terça-feira, dezembro 08, 2020

TELEVISÃO: GAMBITO DE DAMAS

 


GAMBITO DE DAMA


Devo dizer, á abrir, que adoro jogar, das mais simples paciências às máquinas de casino, mas o xadrez nunca me motivou. Quase nada sei desse jogo e uma série de sete episódios, com seis horas e meia de duração sobre uma campeã de xadrez, não me dizia muito. Ouvi e li algumas boas referências e lá me aventurei. O primeiro episódio, com a juventude de Beth Harmon num asilo para órfãs, e com os contactos iniciais da miúda com o jogo que iria dominar como (quase) ninguém, os seus jogos imaginários com as figuras a evoluírem no tecto da camarata, não me deixaram um grande entusiasta. Mas insisti e a partir do segundo episódio tornei-me viciado, tal a forma como a obra se foi adensando e criando um clima absorvente.

Manter uma série sobre xadrez durante sete episódios de quase uma hora cada um, é obra. Os argumentistas e o realizador Scott Frank conseguem-no e a actriz protagonista, Anya Taylor-Joy, aguenta com bravura uma obra em que praticamente está sempre em cena, confrontada com um elenco todo ele eficaz e competente. Uma biografia bem desenvolvida, com nuances mais ou menos esperadas, com altos e baixos, é certo, mas ascendente até ao duelo final com o campeão do mundo da URSS.

Uma mulher num meio que durante muito tempo foi um universo masculino. Uma mulher que começa a defrontar os grandes campeões nacionais e internacionais com uma idade de apenas menina adolescente, mas já senhora de uma fortíssima personalidade para o jogo. Uma excelente série que mostra como a resiliência e a persistência são necessárias em todas as vitórias humanas. Vale a pena ver, na Netflix.

 

GAMBITO DE DAMA

Título original: The Queen's Gambit

Realização: Scott Frank (EUA, 2020); Argumento: Scott Frank, Allan Scott, Walter Tevis; Produção: Mick Aniceto, Laura Delahaye, Blair Fetter, Scott Frank, William Horberg, Allan Scott, Susan Hsu, Marcus Loges, Pia Schlipphak, Uwe Schott;  Música: Carlos Rafael Rivera;  Fotografia (cor): Steven Meizler;  Montagem: Michelle Tesoro;  Casting: Anna-Lena Slater, Tina Gerussi, Ellen Lewis, Olivia Scott-Webb, Kate Sprance; Design de produção: Uli Hanisch ;  Direcção artística: Kai Koch, Brendan Smith, Daniel Chour, Thorsten Klein;  Decoração: Sabine Schaaf, Ingeborg Heinemann;  Guarda-roupa: Gabriele Binder;  Maquilhagem: Daniel Parker, Jenna Smith, SJ Teasdale, Chris Lyons; Direcção de Produção: Timo Dobbert, Em Hipp, Anna Lisa Kunkel, Alisia Manuguerra, Meret Wagner, Marc Grewe; Assistentes de realização: Gabrielle Beaty, Mathias Datow, Carlos Fidel, Hélène Irdor, Tommy Kreiselmaier, Aldric La'auli Porter, Henriette Rodenwald, Clara von Arnim, Nico Markert, Drew McLean; Departamento de arte: Anna Brauwers, Sophia Burkardt, Ron Büttner, Aylin Englisch, Lea Gabler, Karolin Leshel, Wilko Drews, Christian Meinherz, Florian Radloff, Niklas Schmidt, Tobias Schroeter, Raymond Boy, Michael Düwel, etc. ; Som: Patrick Cicero, Leo Marcil, James David Redding III, Gregg Swiatlowski, Nicole Tessier, Wylie Stateman; Efeitos visuais: Holli Alvarado, Clara Hill, Patrick D. Hurd, Sam Kim, John Mangia, Nicole Stone;  Companhias de produção: Flitcraft, Wonderful Films, Netflix; Intérpretes: Anya Taylor-Joy (Beth Harmon), Chloe Pirrie (Alice Harmon), Bill Camp (Mr. Shaibel), Marielle Heller (Alma Wheatley),  Marcin Dorocinski (Vasily Borgov), Thomas Brodie-Sangster (Benny Watts), Moses Ingram,  Harry Melling, Isla Johnston,  Dolores Carbonari,  Janina Elkin, Matthew Dennis, Russell Dennis Lewis,  Patrick Kennedy, etc. Duração: 393 minutos; Distribuição em Portugal: Netflix; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 2020.

domingo, dezembro 06, 2020

CINEMA: UMA VIDA À SUA FRENTE

 


UMA VIDA À SUA FRENTE

Edoardo Ponti (Genebra, 1973), um dos filhos do casal Sofia Loren/Carlo Ponti, convenceu a mãe a regressar ao cinema, aos 86 anos, para interpretar “La vita davanti a sé”, um romance de Roman Gary que já havia sido alvo de uma adaptação ao cinema, em 1977, por Moshé Mizrahi, com Simone Signoret na protagonista. A obra arrebatou o Oscar de Melhor Filme em Língua não Inglesa. Edoardo Ponti já havia trabalhado com a mãe em dois outros trabalhos, “Il Turno do Notte lo Fanno le Stelle” (2012) e “Voce Humana (2014).

O romance de Roman Gary fala de uma judia, Madame Rosa, sobrevivente de Auschwitz, prostitua retirada, que agora se entretém a tomar conta de filhos de outras prostitutas. Simpática, mas isolada nos seus pensamentos, com amigos dispersos pelo bairro que habita, Madame Rosa vê-se confrontada com um miúdo, emigrante árabe, irrequieto e dado à clandestinidade (vende droga para um “barão” do bairro), que lhe é entregue por um velho médico seu amigo. De início as coisas não corem bem, depois começam a conhecer-se melhor. Momo, o miúdo, percebe porque razão Rosa se isola e se refugia no extremo de um longo corredor quase em ruinas e, no final, tornam-se bons amigos. A ideia é estafada, de tão gasta (os opostos que acabam respeitando-se), mas sabe sempre bem, sobretudo em data natalícia.


O filme é escorreito, sem nada que o dignifique de um ponto de vista cinematográfico, mas tem uma interpretação muito boa, com um belíssimo elenco, à frente do qual a veterana Sofia Loren, que sabe sempre bem ver, mesmo com 86 anos, sobretudo com 86 anos, e o bom estado em que se contra. Mas o puto Ibrahima Gueye não lhe fica atrás e dá excelente réplica à magnifica Loren.

Nada de muito especial, não fora a presença dos actores. Mas por isso vale a pena. E a mensagem pacifista, sendo um pouco ingénua, também não calha mal, mesmo tendo em conta o conflito israelo-árabe que nunca mais termina. Nem com os esforços da família Ponti.

UMA VIDA À SUA FRENTE

Título original: La vita davanti a sé

Realização: Edoardo Ponti (Itália, 2020); Argumento: Ugo Chiti, Fabio Natale, Edoardo Ponti, segundo romance de Romain Gary; Produção: Viola Calia, Marco Camilli, Carlo Degli Esposti, Geralyn White Dreyfous, Giacomo Maraghini Garrone, Patrizia Massa, Davide Nardini, David Paradice, Luigi Pinto, Edoardo Ponti, Guendalina Ponti, Susan Rockefeller, Regina K. Scully, Nicola Serra, Esmeralda Swartz, Lynda Weinman, Jamie Wolf; Música: Gabriel Yared; Fotografia (cor): Angus Hudson; Montagem: Jacopo Quadri; Casting: Chiara Polizzi; Design de produção: Maurizio Sabatini; Direcção artística: Maurizio di Clemente; Maquilhagem: Frédérique Foglia; Direcção de Produção: Diego Cavallo, Fabio Marini; Assistentes de realização: Deborha Brandonisio, Irene Campana, Alessandro Trapani, Clara Zuliani; Departamento de arte: Leonardo Cruciano, Antonio Murer, David Orlandelli; Som: Maximiliano Angelieri, Maurizio Argentieri, Andrea Dallimonti, etc. Efeitos especiais: Pasquale Catalano, Paolo Galiano, Fabio Traversari; Efeitos visuais: Mattia Donelli, Valentina Girolami, Alessio Oliverio, Lorenzo Schiattarella; Companhias de produção: Palomar, Netflix; Intérpretes: Sophia Loren (Madame Rosa), Ibrahima Gueye (Momo), Renato Carpentieri (Dr. Coen), Iosif Diego Pirvu (Iosif), Abril Zamora (Lola), Babak Karimi (Hamil), Malich Cissé (Nala), Massimiliano Rossi, Vittoria Loiacono, Cesare Pastanella, Costanta Fana Pirvu, Rav Mario Sonnino, Simone Surico, Nicola Valenzano, Francesco Cassano, etc. Duração: 94 minutos; Distribuição em Portugal: Netflix; Classificação etária: M/ 13 anos; Data de estreia em Portugal: 13 de Novembro de 2020.

sábado, novembro 07, 2020

ADEUS, SR. PRESIDENTE!


ADEUS, SR. PRESIDENTE!
Não vai deixar saudades.
Uma semana ANTES de ser eleito, 
eu já não o podia ouvir.
Não tem nada a ver com republicanos e democratas.
Tem a ver com dignidade e respeito.
Boa viagem 
e não volte mais!

 

quarta-feira, novembro 04, 2020

CINEMA: REBECCA (1940)

 

REBECCA (1940)

No verão de 1939, David O. Selznick foi buscar Alfred Hitchcock a Inglaterra e ofereceu-lhe trabalho em Hollywood. Hitchcock era na altura o mais famoso realizador inglês, já com alguns grandes sucessos de público e de crítica, e compreende-se que um produtor como Selznick tenha apostado tudo neste britânico, já um pouco gordo e sempre bonacheirão, que criava uma fama de grande cineasta e de um apuradíssimo criador de atmosferas de suspense.

Para iniciar essa colaboração, o produtor ofereceu ao realizador a oportunidade de adaptar ao cinema, depois da tentativa de Titanic, o romance de uma escritora então muito popular, Daphne Du Maurier, “Rebecca”. Curiosamente a oferta caiu como ouro sobre azul, pois Hitchcock já pensava, ainda em Inglaterra, adaptar este romance que tinha todos os condimentos para se integrar harmoniosamente nos temas e nas preocupações do cineasta.


“Rebecca” é uma história fabulosa, um melodrama sentimental que assenta num clima fantástico, povoado de segredos e de mistérios, com um crime a pairar no horizonte e uma ambiguidade de situações invulgar. Esta “picturization” do romance de Daphne Du Maurier, como aparece escrito no genérico inicial, começa com uma voz off, e a câmara a percorrer o caminho que conduz a Marderley, ouvindo-se
"Last night I dreamt I went to Manderley again". Mas a acção inicia-se com uma cena fortíssima, na costa de Monte Carlo, com Maxim de Winter (Laurence Olivier) à beira de um penhasco sobre o mar em fúria, quando é surpreendido por uma mulher, que mais tarde será Mrs. de Winter (Joan Fontaine), que lhe grita para parar. Seria que Maxim se preparava para se suicidar? A verdade é que do encontro resulta uma paixão relâmpago entre os dois, casam e ele regressa com ela a Manderley, uma mansão enorme onde estivera casado com a primeira Mrs. Winter, de seu nome Rebecca.

Rebecca irá assombrar todos os minutos que dura o filme, mas é uma presença invisível que se torna mais presente do que muitas reais. Por todo o lado se insinua a forte presença desta mulher que é descrita como muito bela, elegante, poderosa, absorvente. Tudo está marcado por Rebecca, desde a roupa ao quarto fechado, da sua sedução e fascínio aos mais intrigantes segredos que lentamente se irão descobrindo à medida que o filme decorre. Se Rebecca é um nome constante, da segunda senhora Winter nunca iremos saber sequer o nome próprio, emparedada entre Rebecca e Manderley. Se Rebecca é uma presença obsidiante, Manderey impõe-se igualmente de forma obsessiva.

A juntar a estas individualidades de personalidade dominadora (sim Manderley é uma das personagens do filme), há ainda uma ama, Mrs. Danvers (a inesquecível Judith Anderson), que tudo fará para igualmente se tornar uma presença, no mínimo obsessiva, a rondar o patológico. Ela vive sob o domínio de Rebecca, a sua senhora, seguramente o seu amor, concretizado ou não, disposta a perseverar a imagem da sua referência maior, particularmente insatisfeita com a vinda de uma nova mulher a ocupar o lugar daquela que para ela é insubstituível. Discretamente, de forma insidiosa, fará a vida negra à segunda Mrs. Winter. 


“Rebecca” é assim esta história de um triangulo emocional entre Maxim e as suas duas mulheres, com uma curiosidade extra, que a censura dos EUA introduziu no argumento: no romance de Daphne Du Maurier tinha sido Maxim De Winter a assassinar a primeira mulher. No filme, por imposição do Código Heys, que não permitia que um criminoso ficasse impune no final de um filme, Hitchcock introduziu algumas alterações à história, que, longe de tornarem a intriga mais “moral”, desafiam o espectador para outras áreas de interpretação.

Vindo de Inglaterra, com uma história inglesa debaixo do braço, Alfred Hitchcock, de colaboração com Selznick que lhe deu (quase) inteira liberdade de escolha, optou por um elenco principal onde só Joan Fontaine era naturalizada norte-americana (apesar de ter nascido em Tóquio, de pai inglês). Laurence Olivier, George Sanders, Judith Anderson, entre outros, eram ingleses.

Rodado na Califórnia, entre 8 de Setembro e 20 de Novembro de 1939, “Rebecca”, teve interiores captados nos Selznick International Studios, em Culver City, e exteriores em Big Sur, Point Lobos State Natural Reserve e Palos Verdes. Não sendo dos filmes de que o autor mais gosta, “Rebecca” terá sido um dos seus maiores sucessos, não só na altura da sua estreia (ganhou o Oscar de Melhor Filme, mas não o de Melhor Realizador, o que Hitch nunca alcançou, a não ser um Oscar honorário pela contribuição do seu trabalho total), como até hoje, sendo dos filmes que maior receita acumularam, entre todos os dirigidos a preto e branco pelo mestre do suspense.

REBECCA

Título original: Rebecca

Realização: Alfred Hitchcock (EUA, 1940); Argumento: Robert E. Sherwood, Joan Harrison, Philip MacDonald, Michael Hogan, segundo romance de Daphne Du Maurier; Produção: David O. Selznick; Música: Franz Waxman; Fotografia (p/b): George Barnes; Montagem: W. Donn Hayes; Direcção artística: Lyle R. Wheeler, William Cameron Menzies; Maquilhagem: Monte Westmore; Assistentes de realização: Edmond F. Bernoudy, D. Ross Lederman, Eric Stacey; Departamento de arte: Howard Bristol, Joseph B. Platt, Dorothea Holt; Som: Jack Noyes, Arthur Johns; Efeitos especiais: Jack Cosgrove; Efeitos visuais: Albert Simpson; Companhia de produção: Selznick International Pictures; Intérpretes: Laurence Olivier ('Maxim' de Winter), Joan Fontaine (Mrs. de Winter), George Sanders (Jack Favell), Judith Anderson (Mrs. Danvers), Nigel Bruce (Major Giles Lacy), Reginald Denny (Frank Crawley), C. Aubrey Smith (Coronel Julyan), Gladys Cooper (Beatrice Lacy) Florence Bates (Mrs. Van Hopper), Melville Cooper (Coroner), Leo G. Carroll (Dr. Baker), Leonard Carey, Lumsden Hare, Edward Fielding, hilip Winter, Forrester Harvey, Alfred Hitchcock (homem do lado de fora de uma cabine telefónica), etc. Duração: 130 minutos; Distribuição em Portugal: inexistente; Distribuição internacional: ABC (Espanha); Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 7 de Janeiro de 1941; Cópia original em inglês, com legendas em espanhol.

terça-feira, novembro 03, 2020

CINEMA: REBECCA (2020)

 


REBECCA (2020)

Uma nova versão de “Rebecca”, adaptando o célebre romance de Daphne Du Maurier que marcou a entrada fulgurante de Alfred Hitchcock na produção cinematográfica dos EUA em 1940. Mais uma vez um remake não se mostra à altura do original. Lembro-me de “Lolita” de Vladimir Nabokov, que Stanley Kubrick dirigiu em 1962, com James Mason, Shelley Winters e Sue Lyon. Uma obra-prima que, em 1997, Adrian Lyne retomou, a cores, com um bom elenco, Jeremy Irons, Dominique Swain e Melanie Griffith, ficando muito abaixo do filme de Kubrick. Qual a razão? O talento do realizador e a intensidade dramática do preto e branco que trazia uma austeridade fortíssima a esse drama, o que, no caso da obra mais recente, era completamente anulado pelo bonitinho cheio de rodriguinhos do colorido do filme de Adrian Lyne. A tendência para tornar “esteticamente” mais “moderno”, mais actual o conflito, acaba por ser uma opção redutora.



O mesmo acontece com “Rebecca”, com resultados muito semelhantes. A actual versão é muito adocicada, igualmente muito “bonitinha”, com escolha de cenários sumptuosos, mas com efeitos totalmente opostos ao filme de Hitch. Mas há muito mais. Os protagonistas desta versão de 2020, Lily James, Armie Hammer e Kristin Scott Thomas, estão todos a milhas de Laurence Olivier, Joan Fontaine ou Judith Anderson. Apenas Kristin Scott Thomas, no papel de governanta, se aproxima do trabalho de Judith Anderson, mesmo assim não o igualando. Uma desilusão que tem o condão de que confirmar como era notável o filme de Alfred Hitchcock. Pode ver esta versão, mas não deixe de ver ou rever o verdadeiro “Rebecca”, uma lição de cinema.  

REBECCA

Título original: Rebecca

Realização: Ben Wheatley (2020); Argumento: Jane Goldman, Joe Shrapnel, Anna Waterhouse, segundo romance de Daphne Du Maurier; Produção: Raphaël Benoliel, Tim Bevan, Eric Fellner, Amelia Granger, Caroline Levy, Nira Park, Sarah-Jane Robinson; Música: Clint Mansell; Fotografia (cor): Laurie Rose; Montagem: Jonathan Amos; Casting: Nina Gold, Mathilde Snodgrass; Design de produção: Sarah Greenwood; Direcção artística: Will Coubrough, Nick Gottschalk, Louise Lannen, Will Newton; Decoração: Katie Spencer; Guarda-roupa: Julian Day; Maquilhagem: Ivana Primorac, Laura Allen, Elodie Aubert, Olivia Barningham, Sam Bear, Véronique Boslé, Jean-Philippe Colombie, Crystelle Di Rosa, Beatriz Duarte, Stefania Favata, Grace Firmin, Louise Fisher, Florina Foret, Karine Foret, Robert Frampton, Jean-Pierre Gallina, Karl Gianfreda, Fabienne Giombini, Mélodie Grand, Chantal Guadalpi, Senghore Haddy, Charlotte Hayward, Jennyfer Hillyards, Catherine Ichou, Irène Jordi, Laureen Kaczmarek, Sophie Kilian, Barbara Krief, Justine Lancelle, Sandra Lovi, James MacInerney, Patricia Ounroth-Rochwerg, Marilyn Rieul, Charlotte Rogers, Corinne Texier, Gillian Thomas, Naomi Tolan, Catherine Topin, Christine Whitney, Hollie Williams, Lisa Wood; Direcção de Produção: Joanne Dixon, Arnaud Duterque, Rachael Havercroft, Polly Hope, Hannah Ireland, Pat Karam, Elizabeth Small; Assistentes de realização: Tussy Facchin, Andrea Hachuel, Ben Howard, Elodie Krauss, Georgia Lewis, Danni Lizaitis, Stefan Maile, Vincenz Meresse, Charlie Vaughan, Phoebe Young; Departamento de arte: Naomi Bailey, Ursa Banton-Miller, Tamara Catlin-Birch, Simon Hutchings, Emma MacDevitt, Alicia Grace Martin, Michel Rollant; Som: Danny Freemantle, Glenn Freemantle, Nick Freemantle, Niv Adiri, Gillian Dodders, Russell Edwards, Rob Entwistle, Dayo James, Robert Malone, Anthony S. Ciccarelli, etc. Efeitos especiais: Karl Openshaw, Jody Taylor, Richard Van Den Bergh, Massimo Vico, Flora Warrington, Murray Barber, Mauricio Cuencas, Atem Kuol, etc. Companhias de produção: Netflix, Working Title Films; Intérpretes: Lily James (Mrs. de Winter), Armie Hammer (Maxim de Winter), Ann Dowd (Mrs. Van Hopper), Kristin Scott Thomas (Mrs. Danvers), Jacques Bouanich, Marie Collins, Jean Dell, Sophie Payan, Pippa Winslow, Lucy Russell, Bruno Paviot, Stefo Linard, Tom Hudson, Jeff Rawle, Ashleigh Reynolds, Bryony Miller, Tom Goodman-Hill, Ben Crompton, John Hollingworth, Keeley Hawes, Jane Lapotaire, Sam Riley, Poppy Allen-Quarmby, David Cann, Julia Deakin, Jason Williamson, Colin Bennett, Jessie Irvin Rose, Chris Bearne, John Macneill, etc. Duração: 121 minutos; Distribuição em Portugal: Netflix; Classificação etária: M/ 13 anos; Data de estreia em Portugal: 21 de Outubro de 2020. 

segunda-feira, novembro 02, 2020

CINEMA: OS 7 DE CHICAGO

 

OS 7 DE CHICAGO

A América tem destas coisas: podemos estar muito zangados com uma metade, mas há sempre a outra metade a compensar e surpreender-nos. “Os 7 de Chicago”, de Aaron Sorkin, aí está para nos reconciliar com o lado menos podre da maçã, para nos fazer ver que a América é um país de contradições, onde é sempre possível recuperar a dignidade e que é quase sempre pela arte que lá vamos. Quer seja na literatura, na música, no teatro, nas artes plásticas, … no cinema.

Aaron Sorkin é um dos meninos bonitos de Hollywood, quer como argumentista, como dramaturgo, como realizador igualmente. Nascido num subúrbio de Nova Iorque (1961), formado na universidade de Syracuse, em teatro, começa a carreira como actor, mas rapidamente percebe que a sua vocação é a escrita. Assina algumas peças de sucesso, como "Hidden in This Picture", mas é sobretudo com “Uma Questão de Honra” (1992), que atinge uma certa consagração nos palcos. Passa depois ao cinema, notabilizando-se como o argumentista de série de televisão de antologia, como “Os Homens do Presidente” (1999), “Sports Night” (1998) ou “Newsroom” (2012-2014). No cinema colabora na versão final de “A Lista de Schindler” (1993) e assina os argumentos de “Uma Noite com o Presidente” (1995), “Má Fé” (1993), “Inimigo de Estado” (1998), “O Rochedo” (1996), “Bagagem Explosiva” (1997), “Jogos de Poder” (2007), “A Rede Social” (2010), Moneyball, Jogada de Risco” (2011), “Steve Jobs” (2015), “Jogos da Alta Roda” (2017) e, finalmente, “Os 7 de Chicago”. Os dois últimos são realizados por si.


“Os 7 de Chicago” arrisca-se a ser, desde já, um dos grandes candidatos aos Oscars de 2021. Aliás, a pandemia, e o reforço esperado da importância do
streaming, parecem colocar a Netfix em alto grau de probabilidade de ser uma das grandes vencedoras da próxima noite de atribuição de Oscars. Não só com este filme, mas com outros que se anunciam com igual possibilidade de figurarem na lista final dos nomeados e dos vencedores. Mas fiquemo-nos por agora neste “Os 7 de Chicago” que se baseia num caso verídico, ocorrido em Chicago, por ocasião da Convenção Nacional Democrata de 1968.

O filme explica e julgo que com grande precisão de factos, ainda que obviamente com um lado ficcionista que sempre se impõe, como as coisas aconteceram. Estamos em pleno período eleitoral na Convenção Democrata. O país vive angustiado com a Guerra do Vietname e com as medidas anunciadas pelo presidente Lyndon B. Johnson, recrutando mais e mais militares para o conflito. A juventude está revoltada e organiza várias marchas de protesto que irão confluir nas ruas e parques de Chicago. A convenção decorre no International Amphitheatre e a multidão dirige-se para lá. A polícia corta-lhe o acesso, em frente ao Conrad Hilton Hotel, onde os candidatos democratas à presidência e suas campanhas estavam sediados, e surgem os confrontos ali e em vários locais da cidade. Há cargas violentas, feridos, presos. Conta-se que no comício do Grant Park, na quarta-feira, 28 de Agosto de 1968, se reuniram mais de 15 mil manifestantes. Foram 5 dias e 5 noites de tumultos. Acusações de parte a parte. Polícia e manifestantes tanto são ora vítimas, como carrascos. As autoridades, na impossibilidade de prenderem todos, “elegeram” os “Chicago Seven” (originalmente Chicago Eight, ou Conspiracy Eight) que se iriam sentar nas cadeiras de réus: Abbie Hoffman, Jerry Rubin, David Dellinger, Tom Hayden, Rennie Davis, John Froines e Lee Weiner, todos acusados de conspiração, incitação à revolta e outras incriminações relacionadas a protestos contraculturais e contra a Guerra do Vietname. O oitavo era Bobby Seale, dirigente dos Black Panters, que, acusado de desacatos durante o julgamento, seria obrigado a abandonar a sala de julgamento e viria a ser condenado a quatro anos de prisão.  



Acontece que este caso ocorreu durante eleições nos EUA. Estava no poder Lyndon B. Johnson que viria a ser substituído pelo republicano Nixon, com as respectivas trocas noutros cargos. O de procurador-geral do presidente, inicialmente um democrata, Ramsey Clark, depois um republicano, John Mitchell, com tudo o que a rivalidade política e os pontos de vista divergentes impõem. O democrata teria uma opinião mais cordata, mais favorável aos manifestantes, os republicanos foram muito mais violentos nas acusações, desculparam as cargas policiais, o julgamento prolongou-se por meses, concluiu por condenações, a que se seguiram apelações e reversões, alguns dos sete acusados foram finalmente condenados, embora todas as condenações tenham sido, anos depois, revertidas.

Com base nestes dados, Aaron Sorkin escreveu um argumento que é sobretudo um filme de tribunal, que se acompanha com interesse redobrado, dada a tensão mantida e o desempenho de um vasto grupo de actores, todos eles excelentes. As peripécias do julgamento, a irreverência dos réus, a inteligência e a ironia do diálogo, a boa arquitetura narrativa, tudo isso se conjuga para a criação de uma obra notável, de coragem política (sobretudo em tempos de Trump na presidência) mas igualmente de dramatismo social. Erguer uma tal obra não terá sido muito fácil nos tempos actuais, por isso se compreende que surjam no genérico entre produtores e produtores associados e executivos, 44 nomes e 11 casas produtoras. Um esforço financeiro avultado certamente, mas sobretudo uma forma de multiplicar por muitos a responsabilidade de apresentar ao público uma tal obra. Note-se que alguns actores se encontram entre os produtores, caso por exemplo de Sacha Baron Cohen, o que transforma esta película numa espécie de manifesto que tem objectivamente muito de actual. Não por acaso surge nas vésperas da mais importante eleição que se realiza nos EUA desde há muito.


O elenco é grandioso e brilhante: Eddie Redmayne, Alex Sharp, Sacha Baron Cohen, Jeremy Strong, John Carroll Lynch, Yahya Abdul-Mateen II, Mark Rylance, Joseph Gordon-Levitt, Ben Shenkman Frank Langella, Michael Keaton, entre muitos outros, impõem uma galeria de tipos que dificilmente se esquecem assim como o galvanizante final que relembra obviamente as derradeiras imagens de “O Clube dos Poetas Mortos”.

A reconstituição de época é notável e todo o enquadramento técnico, da fotografia à banda sonora, passando pela montagem merecem os mais rasgados elogios. Um filme do ano, seguramente.


 

OS 7 DE CHICAGO

Título original: Título original: The Trial of the Chicago 7

Realização: Aaron Sorkin (EUA, 2020); Argumento:Aaron Sorkin; Produção: Max Adler, Cary Anderson, Sacha Baron Cohen, Gail Benefiel, Stuart M. Besser, Marc Butan, Dru Davis, Misook Doolittle, Maurice Fadida, Stephanie Garvin, Mickey Gooch Jr., J. Todd Harris, Matt Jackson, Anthony Katagas, Nancy Kirhoffer, Monica Levinson, Lauren Lohman, Laurie MacDonald, Kristie Macosko Krieger, Steve Matzkin, Jan McAdoo, Evan Metropoulos, Charles Miller, Jonathan Moore, Walter F. Parkes, Buddy Patrick, Marc Platt, Shivani Rawat, Joseph P. Reidy, Kristina Rivera, Andrew C. Robinson, James Rodenhouse, Cody Saintgnue, Emily Hunter Salveson, Sarah Schroeder-Matzkin, Thorsten Schumacher, Nicole Alexandra Shipley, Ryan Donnell Smith, Debra Taweel, Tyler Thompson, Jared Underwood, Nia Vazirani, Slava Vladimirov; etc. Música: Daniel Pemberton; Fotografia (cor): Phedon Papamichael; Montagem: Alan Baumgarten; Casting: Francine Maisler, Mickie Paskal, Jennifer Rudnicke; Design de produção: Shane Valentino; Direcção artística: Nick Francone, Julia Heymans, Ernesto Solo; Decoração: Andrew Baseman; Guarda-roupa: Susan Lyall; Maquilhagem: Tiffany Anderson, Budd Bird, Karen Brody, Eadra Brown, Nathan J. Busch II, Stephanie Cannone, Christen Edwards, David Grant, Vivian Guzman, Stacey Herbert, Troy Holbrook, Jon Jordan, Stephen Kelley, Rochelle Kneisley-Fisher, Karen Koenig, Jamie Leodones, Justine Losoya, Tarsha Marshall, Joanna McCarthy, Louise McCarthy, Amy Sue Nahhas, Zsofia Otvos, Sunni-Ali Powell, Lillian Sakamaki, Ray Santoleri, KeLeen J. Snowgren, Sarah Squire, 0Kacy Tatus, Pamela Turnmire, Gina Ussel, Catherine Woods, Jackie Zarn, Anna Zenner, Nakoya Yancey; Direcção de Produção: David Duque-Estrada, Charles Leslie, Charles Miller, Jonathan Shoemaker; Assistentes de realização: Kyle Casper, Pablo Gambetta, T.J. Hallett, Rachel Jaros, Joseph P. Reidy; Departamento de arte: Zach Doherty, Jennie Eps, Maxwell Fasen, Michael Fleming, Jacqueline Frole, Steve Garcia, Ben Gojer, Chesney Gregorie, Dylan E. Griffin, Samuel L. Kopels, Irene Krygowski, Leanne Macomber, Melissa Manke, Lauren Nigri, Ari David Schwartz, David Soukup, Scott Taft, Charles E Tiedje, Timothy W. Tiedje, Molly Welsh, etc. Som: Dan Kenyon, James B. Appleton, Davi Aquino, Tim Edson, Casey Genton, Michael Hertlein, Jonathan Klein, Jon Michaels, Adam Mohundro, Kevin Schultz, Ken Strain, Renee Tondelli, Thomas Varga, etc. Efeitos especiais: Allison Cayo, Drew Jiritano, James Klotsas, Carlton Nienhouse, Calvin Small; Efeitos visuais: Glenn Allen, Jasmine Carruthers, Unggyu Choi, Nick Constandy, Eran Dinur, Richard Friedlander, Daniel Gardiner, Mia Mallory Green, Austin Meyers, Yunsik Noh, Michelle Polacinski, Mani Trump, Michael Wharton, Ben Zylberman; Companhias de produção: Dreamworks Pictures, Amblin Partners, CAA Media Finance, Cross Creek Pictures, Double Infinity Productions, MadRiver Pictures, Marc Platt Productions, Paramount Pictures, Reliance Entertainment, Rocket Science, ShivHans Pictures; Intérpretes: Eddie Redmayne (Tom Hayden), Alex Sharp (Rennie Davis), Sacha Baron Cohen (Abbie Hoffman), Jeremy Strong (Jerry Rubin), John Carroll Lynch (David Dellinger), Yahya Abdul-Mateen II (Bobby Seale), Mark Rylance (William Kunstler), Joseph Gordon-Levitt (Richard Schultz), Ben Shenkman (Leonard Weinglass), J.C. MacKenzie (Thomas Foran), Frank Langella (Juiz Julius Hoffman), Danny Flaherty (John Froines), Noah Robbins (Lee Weiner), John Doman (John Mitchell), Michael Keaton (Ramsey Clark), Kelvin Harrison Jr. (Fred Hampton), Caitlin FitzGerald, Brady Jenness, Meghan Rafferty, Juliette Angelo, Brendan Burke, Tah von Allmen, Alan Metoskie, John Gawlik, Kevin O'Donnell, Gavin Haag, Alice Kremelberg, Tiffany Denise Hobbs, Steve Routman, Madison Nichols, John F. Carpenter, Larry Mitchell, Wayne Duvall, Mike Geraghty, Michael Brunlieb, etc. Duração: 129 minutos; Distribuição em Portugal: Netflix; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal (Netflix): 16 de Outubro de 2020.


segunda-feira, outubro 12, 2020

LISTEN, de ANA ROCHA



LISTEN ou OUVE-ME

“Ouve-me” ou “Listen”, conforme o filme se veja em Portugal ou em Inglaterra, é a obra de estreia de Ana Rocha que se estreou no Festival de Veneza, onde se portou verdadeiramente bem, arrebatando vários prémios, os oficiais Leão do Futuro e o Prémio Especial do Júri, na secção "Horizontes", e ainda os galardões paralelos Bisato d’Oro, Sorriso Diverso Veneza, Casa Wabi e HFPA.

Ana Rita Rocha de Sousa, de seu nome completo, nasceu em Lisboa, a 28 de Outubro de 1978. Estreia-se como actriz, muito nova, numa pequena participação no filme de João Botelho, “No Dia dos Meus Anos” (1991). Em televisão (RTP, TVI e SIC) apareceu em diversos trabalhos, como “Riscos”, “Jornalistas”, “Médico de Família”, “Alves dos Reis”, “A Raia dos Medos”, “A Senhora das Águas”, “Um Estranho em Casa”, “Sonhos Traídos”, “Morangos com Açúcar”, “Maiores de 20”, “Inspector Max”, “Mistura Fina” ou “Jura”. No teatro, entre outros espectáculos, integrou o elenco de “Sonho de uma Noite de Verão”, no Teatro Nacional D. Maria II, numa encenação de João Ricardo.


Entretanto, em simultâneo, Ana Rocha licenciou-se em Pintura na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa. A faceta de actriz nunca deixou de lhe interessar, mas aspirava a algo diferente. Emigrou para Inglaterra, para estudar cinema, na reputada London Film School, onde completou um mestrado em realização com orientação de Mike Leigh. Foi experimentando o olhar da câmara nalgumas curtas-metragens e documentários, entre os quais “Aqui e agora”, sobre Adriano Correia de Oliveira, “Quem nos Larga…”, “Laundriness”, “Minha Alma and You” ou “No Mar”. Foi ainda dedicando o seu tempo a concertos e vídeoclips de alguns cantores, como Sérgio Godinho, Maria João, Raquel Tavares, Xaile ou Aldina Duarte. Para quem nasceu em 1978, não se pode dizer que tenha andado a ver passar o tempo. A sua passagem por Londres foi decisiva na consolidação de uma carreira. Curiosamente, Portugal não tem sido muito dado a escolher a London Film School como escola de formação. Mas, quando o faz, veja-se o caso de Fernando Lopes, dá-se bem. Existe uma tradição de cinema social inglês, que vem desde os anos 30, com a escola documentarista¸ onde avultaram nomes como John Grierson, Basil Wright, Humphrey Jennings, Alberto Cavalcanti, Arthur Elton, Edgar Anstey, Stuart Legg, Paul Rotha e Harry Watt, entre outros. Outro momento alto do cinema realista social em Inglaterra acontece nos anos 60 do século passado, com o Free Cinema (muito ligado aos “Angry Young Men”), que revela autores como Lindsay Anderson, Karel Reisz, Tony Richardson ou Lorenza Mazzetti. Muito mais tarde, surge uma nova geração de cineastas que se interessa pelo retrato social de Inglaterra, com realizadores como Mike Leigh, Ken Loach, Shane Meadows, entre vários outros. Sintomaticamente para alguma crítica portuguesa, este tipo de cinema nunca mereceu os mesmos elogios que a Nouvelle Vague, por exemplo, sempre granjeou (justificadamente estes elogios, como seriam igualmente os dedicados ao cinema inglês).

Todo este preâmbulo para situar “Listen”, que se coloca abertamente na linha desta tradição de um certo realismo social britânico, o que fica ainda mais visível ao se saber que Mike Leigh foi um (bom) professor de Ana Rocha, que aproveitou bem as aulas, mantendo algo de profundamente essencial em matéria de professores e alunos: a independência e autonomia dos alunos perante os professores. A voz de Ana Rocha manteve-se intocável.

“Ouve-me” fala de uma família portuguesa a viver actualmente em Londres. Um casal e três filhos, a mãe a trabalhar a dias, o pai, agora desempregado, mas anteriormente empregado numa marcenaria, que lhe ficou a dever dinheiro. Os filhos vão desde um bebé de cerca de um ano, uma miúda de seis/sete anos, surda, e um jovem de doze anos. Como a miúda aparece com umas nódoas nas costas que sugerem ter sido agredida, a segurança social toma conta do assunto, retira as crianças aos pais, que não aceitam a separação e fazem tudo para reaver os filhos e regressarem com eles a Portugal. Esta base dramática permite uma descrição de ambientes sociais muito bem dada, mas permitiria igualmente um choradinho sem fim, o que Ana Rocha consegue evitar com mestria e muita segurança estilística. As imagens ganham sempre um distanciamento óbvio, um empenhamento humano discreto, uma compreensão das razões das diversas partes (nunca se infernizam as instituições inglesas que fazem o que têm a fazer o melhor possível). A realizadora afasta a emoção fácil, quer através de uma óptima direcção de actores, quer ainda pela introdução de imagens aparentemente desligadas da acção, pormenores de um cenário, de uma paisagem, etc. A própria fotografia, algo granulada, por vezes difusa, ajuda a este efeito. Depois o rigor na descrição dos cenários, o interior da casa do casal português, as salas das instituições, os exteriores, tudo é meticulosamente recuperado. 

Existe ainda um interessante problema de comunicação (ou de incomunicabilidade), dado que se trata de uma família portuguesa a residir em Londres. Os portugueses falam quase sempre entre si em português, mas têm de se relacionar com os ingleses. Para que este diálogo se estabeleça, não existem grandes dificuldades. Mas a filha do casal é surda, o aparelho auditivo está estragado, não há dinheiro para o reparar, ou substituir, o que levanta dificuldades de comunicação com os pais, com a escola, com os serviços sociais. É este o maior óbice para que os problemas se ultrapassem. Não por indiferença ou desinteresse dos agentes no terreno, mas possivelmente pela legislação desadequada.

Falemos, finalmente, da interpretação que é de qualidade invulgar: Lúcia Moniz é simplesmente brilhante, na forma como impõe a sua personagem. Ruben Garcia, no marido, vai muito bem, e as crianças são profundamente convincentes. Quantos aos ingleses, todos eles são impecáveis nas suas intervenções, mais ou menos curtas. 

Uma belíssima estreia na longa-metragem de ficção que se saúda com entusiasmo. O cinema português precisa de sangue novo e de olhares diferentes. Com talento. 

OUVE-ME

Título original: Listen

Realização: Ana Rocha De Sousa (Portugal, Inglaterra, 2020); Argumento: Paula Alvarez Vaccaro, Ana Rocha; Produção: Paula Alvarez Vaccaro, Rodrigo Areias, Aaron Brookner, Agustina Figueras, Lennard Ortmann; Música: Frederic Schindler; Fotografia (cor): Hatti Beanland; Montagem: Tomás Baltazar; Casting: Heather Basten; Design de produção: Belle Mundi; Decoração: Rose Konstam; Guarda-roupa: Belle Mundi, Filipa Fabrica; Maquilhagem: Amanda Goodfellow, Sara Menitra; Direcção de Produção: Palma Derzsi; Assistentes de realização: Gabriel Lippe, Laura Prast, Lina Remeikaite; Departamento de arte: Rebecca Clayden, Noah Demeuldre, George Graham, Stella Hadjidemetriou, Mihaela Marino, James Reading; Som: Nuno Bento, João Galvão, Pedro Góis, Pedro Marinho, Sérgio Silva, Roland Vajs; Efeitos visuais: Carlos Amaral; Companhias de produção: Bando à Parte, Pinball London; Intérpretes: Lúcia Moniz (Bela), Sophia Myles (Ann Payne), Ruben Garcia (Jota), Maisie Sly (Lu), James Felner, Kiran Sonia Sawar (Anjali), Sian Abrahams, Brian Bovell, António Capelo, Susanna Cappellaro, Kem Hassan, Geoffrey Kirkness, Jay Lycurgo, Ângela Pinto, Tara Quinn, Kiki Weeks, Lola Weeks, etc. Duração: 73 minutos; Distribuição em Portugal: Lusomundo; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 22 de Outubro de 2020.