segunda-feira, agosto 12, 2013

TEATRO: MARAT-SADE NO TEC

MARAT-SADE

O Teatro Experimental de Cascais tem em cena “Marat-Sade” de Peter Weiss, numa encenação de Carlos Avilez, com um elenco de várias dezenas de intérpretes, entre actores da companhia e alunos do curso de teatro. São cerca de 90 pessoas a intervir, um acontecimento “impossível” de acontecer num teatro em Portugal, actualmente, senão em circunstâncias muito especiais, como é o caso. 
“Marat-Sade: a perseguição e assassinato de Marat tal como representado pelos pacientes do Hospício de Charenton sob a direcção de Marquês de Sade” (em alemão Die Verfolgung und Ermordung Jean Paul Marats dargestellt durch die Schauspielgruppe des Hospizes zu Charenton unter Anleitung des Herrn de Sade) foi escrita pelo alemão Peter Weiss, em 1963, e desde logo conheceu grande sucesso e provocou larga polémica. A acção decorre no ano de 1808, em tempo napoleónico, quinze anos depois do assassinato de Marat, às mãos de Charlotte Corday, em 1793. Estamos numa época pós-revolucionária, onde existem revolucionários para todos os gostos e tendências, quase todos vítimas das suas próprias acções e palavras: Marat, Robespierre, Danton, o próprio Sade. A peça coloca frente a frente Sade e Marat, numa discussão filosófica e política sobre a revolução, vista de um prisma individual (Sade) e de uma óptica social radical (Marat). A ideia é que a peça a que assistimos, na sala de banhos do hospício, foi escrita e encenada por Sade, e está a ser representada pelos loucos ali internados. Há entrechoque de interesses e de perspectivas diversas, o que torna aliciante este teatro épico, que fica a dever muito ao teatro da crueldade de Artaud e ao distanciamento de Brecht.


O conceito é brilhante, o seu desenvolvimento notável, de uma inteligência e actualidade gritantes, e o espectáculo erguido na sala do Teatro Municipal Mirita Casimiro não deixa de ser um acontecimento a merecer os maiores encómios, quer pela encenação imaginativa e lúcida de Avilez, como pela direcção de um elenco muito jovem na sua maioria que, sabiamente dirigido, consegue fazer esquecer que quase todos são alunos de uma escola de teatro. Assisti a uma representação onde estava presente o primeiro elenco (existiram três durante a sua representação) e devo dizer que, apesar de ser difícil identificar nomes no meio de um tal grupo, não poderei deixar de salientar a presença de David Esteves, em Marat, Laura Stone, em Simonne, Pedro Caeiro, em Coulmier, Jani Zhao, em Arauto (apesar de algum excesso de voz, por vezes), ou o mais tarimbado António Marques, em Sade, entre muitos outros. David Esteves é mesmo uma revelação, com excelente presença, magnífica dicção e uma desenvoltura que faz adivinhar um grande actor.
A mescla de dança, música, entremez, representação funciona muito bem, relembrando aqui e ali a concepção de 1966, de Peter Brooks, que encenou a peça em teatro e, posteriormente, dirigiu uma versão cinematográfica notável.
A sala do TEC tem estado esgotada e a última sessão acontece terça, 13 de Agosto. A não perder.


“Marat-Sade: a perseguição e assassinato de Marat tal como representado pelos pacientes do Hospício de Charenton sob a direcção de Marquês de Sade” (Die Verfolgung und Ermordung Jean Paul Marats dargestellt durch die Schauspielgruppe des Hospizes zu Charenton unter Anleitung des Herrn de Sade), de Peter Weiss.

Versão e Dramaturgia: Miguel Graça; Encenação: Carlos Avilez; Cenografia e Figurinos: Fernando Alvarez; Música original: R. C. Peaslee; Coreografia: Natasha Tchitcherova; Apoio vocal: Ana Ester Neves; Apoio contexto histórico: Ana Coelho; Apoio às patologias: Cristina Rego; Direcção Musical: Maestro Hugo Neves Reis; Assistência de direcção musical: Pedro Sousa; Músicos: Alexandre Andrade, trompete | André Mota, percussão | Bernardo Marques, harmónio | Dina Hernandez, flauta | Gil Gonçalves, tuba | Hugo Reis, guitarra e percussão | Pedro Sousa, contrabaixo; Gravação e Edição da Banda Sonora: Maestro Hugo Neves Reis e Pedro Sousa; Direcção de montagem: Manuel Amorim; Montagem e Sonoplastia: Augusto Loureiro; Montagem e Contra-regra: Rui Casares; Assistência de encenação: Pedro Caeiro e Renato Pino; Assistência de ensaios e Operação de luz: Jorge Saraiva; Produção e Comunicação: Elsa Barão; Secretariado: Inácia Marques; Contabilidade: Ana Landeiroto; Cabeleiras: Gena Ramos; Toucados: Virgínia Rico; Interpretação: António Marques, Fernanda Neves, Luiz Rizo, Pedro Caeiro, Renato Pino, Sérgio Silva, Teresa Côrte-Real, Ana Fernandes, Andreia Valles, Beatriz Bonzinho, Brandão de Mello,  Bruno Bernardo, Carlos Braz, Carlos Trindade, Miguel Ferraria, Carolina Evaristo, Catarina Névoa, Cláudia Barbosa, David Esteves, David Filipe Fernandes, Gonçalo Lucas, Inês Frias Moreira, Inês Realista, Jani Zhao, Joana Lobo, Joana Caetano Calado, João Cachola, João de Vasconcelos, Laura Stone, Mariana Graça, Matilde Oliveira, Patrícia Godinho, Pedro Jorge, Rafael Costa, Raquel Rosado, Rita Correia, Rita Silvestre, Rui Lemos, Rui Westermann, Sílvia Braga, Simão Vaz, Simão Soveral Rodrigues, Tatiana Freire, Teresa Alves e alunos dos 1º e 2º anos da Escola Profissional de Teatro de Cascais; Teatro Experimental de Cascais; Teatro Municipal Mirita Casimiro, Estoril; Classificação: maiores de 16 anos.  

domingo, agosto 11, 2013

CINEMA: O MASCARILHA


O MASCARILHA

Em boa hora decidiram o realizador Gore Verbinski, o produtor Jerry Bruckheimer e a Walt Disney erguer uma aventura-paródia que recupera muita da graça e da desenvoltura do primeiro capítulo das aventuras dos “Piratas das Caraíbas”. Parece que em termos de resultados de bilheteira o resultado não tem sido brilhante, mas mais me ajuda este facto. Os tempos não estão para aventuras prazerosas e divertidas, poucos querem saber da recuperação de clássicos, muito poucos procuram nestes blockbusters de verão outra coisa que não seja ruído e pirotecnia os mais gratuitos possíveis. Tudo o que não faça pensar, mas que sobretudo atordoe e embruteça os sentidos, é bem-vindo. Por isso se compreende que o mais curioso e divertido blockbuster deste estio seja o que mais prejuízo esteja a dar (ainda que, em boa verdade, todos estejam a ser um fracasso, na maioria dos casos merecidíssimo!). Mas “O Mascarilha” é realmente um divertido e trepidante espectáculo, um entretenimento quase sem mácula (talvez menos uns minutos de duração o beneficiasse), bem realizado, muito bem interpretado, magnificamente concretizado ao nível da concepção plástica (cenários, guarda-roupa, adereços, etc.), tecnicamente impecável (desde a fotografia até aos efeitos visuais, passando pela partitura musical).
Mas realmente o mais interessante é a própria concepção do espectáculo, a forma como recupera a figura de “O Mascarilha”), um herói dos anos 30 que inicialmente surgiu na rádio, depois passou a banda desenhada, depois a episódios de televisão e também ao cinema.

Um pouco mais de detalhe no historial não ficará mal: “The Lone Ranger” teve a sua aparição pública na Rádio WXYZ, em Detroit, Michigan, EUA, a 30 de Janeiro de 1933. Durou até 3 de Setembro de 1954. Não era vulgar um herói deste tipo surgir na rádio, inicialmente. Mas foi assim que o criaram George Washington Trendle e o seu grupo de criativos que entregaram a escrita a Fran Striker (e depois a Fred Foy, entre 1948 e 1954). The Lone Ranger tem uma tradução difícil, não da parte de Lone, solitário, mas de Ranger, que era uma polícia especial do Texas, que se destinava sobretudo ao meio rural. Em Portugal, quando passou a banda desenhada foi chamado “O Mascarilha”, pois a personagem que cavalgava um cavalo branco, de nome Silver, e andava sempre associada a um índio, Tonto, usava sempre uma mascarilha. Era solitário porque no início da história os vilões malvados tinham exterminado todos os outros rangers, restando apenas um que usava mascarilha precisamente para que não o reconhecessem como sobrevivente do massacre. No seu conjunto, era uma figura muito semelhante “Zorro”, mas as diferenças são acentuadas. Desde logo Zorro era um aristocrata da Califórnia, de origem sul-americana, dado o seu verdadeiro nome, Dom Diego de la Veja. O “Mascarilha” não tinha ascendência tão prestigiante.
The Lone Ranger não era tão “lone” assim, pois andava sempre acompanhado por um índio, Tonto, seu fiel camarada de aventuras, que o herói havia um dia salvado in extremis. Nalgumas aventuras tinha como aliado um sobrinho, Daniel Reid, que no filme de Gore Verbinski foi substituído por um irmão, Dan Reid.


Depois da rádio, surgiu a banda desenhada. Primeiramente como tira de jornal, lançada pelo King Features Syndicate, distribuidor norte-americano de “histórias aos quadradinhos” pelos jornais, o que aconteceu entre 1938 e 1971. Inicialmente concebido por Ed Kressy, foi substituído em 1939 por Charles Flanders, que se manteve até o final. Em 1981, existiu outra banda desenhada, esta escrita por Cary Bates e desenhada por Russ Heath, que se estendeu até 1984. Em 1948, a Dell Comics lançou as aventuras em revista, com 145 edições, com reproduções dos jornais, ao lado de produção inédita. De 1962 a 1977, a Gold Key Comics continuaria com as revistas, até 1977. Tonto também teve sua revista própria, em 1951, com 31 edições, assim como o cavalo Silver, lançado em 1952, com 34 edições. Em 2010, a Dynamite Entertainment anunciou um “crossover” onde o Mascarilha se cruzava com o verdadeiro Zorro. A história chamava-se “The Lone Ranger: The Death of Zorro”.
No cinema, The Lone Ranger surgiu em 1938, uma produção da Republic Pictures, um serial de 15 jornadas, com realização de William Witney e John English, e interpretado por Lee Powell, no principal papel e o Chefe Thundercloud como Tonto. Curiosamente, estes filmes em episódios eram interpretados por cinco Texas Rangers e os espectadores só muito mais tarde descobriram qual era o mascarilha. Os cinco eram George Lentz (George Montgomery), Lane Chandler, Hal Taliaferro, Herman Brix (Bruce Bennett) e Lee Powell, que só no final seria revelado ser o verdadeiro herói. Em 1939, foi realizada uma continuação, “The Lone Ranger Rides Again”, desta feita com Robert Livingston no papel de Lone Ranger, ao lado do mesmo Chefe Thundercloud como Tonto, Duncan Renaldo e Jinx Falken.


Houve outras tentativas: Clayton Moore e Jay Silverheels interpretaram “The Lone Ranger”, em 1956, sob direção de Stuart Heisler, e “The Lone Ranger and the Lost City of Gold”, em 1958, com realização de Lesley Selande. Em 1981, nova tentativa de relançar o herói, com “The Legend of the Lone Ranger”, uma realização fracassada de William A. Fraker, com Klinton Spilsbury, Michael Horse e Christopher Lloyd. “The Lone Ranger” (2003) foi uma tentativa de telefilme, com assinatura de Jack Bender, tendo no elenco Chad Michael Murray, Nathaniel Arcand e Anita Brown, que voltaria a não interessar o público.


E chega de história. De 2013 é esta versão de Gore Verbinski, que se inica em 1933, em São Francisco, quando um miúdo visita uma barraca de feira, onde se encontram algumas reproduções do wild west. Entre elas, um modelo de Tonto, velho e ressequido, que subitamente se anima e começa a contar as suas aventurtas ao lado do Mascarilha. Muito à maneira de “O Pequeno Grande Homem”. Mas não se pense que esta referência é única. Nada disso. Os argumentistas (Justin Haythe, Ted Elliott e Terry Rossio) são cinéfilos encartados e admiradores de westerns clássicos, e desde “O Homem que Matou Liberty Valance” a “As Portas do Paraíso”, de “Cavalo de Ferro” a “A Desaparecida”, não páram de sugerir recordações. Claro que esta referência a obras-primas pode deixar “O Mascarilha” distante. É verdade. Mas o facto de os ter como originais a relembrar é bom sinal, tanto mais que as citações não são apenas para encher o olho. O que se faz é um trabalho de absorção, de assimilação, mas como paródia, como irónica menção. O resultado é quase sempre bastante bom. Depois, isso permite passar por todos os estereótipos do género, desde o comboio a alta velocidade, as pontes e as minas, os índios, os brancos, os negros, os chineses, as grandes planícies, o Grand Kenyon, as paisagens de John Ford, os desfiladeiros traiçoeiros, os cavalos, as pistolas, os vilões, os agentes da lei que gostam de fazer justiça pelas próprias mãos e o advogado que acredita na nova ordem e na justiça institucionalizada. Enfim, há de tudo para todos os gostos e bem condimentado, com ritmo, mas sem histeria estereofónica, com momentos de repouso do guerreiro (e do espectador), contemplativos quase, onde é permitido aos actores representarem, gozarem o prazer da paródia, do olhar, do gesto.


Uma obra-prima? Não, certamente. Mas um daqueles filmes de puro entretenimento que sabe bem disfrutar. Com bons actores (Johnny Depp é excelente numa composição como ele gosta, e que me atrevo a dizer, como só ele sabe impor sem cair no ridículo).
Seria uma enorme injustiça votar este filme ao ostracismo. Se os críticos portugueses (quase todos) não gostam deste tipo de cinema, é lá com eles. Mas os espectadores não devem perder esta lufada de ar fresco.

O MASCARILHA
Título original: The Lone Ranger

Realização: Gore Verbinski (EUA, 2013); Argumento: Justin Haythe, Ted Elliott, Terry Rossio; Produção: Jerry Bruckheimer, Johnny Depp, Eric Ellenbogen, Ted Elliott, Eric McLeod, Chad Oman, Terry Rossio, Mike Stenson, Gore Verbinski; Música: Hans Zimmer; Fotografia (cor): Bojan Bazelli; Montagem: James Haygood, Craig Wood; Casting: Denise Chamian; Design de produção: Jess Gonchor; Direcção artística: Jon Billington, Naaman Marshall, Iain McFadyen, Brad Ricker, Domenic Silvestri; Decoração: Cheryl Carasik; Guarda-roupa: Penny Rose; Maquilhagem: Gloria Pasqua Casny, Joel Harlow; Direcção de produção: Thomas Hayslip, Mark Indig, Todd London, Jason Pomerantz; Assistentes de realização: Charles Gibson, David Kelley, Simon Warnock; Departamento de arte: Marisa Frantz, Ricardo Guillermo, Scott Herbertson, Jim Hewitt, Jonas Kirk, Greg Papalia, Sara M. Pennington, Siobhan Roome; Som: Christopher Boyes, Gary Rydstrom; Efeitos especiais: John Frazier; Efeitos visuais: Christopher Blasko, Gary Brozenich, Rachel Galbraith, Jack George, James Greig, Clayton Lyons, Ale Melendez, Sara Moore, Meghan O'Brien, Allison Paul, Holly Price, DeAndra Stone, Mark Van Ee; Companhias de produção: Walt Disney Picture, Jerry Bruckheimer Films, Blind Wink Productions, Classic Media, Infinitum Nihil, Silver Bullet Productions; Intérpretes: Johnny Depp (Tonto), Armie Hammer (John Reid (Lone Ranger), William Fichtner (Butch Cavendish), Tom Wilkinson (Cole), Ruth Wilson (Rebecca Reid), Helena Bonham Carter (Red Harrington), James Badge Dale (Dan Reid), Bryant Prince (Danny), Barry Pepper (Fuller), Mason Cook, JD Cullum, Saginaw Grant, Harry Treadaway, James Frain, Joaquín Cosio, Damon Herriman, Matt O'Leary, W. Earl Brown, Timothy V. Murphy, Gil Birmingham, Damon Carney, Kevin Wiggins, Chad Brummett, Robert Baker, Lew Temple, Joseph E. Foy, etc. Duração: 149 minutos; Distribuição em Portugal: Zon Audiovisuais; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 8 de Agosto de 2013.

quinta-feira, agosto 08, 2013

CINEMA: A MELHOR OFERTA



A MELHOR OFERTA


Perdi-o aquando da estreia em salas. Recuperei-o agora, em DVD. Um dos melhores filmes de 2013, seguramente. Giuseppe Tornatore, o autor de “Cinema Paraíso”, seu grande triunfo internacional, parece ter sido amaldiçoado em terras nacionais, pois nunca mais um filme seu teve um notório sucesso crítico, e mesmo de público. No entanto, depois de 1988 (data de "Nuovo Cinema Paradiso") ele dirigiu um significativo número de obras dignas de referência, como “Estão Todos Bem”, “Uma Simples Formalidade”, “O Homem das Estrelas”, “A Lenda de 1900”, “Malèna”, “A Desconhecida” ou “Baarìa”.
De todas as formas, “A Melhor Oferta” é um belíssimo filme, original no tema, elegante no estilo, tenso no ritmo. Fascinante na forma metafórica como aborda uma história de amor invulgar. Não por acaso o protagonista chama-se Oldman, é um antiquário e avaliador de objectos de arte, director de uma das mais conceituadas casa de leilões da Europa, situada em Viena. Frio, distante, solitário, este homem que conserva as mãos sempre envolvidas em luvas e comemora os aniversários nos melhores restaurantes, mas sempre só, ignora aparentemente os sentimentos. Nunca conheceu mulher ou o amor e as emoções, encerra-as numa sala cofre da sua casa, onde colecciona retratos de mulheres de todas as épocas da história da arte. Esta galeria privada, de valor incalculável, e adquirida ao longo de toda uma vida, com a colaboração de um amigo que vai licitando as peças desejadas, é o seu local de repouso do guerreiro, afastado do mundo, resguardado, defendido do exterior por uma porta blindada.


Um dia, porém, esta calma é perturbada pela aparição de um fantasma que desencadeia a sua curiosidade. Uma mulher jovem, Claire, vive sozinha num velho palacete quase em ruínas, recusando-se a sair à rua, negando-se a qualquer contacto com outras pessoas. Aparentemente trata-se de um caso de agorafobia. Mas Claire possuiu uma vasta colecção de obras de arte e quer desfazer-se delas. Chama Oldman para preparar o leilão, sem todavia nunca se mostrar. O que começa por uma questão incómoda passa a curiosidade, depois a obsessão, finalmente a paixão. Oldman vive obcecado por aquela mulher misteriosa, que ele começa por espiar e que, finalmente, se desvenda a seus olhos. Senhor de uma fortuna imensa e de uma honorabilidade profissional inquestionável, acaba por descuidar a vida privada e o trabalho, procurando a cumplicidade de um jovem restaurador de objectos de arte, que se entretém a recuperar um robot metálico do século XIX, com peças que Oldman vai descobrindo na cave da mansão de Claire.
Por aqui nos temos que deter, mas há que sublinhar que toda esta intriga serve para estabelecer curiosas afinidades entre o amor e arte, a verdade e a mentira, a falsificação e o original. Oldman é um obstinado coleccionador de originais, mas declara que existe sempre algo de autêntico, “mesmo numa falsificação”. Em Claire, ele encontra um duplo de si próprio: ela vive afastada de todos, com terror das multidões, ele vive fechado sobre si próprio, com medo da mulher (excepto daquelas que ele consegue aprisionar no seu cofre forte). O tema do velho sábio ou artista que se deixa seduzir pela “femme fatal” é velho e repetitivo na história da literatura (e do cinema, claro), mas Tornatore consegue torná-lo novo, refrescando-o com sugestivas ideias e imagens. Um homem que quase não se engana a descobrir uma obra de arte autêntica e a identificar uma falsificação, como se desembaraça quando se depara com idênticas opções na vida real? Sim, porque como lhe diz o seu amigo e cúmplice, “os sentimentos humanos são como as obras de arte, podem também ser o resultado de uma simulação.”


Extremamente bem conduzido, com elegância e eficácia narrativa, criando um ambiente de crescente tensão psicológica, “A Melhor Oferta” renova o tema do velho “filme negro” de inspiração sentimental, para o que conta com uma fabulosa interpretação de Geoffrey Rush (em Virgil Oldman), bem acompanhado por Donald Sutherland (o cúmplice e amigo Billy Whistler), e a quase desconhecida Sylvia Hoeks (uma misteriosa e sedutora Claire, que relembra Simone Simon, de “Cat People”). A partitura musical de Ennio Morricone é magnífica e belíssima a fotografia de Fabio Zamarion. Finalmente, há que referir as escolhas dos cenários. O velho palacete onde decorre grande parte do filme é um décor absolutamente deslumbrante, que muito contribui para o sucesso desta bela obra de suspense psicológico que volta a trazer à ribalta o nome de Tornatore.



A MELHOR OFERTA
Título original: La Migliore Offerta

Realização: Giuseppe Tornatore (Itália, 2013); Argumento: Giuseppe Tornatore; Produção: Isabella Cocuzza, Arturo Paglia, Guido De Laurentiis, Enzo Sisti; Música: Ennio Morricone; Fotografia (cor): Fabio Zamarion; Montagem: Massimo Quaglia; Casting: Reg Poerscout-Edgerton; Design de produção: Maurizio Sabatini; Direcção artística: Andrea Di Palma; Decoração: Raffaella Giovannetti; Guarda-roupa: Maurizio Millenotti; Maquilhagem: Stefano Ceccarelli, Santoro Domingo, Luigi Rocchetti, Matteo Silvi; Direcção de produção: Alice Marchitelli, Daniela Masciale, Erik Paoletti, Andrea Tavani; Assistentes de realização: Livio Bordone, Alberto Mangiante, Barbara Pastrovich; Departamento de arte: Silvia Fontana; Som: Gilberto Martinelli; Efeitos especiais: Stefano Corridori; Efeitos visuais: Francesca Baiardi, Mario Zanot; Intérpretes: Geoffrey Rush (Virgil Oldman), Jim Sturgess (Robert), Sylvia Hoeks (Claire), Donald Sutherland (Billy Whistler), Philip Jackson (Fred), Dermot Crowley (Lambert), Kiruna Stamell, Liya Kebede, Caterina Capodilista, Gen Seto, Klaus Tauber, Maximilian Dirr, Laurence Belgrave, Sean Buchanan, John Benfield, Miles Richardson, James Patrick Conway, Brigitte Christensen, Jacqueline Hopkins, Amanda Walker, Sylvia De Fanti, Victoria Chapman, etc. Duração: 124 minutos; Classificação etária: M/ 12 anos; Distribuição em Portugal: Pris Audiovisuais; Data de estreia em Portugal: 11 de Abril de 2013.

segunda-feira, julho 29, 2013

TEATRO: MENINO DE SUA AVÓ

MENINO DE SUA AVÓ

“Menino de Sua Avó”, de Armando Nascimento Rosa, é uma boa surpresa. Escrita propositadamente para ser interpretada por Maria do Céu Guerra, que ao subir ao palco de “A Barraca” se faz acompanhar pelo actor Adérito Lopes, a peça divaga sobre uma possível relação muito estreita entre Fernando Pessoa e a sua avó Dionísia Estrela Seabra, que existiu de verdade, mas de que se não sabe, por ciência exacta, se manteve ou não com o poeta o tipo de relacionamento que a peça imagina. Para o caso não é importante. A avó Dionísia era louca, teve épocas passadas em Rilhafoles, e não será muito estranho que o poeta tenha sentido por essa personagem afecto e admiração. A primeira parte da obra é de uma grande coerência e interesse, com as conversas de Fernando Pessoa e Dionísia, em vida de ambos. Pessoa é ainda jovem, descobre a poesia e a vida, e anda ainda emerso no seu primeiro heterónimo, Alexander Search, que escrevia em inglês.
Menos conseguida é a segunda parte, sobretudo o início, quando Dionísia morre, o seu fantasma aparece a Fernando Pessoa, este se vai multiplicando em heterónimos e pseudónimos, prosseguindo o diálogo entre ambas as figuras, já depois da morte do poeta, mesmo depois da transladação dos seus restos mortais para os Jerónimos, e culminando na actualidade. O final é muito bem desenredado, com os actores a deixarem o palco e a instalarem-se na plateia para assistirem à peça que vai terminar para nós, espectadores mortais (e iniciar-se para eles).
O diálogo é inteligente e divertido, mesmo tendo em conta as situações referidas, o que, de certo modo, conduz a obra pelos terrenos de um discreto humor negro.
Portanto, a peça vale a pena. É uma boa revelação portuguesa, o que diga-se de passagem, é muito raro. Passemos à sua concretização em palco. Minimalista, sim, mas extremamente eficaz, sem deslumbramentos vanguardistas que muitas vezes resultam penosos. José Costa Reis assina a realização plástica e os respectivos figurinos, tudo de bom gosto e sobretudo de eficácia cénica. António Victorino d'Almeida compôs e interpretou temas originais para a banda sonora que se colam muito bem ao desenrolar do espectáculo, o que não é de espantar no maestro. Finalmente, falemos da interpretação. Adérito Lopes compõe Fernando Pessoa e derivados com graça e justeza. Não é fácil o seu trabalho, necessita de registos diversos, as mutações são discretas e sábio o resultado final. Maria do Céu Guerra está magnífica. Ela é, indiscutivelmente, uma das grandes actrizes da cena portuguesa, e aqui encontra-se no seu elemento natural, sensível e ligeiramente irónica, saboreando com graça e uma desenvoltura muito sua a loucura desta avó que faria as delícias de qualquer neto. Na primeira parte ela chega a ser sublime. Sabem aquela sensação que por vezes se tem, quando estamos sentados numa plateia, e nos apetece saltar para o palco e abraçar os actores? Pois bem, tive de esperar pelo final, para não parecer mal.
A peça terminou hoje a sua carreira n’ A Barraca, mas não desesperem, creio que vai voltar lá para Setembro. Merece-o.

O MENINO DE SUA AVÓ

Texto inédito de Armando Nascimento Rosa; Criação de Maria do Céu Guerra (em Dionísia Seabra Pessoa) e Adérito Lopes (em Fernando Pessoa); Encenação Partilhada; Apoio Rita Lello; Música original António Victorino d'Almeida; Harpa Ana Dias; Cenografia e figurinos José Costa Reis; Aderecista Marta Fernandes da Silva; Mestra Costureira Alda Cabrita; Montagem Mário Dias; Assistência Marta Soares; Vídeo Paulo Vargues; Sonoplastia Ricardo Santos; Iluminação Fernando Belo; Produção Executiva Paula Coelho e Inês Costa.

sábado, julho 27, 2013

SPORTING 2. REAL SOCIEDAD 0


Sporting!

Muito boa a estreia no Sporting Clube de Portugal em Alvalade, frente a uma boa equipa espanhola. Ganhou, mas o mais importante foi jogar bonito, mostrar personalidade, querer e devolver a esperanças aos associados e simpatizantes. Houve alguns aspectos que ainda não convenceram. Marcelo Boec esteve demasiado inseguro, Labiad não existiu, Cissé foi uma sombra, mas no global as indicações são boas. Não sei vamos jogar para os dois primeiros lugares da Liga, nem importa muito agora. O essencial é recuperar a equipa, dar espectáculo, lutar até ao fim. Isso parece estar assegurado. Boa sorte a Leonardo Jardim, que parece ter ajustado bem as pedras tacticamente e deu estofo físico ao conjunto. Obrigado a Bruno de Carvalho que tem dirigido com acerto e generosidade pessoal esta nova versão do “meu” SCP. Assim já apetece pagar quotas outra vez. 
E o equipamento alternativo é, finalmente, bonito. Longe da pimbalheira do ano passado.

sexta-feira, julho 26, 2013

BERNARDETTE LAFONT

Bernardette Lafont 
(26 de Outubro de 1938 - 25 de Julho de 2013)

Não há muito havia aqui escrito sobre Bernardette Lafont, a propósito de "Paulette". Uma excelente actriz e um símbolo de uma época. Pode ver aqui. E ver mais aqui.

quinta-feira, julho 25, 2013

CINEMA: DENTRO DE CASA



DENTRO DE CASA

“Dentro de Casa” é o nosso local de refúgio. Costuma ouvir-se mesmo dizer que fulano tal se refugiou “dentro de casa”. “Dentro de casa é o espaço de privacidade por excelência. Há quem chegue a casa, tire o casaco e vista o roupão, quem atire os sapatos para um canto e calce os chinelos. Se alguém sai à rua nestes preparos sujeita-se a ouvir reprimendas do estilo “sais assim à rua!”. Dentro de casa são permitidas liberdades que cá fora não o são.
Dentro de casa é, pois, a privacidade. Temos o direito à nossa privacidade. Quando alguém abusivamente invade esta privacidade, entra dentro de casa sem nossa autorização, sem ser convidado para isso, normalmente incorre em delito grave. Chama-se a polícia, pois seguramente houve assalto e roubo.
“Dentro de Casa” é nome de filme. Francês. Logo, no original chama-se “Dans la Maison”. Traz a assinatura de François Ozon, um dos cineastas franceses actuais que mais admiro. Nasceu em Paris, a 15 de Novembro de 1967, e desdobra-se em trabalho. Aos 21 anos já se iniciava na realização de curtas-metragens, dirige duas dezenas nos primeiros oito anos de actividade, e depois, desde 1997 que nos vai brindando com excelentes obras, discretas, intimistas, inteligentes, irónicas, observando com argúcia a vida familiar e as relações entre as pessoas. “Regarde la mer” é de 1997, “Les amants criminels”, de 1999, “Sob a Areia”, de 2000, mas é sobretudo depois de “8 Mulheres” (2002) e “Swimming Pool” (2003) que se torna notado internacionalmente. “O Tempo que Resta”, “Angel - Encanto e Sedução”, “O Refúgio”, “Potiche - Minha Rica Mulherzinha” são outras obras anteriores a “Dentro de Casa”, que é de 21012, e agora surge nos ecrãs portugueses, quando o autor ultima já um outro título, “Jeune & jolie”. 


“Dentro de Casa” é um filme extremamente sedutor e inquietante. Germain (Fabrice Luchini) é professor de literatura francesa num liceu, não num qualquer mas no Licée Gustav Flaubert, o que é desde logo um bom princípio: é um liceu piloto, onde os alunos usam farda, para o ambiente ser mais democrático, para ninguém se individualizar. Mas Claude Garcia (Ernst Umhauer), um seu aluno de dezasseis anos, sobressai de sobremaneira. Quando lhe pedem uma redacção sobre o seu melhor amigo na turma, ele resolve apontar a sua atenção para um colega, Rapha Artole, e começar a investigá-lo. Com o pretexto de o ajudar em matemática, instala-se dentro de casa dos Rapha Artole e vai descrevendo com alguma minucia o que vê e sente. Curiosidade suplementar: não é só Claude Garcia que se alimenta da vida dos Rapha Artole, mas também o seu professor, Germain, escritor frustrado, que vai sublimando a sua falta de talento e a sua curiosidade mórbida através dos escritos do aluno que ele vai estimulando, não hesitando sequer em viciar exames.
Este tipo de voyeurismo “literário” não deixa de ser perigoso e é seguramente obsceno. Com um tom discretamente irónico, por vezes nostálgico, François Ozon oferece-nos um retrato por vezes dilacerante da necessidade que alguns têm de viver a vida de outros. O jovem Claude, em vez de ver a sua telenovela diária no ecrã da televisão, como fazem milhões, resolve vivê-la e escrevê-la ele próprio através da observação da vida do seu colega Rapha, e a partir de certa altura também do pai e da mãe deste, Esther Artole (Emmanuelle Seigner), por quem se apaixona e a quem espia até durante o sono.
Se alguns criticam “Janela Indiscreta”, de Alfred Hitchcock, por ser um filme voyeurista, “Dentro de Casa” leva o voyeurismo a entrar dentro de casa de uma família, aí se instalar e sugar a suas vidas, não só para consumo do jovem Claude, mas também do seu voraz professor de literatura francesa. Trata-se de certa forma de um vampirismo literário, na sua aparência, para vampirismo existencial na sua essência.

Claro que pagam pelos erros cometidos, mas nada nos diz que se arrependam. No plano final, que relembra magistralmente “A Janela Indiscreta” de Hitchcock, lá vamos encontrar o ex-professor e o ex-aluno, sentados lado a lado, olhando um enorme ecrã de televisão constituído pelas janelas de um prédio, onde em cada uma delas se vai gerando uma situação que eles observam com voracidade.
Li algures numa crítica inspirada que este era um filme sobre o processo da criação literária e artística. Nada de mais contrário ao espírito do filme. Não há qui criação alguma, quanto muito destruição. A criatividade do aluno só é notada por razões extra-literárias, e sua qualidade só é notada pela lamentável mediocridade dos restantes alunos. O que aqui está implícito, ainda que de forma discreta, é uma crítica a este voyeurismo disforme em que as sociedades contemporâneas se abastecem. Aliás, o filme, sempre de forma serena e sem demagogias, olha com igual sentido crítico a vida familiar dos dois agregados que lhe estão no centro da atenção: German e a sua mulher, gerente de uma galeria de arte moderna muito excêntrica, e a família Rapha Artole, dependente dos negócios e dos chineses e apaixonada pelo basquetebol.
O argumento de “Dans la Maison” é da autoria do próprio François Ozon, adaptando livremente a peça de Juan Mayorga "El chico de la última fila", que em português se chamou “O Rapaz da Última Fila” e foi encenada por Jorge Silva Melo, nos Artistas Unidos. Mas julgo que entre peça e filme existem diferenças de abordagem significativas.
Os intérpretes são brilhantes, a começar pelo discreto Fabrice Luchini, o professor, mas também pela revelação de Ernst Umhauer, no papel de Claude Garcia. Kristin Scott Thomas, Emmanuelle Seigner, Denis Ménochet, Bastien Ughetto e Jean-François Balmer acompanham à altura. Sublinhe-se a realização, elegante, sóbria, púdica, de François Ozon.
Belo filme, de uma inteligência fina, que sabe bem saborear discretamente.

DENTRO DE CASA
Título original: Dans la Maison
Realização: François Ozon (França, 2012); Argumento: François Ozon, adaptando livremente a peça de Juan Mayorga ("El chico de la última fila"); Produção: Eric Altmayer, Nicolas Altmayer, Claudie Ossard; Música: Philippe Rombi; Fotografia (cor): Jérôme Alméras; Montagem: Laure Gardette; Casting: Sarah Teper; Direcção artística: Pascal Leguellec; Guarda-roupa: Pascaline Chavanne; Maquilhagem: Franck-Pascal Alquinet, Marie-Anne Hum, Gill Robillard; drecção de produção: Patricia Colombat, Karine Petite; Assistente de realização: Hubert Barbin; Departamento de arte: Manuel Demoulling, Thomas Morange, Thibaut Peschard; Som: Niels Barletta, Christophe Brajdic, Brigitte Taillandier; Efeitos visuais: Frederic Moreau, Sarah Moreau, Mikael Tanguy; Companhias de produção: Mandarin Films, Mars Distribution, France 2 Cinéma, FOZ, Canal+, Ciné+, France Télévision, La Banque Postale Images 5, Cofimage 23, Palatine Étoile 9, Région Ile-de-France; Intérpretes: Fabrice Luchini (Germain), Ernst Umhauer (Claude Garcia), Kristin Scott Thomas (Jeanne Germain), Emmanuelle Seigner (Esther Artole), Denis Ménochet (Rapha Artole, pai), Bastien Ughetto (Rapha Artole, filho), Jean-François Balmer (director do liceu), Yolande Moreau (as gémeas Rosalie e Eugénie), Catherine Davenier, Vincent Schmitt, Jacques Bosc, Stéphanie Campion, Diana Stewart, Ronny Pong, Jana Bittnerova, Nadir Azni, etc. Duração: 105 minutos; Distribuição em Portugal: Leopardo Filmes; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 18 de Julho de 2013.

quarta-feira, julho 17, 2013

CINEMA: LORE



LORE (2012)


Cate Shortland é australiana, nascida a 10 de Agosto de 1968, em Temora, anda pela meia-idade, começou a escrever e realizar curtas-metragens em finais dos anos 90, e depois de uma passagem pela televisão, onde dirigiu vários episódios de séries australianas, fez-se notar com “Salto Mortal” (2004), sua primeira longa-metragem, a que se segue esta belíssima “Lore” (2012), muito premiada em vários festivais. O cinema australiano tem-nos dado muito boas revelações, Cate Shortland é mais uma que passaremos a acompanhar com redobrado interesse.
Estamos no final da II Guerra Mundial, na Alemanha. O “bem-amado” Führer acaba de se suicidar e, algures em terra germânica, uma família de nazis que vestiram a farda da cabeça aos pés e interiorizaram bem o que era a “solução final” destrói documentação incómoda, faz as malas e parte, para se esconder algures na Floresta Negra. Mas as tropas americanas descobrem o casal que levam consigo e os cinco filhos, dois rapazes, duas raparigas e um bebé são deixados à deriva. Têm de atravessar meia Alemanha para chegarem perto de Hamburgo e reencontrar a casa da avó. O caminho é iniciático. Todos eles vão descobrindo as agruras de uma vida que nunca conheceram e aprendem a sobreviver na fome, na dor e no tirocínio da violência. Pelo meio dos atalhos da floresta, convivem com o anti-semitismo, põem à prova a “esmerada” educação da elite alemã do III Reich e preservam um pequenino bambi de porcelana que é a imagem da sua infância resguardada. Até aí.
A guerra, sobretudo a II Guerra Mundial, já deu milhares de filmes, algumas obras-primas, dezenas de títulos muito interessantes e toneladas de lixo. Mas quase sempre o conflito nos foi dado de um ponto de vista que se foi tornando estereotipado. De um lado, os bons, do outro os maus, olhamos para o sofrimento das vítimas do III Reich, os judeus nos campos de concentração, os soldados no campo de guerra, os nazis nas suas vilanias de gabinete que se repercutiam nas prisões, nas torturas, nos assassinatos maciços, nos genocídios, na barbárie. Um ou outro realizador e argumentista mais inspirado foram mais longe, matizando a análise e diversificando a colheita de elementos para observação crítica. Já se julgava ter visto tudo, mas há sempre um ponto de vista novo (ou quase novo).  


O filme de Cate Shortland – que nos recorda “O Laço Branco”, do austríaco Haneke - baseia-se num romance de Rachel Seiffert ("The Dark Room"). A escritora reside em Londres, nasceu em 1971, em Oxford, mas curiosamente tem pais de dupla nacionalidade: alemão um, australiano o outro. Tal como a produção do filme de Cate Shortland: australiana, alemã e inglesa. “The Dark Room”, lançado em 2001, teve uma recepção muito boa e andou pelas shortlists de vários prémios internacionais. Foi considerada uma das 20 maiores revelações jovens da revista “Granta”.
O filme parece seguir a estrutura do romance, aproximando-se delicadamente de um outro tipo de vítimas do nazismo: os filhos da Alemanha nazi, os filhos de oficiais SS, os netos de velhas avós que lamentam a morte do líder, “que tanto nos amava”, as crianças abandonadas pelos pais enclausurados em prisões aliadas (ou “campos”, como faz notar a mãe: “as prisões são para os criminosos, nós vamos para um campo”). É o drama dessas crianças educadas na loucura que o filme acompanha, sobretudo através da mais velha da família, a adolescente Lore, a única que consegue consciencializar o horror do racismo, da barbária instalada, da insanidade em que se atolava a bem amada Alemanha, cujos sonhos de preponderância e vitória conduziram ao holocausto e ao pesadelo.


Este é o filme da pequena história das famílias nazis, aquelas que interiorizaram a ideologia e a propagaram aos seus. Esta é a história dessas crianças que subitamente descobrem a mentira em que viveram até aí. Este é igualmente o olhar sobre os que, mesmo depois da guerra, e perante as fotografias do horror, se limitaram a dizer que “os americanos são uns mentirosos, falsificaram fotografias e apenas tentam destruir a imagem da Alemanha”. Ou de como um povo se descobre intoxicado sem remissão.
“Lore” é um filme admirável, conduzido com tacto, delicadeza, pudor, com uma fotografia excelente, e um elenco de actores absolutamente notável. Tudo indica que, apesar de uma ou outra escusada pirueta esteticista ao nível da imagem, nos encontramos desde já perante uma das grandes estreias de 2013 em salas portuguesas. Quem não viu, não deve perder.
Julgo que em Lisboa se encontra unicamente numa das salas do Corte Inglês. É de aproveitar.

LORE
Título original: Lore

Realização: Cate Shortland (Austrália, Alemanha,Inglaterra, 2012); Argumento: Cate Shortland, Robin Mukherjee, segundo romance de Rachel Seiffert ("The Dark Room"); Produção: Benny Drechsel, Liz Watts, Paul Welsh, Margaret Matheson, Linda Micsko, Kurt Otterbacher, Anita Sheehan, Vincent Sheehan, Karsten Stöter; Música: Max Richter; Fotografia (cor): Adam Arkapaw; Montagem: Veronika Jenet; Casting: Anja Dihrberg; Design de produção: Silke Fischer, Jochen Dehn; Direcção artística: Jochen Dehn; Guarda-roupa: Stefanie Bieker; Maquilhagem: Ulrike Borrmann, Antje Dahm, Kathrin Westerhausen; Direcção de produção: Colleen Clarke, Bec Cubitt, Thomas König-Mendler, Axel Unbescheid; Assistentes de realização: Karsten Frank, Barbara Schubert, Tanja Schuh; Departamento de arte: Lars Brockmann, Manuela Lobrecht, Remo Stecher; Som: Sam Petty; Companhias de produção: Rohfilm, Porchlight Films, Edge City Films; Intérpretes: Saskia Rosendahl (Lore), Nele Trebs (Liesel), Mike Weidner (Junger), Ursina Lardi (Mutti), Hans-Jochen Wagner (Vati), Nick Holaschke (bebé Peter), André Frid (Gunter), Mika Seidel (Jürgen), Sven Pippig, Philip Wiegratz, Katrin Pollitt, Hendrik Arnst, Claudia Geisler, Kai-Peter Malina, Ulrike Medgyesy, Katharina Spiering, Franziska Traub, Hanne B. Wolharn, Friederike Frerichs, Fabian Stumm, Tim Karasch, Daniel Kohl, Jan Peter Heyne, Jochen Döring, Birte Schnoeink, Lucas Reiber, Wanda Perdelwitz, etc. Duração: 109 minutos; Distribuição em Portugal: Alambique Destilaria de Ideias Unipessoal; Classificação etária: M/ 16 anos; Data de estreia em Portugal: 20 de Junho de 2013.

quarta-feira, julho 10, 2013

CINEMA: HOMEM DE AÇO



HOMEM DE AÇO


Inaugurou-se em Lisboa, no Colombo, uma sala IMAX, 3 D. Já tinha visto várias salas IMAX em diversas cidades, mesmo Vila Franca de Xira já tivera a sua.
IMAX é ecrã maior, maior precisão de imagem, som mais envolvente e mais potente. Em suma, mais de tudo.
Tudo o que tinha visto até hoje em salas IMAX explorava sobretudo as possibilidades das belezas naturais e do património arquitectónico, sempre bem acondimentado nalguns efeitos espectaculares. Muito espectáculo, é verdade, mas nada de muito especial em termos de cinema. Como não sou por natureza negativista nem radical, acredito que dali possam vir experiências a reter.
Mas não foi ainda com “Homem de Aço” que o IMAX se me impôs. Na verdade, cheguei apenas a uma constatação: se um filme é mau, em IMAX é muito pior. Foi esta a minha dolorosa conclusão.
Vejamos: nada tenho contra o “Super-Homem”. Muito pelo contrário. É dos heróis de banda desenhada de que mais gosto. E os filmes com Clark Kent/Superman, interpretados por Christopher Reeves, são dos meus favoritos no domínio dos “comics” norte-americanos adaptados ao cinema (juntamente com “Batman” e “Homem Aranha”).
Fui, pois, ver esta aventura pela curiosidade de experimentar o IMAX do Colombo, e de ver o que tinham feito ao Super-Homem nesta nova versão. Esportulei 10 euros para entrar na sala, munido de óculos e alguma boa vontade, tanto mais que Christopher Nolan, um cineasta que muito prezo, assina argumento e entra na produção, e a realização vinha assinada por Zack Snyder, que tinha dirigido um curioso “300”, muito visual e com algum bom gosto. Mas, quando à saída se entregam os óculos aos solícitos empregados que nos esperam à porta, meu Deus!, que alívio!


Este “Homem de Aço” procura ir aos alicerces da figura e perceber o que aconteceu a esta personagem antes de chegar a ser jornalista no “The Planet”. Tudo começa no planeta “Cripton” à beira de extinção, com facções rivais a disputarem o poder. Jor-El (Russell Crowe) é o pai de um bebé que é o primeiro desde há muito que nasce por processos “naturais”, e juntamente com a sua mulher, Lara Lor-Van (Ayelet Zurer), resolvem salvar o filho e enviá-lo para a Terra a bordo de uma nave. Mas o General Zod (Michael Shannon) fica furioso e jura vingar-se.
Há alguns anos, tinha eu um programa na TVI, um meu espectador habitual escreveu-me um dia comentado que determinado filme tinha muito bons efeitos “pirotécnicos”. Foi uma expressão que não mais esqueci. Pois bem, essas pirotecnias não eram nada comparadas com esta vertigem de imagens e sons que ensurdecem qualquer um e o deixam com os olhos em bico. Por isso, se tiver mesmo que ir ver “Homem de Aço” na sala IMAX, não fique nas primeiras dez filas da frente, que se arrisca a endoidecer. Mas, se for por mim, neste caso, o melhor mesmo é ficar à porta a ver o cartaz.
Com o super miúdo já na Terra, com pais adoptivos (Kevin Costner e Diane Lane), os super poderes começam a manifestar-se para grande felicidade dos efeitos especiais. Há desastres e ameaças de todo o tipo, numa galopante cavalgada para coisa nenhuma, onde chegam, esfalfados e quase sem habitantes nos EUA e arranha-céus em Nova Iorque. O espalhafato é mais que muito, mas qualquer tipo medianamente sensível agradecia que Christopher Reeves voltasse para voar discretamente pelos céus, com Lois Lane nos braços. Nesses filmes havia poesia e lirismo, e voar era uma forma de libertação.
Aqui o “sexy” Henry Cavill, que interpreta o papel de Super-Homem ou Homem de Aço, como preferirem (e, sim, há uma polícia que no final lhe chama “sexy”!), não voa, não é “nem um avião, nem um pássaro”, é um foguete lançado de Cape Canaveral que mal se começa a ver, desaparece no horizonte.
O filme de Zack Snyder tem outra característica tremenda. Dir-se-ia que vai terminar duas ou três vezes e quando se suspira pelo seu término, há sempre mais um vilão que sobrevive para mais uma tremenda contenda nos céus e na terra, com naves a estilhaçarem-se, carros aos soluços, edifícios a desmoronarem-se e a nossa paciência a esgotar-se.


É tudo mau? É tudo muito mau, e em grande, sim. Mesmo os actores que admiramos, e há vários, como as belas Amy Adams, Diane Lane, Antje Traue, Ayelet Zurer, e ainda Michael Shannon, Russell Crowe, Kevin Costner ou Laurence Fishburne, apetece perguntar que andam eles por ali fazer. E já agora, Christopher Nolan, que ideia foi esta de aparecer na produção e na escrita do argumento desta cegada planetária que entontece qualquer um?
É disto que certo público gosta actualmente? Deste completo embrutecimento dos sentidos? Desta descomunal anestesia geral? Bom, aqui não há cinema nenhum. Apetece implorar pelas séries Z de ficção científica dos anos 50 do século passado. Façam favor de não misturarem as coisas: cinema aqui encontra-se talvez numa das salas ao lado.

HOMEM DE AÇO
Título original: Man of Steel

Director: Zack Snyder (EUA, Canadá, Inglaterra, 2013); Argumento: David S. Goyer, Christopher Nolan, segundo personagens criadas por Jerry Siegel e Joe Shuster; Produção: Wesley Coller, Christopher Nolan, Charles Roven, Deborah Snyder, Emma Thomas; Música: Hans Zimmer; Fotografia (cor): Amir Mokri; Montagem: David Brenner; Casting: Kristy Carlson, Lora Kennedy; Design de produção: Alex McDowell; Direcção artística: Chris Farmer, Kim Sinclair; Decoração: Anne Kuljian; Guarda-roupa: James Acheson, Michael Wilkinson; Maquilhagem: Anji Bemben, Victoria Down, Suzi Ostos, Cheryl Pickenback; Direcção de produção: Lisa Gildehaus, Karen Jarnecke, James R. McAllister, Jim Rowe, Andrea Wertheim, Gregor Wilson, Jason Pomerantz (versão IMAX); Sirector de segunda unidade: Damon Caro; Assistentes de realização: Bruce Moriarty, Gordon Piper, Brian Sepanzyk, Clay Staub, Rhonda Taylor; Departamento de arte: Andrea Carter, Steve Jung, Carol Kiefer, Ben Mauro, Ed Natividad, Carie Wallis, Milena Zdravkovic; Som: Eric A.; Efeitos especiais: Allen Hall, Scott Kodrik, Joel Whist; Efeitos visuais: Valdone Cerniute, Sarah Cripps, Isabelle Fleck, Sofus Graae, Danny Huerta, Ashley Irving-Scott, Woojo Jeon, Abigail Mendoza, James Purdy, Max Rees, Rebecca Scott, Ged Wright, etc. Companias de produção: Warner Bros.; Legendary Pictures, Syncopy, DC Entertainment, Third Act Productions; Intérpretes: Henry Cavill (Clark Kent / Kal-El), Amy Adams (Lois Lane), Michael Shannon (General Zod), Diane Lane (Martha Kent), Russell Crowe (Jor-El), Antje Traue (Faora-Ul), Harry Lennix (General Swanwick), Richard Schiff (Dr. Emil Hamilton), Christopher Meloni (Colonel Nathan Hardy), Kevin Costner (Jonathan Kent), Ayelet Zurer (Lara Lor-Van), Laurence Fishburne (Perry White), Dylan Sprayberry (Clark Kent (13 anos), Cooper Timberline (Clark Kent (9 anos), Richard Cetrone, Mackenzie Gray, Julian Richings, Mary Black, Samantha Jo, Michael Kelly, Rebecca Buller, Christina Wren, David Lewis, Tahmoh Penikett, Doug Abrahams, Brad Kelly, David Paetkau, etc. Duração: 143 minutos; Distribuição em Portugal: Columbia TriStar Warner Filmes de Portugal; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 27 de Junho de 2013. 

domingo, julho 07, 2013

FESTIVAL DE ALMADA: SALA VIP



SALA VIP

“Sala Vip” é um texto de Jorge Silva Melo, encenado por Pedro Gil. A peça é uma notável declaração de amor à vida, ao teatro, ao amor. A encenação é magnífica de sensibilidade, de criatividade, numa ligação entre o trágico e o humor, trespassada por um lirismo ácido.
Seis personagens numa sala de espera de um aeroporto. Pertencem todas a uma companhia de ópera. Perderam um voo, uma ligação, o que quer que seja. Perderam um contacto com quem tentam desesperadamente estabelecer uma ligação telefónica. Esperam. Perderam. “Sala Vip” é um lamento sobre a perda, a perda do amor, da juventude, da voz, das ilusões, alguém não volta a encontrar aquelas “deliciosas bolinhas de chocolate com Ovomaltine dentro”. ”Oh, baby, baby, it’s a wild world”, canta-se repetidamente. Perdeu-se o teatro. Perdeu-se a ópera. Perde-se a vida. ”Oh, baby, baby, it’s a wild world”. A sensação de perda avoluma-se, à medida que as personagens mudam de espaço, mas não alteram o desespero. O medo. Medo de tudo. De azeitonas, também.
Escreveu Pedro Gil: “Depois faremos das palavras do Jorge as nossas perguntas: e depois do sucesso? do dinheiro? do orgasmo? do amor? da juventude? E depois do teatro?”. Um mundo desaparece, “desaparece-me”, diz Jorge da Silva Melo. 
Neste panorama negro de desespero é, todavia, possível encontrar essa envolvente declaração de amor à vida, ao teatro, ao amor. Porque a peça é isso mesmo que transmite, porque a encenação é isso mesmo que sublinha, porque os actores é isso mesmo que encarnam. Num mundo em perda constante, temos ali à nossa frente a prova perfeita de que o teatro existe, o amor existe, a vida existe. E tenhamos esperança, haverá algures essas “deliciosas bolinhas de chocolate com Ovomaltine dentro.”
Se o texto é forte, intenso, poético, brutal por vezes, sensível sempre, a encenação é uma demonstração perfeita de maturidade, marcada no ritmo certo, com uma soberba direcção de actores, brilhante no pormenor. Jorge Silva Melo conseguiu encontrar em Pedro Gil o cúmplice perfeito. A mescla de trágico lirismo e de ironia prolonga-se por situações e citações invulgarmente bem conseguidas, desde à invocação do Dr. House à citação “actualizada” do mais célebre diálogo de “Johnny Guitar”. Aliás, as referências cinematográficas são contínuas e como me lembrei de “Violência e Paixão”, de Visconti, ao assistir à representação.
Do elenco fazem parte Andreia Bento, Maria João Falcão, Elmano Sancho, António Simão e João Pedro Mamede, todos eles brilhantes na sua apaixonante fragilidade, construída com uma força, um nervo, uma entrega notáveis. Quantos e tão bons actores há hoje em dia em Portugal!
Não errarei muito se disser que este será seguramente um dos melhores espectáculos de teatro levados à cena este ano em Portugal.

SALA VIP

Texto Jorge Silva Melo; Encenação Pedro Gil; Cenografia e Figurinos Rita Lopes Alves; Músico João Aboim; Luz Pedro Domingos; Com Andreia Bento, Maria João Falcão, Elmano Sancho, António Simão e João Pedro Mamede; Uma produção Pedro Gil, Artistas Unidos e Culturgest. Na Culturgest, de 6 a 9 de Julho. M / 16 anos. 

sábado, julho 06, 2013

FESTIVAL DE ALMADA: I.B.S.E.N.


I.B.S.E.N. 

de Miguel Castro Caldas

“I.B.S.E.N.” traz o nome do dramaturgo norueguês, mas é um original de Miguel Castro Caldas, que agarra nalgumas situações de peças do autor e as organiza a seu belo prazer, manipulando os textos, por vezes com alguma graça e ironia, por vezes desvirtuando-os. Dizem personagens da peça que Ibsen está velho e os seus textos não são para o público de hoje. Se esse é o pensamento de Miguel Castro Caldas o melhor seria deixar Ibsen em repouso. Este aspecto acho-o, portanto, muito controverso, no mínimo.
Mais discutível ainda é a apoteose final com uma manifestação contra as maiorias, exortando que são as minorias (“os sábios”, como se diz) quem deve dirigir a sociedade. Ora nós sabemos que por vezes as maiorias se enganam, mas temos a certeza de que as minorias erram sempre, para qualquer lado que se voltem. Começa-se logo por duvidar de quem é sábio. Quem o define? Quem é o sábio? O que defende o que nós queremos? Depois, os sábios podem ser historiadores e filósofos que proclamam a hegemonia da raça ariana, um grupo de economistas de superior inteligência que defendem o neo-liberalismo, ou uns iluminados defensores da ditadura do proletariado, temos para todos os gostos. Polémico é, portanto, no mínimo, o espectáculo. Que começa, aliás, com uma orientação curiosa, abordando a vida em família e a situação da mulher, para depois enveredar por caminhos ínvios.
De resto, os intérpretes são excelentes, tão bons que nos custa fazer distinções, mas Sara Carinhas é empolgante, e a encenação de Cristina Carvalhal bem inventiva e saborosa, acompanhada a rigor pela equipa técnica e artística ao seu serviço. Seria um belo espectáculo se….

I.B.B.S.M, de Miguel Castro Caldas; Encenação: Cristina Carvalhal; Cenografia e figurinos: Ana Vaz; Adereços: Stephane Alberto; Desenho de luz: José Álvaro Correia; Desenho de som: Sérgio Delgado; Apoio ao movimento: David dos Santos; Fotografia: Susana Paiva; Produção executiva: Mafalda Gouveia; Interpretação: André Levy, David dos Santos, Inês Rosado, João Lagarto, Luís Gaspar, Manuela Couto, Sara Carinhas, Sílvia Filipe, Stephanie Silva, e ainda Berta Bustorff, Carlos Colaço, Carmo Gelpi, Dora Martinez Pinto, Erica Rodrigues, Irene Sofia Vaz, Maria Angelina Mateus, Maria Helena Falé, Marisa Costa, Miguel Brinca, Miguel Viegas, Rita Pascácio, Sandra Cristina Chambel e Xavier Faria Lopes.

Teatro da Trindade, até dia 14 de Julho. Classificação: M/16 anos. 

A ÚLTIMA ENCENAÇÃO DE JOAQUIM BENITE


TIMÃO DE ATENAS


"Timão de Atenas" foi o último espectáculo encenado pelo Joaquim Benite", para a sua Companhia de Teatro de Almada (CTA), onde estreou duas semanas depois da sua morte. A seu lado esteve sempre Rodrigo Francisco que aprendeu com ele, o ajudou no que pode e ocupou o seu lugar posteriormente à frente da companhia e do seu célebre Festival de Teatro, cuja 30ª edição, a primeira sem Benite, se inaugurou no passado dia 4 de Julho.
A peça regressou em Junho ao palco do Teatro Nacional D. Maria II. Só nessa altura a fui ver, pois custou-me ir a Almada, sem Benite. Fomos companheiros de lides durante anos, no “Diário de Lisboa”, ele como crítico de teatro, eu de cinema, e acompanhei com amizade e estima o seu percurso. Sei que o mesmo aconteceu com ele em relação a mim. Por vezes podíamos estar anos sem nos vermos, mas a amizade era real e durável. Acompanhei a sua luta contra a doença e admirei a sua tenacidade, a sua persistência no seu amor ao teatro. No último Festival de Almada seguiu as representações e foi orientando o certame numa cadeira de rodas, nunca abandonando o cigarro que, vá-se lá saber se o consumia ou não, mas lhe dava um evidente prazer.
Escrita no início do século XVII, "Timão de Atenas" parece ter uma autoria polémica. Há quem afirme que se trata de uma obra escrita a quatro mãos, por Shakespeare e pelo poeta e dramaturgo seu contemporâneo Thomas Middleton (1580–1627). Nunca representada anteriormente em Portuga, já havia sido encenada por Joaquim Benite, em 2008, para uma apresentação no Festival de Teatro de Mérida, mas numa versão diferente da actual. Esta é mais económica em meios, mais atenta se possível ao texto e à sua importância crítica.
Benite era um apreciador compulsivo do grande teatro e dos textos eternos que ele respeitava escrupulosamente. A palavra tinha uma importância decisiva para ele. A encenação devia colocar-se ao seu serviço. À palavra e às ideias que a mesma desenvolve em palco. O texto de Shakespeare é rico e pertinaz na crítica: Timão é um grande senhor de Atenas que gosta de dispersar a sua fortuna entre amigos e necessitados. Por isso é bajulado e muito apreciado. Até ao dia em que se descobre falido, passando a eremita no deserto da sua solidão. Todos o abandonam, mas a vingança está para vir, quando descobre ouro debaixo de uma pedra que ocasionalmente levanta no seu percurso. E a roda da sorte volta ao inicio, mostrando que o vil metal amaldiçoa quem o detém, por muito que possa parecer que o ilumina.   
Com apenas um longo estrado em cena e meia dúzia de adereços, Joaquim Benite ergueu um espectáculo bastante interessante, a começar pela excelente tradução de Ivette Centeno, desenvolvida especialmente para esta encenação, cuja interpretação, infelizmente, é bastante desigual, destacando-se, todavia, Luís Vicente, Marques D"Arede, Paulo Matos, Ivo Alexandre e André Gomes, nos principais papéis.

“Timão de Atenas”, de William Shakespeare; Tradução Yvette K. Centeno; Cenário Jean-Guy Lecat; Figurinos Sónia Benite; Luz José Carlos Nascimento; Voz e elocução Luís Madureira; Movimento Jean-Paul Bucchieri; Consultoria musical Fernando Fontes; Intérpretes: Luís Vicente, Marques D"Arede, Paulo Matos, Ivo Alexandre, André Gomes, Alberto Quaresma, Manuel Mendonça, Miguel Martins, João Farraia, Pedro Walter, Celestino Silva, Ana Cris, Joana Francampos, Jeff de Oliveira.
A peça esteve em cena de 20 a 22 de Dezembro de 2012 e de 9 de Janeiro a 3 de Fevereiro de 2013, no Teatro Municipal de Almada, tendo sido reposta em Junho de 2013 no Teatro nacional D. Maria II, em Lisboa.

O trabalho de Joaquim Benite para esta peça deu ainda origem a um documentário da jornalista Catarina Neves, que será estreado durante o 30º Festival de Teatro de Almada.