terça-feira, Abril 15, 2014

TEATRO: O INSPECTOR GERAL


“O INSPECTOR GERAL” NO CARTAXO

“O Inspector Geral”, de Nikolai Gogol, uma peça escrita em 1836, falando da Ucrânia natal do escritor, ou da Rússia em cuja língua Gogol sempre escreveu, ou de qualquer outro país onde se possa adaptar a crítica (infelizmente, a todos), é uma obra universal que parece ter desenvolvido polémica ao longo dos tempos, sem que se perceba porquê. “O Inspector Geral” é uma peça política, local e mundial, que nos fala não tanto de uns certos políticos (que os há, oh se há!, mas não são todos!), mas sobretudo da condição humana que, quer queiramos ou não, permanece imutável com o rolar do séculos. Na verdade há muita gente que se procura aproveitar das situações e dos postos que ocupa, há muito traste corrupto, muita inveja, muita snobeira, muita intriga, muito oportunista, muito arrivista, e a História da Humanidade tem sido um confronto constante entre Maus e Bons, com uma alta percentagem de Assim-Assins pelo meio, que lá vão fazendo progredir lentamente a roda da História. Gogol serve-se de uma anedota, desenvolvida com mestria, para apontar o dedo na direcção certa.
Curiosamente a peça tem milhares de representações pelo mundo fora e algumas adaptadas às realidades de outros países. Em Portugal, Raúl Solnado inaugurou o seu Teatro Villaret (1965) com uma encenação memorável; aqui não há muitos anos (2009) a Maria do Céu Guerra deu-nos outra excelente versão, na Barraca (ver aqui), e no cinema ficou célebre a adaptação, realizada por Henry Koster, em 1949, com Danny Kaye no protagonista.


A história é muito simples: as autoridades de uma pequena localidade descobrem, por vias travessas, que um inspector dos serviços centrais está para chegar à povoação para inspeccionar o funcionamento local. Com culpas no cartório e muitos segredos na manga, o edil e outros responsáveis procuram localizar o inspector antes de ele se anunciar e cortejá-lo de forma a domesticar a inspecção. Se necessário, com benesses várias, notas, muitas notas entregues por debaixo da mesa, ofertas diversificadas, que vão até à sedução da mulher e da filha do presidente. Desgraçadamente, enganam-se no figurão, e passam uns dias a cumular de prendas não o inspector geral, mas um aldrabão que se aproveita da situação.
Depois de terem encenado Oscar Wilde (“Um Marido Ideal”), Bernardo Santareno (“O Crime de Aldeia Velha”), William Shakespeare (“As Alegres Comadres de Windsor”), Eduardo De Filippo (“Nápoles Milionária”), um original (“Pânico”), e Alice Vieira (“Trisavó de Pistola à Cinta”), a Área de Serviço, uma companhia de teatro comunitário, criada no Cartaxo, e que tem em Frederico Corado o seu encenador e impulsionador desde a primeira hora, levou agora à cena, no Centro Cultural do Cartaxo, uma nova versão de “O Inspector Geral”, adaptada a Portugal e a este período de austeridade troiqueana.
Este espectáculo deve ser visto sob vários aspectos. Esteticamente é muito conseguido, com cenários económicos (a companhia não tem subsídios, vive de si própria e dos pequenos apoios locais), mas muito bonitos e eficazes, numa encenação inventiva, e um tratamento técnico que não fica nada a dever aos profissionais (sim, toda a companhia é amadora, trabalha pelo prazer de fazer teatro, bom teatro, veja-se a escolha intransigente dos autores). Quanto ao grupo de actores, que já chegou a ter em palco mais de 60 intervenientes, os progressos são evidentes. A rodagem vai trazendo experiência e há já muito boas surpresas e um nível global que não envergonha ninguém. O resultado final é muito divertido, contundente, não procura o riso fácil, nem o êxito a todo o custo. As salas do Centro Cultural do Cartaxo estão sempre cheias (esgotadas ou quase) e o trabalho da companhia é saudado por todos quantos ali se deslocam.
Mas há um outro aspecto particularmente relevante nesta companhia. Os mais de 40 elementos que a integram regularmente são trabalhadores, estudantes, reformados e encontram ali um refúgio para as suas frustrações pessoais, aspirações, solidão, crises emocionais, problemas profissionais, etc. Num momento tão dramático da nossa vida colectiva, a existência de grupos como este é não só um estímulo cultural notável, como uma benesse social de invulgar significado. É altura de os poderes locais e nacionais encararem esta iniciativa com outro olhar e sobretudo que a comunicação social lhe empreste a visibilidade que merece. Se “O Inspector Geral” nos fala dos trafulhas, esta companhia comunitária mostra-nos o outro lado da sociedade, aquele que deve ser acarinhado e aplaudido.
observação: para os devidos efeitos tenho a declarar que o Frederico Corado é meu filho. Pode dar-se o caso de haver alguma parcialidade, que tento sempre contrariar. Mas, ficam a saber.  


Fotos : Neno Photo e Germano Campos, que agradeço.
O INSPECTOR GERAL, de Nikolai Gogol; Encenação e Adaptação: Frederico Corado; Concepção e Execução Cenográfica: Frederico Corado, Carlos Ouro e Mário Júlio; Produção CCC: Marco Guerra e Carlos Ouro; Produção Área de Serviço: Frederico Corado, Florbela Silva e Vânia Calado com a assistência de Pedro Ouro, Carolina Viana, Rita Correia Alves; Grafismo: Cátia Garcia; Assistente de Encenação: Florbela Silva, Maria Ramalho e Rita Correia Alves; Desenho de Luz: Ricardo Campos; Direcção Musical: Maestro Nuno Mesquita com a Banda da Sociedade Cultural e Recreativa de Vale da Pinta; Direcção de Cena: Mário Júlio; Contra-Regra: Filipe Falua; Fotografia: Vitor Neno; Montagem: Mário Júlio e Vitor Lima; Intérpretes: André Diogo, João Nunes, Sara Xavier, Vânia Calado, Mauro Cebolo, Mário Júlio, Pedro Ouro, Pedro Lino, Júlio Cardoso, Norberto Sousa, Luís Rosa Mendes, Paulo Cabral, Daniel Mateus, Constança Lopes, Ana Rita Oliveira, Carolina Viana, José Manuel Rodrigues, Miguel Viegas, André Vieira, José Ribeiro, Rosário Narciso, Mena Caetano, Jeanine Steuve, Isabel Coelho, José Falagueira, Maria Cerqueira, Bruna Diogo Santos, Amélia Martins, César Cordeiro, Susana Pais, Carlos Ramos, Guilherme Vicente, Inês Perdigão, Andreia Lourenço e Inês Barbosa; Uma Produção do Área de Serviço com o Centro Cultural do Cartaxo e a Mosaico e Entrar Em Palco; Bilhetes: 4€ •• M12 anos; Próximo espectáculo: dia 25 de Abril. 

segunda-feira, Abril 14, 2014

TEATRO: REGRESSO A CASA


REGRESSO A CASA

 
Harold Pinter é um autor fascinante que surge em Inglaterra lá pelos anos 50 e 60 do século XX e que aparece a acompanhar os “angry young men”, mas deles se afasta nalguns aspectos, enquanto noutros faz parelha sem nunca se assumir. Mas há muito nas suas obras, pelo menos nalgumas, em que o espírito “kitchen sink drama” é visível, como alguma preocupação de um realismo social. Mas, se se aproxima por vezes, logo se afasta desse realismo, experimentando  uma toada que roça o teatro do absurdo. “O Regresso a Casa”, escrita em 1964, é a terceira peça longa de Harold Pinter e, para muitos, “debaixo da aparente banalidade do visível, a sua obra mais complexa”.

O cenário é único e fala-nos de uma modesta casa de um bairro operário do Norte de Londres. Ao centro, um cadeirão, símbolo do poder, onde se senta o pai, reformado, ex-talhante, empunhando a sua bengala. À sua volta, dois filhos, um que quer ser boxeur, outro que não se movimenta mal nas águas da prostituição. Há ainda um velho tio, que se acha o mais competente taxista da região. Um outro irmão, Teddy, que emigrou para os EUA, onde ensina filosofia numa universidade, regressa, nesse dia, a casa com a mulher, Ruth. Vem passar uns dias, apresentar a mulher, e pensa voltar rápido aos EUA.

Deve acrescentar-se que nesta casa onde coexistem quatro homens sem mulher, desde que a mãe dos rapazes partiu, nunca se chega a perceber muito bem quando e porquê, a presença de Ruth perturba a harmonia reinante (se é que essa harmonia existia). O que se sabe é que Ruth recusa regressar aos EUA com o marido, acede às investidas do proxeneta, seduz o aspirante a boxeur e destrona o pai de família, ocupando o cadeirão no centro do palco. Aceita e adopta o machismo instituído ou, pelo contrário, subverte a ordem das coisas e serve-se do seu sexo para estabelecer uma nova ordem (ou desordem)? Harol Pinter é perito nestas frias análises de conquista de poder através do sexo (veja-se o excelente argumento de “O Criado”, de Joseph Losey, com que esta peça mantem curiosas afinidades).

Sobre “O Regresso a Casa”, diz Jorge Silva Melo, que encena com rigor e interpreta o tio com um particular brilho nos olhos, que o "encanta trabalhar o teatro exacto de Harold Pinter, os silêncios, o humor, a crueldade, que o encanta a maneira que tem de fazer falar o mais simples objecto, como aqui faz com um copo de água, por exemplo. Que o encanta, igualmente, trabalhar com o João Perry, tal como o encantam estes actores, exactos."

Ora é também na interpretação que este “Regresso a Casa” oferece outro dos vários motivos de regozijo para o espectador. João Perry, que regressa aos palcos, Rúben Gomes, Maria João Pinho, Elmano Sancho, João Pedro Mamede e o próprio Jorge Silva Melo, são excelentes, sendo de realçar a magnífica dupla Perry-Silva Melo, que relembra o jogo de relógio que existia entre Jack Lemon e Walter Mathau. É um prazer vê-los, assim como a todos os outros, mas, no meu caso pessoal, é um prazer rever amigos em plena forma. O cenário e os figurinos de Rita Lopes Alves ajustam-se na perfeição, luz e som cumprem e “O Regresso a Casa” merece um regresso ao Teatro Nacional D. Maria II.

O REGRESSO A CASA de Harold Pinter; tradução: Pedro Marques; encenação: Jorge Silva Melo; cenografia e figurinos: Rita Lopes Alves; luz: Pedro Domingos; fotografias: Jorge Gonçalves; construção de cenário: Thomas Kahrel; assistência: Leonor Carpinteiro e Nuno Gonçalo Rodrigues; produção executiva: João Meireles; Intérpretes:  João Perry, Rúben Gomes, Maria João Pinho, Elmano Sancho, João Pedro Mamede e Jorge Silva Melo; co-produção: TNDM II, TNSJ, Artistas Unidos. M/16 anos.

segunda-feira, Março 03, 2014

OSCARS 2014 - OS VENCEDORES


OS OSCARS DE 2014 – VENCEDORES


Vinte e quatro Oscars atribuídos, dos quais só fiz previsões sobre 20 (os outros quatro não conhecia os nomeados). Dos vinte palpites, dois (os musicais) falhei. Acertei os outros 18. Nada mau. De resto, “Gravidade” arrecadou 7 estatuetas, “12 Anos Escravo” e “O Clube de Dalas” 3 cada um. “O Grande Gatsby “ e “Frozen”, 2. “Her”, Blue Jasmine” e “A Grande Beleza”, um cada um. Para lá de curtas e documentais. Uma cerimónia interessante, emocionada, num dos melhores anos de colheita cinematográfica dos últimos tempos.
Aqui ficam os vencedores  em cada categoria: 

MELHOR FILME
*** 12 ANOS ESCRAVO

MELHOR REALIZADOR
*** ALFONSO CUARÓN - GRAVIDADE

MELHOR ACTOR PRINCIPAL
*** MATTHEW MCCONAUGHEY - O CLUBE DE DALLAS

MELHOR ACTOR SECUNDÁRIO
*** JARED LETO - O CLUBE DE DALLAS

MELHOR ACTRIZ PRINCIPAL
*** CATE BLANCHETT - BLUE JASMINE

MELHOR ACTRIZ SECUNDÁRIA
*** LUPITA NYONG'O - 12 ANOS ESCRAVO

MELHOR ARGUMENTO ADAPTADO
*** 12 ANOS ESCRAVO - JOHN RIDLEY

MELHOR ARGUMENTO ORIGINAL
*** HER - SPIKE JONZE

MELHOR FILME DE ANIMAÇÃO
*** FROZEN, O REINO DO GELO

MELHOR FOTOGRAFIA
*** GRAVIDADE - EMMANUEL LUBEZKI

MELHOR GUARDA-ROUPA
*** O GRANDE GATSBY - CATHERINE MARTIN

MELHOR BANDA SONORA
GRAVIDADE - Steven Price

MAQUILHAGEM E CABELO
*** O CLUBE DE DALLAS - ADRUITHA LEE E ROBIN MATHEWS

MELHOR CANÇÃO
Let It Go FROZEN - O REINO DO GELO música e letra Kristen Anderson-Lopez e Robert Lopez

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
*** «A GRANDE BELEZA», DE PAOLO SORRENTINO / ITÁLIA

MELHOR MONTAGEM
*** GRAVIDADE - ALFONSO CUARÓN E MARK SANGER

DESIGN DE PRODUÇÃO
*** O GRANDE GATSBY - CATHERINE MARTIN E BEVERLEY DUNN

MONTAGEM DE SOM
*** GRAVIDADE - GLENN FREEMANTLE

MISTURA DE SOM
*** GRAVIDADE - SKIP LIEVSAY, NIV ADIRI, CHRISTOPHER BENSTEAD E CHRIS MUNRO

EFEITOS VISUAIS
*** GRAVIDADE - TIM WEBBER, CHRIS LAWRENCE, DAVE SHIRK E NEIL CORBOULD

CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
MR. HUBLOT - Laurent Witz e Alexandre Espigares

MELHOR CURTA-METRAGEM
HELIUM - Anders Walter e Kim Magnusson

MELHOR DOCUMENTÁRIO: LONGA-METRAGEM
20 FEET FROM STARDOM 


MELHOR DOCUMENTÁRIO: CURTA-METRAGEM
THE LADY IN NUMBER 6: MUSIC SAVED MY LIFE - Malcolm Clarke e Nicholas Reed

domingo, Março 02, 2014

TEATRO: “PÂNICO”


“PÂNICO” NO CARTAXO

Os ingleses têm uma palavra que quer dizer muita coisa. Play. Pode ser, por exemplo, brincar, jogar ou interpretar. Estes três conceitos andam por vezes ligados, e quando se assiste a uma peça de teatro, os actores interpretam, jogam e brincam, quando o significado de brincar é o desenvolver uma actividade que lhes dá prazer.
No Cartaxo, no edifício de uma escola há pouco tempo desactivada, o colectivo teatral “Área de Serviço” procura isso mesmo, surpreendendo todos os que ousarem desafiar o desconhecido. Eles apresentam a ideia assim: “Há quem tenha medo de tudo. E quem não tenha medo de nada. Mas ninguém resiste a ver até onde vai o seu limite. E no limite está o PÂNICO”.
Numa escola fora de serviço do Cartaxo, uma equipa de televisão de um programa dedicado a casos paranormais, procura saber por que  circula o boato (será boato?) que aquele edifício está assombrado, possuído por seres do outro mundo, espíritos maléficos. Será herança de um padre que executou mais de duzentos exorcismos? De sala em sala vão procurando a solução para o mistério, mas só vão encontrando mais certezas trágicas.
Medo, muito medo? Enfim, há muitos momentos de frison, mas o que há sobretudo é um divertimento cheio de graça, de invenção, parodiando vários estereótipos de filmes de terror, com os actores a gozarem as situações imaginadas, juntamente com os espectadores que os acompanham neste “trágico” percurso. O elenco é de amadores, daqueles que “amam” o que fazem nas horas vagas, uma companhia de teatro comunitário que já nos deu Oscar Wilde, William Shakespeare, Bernardo Santareno e Eduardo de Fillipo e que agora resolveu divertir-se e divertir-nos. São eles João Nunes, Vânia Calado, Pedro Lino, Pedro Ouro, Constança Lopes, Mauro Cebolo, Ana Rita Oliveira, Carolina Viana, Jeanine Steuve, José Falagueira, Maria Cerqueira e Alexandre Amendoeira. A ideia, texto e encenação é do Frederico Corado, com colaboração no texto de Vânia Calado, sendo a concepção e execução cenográfica de Frederico Corado e Mário Júlio, a produção da Área de Serviço (Frederico Corado, Florbela Silva e Vânia Calado), o design de Cátia Garcia, o desenho de luz de Ricardo Campos, tendo como assistente de encenação Florbela Silva, Rita Correia Alves, Pedro Ouro e Maria Ramalho. Desenho de som e ambientes sonoros é de Pedro Bona, a fotografia de Vitor Neno, a montagem de Mário Júlio e o contra-regra chama-se Henrique Carvalho. Esta é uma produção da “Área de Serviço” com a colaboração do Centro Cultural do Cartaxo e “Entrar em Palco”. A estreia aconteceu a 28 de Fevereiro, com duas sessões, e continua a 1, 2, 3 e 4 de Março às 21h30 e 23h00.

Posto isto, eu diverti-me imenso no ensaio geral. Mas é conveniente acrescentar que o brincalhão mor deste “Pânico” é o meu filho Frederico Corado. Fica a ressalva. Eu estou muito orgulhoso das suas façanhas cénicas, mas, já se sabe, pai é pai. Mas, com a maior imparcialidade, creio que vale mesmo a pena.


ALAIN RESNAIS



ALAIN RESNAIS (1922-2014)


Morreu um dos meus realizadores franceses preferidos. Altura para recordar um daqueles momentos únicos na minha vida. Cannes, 1980. A minha “Manhã Submersa” na Quinzena dos Realizadores, “O Meu Tio da América” em competição na selecção oficial. É a noite  da apresentação do filme de Resnais. Na avenida principal de Cannes, eu e uns amigos caminhamos num dos passeios, daqueles cheios de esplanadas repletas de comensais, e de súbito, apanho pela frente a comitiva de "Mon Oncle d'Amérique", com o cineasta à frente, impecável no seu smoking, ladeado por Gérard Depardieu e Nicole Garcia. Irresistível, paro-o, apresento-me, saúdo-o como um dos meus cineastas de eleição, ele pergunta-me pelo meu filme, deseja-me felicidades, e eu peço-lhe um autógrafo no catálogo do Festival (imagem acima). Esta foi uma minhas alegrias em Cannes 80. Aqui fica a recordação que não se apaga na minha memória. Morreu Resnais, mas a sua obra fica para sempre na história do cinema, desde os fabulosos documentários de meados dos anos 50, “Toute la Mémoire du Monde” ou  “Nuit et Brouillard”, até aos recentes “As Ervas Daninhas”, “Vous n'avez Encore Rien Vu” ou “Aimer, Boire et Chanter”, este último já de 2014.  E que dizer de obras como “Hiroshima, Meu Amor” (1959), “O Último Ano em Marienbad” (1961), “Muriel ou o Tempo de um Regresso” (1963), “A Guerra Acabou” (1966), “Amo-te, Amo-te” (1968), “Stavisky, o Grande Jogador” (1974), “Providence” (1977), “A Vida é um Romance” (1983), “Mélo” (1986), “É Sempre a Mesma Cantiga” (1997) ou  “Corações” (2006)?

OS OSCARS - PREVISÕES



OS OSCARS DE 2014 - PREVISÕES

Amanhã é a grande noite dos Oscars relativos às estreias de 2013 nos EUA. Aqui fica a lista dos nomeados com os palpites pessoais para os vencedores. As minhas apostas vão em MAISCULAS, Bold, e a amarelo. As curtas-metragens e os documentários não vi nenhum, pelo que só vão enunciados os nomeados.

MELHOR FILME
«Golpada Americana»
«Capitão Philips»
«O Clube Dalas»
«Gravidade»
«Her»
«Nebraska»
«Philomena»
«12 ANOS ESCRAVO»
«O Lobo de Wall Street»

MELHOR REALIZADOR
David O. Russell - «Golpada Americana»
ALFONSO CUARÓN - «GRAVIDADE»
Alexander Payne - «Nebraska»
Steve McQueen - «12 anos Escravo»
Martin Scorsese - «O Lobo de Wall Street»

MELHOR ACTOR PRINCIPAL
Christian Bale GOLPADA AMERICANA
Bruce Dern NEBRASKA
Leonardo DiCaprio O LOBO DE WALL STREET
Chiwetel Ejiofor 12 ANOS ESCRAVO
MATTHEW MCCONAUGHEY O CLUBE DE DALLAS

MELHOR ACTOR SECUNDÁRIO
Barkhad Abdi CAPITÃO PHILLIPS
Bradley Cooper GOLPADA AMERICANA
Michael Fassbender 12 ANOS ESCRAVO
Jonah Hill O LOBO DE WALL STREET
JARED LETO O CLUBE DE DALLAS

MELHOR ACTRIZ PRINCIPAL
Melhor Atriz
Amy Adams GOLPADA AMERICANA
CATE BLANCHETT BLUE JASMINE
Sandra Bullock GRAVIDADE
Judi Dench FILOMENA
Meryl Streep UM QUENTE AGOSTO

MELHOR ACTRIZ SECUNDÁRIA
Sally Hawkins BLUE JASMINE
Jennifer Lawrence GOLPADA AMERICANA
LUPITA NYONG'O 12 ANOS ESCRAVO
Julia Roberts UM QUENTE AGOSTO
June Squibb NEBRASKA

MELHOR ARGUMENTO ADAPTADO
ANTES DA MEIA-NOITE Richard Linklater, Julie Delpy, Ethan Hawke
CAPITÃO PHILLIPS Billy Ray
FILOMENA Steve Coogan e Jeff Pope
12 ANOS ESCRAVO JOHN RIDLEY
O LOBO DE WALL STREET Terence Winter

MELHOR ARGUMENTO ORIGINAL
AMERIC AN HUSTLE Eric Warren Singer e David O. Russell
BLUE JASMINE Woody Allen
O CLUBE DE DALLAS Craig Borten e Melisa Wallack
HER - SPIKE JONZE
NEBRASKA Bob Nelson

MELHOR FILME DE ANIMAÇÃO
OS CROODS
GRU O MALDISPOSTO 2
ERNESTO E CELESTINE
FROZEN - O REINO DO GELO
THE WIND RISES

MELHOR FOTOGRAFIA
O GRANDE MESTRE Philippe Le Sourd
GRAVIDADE - EMMANUEL LUBEZKI
A PROPÓSITO DE LWELYN DAVIS Bruno Delbonnel
NEBRASKA Phedon Papamichael
RAPTADAS Roger A. Deakins

MELHOR GUARDA-ROUPA
GOLPADA AMERICANA Michael Wilkinson
O GRANDE MESTRE William Chang Suk Ping
O GRANDE GATSBY - CATHERINE MARTIN
THE INVISIBLE WOMAN Michael O'Connor
12 ANOS ESCRAVO Patricia Norris

MELHOR BANDA SONORA
A RAPARIGA QUE ROUBAVA LIVROS John Williams
GRAVIDADE Steven Price
HER - WILLIAM BUTLER E OWEN PALLETT
FILOMENA Alexandre Desplat
AO ENCONTRO DO SR. BANKS Thomas Newman

MELHOR CANÇÃO
Alone Yet Not Alone ALONE YET NOT ALONE,  música Bruce Broughton; letra Dennis Spiegel
Happy GRU O MALDISPOSTO 2 música e Letra Pharrell Williams
Let It Go FROZEN - O REINO DO GELO música e letra Kristen Anderson-Lopez e Robert Lopez
The Moon Song HER música de Karen O; letra de Karen O e Spike Jonze
ORDINARY LOVE - MANDELA: LONGO CAMINHO PARA A LIBERDADE - MÚSICA PAUL HEWSON, DAVE Evans, ADAM CLAYTON E LARRY MULLEN; LETRA PAUL HEWSON

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
«The Broken Circle Breakdown», de  Felix Van Groeningen / Bélgica
«A GRANDE BELEZA», DE PAOLO SORRENTINO / ITÁLIA
« A Caça», de Dane Thomas Vinterberg  / Dinamarca
«The Missing Picture», de Rithy Panh / Cambodja
«Omar», de  Hany Abu-Assad / Palestina

MELHOR MONTAGEM
GOLPADA AMERICANA Jay Cassidy, Crispin Struthers e Alan Baumgarten
CAPITÃO PHILLIPS Christopher Rouse
O CLUBE DE DALLAS John Mac McMurphy e Martin Pensa
GRAVIDADE - ALFONSO CUARÓN E MARK SANGER
12 ANOS ESCRAVO Joe Walker

MAQUILHAGEM E CABELO
O CLUBE DE DALLAS - ADRUITHA LEE E ROBIN MATHEWS
JACKASS PRESENTS: BAD GRANDPA Stephen Prouty
O MASCARILHA Joel Harlow e Gloria Pasqua-Casny

DESIGN DE PRODUÇÃO
GOLPADA AMERICANA Judy Becker e Heather Loeffler
GRAVIDADE Andy Nicholson, Rosie Goodwin e Joanne Woollard
O GRANDE GATSBY - CATHERINE MARTIN E BEVERLEY DUNN
HER K.K. Barrett e Gene Serdena
12 ANOS ESCRAVO Adam Stockhausen e Alice Baker

MONTAGEM DE SOM
QUANDO TUDO ESTÁ PERDIDO Steve Boeddeker e Richard Hymns
CAPITÃO PHILLIPS Oliver Tarney
GRAVIDADE - GLENN FREEMANTLE
O HOBBIT: A DESOLAÇÃO DE SMAUG Brent Burge
LONE SURVIVOR Wylie Stateman

MISTURA DE SOM
CAPITÃO PHILLIPS Chris Burdon, Mark Taylor, Mike Prestwood Smith e Chris Munro
GRAVIDADE - SKIP LIEVSAY, NIV ADIRI, CHRISTOPHER BENSTEAD E CHRIS MUNRO
O HOBBIT: A DESOLAÇÃO DE SMAUG Christopher Boyes, Michael Hedges, Michael Semanick e Tony Johnson
A PROPÓSIDO DE LLEWYN DAVIS Skip Lievsay, Greg Orloff e Peter F. Kurland
LONE SURVIVOR Andy Koyama, Beau Borders e David Brownlow

EFEITOS VISUAIS
GRAVIDADE - TIM WEBBER, CHRIS LAWRENCE, DAVE SHIRK E NEIL CORBOULD
O HOBBIT: A DESOLAÇÃO DE SMAUG Joe Letteri, Eric Saindon, David Clayton e Eric Reynolds
HOMEM DE FERRO 3 Christopher Townsend, Guy Williams, Erik Nash e Dan Sudick
O MASCARILHA Tim Alexander, Gary Brozenich, Edson Williams e John Frazier
ALÉM DA ESCURIDÃO - STAR TREK Roger Guyett, Patrick Tubach, Ben Grossmann e Burt Dalton

CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
FERAL Daniel Sousa e Dan Golden
GET A HORSE! Lauren MacMullan e Dorothy McKim
MR. HUBLOT Laurent Witz e Alexandre Espigares
POSSESSIONS Shuhei Morita
ROOM ON THE BROOM Max Lang e Jan Lachauer

MELHOR CURTA-METRAGEM
AQUEL NO ERA YO  Esteban Crespo
AVANT QUE DE TOUT PERDRE Xavier Legrand e Alexandre Gavras
HELIUM Anders Walter e Kim Magnusson
PITÄÄKÖ MUN KAIKKI HOITAA? (DO I HAVE TO TAKE CARE OF EVERYTHING?) Selma Vilhunen e Kirsikka Saari
THE VOORM AN PROBLEM Mark Gill e Baldwin Li

MELHOR DOCUMENTÁRIO:  LONGA-METRAGEM
THE ACT OF KILLING Joshua Oppenheimer e Signe Byrge Sørensen
CUTIE AND THE BOXER Zachary Heinzerling e Lydia Dean Pilcher
DIRTY WARS Richard Rowley e Jeremy Scahill
THE SQUARE Jehane Noujaim e Karim Amer
20 FEET FROM STARDOM

MELHOR DOCUMENTÁRIO:  CURTA-METRAGEM
CAVEDIGGER Jeffrey Karoff
FACING FEAR Jason Cohen
KARAMA HAS NO WALLS Sara Ishaq
THE LADY IN NUMBER 6: MUSIC SAVED MY LIFE Malcolm Clarke e Nicholas Reed

PRISON TERMINAL: THE LAST DAYS OF PRIVATE JACK HALL Edgar Barens

quarta-feira, Fevereiro 26, 2014

CINEMA: NEBRASKA

NEBRASKA

Belíssimo filme este de Alexander Payne, que regressa ao registo da "road movie" (o que já acontece anteriormente com “Sideways”, 2004) e retoma o cenário da sua terra natal, ele que nasceu em Omaha, no Nebraska, e que aí já rodou alguns filmes, como “As Confissões de Schmidt” ou o anterior “Caminhos Mal Traçados” (Citizen Ruth, 1996). Paine é um cineasta muito particular, procurando protagonistas pouco habituais no cinema dominante norte-americano, misturando humor e um retrato de certa forma angustiante da sociedade actual, o que volta a acontecer em “Nebraska”, mantendo como polo central da acção uma família (tal como noutro sentido o fizera em “Os Descendentes”, seu título anterior que justificou grande sucesso de público e crítica).

Desta feita, tudo roda à volta de Woody Grant (Bruce Dern), um velho casmurro e dado à bebida, que recebe um dia um folheto publicitário a prometer-lhe um milhão de dólares. Resolve então ir cobrar o prémio e viajar da sua cidade, Billings, em Montana, para Lincoln, no Nebraska, caminhando pela berma da estrada. Claro que a família é avisada, ele é forçado a voltar a casa, mas teima em receber o prémio a que tem direito, sem se aperceber das letras mínimas do folheto. Um dos seus filhos, David Grant (Will Forte) resolve então meter-se no carro com o obstinado Woody e levá-lo ao Nebraska, aproveitando para passar pela terra natal do pai, Hawthorne, onde ele é reconhecido e muito aclamado por familiares, velhos amigos e conhecidos depois de lhes ter dito que vai receber um milhão de dólares. Obviamente que alguns deles sonham já colher favores da fortuna do velho.


Velhos rezinguentos, teimosos e dados à bebida, não são casos raros no cinema. Quem não se lembra, por exemplo, do fabuloso “Uma História Simples” (The Straight Story, 1999), de David Lynch, com um inspiradíssimo Richard Farnsworth? O que faz o grande interesse desta nova obra de Alexander Payne é, por um lado, a justeza do tom, mesclando sabiamente dramatismo e humor, sem cair na pieguice nem na caricatura, antes optando por um olhar terno e compreensivo. O que se fica a dever à sensibilidade e pudor do trabalho do realizador, mas igualmente ao do argumentista, Bob Nelson. Por outro lado, o rigor da interpretação de todo o elenco, com particular destaque para Bruce Dern, que nos oferece uma personagem inesquecível, um velho rural, meio careca, de cabelo desalinhado, arrastando persistentemente uma perna trôpega na perseguição de um sonho, alheio a todas as vozes racionais, e não esquecendo nunca a sua cerveja, ao longo de todos os bares por onde vai parando. Claro que a fotografia a preto e branco de Phedon Papamichael desempenha igualmente um papel decisivo para o excelente resultado final, criando uma patine de documento histórico desolador que funciona muito bem, e torna desconcertante esta história metafórica sobre os dias de hoje, na América profunda. A partitura musical de Mark Orton também ajuda.
Mas há um aspecto adicional que é fundamental para a importância do filme e que tem a ver com o retrato de uma sociedade em período de depressão económica e psicológica. A América envelhecida, solitária, reformada, imóvel diante dos aparelhos de televisão, desempregada, ávida e rancorosa, violenta ao menor sinal que a desperte da sua letargia, é inquietante e muito bem transmitida pela câmara atenta do cineasta, que sabe captar esses indícios sem demagogia barata. A abordagem da velhice e de todo o caudal de consequências que acarreta, a relação do casal Grant, e destes com os filhos, a permeabilidade ao embuste e a inocência desta “segunda infância” são aspectos a sublinhar.


Esta viagem de Montana ao Nebraska não acaba em total desespero. A relação pais e filhos cimenta-se e o velho Woody Grant regressa a casa orgulhoso, com o seu boné de milionário, conduzindo um novo jeep e trazendo consigo o compressor com que sempre sonhara. Nem tudo são quimeras na vida e ainda há lugar para alguma esperança. Mesmo que do milhão ambicionado reste somente o boné.
O filme foi nomeado para Melhor Filme do Ano, Melhor Realização, Melhor Actor, Melhor Argumento Original, Melhor Actriz Secundária (June Squibb) e Melhor Fotografia para os Oscars de 2014.  São às dezenas as nomeações para outros prémios e Bruce Dern ganhou alguns deles, em particular o do Festival de Cannes 2013. As referências são todas elas justíssimas e, infelizmente para Alexander Payne, a concorrência este ano é feroz e a delicada fragilidade desta obra belíssima vai sair seguramente relegada para segundo plano. Mas cremos que este é, indiscutivelmente, o melhor trabalho de um cineasta que se acompanha com prazer e de quem muito se deve esperar no futuro.


NEBRASKA
Título original: Nebraska

Realização: Alexander Payne (EUA, 2013); Argumento: Bob Nelson; Produção: Albert Berger, Doug Mankoff, George Parra, Julie M. Thompson, Ron Yerxa; Música: Mark Orton; Fotografia (p/b): Phedon Papamichael; Montagem: Kevin Tent; Casting: John Jackson; Design de produção: J. Dennis Washington; Direcção artística: Sandy Veneziano; Decoração: Fontaine Beauchamp Hebb; Guarda-roupa: Wendy Chuck; Maquilhagem: Gary Archer, Robin Fredriksz, Waldo Sanchez, Melanie Smith; Direcção de produção: Mads Hansen, Valerie Flueger Veras, Sheryl Benko; Assistentes de realização: Scott August, Gregory S. Carr;  Departamento de arte:  Wes Clowers, Jeff Cronin; Som: Frank Gaeta; Efeitos visuais: Scott Dougherty, David Lingenfelser; Companhias de produção: Blue Lake Media Fund, Bona Fide Productions, Echo Lake Productions; Intérpretes: Bruce Dern (Woody Grant), Will Forte (David Grant), June Squibb (Kate Grant), Bob Odenkirk (Ross Grant), Stacy Keach (Ed Pegram), Mary Louise Wilson (Tia Martha), Rance Howard (Tio Ray), Tim Driscoll (Bart), Devin Ratray (Cole), Angela McEwan (Peg Nagy), Glendora Stitt (Tia Betty), Elizabeth Moore, Kevin Kunkel, Dennis McCoig, Ronald Vosta, Missy Doty, John Reynolds, Jeffrey Yosten, Neal Freudenburg, Eula Freudenburg, Ray Stevens, Lois Nemec, Francisco Mendez, Jose Munoz, Catherine Rae Schutz, Terry Lotrous, Dennis McCave, Rachel Lynn Liester, etc. Duração: 115 minutos; Distribuição em Portugal:; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 27 de Fevereiro de 2014.

domingo, Fevereiro 23, 2014

CINEMA: A GRANDE BELEZA


A GRANDE BELEZA

“Primeiro estranha-se, depois entranha-se” foi um slogan inventado por Fernando Pessoa para uma bebida e realmente ele nunca poderia ter visto “A Grande Beleza”, mas creio que a frase se aplica bem a este belíssimo filme italiano, de Paolo Sorrentino, com um excelente actor, Toni Servillo, que, qual flaneur, vive com charme e um delicioso diletantismo a figura de Jep Gambardella, um escritor e jornalista cultural romano que há muitos anos escrevera um romance de sucesso e depois se calara criativamente. Por falta de inspiração, reconhece ele. A realidade à sua volta é tão dolorosamente medíocre, cinzenta, mesquinha, tão sem falta de graça e de projecto, que ele desistira de escrever fosse o que fosse.
Deambula como um fantasma vindo de outros tempos por essas festas e jantares, recepções e actos culturais e “artísticos”, encontros amorosos e desencontros sociais, nessa Roma de monumental passado, que as pedras eternizam, mas que os actuais habitantes reduzem a cenários perdulários de grotescas farsas sem sentido.
Paolo Sorrentino tem sobretudo saudades do passado, de “A Doce Vida” de Felliini, obviamente e de todo o feérico universo deste cineasta, mas também de outros mestres italianos, como o aristocrático Visconti (vejam-se essas incursões pelos palácios e os monumentos que são de tal forma de cortar a respiração, que um oriental mais sensível acaba mesmo vítima de uma síncope ao olhar a deslumbrante beleza que o rodeia), ou mesmo, aqui ali, de algumas pinceladas do ”frio” Antonioni, de “A Noite” ou “O Eclipse”. Mas é mesmo o mundo de Fellini que Paolo Sorrentino repisa, as parolas festas das elites que duram até às tantas da madrugada, as majestosas matronas de fartos seios, ou os elegantes modelos e actrizes, com o seu encontro espectral com a vedeta, quer seja Anita Ekberg, quer seja Fanny Ardant, as procissões de clérigos e freiras, o sarcasmo para com a padralhada, e o toque místico de autêntica religiosidade. Neste aspecto, o seu filme é uma homenagem directa e despudoradamente amorosa ao grande cinema italiano da sua época de ouro. “Porque é que se há-se ter medo da nostalgia, quando é apenas o que resta a quem não tem fé no futuro?”, pergunta Jep Gambardella.
Surge também uma “santa” secular, que só come raízes. Porquê? “As raízes são importantes!”

A realidade presente é, pois, confrangedora. Gambardella não tem nada a dizer. Ou não lhe apetece dizer o que poderia querer escrever. Ele passeia-se, meio fascinado pela decadência, meio horrorizado pela mediocridade, o embuste, o vazio, a mentira, a hipocrisia destes tempos, onde não se fala de “milagre económico”, como o poderia fazer Fellini nos anos 60, mas de “austeridade” e de “bancarrota”, com as tróicas com os olhos colados aos mais débeis e as mãos generosamente viradas para os mais ricos e poderosos, que nos oferecem o espectáculo da sua opulência feérica por fora e da sua miséria intelectual e moral. 


Jep Gambardella, tal como o Mastroianni de Fellini, passa por uma girafa e um mágico que afirma que a pode fazer desaparecer. Gambardella pergunta ao mago se “também consegue fazer desaparecer pessoas”, ao que este lhe responde: “Acha que se eu pudesse fazer desaparecer pessoas eu ainda estava aqui?”
Paolo Sorrentino é o mesmo de “Le Conseguenze dell'Amore” (2004), “Il Divo” (2008) e de “This Must Be the Place” (2011), mas “La Grande Bellezza” é definitivamente um filme de outra galáxia. A estrutura é a de uma viagem (iniciática?) pela Roma de hoje, a meio caminho entre a reportagem social e o onirismo, misturando realidade (recriada) e sonho, fantasmas e fantasias, pessoal e colectivo. O espectador é convidado a embarcar neste passeio em que  Jep Gambardella é mais personagem contemplativo e juiz a uma certa distância cínica, do que interveniente ou participante. Ele olha e sorri malicioso perante o espectáculo que se desenrola à sua frente.
Toda a obra é de uma qualidade plástica e gráfica admirável, ao nível dos cenários, dos enquadramentos, da cor, da iluminação, banhada por essa luz fantástica do Mediterrâneo. Toni Servillo é absolutamente fabuloso na forma como interpreta Jep Gambardella. “A Grande Beleza” é isso mesmo. E só ela nos poderá salvar.


A GRANDE BELEZA
Título original: La Grande Bellezza

Realização: Paolo Sorrentino (Itália, França, 2013); Argumento: Paolo Sorrentino, Umberto Contarello; Produção: Francesca Cima, Nicola Giuliano, Jérôme Seydoux, Vivien Aslanian, Carlotta Calori, Fabio Conversi, Gennaro Formisano, Romain Le Grand, Guendalina Ponti, Viola Prestieri, Muriel Sauzay; Música: Lele Marchitelli; Fotografia (cor): Luca Bigazzi; Montagem: Cristiano Travaglioli; Casting: Anna Maria Sambucco; Design de produção: Stefania Cella; Guarda-roupa:  Daniela Ciancio; Maquilhagem: Peter Nicastro, Maurizio Silvi; Direcção de Produção:  Giuseppe Di Gangi, Raffaello Vignoli;  Assistentes de realização: Baladine Ardant Conversi, Andrea Armani, Davide Bertoni, Jacopo Bonvicini, Giulio Cangiano, Domenico Emanuele de Feudis, Serena Lupo, Piero Messina, Fabrizio Provinciali, Giorgio Servillo; Departamento de arte: Stefano Barberi, Giorgio Barullo, Fabio Galvagno, Fabrizio Mucci, Daniele Rossi Espagnet, Angelo Spirito; Som: Emanuele Cecere; Efeitos especiais: Tiberio Angeloni, Franco Galiano, Massimo Giovannetti, Luca Ricci; Efeitos visuais: Enrico Barone, Rodolfo Migliari; Companhias de produção: Indigo Film, Medusa Film, Babe Film, Pathé, France 2 Cinéma, Mediaset, Canal+, Ciné+, France Télévisions, Regione Lazio , Ministero per i Beni e le Attività Culturali (MiBAC), Banca Popolare di Vicenza, Lazio Film Commission, Fonds Eurimages du Conseil de l'Europe, Programme MEDIA de la Communauté Européenne, Biscottificio Verona; Intérpretes: Toni Servillo (Jep Gambardella), Carlo Verdone (Romano), Sabrina Ferilli (Ramona), Carlo Buccirosso (Lello Cava), Iaia Forte (Trumeau), Pamela Villoresi (Viola), Galatea Ranzi (Stefania), Franco Graziosi (Conde Colonna), Giorgio Pasotti (Stefano), Massimo Popolizio (Alfio Bracco), Sonia Gessner (Condessa Colonna), Anna Della Rosa (rapariga na performence), Luca Marinelli (Andrea), Serena Grandi (Lorena), Ivan Franek (Ron Sweet), Vernon Dobtcheff (Arturo), Dario Cantarelli, Pasquale Petrolo, Luciano Virgilio, Aldo Ralli, Giusi Merli, Giovanna Vignola, Anita Kravos, Ludovico Caldarera, Maria Laura Rondanini, Francesca Golia, Silvia Munguia, Massimo De Francovich, Isabella Ferrari, Roberto Herlitzka, Fanny Ardant (não creditada), etc. Duração: 142 minutos; Distribuição em Portugal: Zon-Lusomundo; Classificação etária: M/ 16 anos; Data de estreia em Portugal: 20 de Fevereiro de 2014.

sábado, Fevereiro 22, 2014

CINEMA: FILOMENA


FILOMENA

O jornalista inglês Martin Sixsmith (Steve Coogan) foi, durante anos, correspondente da BBC em Moscovo e Washington e, mais tarde, colaborador do primeiro-ministro Tony Blair. Demitido das suas funções, segundo ele de forma injustificada, resolveu dedicar-se ao ensaísmo histórico, escrevendo sobre a História Russa. Mas, entretanto, surge-lhe “um caso humano” que mereceu a sua atenção e o interesse da sua editora, ambos obviamente seduzidos pelo drama e também pelos proveitos que o seu aproveitamento literário poderia justificar. É assim que a filha de Philomena Lee conduz o escritor até junto de sua mãe, que procura há cinquenta anos localizar um filho ilegítimo que tivera e de que não sabe o paradeiro desde que ele fora doado (vendido?) a um casal de americanos que o viera resgatar à Irlanda, de um mosteiro de freiras católicas.
Claro que o caso necessita de investigação jornalística: Philomena Lee (Judi Dench), quando contava apenas quinze anos, fora seduzida por um jovem de passagem, que a engravidou. Nos anos 50, numa Irlanda profundamente católica e fanaticamente puritana, esse percalço era visto como pecado sem remissão. Teve a criança, encerrada no austero convento de Roscrea, onde trabalhava de sol a sol, vendo crescer o filho entre as grades monacais, até que, quando este tinha três ou quatro anos, um casal vindo de carro o levou juntamente com outra miúda de igual idade. Para um destino que desconhecia. Philomena ficou para sempre traumatizada e a angústia desta separação não a abandonou mais. Cinquenta anos depois, resolve aceitar a ajuda de Martin Sixsmith e partir à descoberta do filho perdido.

De inquérito em inquérito, e perante o silêncio das religiosas, acaba por descobrir que a criança havia sido levada (há quem lhe afiance que vendida pelas freiras, que assim conseguiam aumentar o pecúlio da ordem) para os EUA. A pista parece para sempre perdida, mas Martin Sixsmithe tem bons contactos em Washington e consegue localizar uma ponta por onde voltar a pegar no assunto e que o levará a descobrir a verdade.
Steve Coogan e Jeff Pope escreveram o argumento partindo da obra de Martin Sixsmith, "The Lost Child of Philomena Lee", entretanto editada com o consentimento desta última, que se mostrara indecisa quanto a este procedimento, mas que acabou por aceder como reposição da verdade, como acto de justiça para com o filho e igualmente como revolta contra a conduta indecorosa das freiras irlandesas.
O inglês Stephen Frears, que iniciou a sua carreira na televisão, onde assinou um elevado número de trabalhos, antes de se estrear na longa-metragem em meados da década de 80, chamando desde logo a atenção com obras como “A Minha Bela Lavandaria” (85) ou “Ligações Perigosas” (88), dirigiu posteriormente títulos importantes como “O Herói Acidental”, “Mary Reilly”, “A Carrinha”, “Alta Fidelidade”, “Mrs. Henderson” ou “A Rainha”, entre outros. "The Lost Child of Philomena Lee" interessou-o evidentemente pelo lado humano, mas cremos que, sobretudo, pela necessidade de denunciar um comportamento aberrante por parte de uma comunidade católica irlandesa, nos não muito afastados anos 50 do século passado.

O projecto revela-se uma obra particularmente interessante, ainda que possa justificar um ou outro reparo, nomeadamente no tratamento dado à personagem do jornalista que vê, obviamente, neste “caso humano” uma forma de recuperar prestígio perdido e de arrecadar boas recompensas monetárias. Isso mesmo parece ser insinuado através da figura da sua editora, mas passa um pouco ao lado das intenções mais visíveis do projecto. Martin Sixsmith e Philomena Lee são sobretudo olhados como uma dupla que se completa, que parte para a viagem conjunta ignorando quase tudo um do outro, participam de mundos diferentes (as descrições dos romances que Philomena Lee lê são particularmente enternecedoras, mas deixam bem vincada essa diferença), mas vão lentamente aproximando-se, descobrindo-se, envolvendo-se emocionalmente. Nem a fé cega de Philomena, que a leva a desculpar tudo (ou quase tudo), nem o ateísmo militante de Martin Sixsmith são óbices que invalidem essa aproximação.
A partir de determinada altura do filme, Martin Sixsmith vai-se assumindo como o filho que Philomena Lee perdera. Este aspecto é bastante bem dado por Stephen Frears, que consegue manter num muito bom nível um argumento que facilmente poderia resvalar para um melodrama de lágrima fácil e de comprometedor apelo à pieguice barata. Doseando com dignidade o drama e o humor, e servindo-se de óptimos actores (Judi Dench é como sempre magnífica e Steve Coogan de uma convincente sobriedade), o realizador leva a bom porto este filme que a Academia de Hollywood nomeou para quatro categorias, Melhor Filme, Melhor Actriz, Melhor Argumento Adaptado, Melhor Música, depois de ter tido uma excelente passagem pelo último Festival de Veneza e pelos BAFTAS ingleses.  

FILOMENA
Título original: Philomena

Realização: Stephen Frears (Inglaterra, EUA, França, 2013); Argumento: Steve Coogan, Jeff Pope, segundo obra de Martin Sixsmith ("The Lost Child of Philomena Lee"); Produção: Carolyn Marks Blackwood, Steve Coogan, François Ivernel, Christine Langan, Cameron McCracken, Henry Normal, Tracey Seaward, Gabrielle Tana; Música: Alexandre Desplat; Fotografia (cor): Robbie Ryan; Montagem: Valerio Bonelli; Casting: Leo Davis, Lissy Holm; Design de produção: Alan MacDonald; Direcção artística: Leslie McDonald, Rod McLean, Sarah Stuart; Decoração:  Barbara Herman-Skelding; Guarda-roupa:  Consolata Boyle, Naomi Donne, Andrea Finch, Lucy Friend; Direcção de Produção: Phil Brown, Patricia Anne Doherty, Carol Flaisher, Samantha Knox-Johnston, Cathy Mooney; Assistentes de realização: Timothy Bird, Olivia Lloyd, Joseph Quinn, Alison C. Rosa, Deborah Saban, Richard Wilson; Departamento de arte: Laura Conway-Gordon, Dan Crandon, Heather Greenlees, Thomas Martin, Camise Oldfield;  Som:  Terry McDonald, Kate Morath, Jay Price, Len Schmitz, Oliver Tarney, Rachael Tate; Efeitos especiais: Manex Efrem; Efeitos visuais: Adam Gascoyne, Ines Li; Companhias de produção: BBC Films, Baby Cow Productions, British Film Institute (BFI), Magnolia Mae Films, Pathé; Intérpretes: Judi Dench (Philomena), Steve Coogan (Martin Sixsmith), Sophie Kennedy Clark (jovem Philomena), Mare Winningham (Mary), Barbara Jefford (Irmã Hildegarde), Ruth McCabe (Madre Barbara), Peter Hermann (Pete Olsson), Sean Mahon (Michael), Anna Maxwell Martin (Jane), Michelle Fairley (Sally Mitchell), Wunmi Mosaku, Amy McAllister, Charlie Murphy, Cathy Belton, Kate Fleetwood, Charissa Shearer, Nika McGuigan, Rachel Wilcock, Rita Hamill, Tadhg Bowen, Saoirse Bowen, Harrison D'Ampney, D.J. McGrath, Simone Lahbib. Sara Stewart, Gary Lilburn, Charles Edwards, Nicholas Jones, etc. Duração: 98 minutos; Distribuição em Portugal: Zon Lusomundo; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 6 de Fevereiro de 2014.