quarta-feira, julho 08, 2015

MARIA BARROSO



MARIA BARROSO
Maria Barroso foi uma mulher extraordinária. Para lá de toda a sua actividade social, pedagógica, política, foi uma actriz admirável. Tive o privilégio de a ouvir recitar poemas era ainda muito jovem e ela ainda estava no D. Maria II, de onde seria afastada por questões políticas, depois vi-a nalguns trabalhos no teatro, e também no cinema, sobretudo em “Mudar de Vida”, de Paulo Rocha, e “Benilde”, “Amor de Perdição” e “O Sapato de Cetim”, todos de Oliveira. A última vez que a vi em palco, foi num espectáculo memorável, durante um festival de Teatro de Almada, numa encenação de Joaquim Benite, ao lado de Eunice Muñoz e Carmen Dolores. Um experiencia única. Acabado o espectáculo, falei com o Benite, a Carmen, a Eunice e a Maria Barroso e pedi-lhes autorização para apresentar uma proposta à RTP para eu filmar aquele momento que eu calculava que não se iria repetir mais. Todos concordaram, escrevi uma proposta à RTP, houve ainda quem me dissesse pessoalmente que seria uma óptima ideia para apresentar no dia mundial da poesia. E depois, até hoje. Curiosamente, na noite em que falei com as actrizes, uma delas, já não recordo qual, disse-me, pesarosa. “Você pode propor, mas eles não vão aceitar. Isto não lhes interessa.” Não lhes interessou, é verdade, mas perdemos, todos nós, um registo de três das nossas melhores actrizes de sempre a dizerem poesia numa sóbria mas inesquecível encenação de Benite. Malhas que o império tece.
Maria Barroso era uma mulher de uma beleza límpida, de uma grande inteligência, de uma invulgar sensibilidade e de uma generosidade a toda a prova. Sempre que a convidei para uma qualquer minha actividade, ela nunca se recusou. Apareceu sempre. Com aquele sorriso bonito, o olhar brilhante, o gesto solidário. Nos anos 80, organizei um Festival de Cinema em Portalegre e passei um ciclo sobre José Régio, que foi meu professor quando andei no liceu da terra. No dia da passagem de “Benilde, ou a Virgem Mãe”, convidei Maria Barroso para aparecer. Lá esteve, no velho Cine Teatro Crisfal. Foi a primeira vez que a homenageei publicamente. Anos depois, no Porto, durante um Festival de Vídeo Escolar que dirigi no IPP, onde era professor, convidei-a para uma mesa redonda para discutir questões pedagógicas, e a Maria Barroso não só apareceu como foi dos oradores ouvidos com maior atenção e mais aplaudidos (e havia muitos e dos melhores do país). Ouvi-la era um prazer.
Anos depois, dirigi em Famalicão um festival sobre Cinema e Literatura, o Famafest. Na sua edição de 2006, ao lado de Graça Lobo, Teolinda Gersão e Manuel de Oliveira, Maria Barroso foi uma das homenageadas, recebendo a “Pena de Camilo”. Mais uma vez não se fez rogada e subiu de Lisboa ao Norte para aceitar de novo o abraço comovido deste admirador de sempre. Maria Barroso ostentava uma doçura de porte e uma nobreza de caracter que não se esquecem.
O meu filho Frederico nunca foi um bom aluno no sentido tradicional do termo. Adorava algumas disciplinas e detestava outras. Passou por um colégio onde chegou a ser maltratado por isso. Tirámo-lo de lá e, por indicação de alguns amigos, inscrevemo-lo no Colégio Moderno. Continuou a não ser bom aluno no “sentido tradicional do termo”. Ele gostava de cinema, teatro, ler o que não lhe mandavam e detestava ginástica. Chumbou um ano a ginástica e o professor, anos mais tarde, encontrou-me e veio-me explicar: “Eu não podia fazer outra coisa. Ele era um moço excelente, mas nem sequer se equipava”. No Colégio Moderno teve várias negativas, mas nas festas de fim do ano recebeu uma medalha pelas suas actividades extracurriculares. E foi sempre incentivado a estudar as cadeiras no “sentido tradicional do termo”, mas igualmente sempre apadrinhado pela Maria Barroso e a Isabel Soares nas suas ânsias de criatividade no campo do teatro e do cinema. Hoje é um bom profissional nessas áreas. Se não fosse a sensibilidade da direcção do Colégio Moderno (e a dos pais também, sejamos justos) poderia ter sido um revoltado desintegrado da sociedade.
Devo também isso a Maria Barroso. Devo ainda uma referência numa entrevista que nunca esquecei, sublinhando a minha actividade e as escolhas como programador de cinema da TVI. 
Maria Barroso estará sempre no meu coração, e no de milhares de portugueses. Foi um exemplo, e não é a simples paragem de um coração que a fará deixar de estar junto de nós. Ela continuará sempre aqui, como exemplo, sobretudo numa época em que os exemplos vão rareando.
(as fotos são do Famafest 2006)






sábado, maio 30, 2015

"A NOITE DAS MIL ESTRELAS" NO CASINO DO ESTORIL



A NOITE DAS MIL ESTRELAS



Devo dizer que gosto muito da Costa do Sol, com particular destaque para Oeiras, Estoril e Cascais. Recordei recentemente uma série de reportagens que publiquei no extinto jornal “República”, corria o ano de 1966, e que percorria a rota “Do Cais do Sodré a Cascais”, com subtítulo “Em Comboio eléctrico – primeira etapa de férias”, reportagem que foi premiada com o primeiro prémio no concurso promovido pela Junta de Turismo da Costa do Sol, “O Melhor Artigo sobre a Costa do Sol” (reportagem republicada  em “Cascais e seus Lugares”, Cascais, 1968). Teria muitas histórias para contar do tanto que por ali tenho vivido, desde as férias passadas com a família em Cascais, à minha estreita relação com o TEC desde a sua fundação, não esquecendo, infelizmente!, as últimas férias de meu pai, num hotel do Estoril, até às masterclasses que agora mantenho em Oeiras. Depois, devo confessar que gosto bastante de arriscar uns escudos ou uns euros nas máquinas do Casino, prazer que tenho abandonado pois os tempos não estão para esses apetites, e fui frequentador assíduo de concertos grandiosos, de espectáculos feéricos, com que Assis Ferreira dinamizou o novo Casino, sobretudo a partir de umas Galas orientadas pelo João Maria Tudela e que ajudaram a mudar a cara do velho para o novo. O “velho” era aquele Casino onde uma vez fui impedido de entrar porque não levava gravata e que justificou uma crónica no “Diário de Lisboa”, onde então escrevia. O “novo” é aquele espaço multicolor, explodindo em néones e jackpots (estes muito raros, infelizmente), com um salão preto e prata por onde passaram algumas das maiores vozes do mundo e também do maior silêncio mímico.
Há dias estreou um novo espectáculo neste espaço, “A Noite das Mil Estrelas”, da autoria de Filipe La Féria, que o escreveu e encenou, tendo por base uma viagem pelos momentos mais emblemáticos da história do Casino Estoril, desde os anos trinta à actualidade, fazendo, ainda, o enquadramento com a História de Portugal do séc. XX aos nossos dias. É um espectáculo ligeiro, um daqueles espectáculos para Casino. É conveniente não esquecer isto. Muita luz, cor, movimento, ritmo, mulheres bonitas, lantejoulas e plumas, entremeados com números de actores e cantores. O que me pareceu mais bem conseguido foram algumas evocações “históricas”, desde a fundação do casino, à praia do Tamariz, passando pela presença de personalidades como os reis de Espanha (Juan Carlos) e de Itália (Humberto), Grace Kelly, Ian Fleming, Margaret de Inglaterra, Soraya do Irão, Jorge Amado ou Salvador Dali. Mais desequilibradas são as recordações de algumas das muitas estrelas que deram luz a esta noite: Amália, Carlos do Carmo, Gloria Swanson, Tony Bennett, Elis Regina, Charles Aznavour, Júlio Iglésias, Liza Minnelli, The Platters, Stevie Wonder, Woody Allen, Ray Charles, entre muitos outros. Sem esquecer aquele memorável "Só Nós Três". 


Mas, globalmente, esta “A Noite das Mil Estrelas” é um grande espectáculo de music-hall, com um belíssimo guarda-roupa de Costa Reis, bem ritmado e animado, com o talento (e a loucura, pois então! de La Féria a dar boa conta de si. Não sei como aparece “O Rei Leão” nesta fantasia, mas trata-se de um número imperdível. Entre os intérpretes contam-se Alexandra, Rui Andrade, Gonçalo Salgueiro, Pedro Bargado, Vanessa, David Ripado, Dora, Cláudia Soares, João Frizza e Catarina Mouro. Obviamente que há um vistoso corpo de bailarinos, acrobatas e uma orquestra ao vivo. Tudo boas razões para optar por uma noite relaxante e fresca, a partir das 21h30, com o musical “A Noite das Mil Estrelas”, em exibição de quinta-feira a domingo (às 17h00), no Salão Preto e Prata do Casino do Estoril. M/12 anos. 

sexta-feira, maio 08, 2015

TEATRO: HÉCUBA


“HÉCUBA”

“Hécuba” é uma tragédia grega, escrita por Eurípides no ano de 424 a.C.. Passa-se depois de terminada a Guerra de Tróia, antes dos gregos deixarem a cidade, e tem como protagonista Hécuba, uma mulher que foi rainha e é agora escrava, que foi mãe de dois filhos e agora os chora, transformando-se “de um ser bom e humano numa “cadela vingadora de olhos de fogo” (citando o programa do espectáculo e a própria peça). 
A tragédia que agora se estreou no São Luiz, numa produção conjunta da Escola de Mulheres e do próprio São Luiz, é apresentada como “o sofrimento desmedido”, e que outra coisa se pode dizer de uma mulher que perde o país, o marido e dois filhos. A encenação de Fernanda Lapa toma esta base grega para nos falar do “sofrimento desmedido” de todas as mulheres em todas as guerras. Sem local definido, sem tempo anunciado. "Consideramos este espectáculo um libelo contra a guerra e dedicamo-lo a todas as mulheres que por esse mundo fora vivem, por esse motivo, um sofrimento desmedido", diz a encenadora. E continua: "A violência gera violência e o sofrimento em excesso a degradação. Ontem como hoje", escreve Fernanda Lapa.
Digamos que o resultado desta incursão pela tragédia grega é brilhante e asseguro que será, desde já, um dos grandes espectáculos de 2015 em Portugal. O trabalho da encenação é invulgarmente bem conseguido, moldando os corpos e as vozes do elenco, obedecendo a marcações imaginativas e surpreendentes, tudo isto num espaço extremamente austero, mas absolutamente espantoso em termos de eficácia espectacular, um cenário com a assinatura de António Lagarto, que ainda concebe um guarda-roupa admirável. Lagarto é sempre uma garantia e volta a demonstrá-lo. De resto, o elenco chega igualmente a ser notável, com presenças poderosas de Carla Calvão, Margarida Cardeal, Filomena Cautela, Fernanda Lapa, Luís Gaspar, entre outras e outros.
Escusado será aconselhar o público a entrar antes do espectáculo começar (porque também não pode entrar depois deste ter início), mas seria imperdoável perder o prólogo, com o fantasma de Polidoro a lançar luz sobre o flashback que se sucede.


Hécuba, de  Eurípedes; Tradução: José Luís Coelho, Maria do Céu Fialho e Fernanda Lapa; Dramaturgia e encenação: Fernanda Lapa; Espaço cénico e figurinos: António Lagarto; Coreografia e assistência de encenação: Marta Lapa; Desenho de luz: José Nuno Lima; Sonoplastia: Pedro Costa e Sérgio Henriques; Direcção de produção: Ruy Malheiro; Intérpretes: Hécuba: Carla Galvão, Cassandra: Margarida Cardeal, Polixena: Filomena Cautela, Serva: Nuna Livhaber, Clitemnestra: Fernanda Lapa, Coro: Fernanda Lapa, Filomena Cautela, Inês Santos Cruz, Margarida Cardeal, Sandra de Sousa, Nuna Livhaber, Expectro de Polidoro: Vasco Batista, Ulisses: Luís Gaspar, Polimestor: Luís Gaspar, Taltíbio: Vasco Batista, Agamémnon: Afonso Molinar; Co-produção: Escola de Mulheres e São Luiz Teatro Municipal; de 7 a 17 de Maio no São Luiz. 

sexta-feira, abril 24, 2015

TEATRO: DOCE PÁSSARO DA JUVENTUDE


DOCE PÁSSARO DA JUVENTUDE

“Sweet Bird of Youth” é mais uma peça de Tennessee Williams a ser apresentada pelos Artistas Unidos, com encenação de Jorge Silva Melo, depois de no ano passado terem levado à cena “Gata em Telhado de Zinco Quente”. Deve dizer-se que se trata de um excelente espectáculo, com eficaz e justa encenação, belos cenários, e magnífica interpretação de Maria João Luís e Rúben Gomes, à frente de um consistente e homogéneo elenco. A peça, tal como quase todas a deste dramaturgo norte-americano, teve uma versão cinematográfica muito boa, com a assinatura de Richard Brooks, e interpretação a cargo de Geraldine Page e Paul Newman e, se esse trabalho era inesquecível, deve dizer-se que Maria João Luís e Rúben Gomes não os fazem esquecer, mas também não os fazem recordar.
O próprio Jorge Silva Melo evoca de forma muito sucinta o entrecho da peça: “Uma actriz enfrenta o desastre de uma vida, longe dos doces anos da sua juventude. Um rapaz, Chance Wayne, de regresso à terra de onde partiu há anos à conquista do mundo. É Páscoa, mas não haverá ressurreição. Todos procuram voltar a um passado que imaginaram feliz. Enquanto decorre uma sórdida manobra política”.
Passa por aqui um clima de decadência e de desesperada solidão que recorda obviamente “Sunset Boulevard”, tendo como pano de fundo questões políticas e sociais relevantes. A encenação de Jorge Silva Melo é sóbria mas suficientemente clara para por a descoberto toda esta teia de relações viciadas e o trabalho dos actores faz o resto, conferindo densidade e dramatismo às personagens. Um belíssimo espectáculo.

DOCE PÁSSARO DA JUVENTUDE

Texto (Sweet Bird of Youth) de Tennessee Williams; Tradução: José Agostinho Baptista; Encenação: Jorge Silva Melo; Assistência: Leonor Carpinteiro e Nuno Gonçalo Rodrigues; Cenografia e figurinos: Rita Lopes Alves; Som: André Pires; Luz: Pedro Domingos; Produção executiva: João Meireles; Interpretação: Maria João Luís, Rúben Gomes, Américo Silva, Catarina Wallenstein, Isabel Muñoz Cardoso, Mauro Hermínio, Nuno Pardal, Pedro Carraca, Pedro Gabriel Marques, Rui Rebelo,  Simon Frankel, Tiago Matias, Vânia Rodrigues, Eugeniu Ilco, Alexandra Pato, André Loubet, Francisco Lobo Faria, João Estima, Mia Tomé, Tiago Filipe e a participação de João Vaz; Uma produção: Artistas Unidos, Teatro Nacional de São João e São Luiz Teatro Municipal; últimos dias: Sexta e Sábado às 21h00; Domingo às 17h30; Sala Principal; M/14 anos; €12 A €15 (com descontos €5 a 10,50); Duração: 2h. 


terça-feira, abril 21, 2015

MARIANO GAGO


MARIANO GAGO
José Mariano Rebelo Pires Gago 
(Lisboa, 16 de Maio de 1948 — Lisboa, 17 de Abril de 2015)


Conhecia-o desde os tempos da universidade, eu quase a sair de Letras, ele a entrar no Técnico, em faculdades diferentes portanto.  Fui acompanhando-o com interesse ao longo da sua carreira. Cruzei-me com ele quando teve a amabilidade de ir prestigiar com a sua presença amiga o Cine Eco. Falámos como dois velhos amigos, que eramos, sem nos encontramos muito, é verdade. Mas ele gostava de cinema. No governo, e fora dele, teve uma actividade notável impulsionando a ciência no nosso país, como nenhum outro o fez. Quando se diz que os políticos são todos “isto e aquilo”, eu insurjo-me sempre. Nem todos o são. Há alguns bons políticos que não se servem e servem sobretudo a coisa pública.  Mariano Gago era um deles. Um exemplo para todos nós. Um perda, portanto. Enorme. 

TEATRO: ESCÂNDALO NAS NOTICIAS DA NOITE


ESCÂNDALO NAS NOTÍCIAS DA NOITE


“Escândalo nas Notícias da Noite” parte de uma peça teatral americana, de 1928, assinada pela dupla Charles MacArthur e Ben Hecht, que tem tido uma carreira brilhante no teatro, no cinema e na televisão (ver texto abaixo). Agora Frederico Corado adaptou-a à actualidade e a Portugal, mantendo toda a estrutura, sobretudo da sua última versão cinematográfica, “Linhas Cruzadas”. Um canal de televisão português debate-se com alguns problemas, sobretudo ditados pelo auto afastamento da sua repórter principal, ex-mulher do director da estação, e que se prepara para partir em viagem de núpcias para Angola com um milionário empresário de artigos de desporto. Mas a jornalista sente o apelo da notícia quando descobre que um preso condenado a pesada pena, e que ela julga inocente (e depois vem mesmo a saber estar inocente), precisa dela e de tornar visível perante a opinião pública a manobra política e judicial de que está a ser vítima. Às autoridades interessa sobretudo solucionar um caso rapidamente, sem olhar a outros interesses. Assim, ela adia a viagem para a paradisíaca ilha do Mussulo e atira-se de cabeça à tarefa de resgatar a verdade. O que pressupõe muitas peripécias, algumas divertidas, outras dramáticas, mas sempre críticas para com alguns poderes instituídos.
A produção é da equipa “Área de Serviço”, com adaptação da peça, encenação e cenários de Frederico Corado (que também interpreta um dos principais papéis), grupo que já encenou anteriormente as peças “Um Marido Ideal”, “O Crime de Aldeia Velha”, “As Alegres Comadres de Windsor”, “Nápoles Milionária”, “Pânico”, “Trisavó de Pistola à Cinta”, “O Inspector Geral”, “Oito Mulheres” e “O Dinheiro Não é Tudo na Vida”.
A encenação, movimentada e cheia de bons achados de humor, funciona num cenário relativamente simples, com adereços que apenas indicam e sugerem. O ritmo conseguido surpreende, tratando-se de uma companhia comunitária, logo de actores amadores (que, de peça para peça apuram qualidades e limam deficiências). Há mesmo alguns actores com capacidades que merecem ser dilatadas noutros trabalhos. Mas, fundamentalmente, há que sublinhar o esforço desta iniciativa muito bem orientada para textos de qualidade inequívoca, fomentando o gosto pelo teatro, quer praticando-o no palco, quer assistindo a ele na plateia do Centro Cultural do Cartaxo. O espectáculo tem novas representações a 24 e 25 de Abril, às 21 horas.

Escândalo nas Notícias da Noite / um espectáculo de Frederico Corado, no Centro Cultural do Cartaxo /24 e 25 de Abril às 21.30h
Texto e Encenação: Frederico Corado | Concepção e Execução Cenográfica: Frederico Corado e Mário Júlio | Produção CCC: Marco Guerra e Carlos Ouro | Produção Área de Serviço: Frederico Corado, Florbela Silva e Vânia Calado com a assistência de Pedro Ouro, Carolina Viana, Rita Correia Alves | Grafismo: Cátia Garcia | Assistente de Encenação: Florbela Silva, Cláudia Antunes, Maria Ramalho, Pedro Ouro, Rita Correia Alves | Desenho de Luz: Ricardo Campos | Assistência Técnica: Miguel Sena | Direcção de Cena: Mário Júlio| Contra-Regra: Amélia Martins | Fotografia: Vitor Neno | Montagem: Mário Júlio e Vitor Lima| Uma Produção da Área de Serviço com o Centro Cultural do Cartaxo; Intérpretes: Vânia Parente Calado, Frederico Corado, Carlos Ramos, Vasco Casimiro, João Nunes, Mário Júlio, Ana Ribeiro, Virgínia Teófilo, Helena Montez, Mónica Coelho, João Paulo, Carolina Viana, Ana Patrícia Jorge, Mauro Cebolo, Susana Condinho, Pedro Ouro, Pedro Lino, Luis Rosa Mendes, Paulo Cabral, Rosário Narciso, Amélia Martins, Rita Oliveira, Ana Catarina Casimiro, Daniel Mateus, Pedro Magalhães, Aureliana Campanacho, Jeanine Steuve, Catarina Carmo, Maria José Cerqueira, Andréa Silva, João Pedro Sousa, Joana Pinheiro, Beatriz Pinho, José Miguel Ribeiro, Inês Nunes, André Vieira, Joana Condinho Pais, Miguel Carias, etc.Centro Cultural do Cartaxo / Rua 5 de Outubro | 2070-059 Cartaxo, Portugal /Teatro . M6 /Bilhetes: 5€



2. “A PRIMEIRA PÁGINA” (THE FRONT PAGE) NO CINEMA
No conturbado e agitado período de final dos anos 20, a América inteira pode dizer-se que se transforma num vulcão em permanente ebulição. Estava-se no pós-guerra, os soldados do Tio Sam tinham, pela primeira vez, experimentado os amargos e os sucessos de um gigantesco conflito militar que se desenrola a muitos quilómetros da sua Pátria, numa Europa simultaneamente distante e aliciante, local de origem da maior parte dos ancestrais dos jovens combatentes, mas terra de outros costumes e outro ritmo de vida. Nos EUA germinava o Crash que iria rebentar em 1929 e progredir assustadoramente pela Grande Depressão dos anos 30. A instabilidade que parecia apostar fortíssimo em tal época era bem demonstrativa de que as armas não se haviam calado de vez, mas antes se encontravam em repouso quase forçado, à espera de que novo holocausto se viesse a verificar, sem grandes alternativas nem esperanças fundadas.
Nessa altura, um jovem jornalista de Chicago, de parceria com outro colega também pouco acomodatício, deu à estampa uma obra que intitulou “The Front Page”. Estava-se em 1928, o autor principal chamava-se Charles MacArthur e o seu comparsa Ben Hecht. De ambos ainda surgiriam “Twentieth Century” (1932) e “Ladies and Gentlemen” (1939). No entanto, a primeira das obras seria aquela que daria notoriedade a MacArthur que, casado com a actriz Helen Hayes, se dedicaria também a escrever para o cinema. Esta peça teria uma encenação portuguesa no Teatro "A Barraca", em 1994, com encenação de Helder Costa, com interpretação de Maria do Céu Guerra, Francisco Nicholson e João d'Ávila, entre outros. 
“The Front Page” foi objecto de várias adaptações cinematográficas, a primeira das quais realizada por Lewis Milestone, logo em 1931. Entre os actores, Adolphe Menjou, Pat O'Brien e Mary Brian. Mas em 1940, Howard Hawks voltaria ao tema, realizando “O Grande Escândalo” (His Girl Friend) com um elenco de nomes sonantes à frente do qual se encontravam Rosalind Russel, Cary Grant e Ralph Bellamy. Posteriormente outra gente retomaria o tema. Foram algumas as versões de TV, logo na década de 40: Ed Sobol dirigiu uma em 1945, com Vinton Hayworth, Matt Crowley e Howard Smith; o produtor Joel O’Brien lançou outra, em Inglaterra, em 1948, com Basil Appleby, Harold Ayer e Michael Balfour; entre 1949 e 1950 apareceu uma mini série, com direcção de Franklin Heller, e interpretação de John Daly, Mark Roberts e Richard Boone; finalmente em 1970, nova incursão televisiva, desta feira assinada por Alan Handley, com Robert Ryan, George Grizzard e Helen Hayes (como já vimos a mulher de MacArthur).
Os tempos mudaram, a imprensa escrita cedeu o seu lugar prioritário à televisão, por isso se compreende que, em 1988, “The Front Page” se passe a chamar “Linhas Trocadas” (Switching Channels), numa versão cinematográfica de Ted Kotcheff, com um novo elenco de luxo, Kathleen Turner, Burt Reynolds e Christopher Reeve.



Desconhecendo a obra de 1931 e as adaptações televisivas, vamos recuperar algumas curtas impressões críticas das restantes, escritas na época em que inicialmente as vi.
Começando pelo filme de Howard Hawks:
Numa redacção de um jornal reúne-se um grupo heterogéneo, constituído pelo próprio director do jornal, um cronista de casos de polícia e de tribunais, uma prostituta e um condenado à morte que se havia conseguido evadir da prisão em que se encontrava aguardando a execução. Com eles e outros comparsas menores se constrói uma história em que o dramático alterna com o burlesco, daí resultando uma comédia brilhante e de tal modo atractiva que, como se disse já, motivou por várias vezes o interesse dos realizadores e produtores e a consequente atenção das câmaras.
Há que referir que esta versão tem uma realização realmente brilhante de Howard Hawks e, reforçando o afirmado, de entre os intérpretes salienta-se o talento de comediante de Rosaline Russel, que aqui regista uma das suas mais significativas actuações perante as objectivas. Alguns saudosistas relembram, a propósito de “O Grande Escândalo”, “The Front Page”, de 1931, rodado num único cenário, em que o realizador Lewis Milestone utilizou com toda a propriedade os travelling que tinham sido relativamente descurados com o advento do sonoro. Voltando a “His Girl Friend” um outro termo de comparação é possível de estabelecer com a obra precedente: enquanto Milestone realizara uma fita com 101 minutos de duração, Hawks reduz o tempo de projecção para 92 minutos. E por isso que esta velha glória do cinema debruçado sobre a informação é considerada por muitos como tendo um ritmo mais dinâmico do que a primeira versão d “The Front Page”. Dir-se-ia, antes, que são duas concepções diferentes, com quase dez anos a separá-las. Vale, porém, a pena recordar-se um e outro destes filmes que ficaram na História da Sétima Arte.



Depois de Lewis Milestone e de Howard Hawks, “The Front Page” é já uma obra teatral consagrada, esta que Billy Wilder retoma para a marcar com o seu espírito sarcástico, o seu humor corrosivo, o rigor do seu trabalho de encenação, e a magnifica direcção de actores, onde sobressaem Jack Lemmon, Walter Matthau e Carol Burnet.
Com um condenado à morte à espera da hora final, é nos bastidores de certa imprensa sensacionalista, que manipula pessoas e acontecimentos, que se irá centrar a análise de Wilder. O prestígio político, os interesses criados, o lucro fácil, são algumas das peças de uma engrenagem desmontada pelo cineasta que, desde início, se coloca do lado do condenado à morte e de uma prostituta que o procura ajudar, tendo em seu redor uma matilha que os tenta devorar com intuitos diversos, mas sempre com igual barbaridade, em nome de um qualquer lucro.



“Linhas Trocadas”, de Ted Kotcheff, versão mais recente (1987), actualizada, da peça teatral de Hecht e MacArthur, acusa alguma banalização de processos, tendentes a um riso burlesco e algo inconsequente, que lhe retira um pouco da sua força, agressividade e poder corrosivo.
Christy Collerau (a belíssirna Kathleen Turner) é uma jornalista, vedeta de uma cadeia de televisão norte americana, onde trabalha também o seu ex-marido, John Sullivan (um turbulento Burt Reynolds). Em férias, conhece um empresário aprumadinho, Blaine Brighaam (Christopher Reeves, aqui atraiçoando a sua predilecção por papeis de jornalista), com quem resolve casar-se e abandonar a TV. Mas John Sullivan joga o mais sujo que sabe para não perder nem a colaboradora nem a mulher e oferece-lhe uma reportagem irrecusável: entrevistar Ike Roscoe, um condenado à morte na cadeira eléctrica, que tudo aponta estar inocente. Christy não é capaz de renunciar a este desafio. Mas Roscoe consegue fugir, Christy e Sullivan conseguem escondê-lo, mas o filme não consegue comparar-se aos outros extraídos da mesma base, muito embora atinja momentos hilariantes, sobretudo nas perseguições derradeiras e na descrição tumultuosa do ambiente dos estúdios de televisão.
Uma comédia divertida, mas um filme relativamente falhado nos seus propósitos, enquanto obra cinematográfica.

O GRANDE ESCÂNDALO (His Girl Friday) - R: Howard Hawks (EUA, 1939); A: Charles Lederer, segundo «The Front Page», peça de Charles MaeArthur e Ben Heeht; F (preto e branco): Joseph Walker; M: Morris Stoloff; I: Rossalind Russell, Cary Grant, Ralph Bellamy, Gene Loekhart, Porter Hall, Ernest Truex, etc.; D: 92 m; CI: xxxxx (M/12 anos).
PRIMEIRA PÁGINA (Front Page) - R: BiIly Wilder (EUA, 1974); A: BiIly Wilder e I.A.L.Diamond, segundo peça teatral de Ben Heeht e Charles MaeArthur; F (cor): Jordan S. Cronenweth; M: BilIy May; Mont: Ralph E.Winters; Dir.art.: Henry Bumstead; P: Paul Monash/ MA C/ Universal; I: Jack Lemmon, Walter Matthau, Carol Burnett, Susan Sarandon, Vineent Gardenia, David Wayne, Allen Garfield, Austin Pendleton, Charles Durning, Herbert Edelman, etc.; D: 105 m; CI: xxxx (M/12 anos).

LINHAS TROCADAS (Switching Channels) - R: Ted Kotcheff (EUA, 1987); A: Jonathan Reynolds, segundo «The Front Page», peça teatral de Ben Hecht e Charles MacArthur; F (cor): François Protat; M: Michel Legrand; Mont: Thom Noble; Dir. Art.: Charles Dunlop; P: Martin Ransohoff; I: Kathleen Turner, Burt Reynolds, Christopher Reeves, Ned Beatty, Henry Gibson,etc. D: 110 m; CL: xxx (M/12 anos). 

sexta-feira, abril 03, 2015

Prémios Sophia 2015



PRÉMIOS SOPHIA DO CINEMA PORTUGUÊS 2015

Ontem, 2 de Abril de 2015, no CCB, ficámos a conhecer os vencedores dos Prémio Sophia 2015. Os triunfadores da noite foram "Os Gatos não têm Vertigens" (9 Sophias) e "Os Maias" (7 Sophias). Aqui ficam os prémios por categorias:

Filme: Os Gatos não têm Vertigens, de António-Pedro Vasconcelos (MGN Filmes)
Documentário: E Agora? Lembra-me, de Joaquim Pinto (C.R.I.M. Produções)
Realizador: António-Pedro Vasconcelos, Os Gatos não têm Vertigens
Actor Principal: João Jesus, Os Gatos não têm Vertigens
Actriz Principal: Maria do Céu Guerra, Os Gatos não têm Vertigens
Actor Secundário: João Perry, Os Maias - Cenas da Vida Romântica
Actriz Secundária: Maria João Pinho, Os Maias - Cenas da Vida Romântica
Argumento Original: Tiago Santos, Os Gatos não têm Vertigens
Montagem: Pedro Ribeiro, Os Gatos não têm Vertigens
Fotografia: João Ribeiro, Os Maias - Cenas da Vida Romântica
Música Original: Luís Cília, Os Gatos não têm Vertigens
Canção Original: “Clandestinos do Amor”, de Ana Moura, Os Gatos não têm Vertigens
Som: Vasco Pedroso, Branko Neskov e Elsa Ferreira, Os Gatos não têm Vertigens
Direcção Artística: Silvia Grabowski, Os Maias - Cenas da Vida Romântica
Guarda-Roupa: Sílvia Grabowski, Os Maias - Cenas da Vida Romântica
Maquilhagem e Cabelos: Sano de Perpessac, Os Maias - Cenas da Vida Romântica
Caracterização / Efeitos Especiais: Sano de Perpessac, Os Maias - Cenas da Vida Romântica
Curta-Metragem de Ficção: Encontradouro, de Afonso Pimentel
Curta-Metragem Documentário: O Meu Outro País, de Solveig Nordlund
Curta-Metragem de Animação: Fuligem, de David Doutel e Vasco Sá
Sophia Estudante: Bestas, de Rui Neto e Joana Nicolau

Sophia Carreira: Eunice Muñoz e Luís Miguel Cintra

terça-feira, março 24, 2015

CLÁUDIO MARZO (1941-2015)


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