segunda-feira, fevereiro 22, 2016

OS FILMES DE 2015: A QUEDA DE WALL STREET


A QUEDA DE WALL STREET

Julgo que uma das habilidades dos banqueiros e do mundo da alta finança foi criar uma terminologia técnica de tal forma cerrada que poucos a dominam. Quem detém a entrada nesse universo onde imperam swaps, subprimes, agências de rating, taxas de juros, bolhas imobiliárias, hipotecas, alavancagens, singles tranches, moratórias, seguros, e muitas outras palavras e expressões de difícil significado, detém o poder e não o quer ver disseminado. Vem do tempo de “O Nome da Rosa” e do poder armazenado numa biblioteca onde só os eleitos penetravam. Hoje em dia as torres são as das Wall Streets de todo o mundo, onde se cozinham as negociatas que engordam os magnates, os banqueiros e os aldrabões de todo o género, e que depois a arraia miúda vai pagar por ter andado a “viver acima das suas posses”.
O caso de “The Big Short”, que Adam McKay realizou, e escreveu de colaboração com Charles Randolph, adaptando a obra de Michael Lewis, “The Big Short: Inside the Doomsday Machine”, é um bom exemplo para se desmistificar toda esta engrenagem que provocou o grande colapso bolsista e bancário de 2008, cuja crise se arrasta até hoje e que não sabemos bem quando irá acabar, se não for pelo contrário essa crise a acabar connosco. O filme joga com toda essa terminologia e para leigos na matéria (como eu), o risco parece grande de início. Mas cedo realizador e argumentista nos apaziguam a angústia. Estamos aqui para perceber como se forjou o grande golpe financeiro e, apesar de toda a areia para os olhos, compreende-se o essencial.  
Na verdade, trata-se de banditismo ao mais alto nível, daquele que altas figuras na hierarquia social praticam e do qual saem ilesas, sendo os prejuízos pagos pelo cidadão comum, que vai pagando aos bancos os prejuízos e as ameaças de falência com os impostos que crescem desenfreadamente com a justificação de que o estado social não se aguenta como tal, nas actuais condições. Claro que os bancos e as bolsas essas aguentam-se muito bem. “Ai aguentam, aguentam!”


Este filme baseia-se em factos reais ainda que ficcionados. Fala de personagens fictícios, mas existiram outras, com outros nomes, que fizeram mais ou menos o mesmo. Michael Burry (Christian Bale) é dono de uma media empresa norte-americana que decide investir na bolsa num fundo que coordena o sistema imobiliário nos EUA, prevendo que o mesmo venha a colapsar. É jogar ao contrário do habitual. Apostar no falhanço, tal como “Os Produtores”, de Mel Brooks, o fazia, mas aí numa produção teatral. Sabendo deste invulgar investimento, o corretor Jared Vennett (Ryan Gosling) aproveita a boleia e passa a oferecê-la a seus clientes, entre os quais Mark Baum (Steve Carell), dono de uma corretora em dificuldades. Entretanto, um especialista em questões financeiras, Ben Rickert (Brad Pitt), é igualmente convocado para a geringonça.
Michael Lewis, hoje conceituado jornalista e escritor, com 24 anos foi contratado pelo banco Salomon Brothers. Era bem pago, percebia muito pouco de actividade bolsista, mas começou a descortinar o que se passava nos bastidores da banca. Três anos depois demitiu-se e escreveu o "Liar’s Poker", onde relatava as suas experiências. Nessa altura tinha a certeza de que o colapso iria surgir. Esperou até 2007, quando descobriu que muitos investidores estavam a apostar tudo na queda do sistema, na desvalorização do imobiliário e na desregularização do mercado subprime.
Tirar daqui um filme que se acompanha como uma investigação policial, cheia de ironia e de invenções narrativas, é obra. O argumento terá de ser controlado ao milímetro, a montagem tem de ser ritmada e nervosa, sem, no entanto, cair do sufoco para o espectador, as interpretações convêm que sejam eficazes e, se possível, notáveis para credibilizarem as personagens. A realização terá que controlar tudo isto e mostrar alguma agilidade. “A Queda de Wall Street” consegue tudo isso, e temos que creditar boa parte do sucesso a um pouco conhecido Adam McKay, que vem da comédia e de “Saturday Night Live”, companheiro de Will Ferrer em varias comédias, actor, argumentista e realizador pouco visto fora dos EUA e que neste seu primeiro trabalho de grande folego não deixa de espantar. Na verdade, a forma como constrói “The Big Short” é invulgar, intercalando diferentes tipos de narrativas, actores falando para a câmara ou figuras vip da sociedade internacional (como a actriz Margot Robbie, a cantora e actriz Selena Gomez, o prémio Nobel de economia Richard Thaler, o gastrónomo Anthony Bourdain…) a explicarem terminologia técnica e conceitos mais difíceis de controlar. O resultado é surpreendente, mas funciona como um puzzle bem-humorado, inteligente e particularmente ácido para os visados.
Aí está, pois, pronto a disputar os Oscars, com cinco nomeações: Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Argumento Adaptado, Melhor Actor Secundário (Christian Bale) e Melhor Montagem. Tudo nos diz que não virá de mãos a abanar. É um forte candidato.


A QUEDA DE WALL STREET
Título original: The Big Short

Realização: Adam McKay (EUA, 2015); Argumento: Charles Randolph, Adam McKay, segundo obra de Michael Lewis; Produção: Dede Gardner, Jeremy Kleiner, Kevin J. Messick, Arnon Milchan, Brad Pitt, Louise Rosner; Música: Nicholas Britell; Fotografia (cor): Barry Ackroyd;  Montagem: Hank Corwin; Casting: Kathy Driscoll, Francine Maisler; Design de produção: Clayton Hartley;  Direcção artística: Elliott Glick; Decoração: Linda Lee Sutton; Guarda-roupa: Susan Matheson; Maquilhagem: Michelle Diamantides, Julie Hewett, Adruitha Lee, Annabelle MacNeal, Pamela S. Westmore; Direcção de Produção: Teddy Au, Lisa Rodgers, Louise Rosner; Assistentes de realização: Matt Rebenkoff, Amy Lauritsen, Pamela Monroe, Josh Muzaffer, Cali Pomes; Departamento de arte: Chris Arnold, Joe Bergman, Randall S. Coe, Jann K. Engel, Harrison Hartley, John Herbert, Lisa Kutyreff, K. Emily Levine, Wright McFarland; Som: Andrew DeCristofaro, Becky Sullivan; Efeitos especiais: Michelle Dickson, Drew Jiritano; Efeitos visuais: Sumriti Bhogal, Richard Bluff, Paul Linden, Mare McIntosh; Companhias de produção: Plan B Entertainment, Regency Enterprises; Intérpretes: Christian Bale (Michael Burry), Steve Carell (Mark Baum), Ryan Gosling (Jared Vennett), John Magaro (Charlie Geller), Finn Wittrock ( Jamie Shipley), Brad Pitt (Ben Rickert), Hamish Linklater (Porter Collins), Rafe Spall (Danny Moses), Jeremy Strong (Vinny Daniel), Marisa ( Cynthia Baum), Melissa Leo (Georgia Hale), Stanley Wong (Ted Jiang), Byron Mann( Wing Chau), Tracy Letts (Lawrence Fields), Karen Gillan (Evie), Max Greenfield, Margot Robbie, Selena Gomez, Richard Thaler, Anthony Bourdain, etc. Duração: 130 minutos; Distribuição em Portugal: NOS Audiovisuais; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 14 de Janeiro de 2016.

quarta-feira, fevereiro 17, 2016

OS FILMES DE 2015: SPOOTLIGHT


O CASO SPOTLIGHT

Há uma longa e meritória tradição no cinema norte-americano de filmes abordando investigações jornalísticas que tiveram importância decisiva na consciencialização do cidadão normal e das instituições públicas para certas anomalias ocorridas na sociedade. “Os Homens do Presidente” é o exemplo mais flagrante, mas há muitos mais. Aliás o jornalismo na América tem sido abordado sob diversos pontos de vista, desde o elogio do jornalista como herói justiceiro, último recurso desse quarto poder para repor a justiça no normal funcionamento das instituições, até à denúncia do profissional corrupto que se alia às máfias locais para as justificar ou inclusive à pública declaração de alianças de poder entre empresas e direcções de jornais com interesses obscuros. “O Caso Spotlight” é apenas mais um exemplo. Um bom exemplo, diga-se desde já.
O caso passa-se em Boston, e o jornal é o Boston Global. Tudo se passa recorrendo a factos reais, acontecidos entre 1976 e 2002. O filme tenta apenas recuperar, reconstituir a investigação de um grupo de quatro jornalistas que durante todo esse tempo se ocupa em investigar o que terá acontecido com alguns padres que foram acusados de práticas pedófilas. De início são 13 os visados, depois o número sobe para 90, finalmente ascende às várias centenas. Tudo perante uma certa apatia e cumplicidade das autoridades eclesiásticas que, em lugar de punir os prevaricadores, se limitavam a lançá-los em baixa clínica ou transferi-los de diocese. A averiguação acompanha-se como um policial, com os jornalistas a funcionarem como investigadores, ou dectetives privados, que de pista em pista chegam finalmente à acusação final.

Tom McCarthy, que assina a realização da obra, é mais conhecido como actor, tendo participado em cerca de quatro dezenas de títulos, entre comédias (“Não Há Família Pior!”, por exemplo) e dramas sociais (“Syriana” e “Boa Noite, e Boa Sorte”, entre alguns mais), sempre como actor secundário. Escreveu vários argumentos, quase todos os dos seus filmes e ainda “Up – Altamente”. Como realizador, tem um passado interessante, mas pouco mais: “A Estação” (2003), “O Visitante” (2007), “Todos Ganhamos” (2011), “O Sapateiro Mágico” (2014), até chegar a “O Caso Spotlight” (2015). Com este título conheceu a glória como realizador e argumentista, tendo sido nomeado para tudo o que seja premiações na América, e no mundo, tendo já arrecadado vários prémios, sobretudo como argumentista. Mas nos Oscars de 2016 aparece bem colocado nas duas categorias (Melhor Realizador e Melhor Argumento Original), além do filme reunir ainda outras nomeações para Melhor Filme, Melhor Actor Secundário (Mark Ruffalo), Melhor Actriz Secundária (Rachel McAdams), e Melhor Montagem.
A obra desenvolve-se com uma escrita escorreita, na boa tradição do clássico cinema norte-americano, eficaz e nervoso, com uma fotografia intimista e densa, uma montagem eficiente e ritmada, uma boa banda sonora e uma interpretação inatacável. Mark Ruffalo (Mike Rezendes, o luso descendente que é o principal motor da investigação), Michael Keaton (o jornalista chefe Walter 'Robby' Robinson) e Rachel McAdams (a outra jornalista de campo, Sacha Pfeiffer) são excelentes.
Como denúncia de práticas criminosas e como exemplo de uma investigação jornalística, “O Caso Spotlight” merece bem figurar entre os bons filmes de 2015 e, seguramente, entre os que melhor testemunham boas práticas dos media, numa altura em que os jornais impressos atravessam uma tão grave crise. 

O CASO SPOTLIGHT
Título original: Spotlight

Realização: Tom McCarthy (EUA, Canadá, 2015); Argumento: Josh Singer, Tom McCarthy; Produção: Kate Churchill, Blye Pagon Faust, Steve Golin, Nicole Rocklin, Michael Sugar, Youtchi von Lintel; Música: Howard Shore; Fotografia (cor): Masanobu Takayanagi; Montagem: Tom McArdle; Casting: Kerry Barden, John Buchan, Jason Knight, Paul Schnee; Design de produção: Stephen H. Carter; Direcção artística: Michaela Cheyne; Decoração: Vanessa Knoll, Shane Vieau; Guarda-roupa: Wendy Chuck; Maquilhagem: Karola Dirnberger, Brenda McNally, Jordan Samuel, Teresa Young; Direcção de Produção: Danielle Blumstein, D.J. Carson, Kelley Cribben; Assistentes de realização: Adam Richard Benish,  Walter Gasparovic, Conte Mark Matal, Andrea O'Connor, Scooter Perrotta, Vibhuti Rathod, Gerrod Shully; Departamento de arte: Lara Alexander, Bobby Anderson, Jill Beecher, Carlos Caneca, William Cheng, John MacNeil, John Moran, Dusty Reeves; Som: Paul Hsu; Efeitos visuais: Kayla Cabral, Colin Davies, Brandon Terry;  Companhias de produção: Anonymous Content, First Look Media, Participant Media, Rocklin / Faust; Intérpretes: Mark Ruffalo (Mike Rezendes), Michael Keaton (Walter 'Robby' Robinson), Rachel McAdams (Sacha Pfeiffer), Liev Schreiber (Marty Baron), John Slattery (Ben Bradlee Jr.), Brian d'Arcy James (Matt Carroll), Stanley Tucci (Mitchell Garabedian), Elena Wohl (Barbara), Gene Amoroso (Steve Kurkjian), Doug Murray (Peter Canellos), Sharon McFarlane (Helen Donovan), Jamey Sheridan (Jim Sullivan), Neal Huff (Phil Saviano), Billy Crudup (Eric Macleish), Robert B. Kennedy, Duane Murray, Brian Chamberlain, Michael Cyril Creighton, Paul Guilfoyle, Michael Countryman, Tim Whalen, Martin Roach, Brad Borbridge, Don Allison, Patty Ross, Paloma Nuñez, Robert Clarke, Gary Galone, David Fraser, Paulette Sinclair, Laurie Heineman, Elena Juatco, Nancy Villone, Wendy Merry, Siobhan Murphy, Eileen Padua, Darrin Baker, Brett Cramp, Joe Stapleton, Maureen Keiller, Jimmy LeBlanc, Tim Progosh, Neion George, Laurie Murdoch, Zarrin Darnell-Martin, Krista Morin, Paula Barrett, Mairtin O'Carrigan,  Rob deLeeuw, etc. Duração: 128 minutos; Distribuição em Portugal: NOS Audiovisuais; Classificação etária: M/ 14 anos; Data de estreia em Portugal: 28 de Janeiro de 2016.

     No Festival de Toronto, realizador, actores e os autênticos jornalistas do Boston Globe. 

terça-feira, fevereiro 16, 2016

OS FILMES DOS OSCARS 2016


OS FILMES DOS OSCARS 2016
Uma classificação pessoal, de * a *****

***** OS OITO ODIADOS
**** O RENASCIDO
**** INSIDE OUT
**** A QUEDADE WALL STREET
**** O CASO SPOOTLIGHT
**** CAROL 
**** A PONTE DOS ESPIÕES
**** MAD MAX: ESTRADA DA FÚRIA
*** A RAPARIGA DINAMARQUESA
*** 45 ANOS
** BROOKLYN

 Ainda não vistos:
QUARTO 
JOY
CREED
PERDIDO EM MARTE

CINEMA 2015: O RENASCIDO


THE REVENANT: O RENASCIDO

O mexicano Alejandro G. Iñárritu conquistou definitivamente os americanos. Depois de no início de 2000 ter surpreendido com “Amor Cão” e “21 Gramas”, em 2006 iniciou uma cavalgada com “Babel”, seguida de “Biutiful” (2010), para culminar a sua ascensão para a glória em 2014, com “Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)” que triunfou nos Oscars de 2015 (Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Argumento Original, Melhor Fotografia, além de mais cinco nomeações), voltando à ribalta e à passadeira vermelha de Los Angeles com “The Revenant: O Renascido” (nomeado agora para 12 estatuetas: Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Actor, Leonardo DiCaprio, Melhor Actor Secundário, Tom Hardy,  Melhor Fotografia, Melhor Montagem, Melhor Guarda Roupa, Melhor Maquilhagem, Melhor Montagem Sonora, Melhor Mistura Sonora, Melhores Efeitos Visuais e Melhor Direcção Artística).
“The Revenant” parte de um argumento assinado por Mark L. Smithe e pelo próprio Alejandro González Iñárritu, segundo romance de Michael Punke, que já estivera na origem de um filme de 1971, “Um Homem na Solidão” (Man in the Wilderness), uma realização de Richard C. Sarafian, com interpretação de Richard Harris, John Huston e Henry Wilcoxon, entre outros. Esta versão de inícios da década de 70 era já uma obra extremamente violenta e um exemplo mais da renovação que se procurava imprimir a um género a cair por essa altura no esgotamento, o western. Com algumas alterações, a estrutura da intriga é semelhante obviamente, mas o tratamento narrativo é substancialmente diferente nesta versão de Alejandro González Iñárritu. Se se podia falar de alguma crueza da versão protagonizada por Richard Harris, teremos de concluir que Leonardo DiCaprio, na sua composição de Hugh Glass, ultrapassa em muito o realismo anterior, colocando-se num clima de paroxismo de violência quase insuportável por vezes. Curiosamente, na versão de 71, o protagonista procura regressar a casa para conhecer o filho que, entretanto, nascera, na de 2015 o filho é um adolescente que acompanha em parte a sua aventura.
Esta é uma história de sobrevivência que tem como finalidade a vingança. No (hoje) estado do Dakota do Sul, nos EUA, corria o ano de 1823. Hugh Glass (Leonard Di Caprio), que funcionava como guia de um grupo de caçadores de peles, é apanhado por um urso que o ataca e atinge violentamente. Primeira anotação: reparar na trama que se estabelece entre caçadores de peles, índios, franceses ocupantes, todos eles trocando entre si matérias primas e armas, num jogo de traições onde só vigora o interesse monetário. Segunda referência obrigatória: a fabulosa luta corpo a corpo que se estabelece entre o homem e o urso, tudo filmado num plano único e com um realismo invulgar. 


Hugh Glass é socorrido por companheiros, mas o seu estado é agonizante. O grupo tem de continuar, numa paisagem inóspita, mas o capitão Andrew Henry (Domhnall Gleeson) indica dois homens para ficarem para trás para acompanhar os últimos momentos do Glass. Um deles é John Fitzgerald (Tom Hardy) que, tempos depois, e perante a resistência do ferido, resolve abandoná-lo à sua sorte, depois de ter assassinado o seu filho, um mestiço, filho de uma índia. Em confronto com a natureza nesse inverno impiedoso, martirizado pela neve e a chuva, perseguido por brancos e índios, contando aqui e ali com uma ou outra cumplicidade humana, encobrindo-se em covas ou protegendo-se da inclemência do tempo no interior da carcaça de um cavalo morto (“o renascido”), Glass consegue sobreviver até à vingança final. A luta é animalesca, Glass assume o papel de urso (ao longo do filme ele vai vestindo cada vez mais essa pele, assemelhando-se de forma deliberada ao urso que o atingira), a violência do tom é invulgar. Glass é um resistente, mas será um humano? Ou será que os humanos não passam de animais a que se junta um imperioso instinto de vingança?
Duas horas e meia a acompanhar um homem quase sempre só, quase não falando, ferido e mal podendo rastejar, é obra. Essa é uma das primeiras proezas do realizador Alejandro González Iñárritu que consegue prender a atenção do espectador, no que é bem acompanhado pela interpretação de Leonard Di Caprio (mas também do restante elenco, nomeadamente Tom Hardy) e pela equipa técnica, da fotografia esplendorosa à montagem, à direção artística, à própria sonoplastia que consegue uma envolvência brilhante, criando um clima hostil e agressivo, no entanto por vezes de grande beleza espetacular. 
“The Revenant: O Renascido” é, seguramente, um grande filme e um dos premiados do ano com justeza. Tecnicamente é um prodígio e as condições de rodagem devem ter sido tormentosas. Daí a falar em Terrence Malick ou Andrei Tarkovsky vai um longo passo, muito embora a fotografia de Emmanuel Lubezki (que assinou igualmente a fotografia de “O Novo Mundo”, 2005) possa levar a algumas comparações. Novo sublinhado: muitas vezes a câmara de Lubezki enquadra a floresta de baixo para cima, deixando os troncos das árvores formar jaulas ou celas onde o protagonista (e o espectador, que no final é directamente invocado) sente essa claustrofobia no interior (ou no exterior?) da natureza.
De resto, há um ou outro ponto mais discutível neste filme. A referência ao transcendente, com o aparecimento de uma igreja em ruínas é um deles e uma placa colocada no corpo de um índio enforcado (“Somos todos selvagens”) também me parece redundância excessiva. O filme falaria por si só, sem placa explicativa.


THE REVENANT: O RENASCIDO
Título original: The Revenant

Realização: Alejandro González Iñárritu (EUA, 2015); Argumento: Mark L. Smith, Alejandro González Iñárritu, segundo romance de Michael Punke; Produção: Steve Golin, Alejandro González Iñárritu, Arnon Milchan, Mary Parent, Keith Redmon, Música: Carsten Nicolai, Ryuichi Sakamoto; Fotografia (cor): Emmanuel Lubezki; Montagem: Stephen Mirrione; Casting: Francine Maisler; Design de produção: Jack Fisk; Direcção artística: Laurel Bergman, Michael Diner, Isabelle Guay;  Decoração: Caitlin Jane Parsons, Hamish Purdy; Guarda-roupa: Jacqueline West;  Maquilhagem: Anthony Gordon, Adrien Morot, Michael Nickiforek, Robert A. Pandini, Vicki Syskakis, Jo-Dee Thomson, Sharon Toohey, etc. Direcção de Produção: Bruce L. Brownstein, Juan Pablo Colombo, Evan Godfrey, Douglas Jones, Drew Locke, James W. Skotchdopole, Skye Stolnitz, Valerie Flueger Veras, Gabriela Vázquez; Assistentes de realização: Scott Robertson, Jasmine Marie Alhambra, Silver Butler, Stéphane Byl, Scott Catolico, Darius de Andrade, Robin K. Flynn, Matt Haggerty, Stephen Kievit, Jeremy Marks, Josh Muzaffer, Brett Robinson, Megan M. Shank, Jerry Skibinsky, Adam Somner, Trevor Tavares, Kasia Trojak;  Departamento de arte: Cameron Chapman, Shannon Courte, John Dale, Craig Henderson, Karen Higgins, Dennis Simard, Olena Skorokhod, Joe Wolkosky; Som: Lon Bender; Efeitos especiais: David Benediktson, Stewart Bradley, Pau Costa, Cameron Waldbauer, Brad Zehr, Douglas D. Ziegler; Efeitos visuais: Tom Barber, Daniel Charchuk, Nicolas Chevallier, etc. Companhias de produção: Anonymous Content, Appian Way, Monarchy Enterprises S.a.r.l., New Regency Pictures, RatPac Entertainment; Intérpretes: Leonardo DiCaprio (Hugh Glass), Tom Hardy (John Fitzgerald), Domhnall Gleeson (Capitão Andrew Henry), Will Poulter (Bridger), Forrest Goodluck (Hawk), Paul Anderson (Anderson), Kristoffer Joner (Murphy), Joshua Burge (Stubby Bill), Duane Howard (Elk Dog), Melaw Nakehk'o (Powaqa), Fabrice Adde (Toussaint), Arthur RedCloud (Hikuc), Christopher Rosamond (Boone), Robert Moloney (Dave Stomach Wound), Lukas Haas (Jones), Brendan Fletcher, Tyson Wood, McCaleb Burnett, Vincent Leclerc, Stephane Legault, Emmanuel Bilodeau, Cole Vandale, Thomas Guiry, Scott Olynek, Amelia Crow Show, Peter Strand Rumpel, Timothy Lyle, etc. Duração: 156 minutos; Distribuição em Portugal: Big Picture 2 Films; Classificação etária: M/ 14 anos; Data de estreia em Portugal: 21 de Janeiro de 2016.

quinta-feira, fevereiro 11, 2016

CINEMA 2015: A RAPARIGA DINAMARQUESA


A RAPARIGA DINAMARQUESA

Não sou definitivamente um entusiasta do estilo de Tom Hooper, o super laureado realizador que nos deu “Maldito United” (2009), “O Discurso do Rei” (2010), “Os Miseráveis” (2012), e agora “A Rapariga Dinamarquesa”. Não posso dizer que deteste. Todos os seus títulos são interessantes, o homem tem definitivamente jeito para casting e direcção de actores, os temas são ambiciosos e estimulantes, mas o tratamento visual dado aos seus filmes não me convence de maneira nenhuma. Muito rodriguinho desnecessário, muito efeito só para encher o olho, muita grande angular, muita profundidade de campo, mas sem grande justificação. Tudo mais decorativo que eficaz.
Posto isto, “A Rapariga Dinamarquesa” é um filme obviamente de assinalar por vários motivos e desde logo pela magnifica representação de Alicia Vikander e Eddie Redmayne que interpretam as figuras de Gerda Wegener e Einar Wegener (depois Lili Elbe), um casal de pintores dinamarqueses que existiu na realidade na década de 20 e que viveu uma experiência extraordinária e percursora de muitas outras que vieram depois.


O filme baseia-se no romance homónimo de David Ebershoff e este tem como ponto de partida a vida de Gerda Wegener, casada com Einar Wegener. Parece, todavia, que há muito (ou algum) romance excessivo na biografia literária e também no filme, tendo em conta algumas críticas lidas sobre esta pesquisa. O certo é que o casal vivia feliz em Copenhague dos loucos anos vinte quando, um dia, Gerda pede a Einar para vestir uma roupa feminina a fim de servir de modelo para um quadro que estava a acabar pintar. Einar veste essas roupas e elas colam-se-lhe ao corpo. Abrem a caixa de pandora até aí esquecida no seu íntimo. Einar sente-se mulher, e a partir daí vai reivindicar essa sua natureza enclausurada num comportamento de homem. Ele será Lili. As peripécias sucedem-se até o casal aceitar a intervenção cirúrgica, experimental, na Alemanha, na altura absolutamente invulgar.
Um dos aspectos mais curiosos desta história é a relação de completa (e complexa) cumplicidade que se mantem no casal. O que permite inclusive a Alicia Vikander e Eddie Redmayne dois desempenhos notáveis, ela mais discreta e contida, ele mais exuberante na sua transformação, mas sempre com um rigor e exigência grandes. Alicia Vikander já a tínhamos visto muito bem num filme de época, histórico, bastante curioso, “Um Caso Real” (e também em “Anna Karenina”). Quanto a Redmayne, depois de “A Teoria de Tudo”, onde revivia o cientista Stephen Hawking, volta a um trabalho de composição, daqueles que parecem destinados a arrebatar todos os prémios. Com “The Theory of Everything” (2014) levou para casa Oscar, Globo, Bafta e outros. Leonardo De Caprio não estará pelos ajustes para que ele repita a dose este ano.



A RAPARIGA DINAMARQUESA
Título original: The Danish Girl

Realização: Tom Hooper (Inglaterra, EUA, Dinamarca, Bélgica, Alemanha, 2015); Argumento: Lucinda Coxon, segundo romance de David Ebershoff; Produção: Tim Bevan, Liza Chasin, Eric Fellner, Nina Gold, Anne Harrison, Tom Hooper, Ben Howarth, Ulf Israel, Deborah Bayer Marlow, Kathy Morgan, Gail Mutrux, Linda Reisman, Jane Robertson, Tore Schmidt; Música: Alexandre Desplat; Fotografia (cor): Danny Cohen; Montagem: Melanie Oliver; Casting: Nina Gold; Design de produção: Eve Stewart; Direcção artística: Grant Armstrong, Céline De Streel, Tom Weaving; Decoração: Kristy Parnham, Michael Standish; Guarda-roupa: Paco Delgado; Maquilhagem: Jan Sewel; Direcção de Produção: Dorothée Baert, Tania Blunden, Laurent Hanon, Deborah Bayer Marlow, Faye Morgan, Jo Wallett, Claus Willadsen; Assistentes de realização: Baudouin du Bois, Ben Howarth, Charlotte Nichol, Vaughn Stein, Harriet Worth; Departamento de arte: Chester Carr, Darren Hayward, Megan Jones, Rebecca Pilkington; Som: Martin Beresford, Mike Prestwood Smith, Matthew Skelding, etc.; Efeitos especiais: Simon Davey, Paul Dimmer, Johannes Sverrisson; Efeitos visuais: Helen McAvoy; Companhias de produção: Working Title Films, Artémis Productions, Kvinde Films, Shelter Prod, Pretty Pictures, ReVision Pictures, Taxshelter. Be, Le Tax Shelter du Gouvernement Fédéral de Belgique, Copenhagen Film Fund, Senator Global Productions; Intérpretes: Alicia Vikander (Gerda Wegener), Eddie Redmayne (Einar Wegener / Lili Elbe), Tusse Silberg (velha senhora), Adrian Schiller (Rasmussen), Amber Heard (Ulla), Emerald Fennell (Elsa), Henry Pettigrew (Niels), Claus Bue, Peter Krag, Angela Curran, Pixie, Richard Dixon, Ben Whishaw, Pip Torrens, Paul Bigley, Nancy Crane, Nicola Sloane, Sonya Cullingford, Matthias Schoenaerts, Clare Fettarappa, Jake Graf, Victoria Emslie, Raphael Acloque, Alexander Devrient, Nicholas Woodeson, Philip Arditti, Miltos Yerolemou, Sebastian Koch, Cosima Shaw, Sophie Kennedy Clark, Rebecca Root, etc. Duração: 119 minutos; Distribuição em Portugal: NOS Audiovisuais; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 31 de Dezembro de 2015.

CiNEMA 2015: 45 Anos


45 ANOS

Charlotte Rampling (Kate Mercer) e Tom Courtenay (Geoff Mercer) são os dois protagonistas de”45 Anos” e as duas principais razões para o sucesso deste filme discreto e simpático sobre um casal que se prepara para comemorar os quarenta e cinco anos de casados. Mas, pouco tempo antes do dia marcado para a festa que irá reunir amigos e familiares, Geoff Mercer recebe a notícia que o corpo de uma mulher que ele amara na sua juventude e que desaparecera na neve de um desfiladeiro, fora encontrado. Com essa notícia regressa um passado não revelado que provoca em Kate Mercer reações adversas. Ela sente-se enganada, frustrada, e as relações entre o casal não mais voltarão a ser as mesmas, muito embora o clima festivo que aparentemente se mantém, e as belíssimas cores outonais da paisagem do norte de Inglaterra (Norfolk Broads) onde decorre a obra. Andrew Haigh, o realizador, procura apagar-se perante os dois actores que contracenam brilhantemente, num jogo discreto e secreto de emoções. Um notável filme de actores, mas não mais do que isso.


45 ANOS
Título original: 45 Years

Realização: Andrew Haigh (Inglaterra, 2015); Argumento: David Constantine, Andrew Haigh; Produção: Chris Collins, Rachel Dargavel, Louisa Dent, Lizzie Francke, Vincent Gadelle, Tristan Goligher, Richard Holmes, Philip Knatchbull, Sam Lavender, Tessa Ross; Fotografia (cor): Lol Crawley; Montagem: Jonathan Alberts; Casting: Kahleen Crawford; Design de produção: Sarah Finlay; Guarda-roupa: Suzie Harman; Maquilhagem: Nicole Stafford;  Direcção de Produção: Roslyn Hill;  Assistentes de realização: James Chambers, Drew McDonnell, Gemma Louise Read, Gareth Tandy; Departamento de arte: Bobbie Cousins, Robin Jones, Aoife McKim, Tam O'Malley, Katie Utting; Som: Per Boström, Ben Carr, Gavin Marshall, Christer Melén, Joakim Sundström, Ivor Talbot;  Efeitos visuais: David Casey; Companhias de produção: The Bureau; Intérpretes: Charlotte Rampling (Kate Mercer), Tom Courtenay (Geoff Mercer), Geraldine James (Lena), Dolly Wells (Sally),  David Sibley (George), Sam Alexander (Chris), Richard Cunningham (Mr. Watkins), Hannah Chalmers, Camille Ucan, Rufus Wright, Martin Atkinson, Rachel Banham, Michelle Finch, Paul Goldsmith, Peter Dean Jackson, Kevin Matadeen, Alexandra Riddleston-Barrett, Max Rudd, etc. Duração: 95 minutos; Distribuição em Portugal: Alambique; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 31 de Dezembro de 2015.

quarta-feira, janeiro 20, 2016

ANTÓNIO DA NÓVOA À PRESIDÊNCIA



O MEU VOTO PRESIDENCIAL

Agora que se aproxima o dia da eleição do futuro Presidente da República, poderá fazer-se um balanço, obviamente pessoal, isto é, numa óptica própria, que só a mim diz respeito e que se irá concretizar no dia (ou dias) da (ou das) votação (votações).
O facto de terem aparecido dez candidaturas não me causa grande mossa. Entre as e os proponentes, uns foram insuportáveis, outros ingénuos, alguns muito sabidos, uns sisudos, outros pacholas, uma ou outra surpresa boa (não sei se assim poderei colocar o caso de Marisa Matias). Que um português qualquer, com mais de 35 anos, no total usufruto das suas capacidades e direitos possa candidatar-se a um cargo público, tudo bem, é a democracia, que tanto gostamos de louvar, a funcionar.
Ouvidos todos, fica uma certeza: há dois candidatos possíveis, tudo o mais é folclore: Marcelo Rebelo de Sousa, que parte destacado, e Sampaio da Nóvoa. Ambos me merecem consideração e acredito que qualquer deles dará um bom presidente, cada um com o seu estilo, com a sua bagagem pessoal, cultural, política, um mais centro direita, outro mais centro esquerda, mas ambos a navegarem nas águas de uma social democracia abrangente.
Eu, que sempre me senti mais à esquerda, voto Sampaio da Nóvoa, sem vacilar, na primeira volta. Nóvoa tem a cultura, o prestígio, a inteligência, a propensão para o diálogo e um discreto carisma pessoal que faz dele o meu candidato natural. É o tipo de pessoa que gosto de contar como amigo, que sinto ser sincero, preocupado com injustiças, um homem de plena liberdade, que se preocupa com as verdadeiras revoluções: as culturais, de mentalidade, estruturantes da sociedade. Eu voto Sampaio da Nóvoa, portanto. É o meu Reitor.
Mas, na segunda volta, se a houver, e se, por estranho que pareça, Sampaio da Nóvoa não estiver entre os vencedores, aí voto Marcelo Rebelo de Sousa. Digo-o já para que não fiquem dúvidas. Podem dizer que ficaria rendido ao encanto pessoal do Professor que, apesar de tudo o que lhe apontam (nalguns casos, raros, com justiça), é um homem de cultura, inteligente, arguto, nada sisudo (que diferente de Cavaco Silva, meu caro General Ramalho Eanes!), económico na alimentação, discreto nas horas de sono, o que só traz vantagens para os bolsos dos contribuintes. É um homem que gostaria de contar entre os amigos, e nunca entre os inimigos. Muito embora alguns digam que “com amigos destes, não preciso de inimigos”.
Gostaria ainda de referir um aspecto desta campanha que me soou mal. As críticas mais evidentes a Marcelo Rebelo de Sousa foram, nalguns casos, tontas. Por exemplo, que anda há quarenta anos a fazer campanha nas televisões. Portanto, uma personalidade por ter prestígio conquistado na sua actividade, quer como professor universitário, como político, quer como comentador terá de ver esse facto como negativo? Curioso. O elogio do zé ninguém ou do desconhecido sem curriculum? Absurdo.
A outra crítica, sobretudo ao ser utilizada neste contexto, só demonstra a falta de tacticismo de alguns candidatos. Quando Marcelo procura colocar-se ao centro, e a direita mais trauliteira o olha de esguelha, e muitos preferem a abstenção a engolir um sapo, a esquerda lembra a esse eleitorado de direita que pode votar nele calmamente porque o Professor sempre foi de direita e não deixará de sê-lo quando estiver em Belém. 
Abençoados estrategas. Quanto mais disserem isso, mais Marcelo conquista votos que já tinha 

quinta-feira, janeiro 14, 2016

OSCARS DE 2016: NOMEADOS



OSCARS DE 2016: NOMEADOS

Foram hoje anunciados os nomeados para os Oscars de 2016. A lista completa é: 

Melhor Filme

Ponte dos Espiões
Perdido em Marte
Brooklyn
Quarto
O Caso Spotlight
Mad Max: Estrada da Fúria
The Revenant: O Renascido
A Queda de Wall Street

Melhor Realizador

Adam McKay (A Quede de Wall Street)
George Miller (Mad Max: Estrada da Fúria)
Alejandro G. Iñárritu (The Revenant: O Renascido)
Lenny Abrahamson (Quarto)
Tom McCarthy (O Caso Spotlight)

Melhor Actriz

Cate Blanchett - Carol
Brie Larson - Quarto
Jennifer Lawrence - Joy
Charlotte Rampling - 45 Anos
Saoirse Ronan - Brooklyn

Melhor Actor

Bryan Cranston - Trumbo
Matt Damon - Perdido em Marte
Leonardo DiCaprio - The Revenant: O Renascido
Michael Fassbender - Steve Jobs
Eddie Redmayne - A Rapariga Dinamarquesa

Melhor Actriz Secundária

Jennifer Jason Leigh - Os Oito Odiados
Rooney Mara - Carol
Rachel McAdams - O Caso Spotlight
Kate Winslet - Steve Jobs

Melhor Ator Secundário

Christian Bale - A Queda de Wall Street
Tom Hardy - The Revenant: O Renascido
Mark Ruffalo - O Caso Spotlight
Mark Rylance - Ponte dos Espiões
Sylvester Stallone - Creed

Melhor Argumento Original

Ponte dos Espiões
Ex Machina
Divertida-mente
O Casos Spotlight
Straight Outta Compton

Melhor Argumento Adaptado

A Queda de Wall Street
Brooklyn
Carol
Perdido em Marte
Quarto

Melhor Filme de Animação (Longa-Metragem)

Anomalisa
Divertida-mente
A Ovelha Choné - O Filme
Memórias de Marnie
O Rapaz e o Monstro

Melhor Filme Estrangeiro

Embrace of the Serpent (Colombia)
Mustang (França)
Son of Saul (Hungria)
Theeb (Jordânia)
A War (Dinamarca)

Melhor Filme de Animação (Curta-Metragem)

Bear Story
Prologue
Sanjay’s Superteam
We Can’t Live Without Cosmos
World of Tomorrow

Melhor Documentário (Longa-Metragem)

Amy
Cartel Land
The Look of Silence
What Happened, Miss Simone?
Winter on Fire: Ukraine’s Fight for Freedom

Melhor Documentário (Curta-Metragem)

Body Team 12
Chau Beyond the Lines
Claude Lanzmann
A Girl in the River
Last Day of Freedom

Melhor Curta-Metragem (Live Action)

Ava Maria
Day One
Everything Will Be Okay
Shok
Stutterer

Melhor Fotografia

Carol
Os Oito Odiados
Mad Max: Estrada da Fúria
The Revenant: O Renascido
Sicario

Melhor Montagem

A Queda de Wall Street
Mad Max: Estrada da Fúria
The Revenant: O Renascido
Star Wars: O Despertar da Força
O Caso Spotlight

Melhor Banda Sonora Original

Ponte dos Espiões
Carol
Os Oito Odiados
Sicario
Star Wars: O Despertar da Força

Melhor Canção Original

Earned It - 50 Shades of Grey
Til It Happens To You - The Hunting Ground
Writings On The Wall - Spectre
Manta Ray - Racing Extinction
Simple Song 3 - Youth

Melhor Edição de Som

Sicario
Mad Max: Estrada da Fúria
Perdido em Marte
The Revenant: O Renascido
Star Wars: O Despertar da Força

Melhor Mistura Sonora

Ponte dos Espiões
Mad Max: Estrada da Fúria
Perdido em Marte
The Revenant: O Renascido
Star Wars: O Despertar da Força

Melhor Direcção Artística

Ponte dos Espiões
A Rapariga Dinamarquesa
Mad Max: Estrada da Fúria
Perdido em Marte
The Revenant: O Renascido

Melhores Efeitos Visuais

Ex Machina
Mad Max: Estrada da Fúria
Perdido em Marte
The Revenant: O Renascido
Star Wars: O Despertar da Força

Melhor Guarda-Roupa

Carol
Cinderela
A Rapariga Dinamarquesa
Mad Max: Estrada da Fúria
The Revenant: O Renascido

Melhor Maquilhagem 

Mad Max: Estrada da Fúria
The Revenant: O Renascido
O Centenário Que Fugiu Pela Janela e Desapareceu


segunda-feira, janeiro 11, 2016

TEATRO: POUCO BARULHO


POUCO BARULHO

“Pouco Barulho” é uma excelente comédia inglesa, da autoria de Michael Frayn, e que tem sido encenada um pouco por todo o lado com resultados brilhantes. Em Londres “Noises Off”, no seu título original, recebeu o prémio de melhor comédia do ano de 1982, o mesmo acontecendo em Nova Iorque, em 1984.
O que tem de tão especial esta comédia? Parte de uma ideia brilhante, que é muito bem estruturada. Não se trata de um texto de tese, não procura modificar o mundo, apenas divertir os espectadores de uma forma inteligente, ao mesmo tempo que põe a descoberto os cordelinhos de uma produção teatral. O primeiro acto é ocupado com o ensaio geral, ou ensaio técnico, vá-se lá saber qual é o ensaio, de uma peça de teatro que irá estrear no dia seguinte. Nem tudo corre bem. Ou quase tudo corre mal. O que num ensaio geral nem costuma ser mau sinal. Dizem por aí os vaticinadores do futuro que um mau ensaio geral prenuncia uma boa estreia. No segundo acto não vemos o que os espectadores do suposto teatro veem, mas sim o que acontece nos bastidores, a parte detrás do cenário. Se as coisas correm mal pela frente, por detrás são ainda mais calamitosas. Finalmente, no terceiro acto, a companhia já rodou por várias salas e cidades, e está a dar o seu último espectáculo. Pode dizer-se que é a bandalheira geral.

Em 1985, vi no Teatro Villaret, numa produção Vasco Morgado um “Pouco Barulho” de boa recordação, com um elenco de luxo, Nicolau Breyner, Manuela Maria, Henrique Santos, Morais e Castro, Guida Maria, Victor de Sousa, Rosa de Canto, Isabel Mota, Jorge Nery. A tradução era de César de Oliveira e Barry Scraig e a encenação de Varela Silva, com cenários de Octávio Clérigo. Gostei bastante, mas tive uma desilusão de peso. Por essa altura andava eu a escrever uma peça de teatro que tinha mais ou menos a mesma ideia inicial. Depois de ver esta, desisti.


Em 2013, o Centro Cultural Malaposta, apresentou a mesma peça, agora sob a designação de "Tudo a Nu", com nova tradução de Paulo Oom, encenação de Fraga e música original de Adriano Filipe. O elenco era composto por Ângela Pinto, Gonçalo Ferreira, Hélder Gamboa, Inês Castel-Branco, Isabel Ribas, Mónica Garcez, Paulo Oom, Rui Raposo e Rui Sérgio. Não vi esta versão, mas tinha razões para ser interessante.
Agora surge no Cartaxo, no Centro Cultural, numa produção “Área de Serviço”, uma nova tradução da mesma peça, assinada por Frederico Corado, Vânia Calado e Maria Eduarda Colares, por sinal bastante boa, com encenação de Frederico Corado, que também assina a concepção cenográfica e ainda integra o elenco, ao lado de Hugo Rendas, Margarida Leonor, Vânia Parente, Mário Júlio, Carlos Ramos, Sara Inês, Mauro Cebolo e Mónica Coelho. A “Área de Serviço” é uma companhia comunitária, onde todos trabalham por amor à arte, e se veem e desejam para pagar os custos dos cenários e dos adereços. Nenhum apoio substancial, apenas algumas generosas dádivas, e uma vontade férrea de fazer teatro.  Ambiciosos. Já encenaram Oscar Wilde, Bernando Santareno, William Shakespeare, Eduardo De Filippo, Nikolai Gogol, Alice Vieira, Robert Thomas, George S. Kaufman e Moss Hart, entre outros.
Esta encenação de “Pouco Barulho” é extremamente divertida, inteligente e consegue manter um ritmo endiabrado. Trata-se de uma peça dentro de outra peça, de uma daquelas comédias com muitas portas, por onde entram e saem personagens que não se devem encontrar, com pratos de sardinhas, malas e caixas com fichas das finanças, arranjinhos amorosos, fugas ao fisco, ramos de flores trocados e tudo o mais que se possa imaginar. Reservam-se algumas surpresas. O cenário é bonito, sóbrio, mas bem imaginado, e o elenco, quase todo constituído por amadores sem grande experiência, porta-se à altura de algumas companhias profissionais (para não falar de outras, igualmente profissionais, que é melhor esquecer!). É um excelente divertimento, daqueles que não envergonham ninguém, e que devia, isso sim!, fazer corar de vergonha algumas peças e filmes, ditos cómicos, que abundam nas nossas salas nos últimos tempos.
Para os mal-intencionados tenho uma declaração de princípios a fazer. O Frederico Corado é meu filho. Mais uma razão para irem ver, no próximo fim de semana, sexta e sábado às 21,30, e domingo às 16 horas, para ficarem a saber se sou parcial. Eu julgo que não, mas vão lá e vejam. Depois digam.


Pouco Barulho (Noises Off). Texto de Michael Fryan | Encenação: Frederico Corado | Tradução: Frederico Corado, Vãnia Calado e Maria Eduarda Colares | Concepção Cenográfica: Frederico Corado | Intérpretes: Hugo Rendas, Margarida Leonor, Vânia Parente, Frederico Corado, Mário Júlio, Carlos Ramos, Sara Inês, Mauro Cebolo e Mónica Coelho | Execução Cenográfica: Mário Júlio | Produção da Área de Serviço: Frederico Corado, Vânia Calado e Mário Júlio com a assistência de Florbela Silva e Carolina Viana | Assistente de Encenação: Carolina Viana | Direcção de Cena: Mário Júlio | Técnica: Miguel Sena | Contra-Regra: Carolina Viana | Fotografia: Vitor Neno | Montagem: Mário Júlio | Construção de Adereços: Rosário Narciso | Uma Produção da Área de Serviço com o Centro Cultural do Cartaxo e Câmara Municipal do Cartaxo

quarta-feira, janeiro 06, 2016

CINEMA 2015: HOMEM IRRACIONAL



HOMEM IRRACIONAL


Abe Lucas (Joaquin Phoenix) é um atormentado professor de filosofia que entra numa universidade norte-americana em estado de depressão, desespero, futilidade, frustração e impotência. O melhor amigo morreu há pouco vítima de uma bomba no Médio Oriente e a mulher deixou-o. Nas aulas cita Heidegger e Kierkegaard, fala de liberdade e mentira e afirma mesmo que a filosofia são tretas, apenas “palavras”. Ele procura a acção directa. E vai encontrá-la, enquanto namorisca com Rita (Posey), uma colega professora, e Jill (Emma Stone), uma jovem aluna. A sua terá de ser uma escolha existencial que altere toda a sua persectiva de vida. A ambição do crime perfeito? Possivelmente.
“Homem Irracional” é Woody Allen a 100% o que não deixa de ser uma afirmação que é um lugar comum. Todos os seus filmes o são. Uma comédia que lentamente se transforma numa tragédia. Crime e castigo, com Dostoiévski de permeio, um pouco na linha de “Match Point”, “Crimes e Escapadelas”, “O Sonho de Cassandra” ou “O Misterioso Assassínio em Manhattan”, para só citar alguns dos seus títulos. Todos iguais e todos diferentes. As obsessões e os fantasma de Woody Allen, escritos com a leveza e a eficácia de quem domina a sua arte como poucos.


Não será do melhor Woody Allen, mas é um Woody Allen estimulante. Sobretudo pela forma nada convencional como combina a ligeireza da escrita, a superficialidade do tema musical, a aparente banalidade do tom inicial com a gravidade do que se vai avizinhando. O primarismo dos conceitos filosóficos que Abe Lucas vai enunciando marcam o primarismo dos seus conceitos pessoais e conduzem-no à divagação irracional, ao comportamento aberrante. “Heidegger e o fascismo” é o título do novo ensaio que prepara e que o deixa suspenso sobre a escrita. Compreensivelmente.
O filme é muito interessante, mas extremamente valorizado pelas excelentes interpretações de Joaquin Phoenix, Emma Stone e Parker Posey e ainda pela notável fotografia de Darius Khondji, deliberadamente de um romantismo de tonalidades e de cenários que envolve o espectador e contrasta como o percurso final e o desfecho.


HOMEM IRRACIONAL
Título original: Irrational Man

Realização: Woody Allen (EUA, 2015); Argumento: Woody Allen; Produção: Letty Aronson, Ron Chez, Helen Robin, Jack Rollins, Adam B. Stern, Allan The, Stephen Tenenbaum, Edward Walson; Fotografia (cor): Darius Khondji; Montagem: Alisa Lepselter; Casting: Patricia Kerrigan DiCerto, Juliet Taylor; Direcção artística: Carl Sprague; Decoração: Jennifer Engel; Guarda-roupa: Suzy Benzinger; Maquilhagem: Judy Chin, Jason Joseph Sica; Direcção de Produção: Helen Robin; Assistentes de realização: Mike McGuirk, Danielle Rigby, Brad Robinson; Departamento de arte: Lindsay Boffoli, David Rotondo, Carly Serodio, Shann Whynot-Young; Som: Ryan Baker, Matthew Haasch, Robert Hein, Darrell R. Smith; Efeitos especiais: Adam Bellao; Efeitos visuais: Alex Miller; Companhia de produção Gravier Productions; Intérpretes: Joaquin Phoenix (Abe), Emma Stone (Jill), Parker Posey (Rita), Joe Stapleton (Professora), Nancy Carroll (Professora), Allison Gallerani (estudante), Brigette Lundy-Paine (estudante), Katelyn Seme (estudante), Betsy Aidem (mãe de Jill), Ethan Phillips (pai de Jill), Jamie Blackley (Roy), Leah Anderson, Paula Plum, Nancy Giles, Henry Stram, Geoff Schuppert, Robert Petkoff, Alex Dunn, Ron Chez, Tamara Hickey, Sophie von Haselberg, Susan Pourfar, Tom Kemp, etc. Duração: 95 minutos; Distribuição em Portugal: Pris Audiovisuais; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 17 de Setembro de 2015.