quarta-feira, fevereiro 12, 2020

TEATRO: A PEÇA QUE DÁ PARA O TORTO




A PEÇA QUE DÁ PARA O TORTO

Hoje é dia de estreia de “A Peça Que Dá Para o Torto”, no original “The Play That Goes Wrong”. É um texto dos ingleses Henry Lewis, Jonathan Sayer e Henry Shields, que se encontra em exibição em Londres, há mais de cinco anos, numa produção da Mischief Theatre Company, com encenação de Hannah Sharkey. Grande sucesso de público e de crítica, com emigração para os palcos de mais de trinta países, e muitos prémios arrecadados, quer em Inglaterra como por outras latitudes.
A versão que vamos ver em Lisboa é o que se chama uma "replica show". O que significa que a UAU, empresa produtora portuguesa, adquiriu "os direitos todos da peça, não só do texto, mas também do cenário, da luz, da música, de tudo". Uma encenadora britânica, Hannah Sharkey, tem estado em Lisboa, para assegurar que tudo corra como acontece em palcos ingleses, mas a tradução para português, com algumas indispensáveis adaptações, é de Nuno Markl, e, neste contexto,  surge igualmente a figura do encenador residente, Frederico Corado, que divide responsabilidades locais com os demais responsáveis (só para que conste, é meu filho, para assim ficar assegurado desde já algum possível conflito de interesses).
A obra é muito divertida, bem construída, sólida peça de carpintaria (não é um eufemismo, como veremos mais adiante), não pactua com a estupidez tatas vezes reinante neste tipo de produção, afirmando-se pelo contrário como obra inteligente e de humor crítico e sensível. É realmente um vendaval de gargalhadas, mas não vazio de sentido e inócuo.
Antes de mais, trata-se de uma peça no interior de uma peça. Uma peça inglesa, tipicamente british, encenada pelo núcleo de Teatro da Sociedade Recreativa e Cultural do Sobralinho. Logo de início o encenador coloca os pontos nos ii. A Sociedade tem tido muitas dificuldades para levar a cena algumas produções, sobretudo por falta de meios. A versão de Os Miseráveis passou a O Miserável, a Branca de Neve passou a ser acompanhada unicamente pelo Matulão, à falta de sete anões, de Tennesse Williams apresentaram O Triciclo Chamado Desejo (e depois tiveram ainda que actualizar: O Skate Chamado Desejo).
A peça que hoje levam a cena é uma produção de estilo policial, “Crime na Mansão Haversham”, que começa logo com o aparecimento de um cadáver estendido no meio de um cenário de um certo mau gosto britânico, uma velha mansão, como tantas outras que surgem no teatro e no cinema provindos daquela ilha que recentemente se afastou da EU. Não se trata tanto de uma paródia ao estilo de Agatha Christie, mas sim às medíocres réplicas desta escritora, que por aí proliferam.
Depois as investigações em relação àquela morte iniciam-se. Surgem sete pessoas naquela sala de estar com cheiro a velório: o irmão do morto, a noiva do morto, o irmão da noiva (por sinal brasileiro), o mordomo (não podia faltar), um inspector (está lá fora o inspector!) e ainda há mais alguns intervenientes como a contrarregra ou aderecista e ponto, e o técnico de som, irritadíssimo porque lhe roubaram um CD dos Duran Duran. Além disso, perdeu-se um cão, de que só sobrou a trela…
Primeiro aspecto a ressalvar neste contexto: a peça agarra nalguns estereótipos do policial e mesmo do romance negro e parodia-os com imensa graça. O morto, o mordomo, o inspector, a femme fatale que não resiste a nenhum macho, os suspeitos, tudo é posto em causa, assim como cada adereço, cada puxador de porta, cada vidro de janela, cada quadro, cada lareira (há só uma!), cada praticável. Nada está no sítio certo nem na hora exacta. O que potencia a hecatombe, de desgraça em desgraça até ao terramoto final.



A peça é bastante bem representada, por um elenco muito jovem, mas globalmente talentoso, mas esta não é uma representação vulgar. Todos têm de apresentar alguns resquícios de acrobatas, tal o empenhamento físico que a peça exige aos seus intervenientes. Se a construção do cenário e a colocação dos adereços pressupõe um trabalho minucioso, de relojoeiro, em que todos os elementos têm de estar no seu local determinado ao segundo exigido, o facto deste cenário já vir importado de Londres (via Espanha) ajudou em muito. Mas o elenco português teve de se adaptar a este cenário maquiavélico que impõe um ritmo endemoniado e uma certa destreza corporal. A Inês Castelo-Branco a ser retirada “desmaiada” por uma janela não é para qualquer uma, nem o Miguel Thiré a equilibrar-se com três móveis é para todos (e não digo mais, quem for ver avaliará). Mas todos os actores passam as passas do Algarve nesta comédia de slapstick, muito na linha de alguns grandes cómicos como Keaton, Chaplin ou Lloyd.
Segundo aspecto a sublinhar. Não sei se conscientemente se não, esta peça assume um papel pedagógico muito interessante. Pretende ser objectivamente uma representação realista ou naturalista e acaba por evoluir para um simbolismo, um non sense minimalista. Tal como Picasso que era um pintor realista notável ainda muito jovem, e depois foi evoluindo para o cubismo e até para a abstração, o mesmo acontece nesta peça. Um exemplo. Quando procuram retirar o cadáver da sala de estar, vão buscar uma padiola e colocam nela o corpo. Mas o pano cede, o corpo cai, os transportadores não se dão por vencidos e continuam a transportar a padiola, agora só as pegas de madeira. Mais tarde já mimam o transporte do corpo só com as mãos. A cena vai evoluindo do realismo para o simbolismo mais minimalista, um pouco uma das vias do teatro moderno.
Mais. Existe uma femme fatale (obviamente a Inês Castelo-Branco) que veste vermelho, como se esperaria. As tantas ela desaparece e a contrarregra surge a substituí-la apenas com o vestido vermelho sobre a jardineira. Buñuel realizou um filme com duas actrizes a interpretar o mesmo papel. O público na peça teatral compreende a substituição, assim como a entende mais tarde quando será um homem a aparecer neste papel.
“A Peça Que Dá Para o Torto” não só desconstrói os estereótipos do policial, como vai mais longe e deixa perceber o mecanismo da identificação num espectáculo teatral que não necessita do realismo para tornar evidente certas propostas. Por tudo isso um belo espectáculo que ainda bem que, neste caso, deu para o torto.
Prémio Olivier para Melhor Comédia Nova em Inglaterra, “The Play That Goes Wrong” tem um elenco globalmente muito eficaz, composto por Alexandre Carvalho, Cristóvão Campos, Igor Regalla, Telmo Mendes, Inês Castel-Branco, Joana Pais de Brito, Miguel Thiré e Telmo Ramalho. Sem querer menosprezar ninguém, devo sublinhar o trabalho destes quatro últimos.
Em cena a partir de hoje, no Auditório dos Oceanos, do Casino de Lisboa, tem estadia prevista até Junho.



domingo, fevereiro 09, 2020

OSCARS 2020 - PREVISÕES


OSCARS 2020 - PREVISÕES

Digam o que disserem, este ano de 2019, que agora se premeia, foi um excelente ano de cinema. Muitos e bons filmes, excelentes realizadores, magníficos intérpretes, como há muito se não via. São tantos os candidatos que há nomeados para todos os gostos e, apesar de haver como sempre favoritos, se houver surpresas, estas não serão "surpreendentes".  
Depois, o cinema nunca mais será como foi até aqui, com a confirmação em grande do streaming. A Netflix, e congéneres, vieram alterar por completo o sistema de exploração cinematográfica. O cinema, que está cada vez mais a ser consumido por crianças e adultos acriançados, ou altera os seus objectivos (e parece que já começou) ou vai descobrir-se a correr numa pista isolada, com o grande público adulto a ficar em casa a ver o que canais de TV e de streaming lhe oferecem. 
Quanto às previsões sobre os Oscars de 2020, elas aqui fica, com uma ressalva: por vezes não indicam os títulos que eu pessoalmente premiaria, mas assim aqueles que julgo virem a ser as escolhas dos membros da Academia de Hollywood. 
Entre os nomeados, os assinalados com uma cruz são os potenciais vencedores. Boa sorte!    


sábado, fevereiro 01, 2020

OS FILMES DOS OSCARS DE 2019 (5) JOKER



JOKER

Até hoje Gotham City apareceu no cinema sob o domínio de Batman, o justiceiro que lutava contra o Mal, encarnado pela figura do Joker. Batman tentava impor a ordem numa cidade dominada pela violência, a corrupção e todos os demais males do mundo. Batman era uma derivação de Superman, que tranquilizava os cidadãos que ficavam a saber, no final de cada filme, que há sempre um herói, com superpoderes ou não, que vela pela tranquilidade pública. Sabia-se a história de Batman, donde vinha e porque se dava ao trabalho de lutar pelo Bem, numa sociedade tão corrompida, enquanto do Joker tínhamos retratos por vezes inesquecíveis, trabalhados por actores de invulgar talento, conhecíamos as suas maldades, as vilanias, o riso convulsivo, as excentricidades, a indumentária de palhaço, o rosto maquilhado de clown, mas desconhecia-se tudo o mais. Qual o seu passado, o que o levaria a tamanhas façanhas de uma tão diabólica maldade? Todd Phillips vem alterar este injusto estado de coisas, dedicando uma obra inteiramente a o Joker.
Mas quem é este Todd Phillips? Pois só comecei a dar por ele em 2009, quando vi, por acaso, “A Ressaca”. Antes já tinha feito umas comédias que recuperei depois, mas nada de muito especial: 2000: “Road Trip - Sem Regras”; 2003: “Dias de Loucura”; 2004: “Starsky & Hutch” ou 2006: “Escola para Totós”. A comédia norte-americana destes tempos só raramente me divertia e muitas vezes lamentava o tempo perdido. “A Ressaca” foi uma revelação muito agradável. Bem realizada e escrita (pelo mesmo Todd Phillips), muito bem interpretada por um grupo de actores até aí não muito conhecidos, diria que o filme revelava o realizador a ter em conta e a seguir com atenção. O sucesso internacional de “A Ressaca” obrigou a outros desenvolvimentos na mesma área; A Ressaca II (2011), “A Ressaca III” (2013) e duas outras incursões pelo mesmo género, “A Tempo e Horas (2010) e “Os Traficantes” (2016).
De repente, uma mudança abismal. Em 2019, Todd Phillips muda radicalmente de registo e deixa de tentar a comédia e opta por uma biografia (dramática) do Joker. Esperemos que se tenha ganho um grande realizador. “Joker” é uma obra-prima. Como parece que o cineasta é dado a chorrilhos, anuncia para próximo projecto uma biografia de Hulk/Hogan.
Já me perguntaram se “Joker” é um filme particularmente violento. Creio que, apesar de algumas cenas violentas, um pouco na linha de “A Laranja Mecânica”, a obra não se define pela sua violência física, mas sim pela sua violência psicológica. Há muito que um filme não me angustiava tanto, após a sua visão. “Joker” é uma terrível visão da nossa sociedade, destas cidades onde vivemos um dia a dia cada vez mais egoísta, cada vez mais violento, cada vez mais corrupto, cada vez mais degenerado. Uma sociedade que afasta os pobres e os necessitados, que só olha para o lucro imediato, que depois de ter atingido (nos países mais avançados) um certo nível de bem-estar, o vai delapidando alegremente, para que os ricos sejam cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres.  
Em Gotham City, cidade que nunca esteve tão próxima de Nova Iorque, se bem que em todos os filmes anteriores de Batman todos tenham percebido que se falava de uma Nova Iorque mais ou menos fantasiada, um rapazinho esquelético, que trabalha como palhaço, e sofre de uma estranha doença que o leva a ter ataques de riso incontroláveis (anda mesmo com um cartão para mostrar aos estranhos que se trata de uma doença e não de falta de respeito), vive com a mãe, entrevada, de quem cuida desveladamente. Visita uma assistente social que o acompanha até ao dia em que o serviço é dado como inútil, a assistente social despedida, e ele fica mesmo sem os medicamentos que o estabilizavam. Depois é um encadeado de situações traumáticas, todas elas muito previsíveis, que transformam o cidadão Arthur Fleck no Joker. Um inocente palhaço que anda pelas ruas da metrópole a anunciar saldos que, aparentemente num passe de magia (mas sem magia nenhuma), se transmuda num temível vingador que subleva a cidade e faz justiça pelas próprias mãos, no que é apoiado por toda a “escumalha” que nele se revê e o transforma em símbolo de uma rebelião.
Assim se percebe, sem demagogias simplistas, como o Mal nasce do próprio Mal, como as circunstâncias sociais, políticas, educacionais, o próprio entretenimento televisivo, criam os monstros; como as sociedades desapiedadas acabam por ver revertidas sobre si próprias as consequências do seu egoísmo. O clima de “Joker” é angustiante de princípio ao fim, indo-se adensando à medida que pequenos e grandes acontecimentos, ou segredos, se vão revelando. A criação dos ambientes é notável: uma cidade intransitável, ruas e becos atravancados de lixo, uma chuva impiedosa, as cores berrantes dos néons, os cartazes da publicidade, os interiores esquálidos, os quartos miseráveis, a sala da agência dos palhaços, os corredores solitários, as carruagens do metropolitano, o estúdio de televisão, com uma realidade forjada, as mansões dos ricos e poderosos, as salas de espectáculos…
O argumento é extremamente inteligente, bem escrito, desenvolvidos, criando personagens que vão marcar a história do cinema. O Joker de Joaquin Phoenix é absolutamente magistral. O seu trabalho é invulgarmente bem conseguido, de antologia. Há um lado mais visível que é brilhante, o jogo do corpo, o lado histriónico, quando dos ataques de riso, tudo isso é de sublinhar. Mas o que me prende é o mais secreto, a forma como o rosto, os olhos reagem em certas situações, os gestos suspensos, as contradições interiores que o actor deixa antever com uma subtileza invulgar, uma maestria total. Pena tenho eu de Banderas, DeNiro ou Adam Driver que este ano têm interpretações notáveis e não vão ter hipótese de competir com Phoenix. O Oscar está entregue!
De resto, o filme está nomeado para 11 Oscars, e certamente vai regressar a casa com várias estatuetas. Não será o Melhor Filme do Ano, nem o Melhor Realizador, que há concorrentes fortíssimos (ainda que se ganhar algum destes prémios não vinha daí mal nenhum ao mundo), Joaquin Phoenix é definitivamente o Melhor Actor, o Melhor Argumento Adaptado, a Melhor Fotografia, a Melhor Montagem, a Melhor Partitura Musical Original, a Melhor Maquilhagem, o Melhor Guarda-roupa, o Melhor Som e a Melhor Mistura Sonora são hipóteses com muitas probabilidades.
Aqui está um ano como há muito se não via em Hollywood. Vários filmes excelentes acotovelando-se para chegar às estatuetas.


JOKER
Título original: Joker
Realização: Todd Phillips (EUA, 2019); Argumento: Todd Phillips, Scott Silver, baseados em personagens de bd criados por Bob Kane, Bill Finger, Jerry Robinson;  Produção: Richard Baratta, Bruce Berman, Jason Cloth, Bradley Cooper, Joseph Garner, Aaron L. Gilbert, Walter Hamada, Anjay Nagpal, Todd Phillips, Emma Tillinger Koskoff, Michael E. Uslan, David Webb; Música: Hildur Guðnadóttir; Fotografia (cor): Lawrence Sher; Montagem: Jeff Groth; Casting: Shayna Markowitz; Design de produção: Mark Friedberg; Direcção artística: Laura Ballinger; Decoração: Kris Moran; Guarda-roupa: Mark Bridges; Maquilhagem: Vanessa Anderson, Mitchell Beck, Sunday Englis, Kay Georgiou, Nicki Ledermann, Jerry Popolis, Tania Ribalow, Kim Taylor, Carla White, etc. Direcção de Produção: Lisa Dennis, Carla Raij, Fady Hadid, Mark Scoon; Assistentes de realização: Ryan Robert Howard, Felix Jordan, Jeremy Marks, David Webb, etc. Departamento de arte: Joseph S. Alfieri, Nara DeMuro, Mariella Navarro, Michael Scarola, Miccah Underwood, etc.; Som: Tony Crowe, Michael Dressel, Alan Robert Murray, Tom Ozanich, Kira Roessler, etc. Efeitos especiais: Jeff Brink, Doug Facciponti, Corinne Fortunato, Cleo Camp, Joseph Sacco; Efeitos visuais: Ankita Agrawal, Karina Benesh, Patrice Cormier, Mathew Giampa, Allie Glisch, Bryan Godwin, Edwin Rivera, Carolyn Shea, Kin Yiu, Nigel Cyril, Kristen Drewski, etc.  Companhias de produção: Warner Bros., Village Roadshow Pictures, BRON Studios, Joint Effort, DC Comics, Creative Wealth Media Finance;  Intérpretes: Joaquin Phoenix (Arthur Fleck/ Joker), Robert De Niro (Murray Franklin), Zazie Beetz (Sophie Dumond), Frances Conroy (Penny Fleck), Brett Cullen (Thomas Wayne), Shea Whigham (Detective Burke), Bill Camp (Detective Garrity), Glenn Fleshler (Randall), Leigh Gill (Gary), Josh Pais (Hoyt Vaughn), Rocco Luna, Marc Maron, Sondra James, Murphy Guyer, Douglas Hodge, Dante Pereira-Olson, Carrie Louise Putrello, Sharon Washington, Hannah Gross, Frank Wood, Brian Tyree Henry, April Grace, Mick Szal, Carl Lundstedt, Michael Benz, etc. Duração: 122 minutos; Distribuição em Portugal: Warner Bros.; Classificação etária: M/ 14 anos; Data de estreia em Portugal: 3 de Outubro de 2019.

quinta-feira, janeiro 23, 2020

TEATRO: MÁRIO




 MÁRIO: “EU QUERO SER BAILARINA”


"Mário", peça de teatro que fez furor em 2019 e regressou ao palco do Cinema São Jorge neste Janeiro de 2020, fala de um rapaz que desde novo queria ser “bailarina”. Escrita e encenada por Fernando Heitor, baseia-se em factos reais, retirados de um texto de São José Almeida (O Público, 17 de Julho de 2007), onde se dava conta das aventuras, e sobretudo desventras, de Valentim de Barros, nascido em 1916, e que muito novo começou a aprender dança, tendo fugido de casa da família na Cova do Vapor, na outra banda, para pernoitar em Lisboa, ao lado de prostitutas e marinheiros. Desta história “real”, Fernando Heitor voou para a de Mário, que passa de mão em mão, de padres para coronéis, de marinheiros para senhores bem instalados na sociedade, viaja por Paris, Argentina, Brasil, até regressar a Portugal, em pleno Estado Novo. Vestido de mulher, com gostava de andar, é preso, internado num hospício, tratado da sua “doença” com choques elétricos. O resto adivinha-se na peça…
Obra para um actor só, Flávio Gil tem uma interpretação brutal neste monólogo intenso e poético, erguendo uma personagem difícil de esquecer. O espectáculo tem pouco mais do que uma hora de duração, mas o esforço exigido a Flávio Gil é impressionante, pelo desdobrar de registos, pela dureza física, pela elegância e ductilidade dos movimentos. A peça é muito bem escrita, com uma linguagem vigorosa por vezes, mas sempre de um intimismo dilacerante, a  encenação é discreta, sem grandes artifícios, para lá da presença do actor e de meia dúzia de adereços que este vai vestindo, sugerindo situações diversas. O palco apresenta-se despido de cenários, e é neste ambiente minimalista que explode o drama e o talento de um intérprete que desde já se coloca entre os maiores portugueses da actualidade.
Aproximando-se a época dos prémios relativos a 2019, “Mário” estará certamente entre os Melhores Espectáculos e Flávio Gil entre os Melhores Actores.  

sábado, janeiro 18, 2020

AUTO DE FLORIPES (1959)




AUTO DE FLORIPES (1959)


Hoje, numa das salas da Cinemateca Portuguesa, foi projectado, em cópia nova, restaurada, “Auto de Floripes”, um filme rodado em 1959, estreado só alguns anos depois, e por fases. Esta sessão serviu ainda para dar início às celebrações dos 75 anos do Cine Clube do Porto, entidade que então produzira e realizara este documentário que, ainda hoje, se mostra um bom exemplo de cinema etnográfico. É sabido que os cine clubes portugueses tiveram um importante papel durante toda a época do Estado Novo, promovendo a cultura cinematográfica, difundindo obras essenciais, estimulando o associativismo, mantendo vivo um espírito critico contra a ditadura. Nesse particular, o Cine Clube do Porto, cremos que o mais antigo ainda em funcionamento no nosso país (fundado em 1945), manteve uma actividade intensa e invulgar a vários níveis. É de toda a justiça salientar o trabalho e a inteligência de um dos seus sócios fundadores, Henrique Alves Costa, por sinal o grande impulsionador deste projecto cinematográfico que agora regressa ao convívio com o público (anuncia-se o lançamento em DVD), e que, na altura da sua estreia, surgiu sem ficha técnica, afirmando-se como obra colectiva e quase anónima.
“Auto de Floripes” oferece um retrato do Lugar das Neves, “uma convergência de três freguesias pertencentes ao concelho de Viana do Castelo: Barroselas, Mujães e Vila de Punhe”, onde, a 5 de Agosto de cada ano, se realiza uma representação popular, integrada no programa das Festas da Senhora das Neves, que é “um drama de cariz guerreiro que se insere no “Ciclo Carolíngio”, por se inspirar na segunda parte do livro “História de Carlos Magno e dos Doze Pares de França”. De um lado os turcos, do outro os cristãos, comandados por Carlos Magno, embrenhando-se em lutas que passam pelo teatro, a dança, o canto, a pantomima, até se chegar à conversão dos infiéis e à grande cegarrega final, com Ferrabrás catolicizado e a bela Floripes, sua irmã, bem encaminhada. 
De um ponto de vista etnográfico é um documento inestimável, de uma qualidade cinematográfica muito significativa. Atenção, portanto, ao lançamento da obra em DVD. Será ainda muito interessante analisar, lado a lado, este Auto de Floripes e o “Acto da Primavera”, de Manoel de Oliveira, dada as relações obvias que se estabelecem entre ambos, e ainda os laços de amizade que uniam Henrique Alves Costa, Manoel de Oliveira e José Régio.  
Curiosamente, já vi também uma belíssima representação popular de “O Auto de Floripes na ilha do Príncipe” (há muitos anos, nos jardins da Fundação Gulbenkian, com uma embaixada teatral de São Tomé e Príncipe), obedecendo mais ou menos às mesmas características, com lutas entre cristão e mouros, certamente uma derivação africana das representações minhotas. Em superprodução! 
Com periodicidade anual, a 15 de Agosto, este Auto tem por palco a cidade de Santo António, na ilha do Príncipe, sendo o prato forte das festas populares de S. Lourenço, as mais importantes da ilha. Desta representação existe um documentário, “Floripes, o Auto de Floripes na Ilha do Príncipe” da autoria de Afonso Alves (1998).
Em 2007, o realizador Miguel Gonçalves Mendes estreia "Floripes", baseado na lenda de uma moura encantada que deambula à noite pela vila de Olhão, seduzindo os homens. Nada a ver?

sábado, dezembro 28, 2019

OS FILMES DOS OSCARS DE 2019 (4) ERA UMA VEZ EM HOLLYWOOD




ERA UMA VEZ EM HOLLYWOOD


Quentin Tarantino não é um cineasta consensual e talvez essa seja uma das suas virtudes. Não é dos autores que conseguem unanimidades e deixam todos mais ou menos satisfeitos. Tarantino é provocador e por vezes irritantemente controverso. Um filme seu, salvo raras excepções, nunca convence toda a gente, uns adoram, outros detestam, e há os que passam por ele hesitantes, mas nunca indiferentes. Raras vezes me aconteceu, até hoje, ver um filme duas vezes em dias seguidos (alguns já vi mais de 40 ou 50 vezes, mas com grandes intervalos). Aconteceu agora com “Era uma vez em Hollywood”. Por que razão?
Obviamente que achei logo na primeira visão que se tratava de um filme extremamente bem realizado, sensível à luz e à simbologia de Hollywood, magnificamente interpretado, recuperando com eficácia e, mais do que isso, com emoção, a Hollywood de final dos anos 60, precisamente do ano de 1969, ano em que aconteceu o massacre em casa de Roman Polanski e Sharon Tate, mas também, um ano e uma década de anuncia a morte de uma certa imagem de Hollywood e do cinema norte-americano.
Não foi, portanto, a qualidade da obra que me fez revisitá-la, mas sim por um lado o fascínio por esse mundo mítico do cinema e, por outro lado, uma certa mitologia cinematográfica que tem muito a ver com o universo pessoal do realizador: o mundo da “pulp fiction” (que deu o nome a uma das suas obras mais conhecidas e mais perfeitas), que tem os seus aspectos interessantes, e alguns outros altamente contestáveis. Tarantino gosta de enfatizar as qualidades de algumas dessas obras e certos actores e realizadores. O que não deixa de ser discutível no mínimo.
Compreende-se que, sendo Tarantino nos anos 60, um adolescente apaixonado pelo cinema e pela televisão, hoje tenha uma certa nostalgia por alguns desses produtos que consumia com entusiasmo. Mas já seria altura para destrinçar entre as séries de culto da televisão desses anos e as obras de Welles, Renoir, Hitchcock, Misoguchi, Buñuel ou Visconti. Nem Sergio Sollima, por muito interessante que possam ser alguns dos seus westerns spaghettis, se pode comparar a esse naipe de cineastas atrás referidos.
Depois há no filme uma mescla de factos e personagens reais e outros ficcionados que desorientam objectivamente o espectador. Aqui a razão está com Tarantino que se serve habilmente desta liberdade criativa. Temos assim em simultâneo uma Hollywood que existe, que se sente bem próxima (a recriação é magnifica sob todos os pontos de vista, desde os exteriores naturais até ao guarda-roupa, aos adereços), e uma outra que não tem existência própria que vive apenas da imaginação de Tarantino, ainda que suportada por modelos, esses sim existentes e reais.  Por exemplo, o protagonista, Rick Dalton (Leonardo DiCaprio), vedeta de séries de televisão, é uma criação do argumentista, se bem que moldada sobre Burt Reynold, este sim de existência real (era para surgir no filme, como convidado especial, mas faleceu sem o ter conseguido). Rick Dalton era cartaz em séries de western e de espionagem, e em finais de 90, está a viver um período menos brilhante da sua carreira, numa altura em que, pelo contrário, se procurava impor no mundo do cinema. Em Hollywood as hipóteses são poucas, mas um produtor amigo, Marvin Schwarz (um fabuloso Al Pacino), recomenda-lhe uma viagem até Itália, para filmar com “o segundo melhor realizador de westerns spaghettis, Sergio Sollima”. Sem grande vontade, Rick Dalton lá segue o conselho, regressa casado com uma “ragazza”, e com poucas hipóteses de manter Cliff Booth (Brad Pitt) como seu duplo e motorista privado, além de ser o seu melhor amigo e confidente privilegiado. O filme vive muito desta relação de amizade e lealdade que existe entre ambos.
Entre a verdade e a ficção, está igualmente o caso Sharon Tate (aqui interpretada por Margot Robbie), de que tanto se fala acerca dele em “Once Upon a Time in Hollywood”, e que afinal passa ao lado do filme. Rick Dalton é vizinho do casal Polanski e será a sua casa a assaltada pelos discípulos de Charles Manson que de lá saem esturricados, desenlace bem diverso do que aconteceu na realidade em Cielo Drive, na fatídica noite de 9 de Agosto de 1969. Tarantino poupa Tate e amigos à sua cruel sorte neste filme.
Cinquenta anos depois, Tarantino recorda Hollywood dos seus anos de menino (tinha sete anos em 1969), relembra a morte de uma certa ideia de cinema, e o aparecimento de uma nova geração de cineastas que criaram a Nova Hollywood, com nomes com Spielberg, Copolla, Scorsese, Lucas, entre alguns mais. Tarantino filma a sua nostalgia desses dias, capta a luz dourada dessa mítica capital de sonhos (que transforma pesadelos em sonhos, ainda hoje: “Once Upon a Time in Hollywood” é um exemplo acabado dessa mensagem, o massacre em casa de Sharon tate não acontece e os idiotas dos hippies são confrontados com o lança chamas de Rick Dalton que ele guardara num armazém e “ainda funciona” e de que maneira!), vagueia de carro pelas avenidas emolduradas de cinemas e néons que ostentam cartazes de filmes desse ano (e de outros, como nos mostra o magnifico plano das hippies da família Manson passando em frente a um monumental cartaz de “O Gigante”), penetra nos estúdios e leva-nos a assistir a algumas rodagens (outro excelente plano, um painel é lateralmente deslocado num estúdio, deixando ver o que se passa por detrás), dando tempo para ainda nos cruzarmos com algumas personagens lendárias, para lá de Sharon Tate e Roman Polanski, Bruce Lee, Steve McQueen, Sam Wanamaker, George Spahn, Charles Manson ou Jay Sebring, entre outros. Nenhum sob a aparência real, mas interpretados por actores.
Resumindo, após segunda visão, uma bela viagem pela Hollywood de outras eras, pelo fascínio dessa fábrica de sonhos, numa cuidada e esmerada reconstituição de tempo e local, com uma realização emocionada e uma interpretação excelente (para lá de todos os outros, atenção especial a uma miúda que vai longe, Margaret Qualley, a Pussycat), devendo ainda sublinhar-se a fotografia, a banda sonora musical (com êxitos daqueles anos, fazendo recordar um pouco “American Graffiti”, de Lucas) e a montagem. Um bom concorrente aos prémios que se avizinham. Em diversas categorias.


ERA UMA VEZ EM... HOLLYWOOD
Título original: Once Upon a Time... in Hollywood
Realização: Quentin Tarantino (EUA, 2019); Argumento: Quentin Tarantino; Produção: Tina Anderson, Jeffrey Chan, William Paul Clark, David Heyman, Georgia Kacandes, Shannon McIntosh, Daren Metropoulos, Quentin Tarantino, Dong Yu; Música: Mary Ramos (supervisor); Fotografia (cor): Robert Richardson; Montagem: Fred Raskin; Casting: Victoria Thomas; Design de produção: Barbara Ling; Direcção artística: Tristan Paris Bourne, John Dexter, Richard L. Johnson, Eric Sundahl, Jann K. Engel; Decoração: Nancy Haigh; Guarda-roupa: Arianne Phillips; Maquilhagem: Trish Almeida, Karen Bartek, Stephen Bettles, Jean Ann Black, Kathryn Blondell, Laura Caponera, Diana Choi, Seana Gorlick, Sian Grigg, Carey Jones, Greg Nicotero, Anna Quinn, Janine Rath, Kristen Saia, Heba Thorisdottir, Nicole Venables, Kevin Westmore, Jennifer Zide; Direcção de Produção: Georgia Kacandes, Nathan Kelly, Jason Zorigian; Assistentes de realização: Deborah Chung, William Paul Clark, Mohmmad Yunus Ismail, Brendan Lee, Christopher T. Sadler; Departamento de arte: Richard K. Buoen, Susannah Carradine, Tina Charad, Lisa M. Kittredge-Rodriguez, Vanessa Riegel, Jessica Ripka, Chris Snyder, etc. Som: Harry Cohen, Tom Hartig, Gary A. Hecker, Michael Hertlein, Sylvain Lasseur, etc; Efeitos especiais: Jeremy Hays; Efeitos visuais: Andrew Kalicki, Michael Perdew, Kevin Souls, Raphael A. Pimentel, Chaz Pizani, Eddie Porter; Companhias de produção:Columbia Pictures, Bona Film Group, Heyday Films; Intérpretes: Leonardo DiCaprio (Rick Dalton), Brad Pitt (Cliff Booth), Margot Robbie (Sharon Tate), Emile Hirsch (Jay Sebring), Margaret Qualley (Pussycat), Al Pacino (Marvin Schwarz), Timothy Olyphant (James Stacy), Julia Butters (Trudi Fraser), Austin Butler (Tex Watson), Dakota Fanning (Squeaky Fromme), Bruce Dern (George Spahn), Mike Moh (Bruce Lee), Luke Perry (Wayne Maunder), Damian Lewis (Steve McQueen), Nicholas Hammond (Sam Wanamaker), Samantha Robinson (Abigail Folger), Rafal Zawierucha (Roman Polanski), Lorenza Izzo (Francesca Capucci), Costa Ronin, Damon Herriman, Lena Dunham, Madisen Beaty, Mikey Madison, James Landry Hébert, Maya Hawke, Victoria Pedretti, Sydney Sweeney, Harley Quinn Smith, Marco Rodríguez, Ramón Franco, Clu Gulager, Kurt Russell, Zoë Bell, Michael Madsen, Tim Roth, Brenda Vaccaro,  etc. Duração: 161 minutos; Distribuição em Portugal: Atalanta Filmes; Classificação etária: M/ 16 anos; Data de estreia em Portugal: 15 de Agosto de 2019.

OS FILMES DOS OSCARS DE 2019 (3) OS DOIS PAPAS




OS DOIS PAPAS

Fernando Meirelles, o realizador brasileiro que já nos dera “Cidade de Deus”, “Ensaio Sobre a Cegueira” e “O Fiel Jardineiro”, entre outros, regressa com um filme polémico, entre a restituição histórica e a ficção, colocando lado a lado dois Papas, o anterior Papa Bento XVI e o actual Papa Francisco. Este encontro tem muito de imaginado, porém assente em documentos e testemunhos, devidamente trabalhados por um especialista neste tipo de filmes, mais ou menos biográficos, Anthony McCarten, o mesmo argumentista de “Bohemian Rhapsody”, “A Hora Mais Negra” ou “A Teoria de Tudo”.
Claro que os Papas Bento XVI e Francisco se encontraram e terão abordado muitos dos diversos temas de que se ocupa “Os Dois Papas”. Muito teriam de falar sobre as suas vidas anteriores e sobre perspectivas dos seus pontificados. Bento XVI, tradicionalista e conservador, era conhecido por ser o “nazi”, enquanto Francisco vem de um passado nebuloso, durante a ditadura militar na Argentina, sendo agora conhecido por uma imagem moderna, amante de tango e de futebol (adepto fanático do São Lourenço), aberto a transformações e pouco dado a exageros ritualistas e ostensivos, mais dado a ajudar os pobres do que “esquecer” as ofensas dos poderosos. Nas conversas imaginadas pelos responsáveis de “Os Dois Papas” há referências a temas “quentes”, como a complacência de Bento XVI para com alguns pedófilos, ou o possível “colaboracionismo” de Francisco com a ditadura militar argentina, mas também questões internas da igreja católica e dos seus fieis, a sua perda de influência no mundo, a sua rigidez quanto à homossexualidade, ao casamento no sacerdócio, ao divórcio entre crentes, etc.
Neste aspecto, a obra apresenta-se como que uma enciclopédia sobre temas que interessam à igreja católica ou às sociedades actuais, sendo interessante verificar a vigorosa troca de conceitos inicial entre as duas personalidades, que depois se aproximam, numa reconciliação com algo de surpreendente. Toda esta dialéctica funciona ainda como pretexto para se entrar no universo do Vaticano, curiosamente todo ele reconstruído, com grande eficácia, noutros locais, pois o Vaticano não deu autorização para filmagens no seu interior. Mas o resultado final é brilhante nesse aspeto, e é objectivamente um dos grandes pontos fortes da obra, explorada plasticamente pela belíssima fotografia de César Charlone.
“Os Dois Papas” conta ainda com dois excelentes actores, Jonathan Pryce (Papa Francisco) e Anthony Hopkins (Papa Bento XVI), o que, só por si, justificaria plenamente a visão do filme. São dois actores magníficos, que compõem personalidades distantes uma da outra, mas sem nunca forçarem na nota, procurando a subtileza e a eficácia minimalista, fazendo ressaltar características e maneiras de ser de forma fulgurante, sem nada sublinharem de forma redundante.
Mais uma produção Netflix que rapidamente vai revolucionando a forma de ver cinema, oferecendo aos espectadores uma variedade de proposta, algumas de grande qualidade, que certamente irá ter as suas consequências na afluência às salas, cada vez mais entregues a uma população de adolescentes entusiastas pelas façanhas dos super-heróis.

OS DOIS PAPAS
Título original: The Two Popes
Realização: Fernando Meirelles (EUA, Inglaterra, Itália, Argentina, 2019); Argumento: Anthony McCarten; Produção: Mark Bauch, Jonathan Eirich, Marcelo La Torre, Dan Lin, James Joseph McDonald, Tracey Seaward; Música: Enzo Sisti, Bryce Dessner; Fotografia (cor): César Charlone; Montagem: Fernando Stutz; Casting: Barbara Giordani, Nina Gold, Francesco Vedovati; Design de produção: Mark Tildesley; Direcção artística: Saverio Sammali; Decoração: Livia Del Priore, Véronique Melery, Natalia Mendiburu, Germán Naglieri; Guarda-roupa: Luca Canfora, Beatriz De Benedetto; Maquilhagem: Angela Garacija, Victoria Holt, Marese Langan, Jorge Palacios, Stuart Richards, Denise Stocker; Direcção de Produção: Tania Blunden, Vito Colazzo, Federico Foti, Rachael Havercroft, Rodolfo Iriñiz, Betsy Megel, Michael Morgan, Martin Rago, Hallam Rice-Edwards, Massimiliano Sisti, Katherine Tibbetts; Assistentes de realização: David Ambrosini, Alberto Di Giovanni, Alessandra Fortuna, Giorgia Geminiani, Olivia Lloyd, Barrie McCulloch, Luca Padrini, Esteban Pizarro, Marcello Pozzo, Charlie Reed, Matías Risi, Gwyn Sannia, Giuseppe Tedeschi, Marcos Vigo, Chiara Frosi; Departamento de arte: Tommaso Borrelli, Giuseppe Cafagna, Tommaso Dubla, Antonio Fraulo, Emiliano Konoba, Rowan Laidlaw, Campbell Mitchell, Mauro Nati,  Karin Pavone;  Som: Orin Beaton, Martin Cantwell, Phil Lee, Michael Maroussas, Alberto Padoan, Becki Ponting, Ian Wilson; Efeitos visuais: Nicholas  Bennett, Jolien Buijs, Ali Pak, Sona Pak, Emma White, Ben Wilson;  Companhias de produção: Netflix; Intérpretes: Jonathan Pryce (Papa Francisco), Anthony Hopkins (Papa Bento XVI), Juan Minujín (Papa Francisco, jovem), Luis Gnecco (Cardial Hummes), Cristina Banegas (Lisabetta), María Ucedo (Esther Ballestrine), Renato Scarpa, Sidney Cole, Achille Brugnini, Federico Torre, Germán de Silva, Lisandro Fiks, Libero De Rienzo, Willie Jonah, Martina Sammarco, Juan Miguel Arias, Joselo Bella, Luis Alfredo Huerga Reyna, Nicola Acunzo, Sergio Santana, Cecilia Dazzi, Maria Florencia Larrea Arias, Hernán Acentares, Abril Chiara Castelli, etc. Duração: 125 minutos; Distribuição em Portugal: Netflix; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 22 de Dezembro de 2019.

sexta-feira, dezembro 20, 2019

OS FILMES DOS OSCARS DE 2019 (2) MARRIAGE STORY




MARRIAGE STORY

A história é muito simples. Charlie (Adam Driver) e Nicole (Scarlett Johansson) são casados e têm um filho. Ele é director e encenador de uma companhia de teatro em Nova Iorque, ela é actriz dessa mesma companhia. Aparentemente dão-se bem, mas ela sente-se um pouco sufocada pela “direcção” do marido. Ela sente-se melhor em Los Angeles, onde pode trabalhar em televisão. Ele é mais adepto de Nova Iorque onde tem a companhia. Instala-se um certo mau ambiente que os leva a requerem o divórcio. Tudo não direi no melhor dos mundos, mas num clima de respeito e civilidade e mesmo de algum amor remanescente, até entrarem em acção os advogados de ambas as partes. Particularmente Nora Fanshaw (Laura Dern) que vai minando a harmonia e instalando o conflito. “Marriage Story” é isto.
Ou seja. Isto é a base, mas o filme é, sobretudo, o que transcende esta pequena sinopse. O filme de Noah Baumbach, que escreve também o argumento, analisa personagens e situações, escalpeliza pequenos nadas, conversas, esmiúça relações e, sem nunca atingir o drama profundo, sem nunca permitir que os advogados corrompam a relativa harmonia do casal, mesmo em vésperas de divórcio, consegue a extraordinária proeza de ser apaixonante de seguir sem nunca esmorecer, acompanhando uma aventura interior como raras vezes se viu concretizada em imagens no cinema moderno.
Para isso, muito contribui o argumento, de uma sensibilidade e inteligência invulgares, com um diálogo brilhante, sem nunca ser rebuscado, bem como a realização que quase se limita (o que é tanto!) a acompanhar com delicadeza e pudor as personagens. Assim sendo, são precisamente as personagens que adquirem um destacado papel neste filme que é sobretudo uma lição de representação. Noah Baumbach sabe disso e faz brilhar o seu elenco, colocando a câmara bem em cima dos rostos de cada um e deixando-os evoluir ao sabor do seu talento. E que talento, meu Deus, Adam Driver, Scarlett Johansson e Laura Dern (mesmo Alan Alda) aqui demonstram! Há alturas de absoluto fascínio protagonizadas por este trio de actores fabulosos que, sem qualquer apoio, com cenários quase límpidos, frente a uma câmara fixa, nos oferecem planos de uma intensidade dramática e de um humanismo invulgares. Este é, obviamente, um filme de actores, servidos por um texto magnifico e uma realização absolutamente invulgar pela sua sobriedade e discrição. Numa época em que o cinema parece estar submerso pelos efeitos especiais e pela monumentalidade cacofónica dos brutais blockbusters da grande industria, um filme como “Marriage Story” é um bálsamo para quem ainda acredita nas potencialidades do grande cinema.
Todos os prémios que lhe caírem em cima serão bem-vindos.



Título original: Marriage Story
Realização: Noah Baumbach (EUA, 2019); Argumento: Noah Baumbach; Produção: Noah Baumbach, Leslie Converse, David Heyman, Marshall Johnson, Tracey Landon, Craig Shilowich; Música: Randy Newman; Fotografia (cor): Robbie Ryan; Montagem: Jennifer Lame; Casting: Douglas Aibel, Francine Maisler; Design de produção: Jade Healy; Direcção artística: Andrew Hull, Joshua Petersen; Decoração: Lizzie Boyle, Nicki Ritchie, Adam Willis; Guarda-roupa: Mark Bridges; Maquilhagem: Kathleen Brown, Deborah La Mia Denaver, Claire Mahony, Tracie Morrison, Barbara Olvera, Ann Pala, Aaron Saucier, Laine Trzinski; Direcção de Produção: Michelle Brattson, Tracey Landon, Mackenzie Luzzi, Michael Morgan, Wednesday Standley; Assistentes de realização: Dustin Bewley, Ryan Robert Howard, Karen Kane, Narbeh Nazarian, Darin Rivetti, Paul Schmitz, Pete Waterman; Departamento de arte: Gabriel Alicto Chavez, Destiny Grant, Rose Leiker, RosaMaria Sasso, Matt Sazzman, Dorothy Street, Roland Trafton, Josh Votaw, Sam Wegner, Ashby Whorf, etc. Som: Amanda Jacques, Randall L. Johnson, Avi Laniado, Lisa Pinero, Jac Rubenstein, Christopher Scarabosio, Cathy Shirk, etc.  Efeitos especiais: Joe Pancake; Efeitos visuais: Ruben Gloria, Vico Sharabani; Companhias de produção: Heyday Films, Netflix; Intérpretes: Adam Driver (Charlie), Scarlett Johansson (Nicole), Laura Dern (Nora Fanshaw), Ray Liotta (Jay Marotta), Alan Alda (Bert Spitz), Azhy Robertson (Henry Barber), Julie Hagerty (Sandra), Merritt Wever (Cassie), Mark O'Brien (Carter), Matthew Shear (Terry), Brooke Bloom (Mary Ann), Kyle Bornheimer (Ted), Mickey Sumner (Beth), Wallace Shawn (Frank), Martha Kelly (Avaliadora), Julia Greer, Matthew Maher, Eric Berryman, David Turner, Gideon Glick, Jasmine Cephas Jones, Raymond J. Lee, Mary Wiseman, Pete Simpson, etc. Duração: 137 minutos; Distribuição em Portugal: Netflix; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: Dezembro de 2019.