domingo, Julho 13, 2014

TEATRO: TRÊS MULHERES ALTAS



TRÊS MULHERES ALTAS


“Três Mulheres Altas”, de Edward Albee, é considerada uma das peças mais pessoais, mesmo autobiográficas em muito do seu traçado, do autor de “Quem Tem Medo de Virgínia Woolf?” que a escreveu pouco tempo após a morte da sua mãe adoptiva. É também dos seus trabalhos menos conhecidos e ainda bem que o Teatro Nacional de D. Maria II a deu a conhecer agora, pois se trata de um trabalho extremamente interessante, uma obra cénica de notável concepção, interligando em palco o discurso de três mulheres, em três fases distintas da sua vida, juventude, maturidade e velhice, que rapidamente se descobre serem a mesma pessoa, justapondo momentos diferentes da sua existência que dialogam entre si.
Esta dolorosa, e por vezes divertida, meditação sobre a vida (e a morte), sobre as relações humanas (aqui uma especial referência às relações com o filho, quase sempre ausente, seguramente uma das “culpas” a espiar por Albee), é um discurso intimista de uma agudeza de análise e de um humanismo que raras vezes se vê em palcos, com tal profundidade e clareza. Por entre um certo desespero, algum conformismo que roça também a revolta, e uma esperança sempre presente, “Três Mulheres Altas” ficará certamente como um dos bons espectáculos deste ano de 2014, servido por uma inteligente e límpida encenação de Manuel Coelho, inscrita num bom cenário de F. Ribeiro, plasticamente bonito e cenicamente eficaz.  As três mulheres oferecem matéria para Catarina Avelar brilhar num desempenho magnífico, Inês Castel-Branco demonstrar todas as suas qualidades e potencialidades e Paula Mora marcar igualmente uma boa presença. Um bom espectáculo, portanto, que se saúda



TRÊS MULHERES ALTAS (Three Tall Women), de Edward Albee; tradução Marta Mendonça; encenação Manuel Coelho; cenografia F. Ribeiro; figurinos Dino Alves; música original José Salgueiro; desenho de luz José Carlos Nascimento; cabelos e maquilhagem Carla Pinho; assistência de encenação José Neves; Intérpretes: Catarina Avelar, Inês Castel-Branco, Paula Mora e José Neves; produção TNDM II; M/16 anos. 

sábado, Junho 28, 2014

TEATRO: TOMORROW MORNING


TOMORROW MORNING

“Tomorrow Morning” é um musical que recentemente subiu aos palcos mundiais, com origem em Inglaterra. Passou depois por alguns dos maiores teatros de países como os EUA, a Austrália,  Coreia do Sul e outros. Chegou agora a Portugal, abrindo, no Auditório dos Oceanos, no Casino de Lisboa, uma temporada curta, entre 4 e 29 de Junho.
“Tomorrow Morning” tem letra e música do compositor e escritor britânico, Laurence Mark Wythe, tendo estreado no New End Theatre, em Londres, em 2006. Quando se esteou em Chicago, o texto e a estrutura foram rectificados. A versão que chega até nós acompanha a de Chicago e tem tradução e adaptação de Ana Cardoso Pires, Miguel Dias e Eduardo Barreto, e encenação deste último.
Em palco, numa caixa que se abre para revelar os segredos de dois casais, uma historieta não muito original: um casal que já passou os 40 e se prepara para o divórcio, e um casal próximo dos 30 que organiza o próximo casamento. 
Os mais novos são Jonny (Ruben Madureira) e Kati (Sissi Martins) e os veteranos João (Mário Redondo) e Catarina (Wanda Stuart). A partir de certa altura, percebe-se claramente que os dois casais são um só, mas em tempos diferentes das suas vidas. Enfim, o amor, o casamento, as traições, a culpa, o perdão, a esperança. A vida. Nada de muito novo e, sobretudo, nada de surpreendente. Nem no assunto, nem na forma deste ser abordado. 

Mas a banda sonora, muito na tradição do musical britânico, ouve-se com agrado, a encenação é cuidadosa e revela alguma imaginação, e os quatro actores/cantores são de qualidade acima da média, e defendem bem as suas personagens. São eles basicamente quem sustenta o possível sucesso deste musical por terras lusitanas, mostrando mais uma vez que o musical é possível entre nós. Talento existe.
   

quinta-feira, Junho 26, 2014

CINEMA: THE MONUMENTS MEN


THE MONUMENTS MEN 
OS CAÇADORES DE TESOUROS

George Clooney é uma personalidade particularmente fascinante no interior da indústria cinematográfica norte-americana. Actor de boa presença, com perfil adequado para galã, não rejeita papéis em comédias sentimentais e aventuras, mas assume-se como personalidade de convicções e projectos liberais, o que nos EUA quer dizer ser mais ou menos de esquerda ou, se preferirem, ter opções progressistas. O que se demonstra bem na sua curta filmografia como realizador, iniciada em 2002, com “Confissões de Uma Mente Perigosa” e continuada com três títulos particularmente interessantes “Boa Noite, e Boa Sorte” (2005), “Jogo Sujo” (2008) e “Nos Idos de Março” (2011). “The Monuments Men - Os Caçadores de Tesouros” é já de 2014 e nele concentra um conjunto de funções que não será escusado relembrar: ele é actor, realizador, produtor e argumentista, o que mostra bem a forma interessada como encarou este projecto.
“The Monuments Men” é algo pouco conhecido do grande público. São às centenas os filmes que documentam, melhor ou pior, os massacres humanos, o holocausto, o desespero e o terror vividos por milhões durante o tenebroso reino do III Reich e do seu megalómano chefe Adolf Hitler. O “The Monuments Men, Fine Arts and Archives”, conhecido pela sigla MFAA, e que se pode traduzir por “os homens dos monumentos, belas artes e arquivos”, foi uma força especial criada pelos Aliados, depois dos EUA terem entrado na II Guerra Mundial, e que, entre 1943 e 1951, portanto apanhando os anos finais do conflito e os que se seguiram ao cessar fogo, tentaram identificar, localizar, recuperar, proteger, e finalmente devolver aos seus legítimos proprietários milhões de obras de arte, quer fossem pinturas, esculturas, cerâmicas, móveis, tapeçarias, jóias, quer se tratasse de bibliotecas, livros raros, pergaminhos, etc. que haviam sido saqueadas pelas tropas nazis durante a ocupação em terras estrangeiras. As vítimas eram de todo o género, mas particularmente milionários judeus, Rotschild, Paul Rosenberg, David-Weil, Schoss, Berheim-Jeune, Alphonse Khan, Fritz Gusmann, entre outros. Esta pilhagem maciça de obras de arte destinava-se a rechear os museus alemães e as colecções particulares de Hitler, Goering, von Ribbentrop, e outros altos dignatários do III Reich, além de alindarem sedes e departamentos governamentais e do partido nacional-socialista. Mas havia uma meta em especial na mente de Hitler: o museu a criar na cidadezinha austríaca de Linz e que se destinava a ser o melhor museu do mundo no que diria respeito à arte da Europa do Norte, dado que para o Führer só existia a arte ariana, toda a outra era “degenerada” e destinada à destruição. Tal como os judeus, ciganos, negros, comunistas, socialistas e todos quantos se opunham às intenções do predestinado leader.
Esta força especial tinha a cobertura do presidente Roosevelt e do general Eisenhower, era formada não por militares de carreira, mas por arqueólogos, arquitectos, directores de museus, professores universitários de instituições como Harvard, Yale, Princeton, New York, Williams College ou Columbia University, e especialistas afins, que se ofereceram voluntariamente para a integrarem. Eram raros os que contavam menos de 40 anos e alguns rondavam a casa dos 60. Era uma missão arriscada para qualquer um, mais ainda para estes destreinados “artistas” pouco dados a artes marciais. Vinham sobretudo dos Estados Unidos da América e de Inglaterra, mas havia-os também do Canadá, de França, de Itália, e de muitos outros países. Tantos quantos os que integravam as forças Aliadas. No total, não eram mais de 400, distribuídos por vários teatros de operações. O filme de George Clooney, que adapta a obra “Os Homens dos Monumentos”, de Robert M. Edsel e Bret Witter, foca o caso de uma dúzia deles, dando especial enfoque a seis ou sete dos que tiveram contribuição mais relevante e também mais espectacular. Na vida real chamavam-se Ronald Balfour, Harry Enlinger, Walter Hancock, Walter Hutchthausen, Jacques Jaujard, Lincoln Kirstein, Robert Posey, James Rorimer e Gerge Stoout, para além de Rose Valland, uma civil francesa a que se atribui ainda especial atenção, pois era a responsável pela catalogação das obras no Jeu de Paume, em Paris. No filme, as personagens criadas pelos actores são conhecidas por diferentes nomes: George Clooney (Frank Stokes), Matt Damon (James Granger), Bill Murray (Richard Campbell), John Goodman (Walter Garfield), Jean Dujardin (Jean Claude Clermont), Hugh Bonneville (Donald Jeffries), Bob Balaban (Preston Savitz) ou Dimitri Leonidas (Sam Epstein) e mesmo Cate Blanchett, que revive o papel de Rose Valland, se chama Claire Simone.

O filme é interessante e vale sobretudo por colocar em discussão a questão desse “museu universal” pilhado pelos nazis. Mas, apesar da excelente reconstituição, da eficácia dos meios, da qualidade técnica indiscutível, das boas interpretações de um grande elenco, falta-lhe alguma profundidade. Há temas que são abordados, mas apenas pela rama. Vale a pena arriscar uma vida humana por uma obra de arte? É um deles. Tema que se mantém em discussão há muito. Relembro há anos uma resposta do escultor suíço Alberto Giacometti, quando lhe perguntaram se, na alterativa de salvar um gato ou uma obra de arte, o que ele escolheria, ao que o artista não hesitou e indicou o gato. Esta questão levanta-se várias vezes durante a projecção e é interessante.
Mas ainda mais curioso seria uma outra questão reflectindo sobre a importância da arte para Hitler. Por que razão Hitler deu tanta importância à arte? Ele foi, na sua juventude, um aguarelista medíocre, e viu recusada a sua matrícula na Academia de Artes de Viena de Áustria. Assistimos assim a uma vingança com explicação psicanalítica? Hitler quer levar para a Alemanha todas as obras de arte que ele reputa de essenciais, ou seja todas as produzidas por artistas do Norte da Europa, de raça ariana. Coloca aqui desde logo a arte ao serviço da sua política: a grande arte dos povos do Norte da Europa, contra a arte degenerada do sul. A arte ariana contra a arte dos judeus e das gentes do Sul. Primeiro ponto da instrumentalização da arte ao serviço da política.
Mas há mais ramificações nesta opção: Hitler percebeu que a arte é o que fica do espírito humano. Os homens passam, a arte fica. Roubar a arte de um povo é roubar a sua alma, humilhar os povos invadidos, tornar visível a sua cobardia, a sua insignificância. É obviamente uma vampirização da arte dos povos ocupados. Um povo que se alimenta com a seiva cultural e artística de outros povos. 
Concorrendo com esta há uma outra conclusão a retirar da sua metodologia de pilhagem: só exige que viajem para a Alemanha as obras dos artistas nórdicos, de Rembrandt e Vermeer. Sem nenhuma contaminação judaica. As obras da modernidade europeia não lhe interessam, destrói-as ou manda-as vender para trocar por outras da sua preferência. O que indica um claro dirigismo estético, de um radicalismo como raras vezes se viu ao longo da História.


Mas o filme de George Clooney fica-se quase pela “aventura pela aventura”. Seria muito mais interessante ser um pouco mais profundo na análise das questões centrais que esta pilhagem levantava. Assim “The Monuments Men - Os Caçadores de Tesouros” é uma especie de inverso de “12 Indomáveis Patifes”, de Robert Aldrich (1967), onde se reunia um conjunto de 12 cadastrados para uma operação altamente perigosa, em território ocupado pelas tropas nazis. Tal como outros títulos que evocam situações idênticas, “Heróis por Conta Própria”, de Brian Hotton (1970), “Três Reis”, de David O. Russell (1999) ou mesmo “Sacanas Sem Lei”, de Quentin Tarantino (2009), deixando de lado alguns mais. Curiosamente, esta aventura de Clooney remete um pouco para o espírito de grupo da trilogia de Steven Soderbergh, “Ocean's Eleven” (2001), “Ocean's 12” (2004) ou “Ocean's Thirteen” (2007), curiosamente interpretada pelo próprio George Clooney e o seu grupo de amigos (o que sugere alguma aproximação ao primitivo “Os Onze de Oceano” (1960), de Lewis Milestone, protagonizado por Frank Sinatra, e o seu “rat pack”, Dean Martin, Sammy Davis Jr., Peter Lawford, Joey Bishop, entre outros).
Enfim, um filme de entretenimento que levanta algumas questões importantes, mas que infelizmente as deixa a meio caminho da discussão. Uma oportunidade perdida para se ir mais longe.

Nota 1: para lá de “Os Homens dos Monumentos”, de Robert M. Edsel e Bret Witter (ed. Circulo de Leitores), obra donde parte este filme, será de toda a utilidade ler igualmente “O Museu Imaginário”, de Héctor Feliciano (ed. Dom Quixote).
Nota 2: Este texto resume uma comunicação apresentada durante o II Colóquio “Dinâmicas Históricas no Cinema”, uma iniciativa do Instituto Prometheus, Universidade Aberta e Museu da Farmácia (21 de Junho 2014).

THE MONUMENTS MEN - OS CAÇADORES DE TESOUROS
Título original: The Monuments Men

Realização: George Clooney (EUA, Alemanha, 2014); Argumento: George Clooney, Grant Heslov, segundo obra de Robert M. Edsel e Bret Witter; Produção: George Clooney, Christoph Fisser, Barbara A. Hall, Grant Heslov, Henning Molfenter, Charlie Woebcken; Música: Alexandre Desplat; Fotografia (cor): Phedon Papamichael; Montagem: Stephen Mirrione; Casting: Jina Jay; Design de produção: James D. Bissell; Direcção artística: Helen Jarvis, Cornelia Ott, David Scheunemann; Decoração: Bernhard Henrich; Guarda-roupa:  Louise Frogley; Maquilhagem: Christine Beveridge, Jessica Haupt, Jan Kempkens, Petra Schaumann, Valeska Schitthelm, Daniela Skala, Heba Thorisdottir; Direcção de Produção:  Sam Breckman, Michelle Lankwarden, Daniel Mattig, Arno Neubauer, Jason Nightingale, Jessie Thiele; Assistentes de realização: Carlos Fidel, Barney Hughes, Caroline Kaempfer, Philipp Kramer, Danny McGrath, David J. Webb, Laura Wootton, etc.  Departamento de arte: Pablo Alza, Kevin Anthony, Silke Bauer, Axel Boden, Henning Brehm, Archie Campbell- Baldwin, Dominik Capodieci, Steve Deane, Dierk Grahlow, Robin Haefs, Tine Hoefke, Jan Hülpüsch, Sonja Kirch, Michael Lieb, Chris Lowe, Stephanie Rass, Dalia Salamah;  Som: James Harrison, Oliver Tarney; Efeitos especiais: Bernd Rautenberg, Michael Rudnik, Jürgen Thiel, Thomas Thiele, Neil Toddy Todd, Zoltan Toth, etc.  Efeitos visuais: Angus Bickerton, Oliver Cubbage, Ben Fleming, Wesley Froud, Steffen Hagen, Uday Joshi, Dominic Parker, Michelle Teefey-Lee, Chris Wenting, etc. Companhias de produção: Columbia Pictures, Fox 2000 Pictures, Smokehouse Pictures, Obelisk Productions, Studio Babelsberg; Intérpretes: George Clooney (Frank Stokes), Matt Damon (James Granger), Bill Murray (Richard Campbell), Cate Blanchett (Claire Simone), John Goodman (Walter Garfield), Jean Dujardin (Jean Claude Clermont), Hugh Bonneville (Donald Jeffries), Bob Balaban (Preston Savitz), Dimitri Leonidas (Sam Epstein), Justus von Dohnányi (Viktor Stahl), Holger Handtke (Coronel Wegner), Michael Hofland (Padre Claude), Zahary Baharov (Comandante Elya), Michael Brandner (Dentista), Sam Hazeldine (Coronel Langton), Miles Jupp (Major Feilding), Alexandre Desplat (Emile), Diarmaid Murtagh (Captain Harpen), Serge Hazanavicius (Rene Armand), Luc Feit (Aachen Vicar), Emil von Schönfels (Jovem atirador), Udo Kroschwald (Hermann Goering), Aurélia Poirier, Grant Heslov, Matthew Maguire, Michael Dalton, Christian Rodska, Stefan Kolosko, Thomas Wingrich, Oliver Devoti, James Payton, Lucas Tavernier, Oscar Copp, Luciana Castellucci, Declan Mills, Richard Crehan, André Hinderlich, Maximilian Seidel, Marcel Mols, Matt Rippy, John Dagleish, Andrew Byron, Nicolas Heidrich, Aidan Sharp, Xavier Laurent, Ben-Ryan Davies, Nick Clooney, Joel Basman, Andrew Alexander, etc. Duração: 118 minutos; Distribuição em Portugal: Columbia Pictures; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 20 de Fevereiro de 2014.

TEATRO: FERNÃO MENTES?


FERNÃO, MENTES?


Foi em 1981, ainda na velha sala de “A Barraca”, ali quase ao lado do Largo do Rato, que subiu pela primeira vez a cena “Fernão, Mentes?”, um texto de Hélder Costa adaptando excertos da “Peregrinação”, de Fernão Mendes Pinto, obra mítica do imaginário literário português, que nos fala dos descobrimentos e da colonização portuguesa pelo mundo, versão nacional e pitoresca de um Marco Polo que viaja incessantemente pelo Oriente e tenta desenvencilhar-se o melhor que pode das embrulhadas em que vai caindo e também das que vai provocando. O espectáculo foi um sucesso em Portugal e por vários países por onde foi passando, servindo para consolidar o lugar de uma companhia teatral na altura recentemente formada.
Trinta e três anos depois, e aproveitando as comemorações dos 400 anos do aparecimento de “A Peregrinação”, o espectáculo é reposto pela mesma companhia, conservando a mesma estrutura e estética, mas com novo elenco, no Teatro da Trindade, em Lisboa. O êxito volta a repetir-se, perante um certo espanto das gerações mais jovens. É que se pode fazer excelente teatro com muito poucos meios e muita imaginação. Num palco quase deserto, com uma vela enfunada por pano de fundo, onde se desenha um mapa mundo, uma dúzia de actores, de camisa e calças de linho bege, um barrete vermelho que indica o protagonista, e que vai evoluindo de cabaça em cabeça (Fernão Mendes somos todos, não é?), uma guitarra e meia dúzia de adereços e vestuário improvisado que vai indicando as mudanças de usos e costumes orientais, e o essencial está lá. Um bela história de um português desenrascado (e muitas vezes enrascado) em peregrinação por outras terras e outras gentes.
No texto de apresentação do espectáculo original, Hélder Costa escrevia: “A Peregrinação”, de Fernão Mendes Pinto, verdadeiro monumento da literatura universal que ainda poucos portugueses conhecem, relata a personalidade e a vivência do seu autor (...) As peripécias porque passou esse “pobre” português têm pouco de grandiloquência, glórias guerreiras ou santidade exemplar. Mas têm tudo de verdade, têm tudo da vida. Os medos, as riquezas súbitas, a astúcia, a miséria, a desgraça, a audácia, o “safar a pele”, a inteligência, a solidariedade, e acima de tudo, um final de vida tranquilo que permite olhar para trás sem remorsos nem arrependimentos e transforma Fernão Mendes Pinto no arquétipo do homem do povo da grande gesta dos Descobrimentos, da arraia miúda, que construiu o país que somos, que foi colonialista e racista, sensível e humilde, gloriosa e rasteira.
O homem dividido é um homem de olhos abertos perante a vida. O homem que tem capacidade para se interrogar, que se confronta com as suas fraquezas e se orgulha das coisas boas que faz. Um pouco como nós todos, não é?”
Pode dizer-se que este é um exemplo magnífico de uma certa estética de “teatro pobre” que vive sobretudo da discussão de ideias, da imaginação da sua encenação, da energia e da alegria do seu elenco e do talento de um grupo que vai do texto às canções, do guarda-roupa às marcações, e se estende do palco à plateia. Injusto seria destacar nomes. É o conjunto que faz a força e torna obrigatória esta revisão (para uns) e esta descoberta (para tantos outros).  

FERNÃO MENTES?

Encenação e Adaptação: Hélder Costa; Música; Zeca Afonso | Fausto | Orlando Costa; Direcção de Arte: Maria do Céu Guerra; Direcção musical: João Maria Pinto; Direcção técnica: Paulo Vargues; Adereços: Marta Fernandes da Silva, Miguel Figueiredo; Costureira: Zélia Santos: Intérpretes: João Maria Pinto, Adérito Lopes, Ruben Garcia, Rui Sá, Sérgio Moras, Susana Cacela, Tiago Barbosa; Estagiários: Teresa Mello Sampayo, João Parreira, Inês Fragata;  Participação especial: Maria do Céu Guerra; Sonoplastia: Ricardo Santos, Iluminação: Paulo Vargues; Relações públicas / secretariado: Inês Costa | Paula Coelho; Cartaz / design gráfico: Arnaldo Costeira | Mónica Lameiro; Fotografias: Pedro Soares; Produção: A Barraca. Teatro da Trindade: de quarta a sábado (21,30h), domingo (18,00h), até 29 de Junho de 2014. 

sexta-feira, Maio 16, 2014

FESTIVAL O CASTELO EM IMAGENS



O CASTELO EM IMAGENS
XII FESTIVAL “O CASTELO EM IMAGENS”
11º CONCURSO NACIONAL ESCOLAR
 Programação prevista

Domingo, dia 18 de Maio de 2014
21,00: Inauguração da Exposição de trabalhos “O Castelo em Imagens” e Cerimónia de Abertura
Espectáculo lírico DUETOS DE OPERA com Carlos Guilherme e Filipa Lopes
Segunda-feira, dia 19 de Maio de 2014
10,00: A PANTERA COR-DE-ROSA, Animação; Episódios: The Pink Phink, Pink Pajamas, We Give Pink stamps, Dial “p” for Pink, Sink Pink, Pickled Pink, Pink Finger, Shocking Pink, Pink Ice, The Pink Tail Fly, Pink Panzer e An Ounce of Pink; 72 minutos; M/ 4 anos.
14,00: A PANTERA COR-DE-ROSA (The Pink Panther), de Blake Edwards (EUA, Inglaterra, 1963); com David Niven, Peter Sellers, Robert Wagner, Capucine, Claudia Cardinale, etc. 113 minutos; M/ 12 anos.
21,30: BARRY LYNDON (Barry Lyndon), de Stanley Kubrick (Inglaterra, 1975); com Ryan O'Neal, Marisa Berenson, Patrick Magee, Hardy Krüger, Gay Hamilton, etc. 184 minutos; M / 12 anos.
Terça-feira, dia 20 de Maio de 2014
10,00: A PANTERA COR-DE-ROSA, Animação; Episódios: Reel Pink; Bully for Pink; Pink Punch; Pinky Pistons; The Pink Blueprint; Pink, Plunk, Pink; Smile Pretty Say Pink; Pink-A-Boo; Genie With the Light Pink Fur; Super Pink; Rock a Bye Pinky; 72 minutos; M/ 4 anos.
14,00: UM TIRO ÁS ESCURAS (The Pink Panther: A Shot in the Dark), de Blake Edwards (EUA, Inglaterra, 1964); com Peter Sellers, Elke Sommer, George Sanders, Herbert Lom, etc.: 102 minutos; M/12 anos. 
21,30: O MUNDO A SEUS PÉS (Citizen Kane), de Orson Welles (EUA, 1941-2); com Orson Welles, Joseph Cotten, Dorothy Comingore, Everett Sloane, Ray Collins, Agnes Moorehead, Paul Stewart (Raymond), etc. 119 minutos; M/ 12 anos.
Quarta-feira, dia 21 de Maio de 2014
10,00: A PANTERA COR-DE-ROSA, Animação; Episódios: Pinknic; Pink Panic; Pink Posies; Pink of the Litter; In the Pink; Jet Pink; Pink Paradise; Pinto Pink; Congratulations! It’s Pink;  Prefavricated Pink; The Hand is Pinker; Pink Outs; 72 minutos; M/ 4 anos.
14,00: A PANTERA COR-DE-ROSA VOLTA A ATACAR (The Pink Panther Strikes Again), de Blake Edwards (EUA, Inglaterra, 1976); com Peter Sellers, Herbert Lom, Lesley-Anne Down, Burt Kwouk, Colin Blakely etc. 103 minutos; M/12 anos.
21,30: A GRANDE ILUSÃO (La Grande Illusion), de Jean Renoir (França, 1937); com Jean Gabin, Dita Parlo, Pierre Fresnay, Erich von Stroheim, etc. 114 minutosM/12 anos.
Quinta-feira, dia 229 de Maio de 2014
10,00: A PANTERA COR-DE-ROSA, Animação; Episódios: Sky Blue Pink; Pinkadilly Circus; Psychedelic Pink; Com on in! The Water’s Pink; G.I. Pink; Lucky Pink; The Pink Quarterback; Twinkle, Twinkle, Little Pink; Pink Valiant; The Pink Pill; Prehistoric Pink; 72 minutos; M/ 4 anos.
14,00: A VINGANÇA DA PANTERA COR-DE-ROSA (Revenge of the Pink Panther), de Blake Edwards (EUA, Inglaterra, 1978); com Peter Sellers, Herbert Lom, Burt Kwouk, Dyan Cannon, Robert Webber etc. 104 minutos; M/12 anos.
21,30: LUÍS DA BAVIERA ou LUÍS DA BAVIERA - REQUIEM PARA UM REI VIRGEM (Ludwig), de Luchino Visconti (Itália, França, RFA, 1972); com Helmut Berger, Trevor Howard, Silvana Mangano, Gert Fröbe, Helmut Griem, etc. 235 minutos; M/12 anos.
Sexta-feira, dia 23 de Maio de 2014
10,00: A PANTERA COR-DE-ROSA, Animação; Episódios: Pink in the Clink; Little Beaux Pink; Tickled Pink; Pink Sphinx; Pink is a Many Splintered Thing; The Pink Package Plot; Pinkcome Tax; Pink-A-Rella; Pink Pest Control; Think Before You Pink;  Skin Pink; In thr Pink of the Night. 72 minutos; M/ 4 anos.
14,00: NA PISTA DA PANTERA COR-DE-ROSA (Trail of the Pink Panther), de Blake Edwards (EUA, Inglaterra, 1982); com Peter Sellers, David Niven, Herbert Lom, Capucine, Robert Loggia, etc. 96 minutos; M/ 12 anos.
18,00: XI CONCURSO NACIONAL ESCOLAR “O CASTWELO EM IMAGENS”
Exibição de obras a concurso
21,30: HENRIQUE V (The Chronicle History of King Henry the Fift with His Battell Fought at Agincourt in France ou Henry V), de Laurence Olivier (Inglaterra, 1944); com Laurence Olivier, Renee Asherson, Robert Newton, Leslie Banks, etc. 137 minutos; M/ 12 anos;
24,00: DRÁCULA (Dracula), de Tod Browning (EUA, 1931); com Bela Lugosi, Helen Chandler, David Manners, Dwight Frye, etc. 75 minutos; M/16 anos.
Sábado, dia 24 de Maio de 2014
10,00: A PANTERA COR-DE-ROSA, Animação; Episódios: Pink on the Cob; Extinct Pink; A Fly in the Pink; Pink Blue Plate; Pink Tuba-Dore; Pink Pranks; The PinkFlea; Psst Pink; Gong With the Pink; Pink- in; Pink& Ball; Pink Aye; 72 minutos; M/ 4 anos.
15,00: Masterclass sobre “A REALIZAÇÃO CINEMATOGRÁFICA” com Vicente Alves do Ó e Lauro António
21,00: Cerimónia de Encerramento e entrega de prémios

Concerto CANTANDO...OS FILMES DA NOSSA VIDA com Vânia Fernandes, Valter Rolo, José Canha

domingo, Maio 11, 2014

TEATRO: 8 MULHERES

8 MULHERES

“8 Mulheres” é uma peça teatral do francês Robert Thomas que mistura com alguma agilidade a comédia e o policial. Tudo se passa no salão de uma casa senhorial na província francesa, na época do Natal, com muita neve a isolar oito mulheres, seis da família e duas empregadas. É manhã, e todas esperam que o único homem da casa acorde, para tomar o pequeno almoço, mas este não sai do quarto. Vão descobrir que o corpo do mesmo  se encontra na cama, envolto em sangue, com o cabo de uma faca a sair-lhe das costas. Crime!, dizem elas. E uma das oito mulheres será a criminosa, pois todas têm algum motivo para o ajuste de contas e nenhuma delas tem um alibi muito forte. A estrutura policial baseia-se nesta curiosidade de saber quem poderia ter assassinado o homem da casa, a comédia vem sobretudo do facto de toda a gente ter algo a esconder. Divertido, um pouco na linha de Agatha Christie e dos “Ten Little Niggers”.
A peça teve sucesso e múltiplas encenações por todo o mundo, mas o êxito veio-lhe sobretudo de uma excelente adaptação para cinema assinada por François Ozon, com oito mulheres de luxo a integrarem o elenco: Catherine Deneuve, Isabelle Huppert, Emmanuelle Béart , Fanny Ardant, Virgine Ledoyen, Danielle Darrieux, Firmine Richard e Ludivine Sagnier.  Ozon, que é definitivamente um dos mais interessantes cineastas franceses no activo, introduz uma novidade de peso: cada personagem tem direito a uma canção mais ou menos conhecida do reportório francês, e o talento narrativo do cineasta, aliado à genialidade de algumas das actrizes e à intensidade dos momentos musicais faz do filme um clássico.  
Agora, o grupo “Tenda”, com encenação de Hélder Gamboa, leva à cena no Teatro da Trindade, “8 Mulheres”, com um elenco interessante, onde se podem ver Ângela Pinto, Carmen Santos, Catarina Mago, Custódia Gallego, Inês Castel-Branco, Joana Brandão, Paula Guedes e Victoria Guerra. A qualidade é irregular, mas de um modo geral é agradável e eficaz, com relevo para Custódia Gallego e Inês Castel-Branco, Paula Guedes e Ângela Pinto. Mas o mais evidente é que a direcção de actores não foi muito exigente e cada actriz funciona em registo livre.
A encenação é o mais discutível do espectáculo. O cenário não é brilhante, a utilização de elementos de outros espectáculos não ajudou, mas sobretudo há incoerências que tornam frágil a globalidade. Por exemplo: porquê nomes portugueses e franceses nas personagens? Porquê a utilização de duas canções na versão teatral, sem qualquer justificação? Por quê a mescla de guarda-roupa, que não define nem época nem personagem? Mesmo ao nível das marcações e da movimentação das actrizes ressalta um certo primarismo.
Mas, neste momento da vida nacional, em que resistir é importante, tudo o que se faça para manter teatros a funcionar, actores e técnicos a trabalhar e público a frequentar as salas, será bem-vindo. De resto, apesar alguns reparos, “8 Mulheres” merece uma visita.

8 MULHERES (8 Femmes)
Texto de Robert Thomas; encenação Hélder Gamboa; produção musical Fernando Martins; coreografia Paulo Jesus; cenografia Eurico Lopes; guarda-roupa Sandra Rodrigues; assistente de encenação Gonçalo Ferreira; desenho de Luz Paulo Sabino; produção executiva Miguel Manaças: produção Tenda; Intérpretes: Ângela Pinto, Carmen Santos, Catarina Mago, Custódia Gallego, Inês Castel-Branco, Joana Brandão, Paula Guedes e Vitória Guerra; Teatro da Trindade, até 1 Junho;  4ª feira a sáb. 21h30, domingo 18h; M / 12 anos.

segunda-feira, Abril 28, 2014

TEATRO: BOEING, BOEING


BOEING, BOEING

O teatro tem muitas formas de se exprimir e uma comédia de costumes (ou de maus costumes) ou vaudeville, também é teatro. Normalmente são comédias populares, relativamente simples nos seus propósitos e construção, sem grandes estudos psicológicos ou subtextos sociais ou políticos. Digamos que pode este género pode ir ligar-se ao teatro de boulevard que surgiu em França no século XVI, nas grandes feiras da cidade, e que posteriormente se foi aburguesando, desviado dos recintos populares para as salas dos boulevards parisienses.   
Tem uma construção relativamente simples, vive de casos amorosos, normalmente de adultérios, e costuma ter muitas portas no cenário, por onde saem e entram personagens que não convém encontrarem-se no mesmo tempo e local. Quando isso acontece, é a tragédia em forma de comédia. No seculo XIX teve uma grande vivacidade em França, com excelentes autores como Georges Feydeau, Eugène Scribe, Eugène Labiche, Georges Courteline, entre outros, que ainda se encenam um pouco por todo o lado com evidente sucesso e agrado público.
Já no século XX, Marc Camoletti, nascido em Genebra, mas a trabalhar em França desde cedo, foi um dramaturgo e encenador dos mais populares, sobretudo e precisamente pelos seus vaudevilles adaptados ao seu tempo. Foi ele que escreveu “Boeing-Boeing”, que o “Guiness Book of Records” considera “a peça francesa mais representada no mundo inteiro”, com mais de 10 000 representações mundiais. Mas Camoletti deu à luz mais de quarenta peças, encenadas em mais de 55 países, com dezena e meia adaptada ao cinema e à televisão. “Boeing-Boeing” foi uma delas, realizada por John Rich, e interpretada por Tony Curtis e Jerry Lewis, ao lado de Christiane Schmidtmer, Dany Saval, Suzanna Leigh e ainda a inigualável Thelma Ritter. Não é das melhores comédias de Jerry Lewis, para mim um génio do humor, mas é o suficiente para muitos gostarem muito, entre os quais Quentin Tarantino, que seleccionou o filme para o seu primeiro Quentin Tarantino Film Fest, em Austin, Texas, em 1996.
A peça chegou a Lisboa e teve temporada no Trindade, com enorme sucesso de público (mais de 10.000 espectadores), e prepara-se, segundo sei, para partir em tournée. Vale a pena falar sobre ela, pois se trata de um espectáculo muito divertido, bem encenado num cenário único, de uma brancura esmerada, paredes interrompidas por várias portas que conduzem a quartos (muitos), casas de banhos (uma), cozinha, e obviamente um recheio pejado de trocadilhos que terminam num engarrafamento de trânsito aéreo invulgar. Na peça francesa, o pinga amores é arquitecto, por cá é jornalista, mas para o caso não interessa. O que conta é que possui um apartamento muito movimentado com entradas e saídas de hospedeiras de bordo, que o jornalista controla ao minuto: sai uma agora, entra a outra, levanta voo a seguinte e aterra uma nova, para ninguém colidir com ninguém. A hospedeira francesa, a inglesa e a alemã (no original, em Portugal aparece uma brasileira a substituir a inglesa, e uma italiana em vez da francesa) estão todas noivas do mesmo homem, que não pensa casar com nenhuma. Até ao dia em que surge nos ares o Boeing 747, que torna as viagens muito mais rápidas e as escalas impossíveis de coordenar. Desponta assim o frenesim das portas que se abrem e fecham e a diversão promete, bem assim como a moralidade final. Há hospedeiras para todos, nenhuma fica apeada e o sacrossanto casamento não deixa de ser salvo. Mas a coisa tem graça, é bastante divertida, requer um savoir faire de ritmo invulgar (encenação de Claudio Hochman), e os actores (Luís Esparteiro e João Didelet) cumprem e as actrizes sobressaem sob todos os pontos de vista (Elsa Galvão, a empregada, tem muita graça a transformar a casa a cada nova partida e chegada, Sofia Ribeiro, Patrícia Tavares, Melânia Gomes, as hospedeiras, cada uma no seu estilo, dominam a cena).
Posto isto, “Boeing, Boeing” anda no ar, e prepara-se por aterrar por aí. Estejam atentos. É uma comédia despretensiosa, sem grandes preocupações, a não ser fazer rir e sorrir. O teatro também é isso. E às vezes mais vale uma comédia assim que um presunçoso e falhado espectáculo de teatro “vanguardista” que só procura atirar areia para os olhos. A versão da Broadway foi galardoada com os Tonys, um para Melhor Peça e outro para Melhor Actor.




Boeing, Boeing – Texto: Marc Camoletti; tradução Marc Xavier; adaptação Paulo Sousa Costa; encenação Cláudio Hochman; produção Yellow Star Company; Intérpretes: Luis Esparteiro, João Didelet, Elsa Galvão, Sofia Ribeiro, Patrícia Tavares, Melânia Gomes.

TEATRO: SIMPLESMENTE MARIA


SIMPLESMENTE MARIA

"Simplesmente Maria" era uma rádio novela muito popular no início dos anos 70 (começou a ser transmitido a 23 de Março de 1973) e funcionava na rádio como as telenovelas posteriormente o fariam na televisão. Arrebatava multidões de ouvintes e era coisa popular, popularucha, mesmo. Os intelectuais desdenhavam, diga-se com razão. Quando alguém quera atingir outro, poderia referir-se ao "Simplesmente Maria". João César Monteiro, um dia que acordou mal-humorado, resolveu escrever um texto sobre mim, no “Cinéfilo”, chamado “Simplesmente Lauro”. Eu, que não sou para me ficar, repliquei-lhe com uma versão adaptada do célebre discurso pronunciado por Marco António, nas escadarias do Senado Romano, em frente ao corpo assassinado de César. Foi uma polémica divertida, como eram sempre as polémicas naquele tempo e sobretudo como o João César Monteiro. Esta recordação pessoal funciona aqui apenas para mostrar a popularidade da rádio novela "Simplesmente Maria". 
Há um ano, a Mirró Pereira teve a feliz ideia de escrever uma peça que tem por base a rádio novela, que encenou em “A Barraca”. Na altura não pude ver. O espectáculo fez tournée e regressou há pouco à Malaposta, onde o fui ver na sua última sessão. Em boa hora. Não vou dizer que é uma obra-prima, mas tem muitos pontos positivos e, sobretudo, demonstra mais uma vez o esforço que tanta gente nova que gosta de teatro vai fazendo para não deixar morrer o teatro. E confirma ainda a vontade de muito público de resistir igualmente, de ir ao teatro, de saudar os actores, de se emocionar, de sorrir, de se revoltar, de chorar, de rir, de se comover, de pensar… O que é muito bom sempre, e mais ainda em momentos de crise, como o actual. Resistir é preciso. Está é uma maneira muito saudável de afirmar o essencial.
A ideia da peça é bem concebida: no palco, o estúdio radiofónico onde se gravam os episódios de "Simplesmente Maria" e, à medida que vamos assistindo a algumas gravações, espaçadas no tempo, vamos percebendo como se realizavam essas emissões, com os seus ruídos ”inventados” em estúdio, uma sonoplastia muito manual e fascinante na sua criatividade e, ao mesmo tempo, vamos recordando a época (ou descobrindo-a, para quem não a viveu), as canções, a publicidade, as notícias, o vestuário, os usos e costumes, os discursos oficiais, e também histórias de amores e desamores eternos, que eram da década de 70 e permanecem com outras roupagens nos dias de hoje. Tudo isso até se chegar à noite de 24 de Abril, como marca o calendário na parede… Fim daquela "Simplesmente Maria", para se dar origem a novos folhetins radiofónicos que transformaram radicalmente o País.
O espectáculo possui um bom cenário, imaginativo, suprindo com invenção a falta de meios (que se não nota), todo o apetrecho técnico é eficaz e sóbrio, com um bom desenho de luz, uma encenação cuidada e divertida, e uma interpretação com base num grupo de jovens que se sai muito bem da encomenda, mostrando nalguns casos grande potencial. É gente que manifestamente gosta do que faz e o faz por prazer. Um prazer que se estende ao espectador.


"Simplesmente Maria" – Criação, texto e encenação: Mirró Pereira; Direcção de projecto: Gisela Duque Pereira; Espaço sonoro: Pedro Costa; Desenho de luz: Feliciano Branco; Design de comunicação: Patrícia Guimarães; Produção executiva: Mariana Vilela; Direcção de cena: Joana Barros; Intérpretes: Mirró Pereira: Amélia que é Maria; Daniel Moutinho: Henrique que é Eduardo; Joana Barros: Maria Ana que é Arminda; Pedro Luzindro: Tony que é Narrador, Artur, Padre; Patrícia Queirós: Maria Albertina que é Dona Zéza, Empregada de Café, Toninho; Bernardo Gavina: Apresentador e Venceslau que é Substituto de Henrique; Vozes: José Neves - Carlos Manuel.

terça-feira, Abril 15, 2014

TEATRO: O INSPECTOR GERAL


“O INSPECTOR GERAL” NO CARTAXO

“O Inspector Geral”, de Nikolai Gogol, uma peça escrita em 1836, falando da Ucrânia natal do escritor, ou da Rússia em cuja língua Gogol sempre escreveu, ou de qualquer outro país onde se possa adaptar a crítica (infelizmente, a todos), é uma obra universal que parece ter desenvolvido polémica ao longo dos tempos, sem que se perceba porquê. “O Inspector Geral” é uma peça política, local e mundial, que nos fala não tanto de uns certos políticos (que os há, oh se há!, mas não são todos!), mas sobretudo da condição humana que, quer queiramos ou não, permanece imutável com o rolar do séculos. Na verdade há muita gente que se procura aproveitar das situações e dos postos que ocupa, há muito traste corrupto, muita inveja, muita snobeira, muita intriga, muito oportunista, muito arrivista, e a História da Humanidade tem sido um confronto constante entre Maus e Bons, com uma alta percentagem de Assim-Assins pelo meio, que lá vão fazendo progredir lentamente a roda da História. Gogol serve-se de uma anedota, desenvolvida com mestria, para apontar o dedo na direcção certa.
Curiosamente a peça tem milhares de representações pelo mundo fora e algumas adaptadas às realidades de outros países. Em Portugal, Raúl Solnado inaugurou o seu Teatro Villaret (1965) com uma encenação memorável; aqui não há muitos anos (2009) a Maria do Céu Guerra deu-nos outra excelente versão, na Barraca (ver aqui), e no cinema ficou célebre a adaptação, realizada por Henry Koster, em 1949, com Danny Kaye no protagonista.


A história é muito simples: as autoridades de uma pequena localidade descobrem, por vias travessas, que um inspector dos serviços centrais está para chegar à povoação para inspeccionar o funcionamento local. Com culpas no cartório e muitos segredos na manga, o edil e outros responsáveis procuram localizar o inspector antes de ele se anunciar e cortejá-lo de forma a domesticar a inspecção. Se necessário, com benesses várias, notas, muitas notas entregues por debaixo da mesa, ofertas diversificadas, que vão até à sedução da mulher e da filha do presidente. Desgraçadamente, enganam-se no figurão, e passam uns dias a cumular de prendas não o inspector geral, mas um aldrabão que se aproveita da situação.
Depois de terem encenado Oscar Wilde (“Um Marido Ideal”), Bernardo Santareno (“O Crime de Aldeia Velha”), William Shakespeare (“As Alegres Comadres de Windsor”), Eduardo De Filippo (“Nápoles Milionária”), um original (“Pânico”), e Alice Vieira (“Trisavó de Pistola à Cinta”), a Área de Serviço, uma companhia de teatro comunitário, criada no Cartaxo, e que tem em Frederico Corado o seu encenador e impulsionador desde a primeira hora, levou agora à cena, no Centro Cultural do Cartaxo, uma nova versão de “O Inspector Geral”, adaptada a Portugal e a este período de austeridade troiqueana.
Este espectáculo deve ser visto sob vários aspectos. Esteticamente é muito conseguido, com cenários económicos (a companhia não tem subsídios, vive de si própria e dos pequenos apoios locais), mas muito bonitos e eficazes, numa encenação inventiva, e um tratamento técnico que não fica nada a dever aos profissionais (sim, toda a companhia é amadora, trabalha pelo prazer de fazer teatro, bom teatro, veja-se a escolha intransigente dos autores). Quanto ao grupo de actores, que já chegou a ter em palco mais de 60 intervenientes, os progressos são evidentes. A rodagem vai trazendo experiência e há já muito boas surpresas e um nível global que não envergonha ninguém. O resultado final é muito divertido, contundente, não procura o riso fácil, nem o êxito a todo o custo. As salas do Centro Cultural do Cartaxo estão sempre cheias (esgotadas ou quase) e o trabalho da companhia é saudado por todos quantos ali se deslocam.
Mas há um outro aspecto particularmente relevante nesta companhia. Os mais de 40 elementos que a integram regularmente são trabalhadores, estudantes, reformados e encontram ali um refúgio para as suas frustrações pessoais, aspirações, solidão, crises emocionais, problemas profissionais, etc. Num momento tão dramático da nossa vida colectiva, a existência de grupos como este é não só um estímulo cultural notável, como uma benesse social de invulgar significado. É altura de os poderes locais e nacionais encararem esta iniciativa com outro olhar e sobretudo que a comunicação social lhe empreste a visibilidade que merece. Se “O Inspector Geral” nos fala dos trafulhas, esta companhia comunitária mostra-nos o outro lado da sociedade, aquele que deve ser acarinhado e aplaudido.
observação: para os devidos efeitos tenho a declarar que o Frederico Corado é meu filho. Pode dar-se o caso de haver alguma parcialidade, que tento sempre contrariar. Mas, ficam a saber.  


Fotos : Neno Photo e Germano Campos, que agradeço.
O INSPECTOR GERAL, de Nikolai Gogol; Encenação e Adaptação: Frederico Corado; Concepção e Execução Cenográfica: Frederico Corado, Carlos Ouro e Mário Júlio; Produção CCC: Marco Guerra e Carlos Ouro; Produção Área de Serviço: Frederico Corado, Florbela Silva e Vânia Calado com a assistência de Pedro Ouro, Carolina Viana, Rita Correia Alves; Grafismo: Cátia Garcia; Assistente de Encenação: Florbela Silva, Maria Ramalho e Rita Correia Alves; Desenho de Luz: Ricardo Campos; Direcção Musical: Maestro Nuno Mesquita com a Banda da Sociedade Cultural e Recreativa de Vale da Pinta; Direcção de Cena: Mário Júlio; Contra-Regra: Filipe Falua; Fotografia: Vitor Neno; Montagem: Mário Júlio e Vitor Lima; Intérpretes: André Diogo, João Nunes, Sara Xavier, Vânia Calado, Mauro Cebolo, Mário Júlio, Pedro Ouro, Pedro Lino, Júlio Cardoso, Norberto Sousa, Luís Rosa Mendes, Paulo Cabral, Daniel Mateus, Constança Lopes, Ana Rita Oliveira, Carolina Viana, José Manuel Rodrigues, Miguel Viegas, André Vieira, José Ribeiro, Rosário Narciso, Mena Caetano, Jeanine Steuve, Isabel Coelho, José Falagueira, Maria Cerqueira, Bruna Diogo Santos, Amélia Martins, César Cordeiro, Susana Pais, Carlos Ramos, Guilherme Vicente, Inês Perdigão, Andreia Lourenço e Inês Barbosa; Uma Produção do Área de Serviço com o Centro Cultural do Cartaxo e a Mosaico e Entrar Em Palco; Bilhetes: 4€ •• M12 anos; Próximo espectáculo: dia 25 de Abril.