domingo, março 17, 2019

"SEVERA", O MUSICAL




“SEVERA”, VERSÃO LA FÉRIA

A Severa é uma personagem particularmente fascinante. Desde logo por ser, ao que consta, a mãe do Fado. Depois por toda a mitologia que a rodeia, os bairros populares que frequentou, as tabernas onde cantou, o seu tipo de personalidade, arrebatada, temperamental, mulher da má vida que defendia os pobres e os humildes e enfrentava os nobres e os poderosos… Difícil de perceber onde termina a realidade e onde começa o mito, mas este aspecto torna mais cativante a figura e todos vivemos um pouco de mitos.
Talvez por isso a Severa foi uma personagem que sempre me fascinou. Mesmo o filme de Leitão de Barros, o primeiro da era sonora em Portugal, com o seu tom machista, marialva, touradas e largadas de touros, fado fora de portas e amores intensos para escândalo da aristocracia desse período, me parece bem interessante como produto de uma época. Tanto assim que, há uns anos atrás, persegui o sonho de realizar uma nova versão em cinema de “A Severa”, desta feita procurando manter o mito, mas olhando-o com novos olhos, com algum distanciamento e, se possível, um certo humor (para lá de muito amor, obviamente).
Li tudo quanto apanhei sobre a Severa (e também sobre o fado, de que sou fã incondicional, há muito), inclusive o muito interessante, e recente, “O Fado da Severa”, de Maria João Lopo de Carvalho, uma boa evocação histórica da figura, com um clima erótico por vezes de cortar à faca (ou à navalha, mais de acordo com os costumes relatados).
Vi agora, na estreia, o espectáculo que o Filipe La Féria lhe dedicou e digo-vos desde já que se trata de um excelente trabalho (dos melhores que o encenador até hoje assinou). Não se trata somente de traçar uma rápida biografia da nossa primeira cantadeira de fados, mas igualmente de erguer um fresco político e social de um período da história de Portugal. Contam as biografias que Maria Severa Onofriana  nasceu nos Anjos, em Lisboa, a 26 de Julho de 1820, e viria a falecer no Socorro, sempre em Lisboa, a 30 de Novembro de 1846. Nesse lapso de tempo, Portugal viveu um período conturbado, com a corte no Brasil, depois com as lutas entre liberais e absolutistas, uma forte contestação social, com um fosso gritante entre burgueses e aristocratas e o povo, e tudo isso Filipe La Féria aborda, obviamente de forma sucinta, procurando sinalizar os acontecimentos, mas com evidente acutilância crítica.
Nesse aspecto esta “Severa” relembra alguns outros musicais, como “Os Miseráveis”, “Martin Guerre” ou “Hamilton”, mas a verdade que influências todos temos, e o espectáculo de La Féria consegue tornar nacional, português, esse tom épico que se vive nesses outros musicais. O musical que se pode agora admirar no belo Teatro Politeama é um trabalho de uma intensidade e de um nervo esgotantes para o espectador (o que não será para os intervenientes, actores, figurantes, cantores e bailarinos!). Tudo se passa a um ritmo estonteante, uma cavalgada inebriante num palco que nos surge mágico, com um excelente elenco, muito disciplinado e vigoroso. Os cenários são sóbrios, mas de uma tremenda eficácia, o guarda roupa é magnífico, a luz é sumptuosa, a sublinhar o colorido, mas a oscilar habilmente entre o interior quente das tabernas, o luxo dos salões da aristocracia, o negrume da noite, ou as sangrentas cenas de batalha.
Um belo trabalho, que chega a ser emocionante, e a que o público português (e os turistas de passagem) pode a partir de agora assistir na rua das Portas de Santo Antão. Não percam.

quarta-feira, fevereiro 27, 2019

OSCARS 2019





OSCARS 2019
Nomeados e vencedores

Melhor Filme
Pantera Negra
BlacKkKlansman - O infiltrado
Green Book - Um guia para a vida
Roma
Bohemian Rhapsody
Assim Nasce uma Estrela
Vice
A Favorita

Melhor Realizador
Spike Lee - BlacKkKlansman (O infiltrado)
Alfonso Cuarón - Roma
Pawel Pawlikowski - Guerra Fria
Yorgos Lanthimos - A favorita
Adam McKay - Vice

Melhor Ator Principal
Christian Bale - Vice
Bradley Cooper - Assim Nasce uma Estrela
Rami Malek - Bohemian Rhapsody
Viggo Mortensen - Green Book (Um guia para a vida)

Melhor Atriz Principal
Yalitza Aparicio - Roma
Glenn Close - A Mulher
Olivia Colman - A Favorita
Lady Gaga - Assim nasce uma estrela
Melissa McCarthy - Can you ever forgive me?

Melhor Ator Secundário
Mahershala Ali - Green Book (Um guia para a vida)
Richard E. Grant - Can you ever forgive me?
Adam Driver - BlacKkKlansman (O infiltrado)
Sam Rockwell - Vice

Melhor atriz Secundária
Amy Adams - Vice
Emma Stone - A Favorita
Marina de Tavira - Roma
Regina King - Se a Rua Beale Falasse
Rachel Weisz - A Favorita

Melhor Argumento Original
A Favorita
Roma
First Reformed
Vice
Green Book (Um guia para a vida)

Melhor Argumento Adaptado
A Balada de Buster Scruggs
Can You Ever Forgive Me?
Se a Rua Beale Falasse
BlacKkKlansman (O infiltrado)
Assim Nasce uma Estrela

Melhor Fotografia
Guerra Fria
Roma
A Favorita
Nunca Deixes de Olhar
Assim Nasce uma Estrela

Melhor Montagem
BlacKkKlansman (O infiltrado)
Green Book (Um guia para a Vida)
Bohemian Rhapsody
Vice
A Favorita

Melhor Design de Produção
Pantera Negra
O Regresso de Mary Poppins
A Favorita
First Man
Roma

Melhor Guarda Roupa
A Balada de Buster Scruggs
O Regresso de Mary Poppins
Pantera Negra
A Favorita
Maria, Rainha dos Escoceses

Melhor Caracterização
Border
Maria, Rainha dos Escoceses
Vice




Melhor Banda Sonora
Pantera Negra
BlacKkKlansman (O infiltrado)
Se a Rua Beale Falasse
O Regresso Mary Poppins

Melhor Canção Original
"All the Stars" - Pantera Negra
"Shallow" - Assim Nasce uma Estrela
"I'll Fight" - RBG
"The Place Where Lost Things Go" - O Regresso Mary Poppins
"When a Cowboy Trades his Spurs for Wings" - A Balada de Buster Scruggs

Melhores Efeitos Visuais
Avengers: Infinity War
Christopher Roben
O Primeiro Homem na Lua
Ready Player One
Han Solo: Uma História de Star Wars

Melhor Mistura Sonora
Pantera Negra
Roma
Bohemian Rhapsody
First Man
Assim Nasce uma Estrela

Melhor Edição Sonora
Pantera Negra
Um lugar silencioso
Bohemian Rhapsody
Roma
O Primeiro Homem na Lua





Melhor Documentário
Free Solo
Minding the Gap
Hale County this Morning, this Evening
Of Fathers and Sons
RBG

Melhor Filme de Animação
The Incredibles 2: Os Super-Heróis
Ilha dos Cães
Ralph na Internet
Homem-aranha: No Universo Aranha

Melhor Curta de Animação
Animal Behaviour
BAO
One Small Step
Late Afternoon
Weekends

Melhor Filme em Língua Estrangeira
Capernaum
Roma
Cold War
Never Look Away
Sholifters

Melhor curta documental
Black Sheep
A Night at the Garden
End Game
Life Boat
Period. End of Sentence

Melhor curta-metragem
Detainment
Fauve
Mother
Marguerite
Skin

domingo, fevereiro 24, 2019

VIOLÊNCIA DOMÉSTICA




VIOLÊNCIA DOMÉSTICA

Muito se tem falado em violência doméstica nos últimos tempos, infelizmente com inteira razão, pois os casos de violência deste tipo são abundantes e cada vez mais trágicos. Um caso já seria trágico, mas dezenas deles tornam o fenómeno angustiante.  
Referem-se mais de uma dezena de mortes de mulheres às mãos de maridos, namorados ou companheiros, só nos dois primeiros meses de 2019. Muito inquietante, será o mínimo que se poderá dizer.
Mas falar de violência doméstica só em relação a crimes praticados por homens contra mulheres não será um pouco redutor? Violência doméstica não será a mulher que mata o marido com a colaboração do amante? Violência doméstica não será a mulher que mata a mãe, não será a mulher que mata os filhos, não será a mulher que mata a sogra?
Violência doméstica não será uma consequência da própria condição humana e não apenas um ajuste de contas entre géneros sexuais, em que só o homem parece ter atitudes agressivas e armas a condizer?
Julgo que reduzir a violência doméstica a um caso de violência masculina sobre a mulher não ajuda em nada a combater os crimes nem as suas causas, que são muito mais profundas e vastas do que nos querem fazer crer.  

OSCARS 2019




Pronto. Aí temos mais uma cerimónia de atribuição de Oscars. Com os nomeados e a vermelha a minha sugestão de vencedor. Mas devo avisar que não vi todos os filmes nomeados, por isso...  (nas categorias que não vi os filmes em causa, não adivinho). 

Nomeados OSCARS 2019

Melhor Filme
Pantera Negra
BlacKkKlansman - O infiltrado
Green Book - Um guia para a vida
Roma
Bohemian Rhapsody
Assim Nasce uma Estrela
Vice
A Favorita

Melhor Realizador
Spike Lee - BlacKkKlansman (O infiltrado)
Alfonso Cuarón - Roma
Pawel Pawlikowski - Guerra Fria
Yorgos Lanthimos - A favorita
Adam McKay - Vice

Melhor Ator Principal
Christian Bale - Vice
Bradley Cooper - Assim Nasce uma Estrela
Rami Malek - Bohemian Rhapsody
Viggo Mortensen - Green Book (Um guia para a vida)

Melhor Atriz Principal
Yalitza Aparicio - Roma
Glenn Close - A Mulher
Olivia Colman - A Favorita
Lady Gaga - Assim nasce uma estrela
Melissa McCarthy - Can you ever forgive me?

Melhor Ator Secundário
Mahershala Ali - Green Book (Um guia para a vida)
Richard E. Grant - Can you ever forgive me?
Adam Driver - BlacKkKlansman (O infiltrado)
Sam Rockwell - Vice

Melhor atriz Secundária
Amy Adams - Vice
Emma Stone - A Favorita
Marina de Tavira - Roma
Regina King - Se a Rua Beale Falasse
Rachel Weisz - A Favorita

Melhor Argumento Original
A Favorita
Roma
First Reformed
Vice
Green Book (Um guia para a vida)

Melhor Argumento Adaptado
A Balada de Buster Scruggs
Can You Ever Forgive Me?
Se a Rua Beale Falasse
BlacKkKlansman (O infiltrado)
Assim Nasce uma Estrela

Melhor Fotografia
Guerra Fria
Roma
A Favorita
Nunca Deixes de Olhar
Assim Nasce uma Estrela

Melhor Montagem
BlacKkKlansman (O infiltrado)
Green Book (Um guia para a Vida)
Bohemian Rhapsody
Vice
A Favorita

Melhor Design de Produção
Pantera Negra
O Regresso de Mary Poppins
A Favorita
First Man
Roma

Melhor Guarda Roupa
A Balada de Buster Scruggs
O Regresso de Mary Poppins
Pantera Negra
A Favorita
Maria, Rainha dos Escoceses

Melhor Caracterização
Border
Maria, Rainha dos Escoceses
Vice

Melhor Banda Sonora
Pantera Negra
BlacKkKlansman (O infiltrado)
Se a Rua Beale Falasse
O Regresso Mary Poppins

Melhor Canção Original
"All the Stars" - Pantera Negra
"Shallow" - Assim Nasce uma Estrela
"I'll Fight" - RBG
"The Place Where Lost Things Go" - O Regresso Mary Poppins
"When a Cowboy Trades his Spurs for Wings" - A Balada de Buster Scruggs

Melhores Efeitos Visuais
Avengers: Infinity War
Christopher Roben
O Primeiro Homem na Lua
Ready Player One
Han Solo: Uma História de Star Wars

Melhor Mistura Sonora
Pantera Negra
Roma
Bohemian Rhapsody
First Man
Assim Nasce uma Estrela

Melhor Edição Sonora
Pantera Negra
Um lugar silencioso
Bohemian Rhapsody
Roma
O Primeiro Homem na Lua

Melhor Documentário
Free Solo
Minding the Gap
Hale County this Morning, this Evening
Of Fathers and Sons
RBG

Melhor Filme de Animação
The Incredibles 2: Os Super-Heróis
Ilha dos Cães
Ralph na Internet
Homem-aranha: No Universo Aranha

Melhor Curta de Animação
Animal Behaviour
BAO
One Small Step
Late Afternoon
Weekends

Melhor Filme em Língua Estrangeira
Capernaum
Roma
Cold War
Never Look Away
Sholifters

Melhor curta documental
Black Sheep
A Night at the Garden
End Game
Life Boat
Period. End of Sentence

Melhor curta-metragem
Detainment
Fauve
Mother
Marguerite
Skin



sábado, fevereiro 16, 2019

Um adeus a dois grandes actores:


Um adeus a dois grandes actores:


ALBERT FINNEY
(1936 – 2019)
Inglês. Intérprete de filmes inesquecíveis: “Sábado á Noite, Domingo de Manhã”, “Tom Jones, Romântico e Aventureiro”, “O Comediante”, “Ao Cair da Noite”, “Um Homem e a Sua História” (que também realizou), “Um Crime no Expresso do Oriente”, “Annie”, “O Companheiro”, “Debaixo do Vulcão”, “O Grande Peixe”, “Erin Brockovich”, e tantos outros.


BRUNO GANZ
(1941 – 2019)
Suíço. Brilhante actor de obras memoráveis: “A Marquesa d'O”, “O Amigo Americano”, “Nosferatu, o Fantasma da Noite”, “Polenta”, “A Cidade Branca”, “As Asas do Desejo”, “Tão Longe, Tão Perto”, “O Candidato da Verdade”, “A Queda: Hitler e o Fim do Terceiro Reich”, “O Leitor” ou essa outra incursão por Lisboa, “Comboio Noturno Para Lisboa”.

terça-feira, fevereiro 12, 2019

A TIA MIGÁ



Tios e primas

Quando eu tinha dois anos de idade tive de ser operado de urgência a uma apendicite, agravada com peritonite. Disse aos meus pais o médico que me socorreu na altura que se tivesse demorado mais meia hora eu não estaria hoje aqui a escrever estas linhas. Coisa estranha: eu não teria sabido nessa época que, se não tivesse sobrevivido, teria tido pena de não passar pelo que passei até hoje. Tudo é muito relativo na vida.
Quando estava no hospital, a recuperar da intervenção cirúrgica, fui apaparicado pelos familiares. Eu era o único bebé de uma numerosa família, sobretudo por parte da minha mãe. Ela era filha de um major farmacêutico, António da Costa Torres, casado com uma professora primária, Júlia da Costa Torres, casal que teve cinco filhos, quatro raparigas e um rapaz. As meninas chamavam-se Helena, a que viria a ser minha mãe, Hermengarda, a quem se chamava, graças a Deus, Migá, a Lurdes, conhecida por Lula, e Isabel, a Belinha. O tio era Edgar e nunca me lembro de qualquer diminutivo. Sobretudo as tias foram visitas regulares do sobrinho sobrevivente à operação miraculosa e não se furtavam a mimos de toda a ordem.
Aprendi a amar as minhas tias que eram uma ternura de pessoas e foram-no sempre ao longo da vida. A minha mãe casou com o Lauro Corado, pintor e professor, meu pai, a Migá casou com o Álvaro Ferreira de Lima, engenheiro, a Lula, com o Telmo Matos, veterinário, a Belinha, com o Armando Machado, comandante de navio. Depois havia ainda o Edgar, professor de desenho, casado com a Alsácia. Da parte materna era tudo, e durante alguns anos as férias grandes foram épocas ali para os lados da Praia das Maças, Banzão, Colares, Mucifal, quando a família alugava um casarão enorme para acolher o pessoal, já enriquecido com crias: eu e a minha irmã, Helena, a Paula, resultado do casamento do Edgar e da Alsácia, a Isabel, a Lena e a João, da parte da Migá e do Álvaro, a Conceição, proveniente da estadia do comante no porto de Lisboa. Apenas a Lula não teve descendência directa e seria mesmo a primeira a deixar o nosso convívio. Muito nova. A primeira tragédia a tocar a família. Depois o tempo foi-se encarregando de dizimar os restantes, à medida que ia passando por mim. Há dias, com 96 anos, foi embora a minha tia Migá, derradeira sobrevivente dos meus ascendentes. 96 anos é já uma idade bonita, sobretudo para quem, como ela, passou por muito dissabores, os maiores dos quais terão sido a morte de duas filhas. Adeus, minha querida tia Migá.
Agora olho para trás, e nada vejo. Sou o primeiro da fila familiar, sem guarda-costas. Eu sei que não há coerência nenhuma nestas coisas, mas se houvesse eu seria o próximo a tombar. Não me importo de obedecer à coerência, mas, já agora, que ela se manifeste o mais tarde possível.

segunda-feira, dezembro 31, 2018

ROMA, O MELHOR DE 2018?




ROMA


“Roma”, do mexicano Alfonso Cuarón, pode parecer um título inesperado na filmografia de um cineasta que antes nos oferecera “A Princesinha”, “Grandes Esperanças”, “E Tua Mãe também”, “Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban”, “Os Filhos do Homem” ou “Gravidade”, entre outros. De um modo geral, grandes projectos, montados através da máquina de produção de Hollywood, com direto a prémios internacionais, inclusive Oscars. Mas se se conhecer um pouco da infância do autor, então sim, “Roma” adquire uma coerência absoluta. Digamos que é o outro lado de “Gravidade”, a confissão de um sonho de astronauta que o miúdo Cuarón acalentou.
“Roma” é um bairro da média burguesia, na cidade do México. Um bairro onde se situava a casa onde viveu e cresceu Alfonso Cuarón, que aqui recorda esses tempos de meninice. Uma casa povoada por personagens que o cineasta não esquece, o pai que abandona a mãe, a mãe que se vê subitamente a chefe de família, onde ainda existem mais duas crianças, um rapaz e uma menina, e uma avó. Duas criadas, porque “criada” era o nome dado às empregadas, nessas décadas de 60 e 70. Cleo (Yalitza Aparicio), a adolescente que unifica toda a história do filme, e Adela (Nancy García García), a sua mais velha companhia na cozinha. E um cão.
Não há nada de muito espectacular em “Roma”, apenas o decorrer do dia a dia de uma família, com as suas alegrias e dramas mais ou menos habituais. O filme inicia-se mesmo por longas e belíssimas panorâmicas no interior da casa de dois andares, que acompanham o trabalho diário de uma criadita que percorre as divisões distribuindo atenção pelas mais diversas actividades. Cleo é a formiguinha atarefada que trata da roupa, que limpa os quartos, que   põe a mesa, que sobe e desce as escadas, que lava a roupa, que a estende… mas é sobretudo a amiga das crianças que acompanha com verdadeiro amor, que salva de morrerem afogadas (ela que não sabe nadar, mas nem assim deixou de se lançar ao mar) e  a quem aconchega na cama. Cleo e Adela são indígenas mexicanas, servindo uma família de brancos mexicanos. Com subtileza, Cuarón mostra a diferenciação social, o trabalho de um lado, o lazer do outro, mas não há demagogia no seu olhar. Os patrões são patrões, mas tratam as criadas com humanidade, interessando-se pelos seus problemas, procurando resolvê-los, tendo uma palavra amiga sempre que necessário. Mas tal não impede que a separação social seja uma realidade que o jovem Cuarón não esqueceu. Por isso dedica o filme a Cleo (a verdadeira ainda é viva e esteve presente na estreia do filme).


Ao mesmo tempo que vai penetrando nesse casulo de recordações de infância, com o epicentro na sua casa familiar, Cuarón esboça um retrato de uma época que surge como pano de fundo, vista através da porta da sua casa, através dos vidros de um hospital, num preto e branco de admirável dramaticidade e belíssimos efeitos plásticos. Poderia o filme descambar numa memória delicodoce, mas a arte do cineasta refreia os impulsos sentimentaloides e mantem a obra sempre no registo de um certo distanciamento que muito a beneficia. Depois, a câmara movimenta-se como que acariciando os cenários e as personagens. O lado contemplativo sobretudo da primeira parte do filme torna-o absolutamente fascinante e entramos nele como numa terna balada que nos envolve. Claro que há rupturas, como quando Cleo visita a sua miserável aldeia, o que permite deprimentes comparações sociais. Há a gravidez de Cleo e a abrupta aparição do hospital e do seu drama. Mas no seu todo, “Roma” inicia-se e acaba pelas rotinas da casa sem que aparentemente nada de muito notável tenha acontecido. A não ser a mudança de carro, com o primeiro que o pai laboriosamente introduz todos os dias na sua improvisada garagem, e com o qual a mãe vai destruindo paredes sempre que o tenta, depois do marido ter desertado. Criteriosamente acaba por ser substituído por um outro muito mais maneirinho para as mãos da mãe.
Interpretado (admiravelmente) quase na integralidade por actores não profissionais (parece que só a personagem da mãe foi entregue a uma actriz de profissão), “Roma”, uma produção Netflix que viria a ganhar o Festival de Veneza e se prepara para recolher muitas outras recompensas internacionais, faz lembrar alguns outros óptimos filmes anteriores. No que diz respeito aos minuciosos rituais do arranjo da casa, vem-nos à ideia “Jeanne Dielman, 23, quai du commerce, 1080 Bruxelles”, de Chantal Akerman. Quanto às recordações de infância, obviamente que relembra “Amarcord”, de Fellini. Mas o filme mais próximo será seguramente “Santiago”, um documentário do brasileiro João Moreira Salle que homenageia o mordomo que serviu a sua família durante 30 anos.
Um belíssimo filme, um os melhores de 2018, se não mesmo o melhor da colheita deste ano. Indispensável ver.   


ROMA
Título original: Roma
Realização: Alfonso Cuarón (2018); Argumento: Alfonso Cuarón; Produção: Nicolás Celis, Alfonso Cuarón, Jonathan King, David Linde, Carlos A. Morales, Gabriela Rodriguez, Sandino Saravia Vinay, Alice Scandellari Burr, Jeff Skoll; Música (supervisão): Lynn Fainchtein, Caleb Townsend; Fotografia (p/b): Alfonso Cuarón; Montagem: Alfonso Cuarón, Adam Gough; Casting: Luis Rosales; Design de produção: Eugenio Caballero; Direcção artística: Carlos Benassini, Oscar Tello; Decoração: Barbara Enriquez; Guarda-roupa: Anna Terrazas; Maquilhagem: Itzel Badillo, Emma Canchola, Antonio Garfias, Elena López Carreón, Atenea Téllez, Beatriz Vera; Direcção de Produção: Abel Cruz, Alejandra A. Garcia, Ana Hernandez, Carlos A. Morales, Maya Scherr-Willson; Assistentes de realização: María Raquel Dioni, Arturo Garcia, Luis Fernando Vasquez, René Villarreal; Departamento de arte: Marcela Arenas, Gabriel Cortes, Eliud López, Raisa Torres; Som: Sergio Diaz, Eric Dounce, José Antonio García, Ruy García, Samuel R. Green; Efeitos especiais: Sergio Jara, Roberto Ortiz, Alex Vasquez; Efeitos visuais: Andrew Carruthers, Aleksei Chernogorod, Miguel De Hoyos, Emma Gorbey, Dave Griffiths, Paul Hill, Sheldon Stopsack; Companhias de produção: Esperanto Filmoj, Participant Media; Intérpretes: Yalitza Aparicio (Cleo), Marina de Tavira (Sra. Sofía), Diego Cortina Autrey (Toño), Carlos Peralta (Paco), Marco Graf(Pepe), Daniela Demesa (Sofi), Nancy García García (Adela), Verónica García (Sra. Teresa), Andy Cortés (Ignacio), Fernando Grediaga, Jorge Antonio Guerrero, José Manuel Guerrero Mendoza, Zarela Lizbeth Chinolla Arellano, José Luis López Gómez, Edwin Mendoza Ramírez, Clementina Guadarrama, Enoc Leaño,  Nicolás Peréz Taylor Félix, Kjartan Halvorsen, etc. Duração: 134 minutos; Distribuição em Portugal: Orange Filmes; Classificação etária: M/ 14 anos; Data de estreia em Portugal: 13 de Dezembro de 2018 (também disponível em Netflix).

sábado, outubro 27, 2018

SOBRE O BRASIL

O OVO DA SERPENTE
Foi Ingmar Bergman quem realizou um filme primoroso sobre a ascensão do nazismo na Alemanha. Chamava-se “O Ovo da Serpente”. “Cabaret”, de Bob Fosse, é outro excelente exemplo do mesmo tema. Há dezenas de outros filmes que nos ajudaram a compreender como Hitler chegou ao poder, inicialmente de forma legal, através de eleições livres.
Hitler tornou-se o primeiro Führer und Reichskanzler (Chefe e Chanceler do Reino), em 1934. Mas a sua ascensão iniciou-se em 1919, quando aderiu ao partido Deutsche Arbeiterpartei (DAP - Partido dos Trabalhadores Alemães), que um ano depois, seria o Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei - NSDAP (Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, ou Partido Nazi). Depois foi sempre a somar. Nas eleições de 1928, os nazis tiveram apenas 12 lugares no Reichstag. Mas, após a crise de 29, em 1930, já contavam 107 deputados e, em novas eleições, em 1932, eram o maior partido alemão com 230 lugares. Apesar disso, Hindenburg, o chanceler na época, recusou-se a dar todo o poder a Hitler. Mas este, através de conspirações e arranjos políticos, conseguiu chegar ao poder absoluto em 1934. Antes, na noite de 27 de fevereiro de 1933, o incêndio no Reichstag, atribuído aos comunistas, muito terá contribuído para consolidar as posições extremistas de Hitler. Mas não só. A Alemanha, saída dos “loucos anos 20”, oferecia um conjunto de circunstâncias muito férteis para o aparecimento de uma ditadura, implantada por força da vontade da maioria do povo, humilhado com as condições impostos internacionalmente pelo tratado de Versalhes (1919) aos derrotados da I Guerra Mundial. O descontentamento popular baseava-se num clima de grande instabilidade social, a crise de 1929, a falta de emprego, a agitação política provocado por partidos e grupúsculos de esquerda e extrema esquerda, o medo da revolução comunista e do caos anarquista, tudo isso ajudou a criar um clima propenso ao aparecimento de uma força autoritária que impusesse ordem e respeito no seio da sociedade germânica. Vamos mesmo mais longe, os excessos dos “anos loucos” ao nível dos costumes, das artes e de um certo deboche moral ajudaram à festa.
O incêndio do Reichstag, quer tenha sido ou não obra de comunistas, caiu como “sopa no mel” das aspirações de Hitler. Milhares de comunistas, socialistas, anarquistas foram enviados para o campo de concentração de Dachau. Os nazis aproveitaram a onda e dizimaram tudo o que ostentava ainda algum resquício de democracia. Foram proibidos todos os partidos, excepto obviamente Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, que passou a ser “partido único”, por decreto de 14 de Julho de 1933 que rezava assim: “Aquele que tentar manter ou formar um novo partido será punido com trabalhos forçados por três anos ou com prisão de seis meses a três anos, se a ação não estiver sujeita a penalidade maior, em conformidade com outros regulamentos. ” Perfeito. Podia começar a limpeza étnica, a perseguição a judeus, ciganos, negros, eslavos, gays, comunistas, socialistas, democratas em geral. Os campos de extermínio estavam ao virar da esquina e Hitler era ovacionado por milhões por onde passava (é bom não esquecer isto, veja-se “O Triunfo da Vontade”, de Leni Riefenstahl).
Obviamente que no final da guerra, mesmo os vizinhos dos campos de extermínio juraram a pés juntos que não sabiam de nada, que nunca ouviram falar em torturas e que Hitler, bem Hitler quem seria? Uns obedeciam a ordens que ninguém dava, outros quando iam às grandes manifestações era porque jogava o Bayern.
Não sei o que mais abomino, se ditadores que se impuseram por golpes de estado ou guerras civis se por eleição popular. Obviamente que os segundos jogam (de início) de acordo com as regras democráticas e estão, por isso, legitimados por quem acredita na democracia. Eu acredito. É um regime péssimo, mas todos os outros são muito piores.
Mas eu prezo muito a liberdade, por isso custa-me a acreditar que existam milhões que, em nome do que quer que seja, troquem a liberdade pela ditadura. Eu sei que o exercício da liberdade é difícil. É muito mais fácil ter alguém que nos diga qual o caminho, que nos coloque vendas nos olhos e nos obrigue a ir por aí (“Não, não vou por aí”, bem dizia José Régio num poema belíssimo). A liberdade obriga a escolhas sistemáticas, a um olhar crítico, a pensar, a optar por A ou B.
Mais simples é entregarmo-nos aos desígnios do Senhor, qualquer que ele seja, desde que tenha autoridade, autoridade essa que é sempre imposta pelo medo. Por isso se compreende que quando cai um regime fascista haja tantos eleitores seduzidos por um arauto comunista. Ambos oferecem um chefe forte, mesmo que de sinal contrário.
O que acontece agora no Brasil pode ser mais um exemplo medonho deste estado de espírito. Compreendo que a escolha entre os dois candidatos seja difícil. O PT de Lula tem muita responsabilidade sobre o que está a acontecer. O PT tem mais responsabilidades porque ludibriou os brasileiros que estavam com Lula numa percentagem de 80%. Mas a verdade também é que o PT não fez nem mais nem menos que todos os outros partidos brasileiros até aí. A política do Brasil sempre esteve baseada na corrupção. Era um dado aceito por (quase) todos. As dezenas de pequenos partidos que existiam (e existem) mais não serviam do que para serem comprados. As grandes empresas sempre estiveram ligadas ao poder. Nada disto era novidade, quando a direita resolveu puxar o tapete a Lula e ao PT. Depois estes responderam na mesma moeda e foi o que se viu: (quase) toda a gente foi parar à cadeia. E daí emergiu a figura de Bolsonaro, esgrimindo a luta contra a corrupção, o elogio da segurança com armas para todos, o racismo, de negros a índios, a misoginia, a ameaça à liberdade da comunicação social, o dedo apontado a todos os adversários políticos.

Adoro o Brasil que tão bem conheci entre 1980 e 2010. Terra fértil e linda, cheia de gente boa, talentosa em todos os campos. Temo pelo que possa acontecer a essa gente, mesmo a muitos que vão votar no desconhecido só porque querem mudar. Mas depois não digam que não sabiam de nada. Bolsonaro não podia ser mais directo, nem menos ambíguo.  


AINDA O BRASIL
Um país com quase 210 milhões de habitantes só consegue arranjar dois candidatos (finais) a Presidente da República como Bolsonaro e Haddad? Estranho. Interessante tentar perceber como se chegou aqui. Vejamos: Bolsonaro representa uma parte muito significativa do Brasil que está farto de toda a política que viveu até agora, farto dos partidos de “arco governativo”, que foram corruptos, que conduziram o país nos últimos anos a uma situação insustentável a vários níveis. Do outro lado, Haddad é o representante de um Presidente que está na cadeia e que muitos brasileiros pensam que iria comandar o Brasil por detrás das grades (antes de ter sido amnistiado, possivelmente). A escolha não é brilhante, portanto. Tanto mais que Haddad é objectivamente um candidato medíocre, não tem carisma, não se independentizou suficientemente em relação a Lula, não tem voz própria, e nem sequer tem voz física para se impor, não tem força no seu discurso, todo o contrário de Bolsonaro. Parece que ambas as candidaturas se notabilizaram (e irmanaram) apenas pela difusão de “fake news” tão na moda. Pelo menos é o que consta.
Como chegámos aqui? Como é possível que num país tão grande e tão poderoso como este não se encontre meia dúzia de justos democratas, credíveis e carismáticos, tanto faz que fossem de centro direita ou de centro esquerda, para surgirem a disputar o primeiro lugar. Isso só quer dizer que quem tem as mãos limpas não as quer sujar. O que dá bem ideia da situação a que se chegou.
Se julgamos que essa situação é o grau zero da política, podemos ter alguma razão. Mas existe uma ameaça abaixo deste grau zero. Ganhe quem ganhar no domingo, o que acontecerá segunda feira? Ou mais adiante, no início do ano, quando o Presidente eleito tomar posse. Raras vezes se viu um país tão dividido e com tamanho ódio de parte a parte. As guerras civis começam assim, e se tal não acontecer, como se deseja ardentemente, pelos menos os confrontos, mais ou menos armados, não serão de excluir. De parte a parte, quem perder não se quer render, nem aceitar os resultados como definitivos. Os dados estão lançados e fazem-se votos para que prevaleça o bom senso e se aguarde o mais serenamente possível o que o futuro nos trará. 
A verdade é que no caso destas eleições, tudo o que poderia correr mal, correu mal, ou pior ainda. Acreditemos que a partir de agora o que se pensa vir a correr mal, possa afinal correr melhor do que o esperado. O Brasil não merece o que lhe está a acontecer, muito embora sejam os seus habitantes a escolheram o futuro. 
Como chegámos aqui? Como é possível que num país tão grande e tão poderoso como este não se encontre meia dúzia de justos democratas, credíveis e carismáticos, tanto faz que fossem de centro direita ou de centro esquerda, para surgirem a disputar o primeiro lugar. Isso só quer dizer que quem tem as mãos limpas não as quer sujar. O que dá bem ideia da situação a que se chegou.
Se julgamos que essa situação é o grau zero da política, podemos ter alguma razão. Mas existe uma ameaça abaixo deste grau zero. Ganhe quem ganhar no domingo, o que acontecerá segunda feira? Ou mais adiante, no início do ano, quando o Presidente eleito tomar posse. Raras vezes se viu um país tão dividido e com tamanho ódio de parte a parte. As guerras civis começam assim, e se tal não acontecer, como se deseja ardentemente, pelos menos os confrontos, mais ou menos armados, não serão de excluir. De parte a parte, quem perder não se quer render, nem aceitar os resultados como definitivos. Os dados estão lançados e fazem-se votos para que prevaleça o bom senso e se aguarde o que o futuro nos trará.  
A verdade é que no caso destas eleições, todo o que poderia correr mal, correu mal, ou pior ainda. Acreditemos que a partir de agora o que se pensa vir a correr mal, possa afinal correr melhor do que o esperado. O Brasil não merece o que lhe está a acontecer, muito embora sejam os seus habitantes a escolheram o futuro. Acredito bastante que haverá muitos que escolham o exílio. Se “Deus é brasileiro” era bom que desse acordo de si nesta altura.