sábado, fevereiro 16, 2019

Um adeus a dois grandes actores:


Um adeus a dois grandes actores:


ALBERT FINNEY
(1936 – 2019)
Inglês. Intérprete de filmes inesquecíveis: “Sábado á Noite, Domingo de Manhã”, “Tom Jones, Romântico e Aventureiro”, “O Comediante”, “Ao Cair da Noite”, “Um Homem e a Sua História” (que também realizou), “Um Crime no Expresso do Oriente”, “Annie”, “O Companheiro”, “Debaixo do Vulcão”, “O Grande Peixe”, “Erin Brockovich”, e tantos outros.


BRUNO GANZ
(1941 – 2019)
Suíço. Brilhante actor de obras memoráveis: “A Marquesa d'O”, “O Amigo Americano”, “Nosferatu, o Fantasma da Noite”, “Polenta”, “A Cidade Branca”, “As Asas do Desejo”, “Tão Longe, Tão Perto”, “O Candidato da Verdade”, “A Queda: Hitler e o Fim do Terceiro Reich”, “O Leitor” ou essa outra incursão por Lisboa, “Comboio Noturno Para Lisboa”.

terça-feira, fevereiro 12, 2019

A TIA MIGÁ



Tios e primas

Quando eu tinha dois anos de idade tive de ser operado de urgência a uma apendicite, agravada com peritonite. Disse aos meus pais o médico que me socorreu na altura que se tivesse demorado mais meia hora eu não estaria hoje aqui a escrever estas linhas. Coisa estranha: eu não teria sabido nessa época que, se não tivesse sobrevivido, teria tido pena de não passar pelo que passei até hoje. Tudo é muito relativo na vida.
Quando estava no hospital, a recuperar da intervenção cirúrgica, fui apaparicado pelos familiares. Eu era o único bebé de uma numerosa família, sobretudo por parte da minha mãe. Ela era filha de um major farmacêutico, António da Costa Torres, casado com uma professora primária, Júlia da Costa Torres, casal que teve cinco filhos, quatro raparigas e um rapaz. As meninas chamavam-se Helena, a que viria a ser minha mãe, Hermengarda, a quem se chamava, graças a Deus, Migá, a Lurdes, conhecida por Lula, e Isabel, a Belinha. O tio era Edgar e nunca me lembro de qualquer diminutivo. Sobretudo as tias foram visitas regulares do sobrinho sobrevivente à operação miraculosa e não se furtavam a mimos de toda a ordem.
Aprendi a amar as minhas tias que eram uma ternura de pessoas e foram-no sempre ao longo da vida. A minha mãe casou com o Lauro Corado, pintor e professor, meu pai, a Migá casou com o Álvaro Ferreira de Lima, engenheiro, a Lula, com o Telmo Matos, veterinário, a Belinha, com o Armando Machado, comandante de navio. Depois havia ainda o Edgar, professor de desenho, casado com a Alsácia. Da parte materna era tudo, e durante alguns anos as férias grandes foram épocas ali para os lados da Praia das Maças, Banzão, Colares, Mucifal, quando a família alugava um casarão enorme para acolher o pessoal, já enriquecido com crias: eu e a minha irmã, Helena, a Paula, resultado do casamento do Edgar e da Alsácia, a Isabel, a Lena e a João, da parte da Migá e do Álvaro, a Conceição, proveniente da estadia do comante no porto de Lisboa. Apenas a Lula não teve descendência directa e seria mesmo a primeira a deixar o nosso convívio. Muito nova. A primeira tragédia a tocar a família. Depois o tempo foi-se encarregando de dizimar os restantes, à medida que ia passando por mim. Há dias, com 96 anos, foi embora a minha tia Migá, derradeira sobrevivente dos meus ascendentes. 96 anos é já uma idade bonita, sobretudo para quem, como ela, passou por muito dissabores, os maiores dos quais terão sido a morte de duas filhas. Adeus, minha querida tia Migá.
Agora olho para trás, e nada vejo. Sou o primeiro da fila familiar, sem guarda-costas. Eu sei que não há coerência nenhuma nestas coisas, mas se houvesse eu seria o próximo a tombar. Não me importo de obedecer à coerência, mas, já agora, que ela se manifeste o mais tarde possível.

segunda-feira, dezembro 31, 2018

ROMA, O MELHOR DE 2018?




ROMA


“Roma”, do mexicano Alfonso Cuarón, pode parecer um título inesperado na filmografia de um cineasta que antes nos oferecera “A Princesinha”, “Grandes Esperanças”, “E Tua Mãe também”, “Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban”, “Os Filhos do Homem” ou “Gravidade”, entre outros. De um modo geral, grandes projectos, montados através da máquina de produção de Hollywood, com direto a prémios internacionais, inclusive Oscars. Mas se se conhecer um pouco da infância do autor, então sim, “Roma” adquire uma coerência absoluta. Digamos que é o outro lado de “Gravidade”, a confissão de um sonho de astronauta que o miúdo Cuarón acalentou.
“Roma” é um bairro da média burguesia, na cidade do México. Um bairro onde se situava a casa onde viveu e cresceu Alfonso Cuarón, que aqui recorda esses tempos de meninice. Uma casa povoada por personagens que o cineasta não esquece, o pai que abandona a mãe, a mãe que se vê subitamente a chefe de família, onde ainda existem mais duas crianças, um rapaz e uma menina, e uma avó. Duas criadas, porque “criada” era o nome dado às empregadas, nessas décadas de 60 e 70. Cleo (Yalitza Aparicio), a adolescente que unifica toda a história do filme, e Adela (Nancy García García), a sua mais velha companhia na cozinha. E um cão.
Não há nada de muito espectacular em “Roma”, apenas o decorrer do dia a dia de uma família, com as suas alegrias e dramas mais ou menos habituais. O filme inicia-se mesmo por longas e belíssimas panorâmicas no interior da casa de dois andares, que acompanham o trabalho diário de uma criadita que percorre as divisões distribuindo atenção pelas mais diversas actividades. Cleo é a formiguinha atarefada que trata da roupa, que limpa os quartos, que   põe a mesa, que sobe e desce as escadas, que lava a roupa, que a estende… mas é sobretudo a amiga das crianças que acompanha com verdadeiro amor, que salva de morrerem afogadas (ela que não sabe nadar, mas nem assim deixou de se lançar ao mar) e  a quem aconchega na cama. Cleo e Adela são indígenas mexicanas, servindo uma família de brancos mexicanos. Com subtileza, Cuarón mostra a diferenciação social, o trabalho de um lado, o lazer do outro, mas não há demagogia no seu olhar. Os patrões são patrões, mas tratam as criadas com humanidade, interessando-se pelos seus problemas, procurando resolvê-los, tendo uma palavra amiga sempre que necessário. Mas tal não impede que a separação social seja uma realidade que o jovem Cuarón não esqueceu. Por isso dedica o filme a Cleo (a verdadeira ainda é viva e esteve presente na estreia do filme).


Ao mesmo tempo que vai penetrando nesse casulo de recordações de infância, com o epicentro na sua casa familiar, Cuarón esboça um retrato de uma época que surge como pano de fundo, vista através da porta da sua casa, através dos vidros de um hospital, num preto e branco de admirável dramaticidade e belíssimos efeitos plásticos. Poderia o filme descambar numa memória delicodoce, mas a arte do cineasta refreia os impulsos sentimentaloides e mantem a obra sempre no registo de um certo distanciamento que muito a beneficia. Depois, a câmara movimenta-se como que acariciando os cenários e as personagens. O lado contemplativo sobretudo da primeira parte do filme torna-o absolutamente fascinante e entramos nele como numa terna balada que nos envolve. Claro que há rupturas, como quando Cleo visita a sua miserável aldeia, o que permite deprimentes comparações sociais. Há a gravidez de Cleo e a abrupta aparição do hospital e do seu drama. Mas no seu todo, “Roma” inicia-se e acaba pelas rotinas da casa sem que aparentemente nada de muito notável tenha acontecido. A não ser a mudança de carro, com o primeiro que o pai laboriosamente introduz todos os dias na sua improvisada garagem, e com o qual a mãe vai destruindo paredes sempre que o tenta, depois do marido ter desertado. Criteriosamente acaba por ser substituído por um outro muito mais maneirinho para as mãos da mãe.
Interpretado (admiravelmente) quase na integralidade por actores não profissionais (parece que só a personagem da mãe foi entregue a uma actriz de profissão), “Roma”, uma produção Netflix que viria a ganhar o Festival de Veneza e se prepara para recolher muitas outras recompensas internacionais, faz lembrar alguns outros óptimos filmes anteriores. No que diz respeito aos minuciosos rituais do arranjo da casa, vem-nos à ideia “Jeanne Dielman, 23, quai du commerce, 1080 Bruxelles”, de Chantal Akerman. Quanto às recordações de infância, obviamente que relembra “Amarcord”, de Fellini. Mas o filme mais próximo será seguramente “Santiago”, um documentário do brasileiro João Moreira Salle que homenageia o mordomo que serviu a sua família durante 30 anos.
Um belíssimo filme, um os melhores de 2018, se não mesmo o melhor da colheita deste ano. Indispensável ver.   


ROMA
Título original: Roma
Realização: Alfonso Cuarón (2018); Argumento: Alfonso Cuarón; Produção: Nicolás Celis, Alfonso Cuarón, Jonathan King, David Linde, Carlos A. Morales, Gabriela Rodriguez, Sandino Saravia Vinay, Alice Scandellari Burr, Jeff Skoll; Música (supervisão): Lynn Fainchtein, Caleb Townsend; Fotografia (p/b): Alfonso Cuarón; Montagem: Alfonso Cuarón, Adam Gough; Casting: Luis Rosales; Design de produção: Eugenio Caballero; Direcção artística: Carlos Benassini, Oscar Tello; Decoração: Barbara Enriquez; Guarda-roupa: Anna Terrazas; Maquilhagem: Itzel Badillo, Emma Canchola, Antonio Garfias, Elena López Carreón, Atenea Téllez, Beatriz Vera; Direcção de Produção: Abel Cruz, Alejandra A. Garcia, Ana Hernandez, Carlos A. Morales, Maya Scherr-Willson; Assistentes de realização: María Raquel Dioni, Arturo Garcia, Luis Fernando Vasquez, René Villarreal; Departamento de arte: Marcela Arenas, Gabriel Cortes, Eliud López, Raisa Torres; Som: Sergio Diaz, Eric Dounce, José Antonio García, Ruy García, Samuel R. Green; Efeitos especiais: Sergio Jara, Roberto Ortiz, Alex Vasquez; Efeitos visuais: Andrew Carruthers, Aleksei Chernogorod, Miguel De Hoyos, Emma Gorbey, Dave Griffiths, Paul Hill, Sheldon Stopsack; Companhias de produção: Esperanto Filmoj, Participant Media; Intérpretes: Yalitza Aparicio (Cleo), Marina de Tavira (Sra. Sofía), Diego Cortina Autrey (Toño), Carlos Peralta (Paco), Marco Graf(Pepe), Daniela Demesa (Sofi), Nancy García García (Adela), Verónica García (Sra. Teresa), Andy Cortés (Ignacio), Fernando Grediaga, Jorge Antonio Guerrero, José Manuel Guerrero Mendoza, Zarela Lizbeth Chinolla Arellano, José Luis López Gómez, Edwin Mendoza Ramírez, Clementina Guadarrama, Enoc Leaño,  Nicolás Peréz Taylor Félix, Kjartan Halvorsen, etc. Duração: 134 minutos; Distribuição em Portugal: Orange Filmes; Classificação etária: M/ 14 anos; Data de estreia em Portugal: 13 de Dezembro de 2018 (também disponível em Netflix).

sábado, outubro 27, 2018

SOBRE O BRASIL

O OVO DA SERPENTE
Foi Ingmar Bergman quem realizou um filme primoroso sobre a ascensão do nazismo na Alemanha. Chamava-se “O Ovo da Serpente”. “Cabaret”, de Bob Fosse, é outro excelente exemplo do mesmo tema. Há dezenas de outros filmes que nos ajudaram a compreender como Hitler chegou ao poder, inicialmente de forma legal, através de eleições livres.
Hitler tornou-se o primeiro Führer und Reichskanzler (Chefe e Chanceler do Reino), em 1934. Mas a sua ascensão iniciou-se em 1919, quando aderiu ao partido Deutsche Arbeiterpartei (DAP - Partido dos Trabalhadores Alemães), que um ano depois, seria o Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei - NSDAP (Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, ou Partido Nazi). Depois foi sempre a somar. Nas eleições de 1928, os nazis tiveram apenas 12 lugares no Reichstag. Mas, após a crise de 29, em 1930, já contavam 107 deputados e, em novas eleições, em 1932, eram o maior partido alemão com 230 lugares. Apesar disso, Hindenburg, o chanceler na época, recusou-se a dar todo o poder a Hitler. Mas este, através de conspirações e arranjos políticos, conseguiu chegar ao poder absoluto em 1934. Antes, na noite de 27 de fevereiro de 1933, o incêndio no Reichstag, atribuído aos comunistas, muito terá contribuído para consolidar as posições extremistas de Hitler. Mas não só. A Alemanha, saída dos “loucos anos 20”, oferecia um conjunto de circunstâncias muito férteis para o aparecimento de uma ditadura, implantada por força da vontade da maioria do povo, humilhado com as condições impostos internacionalmente pelo tratado de Versalhes (1919) aos derrotados da I Guerra Mundial. O descontentamento popular baseava-se num clima de grande instabilidade social, a crise de 1929, a falta de emprego, a agitação política provocado por partidos e grupúsculos de esquerda e extrema esquerda, o medo da revolução comunista e do caos anarquista, tudo isso ajudou a criar um clima propenso ao aparecimento de uma força autoritária que impusesse ordem e respeito no seio da sociedade germânica. Vamos mesmo mais longe, os excessos dos “anos loucos” ao nível dos costumes, das artes e de um certo deboche moral ajudaram à festa.
O incêndio do Reichstag, quer tenha sido ou não obra de comunistas, caiu como “sopa no mel” das aspirações de Hitler. Milhares de comunistas, socialistas, anarquistas foram enviados para o campo de concentração de Dachau. Os nazis aproveitaram a onda e dizimaram tudo o que ostentava ainda algum resquício de democracia. Foram proibidos todos os partidos, excepto obviamente Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, que passou a ser “partido único”, por decreto de 14 de Julho de 1933 que rezava assim: “Aquele que tentar manter ou formar um novo partido será punido com trabalhos forçados por três anos ou com prisão de seis meses a três anos, se a ação não estiver sujeita a penalidade maior, em conformidade com outros regulamentos. ” Perfeito. Podia começar a limpeza étnica, a perseguição a judeus, ciganos, negros, eslavos, gays, comunistas, socialistas, democratas em geral. Os campos de extermínio estavam ao virar da esquina e Hitler era ovacionado por milhões por onde passava (é bom não esquecer isto, veja-se “O Triunfo da Vontade”, de Leni Riefenstahl).
Obviamente que no final da guerra, mesmo os vizinhos dos campos de extermínio juraram a pés juntos que não sabiam de nada, que nunca ouviram falar em torturas e que Hitler, bem Hitler quem seria? Uns obedeciam a ordens que ninguém dava, outros quando iam às grandes manifestações era porque jogava o Bayern.
Não sei o que mais abomino, se ditadores que se impuseram por golpes de estado ou guerras civis se por eleição popular. Obviamente que os segundos jogam (de início) de acordo com as regras democráticas e estão, por isso, legitimados por quem acredita na democracia. Eu acredito. É um regime péssimo, mas todos os outros são muito piores.
Mas eu prezo muito a liberdade, por isso custa-me a acreditar que existam milhões que, em nome do que quer que seja, troquem a liberdade pela ditadura. Eu sei que o exercício da liberdade é difícil. É muito mais fácil ter alguém que nos diga qual o caminho, que nos coloque vendas nos olhos e nos obrigue a ir por aí (“Não, não vou por aí”, bem dizia José Régio num poema belíssimo). A liberdade obriga a escolhas sistemáticas, a um olhar crítico, a pensar, a optar por A ou B.
Mais simples é entregarmo-nos aos desígnios do Senhor, qualquer que ele seja, desde que tenha autoridade, autoridade essa que é sempre imposta pelo medo. Por isso se compreende que quando cai um regime fascista haja tantos eleitores seduzidos por um arauto comunista. Ambos oferecem um chefe forte, mesmo que de sinal contrário.
O que acontece agora no Brasil pode ser mais um exemplo medonho deste estado de espírito. Compreendo que a escolha entre os dois candidatos seja difícil. O PT de Lula tem muita responsabilidade sobre o que está a acontecer. O PT tem mais responsabilidades porque ludibriou os brasileiros que estavam com Lula numa percentagem de 80%. Mas a verdade também é que o PT não fez nem mais nem menos que todos os outros partidos brasileiros até aí. A política do Brasil sempre esteve baseada na corrupção. Era um dado aceito por (quase) todos. As dezenas de pequenos partidos que existiam (e existem) mais não serviam do que para serem comprados. As grandes empresas sempre estiveram ligadas ao poder. Nada disto era novidade, quando a direita resolveu puxar o tapete a Lula e ao PT. Depois estes responderam na mesma moeda e foi o que se viu: (quase) toda a gente foi parar à cadeia. E daí emergiu a figura de Bolsonaro, esgrimindo a luta contra a corrupção, o elogio da segurança com armas para todos, o racismo, de negros a índios, a misoginia, a ameaça à liberdade da comunicação social, o dedo apontado a todos os adversários políticos.

Adoro o Brasil que tão bem conheci entre 1980 e 2010. Terra fértil e linda, cheia de gente boa, talentosa em todos os campos. Temo pelo que possa acontecer a essa gente, mesmo a muitos que vão votar no desconhecido só porque querem mudar. Mas depois não digam que não sabiam de nada. Bolsonaro não podia ser mais directo, nem menos ambíguo.  


AINDA O BRASIL
Um país com quase 210 milhões de habitantes só consegue arranjar dois candidatos (finais) a Presidente da República como Bolsonaro e Haddad? Estranho. Interessante tentar perceber como se chegou aqui. Vejamos: Bolsonaro representa uma parte muito significativa do Brasil que está farto de toda a política que viveu até agora, farto dos partidos de “arco governativo”, que foram corruptos, que conduziram o país nos últimos anos a uma situação insustentável a vários níveis. Do outro lado, Haddad é o representante de um Presidente que está na cadeia e que muitos brasileiros pensam que iria comandar o Brasil por detrás das grades (antes de ter sido amnistiado, possivelmente). A escolha não é brilhante, portanto. Tanto mais que Haddad é objectivamente um candidato medíocre, não tem carisma, não se independentizou suficientemente em relação a Lula, não tem voz própria, e nem sequer tem voz física para se impor, não tem força no seu discurso, todo o contrário de Bolsonaro. Parece que ambas as candidaturas se notabilizaram (e irmanaram) apenas pela difusão de “fake news” tão na moda. Pelo menos é o que consta.
Como chegámos aqui? Como é possível que num país tão grande e tão poderoso como este não se encontre meia dúzia de justos democratas, credíveis e carismáticos, tanto faz que fossem de centro direita ou de centro esquerda, para surgirem a disputar o primeiro lugar. Isso só quer dizer que quem tem as mãos limpas não as quer sujar. O que dá bem ideia da situação a que se chegou.
Se julgamos que essa situação é o grau zero da política, podemos ter alguma razão. Mas existe uma ameaça abaixo deste grau zero. Ganhe quem ganhar no domingo, o que acontecerá segunda feira? Ou mais adiante, no início do ano, quando o Presidente eleito tomar posse. Raras vezes se viu um país tão dividido e com tamanho ódio de parte a parte. As guerras civis começam assim, e se tal não acontecer, como se deseja ardentemente, pelos menos os confrontos, mais ou menos armados, não serão de excluir. De parte a parte, quem perder não se quer render, nem aceitar os resultados como definitivos. Os dados estão lançados e fazem-se votos para que prevaleça o bom senso e se aguarde o mais serenamente possível o que o futuro nos trará. 
A verdade é que no caso destas eleições, tudo o que poderia correr mal, correu mal, ou pior ainda. Acreditemos que a partir de agora o que se pensa vir a correr mal, possa afinal correr melhor do que o esperado. O Brasil não merece o que lhe está a acontecer, muito embora sejam os seus habitantes a escolheram o futuro. 
Como chegámos aqui? Como é possível que num país tão grande e tão poderoso como este não se encontre meia dúzia de justos democratas, credíveis e carismáticos, tanto faz que fossem de centro direita ou de centro esquerda, para surgirem a disputar o primeiro lugar. Isso só quer dizer que quem tem as mãos limpas não as quer sujar. O que dá bem ideia da situação a que se chegou.
Se julgamos que essa situação é o grau zero da política, podemos ter alguma razão. Mas existe uma ameaça abaixo deste grau zero. Ganhe quem ganhar no domingo, o que acontecerá segunda feira? Ou mais adiante, no início do ano, quando o Presidente eleito tomar posse. Raras vezes se viu um país tão dividido e com tamanho ódio de parte a parte. As guerras civis começam assim, e se tal não acontecer, como se deseja ardentemente, pelos menos os confrontos, mais ou menos armados, não serão de excluir. De parte a parte, quem perder não se quer render, nem aceitar os resultados como definitivos. Os dados estão lançados e fazem-se votos para que prevaleça o bom senso e se aguarde o que o futuro nos trará.  
A verdade é que no caso destas eleições, todo o que poderia correr mal, correu mal, ou pior ainda. Acreditemos que a partir de agora o que se pensa vir a correr mal, possa afinal correr melhor do que o esperado. O Brasil não merece o que lhe está a acontecer, muito embora sejam os seus habitantes a escolheram o futuro. Acredito bastante que haverá muitos que escolham o exílio. Se “Deus é brasileiro” era bom que desse acordo de si nesta altura. 

sexta-feira, julho 13, 2018

LAURA SOVERAL



LAURA SOVERAL

Querida Laura, foste minha colega na faculdade, e minha amiga desde então. Foste uma das melhores actrizes portuguesas durante décadas, o que ficou registado nalguns filmes que tornaste inesquecíveis. Honro-me de te ter convidado para integrar os Júris de Festivais que dirigi, em Famalicão, Seia e Portel. E não esqueci homenagear-te no Famafest 2009, com a Pena de Camilo. Sinto a tua falta com uma tristeza infinita. Não sei se nos voltaremos a cruzar, ou se cada um parte para a terra de ninguém. Mas tu ficarás para sempre na História de Portugal. Como actriz e como pessoa. Um beijo de dolorosa despedida. 


Na foto de cima, os homenageados do Famafest em 2009: 
Mário Claudio, Laura Soveral e Susana Borges.
Na foto de baixa, no Cine Eco, como jurada. 

LIVROS DE CINEMA: OS CINCO MAGNIFICOS


    
   
   LIVROS DE CINEMA: OS CINCO MAGNIFICOS

Não é segredo para ninguém que sou um leitor compulsivo. Leio um pouco de tudo, do romance (nacional e estrangeiro) ao ensaio, da poesia à biografia, do policial à literatura sobre cinema. Sou um homem de paixões, entre as quais se encontram o cinema e a literatura (há outras, um dia falarei delas, enfim se tiver tempo, arte e engenho). Escrever é outra das minhas actividades preferidas, sobretudo escrever sobre o que gosto (às vezes sobre o que desgosto). Por isso não será de estranhar estes textos largamente desenvolvidos em que abuso da atenção e da paciência do leitor, mas, que querem?, paixões são assim: absorventes.
Tenho, por isso uma biblioteca imensa que, por já não caber em casa resolvi oferecer ao município de Setúbal, depois de ter tentado fazer a mesma oferta a Oeiras, sem resultados práticos. Grande parte desta biblioteca, que já estimaram em 80.000 volumes, é relativa a obras sobre cinema. Dos mais de 30.000 livros de cinema que conservo (é verdade: acusam-me de conservar tudo, defeito de quem tem uma formação em História), muitos são simplesmente de consulta, outros são raridades históricas, outras inutilidades de que não sou capaz de prescindir, e uma centenas de obras indispensáveis. Há livros de crítica de mestre André Bazin, de François Truffaut (sobre Hitchcock), de Lindsay Anderson (sobre John Ford), autobiografias de John Huston, de Luis Buñuel, de Roman Polanski, ensaios de Karel Reiz (sobre montagem), de Eisenstein e Pudovkin (sobre a época de ouro do cinema soviético), de Peter Bogdanovich (sobre Ford), de Marcel Martin (A Linguagem Cinematográfica), que tive o privilégio de traduzir para português, conjuntamente com o saudoso Vasco Granja, entre tantos e tantos outros.
Em português também há alguma coisa a sublinhar, apesar de imperar ultimamente um intelectualismo farfalhudo de quem se dá ares de grande importância. Esquecem-se que o mais importante (e difícil) é abordar temas complexos de forma acessível. Esquecem-se, ou nunca souberam, concretizar a ideia. Mas há volumes muito interessantes. António de Macedo foi autor de uma monumental “A Evolução Estética do Cinema” que ficou para a História. E os Dicionários do Jorge Leitão Ramos, e a grande história do cinema português de Leonor Areal. E existem muitas traduções magnificas a não perder.
O que voltou a acontecer agora. Surgiu uma obra de grande envergadura e de uma importância significativa: “Os Cinco Magníficos” (Five Came Back), de Mark Harris. Quem são os cinco magníficos? John Ford, George Stevens, John Huston, William Wyler e Frank Capra, na medida em que estes foram os cineastas essenciais para o percurso histórico que o livro aborda.
A América de Roosevelt defronta em dilema interno profundo no final da década de 30 do século passado e início da seguinte se agudizou: entrar ou não entrar na II Guerra Mundial, ser isolacionista ou participativo. Para mostrar que os EUA devem intervir na Europa para defender a democracia e a liberdade, a presidência Roosevelt solicitou a colaboração de Hollywood, chamando para as fileiras das forças armadas, alguns realizadores e técnicos para conceberem um conjunto de filmes para explicar essencialmente “Why We Fight” (nome da principal série dedicada a mostrar aos americanos porque devem lutar contra a ameaça das tropas do Eixo). A situação não era muito agradável para os que defendiam a intenção, até ao momento do ataque de Pearl Harbor. A partir daí os americanos perceberam que tanto Hitler como Mussolini ou o Imperador Hiroito podiam invadir a terra americano.
John Ford, George Stevens, John Huston, William Wyler e Frank Capra eram, na altura, os mais importantes e bem-sucedidos realizadores de Hollywood. Todos saídos de grandes êxitos e com carreiras promissoras e aceitaram deixar os ordenados de luxo, para integrarem a vida militar, com viagem aos cenários de guerra, onde arriscaram as vidas, e quase nada ganhando economicamente.
“Os Cinco Magníficos” é um estudo e uma análise da sociedade e da política norte americana desses anos, da sua articulação com a propagando militar oficial (segundo a hierarquia militar) e com o cinema de Hollywood alistado numa acção patriótica. Confrontos, dúvidas, esperanças, desilusões, coragem e lições de sobrevivência, de tudo um pouco se pode perceber um pouco, através de uma linguagem acessível, onde a complexidade das questões não interfere com a acessibilidade da mensagem.
A obra já foi adaptada, em 2017, para uma série documental de 3 episódios, produzida pela Netflix, narrado por Meryl Streep com testemunhos de Francis Ford Coppola, Guillermo del Toro, Paul Greengrass, Lawrence Kasdan e Steven Spielberg.
Os Cinco Magnificos, de Mark Harris / Edições 70.

domingo, maio 13, 2018

FESTIVAL DA CANÇÃO 2018


EUROVISÃO 2018
O Festival da Eurovisão terminou com Portugal no seu melhor e no seu pior. O melhor teve a ver com a (impecável) organização que transformou todo o festival numa das melhores edições desta iniciativa. Tudo correu bem, e (quase) tudo se ficou a dever a profissionais portugueses. Os cenários globais, a realização televisiva, o ritmo, o equilíbrio entre o espectáculo (que se impõe num empreendimento como este) e o bom gosto geral, os apontamentos sobre terras e costumes portugueses, as quatro apresentadoras, os comentários em off, tudo com peso e medida. Obviamente que o cenário de cada canção era criado de acordo com cada concorrente. Claro que a organização portuguesa nada teve a ver com a qualidade e interesse dos temas musicais, mas mesmo neste aspecto esta edição de 2018 esteve vários furos acima do que era normal, antes de 2017. Depois imperou a diversidade, o que contrastou (ainda bem!) com a pimbalheira dominante durante algumas décadas. O pior, a canção portuguesa que “ganhou” um justíssimo último lugar (ainda por cima a jogar em casa).
Quanto às classificações, cada uma e cada um vota no que gosta. Como circulava nos bastidores que a única canção que não podia ganhar era a de Israel (por causa da segurança na realização do festival de 2019), ficamos à espera para ver como vai ser.
O que já vimos, no entanto, é que somos tão bons como os melhores. Com boas canções ganhamos, com profissionais competentes (e orçamentos condignos) concretizamos eventos de qualidade internacional. Destroçando toda a negatividade dos velhos do Restelo. Parabéns RTP!

segunda-feira, março 05, 2018

OSCARS 2018




OSCARS 2018

E os Oscars foram para (todas as nomeações e os vencedores a vermelho):

Best Picture:
“Call Me by Your Name”
“Darkest Hour”
“Dunkirk”
“Get Out”
“Lady Bird”
“Phantom Thread”
“The Post”
“The Shape of Water”
“Three Billboards Outside Ebbing, Missouri”

Lead Actor:
Timothée Chalamet, “Call Me by Your Name”
Daniel Day-Lewis, “Phantom Thread”
Daniel Kaluuya, “Get Out”
Gary Oldman, “Darkest Hour”
Denzel Washington, “Roman J. Israel, Esq.”

Lead Actress:
Sally Hawkins, “The Shape of Water”
Frances McDormand, “Three Billboards Outside Ebbing, Missouri”
Margot Robbie, “I, Tonya”
Saoirse Ronan, “Lady Bird”
Meryl Streep, “The Post”

Supporting Actor:
Willem Dafoe, “The Florida Project”
Woody Harrelson, “Three Billboards Outside Ebbing, Missouri”
Richard Jenkins, “The Shape of Water”
Christopher Plummer, “All the Money in the World”
Sam Rockwell, “Three Billboards Outside Ebbing, Missouri”

Supporting Actress:
Mary J. Blige, “Mudbound”
Allison Janney, “I, Tonya”
Lesley Manville, “Phantom Thread”
Laurie Metcalf, “Lady Bird”
Octavia Spencer, “The Shape of Water”

Director:
“Dunkirk,” Christopher Nolan
“Get Out,” Jordan Peele
“Lady Bird,” Greta Gerwig
“Phantom Thread,” Paul Thomas Anderson
“The Shape of Water,” Guillermo del Toro

Animated Feature:
“The Boss Baby,” Tom McGrath, Ramsey Ann Naito
“The Breadwinner,” Nora Twomey, Anthony Leo
“Coco,” Lee Unkrich, Darla K. Anderson
“Ferdinand,” Carlos Saldanha
“Loving Vincent,” Dorota Kobiela, Hugh Welchman, Sean Bobbitt, Ivan Mactaggart, Hugh Welchman

Animated Short:
“Dear Basketball,” Glen Keane, Kobe Bryant
“Garden Party,” Victor Caire, Gabriel Grapperon
“Lou,” Dave Mullins, Dana Murray
“Negative Space,” Max Porter, Ru Kuwahata
“Revolting Rhymes,” Jakob Schuh, Jan Lachauer

Adapted Screenplay:
“Call Me by Your Name,” James Ivory
“The Disaster Artist,” Scott Neustadter & Michael H. Weber
“Logan,” Scott Frank & James Mangold and Michael Green
“Molly’s Game,” Aaron Sorkin
“Mudbound,” Virgil Williams and Dee Rees


Original Screenplay:
“The Big Sick,” Emily V. Gordon & Kumail Nanjiani
“Get Out,” Jordan Peele
“Lady Bird,” Greta Gerwig
“The Shape of Water,” Guillermo del Toro, Vanessa Taylor
“Three Billboards Outside Ebbing, Missouri,” Martin McDonagh

Cinematography:
“Blade Runner 2049,” Roger Deakins
“Darkest Hour,” Bruno Delbonnel
“Dunkirk,” Hoyte van Hoytema
“Mudbound,” Rachel Morrison
“The Shape of Water,” Dan Laustsen

Best Documentary Feature:
“Abacus: Small Enough to Jail,” Steve James, Mark Mitten, Julie Goldman
“Faces Places,” JR, Agnès Varda, Rosalie Varda
“Icarus,” Bryan Fogel, Dan Cogan
“Last Men in Aleppo,” Feras Fayyad, Kareem Abeed, Soren Steen Jepersen
“Strong Island,” Yance Ford, Joslyn Barnes

Best Documentary Short Subject:
“Edith+Eddie,” Laura Checkoway, Thomas Lee Wright
“Heaven is a Traffic Jam on the 405,” Frank Stiefel
“Heroin(e),” Elaine McMillion Sheldon, Kerrin Sheldon
“Knife Skills,” Thomas Lennon
“Traffic Stop,” Kate Davis, David Heilbroner

Best Live Action Short Film:
“DeKalb Elementary,” Reed Van Dyk
“The Eleven O’Clock,” Derin Seale, Josh Lawson
“My Nephew Emmett,” Kevin Wilson, Jr.
“The Silent Child,” Chris Overton, Rachel Shenton
“Watu Wote/All of Us,” Katja Benrath, Tobias Rosen

Best Foreign Language Film:
“A Fantastic Woman” (Chile)
“The Insult” (Lebanon)
“Loveless” (Russia)
“On Body and Soul (Hungary)
“The Square” (Sweden)

Film Editing:
“Baby Driver,” Jonathan Amos, Paul Machliss
“Dunkirk,” Lee Smith
“I, Tonya,” Tatiana S. Riegel
“The Shape of Water,” Sidney Wolinsky
“Three Billboards Outside Ebbing, Missouri,” Jon Gregory

Sound Editing:
“Baby Driver,” Julian Slater
“Blade Runner 2049,” Mark Mangini, Theo Green
“Dunkirk,” Alex Gibson, Richard King
“The Shape of Water,” Nathan Robitaille, Nelson Ferreira
“Star Wars: The Last Jedi,” Ren Klyce, Matthew Wood

Sound Mixing:
“Baby Driver,” Mary H. Ellis, Julian Slater, Tim Cavagin
“Blade Runner 2049,” Mac Ruth, Ron Bartlett, Doug Hephill
“Dunkirk,” Mark Weingarten, Gregg Landaker, Gary A. Rizzo
“The Shape of Water,” Glen Gauthier, Christian Cooke, Brad Zoern
“Star Wars: The Last Jedi,” Stuart Wilson, Ren Klyce, David Parker, Michael Semanick

Production Design:
“Beauty and the Beast,” Sarah Greenwood; Katie Spencer
“Blade Runner 2049,” Dennis Gassner, Alessandra Querzola
“Darkest Hour,” Sarah Greenwood, Katie Spencer
“Dunkirk,” Nathan Crowley, Gary Fettis
“The Shape of Water,” Paul D. Austerberry, Jeffrey A. Melvin, Shane Vieau

Original Score:
“Dunkirk,” Hans Zimmer
“Phantom Thread,” Jonny Greenwood
“The Shape of Water,” Alexandre Desplat
“Star Wars: The Last Jedi,” John Williams
“Three Billboards Outside Ebbing, Missouri,” Carter Burwell

Original Song:
“Mighty River” from “Mudbound,” Mary J. Blige
“Mystery of Love” from “Call Me by Your Name,” Sufjan Stevens
“Remember Me” from “Coco,” Kristen Anderson-Lopez, Robert Lopez
“Stand Up for Something” from “Marshall,” Diane Warren, Common
“This Is Me” from “The Greatest Showman,” Benj Pasek, Justin Paul

Makeup and Hair:
“Darkest Hour,” Kazuhiro Tsuji, David Malinowski, Lucy Sibbick
“Victoria and Abdul,” Daniel Phillips and Lou Sheppard
“Wonder,” Arjen Tuiten

Costume Design:
“Beauty and the Beast,” Jacqueline Durran
“Darkest Hour,” Jacqueline Durran
“Phantom Thread,” Mark Bridges
“The Shape of Water,” Luis Sequeira
“Victoria and Abdul,” Consolata Boyle

Visual Effects:
“Blade Runner 2049,” John Nelson, Paul Lambert, Richard R. Hoover, Gerd Nefzer
“Guardians of the Galaxy Vol. 2,” Christopher Townsend, Guy Williams, Jonathan Fawkner, Dan Sudick
“Kong: Skull Island,” Stephen Rosenbaum, Jeff White, Scott Benza, Mike Meinardus
“Star Wars: The Last Jedi,”  Ben Morris, Mike Mulholland, Chris Corbould, Neal Scanlan
“War for the Planet of the Apes,” Joe Letteri, Dan Lemmon, Daniel Barrett, Joel Whist