domingo, julho 02, 2017

TEATRO: ERÊNDIA! SIM, AVÓ




ERENDIA! SIM, AVÓ


Gabriel Garcia Marquez escreveu, em 1972, um conto a que deu o nome de “A Incrível e Triste História da Cândida Erêndia e da sua Avó Desalmada”. Com base nesse conto, Rita Lello e o colectivo de “A Barraca” criaram um espectáculo chamado “Erêndia! Sim, Avó”. Estreou agora e vai estar no Cinearte até 30 de Julho.
Quando se assiste a um espectáculo qualquer, à saída já sabemos se gostámos ou não. É a reação primeira. Gostei. Bastante. Depois, com maior atenção vamos procurar saber por que gostámos ou não.
A história é simples: Erêndia, uma menina adolescente, com cerca de 14 anos, vive com a sua avó, que trata de forma desvelada. A tudo diz “Sim, Avó”. Na primeira cena, vemo-la a dar banho à baleia da avó. Depois, trata de tudo na casa, vai-se deitar e, descuidada, deixa que uma vela pegue fogo à casa. Salvam-se ambas, mas a avó contabiliza os prejuízos. Um milhão de pesos, que a neta terá de pagar ao longo de oito anos, que lhe vão sair do corpo. A avó “desalmada” calcula tudo: cerca de 60 a 70 homens lhe terão de passar por cima do corpo, diariamente, a uma média de 50 pesos cada. Assim acontece. A avó estabelece-se à porta da tenda e vai cobrando. A miúda vai sofrendo e dizendo “Sim, Avó”. Uma história destas não pode acabar bem. É para ver o que acontece que se assiste à peça.
Mas não se iludam. Uma história destas não é também tão linear assim. Não se trata só da exploração de uma menor pela velha baleia desalmada da avó. Pode pensar-se em algum país, ou países que contraíram pesadas dívidas e que são obrigados a prostituírem-se para pagar o que devem aos seus credores. Não me parece uma leitura excessiva.
Falemos agora rapidamente do espectáculo. Uma excelente encenação de Rita Lello, inventiva, com magníficas soluções cénicas, servida por um elenco muito coeso, onde sobressaem duas mulheres: obviamente a extraordinária Maria do Céu Guerra, que compõe uma personagem de antologia, ao criar a figura descomunal da avó desalmada, entre o odioso e o divertido, e a jovem Sofia Rio Frio, uma quase estreante, que se mostra uma corajosa e talentosa revelação.

Uma das conclusões a tirar é que “A Barraca” consegue erguer um universo que tem muito de Garcia Marquez e do seu realismo mágico. A peça consegue grande densidade e coerência, a que assacamos apenas duas observações. Por vezes fica muito agarrada à escrita de Garcia Marquez, pecando por alguma literatura a mais; em certos momentos da primeira parte sente-se que o ritmo emperra nalgumas mudanças de cena, que são “tapadas” por canções latino-americanas, cantadas ao vivo. Um pouco mais de ritmo e “era brasa”.  

sexta-feira, março 03, 2017

I CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM DIREITO E CINEMA




CINEMA NA REITORIA nova temporada



"América, América, Para onde vais?" Ciclo de filmes comentados sobre a América. Todas as quartas-feiras, pelas 17, 30 horas. Reitoria da Universidade de Lisboa. Entrada Livre

O cinema volta à Reitoria da Universidade de Lisboa, numa altura em que tanto se fala dos EUA, de Donald Trump, da nova orientação política da Casa Branca, da América dividida a meio pelas votações entre Republicanos e Democratas, nas manifestações diárias de “Resistência”, de ameaças de racismo e xenofobia, de perseguição e de apelo ao ódio, de generosa receptividade e igualdade de tratamento, de cosmopolitismo e ruralidade, de intelectualidade e operariado, de Texas e Califórnia, de Michigan e Nova Iorque, de uma nação tão diversificada e multíplice no seu passado, presente e futuro.
Altura achada propicia para se olhar a América através de alguns retratos oferecidos pelo cinema nos últimos 100 anos, desde o ainda mudo “O Nascimento de uma Nação”, de David W. Griffith (1915), até “12 Anos de Escravo”, de Steve McQueen (2013). O grande cinema a discutir grandes temas e a proporcionar boas trocas de ideias e muitos momentos de prazer estético e intelectual.
Lauro António
AMÉRICA, AMÉRICA, PARA ONDE VAIS?

15 DE MARÇO DE 2017: O PADRINHO (The Godfather), de Francis Ford Coppola (EUA, 1972), com Marlon Brando, Al Pacino, James Caan; 175 min; Inglês, leg. Português; M/ 16 anos.
Mario Puzo escreveu este documento impressionante sobre uma família mafiosa que controla de forma criminosa o jogo, a bebida, a prostituição. Com a chegada da droga, a “família” renova-se. 

22 DE MARÇO DE 2017: O MUNDO A SEUS PÉS (Citizen Kane), de Orson Welles (EUA, 1941), com Orson Welles, Joseph Cotten, Dorothy Comingore; 119 mi; Inglês, leg. Português; M/ 12 anos.
Por muitos considerado o melhor filme de sempre, “Citizen Kane” foca-se sobre a personalidade e a vida de um magnate da comunicação social com ambições políticas.

29 DE MARÇO DE 2017: O GIGANTE (Giant), de George Stevens (EUA,1956), com Elizabeth Taylor, Rock Hudson, James Dean; 201 min; Inglês, leg. Português; M/ 12 anos.
Um épico sobre a vida de uma família no Texas do petróleo e das desigualdades sociais. Retirado de um best seller de Edna Ferber.

5 DE ABRIL DE 2017: O GRANDE GATSBY (The Great Gatsby), de Jack Clayton (EUA, 1974), com Robert Redford, Mia Farrow, Bruce Dern; 144 min; Inglês, leg. Português; M/ 12 anos.
Segundo romance de F. Scott Fitzgerald, os loucos anos 20 na América. Um retrato desapiedado do luxo e da boémia e uma certa classe social.

12 DE ABRIL DE 2017: FÚRIA DE VIVER (Rebel Without a Cause), de Nicholas Ray (EUA, 1955), com James Dean, Natalie Wood, Sal Mineo; 111 min; Inglês, leg. Português; M/ 12 anos.
A revolta da juventude americana durante a década de 50. Um jovem numa nova cidade, com amigos e inimigos, a demissão da família, a incompreensão da sociedade.

19 DE ABRIL DE 2017: NA SOMBRA E NO SILÊNCIO (To Kill a Mockingbird), de Robert Mulligan (EUA, 1962), com Gregory Peck, John Megna, Frank Overton; 129 min; Inglês, leg. Português; M/ 12 anos.
Atticus Finch, um advogado, durante o período da Grande Depressão, defende no tribunal um negro acusado injustamente de uma violação… Segundo romance de Harper Lee.

26 DE ABRIL DE 2017: OS HOMENS DO PRESIDENTE (All the President's Men), de Alan J. Pakula (EUA, 1976), com Dustin Hoffman, Robert Redford, Jack Warden; 148 min; Inglês, leg. Português; M/ 12 anos.
Bob Woodward e Carl Bernstein, jornalistas do "The Washington Post", investigam o chamado Caso Watergate. que implicou o Presidente Richard Nixon e o levou à demissão.

3 DE MAIO DE 2017: TEMPOS MODERNOS (Modern Times), de Charles Chaplin (EUA, 1936), com Charles Chaplin, Paulette Goddard, Henry Bergman; 87 min; Inglês, leg. Português; M/ 6 anos.
Chaplin é o operário que passa a vagabundo ao nao se adaptar aos tempos modernos e às novas tecnologias e vive com uma jovem sem abrigo.

10 DE MAIO DE 2017: REVOLUÇÃO (Revolution), de Hugh Hudson (EUA, 1985), com Al Pacino, Donald Sutherland, Nastassja Kinski; 126 min; Inglês, leg. Português; M/ 12 anos.
A Revolução norte-americana vista pelos olhos de Tom Dobb, um nova-iorquino que nela participa involuntariamente, depois do seu filho ser recrutado de forma ardilosa. 

17 DE MAIO DE 2017: 12 ANOS ESCRAVO (12 Years a Slave), de Steve McQueen (EUA, 2013); com Chiwetel Ejiofor, Michael Kenneth Williams, Michael Fassbender; 134 min; Inglês, leg. Português; M/ 16 anos.
Nos EUA colonial e anterior à guerra, Solomon Northup, um negro livre de Nova Iorque é sequestrado e reduzido à condição de escravo, passando doze anos de privações.

24 DE MAIO DE 2017: A FÚRIA DA RAZÃO (Dirty Harry), de Don Siegel (EUA, 1971), com Clint Eastwood, Andrew Robinson, Harry Guardino; 102 min; Inglês, leg. Português; M/ 18 anos.
O serial killer chama-se a si próprio “the Scorpio Killer” e ameaça a cidade de São Francisco. O Inspector Harry Callahan irá tomar em mãos esse assunto e resolvê-lo à sua maneira.

31 DE MAIO DE 2017: AMÉRICA, AMÉRICA (America America), de Elia Kazan (EUA, 1963), com Stathis Giallelis, Frank Wolff, Elena Karam; 174 min; Inglês, leg.Espanhol; M/ 12 anos.
Escrito e realizado por Elia Kazan em jeito de autobiografia e homenagem, a história de um grego da Anatólia que sonha com a América.

7 DE JUNHO DE 2017: AS PORTAS DO CÉU (Heaven's Gate), de Michael Cimino (EUA, 1980), com Kris Kristofferson, Christopher Walken, John Hurt; 325 min (versão integral); M/ 12 anos.
A epopeia real da guerra conhecida por Johnson County War, em 1890, no Estado do Wyoming, que opõe fazendeiros emigrantes e os ricos latifundiários que exploram as terras comuns.

14 DE JUNHO DE 2017: TAXI DRIVER (Taxi Driver), de Martin Scorsese (EUA, 1976), com Robert De Niro, Jodie Foster, Cybill Shepherd; 143 min; Inglês, leg. Português; M/ 18 anos.
Um veterano da Guerra do Vietnam trabalha como taxista na cidade de Nova Iorque. Uma personalidade traumatizada e uma sociedade decadente são os elementos essenciais para a explosão da violência.

21 DE JUNHO DE 2017: SHORT CUTS - OS AMERICANOS (Short Cuts), de Robert Altman (EUA, 1993), com Andie MacDowell, Julianne Moore, Tim Robbins; 188 min; Inglês, leg. Espanhol; M/ 16 anos.
Segundo contos de Raymond Carver, este é o dia a dia de alguns dos habitantes dos subúrbios de Los Angeles, num dos admiráveis filmes puzzles de Altman.

28 DE JUNHO DE 2017: NASCIMENTO DE UMA NAÇÃO (The Birth of a Nation), de D.W. Griffith (EUA, 1915), com Lillian Gish, Mae Marsh, Henry B. Walthall; 165 min; Mudo, Inglês, leg. Português; M/ 12 anos.
Adaptado de "The Clansman: An Historical Romance of the Ku Klux Klan", de  Thomas Dixon Jr., esta é a obra-prima de Griffith que é simultaneamente um infamante filme racista, testemunhando um momento decisivo da história dos EUA: antes, durante e depois da guerra da Secessão. O elogio da Ku Klux Klan.

5 DE JULHO DE 2017: AMÉRICA, AMÉRICA PARA ONDE VAIS? (Medium Cool), de Haskell Wexler (EUA, 1969), com Robert Forster, Verna Bloom, Peter Bonerz; 141 min; Inglês, leg. Espanhol; M/ 12 anos.
Um repórter de televisão acompanha a convenção do Partido Democrata norte americano, no ano de 1968. Acaba envolvido em actos de violência. 

segunda-feira, fevereiro 27, 2017

OSCARS 2017: OS VENCEDORES

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OSCARS 2017: OS VENCEDORES
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Até à atribuição do último Oscar estava convencido que esta teria sido a melhor cerimónia de atribuição de Oscars de há muito a esta parte. Teria mesmo que se agradecer este facto a Donald Trump. Depois, com aquela trapalhada do “Melhor Filme do Ano” acredito que esta foi a cerimónia mais surpreendente de há muito. Mas acho que de um modo geral foi divertida, corajosa, e justa em quase tudo. Vamos á lista definitiva (até ver!):

Melhor Filme
La La Land, não desculpem, é engano, foi Moonlight
Melhor Realizador
Damien Chazelle, por La La Land
Melhor Ator
Casey Affleck, em Manchester by the Sea
Melhor Atriz
Emma Stone, em La La Land
Melhor Ator Secundário
Mahershala Ali, em Moonlight
Melhor Atriz Secundária
Viola Davis, em Fences
Melhor Argumento Original
Manchester By the Sea
Melhor Argumento Adaptado
Moonlight
Melhor Filme de Animação
Zootopia
Melhor Filme em lingua nâo inglesa
“The Salesman” (Irão: Asghar Farhadi)
Melhor Documentário
OJ: Made in America
Melhor Design de Produção
La La Land
Melhor Fotografia
La La Land
Melhor Guarda-Roupa
Fantastic Beasts and Where to Find Them
Melhor Montagem
Hacksaw Ridge
Melhor Maquilhagem e Cabelo
Suicide Squad
Melhor Banda Sonora Original
La La Land
Melhor Canção Original
 “City of Stars,” La La Land
Melhor Edição de Som
Arrival
Melhor Mistura de Som
Hacksaw Ridge
Melhores Efeitos Visuais
The Jungle Book
Melhor Curta de Animação
Piper
Melhor Curta de ficção
Sing
Melhor Curta Documental
The White Helmets


domingo, fevereiro 26, 2017

OSCARS 2017 PREVISÕES



OSCARS 2017 - PREVISÕES
a verde os que penso irem ganhar
a azul os meus preferidos
(não vi ainda vários filmes nomeados, logo as previsões são muito falíveis)

Melhor Filme
La La Land (vai ganhar, mas não merece)
Moonlight (o meu preferido)
Manchester by the Sea
Arrival
Lion
Hacksaw Ridge
Hidden Figures
Fences
Hell or High Water

Melhor Realizador
Dennis Villeneuve, por Arrival
Mel Gibson, por Hacksaw Ridge
Damien Chazelle, por La La Land (vai ganhar, mas não merece)
Kenneth Lonergan, por Manchester by the Sea
Barry Jenkins, por Moonlight

Melhor Ator
Casey Affleck, em Manchester by the Sea
Denzel Washington, em Fences
Ryan Gosling, em La La Land
Viggo Mortensen, em Captain Fantastic
Andrew Garfield, em Hacksaw Ridge

Melhor Atriz
Emma Stone, em La La Land
Natalie Portman, em Jackie
Ruth Negga, em Loving
Meryl Streep, em Florence Foster Jenkins
Isabelle Huppert, em Elle

Melhor Ator Secundário
Jeff Bridges, em Hell or High Water
Mahershala Ali, em Moonlight
Dev Patel, em Lion
Michael Shannon, em Nocturnal Animals
Lucas Hedges, em Manchester By Sea

Melhor Atriz Secundária
Viola Davis, em Fences
Naomie Harris, em Moonlight
Nicole Kidman, em Lion
Octavia Spencer, em Hidden Figures
Michelle Williams, em Manchester By The Sea

Melhor Argumento Original
Hell or High Water
La La Land
The Lobster
Manchester By the Sea
20th Century Women

Melhor Argumento Adaptado
Moonlight
Lion
Hacksaw Ridge
Arrival
Fences
Hidden Figures

Melhor Filme de Animação
Kubo and the Two Strings
Moana
My Life as a Zucchini
The Red Turtle
Zootopia

Melhor Filme em lingua nâo inglesa
“Toni Erdmann” (Alemanha: Maren Ade)
“The Salesman” (Irão: Asghar Farhadi)
“Land of Mine” (Dinamarca: Martin Zandvliet)
“Tanna” (Austrália: Martin Butler, Bentley Dean)
“A Man Called Ove” (Suécia: Hannes Holm)

Melhor Documentário
Fire At Sea
I am Not Your Negro
Life Animated
OJ: Made in America
13th

Melhor Design de Produção
Arrival
Fantastic Beasts and Where to Find Them
Hail, Caesar!
La La Land
Passengers

Melhor Fotografia
Arrival
La La Land
Lion
Moonlight

Melhor Guarda-Roupa
Allied
Fantastic Beasts and Where to Find Them
Florence Foster Jenkins
La La Land

Melhor Montagem
Arrival
Hacksaw Ridge
Hell or High Water
La La Land
Moonlight

Melhor Maquilhagem e Cabelo
A Man Called Ove
Star Trek Beyond
Suicide Squad

Melhor Banda Sonora Original
Jackie
La La Land
Lion
Moonlight
Passengers

Melhor Canção Original
“Audition (The Fools Who Dream),” La La Land
“Can’t Stop the Feeling,” Trolls
“City of Stars,” La La Land
“The Empty Chair,” Jim: The James Foley Story
“How Far I’ll Go,” Moana

Melhor Edição de Som
Arrival
Deepwater Horizon
Hacksaw Ridge
La La Land
Sully

Melhor Mistura de Som
Arrival
Hacksaw Ridge
LaLa Land
Rogue One
13  Hours

quarta-feira, fevereiro 22, 2017

"AVENIDA Q", O MUSICAL


AVENIDA Q

“Que merda que eles são”. Eles são os actores de “Avenida Q” e é assim que iniciam a representação de cada dia. Um a um aparecem em palco e vão cantando “Que merda que eu sou”. Referem-se às suas capacidades interpretativas? Não. Falam enquanto personagens do musical. Ou seja, cada um deles considera-se uma merda porque não consegue realizar os seus sonhos. Um tirou um curso, fez mestrado, etc, e não arranja emprego, outra sonha com uma escola para “monstrinhos”, outro não sai do armário apesar de ser gay, outros ainda não têm meios para casarem, e assim por diante. É conveniente não esquecer ainda a Paula Porca que faz as delicias de quem com ela se cruza.
Elas são as personagens que vivem nesta avenida Q que durante hora e meia vão representar, dançar e cantam as desditas, mas também a esperança de cumprirem os seus sonhos, e verdadeiramente encantar o público que esgota as sessões diariamente do Teatro Trindade.
Dizem os promotores do espectáculo que “Avenida Q” “é o musical mais estúpido e genial de todos os tempos - uma Rua Sésamo em esteróides, que junta à estética Muppets uma linguagem tão adulta, que só funciona mesmo porque a vida é uma longa marcha de tédio em direção à campa. Ah, e porque as músicas são bestiais”.
Na verdade, os actores surgem em palco acompanhados cada um por uma marioneta que recorda obviamente os Marretas ou a Rua Sésamo, mas a linguagem é manifestamente outra. Muito mais abrasiva, mas tão bem-disposta e tão natural que não choca (ou choca na medida certa) o público que a ouve. Soa a crítica certeira e actual a muitos dos problemas que a sociedade em que vivemos enfrenta, do racismo ao preconceito, da dependência da internet à do sexo, da falta de emprego a etc. e tal. É um bom retrato de um mundo um pouco à deriva.
“Avenida Q” estreou na Broadway e tem sido um sucesso ali e por todos os países por onde tem passado. O texto é de Robert Lopez, Jeff Marx e Jeff Whitty, foi traduzido por Henrique Dias com graça e uma ou outra adaptação ao caso português muito a propósito, tem uma cuidada encenação de Rui Melo, que aproveita a encenação americana, mas o faz com eficácia e alguma originalidade, tem tradução e adaptação de canções dos mesmos Henrique Dias e Rui Melo, direção musical de Artur Guimarães e desenho de luz de Paulo Sabino. Do elenco, muito jovem, muito homogéneo, muito inspirado, fazem parte Ana Cloe, Diogo Valsassina, Gabriela Barros, Inês Aires Pereira, Manuel Moreira, Rodrigo Saraiva, Rui Maria Pêgo, Samuel Alves, Artur Guimarães, Luís Neiva e André Galvão. Uma produção “Força de Produção” que aconselho vivamente.

Dizem que a juventude não gosta de musicais. Pois desloquem-se ao Trindade e assistam in loco ao desmentir dessa (falsa) conclusão. De resto, algo se passa no teatro em Portugal. Nos últimos tempos fui quatro vezes ao teatro, ver “As Árvores Morrem de Pé”, “A Noite de Iguana”, “Amália” e “Avenida Q” em salas que não se pode dizer que tenham poucos lugares, Politeama, São Luiz e Trindade. Todas as sessões completamente esgotadas. Público que se pode muito bem afirmar em histeria no final, aplaudindo de pé. O teatro está vivo. 

sábado, fevereiro 18, 2017

“AMÁLIA”, LA FÉRIA, (OPUS 2)



“AMÁLIA”, LA FÉRIA, (OPUS 2)



“Amália” regressou e voltei a emocionar-me muito com este espectáculo de Felipe La Fèria. Deve haver algo errado em mim (ou se calhar não), mas confesso que me emociono com a sobriedade e o rigor constantes no antigo Teatro da Cornucópia, com tantas das criações dos “Artistas Unidos”, com fabulosas encenações dos maiores criadores do mundo, como com alguns dos grandes espectáculos do La Féria. São concepções completamente diferentes, eu sei, apelam por vezes a públicos diversos (quando não antagónicos), mas, que querem?, sou assim e, o que é mais grave, é que gosto de ser assim.
Posto isto, falemos um pouco deste “Amália” que sendo muito semelhante à versão de 1999, traz muitas novidades e algumas diferenças.  O elenco é muito semelhante, Alexandra e Anabela (que eu vi, mas que divide o papel de Amália jovem com Liana e Carolina) à cabeça de um grupo muito homogéneo e de boa qualidade. Dotes vocais a pedir meças, um verdadeiro desafio de pulmão, com garra e sentimento. Filipa Ferreira e Madalena Gil (que alternam, eu vi a última), são Amália em criança a cantar pelas ruas e a ganhar rebuçados e os aplausos do público, o de então, nas ruas, o de agora, na sala do Politeama.
Carlos Quintas (Frederico Valério), Alberto Villar (vários pequenos papeis), Francisco Sobral (Alfredo Marceneiro), Carlos Veríssimo (Ricardo Espírito Santo), Filipe de Moura (Alberto Ribeiro), Cristina Oliveira (Berta Cardoso), Patrícia Resende (Celeste Rodrigues), Eduardo Ricciardi (Hugo Rendas), Tiago Diogo (Alain Oulman), Mafalda Drummond (a secretária de Amália), e  Paula Marcelo (a costureira Lili) são alguns dos cerca de 50 fadistas, atores, bailarinos e músicos que vão surgindo neste compacto de vida e obra de Amália. É difícil destacar nomes, mas não quero deixar de sublinhar Francisco Sobral Filipe de Moura, Cristina Oliveira, Hugo Rendas e Tiago Diogo, muito pela importância das suas personagens particularmente marcantes e pela forma como as defendem.  
Quanto à encenação há que dizer que ganhou ritmo, foi encurtada (desapareceram algumas cenas da infância de Amália, e, que me recorde, uma cena no Café Luso, onde surgia António Ferro e algumas personalidades do Estado Novo, que me parece fazer falta para se perceber por que razão era Amália acusada de ser “fascista” depois de 74). Não foi só quanto aos cortes, porém, que “Amália” encurtou.  Isso também de fica a dever ao ritmo imposto por La Féria, galopante. O espectador não ganha fôlego neste desdobrar de cenas, nesta verdadeira cavalgada em tom de epopeia de uma vida. Será por vezes um pouco excessivo? Talvez, mas a verdade é que a emoção brota, o público comove-se, a lágrima que Amália pedia aí está. Logo que o pano de boca sobe e surge Amália escoltada por todo o elenco, o fado parte à desfilada levando consigo a emoção mais pura. Eu pecador me confesso: gosto muito de fado. E de Amália Rodrigues, uma voz única.  
Quantos aos vídeos que acompanham e definem as situações, o tempo histórico, mesmo as emoções, seguem o figurino da versão de 1999, mas vivem agora das possibilidades técnicas que, de então para cá, foram surgindo. Quase sempre certos e imaginativos, aqui e ali talvez excessivos. As janelas da Maluda que se abrem umas sobre as outras começam por ser bonitas e significativas, depois caem no exagero e perdem intenção; a animação do quadro de Malhoa é divertida, mas creio que abafa a canção e a acção; e podem citar-se um ou outro exemplo).
De resto, um belíssimo espectáculo, popular sem ser popularucho, que certamente vai permanecer em cartaz muitos meses (anos?) na Rua das Portas de Santo Antão. Longa vida à Rainha!


"AMÁLIA", O REGRESSO (1)



O REGRESSO DE “AMÁLIA” (1)
Foi em 2000 que escrevi este texto que agora aparece de novo no programa do Teatro Politeama, numa altura em que Filipe La Fèria repõe este enorme sucesso, com algumas novidades e um elenco ligeiramente retocado (17 anos de diferença impõem algumas variantes. Há actrizes que permanecem, mas em 1999 tinham 12 anos e eram Amália em miúda, agora são mulheres de 29, obviamente num outro papel.  Mas recordemos o que então escrevi, numa época que que o meu filho Frederico dava os primeiros passos no teatro, e assinado logo os vídeos desse belíssimo espectáculo que marcou o teatro musical em Portugal). 


“Eu sei, meu amor, que tu não chegaste a partir...”.

“Amália”, de Filipe La Féria, estreou na Madeira em finais de Novembro de 1999. Tive a sorte de lá estar, de acompanhar momentos de alguns dos derradeiros ensaios, e de assistir à estreia, gloriosa por aquelas bandas. Acompanhei depois, passo a passo, ainda que de longe, a estrondosa carreira deste musical que foi esgotando sucessivas lotações quase até à noite de Natal, altura em que o La Féria achou por bem devolver o Frederico à procedência, cansado mas feliz pela experiência que vivera.
Fala-se em boca de cena nos teatros. Amália Rodrigues era a boca do Fado e foi durante anos a boca por onde Portugal cantou. No Funchal, na sala do Casino Park, “Amália” começou por rasgar uma boca na boca de cena do teatro, estendendo por três mega écrans o grito nostálgico da Diva. Três écrans por onde foram passando a imagem única e as imagens múltiplas de Amália e do Fado Português do último século. Para o bem e para o Mal, para a consagração e para a polémica, Amália esteve ligada à História de Portugal deste final de milénio. Ela foi a Voz, ela deu consistência à música, ela conviveu com poetas, escritores, artistas, ela atravessou os salões do poder, ela foi política, negando que o fosse, foi a imagem de Portugal passeando pelos palcos mundiais, ela foi a nossa Glória e a nossa Tristeza, o nosso Portugal dos Pequeninos e o nosso verdadeiro Quinto Império
Enquanto no palco, um elenco de muito bom nível, ritmado pela cadência galopante de La Féria, escrevia a história de Amália Rodrigues, desde a sua humilde infância até à consagração nacional, percorrendo um itinerário de sucesso que se foi cruzando com a dor, como é destino dos imortais, nos três écrans vão surgindo frases, fotos, desenhos, pinturas, excertos de filmes ou vídeos que colocam Amália no seu tempo e o tempo de Amália nos nossos olhos. Nascida com a 1ª República, cresceu com (e para) o Estado Novo, foi condecorada por Marcelo Caetano, acusada de “colaboracionista” e perseguida em 74, condecorada por Mário Soares, levada em triunfo pelos seus 50 anos de carreira, e desceu à terra acompanhada por milhões de portugueses que a choram em Cerimónia Nacional. O filme dessa história pessoal é o filme da nossa história colectiva e passa por detrás dos actores que cantam o melhor de Amália, nas inspiradas melodias de Frederico Valério, Carlos Santos Gonçalves, José Fontes Rocha, Alain Oulman e tantos outros.
E falando de filmes, deve dizer-se que Amália no cinema também está documentada através de dois momentos importantes, “Capas Negras”, de Armando Miranda, onde aparece ao lado de Alberto Ribeiro, e “Fado, História de uma Cantadeira”, de Perdigão Queiroga, contracenando com Virgílio Teixeira. Mas a contribuição da fadista no cinema nacional ficou ainda marcada por “Fado Corrido”, de Jorge Brum do Canto, e “Ilhas Encantadas”, de Carlos Villardebó. Em todos se confirma um pressentimento: Amália poderia ter sido uma grande actriz, se bem dirigida, e esta certeza leva-nos a lamentar o diminuto número de obras onde ela aparece. Mas também no cinema, Amália deixa uma presença forte.
Os murais de Almada, o casario de Botelho, o pitoresco boémio de Stuart, as cores puras de Mário Eloy, a filigrana policroma de Vieira da Silva, a intimidade fechada de Maluda, o fado de Malhoa, a solitária emoção de Lauro Corado cruzam-se com o preto e branco das fotos, com o grafismo dos cartazes e anúncios marcando a passagem da cantora pelo Retiro da Severa, pelo Parque Mayer, pelo Olympia de Paris, por Nova Iorque, Tóquio ou Rio de Janeiro, pelo mundo. Por momentos, a imagem são os olhos de Amália, onde nos revemos. Olhos nos olhos, quem foste tu, Amália, quem somos nós, portugueses? Fado do mesmo fado, angústia da mesma angústia, pecado do mesmo pecado, paixão que nos consome, com a grandeza das coisas pequenas e íntimas.
O segredo deste musical que Filipe La Féria concebeu e encenou com brilhantismo, e que marca talvez um dos pontos mais altos da sua carreira, está na unidade conseguida, na coerência da proposta, na conjugação de todos os elementos em redor de uma figura, e na força poderosa e avassaladora desta evocação. Uma personagem que são vários rostos: agora, Alexandra, Liana, Patrícia Resende ou Marline Costa, em Lisboa. O mesmo princípio do caleidoscópio que, através da diversidade, restitui a unidade. Um puzzle que se organiza à nossa frente, convidando à intervenção do espectador. Um mosaico no empedrado das ruas de Lisboa que nos traz ecos de uma mulher singular. Afinal, o Fado cumpre-se. “Eu sei, Meu Amor, que tu não chegaste a partir...” Os imortais, não partem. Viajam e regressam continuamente. Como Amália Rodrigues, que agora vemos comovidamente em “Amália”. (Lauro António, 2000). 

                                                                                                              

terça-feira, fevereiro 14, 2017

BFTA 2017



BFTA 2017: “LA LA LAND” À FRENTE

A Academia Britânica de Artes da Televisão e Cinema entregou os BAFTA 2017, prémios maiores do cinema britânico, tendo em linha de conta também a produção hollywoodesca. “La La Land” arrecadou estatuetas em cinco categorias, entre elas melhor filme, melhor realizador (Damien Chazelle) e melhor atriz (Emma Stone). O filme, indicado em dez categorias da premiação da Academia Britânica de Artes do Cinema e da Televisão, ainda foi o escolhido como melhor fotografia e melhor canção original.

Aqui fica a lista completa:
Melhor Filme
La La Land
Melhor Filme Britânico
Eu, Daniel Blake
Melhor Realizador
Damien Chazelle – La La Land
Melhor Actor
Casey Affleck – Manchester by the Sea
Melhor Actriz
Emma Stone – La La Land
Melhor Actor Secundário
Dev Patel – Lion
Melhor Actriz Secundária
Viola Davis – Fences
Melhor Argumento Adaptado
Lion
Melhor Argumento Original
Manchester by the Sea
Estreia Notável de Um Cineasta Britânico
Babak Anvari, Emily Leo, Oliver Roskill, Lucan Toh – Sob as Sombras
Melhor Filme em Língua Não-Inglesa
Filho de Saul
Melhor Documentário
13th
Melhor Filme de Animação
Kubo e a Espada Mágica
Melhor Fotografia
La La Land
Melhor Montagem
La La Land
Melhor Penteado e Maquiagem
Florence
Melhor Guarda-Roupa
Jackie
Melhor Design de Produção
Animais Fantásticos
Melhores Efeitos Visuais
Mogli: O Menino Lobo
Melhor Banda Sonora Original
La La Land
Melhor Som
A Chegada
Melhor Curta Britânica
Home
Melhor Curta de Animação Britânica
A Love Story
EE Rising Star Award
Tom Hollan