Crowe) é o pai de um bebé que é o primeiro desde há muito que nasce por processos “naturais”, e juntamente com a sua mulher, Lara Lor-Van (Ayelet Zurer), resolvem salvar o filho e enviá-lo para a Terra a bordo de uma nave. Mas o General Zod (Michael Shannon) fica furioso e jura vingar-se.
Há alguns anos, tinha eu um programa na TVI, um meu espectador habitual escreveu-me um dia comentado que determinado filme tinha muito bons efeitos “pirotécnicos”. Foi uma expressão que não mais esqueci. Pois bem, essas pirotecnias não eram nada comparadas com esta vertigem de imagens e sons que ensurdecem qualquer um e o deixam com os olhos em bico. Por isso, se tiver mesmo que ir ver “Homem de Aço” na sala IMAX, não fique nas primeiras dez filas da frente, que se arrisca a endoidecer. Mas, se for por mim, neste caso, o melhor mesmo é ficar à porta a ver o cartaz.
Com o super miúdo já na Terra, com pais adoptivos (Kevin Costner e Diane Lane), os super poderes começam a manifestar-se para grande felicidade dos efeitos especiais. Há desastres e ameaças de todo o tipo, numa galopante cavalgada para coisa nenhuma, onde chegam, esfalfados e quase sem habitantes nos EUA e arranha-céus em Nova Iorque. O espalhafato é mais que muito, mas qualquer tipo medianamente sensível agradecia que Christopher Reeves voltasse para voar discretamente pelos céus, com Lois Lane nos braços. Nesses filmes havia poesia e lirismo, e voar era uma forma de libertação.
Aqui o “sexy” Henry Cavill, que interpreta o papel de Super-Homem ou Homem de Aço, como preferirem (e, sim, há uma polícia que no final lhe chama “sexy”!), não voa, não é “nem um avião, nem um pássaro”, é um foguete lançado de Cape Canaveral que mal se começa a ver, desaparece no horizonte.
O filme de Zack Snyder tem outra característica tremenda. Dir-se-ia que vai terminar duas ou três vezes e quando se suspira pelo seu término, há sempre mais um vilão que sobrevive para mais uma tremenda contenda nos céus e na terra, com naves a estilhaçarem-se, carros aos soluços, edifícios a desmoronarem-se e a nossa paciência a esgotar-se.


É tudo mau? É tudo muito mau, e em grande, sim. Mesmo os actores que admiramos, e há vários, como as belas Amy Adams, Diane Lane, Antje Traue, Ayelet Zurer, e ainda Michael Shannon, Russell Crowe, Kevin Costner ou Laurence Fishburne, apetece perguntar que andam eles por ali fazer. E já agora, Christopher Nolan, que ideia foi esta de aparecer na produção e na escrita do argumento desta cegada planetária que entontece qualquer um?
É disto que certo público gosta actualmente? Deste completo embrutecimento dos sentidos? Desta descomunal anestesia geral? Bom, aqui não há cinema nenhum. Apetece implorar pelas séries Z de ficção científica dos anos 50 do século passado. Façam favor de não misturarem as coisas: cinema aqui encontra-se talvez numa das salas ao lado.

HOMEM DE AÇO
Título original: Man of Steel

Director: Zack Snyder (EUA, Canadá, Inglaterra, 2013); Argumento: David S. Goyer, Christopher Nolan, segundo personagens criadas por Jerry Siegel e Joe Shuster; Produção: Wesley Coller, Christopher Nolan, Charles Roven, Deborah Snyder, Emma Thomas; Música: Hans Zimmer; Fotografia (cor): Amir Mokri; Montagem: David Brenner; Casting: Kristy Carlson, Lora Kennedy; Design de produção: Alex McDowell; Direcção artística: Chris Farmer, Kim Sinclair; Decoração: Anne Kuljian; Guarda-roupa: James Acheson, Michael Wilkinson; Maquilhagem: Anji Bemben, Victoria Down, Suzi Ostos, Cheryl Pickenback; Direcção de produção: Lisa Gildehaus, Karen Jarnecke, James R. McAllister, Jim Rowe, Andrea Wertheim, Gregor Wilson, Jason Pomerantz (versão IMAX); Sirector de segunda unidade: Damon Caro; Assistentes de realização: Bruce Moriarty, Gordon Piper, Brian Sepanzyk, Clay Staub, Rhonda Taylor; Departamento de arte: Andrea Carter, Steve Jung, Carol Kiefer, Ben Mauro, Ed Natividad, Carie Wallis, Milena Zdravkovic; Som: Eric A.; Efeitos especiais: Allen Hall, Scott Kodrik, Joel Whist; Efeitos visuais: Valdone Cerniute, Sarah Cripps, Isabelle Fleck, Sofus Graae, Danny Huerta, Ashley Irving-Scott, Woojo Jeon, Abigail Mendoza, James Purdy, Max Rees, Rebecca Scott, Ged Wright, etc. Companias de produção: Warner Bros.; Legendary Pictures, Syncopy, DC Entertainment, Third Act Productions; Intérpretes: Henry Cavill (Clark Kent / Kal-El), Amy Adams (Lois Lane), Michael Shannon (General Zod), Diane Lane (Martha Kent), Russell Crowe (Jor-El), Antje Traue (Faora-Ul), Harry Lennix (General Swanwick), Richard Schiff (Dr. Emil Hamilton), Christopher Meloni (Colonel Nathan Hardy), Kevin Costner (Jonathan Kent), Ayelet Zurer (Lara Lor-Van), Laurence Fishburne (Perry White), Dylan Sprayberry (Clark Kent (13 anos), Cooper Timberline (Clark Kent (9 anos), Richard Cetrone, Mackenzie Gray, Julian Richings, Mary Black, Samantha Jo, Michael Kelly, Rebecca Buller, Christina Wren, David Lewis, Tahmoh Penikett, Doug Abrahams, Brad Kelly, David Paetkau, etc. Duração: 143 minutos; Distribuição em Portugal: Columbia TriStar Warner Filmes de Portugal; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 27 de Junho de 2013. 

domingo, julho 07, 2013

FESTIVAL DE ALMADA: SALA VIP



SALA VIP

“Sala Vip” é um texto de Jorge Silva Melo, encenado por Pedro Gil. A peça é uma notável declaração de amor à vida, ao teatro, ao amor. A encenação é magnífica de sensibilidade, de criatividade, numa ligação entre o trágico e o humor, trespassada por um lirismo ácido.
Seis personagens numa sala de espera de um aeroporto. Pertencem todas a uma companhia de ópera. Perderam um voo, uma ligação, o que quer que seja. Perderam um contacto com quem tentam desesperadamente estabelecer uma ligação telefónica. Esperam. Perderam. “Sala Vip” é um lamento sobre a perda, a perda do amor, da juventude, da voz, das ilusões, alguém não volta a encontrar aquelas “deliciosas bolinhas de chocolate com Ovomaltine dentro”. ”Oh, baby, baby, it’s a wild world”, canta-se repetidamente. Perdeu-se o teatro. Perdeu-se a ópera. Perde-se a vida. ”Oh, baby, baby, it’s a wild world”. A sensação de perda avoluma-se, à medida que as personagens mudam de espaço, mas não alteram o desespero. O medo. Medo de tudo. De azeitonas, também.
Escreveu Pedro Gil: “Depois faremos das palavras do Jorge as nossas perguntas: e depois do sucesso? do dinheiro? do orgasmo? do amor? da juventude? E depois do teatro?”. Um mundo desaparece, “desaparece-me”, diz Jorge da Silva Melo. 
Neste panorama negro de desespero é, todavia, possível encontrar essa envolvente declaração de amor à vida, ao teatro, ao amor. Porque a peça é isso mesmo que transmite, porque a encenação é isso mesmo que sublinha, porque os actores é isso mesmo que encarnam. Num mundo em perda constante, temos ali à nossa frente a prova perfeita de que o teatro existe, o amor existe, a vida existe. E tenhamos esperança, haverá algures essas “deliciosas bolinhas de chocolate com Ovomaltine dentro.”
Se o texto é forte, intenso, poético, brutal por vezes, sensível sempre, a encenação é uma demonstração perfeita de maturidade, marcada no ritmo certo, com uma soberba direcção de actores, brilhante no pormenor. Jorge Silva Melo conseguiu encontrar em Pedro Gil o cúmplice perfeito. A mescla de trágico lirismo e de ironia prolonga-se por situações e citações invulgarmente bem conseguidas, desde à invocação do Dr. House à citação “actualizada” do mais célebre diálogo de “Johnny Guitar”. Aliás, as referências cinematográficas são contínuas e como me lembrei de “Violência e Paixão”, de Visconti, ao assistir à representação.
Do elenco fazem parte Andreia Bento, Maria João Falcão, Elmano Sancho, António Simão e João Pedro Mamede, todos eles brilhantes na sua apaixonante fragilidade, construída com uma força, um nervo, uma entrega notáveis. Quantos e tão bons actores há hoje em dia em Portugal!
Não errarei muito se disser que este será seguramente um dos melhores espectáculos de teatro levados à cena este ano em Portugal.

SALA VIP

Texto Jorge Silva Melo; Encenação Pedro Gil; Cenografia e Figurinos Rita Lopes Alves; Músico João Aboim; Luz Pedro Domingos; Com Andreia Bento, Maria João Falcão, Elmano Sancho, António Simão e João Pedro Mamede; Uma produção Pedro Gil, Artistas Unidos e Culturgest. Na Culturgest, de 6 a 9 de Julho. M / 16 anos. 

sábado, julho 06, 2013

FESTIVAL DE ALMADA: I.B.S.E.N.


I.B.S.E.N. 

de Miguel Castro Caldas

“I.B.S.E.N.” traz o nome do dramaturgo norueguês, mas é um original de Miguel Castro Caldas, que agarra nalgumas situações de peças do autor e as organiza a seu belo prazer, manipulando os textos, por vezes com alguma graça e ironia, por vezes desvirtuando-os. Dizem personagens da peça que Ibsen está velho e os seus textos não são para o público de hoje. Se esse é o pensamento de Miguel Castro Caldas o melhor seria deixar Ibsen em repouso. Este aspecto acho-o, portanto, muito controverso, no mínimo.
Mais discutível ainda é a apoteose final com uma manifestação contra as maiorias, exortando que são as minorias (“os sábios”, como se diz) quem deve dirigir a sociedade. Ora nós sabemos que por vezes as maiorias se enganam, mas temos a certeza de que as minorias erram sempre, para qualquer lado que se voltem. Começa-se logo por duvidar de quem é sábio. Quem o define? Quem é o sábio? O que defende o que nós queremos? Depois, os sábios podem ser historiadores e filósofos que proclamam a hegemonia da raça ariana, um grupo de economistas de superior inteligência que defendem o neo-liberalismo, ou uns iluminados defensores da ditadura do proletariado, temos para todos os gostos. Polémico é, portanto, no mínimo, o espectáculo. Que começa, aliás, com uma orientação curiosa, abordando a vida em família e a situação da mulher, para depois enveredar por caminhos ínvios.
De resto, os intérpretes são excelentes, tão bons que nos custa fazer distinções, mas Sara Carinhas é empolgante, e a encenação de Cristina Carvalhal bem inventiva e saborosa, acompanhada a rigor pela equipa técnica e artística ao seu serviço. Seria um belo espectáculo se….

I.B.B.S.M, de Miguel Castro Caldas; Encenação: Cristina Carvalhal; Cenografia e figurinos: Ana Vaz; Adereços: Stephane Alberto; Desenho de luz: José Álvaro Correia; Desenho de som: Sérgio Delgado; Apoio ao movimento: David dos Santos; Fotografia: Susana Paiva; Produção executiva: Mafalda Gouveia; Interpretação: André Levy, David dos Santos, Inês Rosado, João Lagarto, Luís Gaspar, Manuela Couto, Sara Carinhas, Sílvia Filipe, Stephanie Silva, e ainda Berta Bustorff, Carlos Colaço, Carmo Gelpi, Dora Martinez Pinto, Erica Rodrigues, Irene Sofia Vaz, Maria Angelina Mateus, Maria Helena Falé, Marisa Costa, Miguel Brinca, Miguel Viegas, Rita Pascácio, Sandra Cristina Chambel e Xavier Faria Lopes.

Teatro da Trindade, até dia 14 de Julho. Classificação: M/16 anos. 

A ÚLTIMA ENCENAÇÃO DE JOAQUIM BENITE


TIMÃO DE ATENAS


"Timão de Atenas" foi o último espectáculo encenado pelo Joaquim Benite", para a sua Companhia de Teatro de Almada (CTA), onde estreou duas semanas depois da sua morte. A seu lado esteve sempre Rodrigo Francisco que aprendeu com ele, o ajudou no que pode e ocupou o seu lugar posteriormente à frente da companhia e do seu célebre Festival de Teatro, cuja 30ª edição, a primeira sem Benite, se inaugurou no passado dia 4 de Julho.
A peça regressou em Junho ao palco do Teatro Nacional D. Maria II. Só nessa altura a fui ver, pois custou-me ir a Almada, sem Benite. Fomos companheiros de lides durante anos, no “Diário de Lisboa”, ele como crítico de teatro, eu de cinema, e acompanhei com amizade e estima o seu percurso. Sei que o mesmo aconteceu com ele em relação a mim. Por vezes podíamos estar anos sem nos vermos, mas a amizade era real e durável. Acompanhei a sua luta contra a doença e admirei a sua tenacidade, a sua persistência no seu amor ao teatro. No último Festival de Almada seguiu as representações e foi orientando o certame numa cadeira de rodas, nunca abandonando o cigarro que, vá-se lá saber se o consumia ou não, mas lhe dava um evidente prazer.
Escrita no início do século XVII, "Timão de Atenas" parece ter uma autoria polémica. Há quem afirme que se trata de uma obra escrita a quatro mãos, por Shakespeare e pelo poeta e dramaturgo seu contemporâneo Thomas Middleton (1580–1627). Nunca representada anteriormente em Portuga, já havia sido encenada por Joaquim Benite, em 2008, para uma apresentação no Festival de Teatro de Mérida, mas numa versão diferente da actual. Esta é mais económica em meios, mais atenta se possível ao texto e à sua importância crítica.
Benite era um apreciador compulsivo do grande teatro e dos textos eternos que ele respeitava escrupulosamente. A palavra tinha uma importância decisiva para ele. A encenação devia colocar-se ao seu serviço. À palavra e às ideias que a mesma desenvolve em palco. O texto de Shakespeare é rico e pertinaz na crítica: Timão é um grande senhor de Atenas que gosta de dispersar a sua fortuna entre amigos e necessitados. Por isso é bajulado e muito apreciado. Até ao dia em que se descobre falido, passando a eremita no deserto da sua solidão. Todos o abandonam, mas a vingança está para vir, quando descobre ouro debaixo de uma pedra que ocasionalmente levanta no seu percurso. E a roda da sorte volta ao inicio, mostrando que o vil metal amaldiçoa quem o detém, por muito que possa parecer que o ilumina.   
Com apenas um longo estrado em cena e meia dúzia de adereços, Joaquim Benite ergueu um espectáculo bastante interessante, a começar pela excelente tradução de Ivette Centeno, desenvolvida especialmente para esta encenação, cuja interpretação, infelizmente, é bastante desigual, destacando-se, todavia, Luís Vicente, Marques D"Arede, Paulo Matos, Ivo Alexandre e André Gomes, nos principais papéis.

“Timão de Atenas”, de William Shakespeare; Tradução Yvette K. Centeno; Cenário Jean-Guy Lecat; Figurinos Sónia Benite; Luz José Carlos Nascimento; Voz e elocução Luís Madureira; Movimento Jean-Paul Bucchieri; Consultoria musical Fernando Fontes; Intérpretes: Luís Vicente, Marques D"Arede, Paulo Matos, Ivo Alexandre, André Gomes, Alberto Quaresma, Manuel Mendonça, Miguel Martins, João Farraia, Pedro Walter, Celestino Silva, Ana Cris, Joana Francampos, Jeff de Oliveira.
A peça esteve em cena de 20 a 22 de Dezembro de 2012 e de 9 de Janeiro a 3 de Fevereiro de 2013, no Teatro Municipal de Almada, tendo sido reposta em Junho de 2013 no Teatro nacional D. Maria II, em Lisboa.

O trabalho de Joaquim Benite para esta peça deu ainda origem a um documentário da jornalista Catarina Neves, que será estreado durante o 30º Festival de Teatro de Almada. 

quarta-feira, julho 03, 2013

POLÍTICA À PORTUGUESA



O GABINETE DO DR. CALIGARI

Porquê “O Gabinete do Dr. Caligari” agora? No dia 3 de Julho de 2013, em Portugal?
Ora bem, este filme expressionista de 1920 conta uma história muito curiosa. O Dr. Caligari anda de feira em feira com o seu sonâmbulo César a ganhar a vida com espectáculos de sonambulismo. Mas, durante a noite, César vai liquidando os cidadãos. No final, na versão original, que as autoridades alemãs não permitiram que fosse estreada, o Dr. Caligari era o director de um hospício, um verdadeiro louco perigoso, assassino, que dirigia um manicómio. Os seus “doentes” eram consideravelmente menos perigosos que ele. “Apenas” se faziam passar por Napoleão ou outras personagens que tais.
O expressionismo foi a corrente estética que melhor retractou a sociedade alemã do estertor entre os loucos anos 20 e os tenebrosos anos da monstruosidade nazi.
Lamento dizê-lo, mas estamo-nos a aproximar muito desses tempos na Europa de hoje. Em Portugal, a esquizofrenia por que passamos não é um bom sinal. Parece que já estamos num qualquer gabinete de vários drs. Caligari. Nunca se viram tantos reunidos à volta de uma população que vão cozendo em brando lume.
Demite-se um ministro porque está farto e não lhe permitem trabalhar, segundo as suas próprias palavras. Metem no seu lugar uma sua subalterna que, infelizmente, nessa mesma altura atravessa uma crise de confiança grave. Um dos presidentes dos dois partidos da coligação bate com a porta, vai embora irrevogavelmente, e explica que o chefe do governo não lhe dá troco em nada e que ele está farto. Mas, horas depois, o outro dos presidentes dos dois partidos da coligação não aceita a demissão e afirma mais ou menos que nada se passou e tudo vai ficar bem depois de dormirem sobre o assunto. Para este homem nunca há problemas. Ainda há dias o vimos no seu melhor: se o défice público português aumentou no primeiro trimestre deste ano até 10,6% do PIB, prometeu que no próximo trimestre "ainda vai ser melhor". Pois, que dizer agora? Fugiram-lhe dois dos principais ministros? Isto resolve-se.
E nós olhamos e não acreditamos.
Mas há mais gabinetes nesta farsa. Alguém, num gabinete em Belém, apanha com este estado de coisas e pelos vistos vai dizendo que não quer uma crise “política” em cima da crise que vivemos. Ainda será preciso maior crise política do que esta que atravessamos? E qual a proposta? Pois daqui a uns dias ouvir os partidos políticos. Mas o senhor não ouve TV, rádio, não lê jornais? Há neste país alguém mais que precise de “ouvir os partidos”?
Pois eu sou capaz de lhe contar em cinco minutos o que dizem os partidos. O PSD afirma que está bem, afora umas desavenças com o seu colega de carteira, que não gosta da nova ministra. O CDS-PP aponta o dedo ao PSD e explica que este não o deixa ter uma palavra para resolver o problema. Quanto a PS, PCP, BE (e Verdes, não esquecer!) querem eleições já.
Lá fora, outros gabinetes vão mandando bitates para o ar e ameaças concretas: se não se portam bem, cortamos-lhes a mesada. As agências de rating e os bancos exercem o seu terror: há movimentações, corta-se nas bolsas e aumenta-se no crédito.

Enfim: uns bricam a aprendizes de feiticeiro e os outros todos comem por tabela. Tal está a moenga, hein!

segunda-feira, julho 01, 2013

ANTÓNIO RAMA



ANTÓNIO RAMA
Morreu o António Rama.

Nunca trabalhámos juntos, mas vi-o várias vezes pelas companhias por onde ele foi passando, a Casa da Comédia (onde se estreou em 1964), A Comuna, o Teatro Experimental de Cascais, o Teatro Nacional D. Maria II, onde se encontrava desde 1981. No cinema não foi muito assíduo, mas na televisão era um rosto muito conhecido. Admirava o seu amor ao teatro, o seu talento bem expresso nalguns trabalhos, a sua simpatia. O espectáculo em Portugal volta a ficar mais pobre. Infelizmente não consegui ver o seu último espectáculo, para o qual me tinha convidado. Foi há semanas atrás. Mas havemos de nos encontrar por aí, um dia destes. 

sábado, junho 29, 2013

TEATRO: GRANDE REVISTA À PORTUGUESA


GRANDE REVISTA À PORTUGUESA

Os dois ou três últimos espectáculos de Filipe La Féria tinham-nos deixado um certo travo amargo na boca. Não eram maus, mas eram demasiado esforçados, percebia-se que lutava contra muitos entraves, que não eram bem aquilo que ele sonhava, mas apenas o que podia fazer para manter aberto o seu Politeama. Algumas vozes que ouvi consideravam mesmo que La Féria tinha perdido gás, já não era o que era, mas aí está a “Grande Revista à Portuguesa” para demonstrar que o ocaso foi mesmo ocasional, e que La Féria regressou ao seu melhor. Este é um trabalho magnífico, um daqueles espectáculos que os portugueses precisam nesta altura das suas tão amarguradas vidas. Ainda bem que assim é. Eu que, além de tudo o mais, sou amigo e um admirador confesso deste homem de teatro, fico satisfeito e feliz por este regresso em força e em magia.
Eu sei que encenar uma peça de teatro ou um musical não é o mesmo que encenar uma revista. São contextos diferentes e necessitam de aproximações diversificadas. Mas também posso dizer que há muito, possivelmente desde “Passa por Mim no Rossio”, que não via nada com a qualidade desta “Grande Revista à Portuguesa”. O texto é inteligente, bem escrito, crítico, politicamente incorrecto em todas as direcções, mas por isso mesmo eficaz, sem todavia ser derrotista, sem ser anti-democrático. Depois, cenários e guarda-roupa são deslumbrantes, os primeiros jogando quase sempre no apontamento desenhado (muito bem desenhado, diga-se), com uma ou outra apótese, o segundo de um bom gosto e de uma eficácia espectacular sem remoque. Nunca se excedem, sempre na dimensão exacta, sem novo-riquismos escusados. Repita-se: o guarda-roupa de José Costa Reis é daqueles que apetece trazer para casa, com uma combinação cromática e um desenho de formas que nos fazem sonhar. Tudo o resto acompanha a quase perfeição: o desenho de luzes, a coreografia de Marco Mercier (finalmente uma coreografia que não é pífia e pindérica, que é o que mais tem abundado por aí), os vídeos, as canções e a direcção musical.
Finalmente, os actores. Que elenco! Marina Mota, a quem eu um dia chamei “o Futre da revista à portuguesa”, quando o Figo era a Ivone Silva, e quando nós os dois eramos bastante mais novos, e ela dava os primeiros passos na profissão, agora atingiu o patamar de “Cristiano Ronaldo da revista à portuguesa”. Ela é portentosa de vitalidade, de garra, de talento, de graça, de entrega. O seu número do “polícia e do ladrão” fica na História, tal como o do “Prédio” onde ela se multiplica em diversas personagens. Mas tudo o que faz, faz bem.
João Baião é outro caso idêntico e quase poderia utilizar os mesmos adjectivos: vitalidade, garra, talento, graça, entrega, e mais alguns números ficam para a História da revista: ele é brilhante como “Tony Carteira”, como “Roberto”, como obcecado pelo “Facebook”, como “Sócrates”.
Depois, mais vitalidade, garra, talento, graça, entrega e estamos a falar da pequena bomba relógio que é Maria Vieira. Ela é “Ela”, é “Guia”, é a Madre Superiora do “Convento dos Segredos”, ela é “Fafá”, ela explode em cada aparição. Outro tanto se pode dizer de Ricardo Castro, notável como mordomo de Sócrates, como “Joana Vais Conhecê-los”, como “Lula”, como La Féria, num número que recorda a “Audição do Pedrinho”. Está ali um grande actor, na tradição de um Vasco Santana que por vezes relembra.
Maria Vieira, João Baião e Filipe Albuquerque (atenção a este nome!) oferecem-nos ainda um divertidíssimo quadro de “Angolanos às Compras”. Não me venham falar de resquícios de racismo, é puro humor crítico do melhor, que não poupa brancos, amarelos, vermelhos ou negros.
Há ainda Bruna Andrade, Rui Andrade, Vanessa, Patrícia Resende, Adriana Faria, corpo de baile, e etc. e tudo a correr sobre esferas. O número da “Marioneta” é bater numa tecla já gasta, poderia ter-se encontrado outra forma de mudar de cenário, mas é apenas um pormenor.
Que bom é ver actores no seu habitat natural, dando o melhor de si mesmo. Que pesaroso foi ver Marina nalguns episódios televisivos onde se percebia como desbaratava talento. Que bom é vê-la ali no palco, a regurgitar de vida.
Que bom é ir ao teatro e sair com esta sensação de plenitude, de fartura, mesmo neste tempo de vacas magras. La Féria consegue o milagre de fazer uma revista à portuguesa que poderia estar num palco de Paris, Londres ou Nova Ioque e continuar a ser muito boa. Que o público lhe não falte, pois todos quantos a conceberam e diariamente lhe dão vida bem o merecem.

O Teatro Politeama comemora agora 100 anos de existência. Não poderia ter melhor prenda de aniversário.


quarta-feira, junho 26, 2013

CINEMA: CAÇADORES DE CABEÇAS

JO NESBO 
E “CAÇADORES DE CABEÇAS”

1.JO NESBØ

Jo Nesbø é norueguês. Escritor de policiais, foi corrector de bolsa, jornalista, e ainda vocalista e compositor da banda pop Di Derre. Hoje em dia, é um dos escritores nórdicos de maior sucesso. Dele li tudo o que se encontra traduzido para português, e tornei-me num dos seus leitores compulsivos. Da série Harry Hole, um curioso inspector de polícia, cuja existência literária se inicia em 1997, com “Flaggermusmannen”, a que se segue, em 1998, “Kakerlakkene”, conheço “O Pássaro de Peito Vermelho” (Rødstrupe, 2000), “Vingança a Sangue-Frio” (Sorgenfri, 2000), “A Estrela do Diabo” (Marekors, 2003) e “O Redentor” (Frelseren, 2005), recentemente lançado em Portugal pela sua editora de sempre, a D. Quixote. Existem mais quatro volumes da mesma série a aguardar tradução: “Snømannen” (2007), “Panserhjerte” (2009), “Gjenferd” (2011) e “Politi” (2013). Para lá desta série policial, Jo Nesbø escreveu ainda livros infantis, integrados igualmente numa série, Doktor Proktor, de que se conhecem cinco títulos, e ainda outros romances e novelas, como “Karusellmusikk” (2001), “Det hvite hotellet” (2007), e “Caçadores de Cabeças” (“Hodejegerne”, em inglês “Headhunters”, 2008), este último igualmente policial, mas independente da série do inspector Harry Hole.            
Jo Nesbø é um excelente escritor, unanimemente considerado como tal. Não é só um talentoso escritor "de policiais", mas um romancista de têmpera, que levou o New York Times a dizer que a Noruega já tinha dado homens como Henrik Ibsen e Edvard Munch mas também o escritor de bestsellers Jo Nesbø”. A CNN, por seu lado, vai mais longe, mas na mesma perspectiva: “O próximo Munch ou Ibsen pode ser Jo Nesbø … e, se existir alguma justiça, um dia destes Harry Hole será tão grande como Harry Potter”. Como se pode perceber, trata-se de um escritor bem cotado, numa altura em que o policial nórdico impera no campo literário e começa a ombrear com as produções norte-americanas, no plano televisivo e cinematográfico.
A mãe era bibliotecária, o que certamente levou Nesbø a interessar-se desde muito cedo por literatura, mas os estudos não lhe corriam de feição, preferindo a prática de futebol, tendo-se tornado jogador profissional do Tottenham Hotspur FC e depois do Molde FC. Afastou-se do desporto quando alguns problemas do joelho o forçaram a abandonar a carreira. Cumpriu o serviço militar no norte da Noruega, enquanto estudava. Começou a tocar numa banda de garagem chamada I De Tusen Hjem, ingressando depois na banda Di Derre. Entretanto, iniciou a actividade como corrector da bolsa, de que se fartou rapidamente. Viajou para a Austrália, pouco tempo depois de uma editora o ter convidado a escrever um livro. Começou a escrever o romance “Flaggermusmannen” durante o voo para a Austrália e, quando regressou a Oslo, trazia a obra na bagagem. Enviou o manuscrito para a editora Aschehoug, sob o pseudónimo de Kim Erik Lokker, procurando que a sua relativa fama como músico não interferisse no processo de avaliação da obra. O livro foi um sucesso e alcançou prémios como “Rivertonprisen” (melhor romance policial da Noruega) e “Glassnøkkelen” (melhor romance policial da Escandinávia). Os seus sucessivos trabalhos ganharam diversos prestigiados galardões e uma popularidade imensa. “Snømannen”, por exemplo, vendeu 160 000 exemplares na primeira semana nas livrarias. Até meados de 2008, Nesbø tinha conseguido vender mais de meio milhão de livros só na Noruega e estava traduzido em cerca de quarenta línguas. Em 2009, Nesbø foi agraciado com o prémio de reconhecimento pelo público da revista “Dagbladet”, pois tinha três dos seus títulos no top da lista de romances mais vendidos na Noruega.

Tem recebido vários convites para a série Harry Hole ser adaptada ao cinema e à televisão, mas tem afirmado que não gostaria que isso acontecesse antes de a mesma estar concluída. “Caçadores de Cabeças”, todavia, não fazendo parte deste grupo acabou por ser realizado em 2010, por Morten Tyldum, com Aksel Hennie no papel principal. Curiosidade adicional: os direitos de autor do livro, bem assim como os lucros que o filme reúna, serão doados à Fundação Harry Hole, que ajuda crianças, em países em desenvolvimento, a aprender a ler e escrever.

2. ALGUNS ROMANCES DE JO NESBØ
O mais recente livro de Jo Nesbø a chegar a Portugal, em tradução, é “O Redentor”. Como (quase sempre) passado em Oslo, desta feita durante um inverno gelado. Numa movimentada rua da capital norueguesa, o Exército de Salvação dá um concerto de Natal, quando subitamente se ouve um estrondo e um dos elementos do Exército cai, fulminado por um tiro à queima-roupa. Harry Hole, o inspector, é chamado ao local, com a sua equipa, e não encontra nada a que se agarrar, nem suspeito, nem arma do crime, nem móbil. Em paralelo, vamos acompanhando a fuga do assassino, que rapidamente percebe que não acertou em quem devia, mas sim num irmão com muitas semelhanças. Sabe-se que vem da Sérvia, a guerra da Bósnia paira sobre todo este ambiente pesado e, à medida que se vê cada vez mais cercado, o fugitivo enfrenta as agruras do frio nórdico, da ausência de dinheiro, da falta de um local para se abrigar, da solidão, da presença cada vez mais próxima do perspicaz Harry Hole. 
Mais uma vez o crime, a política internacional, as instituições religiosas estão na base deste trabalho empolgante, onde perpassa igualmente um curioso retrato da sociedade norueguesa. 

Os outros títulos da série Harry Hole já traduzidos para português são “O Pássaro de Peito Vermelho”  (2000), “Vingança a Sangue-Frio” (2000) e “A Estrela do Diabo” (2003). No primeiro destes três a acção volta a decorrer em Oslo, mas Harry Hole, que se percebe ter sido um alcoólico, em recuperação e recentemente transferido para o Serviço de Segurança Pública, é encarregue de vigiar Sverre Olsen, um neonazi corrupto que escapou à condenação devido a um pormenor técnico, o que transporta a intriga para os derradeiros dias da II Guerra Mundial. Por entre traições, vinganças, assassinatos que ameaçam multiplicarem-se, confundindo tempos históricos, a batalha de Leninegrado, os nazis noruegueses e os skinhead da actualidade. 

“Vingança a Sangue Frio” mantém o mesmo tipo de intensidade dramática e o suspense que caracteriza a escrita de Nesbø. Desta feita, tudo começa com um “hold up” invulgarmente violento: através das imagens das câmaras de vigilância vê-se um homem a entrar num banco de Oslo e a apontar uma arma à cabeça da mulher que se encontrava na caixa, exigindo que esta conte até vinte e cinco. Como não consegue o dinheiro a tempo, executa friamente a jovem caixa, e leva consigo dois milhões de coroas norueguesas. O inspector Harry Hole é o elemento destacado para investigar o caso. Entretanto, Harry debate-se com problemas pessoais. Enquanto a namorada viaja até à Rússia, uma antiga paixão regressa e entra em contacto com ele. Anna Bethsen, artista que enfrentava dificuldades financeiras, convida Hole para jantar, este não consegue resistir ao convite, mas a noite termina de uma forma estranha e, ao acordar, Hole sente uma fortíssima dor de cabeça, descobre o seu telemóvel desaparecido, e perdeu a memória do que se passou nas últimas doze horas. Para agravar a situação, Anna é encontrada morta na sua cama, com um tiro na cabeça, e o inspector recebe e-mails ameaçadores. Obviamente alguém está a tentar culpá-lo por esta morte inexplicável, enquanto os assaltos a bancos prosseguem com incomparável brutalidade.

Ainda da série Harry Holle é “A Estrela do Diabo”, com Oslo a sufocar numa onda de calor. Neste verão tórrido, uma jovem é assassinada no seu apartamento, apresentando um dedo cortado e, debaixo de uma pálpebra, descobre-se um pequenino diamante vermelho com o formato de um pentagrama. Harry Hole e Tom Waaler, um colega em quem ele não confia, são chamados para tomar conta do caso. Tom faz jogo duplo, trabalha para um bando de traficantes de armas, e Harry desconfia que está implicado no assassinato da sua antiga parceira de armas. Harry continua com problemas com o álcool, debate-se com os seus superiores, e este caso é uma bóia de salvação. Dias depois, outra mulher é dada como desaparecida, surgindo um dedo dela cortado e adornado com um diamante vermelho com a forma de uma estrela. Percebe-se que há um serial-killer à solta. Desmascarar Tom Waaler, e deitar a mão ao assassino são duas prioridades que se descobrem interligadas e que põem em risco de vida o próprio inspector. 



3. HEADHUNTERS - CAÇADORES DE CABEÇAS


Finalmente, o derradeiro romance de Nesby em edição portuguesa é “Caçadores de Cabeças”, que não tem Harry Hole como protagonista, mas sim Roger Brown, um “caçador de cabeças”, ou seja de talentos que descobre para colocar em empresas de sucesso. Mas é também um sedutor ladrão de obras de arte. Casado com Diana, uma “belíssima, alta e elegante” dona de uma galeria de arte, vive num apartamento luxuoso, leva uma vida bem acima das suas posses, e aproveita-se dos conhecimentos da mulher e dos contactos que faz para engendrar a troca de originais preciosos por cópias sem valor.
Numa inauguração da galeria, a mulher apresenta-o a Clas Greve, um holandês riquíssimo e bem colocado na vida, e Harry percebe que não pode deixar escapar aquela oportunidade. Clas Greve não é apenas o candidato perfeito ao cargo de director-geral que ele tem de recrutar para a Pathfinder, como ainda tem em seu poder o famoso quadro de Rubens, “A Caça ao Javali de Caledónia”. Este seria um golpe que o deixaria independente economicamente. Mas nem tudo corre bem e Jo Nesbø oferece-nos uma perturbadora panorâmica sobre o mundo da alta finança, das grandes empresas, da elite industrial e de um submundo larvar de assassinos contratados e burlões.


“Caçadores de Cabeças” é a única adaptação ao cinema que conhecemos de uma obra de Jo Nesbø, apesar de já existirem outras e de se anunciar que um remake desta mesma está já a ser produzido por estúdios norte-americanos, para ser dirigido pelo inglês Sacha Gervasi, o mesmo que escreveu o argumento de “Terminal de Aeroporto”, de Spielberg, e que realizou o recente “Hitchcock”. Fala-se igualmente na possibilidade Martin Scorsese vir a rodar um filme retirado de uma outra obra de Nesbø.
“Headhunters”, realizado por Morten Tyldum, numa produção da Noruega e da Alemanha, conta com Aksel Hennie como intérprete da personagem de Roger Brown, um excelente actor que consegue dar espessura e credibilidade à figura e erguer sobre ela este policial que, não sendo uma obra-prima, se mostra todavia bastante eficaz de um ponto de vista de escrita, bem doseado em suspense e habilmente fotografado, fazendo sobressair a luz fria dos países nórdicos, que confere ao mesmo uma tonalidade azulada e metálica que se coaduna bem com o ambiente pretendido.
O filme não consegue a qualidade do romance, sobretudo no tom de discreta mas verrinosa ironia anti-établissement que Jo Nesbø lhe inculca, mas satisfaz as necessidades do entretenimento inteligente e elegante, muito embora algumas cenas mais sangrentas de um epílogo um pouco fantasioso, mas vibrante. Outros actores, como Nikolaj Coster-Waldau (Clas Greve) e Synnøve Macody Lund (Diana Brown), asseguram uma competência de representação muito boa, o que só vem dignificar a qualidade dos trabalhos oriundo deste país, e que ombreiam com outros de diversos países nórdicos.
Se a literatura policial por estas bandas desencadeou um boom de interesse público a nível mundial, não é menos verdade que as suas cinematografias conseguem acompanhar este entusiasmo num nível de produção industrial que nada fica a dever à dos países anglo-saxónicos. Para já não falar da produção cinematográfica de autor, que é bastante importante e significativa nesta última década, com a revelação de novos nomes e de obras extremamente sugestivas. 

4. FILMES RETIRADOS DE OBRAS DE JO NESBØ:

DEADLINE TORP (TV) 
Realização: Nils Gaup (Noruega, 2005); Argumento: Nils Gaup, Håkan Lindhe, Jo Nesbø, Segundo ideia de Dag Erik Pedersen; com Danilo Bejarano, Emil Forselius, Jørgen Langhelle, Sverre Anker Ousdal, etc.

FERDIG MANN
Realização: Søren Kragh-Jacobsen (Dinamarca, Noruega, 2010); Argumento: Jo Nesbø (poema); com  Abdulahi Abdikafi, Mohammad Abdullah, Mohamed Adel, etc. 6 minutos.


HEADHUNTERS - CAÇADORES DE CABEÇAS
Título original: Hodejegerne
Realização: Morten Tyldum (Noruega, Alemanha, 2011); Argumento: Lars Gudmestad, Ulf Ryberg, segundoo romance de Jo Nesbø; Produção: Anni Faurbye Fernandez, Marianne Gray, Lone Korslund, Christian Fredrik Martin, Paul Røed, Asle Vatn, Mikael Wallen; Música: Trond Bjerknes, Jeppe Kaas; Fotografia (cor): John Andreas Andersen; Montagem: Vidar Flataukan; Casting: Jannecke Bervel; Design de produção: Nina Bjerch Andresen; Guarda-roupa: Karen Fabritius Gram; Maquilhagem: Stuart Conran, Rick Marr, Jim Udenberg; Direcção de produção: Trond Mjøs; Assistentes de realização: Martin Ersgård, Nina Samdal; Departamento de arte: Monja Wiik; Som: Tormod Ringnes; Efeitos especiais: Mark Hedegaard, Hummer Høimark, Claus Nørregård; Efeitos visuais: Lars Erik Hansen; Companhias de produção: Friland, Yellow Bird Films, Nordisk Film, ARD Degeto Film; Release Date: Intérpretes: Aksel Hennie (Roger Brown), Nikolaj Coster-Waldau (Clas Greve), Synnøve Macody Lund (Diana Brown), Eivind Sander (Ove Kjikerud), Julie R. Ølgaard (Lotte), Kyrre Haugen Sydness (Jeremias Lander), Valentina Alexeeva (Natasja), Reidar Sørensen (Brede Sperre), Nils Jørgen Kaalstad (Stig), Joachim Rafaelsen, Mats Mogeland, Gunnar Skramstad Johnsen, Lars Skramstad Johnsen, Signe Tynning, Nils Gunnar Lie, Baard Owe, Sondre Abel, Morten Hennie, Irina Eidsvold, Kyrre Mosleth, Martin Furulund, Mattis Herman Nyquist, Torgrim Mellum Stene, Camilla Augusta Hallan, Anjum Salwan, etc. Duração: 100 minutos; Distyribuição em Portugal: Vendetta Filmes; Classficação etária: M/ 16 anos, Estreia em Portugal: 13 de Junho de 2013.

ARME RIDDERE
Realização: Magnus Martens (Noruega, 2011); Argumento: Magnus Martens, segundo ideia de Jo Nesbø; com Kyrre Hellum, Mads Ousdal, Henrik Mestad, etc.

I AM VICTOR (TV) 
Realização: ??; (EUA, 2013)
Argumento: Mark Goffman, segundo romance de Jo Nesbø; com John Stamos, Matthew Lillard, Josh Zuckerman, Lorenza Izzo, etc. (em produção).

DOKTOR PROKTORS PROMPEPULVER

Realização: Arild Fröhlich (Noruega, 2014); Argumento: Johan Bogaeus, segundo obra de Jo Nesbø; com Eilif Hellum Noraker, etc. (em produção).

quarta-feira, junho 12, 2013

CINEMA: GANGSTERS DA VELHA GUARDA



GANGSTERS DA VELHA GUARDA
 
Val (Al Pacino) sai da cadeia depois de cumprir 28 anos de pena. À porta, tem um antigo companheiro de armas, Doc (Christopher Walken). Ambos são velhos gangsters, com a idade bem estampada no rosto e o corpo sem a desenvoltura de outrora. Depois de umas horas passadas entre um bordel e um pequeno restaurante, com uma ida a uma farmácia onde se abastecem fraudulentamente de remédios e afrodisíacos, e depois de cumpridas algumas obrigações e devoções, resolvem ir às quatro da manhã buscar o terceiro elemento do antigo gang, Hirsch (Alan Arkin), que ainda está pior que eles, mas continua um ás a conduzir pelas avenidas de Los Angeles.
Parece o reencontro de amigos, velhos amigos neste caso, na linha de um “A Ressaca”, desta feita não a comemorarem a despedida de solteiro e a proximidade do casamento, mas a celebrarem uma truculenta saída nocturna de um lar de terceira idade. Cada um deles está mais afanado que os outros, mas há um problema complexo a nublar o ambiente: Doc foi incumbido, por um sinistro gangster, de matar Val nas próximas vinte e quatro horas. E todos sabem disso, mas resolvem aproveitar o tempo que resta até às dez horas da manhã seguinte. Usufruir do tempo e da amizade que sobrevive. Que acontecerá?, eis o que a película nos irá desvendar. Mas percebe-se que estamos no campo do filme de gangsteres e no velho esquema de glorificar um tipo de conduta que respeita regras e códigos de honra.
 

 
A tradição deste estilo de obras é longa e honorável. Basta relembrar alguns títulos do francês Jean Pierre Melville, tão injustamente esquecido e que foi mestre neste género. Mas há vários outros exemplos a seguir, e não só no campo do filme de gangster, também, por exemplo, no western. “A Quadrilha Sevagem”, de Sam Pechinpah, “Dois Homens e Um Destino”, de George Roy Hill, são alguns bons exemplos desse código de honra que une pela amizade foras-da-lei com ética.
O mesmo se poderá dizer do aproveitamento de velhas glórias do cinema, emparceiradas em duplas nostálgicas. Que me lembre, assim de repente, há “Os Duros”, de Jeff Kanew, com Burt Lancaster e Kirk Douglas, “Como Pescar Uma Italiana Sem Partir a Cana”, de Howard Deutch, ou “Dois Novos Rabugentos”, de Donald Petrie, ambos com Jack Lemmon e Walter Matthau, “Desafio de Gigantes”, de Robert Aldrich, com Lee Marvin e Ernest Borgnine, para só citar alguns. Curiosamente, ou são rabugentos ou procuram demonstrar que mantêm a virilidade bem a postos, digna de uma boa disputa, quer seja aos murros entre homens ou em contendas mais íntimas, por entre lençóis. Que o diga Alan Arkin, neste “Stand Up Guys”, que segreda aos ouvidos das miúdas que o levam para uma “ménage à trois” algo de profundamente excitante, que nós nunca saberemos o que é, tal como na “Belle de Jour”, de Buñuel, mas que torna a noite inesquecível. Uma cena bem divertida, nesta obra irregular, assinada por um Fisher Stevens um pouco molengão, mas eficaz, que conduz pastosamente a primeira parte deste filme, para lhe imprimir alguma vitalidade na segunda.
 

 
Bem fotografado e iluminado, orquestrado de forma inspirada, não será um grande filme, mas permite um contacto sempre bem-vindo com três veteranos (Al Pacino, Christopher Walker e Alan Arkin), que se devem ter divertido um pouco a interpretar esta escapada nocturna, bem acompanhados por um naipe de miúdas giras e talentosas (Julianna Margulies, Lucy Punch, Addison Timlin, Vanessa Ferlito e Katheryn Winnick). Se estivéssemos no Verão, seria uma boa hipótese de passar umas horas de verão. Mas como a tróica até o Verão levou, é um filme de meia estação que não entusiasma, mas também não deslustra.
 

GANGSTERS DA VELHA GUARDA
Título original: Stand Up Guys
Realização: Fisher Stevens (EUA, 2012); Argumento: Noah Haidle; Produção: Matt Berenson, Ted Gidlow, Sidney Kimmel, Gary Lucchesi, Bingham Ray, Eric Reid, Tom Rosenberg, Jim Tauber, Bruce Toll; Música: Lyle Workman; Fotografia (cor): Michael Grady; Montagem: Mark Livolsi; Casting: Deborah Aquila, Tricia Wood; Design de produção: Maher Ahmad; Direcção artística: Thomas T. Taylor; Decoração: Kathy Lucas; Gurda-roupa: Lindsay McKay; Maquilhage: Kim Ayers, Bill Corso, Robert Wilson; Direção de produção: Ted Gidlow, Valerie Bleth Sharp; Assistentes de realização: Matthew Heffernan, Casey Mako, Darrin Prescott, Scott Andrew Robertson, Jonas Spaccarotelli; Departamento de arte: Brett McKenzie; Som: Derek Vanderhorst, Mandell Winter; Efeitos especiais: Bart Dion; Efeitos visuais: Thomas Duval; Companhias de produção: Lionsgate, Sidney Kimmel Entertainment, Lakeshore Entertainment; Intérpretes: Al Pacino (Val), Christopher Walken (Doc), Alan Arkin (Hirsch), Julianna Margulies (Nina Hirsch), Mark Margolis (Claphands), Lucy Punch (Wendy), Addison Timlin (Alex), Vanessa Ferlito (Sylvia), Katheryn Winnick (Oxana), Bill Burr (Larry), Craig Sheffer, Yorgo Constantine, Weronika Rosati, Courtney Galiano, Lauriane Gilliéron, Arjun Gupta, Aliya Astaphan, Brandon Scott, Roland Feliciano, Andrew Staes, Jeffrey Cole, Eric Etebari, Susann Fletcher, Earl Carroll, Eve Brenner, Jay Bulger, Donnie Smith, Sam Upton, Buster Reeves, Rick Gomez, Sami Samvod, etc. Duração: 95 minutos; Distribuição em, Portugal: Zon Audiovisuais; Classificação etária: M/12 anos; Data de estreia em Portugal: 6 de Junho de 2013.

terça-feira, junho 11, 2013

TEATRO: O CAMPEÃO DO MUNDO OCIDENTAL



 
O CAMPEÃO DO MUNDO OCIDENTAL
 
"Sempre gostei das peças em que se abre uma porta. Aqui, quem entra pouco depois de se levantar o pano, é mesmo inesperado. Atrapalhado, tímido, receoso, inseguro, olhando para todos os lados, aquele rapaz roto e sujo traz consigo mentiras, fantasias, histórias que vai inventando à nossa frente. Não é isso a vida, histórias que vamos inventando para sobreviver à dureza dos dias, à sujidade das nossas correrias? É pelo menos isso o que penso que pode ser o teatro: uma porta de onde nos chega a vida, as mentiras, os sonhos de grandeza, a sedução, o irreprimível desejo. Ao querer fazer este texto vibrante que iniciou o teatro europeu do século XX (estreou em 1907 e ainda não deixou de marcar o que se faz), quero, com os maravilhosos actores que agora há, voltar a pensar que realismo e poesia, invenção e atenção confluem sempre no teatro, sempre frágil. E, tal como nos disse um dia o grande dramaturgo grego Dimitris Dimitriadis (que ainda não conseguimos estrear), 'voltar a contar histórias, voltar a fazer entrar personagens nos palcos que Samuel Beckett esvaziou para sempre'. Sabe tão bem voltar ao teatro. E fazer aquela coisa tão difícil: rir e enternecer-se." - Jorge Silva Melo
 

Foi na última representação que tive oportunidade de ver “O Campeão do Mundo Ocidental”, do irlandês Edmund John Millington Synge (16 de Abril de 1871 – 24 de Março de 1909), mais conhecido por J. M. Synge, que Jorge da Silva Melo encenou no Teatro Nacional D. Maria II, num espectáculo belíssimo. Esta que é considerada a mais importante criação dramática do autor teve a sua estreia em Janeiro de 1907, no Abbye Theatre, em Dublin, com uma recepção inicial violentamente adversa, nela incluindo a do líder nacionalista Arthur Griffith, que achou a obra pouco política, corriqueira em demasia na sua linguagem, oferecendo mesmo uma imagem degradante da situação moral da Irlanda. Mas o grande poeta Yeats, no dia seguinte, insurgiu-se contra os manifestantes e os protestos pararam. Mas a obra, entre a comédia e o drama, de difícil catalogação e de não fácil interpretação, apesar de percepção escorreita, ainda hoje foge a um enquadramento tranquilizador, o que faz parte da sua sedução.

A acção decorre numa aldeia irlandesa, Aran (há que ver “O Homem de Aran”, par se perceber a aridez trágica da paisagem e a dureza da vida dos habitantes que vivem no alto de ravinas com o mar aos pés), e o cenário é único: uma taberna local onde, por essa porta de que fala Jorge Silva Melo, entra um jovem aparentemente tresloucado, “atrapalhado, tímido, receoso, inseguro, olhando para todos os lados”, contando uma história bizarra: acabara de matar o pai com um golpe de sachola na cabeça. A filha do dono da loja, o pai e os amigos, as raparigas da aldeia, as mulheres e os homens do burgo fazem-no, desde logo, herói, mesmo “campeão”, quando algum tempo depois ganha todas as provas disputadas entre os habitantes lá da terra. Não há condenação moral, há mesmo uma forte cumplicidade geral para o esconder e ajudar à sobrevivência. As raparigas e as mulheres disputam o seu amor, a demonstração de virilidade, o casamento. Infelizmente, um dia o pai chega, com uma ligadura à volta da cabeça a encobrir o galo que afinal não fora fatal, e a auréola do “campeão” esbate-se num ápice. De herói para a cobarde e mentiroso. A ironia é feroz, o ritmo empolgante, a sucessão de cenas deixa o espectador suspenso da inquietação e de uma certa incomodidade.
 

Com belíssima cenografia e excelentes figurinos de Rita Lopes Alves, que nos restituem o clima, isolado e denso, do interior da taberna e nos deixam adivinhar a vertigem do exterior, "O Campeão do Mundo Ocidental" impõe-se ainda pelo magnífico trabalho de actores de um sólido elenco, onde será justo destacar as interpretações de Elmano Sancho, Maria João Pinho, Américo Silva e Maria João Falcão.
Em conversa, no final do espectáculo, Jorge Silva Melo chamou-me a atenção para um facto interessante: esta peça, e o teatro de J. M. Synge, terão tido, por diversas vias, influência directa nas obras de John Ford (americano por nascimento, mas irlandês de coração, veja-se “A Taberna do irlandês”) e Charlie Chaplin (inclusive na criação da personagem de Charlot). Mesmo o britânico Hitchcock, que trabalhou com várias actrizes que interpretaram “The Playboy of the Western World”, não terá sido alheio a alguma sugestão.
Última curiosidade: com o título “O Valentão do Mundo Ocidental”, António Pedro encenou esta peça, no Teatro Experimental do Porto, em 1958, com Dalila Rocha, Vasco de Lima Couto, José Pina, Égito Gonçalves, Baptista Fernandes, João Guedes, entre outros. Mais tarde, o Teatro da Malaposta, em 1994, voltou a produzir o espectáculo, com José Airosa e Ana Nave nos protagonistas, com encenação de Rui Mendes. Em 2007, o Cendrev, no Teatro Garcia de Resende, de Évora, recriou a peça, numa nova encenação de José Russo, com Nelson Boggio na figura de Christy.  

O Campeão do Mundo Ocidental (The The Playboy of the Western World) - Texto de J. M. Synge; tradução Joana Frazão, com apoio à tradução de Ireland Literature Exchange; encenação Jorge Silva Melo; cenografia e figurinos de Rita Lopes Alves; coreógrafo de lutas: Sérgio Grilo; luz de Pedro Domingos; produção de João Meireles; assistente de encenação: Mirró Pereira e Américo Silva; co-produção: TNDM II / Artistas Unidos; Intérpretes: Elmano Sancho, Maria João Pinho, Américo Silva, Maria João Falcão, Rúben Gomes, João Vaz, António Simão, Nuno Pardal, João Delgado, e os estudantes da ESTC Rita Cabaço, Isac Graça, Catarina Campos Costa, Nídia Roque, Daniela Silva, João Reixa, Bernardo Souto, Nuno Geraldo.