segunda-feira, fevereiro 23, 2015

OSCARS DE 2015 . OS VENCEDORES


OS OSCARS DE 2015

Se se pode falar de grandes vencedores, eles serão “Birdman”, quatro Oscars, “The Grand Budapest Hotel”, quatro Oscars, mas mais técnicos, “Whiplash” com três Oscars. O resto, tudo muito bem diversificado, e quase sem surpresas. Talvez uma, “Boyhood” apenas com um Oscar. Aqui ficam os vencedores de uma noite agradável como espectáculo, e sem suspense.  

Melhor Filme
Birdman ou (The Unexpected Virtue of Ignorance) (Alejandro G. Iñárritu, John Lesher e James W. Skotchdopole)

Melhor Realizador
Alejandro G Inárritu (Birdman)

Melhor Actor
Eddie Redmayne (The Theory of Everything)

Melhor Actriz
Julianne Moore (Still Alice)

Melhor Actor Secundário
JK Simmons (Whiplash)

Melhor Actriz Secundária
Patricia Arquette (Boyhood)

Melhor Argumento Adaptado
The Imitation Game (Graham Moore)

Melhor Argumento Original
Birdman (Alejandro Gonzalez Inarritu, Nicolas Giacobone, Alexander Dinelaris Jr, Armando Bo)

Melhor Fotografia
Birdman (Emmanuel Lubezki)

Melhor Montagem
Whiplash – Tom Cross

Melhor Música Original
Alexandre Desplat – The Grand Budapest Hotel

Melhor Canção
"Glory" from Selma – John Stephens e Lonnie Lynn

Melhor Guarda-roupa
Milena Canonero (The Grand Budapest Hotel)

Melhor Design de Produção
The Grand Budapest Hotel – Adam Stockhausen (Design de produção); Anna Pinnock (Decoração)

Melhor Maquilhagem e Cabeleireiro
The Grand Budapest Hotel – Frances Hannon e Mark Coulier

Melhores Efeitos Visuais
Interstellar – Dan DeLeeuw, Russell Earl, Bryan Grill e Dan Sudick

Melhor Montagem Sonora
American Sniper (Alan Robert Murray e Bub Asman)

Melhor Mistura Sonora
Whiplash (Craig Mann, Ben Wilkins e Thomas Curley)

Melhor Filme Estrangeiro
Ida (Pawel Pawlikowski, Polónia)

Melhor Filme de Animação
Big Hero 6 (Don Hall, Chris Williams e Roy Conli)

Melhor Curta-Metragem  de Animação
Feast (Patrick Osborne e Kristina Reed)

Melhor Documentário – Longa-Metragem
CitizenFour (Laura Poitras, Mathilde Bonnefoy e Dirk Wilutzky)

Melhor Documentário - Curta-Metragem
Crisis Hotline: Veterans Press 1 (Ellen Goosenberg Kent e Dana Perry)

Melhor Curta-Metragem – Ficção Imagem Real

The Phone Call (Mat Kirkby e James Lucas)

sábado, fevereiro 21, 2015

OSCARS 2015 - PREVISÕES


OS OSCARS QUE SE APROXIMAM

Não se pode dizer que tenha sido um ano extraordinário. Temos uma colheita razoável, sem sobressaltos. Há meia dúzia de filmes interessantes, há muito boas interpretações, não há, quanto a mim, obras-primas, e mesmo os títulos mais interessantes não deslumbram. Foi um ano sobretudo de actores.
Claro que gostei de ver alguns filmes, que passo a citar: “American Sniper”, “Birdman”, “Boyhood”, “The Grand Budapest Hotel”, “The Imitation Game” ou “Whiplash”. Como não tenho que fazer fretes, ninguém me paga para isso, escrevo sobre o que me apetece, não vi “The Theory of Everything”, “Still Alice” ou “Foxcatcher”. Confesso que não tive pachorra e acredito que Julianne Moore vá ganhar o Oscar de Melhor Actriz e não me espanta nada que Eddie Redmayne também o faça em relação ao Melhor Actor. De resto, não vi outros nomeados por falta de tempo, pois ando mais atento a clássicos por questões de trabalho. E de gosto, também.
Previsões posso-as fazer. Para Melhor Filme, “Birdman” e “Boyhood”, mais este último, são fortes candidatos. “The Grand Budapest Hotel”, “The Imitation Game” ou “Whiplash” são outras referências fortes. Quanto ao realizador, Richard Linklater (de “Boyhood”) não deve deixar escapar a estatueta. O meu actor preferido é Benedict Cumberbatch (The Imitation Game), Michael Keaton (Birdman) é outra possibilidade, mas o mais provável, na óptica da Academia, será Eddie Redmayne (The Theory of Everything). Nas actrizes não há dúvidas: Julianne Moore (Still Alice), mesmo sem ver  filme. Mas Rosamund Pike (Gone Girl) seria uma outra óptima escolha. Nas secundárias, Patricia Arquette (Boyhood) está imbatível e o mesmo se poderá dizer quanto aos homens: JK Simmons (Whiplash). Aqui não há dúvidas.
Nos argumentos “Birdman” poderá ser o Original, mas “The Grand Budapest Hotel” também o merecia, e “Gone Girl”, para mim, seria o melhor Adaptado, mas nem sequer está nomeado. “The Imitation Game”, “Inherent Vice” ou “Whiplash” serão as alternativas.
Creio que “The Grand Budapest Hotel” vai sair com alguns Oscars técnicos, bem merecidos, e quanto a documentários e curtas-metragens não vi nada, nem avanço prognósticos. Para Melhor Filme em Língua não Inglesa, há dois fortes candidatos: “Ida” (Pawel Pawlikowski, Polónia) e “Leviathan” (Andrey Zvyagintsev, Rússia). Mais não digo.

Segue a listagem dos nomeados para os Oscars de 2015, referentes a filmes estreados durante o ano de 2014. A verde, vão as minhas apostas nas escolhas da Academia. Domingo de madrugada, veremos o que a realidade nos oferece.


LISTA DE NOMEADOS

Melhor Filme
American Sniper (Clint Eastwood, Robert Lorenz, Andrew Lazar, Bradley Cooper e Peter Morgan)
Birdman ou (The Unexpected Virtue of Ignorance) (Alejandro G. Iñárritu, John Lesher e James W. Skotchdopole)
Boyhood (Richard Linklater e Cathleen Sutherland)
The Grand Budapest Hotel (Wes Anderson, Scott Rudin, Steven Rales e Jeremy Dawson)
The Imitation Game (Nora Grossman, Ido Ostrowsky e Teddy Schwarzman)
Selma (Christian Colson, Oprah Winfrey, Dede Gardner e Jeremy Kleiner)
The Theory of Everything (Tim Bevan, Eric Fellner, Lisa Bruce e Anthony McCarten)
Whiplash (Jason Blum, Helen Estabrook e David Lancaster)

Melhor Realizador
Richard Linklater (Boyhood)
Morten Tyldum (The Imitation Game)
Alejandro G Inárritu (Birdman)
Bennet Miller (Foxcatcher)
Wes Anderson (The Grand Budapest Hotel)

Melhor Actor
Steve Carell (Foxcatcher)
Bradley Cooper (American Sniper)
Benedict Cumberbatch (The Imitation Game)
Michael Keaton (Birdman)
Eddie Redmayne (The Theory of Everything)

Melhor Actriz
Marion Cotillard (Two Days one Night)
Felicity Jones (The Theory Of Everything)
Julianne Moore (Still Alice)
Rosamund Pike (Gone Girl)
Reese Witherspoon (Wild)

Melhor Actor Secundário
Robert Duvall (The Judge)
Ethan Hawke (Boyhood)
Edward Norton (Birdman)
Mark Ruffalo (Foxcatcher)
JK Simmons (Whiplash)

Melhor Actriz Secundária
Patricia Arquette (Boyhood)
Keira Knightley (The Imitation Game)
Emma Stone (Birdman)
Meryl Streep (Into The Woods)
Laura Dern (Wild)

Melhor Argumento Adaptado
American Sniper (Jason Hall)
The Imitation Game (Graham Moore)
Inherent Vice (Paul Thomas Anderson)
The Theory of Everything (Anthony McCarten)
Whiplash (Damien Chazelle)

Melhor Argumento Original
Birdman (Alejandro Gonzalez Inarritu, Nicolas Giacobone, Alexander Dinelaris Jr, Armando Bo)
Boyhood (Richard Linklater)
Foxcatcher (E. Max Frye e Dan Futterman e Bennett Miller)
The Grand Budapest Hotel (Wes Anderson e Hugo Guinness)
Nightcrawler (Dan Gilroy)

Melhor Fotografia
Birdman (Emmanuel Lubezki)
Grand Budapest Hotel (Robert D Yeoman)
Ida Ryszard Lenczewski e Łukasz Żal)
Mr Turner (Dick Pope)
Unbroken (Roger Deakins)

Melhor Montagem       
American Sniper – Joel Cox e Gary D. Roach
Boyhood – Sandra Adair
The Grand Budapest Hotel – Barney Pilling
The Imitation Game – William Goldenberg
Whiplash – Tom Cross

Melhor Música Original
Alexandre Desplat – The Grand Budapest Hotel
Alexandre Desplat – The Imitation Game
Hans Zimmer – Interstellar
Gary Yershon – Mr. Turner
Jóhann Jóhannsson – The Theory of Everything

Melhor Canção
"Everything Is Awesome" - The Lego Movie – Shawn Patterson
"Glory" - Selma – John Stephens e Lonnie Lynn
"Grateful" - Beyond the Lights – Diane Warren
"I'm Not Gonna Miss You" - Glen Campbell: I'll Be Me – Glen Campbelland Julian Raymond
"Lost Stars" - Begin Again – Gregg Alexander e Danielle Brisebois

Melhor Guarda-roupa
Milena Canonero (The Grand Budapest Hotel)
Mark Bridges (Inherent Vice)
Into the Woods (Colleen Atwood)
Maleficent (Anna B. Sheppard e Jane Clive)
Mr. Turner (Jacqueline Durran)

Melhor Design de Produção
The Grand Budapest Hotel – Adam Stockhausen (Design de produção); Anna Pinnock (Decoração)
The Imitation Game – Maria Djurkovic (Design de produção); Tatiana Macdonald (Decoração)
Interstellar – Nathan Crowley (Design de produção); Gary Fettis (Decoração)
Into the Woods – Dennis Gassner (Design de produção); Anna Pinnock (Decoração)
Mr. Turner – Suzie Davies (Design de produção); Charlotte Watts (Decoração)

Melhor Maquilhagem e Cabeleireiro
Foxcatcher – Bill Corso e Dennis Liddiard
The Grand Budapest Hotel – Frances Hannon e Mark Coulier
Guardians of the Galaxy – Elizabeth Yianni-Georgiou e David White

Melhores Efeitos Visuais
Interstellar – Dan DeLeeuw, Russell Earl, Bryan Grill e Dan Sudick
Dawn of the Planet of the Apes – Joe Letteri, Dan Lemmon, Daniel Barrett e Erik Winquist
Guardians of the Galaxy – Stephane Ceretti, Nicolas Aithadi, Jonathan Fawkner e Paul Corbould
Captain America: Winter Soldier – Paul Franklin, Andrew Lockley, Ian Hunter e Scott Fisher
X-Men: Days of Future Past – Richard Stammers, Lou Pecora, Tim Crosbie e Cameron Waldbauer

Melhor Montagem Sonora
American Sniper (Alan Robert Murray e Bub Asman)
Birdman ou (The Unexpected Virtue of Ignorance) (Martin Hernández e Aaron Glascock)
The Hobbit: The Battle of the Five Armies (Brent Burge e Jason Canovas)
Interstellar (Richard King)
Unbroken (Becky Sullivan e Andrew DeCristofaro)

Melhor Mistura Sonora
American Sniper (John Reitz, Gregg Rudloff e Walt Martin)
Birdman ou (The Unexpected Virtue of Ignorance) (Jon Taylor, Frank A. Montaño e Thomas Varga)
Interstellar (Gary A. Rizzo, Gregg Landaker e Mark Weingarten)
Unbroken (Jon Taylor, Frank A. Montaño e David Lee)
Whiplash (Craig Mann, Ben Wilkins e Thomas Curley)

Melhor Filme Estrangeiro
Ida (Pawel Pawlikowski, Polónia)
Leviathan (Andrey Zvyagintsev, Rússia)
Tangerines (Zaza Urushadze, Mauritânia)
Timbuktu (Abderrahmane Sissako, Argentina)
Wild Tales (Damián Szifron, Estónia)

Melhor Filme de Animação
Big Hero 6 (Don Hall, Chris Williams e Roy Conli)
The Boxtrolls (Anthony Stacchi, Graham Annable e Travis Knight)
How to Train Your Dragon 2 (Dean DeBlois e Bonnie Arnold)
Song of the Sea (Tomm Moore e Paul Young)
The Tale of the Princess Kaguya (Isao Takahata e Yoshiaki Nishimura)

Melhor Curta-Metragem  de Animação
The Bigger Picture (Daisy Jacobs e Christopher Hees)
The Dam Keeper (Robert Kondo e Dice Tsutsumi)
Feast (Patrick Osborne e Kristina Reed)
Me e My Moulton (Torill Kove)
A Single Life (Joris Oprins)

Melhor Documentário – Longa-Metragem
CitizenFour (Laura Poitras, Mathilde Bonnefoy e Dirk Wilutzky)
Finding Vivian Maier (John Maloof e Charlie Siskel)
Last Days in Vietnam (Rory Kennedy e Keven McAlester)
The Salt of the Earth (Wim Wenders, Juliano Ribeiro Salgado e David Rosier)=
Virunga (Orlando von Einsiedel e Joanna Natasegara)

Melhor Documentário - Curta-Metragem
Crisis Hotline: Veterans Press 1 (Ellen Goosenberg Kent e Dana Perry)
Joanna (Aneta Kopacz)
Our Curse (Tomasz Śliwiński e Maciej Ślesicki)
The Reaper (La Parka) (Gabriel Serra Arguello)
White Earth (J. Christian Jensen)

Melhor Curta-Metragem – Ficção Imagem Real
Aya (Oded Binnun e Mihal Brezis)
Boogaloo e Graham (Michael Lennox e Ronan Blaney)
Butter Lamp (La Lampe au Beurre de Yak) (Hu Wei e Julien Féret)
Parvaneh (Talkhon Hamzavi e Stefan Eichenberger)

The Phone Call (Mat Kirkby e James Lucas)


domingo, fevereiro 15, 2015

OS FILMES PARA OS OSCARS (6)


WHIPLASH - NOS LIMITES

Vai-se ao dicionário saber o que quer dizer rigorosamente “Whiplash” e lá vem “algo que se assemelha ao ruído de uma chicotada”. Entramos no domínio de “Whiplash – Nos Limites”, filme escrito e realizado por Damien Chazell. O ruído de uma chicotada é o que mais se ouve ao longo da sua hora e quarenta e tal minutos.
Andrew Nieman (Miles Teller), é um jovem de 19 anos que quer ser o melhor ou dos melhores bateristas de jazz. Tem os seus ídolos e inscreve-se numa das melhores escolas de música do mundo, o Shaffer Conservatory of Music, onde vai apanhar pela frente com um professor que dizem genial, que acha que fazer um trabalho “bem feito” não chega, é preciso ser-se perfeito (“Não existem duas palavras mais nocivas do que ‘bom trabalho’”). Terence Fletcher (J.K. Simmons, que já víramos num papel semelhante num filme de Kubrick, o sargento de “Full Metal Jacket”), o professor, não se importa muito que os alunos vão ficando pelo caminho, alguns suicidam-se, mas para ele nem todos podem ser Charlie Parker, e o importante é encontrar um “Charlie *Parker”.

O filme de Damien Chazell, que é particularmente sedutor, é uma canção com três refrões, todos eles ilustrados por duelos encarniçados: de Andrew consigo mesmo, procurando ultrapassar-se a cada novo ensaio, de Andrew com a bateria que ele castiga da mesma forma que castiga os seus medos e mãos, até ficarem em sangue, e um duelo com o próprio professor de música, que progride até à insanidade. Terence Fletcher é uma figura patológica, um carniceiro, um autêntico carrasco de um campo de concentração nazi, que tem como supremo ideal não a arte, mas a perfeição técnica. Para ele, Andrew Nieman tem de martelar a bateria com uma mestria total, como um máquina. Nuca fala em sentimento, nunca exige emoção, nunca procura que o jazz transpire o mundo, seja um reflexo do pulsar da humanidade, afinal o que faz da arte algo de essencial. Para Terence Fletcher, o essencial é a violência do batimento e o número de batimentos por minuto. Terence Fletcher quer fazer de Andrew Nieman um autómato perfeito. Muito longe, portanto, dos seus ídolos, Gene Krupa ou Buddy Rich. Já conhecemos a teoria aplicada a economistas, políticos, cientistas, and so on. Perfeitos no seu campo técnico, e o resto só atrapalha. Andrew anda apaixonado por Nicole (Melissa Benoist), mas ele afasta-a. A família incomoda-o, o que se percebe durante um jantar onde nem tudo corre bem. A vida de todos os dias só embaraça e impede-o de ser “perfeito”. Leva bofetadas do professor, que atira cadeiras pelo ar, que profere grosserias a toda a hora, que exerce a sua ditadura a todos os níveis. Mas Andrew está disposto a provar que consegue e, depois de momentos de desânimo, volta à carga e desafia o professor. O som das chicotadas é cada vez mais insuportável.

O perigo de “Whiplash – Nos Limites” é que o público leve a sério o que vê como lição de vida, que julgo não ser esse o propósito de Damien Chazelle. A obra é dúbia, afinal como a vida, e o espectador tem de perceber que os grandes artistas, os Charlie Parkers de qualquer arte, fazem da sua arte uma forma de compreensão do mundo, não uma continua superação do número de marteladas no tampo metálico de uma qualquer panela. A técnica por si só não é nada e pode, pelo contrário, ser uma cegueira monstruosa, que conduz às maiores barbaridades. Os médicos do III Reich queriam atingir a suprema perfeição da raça ariana. Há por aí muita gente a querer equilibrar as contas públicas com perfeitos exercícios de contabilidade austera.
De resto, “Whiplash – Nos Limites” é um excelente exercício de estilo, com uma montagem magnífica, um clima envolvente que nos faz ultrapassar a (possível) monotonia de um filme que vive em frente de uma bateria a ser chicoteada, e com desempenhos notáveis, nomeadamente do sempre exímio J.K. Simmons, que já deve ter o Oscar de Melhor Actor Secundário nas mãos, ou o ainda não citado pai de Andrews (Paul Reiser).

Espero que este não seja mais um filme onde se louva a superação do indivíduo, contra tudo e contra todos, mas que se anteveja a crítica que me parece óbvia a uma educação que é um perfeito abuso de poder e que afasta o indivíduo da sua humanidade, e afasta a arte da sua principal função. A verdade é que esta teoria tem muitos adeptos e, ainda há anos, “O Cisne Negro”, de Darren Aronofsky, tocava em teclas muito semelhantes.
Damien Chazelle é um jovem realizador norte-americano, filho de mãe francesa e pai americano, que anteriormente escrevera um medíocre argumento de filme de terror, “O Último Exorcismo - Parte II (The Last Exorcism Part II, 2013), realizara e escrevera “Guy and Madeline on a Park Bench” (2009), onde a música era dominante, e ainda uma curta-metragem que antecipa a presente longa-metragem, “Whiplash”.
Estreado no Festival de Cinema de Sundance, esta realização de Damien Chazelle já venceu um Globo de Ouro na categoria de Melhor Actor Secundário (J.K. Simmons), e encontra-se nomeado para cinco Óscars, Melhor Filme, Melhor Argumento Adaptado, Melhor Actor Secundário, Melhor Montagem e Melhor Som.

WHIPLASH - NOS LIMITES
Título original: Whiplash

Realização: Damien Chazelle (EUA, 2014); Argumento: Damien Chazelle; Produção: Jason Blum, Jeanette Brill, Nicholas Britell, Phillip Dawe, Garrick Dion, Helen Estabrook, Mark David Katchur,  David Lancaster, Michel Litvak, Sarah Potts, Jason Reitman, Couper Samuelson, Gary Michael Walters, Stephanie Wilcox; Música: Justin Hurwitz; Fotografia (cor):  Sharone Meir; Montagem: Tom Cross; Casting: Terri Taylor; Design de produção: Melanie Jones;  Direcção artística: Hunter Brown; Decoração: Karuna Karmarkar; Guarda-roupa: Lisa Norcia; Maquilhagem: David Larson, Heather Plott, Traci E. Smithe, Tobe West, Nacoma Whobrey;  Direcção de Produção:  Tamara Gagarin, Mark David Katchur, Christopher H. Warner, Jeffrey Stott; Assistentes de realização: Arek Bagboudarian, Nicolas Duchemin Harvard, Rachel Jensen; Departamento de arte: Annie Brandt, Brian Chapman, Zak Faust, Drew Rebelein; Som: Thomas Curley, Lauren Hadaway, Craig Mann, Michael Novitch, David Stark, Ben Wilkins; Efeitos especiais: Zak Knight, Ron Rosegard; Efeitos visuais: Jamison Scott Goei, David Lebensfeld, Grant Miller; Companhias de produção: Bold Films, Blumhouse Productions, Right of Way Films; Intérpretes: Miles Teller (Andrew), J.K. Simmons (Fletcher), Paul Reiser  (Jim Neimann), Melissa Benoist (Nicole), Austin Stowell (Ryan), Nate Lang (Carl Tanner), Chris Mulkey (Tio Frank), Damon Gupton (Mr. Kramer), Suanne Spoke (Tia Emma), Max Kasch, Charlie Ian, Jayson Blair, Kofi Siriboe, Kavita Patil, C.J. Vana, Tarik Lowe, Tyler Kimball, Rogelio Douglas Jr., Adrian Burks, Calvin C. Winbush, Joseph Bruno, Michael D. Cohen, Jocelyn Ayanna, Keenan Henson, Janet Hoskins, etc. Duração: 107 minutos; Distribuição em Portugal: Big Picture 2 Films; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 29 de Janeiro de 2015.

segunda-feira, fevereiro 09, 2015

BAFTAS 2015 - OS VENCEDORES


BAFTAS 2015
Mike Leigh (Prémio carreira)

Acabaram de ser atribuídos os BAFTAS 2015, os Oscars ingleses.  Os grandes Triunfadres foram “Boyhood”, “The Theory of Everything” e “The Grand Budapest Hotel”.

Os premiados foram os seguintes:
Argumento Adaptado
The Theory Of Everything / Anthony McCarten
Filme de longa-metragem de Animação
The Lego Movie
Filme de curta- metragem inglesa de Animação
The Bigger Picture / Chris Hees, Daisy Jacobs, Jennifer Majka
Fotografia
Birdman / Emmanuel Lubezki
Guarda-roupa
The Grand Budapest Hotel / Milena Canonero
Realizador
Richard Linklater / Boyhood
Documentário de longa-metragem
Citizenfour / Laura Poitras, Mathilde Bonnefoy, Dirk Wilutzky
Jovem revelação
Jack O'Connell
Montagem
Whiplash / Tom Cross
Carreira
Win Mike Leigh
Melhor Filme
Boyhood / Richard Linklater, Cathleen Sutherland
Melhor Filme em língua não inglesa
Ida / Pawel Pawlikowski, Eric Abraham, Piotr Dzieciol, Ewa Puszczynska (Polónia)
Jovem actor
Eddie Redmayne / The Theory Of Everything
Actriz
Julianne Moore / Still Alice
Maquilhagem
The Grand Budapest Hotel / Frances Hannon, Mark Coulier
Música original
The Grand Budapest Hotel / Alexandre Desplat
Argumento original
The Grand Budapest Hotel / Wes Anderson
Contributo inglês para Cinema
BBC Films
Melhor Filme Inglês
The Theory Of Everything / James Marsh, Tim Bevan, Eric Fellner, Lisa Bruce, Anthony McCarten
Revelação, como argumentista, realizador ou produtor
Stephen Beresford, David Livingstone / Pride
Design de produção
The Grand Budapest Hotel / Adam Stockhausen, Anna Pinnock
Som
Whiplash / Thomas Curley, Ben Wilkins, Craig Mann
Efeitos visuais
Interstellar / Paul Franklin, Scott Fisher, Andrew Lockley, Ian Hunter
Actor secundário
J.K. Simmons / Whiplash
Actriz secundária

Patricia Arquette / Boyhood

sexta-feira, janeiro 30, 2015

OS FILMES PARA OS OSCARS (5)


EM PARTE INCERTA

De Gillian Flynn li dois romances magníficos, primeiramente “Lugares Escuros” (Dark Places), depois “Em Parte Incerta” (Gone Girl), e ainda se encontra traduzida para português uma terceira obra, “Objectos Cortantes” (Sharp Objects), que, apesar das buscas, não encontrei disponível. Gillian Flynn é efectivamente uma excelente romancista, cujos trabalhos se podem aproximar do policial ou do thriller, mas que são sobretudo muito “dark”, entrando de muito boa vontade no universo do “roman noir”. Outro aspecto curioso deste “Gone Girl”, tanto no romance como no filme que dele foi adaptado, diz respeito à personagem central feminina, o que leva muito boa gente a levantar a suspeita de se tratarem de obras misóginas, o que não deixa de ser divertido. Vêem-se milhares de filmes com homens perversos, criminosos sem escrúpulos, serial killers empedernidos, mas nada a opor. Quando uma mulher é apresentada sob aspectos menos consentâneos com os de boa esposa e boa mãe, vêm logo os epítetos de misogenia. “Gone Girl” não é nada disso, é apenas um fabuloso retrato de mulher, que no cinema tem o rosto (e o talento invulgar) da magnífica Rosamund Pike.


“Em Parte Incerta” foi adaptado a cinema pela própria Gillian Flynn, e diga-se que de forma extremamente inteligente. O romance intercala excertos de um diário que a desaparecida deixou para trás com as peripécias da busca da mulher, pelas autoridades e pelo marido. Aparentemente a adaptação julgar-se-ia difícil, mas Gillian Flynn tornou simples a árdua tarefa. A história parece banal: Nick Dunne (Ben Affleck) e Amy Dunne (Rosamund Pike) são casados há cinco anos, mas no dia em que celebram a efeméride, ela desaparece, deixando a casa de pernas para o ar. A polícia inicia as investigações, dado o aparato, mas lentamente vão-se instalando suspeitas de que Nick foi o autor do que já se julga ter sido um assassinato, com posterior ocultação de cadáver. Mas nem tudo o que parece é.
A realização de David Fincher é, como sempre, bastante eficaz e talentosa, num registo que lhe é particularmente caro. Sobretudo desde 1995, com o celebrado “Seven - 7 Pecados Mortais”, passando por “O Jogo” (1997), “Clube de Combate” (1999), “Sala de Pânico” (2002), “Zodiac” (2007), “O Estranho Caso de Benjamin Button” (20008), “A Rede Social” (2010), “Millennium 1: Os Homens Que Odeiam as Mulheres” (2011), até chegar a este “Em Parte Incerta” (e passando ainda por algumas incursões como realizador e produtor de trabalhos televisivos, como “House of Cards”), Fincher tem-se especializado em relatos de uma extrema violência física e psicológica que nos devolvem retratos inquietantes da sociedade contemporânea. Ele é, indiscutivelmente, um dos autores mais interessantes do actual cinema norte-americano, sendo seguramente um dos que melhor interpreta e corporiza os pesadelos mais íntimos de uma sociedade em crise de valores.


Utilizando uma linguagem muito realista, mas com propósitos eminentemente metafóricos, Fincher mostra-nos alguns dos pesadelos dantescos que o espírito humano pode conceber, expressos em crimes dos mais horríveis que a mente humana pode idealizar. “Seven” e “Clube de Combate” perfilam-se mesmo como fortes candidatos a constituírem dois dos mais poderosos retratos da América de final do século XX (mas não só!), jogando com alguns dos temas mais preocupantes deste nosso tempo – desde a violência desregrada e sem motivo aparente até ao puritanismo fanatizado. O caso de “Em Parte Incerta” inscreve-se bem nesta trajectória extremamente coerente, quer temática, quer estilística. Aqui temos igualmente um quotidiano realista que tende para uma metáfora óbvia. O casamento é o ponto de partida, desde a idílica preparação até ao desenlace mais cínico, atravessando zonas de uma violência extrema. Não será por acaso que se fala em “conquista” quando alguém assume uma paixão por outra pessoa, não é certamente por acaso que marido e mulher se apresentam como a “minha” mulher, o “meu” marido. Este sentimento de conquista e posse, que por vezes resulta bem e harmonizam-se os contrários, noutros casos resvala para uma violência doméstica insuportável. “O casamento não é coisa fácil”, diz-se mais ou menos no filme, por estas ou outras palavras, o que é uma verdade lapaliceana. O encerrar desta aventura que roça o cinismo e a ironia acaba por revelar as complexas e traumatizantes personalidades de Amy e Nick, dois retratos magníficos que o engenho e a arte de Gillian Flynn e David Fincher idealizaram e Rosamund Pike e Ben Affleck preenchem a rigor em magníficas composições. Rosamund Pike é, como já referimos, absolutamente admirável na sua interpretação, desdobrando-se em estados de espírito contrastantes, mas sempre fascinantes.
De resto, o filme invade outros territórios, como a própria comunicação social, oferecendo uma perspectiva igualmente preocupante da relação estabelecida com o espectador que por ela é condicionado. A forma como uma entrevista bem ensaiada pode mudar radicalmente a opinião de milhões é um dado a merecer reflexão.
Um belo filme negro à maneira do século XXI. Entretanto, David Fincher anuncia já uma nova adaptação que promete: “The Girl Who Played with Fire”.


EM PARTE INCERTA
Título original: Gone Girl

Realização: David Fincher (EUA, 2014); Argumento: Gillian Flynn, segundo romance de sua autoria; Produção: Ceán Chaffin, Jim Davidson, Leslie Dixon, Joshua Donen, Arnon Milchan, Bruna Papandrea, Reese Witherspoo; Música: Trent Reznor, Atticus Ross; Fotografia (cor): Jeff Cronenweth; Montagem: Kirk Baxter; Casting: Laray Mayfield; Design de produção: Donald Graham Burt; Direcção artística: Sue Chan, Dawn Swiderski; Decoração: Douglas A. Mowat, Gena Vazquez; Guarda-roupa:  Trish Summerville; Maquilhagem: Kate Biscoe, Sheryl Blum, Kim Santantonio; Direcção de Produção: Peter Mavromates, David Witz; Assistentes de realização: Yarden Levo, Courtenay Miles, Derek Peterson, Paul Schneider, Mollie Stallman, Robert Teten, Katey Wheelhouse; Departamento de arte: Richard Brunton, Andrew Campbell, Robert J. Carlyle, Tim Croshaw, Monica Fedrick, Adam Khalid, Michael LaCorte, Barbara Mesney, Michael Mikita Jr., Brent Regan, Molly Reinhardt, Darlene Salinas, Jane Wuu; Som: Ren Klyce; Efeitos especiais: Jared Baker, Ron Bolanowski, Dean Hathaway; Efeitos visuais: Eric Barba, Gabriela Hickman, Brice Liesveld, Ken Locsmandi, James Pastorius, Steve Preeg, Kim Quiroz, Chris Yi, Wei Zheng; Companhias de produção: Twentieth Century Fox Film Corporation, Regency Enterprises, TSG Entertainment, Artemple – Hollywood, New Regency Pictures, Pacific Standard; Intérpretes: Ben Affleck (Nick Dunne), Rosamund Pike (Amy Dunne), Neil Patrick Harris (Desi), Tyler Perry (Tanner Bolt), Carrie Coon (Margo Dunne), Kim Dickens (detective Rhonda Boney), Patrick Fugit (detective James Gilpin), Emily Ratajkowski (Andie), Missi Pyle (Ellen), Casey Wilson (Noelle), David Clennon, Lisa Banes, Lola Kirke, Boyd Holbrook, Sela Ward, Lee Norris, Jamie McShane, Leonard Kelly-Young, Kathleen Rose Perkins, Pete Housman, Lynn Adrianna, Mark Atteberry, Darin Cooper, Kate Campbell, Brett Leigh, etc. Duração: 149 minutos; Distribuição em Portugal: Big Picture 2 Films; Classificação etária: M/ 16 anos; Data de estreia em Portugal: 2 de Outubro de 2014.

quinta-feira, janeiro 29, 2015

OS FILMES PARA OS OSCARS (4)


BIRDMAN 
OU (A INESPERADA VIRTUDE DA IGNORÂNCIA)


Riggan Thomson (Michael Keaton) é um actor a sair da meia-idade e que, nos anos 90 do século passado, tivera algum fulgor no cinema como intérprete sobretudo de filmes de super-heróis. Birdman era a sua personagem. Agora procura regressar à fama e sobretudo granjear algum reconhecimento como actor de obras de um outro fôlego. Num teatro de Nova Iorque, bem no centro da Broadway (precisamente o St. James Theatre, de muita tradição e prestígio, sobretudo no campo das produções musicais), Riggan prepara-se para a estreia de uma peça inspirada num conto de Raymond Carver, "What We Talk About When We Talk About Love". São dois casais em palco, diálogos fortes a relembrar “Quem tem Medo de Virginia Woolf”, e um dos actores a sair de cena, depois de um estranho acidente, o que Riggan aproveita para o substituir por Mike Shiner (Edward Norton), um nome que garante bilheteira e boas críticas, mas igualmente alguma instabilidade no elenco. Enquanto decorrem os ensaios, vamos conhecendo outras personagens e apercebendo-nos do clima de ansiedade, por vezes rondando a loucura, que envolve o projecto, extravasando numa ou noutra ocasião do interior do teatro para as ruas que o circundam. Entre as figuras que se movimentam nesta teia (teatral e emocional) surgem Lesley (Naomi Watts), uma das actrizes, Laura (Andrea Riseborough), outra das intérpretes e ainda namorada do protagonista, Jake (Zach Galifianakis),  além de amigo pessoal de Riggan, o produtor do espectáculo, Sam (Emma Stone), a filha e assistente pessoal, acabada de sair de uma clínica de reabilitação, além de Sylvia (Amy Ryan), ex-mulher, que vai aparecendo de vez em quando, e ainda uma crítica teatral, Tabitha Dickinson (Lindsay Duncan), que, na véspera da estreia, assegura ao actor que vai destruir o espectáculo, mesmo sem o ter visto ainda.


Alejandro González Iñárritu, o mexicano adoptado por Hollywood, que ganhou fama internacional com obras como “Amores perros” (2000), “21 Grams” (2003), “Babel” (2006) ou “Biutiful” (2010),tem caracterizado o seu cinema por um emaranhado de situações, um puzzle de personagens que normalmente confluem para um drama central. A sua narrativa sofre alguma simplificação de processos neste novo título, ainda que permaneça perfeitamente reconhecível. Mas deixa de haver a multiplicidade de acções em cenários variados, para se central tudo num mesmo décor, tendendo mesmo para uma unidade de teatro clássico, com local, tempo e personagens muito definidas. Mas o lado encadeante da sua narrativa troca agora a montagem por uma continuidade que, por vezes, parece querer dizer-nos que o filme foi todo rodado num plano sequência, de câmara à mão, acompanhando actores por longos corredores, espaços fechados e uma ou outra escapadela para o céu, nomeadamente quando Riggan Thomson recorda, é assombrado ou sonha com a figura de Birdman. 


A estrutura por vezes resulta hábil, outras denota um pouco de artificialismo pomposo, mas de um modo geral o produto final é interessante, conseguindo criar um torvelinho de percursos e emoções que se julga estar nas intenções do cineasta. Alejandro González Iñárritu é definitivamente um realizador a acompanhar, tendo chamado, juntamente com alguns outros, a atenção para a produção mexicana mais recente. A sua integração na indústria norte-americana foi rápida e brilhante, tanto no que diz respeito à crítica como a público. Claro que há quem fique com os cabelos em pé com este tipo de cinema, mas julgamos injusta esta reacção. “Birdman” é um curioso filme sobre pessoas, aflorando alguma crítica aos blockbusters de verão povoados por heróis da Marvel e quejandos, mas uma crítica nuanceada: afinal Riggan não deixa de ansiar voar e planar nos céus de Nova Iorque, com as suas proezas aéreas que o elevam do chão e das asperezas da complexa vida quotidiana.
Se “Birdman” tem pontos fortes, é quanto ao seu brilhante elenco, onde ninguém destoa e onde Michael Keaton se reinventa a si próprio, ele que foi Batman sob as ordens de Tim Burton. A sua interpretação é notável, e se o seu personagem não terá totalmente conseguido superar-se na sua incursão pelo teatro dramático, ele sim, ganha o estatuto de grande actor com este papel de uma vida. Mas Edward Norton, Naomi Watts, Andrea Riseborough, Zach Galifianakis,  Emma Stone, Amy Ryan, e mesmo Lindsay Duncan, dão replica à altura. Há sequências admiráveis, onde Alejandro González Iñárritu acerta a câmara com a justeza da interpretação dos seus actores. Lembro uma fabulosa conversa de Edward Norton e Emma Stone, na varanda do teatro, que é um momento de grande cinema, inesquecível.



BIRDMAN OU (A INESPERADA VIRTUDE DA IGNORÂNCIA)
Título original: Birdman or (The Unexpected Virtue of Ignorance) 
Realização: Alejandro González Iñárritu (EUA, Canadá, 2015); Argumento: Alejandro González Iñárritu, Nicolás Giacobone, Alexander Dinelaris, Armando Bo; Produção: Armando Bo, Molly Conners, Alexander Dinelaris, Nicolás Giacobone, Alejandro González Iñárritu, Drew P. Houpt, Sarah E. Johnson, John Lesher, Arnon Milchan, James W. Skotchdopole, Christina Won, Christopher Woodrow; Música: Antonio Sanchez; Fotografia (cor): Emmanuel Lubezki; Montagem: Douglas Crise, Stephen Mirrione; Casting: Francine Maisler; Design de produção: Kevin Thompson; Direcção artística: Stephen H. Carter; Decoração: George DeTitta Jr.; Guarda-roupa:  Albert Wolsky; Maquilhagem: Judy Chin, Kat Drazen, Jerry Popolis, Rondi Scott; Direcção de Produção:  Eric Bergman, Robert Graf, Erica Kay, Jim Kontos, Alex G. Scott, James W. Skotchdopole, Michael Tinger; Assistentes de realização: Catherine Feeny, Peter Kohn, Amy Lauritsen, Adam Somner; Departamento de arte: Michael Acevedo, Joseph A. Alfieri Jr., Gerald DeTitta, Eric Helmin, Gay Howard, Jane Wuu; Som: Aaron Glascock, Martín Hernández, Bradford Bell, Dave Bergstrom, Thierry J. Couturier; Efeitos especiais: Conrad V. Brink Jr., Louis Craig, Lewis Gluck, Johann Kunz; Efeitos visuais: Ivy Agregan, Ashley Bettini, Jake Braver, Edison Carter, Tyler Cordova; Companhias de produção:New Regency Pictures, M Productions, Le Grisbi Productions, TSG Entertainment, Worldview Entertainment; Intérpretes: Michael Keaton (Riggan Thomson / Birdman), Edward Norton (Mike Shiner), Emma Stone (Sam Thomson), Naomi Watts (Lesley), Zach Galifianakis (Jake), Andrea Riseborough (Laura), Amy Ryan (Sylvia Thomson), Lindsay Duncan (Tabitha Dickinson), Merritt Wever (Annie), Jeremy Shamos (Ralph), Katherine O'Sullivan, Damian Young, Keenan Shimizu, Akira Ito, Natalie Gold, Michael Siberry, Clark Middleton, Amy Ryan, William Youmans, Paula Pell, David Fierro, Hudson Flynn, Warren Kelly, Joel Marsh Garland, Brent Bateman, Donna Lynne Champlin, Valentino Musumeci, Taylor Schwencke, Craig muMs Grant, Kyle Knauf, Dave Neal, Kelly Southerland, Roberta Colindrez, Frank Ridley, etc. Duração: 119 minutos; Distribuição em Portugal: Big Picture 2 Films; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 8 de Janeiro de 2015.

terça-feira, janeiro 27, 2015

OS FILMES PARA OS OSCARS (3)


GRAND BUDAPEST HOTEL

“Grand Budapest Hotel” é um filme de Wes Anderson, que antes já nos habituara ao seu cinema, em deliciosas comédias como “Gostam Todos da Mesma” (1998), “Os Tenenbaums - Uma Comédia Genial” (2001), “Um Peixe Fora de Água” (2004), “The Darjeeling Limited” (2007), “O Fantástico Senhor Raposo” (2009) ou “Moonrise Kingdom” (2012). Um cinema com uma estrutura muito especial, um humor inesperado e diferente, eivado de uma ironia elegante e sofisticada, envolto numa estética algo delirante, por vezes surrealizante, quase sempre exótica, mas definitivamente cativante. Wes Anderson é um dos grandes autores cinematográficos revelados no final da década de 90 e que sabe bem ir reencontrando, uma vez por outra, em novos filmes, como neste magnífico “Grand Budapest Hotel”, que o cineasta escreveu, inspirando-se livremente em textos do austríaco Stefan Zweig, e realizou prolongando a sua muito pessoal filmografia. 


Um velho escritor, com o rosto talhado pelas rugas e os anos (Tom Wilkinson), recorda como foi a génese de um dos seus romances mais célebres. Foi assim que, muitos anos antes, era ele ainda um jovem autor (com o rosto de Jude Law), tendo-se hospedado no Grand Budapest Hotel, ali conhecera o dono do estabelecimento, Zero Moustafa (F. Murray Abraham), que tem uma longa história para contar. Desta feita, vamos ao encontro do verdadeiro protagonista da aventura, um certo Senhor Gustave (Ralph Fiennes), diligente e circunspecto porteiro de hotel, que não descura nenhuma das suas funções e leva mesmo ao limite os desejos dos seus hóspedes (como sejam certas senhoras idosas carentes de afecto e de algo mais…). Foi com Gustave que Zero Moustafa, então pouco mais que adolescente (Tony Revolori), vai adquirindo a sua educação, tanto profissional, como humana. E aventurosa. 
Um dia, Gustave herda um quadro famoso e valioso, depois da morte de mais uma saciada velhota agradecida, uma tal  Madame D. (Tilda Swinton). Mas este trespasse não é bem visto pelo natural herdeiro de Madame D. (Adrien Brody), que se insurge e lança no encalce de Gustave um killer de profissão (William Dafoe). A aventura é generosa em peripécias rocambolescas, o que permite a Wes Anderson a libertação da sua imaginação delirante e uma constante homenagem ao cinema mudo de aventuras trepidantes. Tudo parece terminar (será mesmo?) quando um movimento militar e político de tendências ditatoriais se lança à conquista do país. Qual país? Pois um imaginário estado da Europa Central, uma República de Zubrowka, num tempo que medeia entre as duas grandes guerras mundiais.


Wes Anderson descobriu na Alemanha uma cidadezinha ideal para cenário do seu belo filme. Foi em Görlitz, na Saxónia, que colocou a sua equipa, numa cidade que era meia alemã e meia polaca, com a República Checa mesmo ali ao lado. Nada melhor para o que se pretendia.
Com um elenco que faz corar de inveja qualquer superprodução (veja-se só: Ralph Fiennes, Tilda Swinton, Saoirse Ronan, F. Murray Abraham, Mathieu Amalric, Adrien Brody, Owen Wilson, Jude Law, Edward Norton, Jeff Goldblum, Lea Seydoux, Harvey Keitel, Tom Wilkinson, Willem Dafoe, entre outros), “Grand Budapest Hotel” joga com cenários magníficos, situações inesperadas, um sumptuoso colorido, de um raro bom gosto, um grafismo extraordinário, conjugando a imagem real com a digital, o que permite quadros de ressonância surrealista e de um exotismo transfigurador da realidade que tornam esta obra um modelo de aventura em jeito de comédia muito fora do vulgar. Momento de eleição na carreira de um cineasta já de si inusitado. Brilhante.


GRAND BUDAPEST HOTEL
Título original: The Grand Budapest Hotel
Realização: Wes Anderson (EUA, Inglaterra, Alemanha, 2014); Argumento: Wes Anderson, Hugo Guinness, inspirado em escritos de Stefan Zweig; Produção: Wes Anderson,  Eli Bush, Molly Cooper, Jeremy Dawson, Christoph Fisser, Jane Frazer, Henning Molfenter, Octavia Peissel,  Steven M. Rales, Scott Rudin, Charlie Woebcken; Música: Alexandre Desplat; Fotografia (cor):  Robert D. Yeoman; Montagem: Barney Pilling; Design de produção: Adam Stockhausen; Direcção artística: Stephan O. Gessler, Gerald Sullivan, Steve Summersgill; Decoração: Anna Pinnock; Guarda-roupa:  Milena Canonero; Maquilhagem: Julie Dartnell, Frances Hannon, Emma Mash, Heike Merker, Daniela Skala, Norma Webb; Direcção de Produção: Miki Emmrich, Gisela Evert, Alan Pritt, Zuzana Mesticová; Assistentes de realização: Josh Robertson, Oliver Hazell, Katharina Hingst, Andreas Hoffmann, Ben Howard, Martin Scali; Departamento de arte: Annie Atkins, Josef Brandl, Jay Clarke, Jesse Jones, Goncaio Jordäo, Roxy Konrad, Carolin Langenbahn,  Stefan Speth, Carl Sprague; Som: Howard Bevan, Mahesh Depala, Wayne Lemmer, Christopher Scarabosio; Efeitos especiais: Alex Friedrich, Kathrin Krückeberg, Klaus Mielich, Gerd Nefzer, Uli Nefzer, Nico Nitsch, Franz Rodwalt, Ilona Vovchyk, Simon Weisse; Efeitos visuais: Henrik Fett, Jenny Foster, Jason Gandhi, Ray Lewis, Gabriel Sanchez, Frank Schlegel, Vico Sharabani; Companhias de produção: Scott Rudin Productions, Indian Paintbrush, Studio Babelsberg, American Empirical Pictures, TSG Entertainment; Intérpretes: Ralph Fiennes (M. Gustave), F. Murray Abraham (Mr. Moustafa), Mathieu Amalric (Serge X.), Adrien Brody (Dmitri), Willem Dafoe (Jopling), Jeff Goldblum (Kovacs), Harvey Keitel (Ludwig), Jude Law (jovem escritor), Bill Murray (M. Ivan), Edward Norton (Henckels), Saoirse Ronan (Agatha), Jason Schwartzman (M. Jean), Léa Seydoux (Clotilde), Tilda Swinton (Madame D.), Tom Wilkinson (Autor), Owen Wilson (M. Chuck), Tony Revolori (Zero), Larry Pine (Mr. Mosher), Giselda Volodi, Florian Lukas, Karl Markovics, Volker Michalowski, Neal Huff, Bob Balaban, Fisher Stevens, Wallace Wolodarsky, Waris Ahluwalia, Jella Niemann, Marcel Mazur, Robert Bienas, Manfred Lindner, Oliver Claridge, Bernhard Kremser, Kunichi Nomura, Sister Anna Rademacher, Heinz-Werner Jeschkowski, Steffen Scheumann, Sabine Euler, Renate Klein, Uwe Holoubek, etc. Duração: 100 minutos; Distribuição em Portugal: Big Picture 2 Films; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 10 de Abril de 2014.