sexta-feira, janeiro 06, 2012

CINEMA: A PELE ONDE EU VIVO

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A PELE ONDE EU VIVO
Para muita gente, crítico ou não, o último filme de Pedro Almodôvar, “La Piel que Habito”, é uma quase traição ao seu anterior percurso cinematográfico. Que é muito pouco almodovariano, muito frio, muito distanciado do que habitualmente faz, e etc. Na verdade, para ser franco, há alguns dispositivos novos nesta obra, mas não vejo por que razão essa novidade implica com a coerência de Almodôvar, muito pelo contrário. Julgo “A Pele em que Vivo” um dos filmes mais almodovariano dos últimos tempos, aceitando que o cineasta vai amadurecendo nalguns aspectos, criando novas tensões, desenvolvendo no entanto sempre as mesmas obsessões e fantasmas, os seus temas eternos e depurando estilo e narrativa.
O “thriller” não é novidade em Almodôvar. Já o havia tratado abertamente em “Em Carne Viva”, adaptação de um romance de Ruth Rendel, e já o havia abordado por diversas vezes em sequências de muitas outras obras suas, onde o tom de “film noir” está presente. É obvio que Almodôvar é um entusiasta do “policial”, quando este lhe permite analisar o lado mais obscuro da condição humana.
Curiosamente, “La Piel que Habito” parte de um romance de Thierry Jonquet, escritor francês de policiais, muito elogiado em França, pouco conhecido em Portugal, oriundo de uma família de comunistas, filho de um mecânico parisiense, que se tornou membro da “Troskyite Lutte Ouvrière”. Morreu cedo (1954–2009), mas deixou vasta obra de que “Tarantula”, em francês, ou “Mygale” ou “Serpent's Tail”, nas suas versões inglesas, datado de 1995, parece ser a sua obra de maior destaque. Foi ela que serviu de base a esta adaptação de Pedro Almodôvar (com a colaboração do seu irmão Agustín Almodôvar).
Mas se o gosto de Almodôvar pelo policial é conhecido, a sua predilecção por melodramas de faca e alguidar é manifesta, desde a sua mais tenra idade de cineasta. Ele não abdica de uma boa intriga, com famílias disfuncionais, múltiplas peripécias onde paixões funestas e amores à desfilada se entrecruzam em situações limite, bem à maneira do romance de cordel popular. Esta sua nova obra parece atingir um clímax nesse aspecto.
Depois, há o desejo (a sua produtora chama-se mesmo “El Deseo”), o sexo, o proibido, o tabu, a provocação, tudo rodando à volta do corpo e de um aspecto muito preciso da transformação do corpo (travestis e transformistas são habituais frequentadores da sua filmografia). A base sobre que assenta “A Pele em que Vivo” é precisamente o corpo e a sua transformação.
O protagonista desta história, o médico cirurgião Robert Ledgard (um Antonio Banderas comedido e rigoroso, como há muito se não via), assemelhando-se em muito a um Frankenstein dos tempos modernos, procura “criar a mulher” (já Terence Fisher o tentara numa obra notável, mas recriando a situação com o tradicional Dr. Frankenstein). Mas a obsessão de Robert Ledgard não é pegar em diferentes partes de vários corpos e criar o modelo de mulher ideal. É agarrar num homem e transformá-lo em mulher, através de uma operação ginecológica, mas sobretudo, porque essa é a área das suas pesquisas, através de um nova pele, resistente à dor, ao calor, às picadas, às ameaças do exterior.
O que está na base desta obsessão? Gal, a mulher teve um acidente de carro e ficou carbonizada, ele tentou salvá-la por todos os meios ao seu alcance, mas acabaria por falhar, pois um dia a mulher olha-se ao espelho e suicida-se, atirando-se de uma janela abaixo. Fica a dor da perca e o remorso do falhanço. E fica a filha Norma (um referência operática, mais ou menos óbvia) que um dia é violada e fica para sempre traumatizada, acabando por seguir o caminho da mãe. Robert Ledgard sabe quem foi o violador, persegue-o, encurrala-o numa cave e exerce sobre este prisioneiro pessoal todas as experiências possíveis, até ele adquirir os contornos de Vera (a belíssima e talentosa Elena Anaya), que mais tarde se chamará a si própria Vera Cruz. Ela será Vera (de verdadeira) para Ledgard, e Cruz (de calvário) para Vicente (Jan Cornet). 
Há uma outra história paralela a esta, que com ela se cruza por diversos meios. A governanta, Marília (Marisa Paredes, como sempre magnífica), e principal cúmplice de Ledgard, é o resguardo seguro do seu palacete e a guardiã das suas experiências, que acompanha através de um ecrã ligado à bela masmorra onde Vera se vai transformando. Mas Marília tem um filho, Zeca (uma personagem de carnaval brasileiro, interpretada por Roberto Álamo), que um dia se esconde sob as saias da mãe, que viola Vera e que Ledgard descobre. O que Ledgard nunca descobrirá é que Zeca é seu irmão, e Marília sua mãe.
Não interessa aprofundar mais a história rocambolesca, e pícara em muitos aspectos. Este enunciado dá bem a medida das obsessões de Almodôvar e da forma como as aborda neste filme. O corpo que se transforma, os sexos que se diluem um no outro, a violência exercida sobre a pele como elemento erótico por excelência e, mais do que isso, a transformação imposta e a culpa que nasce deste acto. E a revolta. Nada de mais almodovariano se poderia encontrar.
Que Pedro Almodôvar é menos barroco do que habitualmente na construção dos cenários e da narrativa, é certo, ainda que a personagem de Zeca e a “boutique” da mãe de Vicente escapem para o ambiente dos seus primeiros filmes. Mas esta deslizagem de Almodôvar para um cinema mais clássico era já notória nos últimos títulos da sua filmografia. A mestria da sua arte continua, porém, inatacável, a direcção de actores é primorosa, e o resultado final é uma obra inquietante, belíssima na sua estética depurada, onde o corpo da mulher (da mulher viva, mas também da mulher “representada” em várias obras de arte que se dispersam pelas paredes da casa de Robert Ledgard) adquire um posição de eixo central que irá comandar toda a respiração deste filme profundamente perturbador.
A PELE ONDE EU VIVO
Título original: La Piel que Habito
Realização: Pedro Almodôvar (Espanha, 2011); Argumento: Pedro Almodóvar, Agustín Almodôvar, segundo romance de Thierry Jonquet ("Tarantula"); Produção: Agustín Almodóvar, Bárbara Peiró Aso, Esther García; Música: Alberto Iglesias; Fotografia (cor): José Luis Alcaine; Montagem: José Salcedo; Casting: Luis San Narciso; Design de produção: Antxón Gómez; Direcção artística: Carlos Bodelón; Guarda-roupa: Paco Delgado; Maquilhagem: Tamar Aviv, Manolo Carretero, David Martí, Montse Ribé; Direcção de Produção: Sergio Díaz, Toni Novella; Assistentes de realização: Manuel Calvo, Juan Carlevaris, David Esquivel, Eva Sánchez; Departamento de arte: Pablo Buratti, Vicent Díaz, Alejandra Loiseau; Som: Iván Marín; Efeitos especiais: Reyes Abades, Daniel Reboul, Joaquín Vergara; Efeitos visuais: Helen Marti Donoghue; Companhias de produção: Canal+ España, El Deseo S.A., Instituto de Crédito Oficial (ICO), Televisión Española (TVE); Intérpretes: Antonio Banderas (Robert Ledgard), Elena Anaya (Vera Cruz), Marisa Paredes (Marília), Jan Cornet (Vicente), Roberto Álamo (Zeca), Eduard Fernández (Fulgencio), José Luis Gómez (Presidente do Instituto de Biotecnologia), Blanca Suárez (Norma Ledgard), Susi Sánchez (mãe de Vicente), Bárbara Lennie (Cristina), Fernando Cayo (Médico), Buika (Cantora), Guillermo Carbajo, Agustín Almodôvar, Violaine Estérez, Sheyla Fariña, Esther Garcia, Teresa Manresa, Ana Mena, Chema Ruiz, David Vila, Jordi Vilalta, etc. Duração: 117 minutos; Distribuição em Portugal: Pris Audiovisuais; Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal: 17 de Novembro de 2011.


quarta-feira, janeiro 04, 2012

CINEMA: O DEUS DA CARNIFICINA

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O DEUS DA CARNIFICINA
"Le Dieu du Carnage” é uma perca de teatro da autoria de Yasmina Reza, francesa, a mesma que nos dera anteriormente um grande sucesso, “Art”, que esteve em cena nos palcos de todo o mundo, incluindo Portugal. "Le Dieu du Carnage” estreou igualmente no palco do “Teatro Aberto”, com boas referências.
A peça foi lançada em Paris, em 2008, com Isabelle Huppert e Eric Elmosnino no elenco, passando depois rapidamente aos palcos ingleses e americanos. Na Broadway, surgiu no ano seguinte, com um elenco de peso, James Gandolfini, Marcia Gay Harden, Hope Davis, e esta é uma das razões do sucesso da obra: actores magníficos a darem densidade e a criar tensão numa intriga que parte de um “fait divers” para desencadear uma situação de invulgar crispação.
Há muito nesta obra de Yasmina Reza que nos faz lembrar “Quem Tem Medo de Virgínia Woolf?”: um cenário único, uma sala de estar, dois casais, um jogo de massacre entre as quatro personagens. Mas a obra de Albee tem uma outra profundidade.
Roman Polanski e Yasmina Reza adaptaram ao cinema a obra e ela aí está com todos os atributos da obra teatral e o saber do cineasta para dirigir actores e a perversidade sóbria para encenar situações limite.
Aqui o acontecimento de partida é uma luta entre miúdos num jardim. O genérico do filme de Polanski mostra-nos esse jardim em plano de conjunto, um grupo de miúdos que discute, um deles que se afasta um pouco, regressa furioso, munido de um varapau e desfere uma tacada no rosto de um outro. Sabe-se depois que partiu dentes, deslocou o maxilar, inchou a cara, e colocou em recuperação a vítima durante uns dias. Nada de muito excepcional, agora chamam-lhe “bullying”, antigamente era “andar à porrada”.
Os pais dos dois jovens encontram-se para discutir o assunto. Em casa da vítima. São casais da média burguesia, comerciantes, advogados, “gente de bem”, “civilizada”, que procura resolver o caso de forma amigável. Encontram-se, tomam uma bebida, discorrem sobre o tema que parece não os preocupar muito, tomam outra bebida, e acabam lentamente por deixar vir à tona de água a sua verdadeira personalidade e os traumas que a enformam. O que parecia largueza de vistas e propósitos generosos, acaba por se transformar numa querela infindável que coloca casal contra casal, mulheres contra homens, homem contra homem e mulher contra mulher, em sucessivas alianças que se fazem e desfazem, ao sabor dos interesses de momento.
Não me parece que a agressão seja tratada com um mínimo de ponderação. Afinal, um acto gratuito de violência juvenil deveria merecer maior atenção. Aqui serve apenas como pretexto para o desencadear das hostilidades entre os casais. Às tantas, já não se fala do assunto, que só é evocado para agravar a discussão. O que interessa já são os livros de arte vomitados, o marido que não larga o telemóvel, o antigo chefe de gang, o bolo que provoca indisposição ou o whisky que liberta as vozes. A metáfora mostra como a violência está latente e solta as amarras ao mais pequeno distúrbio, ou como a “civilização” e as “boas maneiras” são fachadas de polimento fino. Um exercício curioso, divertido, com algum humor negro à mistura e um profundo cinismo sobre a condição humana. Interessante, mas não mais do que isso.
O que sobressai, isso sim, é a qualidade da realização de Polanski, que numa sala e num corredor, com idas e vindas, ameaças de saídas e entradas, da cordialidade à exasperação, nos consegue envolver num clima de tensão que cada vez se adensa mais e, sobretudo, as extraordinárias interpretações dos quatro actores escolhidos: Jodie Foster e John C. Reilly, de um dos lados do ringue, Kate Winslet e Christoph Waltz, no outro canto. Não há vencedores na disputa, apenas vencidos, mas os intérpretes merecem todos nomeações.
Para que tudo pareça ainda mais anódino e inconsequente, no plano de conjunto final os miúdos voltam a encontrar-se no jardim e a confraternizarem como se nada tivesse acontecido. Branqueado o "bullying", fica a desavença.
Dá ideia que não faz mal que os miúdos continuem a esmurrar os queixos uns dos outros, desde que isso permita analisar o comportamento dos pais.
O DEUS DA CARNIFICINA
Título original: Carnage
Realização: Roman Polanski (França, Alemanha, Polónia, Espanha, 2011); Argumento: Yasmina Reza, Roman Polanski, segundo peça teatral de Yasmina Reza ("God of Carnage"); Produção: Saïd Ben Saïd, Oliver Berben, Martin Moszkowicz; Música: Alexandre Desplat; Fotografia (cor): Pawel Edelman; Montagem: Hervé de Luze; Casting: Fiona Weir; Design de produção: Dean Tavoularis; Decoração: Franckie Diago; Guarda-roupa: Milena Canonero; Maquilhagem: Laurent Bozzi, Alexis Kinebanyan; Direcção de Produção: Frédéric Blum, Abraham Goldblat, Varujan Gumusel, Vincent Lefeuvre; Assistentes de realização: Ralph Remstedt, Caroline Veyssière, Mareike Engelhardt, Sophie Le Guénédal; Departamento de arte: Laurent Fenestre, Yvan Hart, Delis Valerie ; Som: Thomas Desjonquères, Stephane Lioret; Efeitos visuais: Frederic Moreau, Mikael Tanguy; Companhias de produção: SBS Productions, Constantin Film Produktion, SPI Film Studio, Versátil Cinema, Zanagar Films, France 2 Cinéma, Canal+, CinéCinéma, France Télévisions, Polish Film Institute, Wild Bunch; Intérpretes: Jodie Foster (Penelope Longstreet), Kate Winslet (Nancy Cowan), Christoph Waltz (Alan Cowan), John C. Reilly (Michael Longstreet), Elvis Polanski (Zachary Cowan), Eliot Berger (Ethan Longstreet), Joseph Rezwin (voz de Walter), Nathan Rippy (voz de Dennis), Tanya Lopert (voz da mãe de Alan), Julie Adams (voz da secretária), etc. Duração: 79 minutos; Distribuição em Portugal: Zon Lusomundo Audiovisuais; Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal: 29 de Dezembro de 2011.

sexta-feira, dezembro 30, 2011

Cinema: A ÁRVORE DA VIDA



A ÁRVORE DA VIDA
 “The Tree of Life”, de Terrence Malick, é um acontecimento. Como o foram todos os seus (raros) filmes anteriores. Este é um daqueles autores que prepara minuciosamente cada nova obra, desde a sua estreia na longa-metragem, com o magnífico “Noivos Sangrentos” (1973), passando por “Dias do Paraíso” (1978), “A Barreira Invisível” (1998), ou “O Novo Mundo” (2005), até chegar a este estranho, fascinante e estimulante “A Árvore da Vida” (2011). Agora, como que a contrariar tudo o que se conhecia dele até aqui, anunciam-se quatro novos títulos para os próximos dois anos: “Voyage of Time”, “Lawless”, “Knight of Cups” e um projecto que se conhece apenas pela designação “Untitled Terrence Malick Project”.
O filme começa com uma citação do livro de Job: “Onde estavas quando lancei as fundações da Terra? Entre as aclamações das estrelas da manhã e o aplauso de todos os filhos de Deus?” Claro que este é um filme que invoca a presença (ou a ausência) de Deus, mas é mais uma obra de onde ressaltam as dúvidas e as incertezas, as reticências numa resposta única, do que uma afirmação indubitável de fé divina.
“A Árvore da Vida” pode ser aqui uma metáfora metafísica ou espiritual, uma resposta científica, ou simplesmente a árvore que se planta no quintal e que vai crescer acompanhando o crescimento dos filhos do casal O’Brien. “A Árvore da Vida” é o elogio da vida e da natureza, mas também do apogeu da Graça. Dizem-nos logo no início que umas freiras, algures, ensinaram que existiam dois caminhos, “o da Natureza e o da Graça”. Mais tarde, descreve-se o casal O’Brien como sendo o pai um símbolo da Natureza e a mãe, da Graça. Assistimos, entretanto, ao nascimento da Terra e acompanhamo-la do “Bing Bang” até à actualidade. Vemos  a brutalidade do fogo e da lava em explosão, mas também a harmonia da paisagem, a beleza verde dos campos e das árvores, o amarelo dos girassóis, o azul da água, a aragem a percorrer as areias douradas dos desertos,  lentamente vamos entrando nessa melopeia de imagens e sons, de movimentos de câmara e de ritmos musicais que nos restituem o mundo no seu esplendor. Percebe-se que a Graça e a Natureza coexistem, são um casal, e ambos querem o melhor para os seus filhos, ainda que por caminhos diversos, por vezes até antagónicos.
O pai (um magnífico Brad Pitt) é austero, rigoroso, por vezes violento na sua educação formal. Sabe-se que vem de uma existência traumatizante, está habituado ao “struggle for life”, que é a base da filosofia de vida dos americanos, há que ser forte para derrotar os adversários, há que olhá-los de frente, mostrar se possível fraqueza para depois aplicar o golpe definitivo. É isso que ensina aos filhos, muito embora gostasse de ter sido músico, possivelmente escrever e reescrever dezenas de vezes uma obra-prima e depois dizer “Podia estar melhor”. Mas os caminhos da sua árvore da vida foram outros e vê-se humilhado no final da carreira, despedido, obrigado a mudar de casa, depois de ter perdido um dos seus três filhos. 
A mãe (essa portentosa Jessica Chastain) é a Graça, o espírito, as saias a que se agarram os filhos, o colo a que recolhem, o doce olhar que os ampara, o choro convulsivo quando lhe é transmitida a funesta notícia da morte do filho, o andar desamparado pelas ruas de Smithville (uma cidadezinha perto de Austen, no Texas, corria a década de 50 do século passado). Ela é aquela que para os olhos de um dos filhos não foi: “deixaste que ele (o pai) fizesse de ti o que ele quis. Eu não vou fazer nada do que disserem.” Mas a mulher é a Graça, a presença etérea do espírito materno, a mãe terra, a procriadora, aquela de cujo ventre sai o futuro. Um pezinho de bebé, acolhido entre as mãos dos que o amavam antes dele nascer, e o vão preparar para a vida, para o confronto com a Natureza e com a Graça, com o meio físico e a espiritualidade. Afinal, a dualidade que todos nós enfrentamos quando entramos neste planeta onde a beleza extravasa do exterior para o interior (quase todos os cenários são limitados por vidros, que trazem para o interior das casas a paisagem exterior, quer ela seja dos verdes e azuis da paisagem natural, quer a do aço, do vidro ou do cimento da paisagem urbana das grandes metrópoles).
Terrence Malick aposta numa religião, a do amor: “A única forma de ser feliz é amando. Se amares, a vida passa num segundo.” Mas nem tudo é simples e por vezes a paisagem é de rochas inóspitas que é preciso atravessar. “Vejam a Glória que nos rodeia”, mas logo acrescentam que, por vezes, se vive “na vergonha”. É Jack (Sean Penn), o irmão mais velho, que vive por entre arranha-céus e que grita contra “este mundo está entregue à bicharada, onde campeia a ganância”, que, no final, invoca o irmão perdido, pedindo-lhe: “Irmão, cuida de nós, Orienta-nos. Até ao fim dos tempos.”
Religião? Alguém tenta confortar os familiares, dizendo, após a morte do filho: “Ele está agora nas mãos de Deus!”, ao que lhe respondem com uma inquietante pergunta: “Não esteve ele sempre nas mãos de Deus?”.
“A Árvore da Vida” não é um simples filme. É uma experiência que se atravessa, se vive. Parece-me ter muito de autobiográfico, por muito pouco que se saiba de Terrence Malick, um autor que quase não fala de si, se recusa a dar entrevistas, vive recolhido, e de quem se conhece uma única fotografia. Há quem diga que nasceu em Ottawa, Illinois, outros afiançam que foi em Waco, Texas, filho de Emil Malick, um geólogo austero, proveniente de uma família imigrante, iraniana. A mãe foi Irene Malick, de quem guarda boas recordações. Toda a sua infância é passada em ambientes rurais. Teve dois irmãos mais jovens, um dos quais, Larry, estudou música (guitarra) em Segóvia, Espanha, e que se sabe que morreu jovem (talvez suicídio).
Terrence Malick estudou filosofia na Universidade de Harvard, especializando-se em Heidegger, sobre quem escreveu uma tese, “The Essence of Reasons”. Deu aulas de filosofia e de cinema, escreveu artigos para o “Newsweek”, “The New Yorker” e “Life”. Em todos os seus filmes a natureza ocupa um lugar preponderante. Creio que em todos os seus filmes podemos encontrar um pouco de si, da sua vida passada, do seu testemunho filosófico sobre o destino do homem. O que torna as suas obras completamente diferentes de todas as outras. Afinal, o que faz a diferença das obras de arte é o seu cunho pessoal. Se já tudo se disse e se contou, e se nada é novidade na “estória”, o que é único e transmuda as vozes é a sua sinceridade e a sua verdade.
Não há em “A Árvore da Vida” uma narrativa tradicional, cronológica, mas antes um evocar de olhares e palavras, de memórias e emoções, quase todas elas mantidas por Jack O’Brien, que recorda, de forma não linear, figuras, situações, sentimentos, locais, os anos 50, o Texas, a família, o pai e a mãe, os irmãos, as brincadeiras, a natureza, os rios e as árvores, e aquela árvore plantada no jardim… A iniciação. 
Admiravelmente fotografado por Emmanuel Lubezki, com uma soberba montagem que demorou dois anos e ocupou o realizador e cinco montadores, “The Tree of Life” é indiscutivelmente um dos grandes filmes, senão o maior, de 2011. É impossível não estabelecer pontos de contacto, mais estilísticos do que temáticos, com “2001: Uma Odisseia no Espaço”, de Kubrick. Nas sequências da criação do mundo, na banda sonora, na utilização da música como suporte e contraponto das imagens. E pode, e deve, dizer-se a fechar (ou a abrir para novos considerandos que nunca se esgotarão nesta obra) que “A Árvore da Vida” é, sobretudo, uma celebração da vida e do amor, um poema, uma elegia, uma meditação, uma reflexão filosófica ou um simples olhar extasiado para a beleza que nos rodeia, e que nem sempre sabemos celebrar.
A ÁRVORE DA VIDA
Título original: The Tree of Life
Realização: Terrence Malick (EUA, 2011); Argumento: Terrence Malick; Produção: Nigel Ashcroft, Ivan Bess, Greg Eliason, Dede Gardner, Nicolas Gonda, Sarah Green, Grant Hill, Susan Kirr, Brad Pitt, Bill Pohlad, Donald Rosenfeld, Paula Mae Schwartz, Steve Schwartz, Sandhya Shardanand; Música: Alexandre Desplat; Fotografia (cor): Emmanuel Lubezki; Montagem: Hank Corwin, Jay Rabinowitz, Daniel Rezende, Billy Weber, Mark Yoshikawa; Casting: Vicky Boone, Francine Maisler; Design de produção: Jack Fisk; Direcção artística: David Crank; Decoração: Jeanette Scott; Guarda-roupa: Jacqueline West; Maquilhagem: Direcção de Produção: Scott E. Chester, Erica Frauman, Frank Hildebrand, Tim Assistentes de realização: Bobby Bastarache, Cleta Elaine Ellington, Scott R. Meyers, Katie Tull; Departamento de arte: Ruth De Jong, Robert K. Weinberger; Som: Erik Aadahl, Craig Berkey, Will Files; Efeitos especiais: Brian Cross, Ryan Roundy; Efeitos visuais: Erin Ferguson, Bradley Friedman, Dan Glass, Alexa Hale, Steve Jaworski, Stephen King, Key Hyung Lee, Eric D Legare, Ruheene Masand, Laurent-Paul Robert, Benson Shum; Animação: Mike Jahnke, Sheldon Kruger, Gary Mau; Companhias de produção: Brace Cove Productions, Cottonwood Pictures, Plan B Entertainment, River Road Entertainment; Intérpretes: Brad Pitt (Mr. O'Brien), Sean Penn (Jack), Jessica Chastain (Mrs. O'Brien), Hunter McCracken (Jack, em jovem), Laramie Eppler (R.L.), Tye Sheridan (Steve), Fiona Shaw (avó), Jessica Fuselier (Guide), Nicolas Gonda (Mr. Reynolds), Will Wallace (Arquitecto), Kelly Koonce (padre Haynes), Bryce Boudoin (Robert), Jimmy Donaldson (Jimmy), Kameron Vaughn (Cayler), Cole Cockburn (Harry Bates), Dustin Allen (George Walsh), Brayden Whisenhunt, Joanna Going, Irene Bedard, Finnegan Williams, Michael Koeth, John Howell, Samantha Martinez, Savannah Welch, Tamara Jolaine, Julia M. Smith, Anne Nabors, Christopher Ryan, Tyler Thomas, Michael Showers, Kimberly Whalen, Margaret Hoard, Wally Welch, Hudson Lee Long, Michael Dixon, William Hardy, Tommy Hollis, Cooper Franklin Sutherland, John Cyrier, Erma Lee Alexander, Nicholas Yedinak, Alex Draguicevich, Jackson Hurst, etc. Duração: 139 minutos; Distribuição em Portugal: Zon Lusomundo Audiovisuais; Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal: 26 de Maio de 2011.
 Terrence Malick - a única fonografia conhecida do cineasta

quinta-feira, dezembro 29, 2011

2011 - O CINEMA PORTUGUÊS EM PORTUGAL, 2

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RANKING DOS FILMES PORTUGUESES MAIS VISTOS
(1-1-2011/21-12-2011) 
 
Passemos agora ao quadro seguinte, mantendo a mesma fonte, ICA (http://www.ica-ip.pt/Admin/Files/Documents/contentdoc1956.pdf). Trata-se agora de filmes portugueses, estreados durante o mesmo lapso de tempo. 

TÍTULO
TIPO
REALIZADOR
DISTRIBUIDOR
ESTREIA
ESPECT.
RECEITA BRUTA
1
SANGUE DO MEU SANGUE
FICÇÃO
JOÃO CANIJO
MIDAS FILMES
05-10-2011
20.262
€ 95.502,12
2
COMPLEXO UNIVERSO PARALELO
DOC.
MÁRIO PATROCÍNIO
VALENTIM DE CARVALHO
13-01-2011
17.102
€ 85.063,14
3
A CIDADE DOS MORTOS
DOC.
SÉRGIO TRÉFAUT
FAUX
14-04-2011
6.924
€ 32.610,71
4
48
DOC.
SUSANA SOUSA DIAS
ALAMBIQUE
21-04-2011
3.256
€ 15.539,69
5
O ESTRANHO CASO DE ANGÉLICA
FICÇÃO
MANOEL DE OLIVEIRA
ZON LUSOMUNDO AUDIO.
28-04-2011
2.664
€ 11.677,48
6
A MORTE DE CARLOS GARDEL
FICÇÃO
SOLVEIG NORDLUND
ZON LUSOMUNDO AUDIO.
22-09-2011
2.656
€ 11.563,13
7
BUDAPESTE
FICÇÃO
WALTER CARVALHO
CLMC - MULTIMÉDIA
17-02-2011
2.290
€ 10.386,40
8
CISNE
FICÇÃO
TERESA VILLAVERDE
ALCE FILMES
08-09-2011
2.220
€ 9.822,50
9
COM QUE VOZ
DOC.
NICHOLAS OULMAN
NLC - CINEMA CITY
27-01-2011
2.063
€ 10.243,49
10
VIAGEM A PORTUGAL
FICÇÃO
SÉRGIO TRÉFAUT
FAUX
16-06-2011
2.017
€ 8.892,40
11
AMÉRICA
FICÇÃO
JOÃO NUNO PINTO
ZON LUSOMUNDO AUDIO.
26-05-2011
1.762
€ 7.295,16
12
QUINZE PONTOS NA ALMA
FICÇÃO
VICENTE ALVES DO Ó
ZON LUSOMUNDO AUDIO.
07-04-2011
1.657
€ 4.496,06
13
O BARÃO
FICÇÃO
EDGAR PÊRA
ZON LUSOMUNDO AUDIO.
20-10-2011
1.196
€ 5.844,90
14
A ESPADA E A ROSA
FICÇÃO
JOÃO NICOLAU
O SOM E A FÚRIA
07-04-2011
661
€ 2.442,64
15
E O TEMPO PASSA
FICÇÃO
ALBERTO SEIXAS SANTOS
TREVI FILMES, AUDIO, LDª
10-03-2011
566
€ 2.398,30
16
ÁGUAS MIL
FICÇÃO
IVO M. FERREIRA
ZON LUSOMUNDO AUDIO.
12-05-2011
540
€ 2.149,02
17
QUEM VAI À GUERRA
DOC.
MARTA PESSOA
REAL FICÇÃO
16-06-2011
531
€ 2.566,13
18
ATÉ ONDE?
FICÇÃO
CARLOS MAGALHÃES DE BARROS
CARLOS MAGALHÃES DE BARROS
11-06-2011
426
€ 691,00
19
EFEITOS SECUNDÁRIOS
FICÇÃO
PAULO REBELO
C.R.I.M. PRODUÇÕES AUDIO.
14-12-2011
373
€ 566,00
20
THE NORTH CANYON
DOC.
GARRETT McNAMARA, P. CALDEIRA, P. CONCEPTS
ZON LUSOMUNDO AUDIO.
21-10-2011
361
€ 1.585,00
21
DURANTE O FIM
DOC.
JOÃO TRABULO
PERIFERIA FILMES
23-06-2011
172
€ 520,70
22
PERDIDA MENTE
FICÇÃO
MARGARIDA GIL
AMBAR FILMES
01-11-2011
167
€ 376,00
23
NO MEU LUGAR
FICÇÃO
EDUARDO VALENTE
ZON LUSOMUNDO AUDIO.
13-10-2011
62
€ 250,85

O melhor filme português, “Sangue do Meu Sangue”, de João Canijo, ficou-se pelos 20.262 espectadores, com uma receita bruta de 96.502,12 Euros. Elucidativo.
O filme de Manoel Oliveira, “O Estranho Caso de Angélica”, considerado pelos “Cahiers du Cinema”, como o segundo melhor filme visto em França durante o ano de 2011, teve 2.664 espectadores. “E o Tempo Passa”, de Alberto Seixas Santos, um nome seguro do nosso cinema, ficou-se pelos 566 espectadores. A última longa-metragem desta singular lista, teve 52 espectadores, e fez 250,85 euros de receita. Dá que pensar. Sobre os “Caminhos do Cinema Português”, obviamente, mas sobretudo sobre quem são os espectadores de cinema em Portugal, no ano de 2011.