sábado, dezembro 28, 2019

OS FILMES DOS OSCARS DE 2019 (4) ERA UMA VEZ EM HOLLYWOOD




ERA UMA VEZ EM HOLLYWOOD


Quentin Tarantino não é um cineasta consensual e talvez essa seja uma das suas virtudes. Não é dos autores que conseguem unanimidades e deixam todos mais ou menos satisfeitos. Tarantino é provocador e por vezes irritantemente controverso. Um filme seu, salvo raras excepções, nunca convence toda a gente, uns adoram, outros detestam, e há os que passam por ele hesitantes, mas nunca indiferentes. Raras vezes me aconteceu, até hoje, ver um filme duas vezes em dias seguidos (alguns já vi mais de 40 ou 50 vezes, mas com grandes intervalos). Aconteceu agora com “Era uma vez em Hollywood”. Por que razão?
Obviamente que achei logo na primeira visão que se tratava de um filme extremamente bem realizado, sensível à luz e à simbologia de Hollywood, magnificamente interpretado, recuperando com eficácia e, mais do que isso, com emoção, a Hollywood de final dos anos 60, precisamente do ano de 1969, ano em que aconteceu o massacre em casa de Roman Polanski e Sharon Tate, mas também, um ano e uma década de anuncia a morte de uma certa imagem de Hollywood e do cinema norte-americano.
Não foi, portanto, a qualidade da obra que me fez revisitá-la, mas sim por um lado o fascínio por esse mundo mítico do cinema e, por outro lado, uma certa mitologia cinematográfica que tem muito a ver com o universo pessoal do realizador: o mundo da “pulp fiction” (que deu o nome a uma das suas obras mais conhecidas e mais perfeitas), que tem os seus aspectos interessantes, e alguns outros altamente contestáveis. Tarantino gosta de enfatizar as qualidades de algumas dessas obras e certos actores e realizadores. O que não deixa de ser discutível no mínimo.
Compreende-se que, sendo Tarantino nos anos 60, um adolescente apaixonado pelo cinema e pela televisão, hoje tenha uma certa nostalgia por alguns desses produtos que consumia com entusiasmo. Mas já seria altura para destrinçar entre as séries de culto da televisão desses anos e as obras de Welles, Renoir, Hitchcock, Misoguchi, Buñuel ou Visconti. Nem Sergio Sollima, por muito interessante que possam ser alguns dos seus westerns spaghettis, se pode comparar a esse naipe de cineastas atrás referidos.
Depois há no filme uma mescla de factos e personagens reais e outros ficcionados que desorientam objectivamente o espectador. Aqui a razão está com Tarantino que se serve habilmente desta liberdade criativa. Temos assim em simultâneo uma Hollywood que existe, que se sente bem próxima (a recriação é magnifica sob todos os pontos de vista, desde os exteriores naturais até ao guarda-roupa, aos adereços), e uma outra que não tem existência própria que vive apenas da imaginação de Tarantino, ainda que suportada por modelos, esses sim existentes e reais.  Por exemplo, o protagonista, Rick Dalton (Leonardo DiCaprio), vedeta de séries de televisão, é uma criação do argumentista, se bem que moldada sobre Burt Reynold, este sim de existência real (era para surgir no filme, como convidado especial, mas faleceu sem o ter conseguido). Rick Dalton era cartaz em séries de western e de espionagem, e em finais de 90, está a viver um período menos brilhante da sua carreira, numa altura em que, pelo contrário, se procurava impor no mundo do cinema. Em Hollywood as hipóteses são poucas, mas um produtor amigo, Marvin Schwarz (um fabuloso Al Pacino), recomenda-lhe uma viagem até Itália, para filmar com “o segundo melhor realizador de westerns spaghettis, Sergio Sollima”. Sem grande vontade, Rick Dalton lá segue o conselho, regressa casado com uma “ragazza”, e com poucas hipóteses de manter Cliff Booth (Brad Pitt) como seu duplo e motorista privado, além de ser o seu melhor amigo e confidente privilegiado. O filme vive muito desta relação de amizade e lealdade que existe entre ambos.
Entre a verdade e a ficção, está igualmente o caso Sharon Tate (aqui interpretada por Margot Robbie), de que tanto se fala acerca dele em “Once Upon a Time in Hollywood”, e que afinal passa ao lado do filme. Rick Dalton é vizinho do casal Polanski e será a sua casa a assaltada pelos discípulos de Charles Manson que de lá saem esturricados, desenlace bem diverso do que aconteceu na realidade em Cielo Drive, na fatídica noite de 9 de Agosto de 1969. Tarantino poupa Tate e amigos à sua cruel sorte neste filme.
Cinquenta anos depois, Tarantino recorda Hollywood dos seus anos de menino (tinha sete anos em 1969), relembra a morte de uma certa ideia de cinema, e o aparecimento de uma nova geração de cineastas que criaram a Nova Hollywood, com nomes com Spielberg, Copolla, Scorsese, Lucas, entre alguns mais. Tarantino filma a sua nostalgia desses dias, capta a luz dourada dessa mítica capital de sonhos (que transforma pesadelos em sonhos, ainda hoje: “Once Upon a Time in Hollywood” é um exemplo acabado dessa mensagem, o massacre em casa de Sharon tate não acontece e os idiotas dos hippies são confrontados com o lança chamas de Rick Dalton que ele guardara num armazém e “ainda funciona” e de que maneira!), vagueia de carro pelas avenidas emolduradas de cinemas e néons que ostentam cartazes de filmes desse ano (e de outros, como nos mostra o magnifico plano das hippies da família Manson passando em frente a um monumental cartaz de “O Gigante”), penetra nos estúdios e leva-nos a assistir a algumas rodagens (outro excelente plano, um painel é lateralmente deslocado num estúdio, deixando ver o que se passa por detrás), dando tempo para ainda nos cruzarmos com algumas personagens lendárias, para lá de Sharon Tate e Roman Polanski, Bruce Lee, Steve McQueen, Sam Wanamaker, George Spahn, Charles Manson ou Jay Sebring, entre outros. Nenhum sob a aparência real, mas interpretados por actores.
Resumindo, após segunda visão, uma bela viagem pela Hollywood de outras eras, pelo fascínio dessa fábrica de sonhos, numa cuidada e esmerada reconstituição de tempo e local, com uma realização emocionada e uma interpretação excelente (para lá de todos os outros, atenção especial a uma miúda que vai longe, Margaret Qualley, a Pussycat), devendo ainda sublinhar-se a fotografia, a banda sonora musical (com êxitos daqueles anos, fazendo recordar um pouco “American Graffiti”, de Lucas) e a montagem. Um bom concorrente aos prémios que se avizinham. Em diversas categorias.


ERA UMA VEZ EM... HOLLYWOOD
Título original: Once Upon a Time... in Hollywood
Realização: Quentin Tarantino (EUA, 2019); Argumento: Quentin Tarantino; Produção: Tina Anderson, Jeffrey Chan, William Paul Clark, David Heyman, Georgia Kacandes, Shannon McIntosh, Daren Metropoulos, Quentin Tarantino, Dong Yu; Música: Mary Ramos (supervisor); Fotografia (cor): Robert Richardson; Montagem: Fred Raskin; Casting: Victoria Thomas; Design de produção: Barbara Ling; Direcção artística: Tristan Paris Bourne, John Dexter, Richard L. Johnson, Eric Sundahl, Jann K. Engel; Decoração: Nancy Haigh; Guarda-roupa: Arianne Phillips; Maquilhagem: Trish Almeida, Karen Bartek, Stephen Bettles, Jean Ann Black, Kathryn Blondell, Laura Caponera, Diana Choi, Seana Gorlick, Sian Grigg, Carey Jones, Greg Nicotero, Anna Quinn, Janine Rath, Kristen Saia, Heba Thorisdottir, Nicole Venables, Kevin Westmore, Jennifer Zide; Direcção de Produção: Georgia Kacandes, Nathan Kelly, Jason Zorigian; Assistentes de realização: Deborah Chung, William Paul Clark, Mohmmad Yunus Ismail, Brendan Lee, Christopher T. Sadler; Departamento de arte: Richard K. Buoen, Susannah Carradine, Tina Charad, Lisa M. Kittredge-Rodriguez, Vanessa Riegel, Jessica Ripka, Chris Snyder, etc. Som: Harry Cohen, Tom Hartig, Gary A. Hecker, Michael Hertlein, Sylvain Lasseur, etc; Efeitos especiais: Jeremy Hays; Efeitos visuais: Andrew Kalicki, Michael Perdew, Kevin Souls, Raphael A. Pimentel, Chaz Pizani, Eddie Porter; Companhias de produção:Columbia Pictures, Bona Film Group, Heyday Films; Intérpretes: Leonardo DiCaprio (Rick Dalton), Brad Pitt (Cliff Booth), Margot Robbie (Sharon Tate), Emile Hirsch (Jay Sebring), Margaret Qualley (Pussycat), Al Pacino (Marvin Schwarz), Timothy Olyphant (James Stacy), Julia Butters (Trudi Fraser), Austin Butler (Tex Watson), Dakota Fanning (Squeaky Fromme), Bruce Dern (George Spahn), Mike Moh (Bruce Lee), Luke Perry (Wayne Maunder), Damian Lewis (Steve McQueen), Nicholas Hammond (Sam Wanamaker), Samantha Robinson (Abigail Folger), Rafal Zawierucha (Roman Polanski), Lorenza Izzo (Francesca Capucci), Costa Ronin, Damon Herriman, Lena Dunham, Madisen Beaty, Mikey Madison, James Landry Hébert, Maya Hawke, Victoria Pedretti, Sydney Sweeney, Harley Quinn Smith, Marco Rodríguez, Ramón Franco, Clu Gulager, Kurt Russell, Zoë Bell, Michael Madsen, Tim Roth, Brenda Vaccaro,  etc. Duração: 161 minutos; Distribuição em Portugal: Atalanta Filmes; Classificação etária: M/ 16 anos; Data de estreia em Portugal: 15 de Agosto de 2019.

OS FILMES DOS OSCARS DE 2019 (3) OS DOIS PAPAS




OS DOIS PAPAS

Fernando Meirelles, o realizador brasileiro que já nos dera “Cidade de Deus”, “Ensaio Sobre a Cegueira” e “O Fiel Jardineiro”, entre outros, regressa com um filme polémico, entre a restituição histórica e a ficção, colocando lado a lado dois Papas, o anterior Papa Bento XVI e o actual Papa Francisco. Este encontro tem muito de imaginado, porém assente em documentos e testemunhos, devidamente trabalhados por um especialista neste tipo de filmes, mais ou menos biográficos, Anthony McCarten, o mesmo argumentista de “Bohemian Rhapsody”, “A Hora Mais Negra” ou “A Teoria de Tudo”.
Claro que os Papas Bento XVI e Francisco se encontraram e terão abordado muitos dos diversos temas de que se ocupa “Os Dois Papas”. Muito teriam de falar sobre as suas vidas anteriores e sobre perspectivas dos seus pontificados. Bento XVI, tradicionalista e conservador, era conhecido por ser o “nazi”, enquanto Francisco vem de um passado nebuloso, durante a ditadura militar na Argentina, sendo agora conhecido por uma imagem moderna, amante de tango e de futebol (adepto fanático do São Lourenço), aberto a transformações e pouco dado a exageros ritualistas e ostensivos, mais dado a ajudar os pobres do que “esquecer” as ofensas dos poderosos. Nas conversas imaginadas pelos responsáveis de “Os Dois Papas” há referências a temas “quentes”, como a complacência de Bento XVI para com alguns pedófilos, ou o possível “colaboracionismo” de Francisco com a ditadura militar argentina, mas também questões internas da igreja católica e dos seus fieis, a sua perda de influência no mundo, a sua rigidez quanto à homossexualidade, ao casamento no sacerdócio, ao divórcio entre crentes, etc.
Neste aspecto, a obra apresenta-se como que uma enciclopédia sobre temas que interessam à igreja católica ou às sociedades actuais, sendo interessante verificar a vigorosa troca de conceitos inicial entre as duas personalidades, que depois se aproximam, numa reconciliação com algo de surpreendente. Toda esta dialéctica funciona ainda como pretexto para se entrar no universo do Vaticano, curiosamente todo ele reconstruído, com grande eficácia, noutros locais, pois o Vaticano não deu autorização para filmagens no seu interior. Mas o resultado final é brilhante nesse aspeto, e é objectivamente um dos grandes pontos fortes da obra, explorada plasticamente pela belíssima fotografia de César Charlone.
“Os Dois Papas” conta ainda com dois excelentes actores, Jonathan Pryce (Papa Francisco) e Anthony Hopkins (Papa Bento XVI), o que, só por si, justificaria plenamente a visão do filme. São dois actores magníficos, que compõem personalidades distantes uma da outra, mas sem nunca forçarem na nota, procurando a subtileza e a eficácia minimalista, fazendo ressaltar características e maneiras de ser de forma fulgurante, sem nada sublinharem de forma redundante.
Mais uma produção Netflix que rapidamente vai revolucionando a forma de ver cinema, oferecendo aos espectadores uma variedade de proposta, algumas de grande qualidade, que certamente irá ter as suas consequências na afluência às salas, cada vez mais entregues a uma população de adolescentes entusiastas pelas façanhas dos super-heróis.

OS DOIS PAPAS
Título original: The Two Popes
Realização: Fernando Meirelles (EUA, Inglaterra, Itália, Argentina, 2019); Argumento: Anthony McCarten; Produção: Mark Bauch, Jonathan Eirich, Marcelo La Torre, Dan Lin, James Joseph McDonald, Tracey Seaward; Música: Enzo Sisti, Bryce Dessner; Fotografia (cor): César Charlone; Montagem: Fernando Stutz; Casting: Barbara Giordani, Nina Gold, Francesco Vedovati; Design de produção: Mark Tildesley; Direcção artística: Saverio Sammali; Decoração: Livia Del Priore, Véronique Melery, Natalia Mendiburu, Germán Naglieri; Guarda-roupa: Luca Canfora, Beatriz De Benedetto; Maquilhagem: Angela Garacija, Victoria Holt, Marese Langan, Jorge Palacios, Stuart Richards, Denise Stocker; Direcção de Produção: Tania Blunden, Vito Colazzo, Federico Foti, Rachael Havercroft, Rodolfo Iriñiz, Betsy Megel, Michael Morgan, Martin Rago, Hallam Rice-Edwards, Massimiliano Sisti, Katherine Tibbetts; Assistentes de realização: David Ambrosini, Alberto Di Giovanni, Alessandra Fortuna, Giorgia Geminiani, Olivia Lloyd, Barrie McCulloch, Luca Padrini, Esteban Pizarro, Marcello Pozzo, Charlie Reed, Matías Risi, Gwyn Sannia, Giuseppe Tedeschi, Marcos Vigo, Chiara Frosi; Departamento de arte: Tommaso Borrelli, Giuseppe Cafagna, Tommaso Dubla, Antonio Fraulo, Emiliano Konoba, Rowan Laidlaw, Campbell Mitchell, Mauro Nati,  Karin Pavone;  Som: Orin Beaton, Martin Cantwell, Phil Lee, Michael Maroussas, Alberto Padoan, Becki Ponting, Ian Wilson; Efeitos visuais: Nicholas  Bennett, Jolien Buijs, Ali Pak, Sona Pak, Emma White, Ben Wilson;  Companhias de produção: Netflix; Intérpretes: Jonathan Pryce (Papa Francisco), Anthony Hopkins (Papa Bento XVI), Juan Minujín (Papa Francisco, jovem), Luis Gnecco (Cardial Hummes), Cristina Banegas (Lisabetta), María Ucedo (Esther Ballestrine), Renato Scarpa, Sidney Cole, Achille Brugnini, Federico Torre, Germán de Silva, Lisandro Fiks, Libero De Rienzo, Willie Jonah, Martina Sammarco, Juan Miguel Arias, Joselo Bella, Luis Alfredo Huerga Reyna, Nicola Acunzo, Sergio Santana, Cecilia Dazzi, Maria Florencia Larrea Arias, Hernán Acentares, Abril Chiara Castelli, etc. Duração: 125 minutos; Distribuição em Portugal: Netflix; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 22 de Dezembro de 2019.

sexta-feira, dezembro 20, 2019

OS FILMES DOS OSCARS DE 2019 (2) MARRIAGE STORY




MARRIAGE STORY

A história é muito simples. Charlie (Adam Driver) e Nicole (Scarlett Johansson) são casados e têm um filho. Ele é director e encenador de uma companhia de teatro em Nova Iorque, ela é actriz dessa mesma companhia. Aparentemente dão-se bem, mas ela sente-se um pouco sufocada pela “direcção” do marido. Ela sente-se melhor em Los Angeles, onde pode trabalhar em televisão. Ele é mais adepto de Nova Iorque onde tem a companhia. Instala-se um certo mau ambiente que os leva a requerem o divórcio. Tudo não direi no melhor dos mundos, mas num clima de respeito e civilidade e mesmo de algum amor remanescente, até entrarem em acção os advogados de ambas as partes. Particularmente Nora Fanshaw (Laura Dern) que vai minando a harmonia e instalando o conflito. “Marriage Story” é isto.
Ou seja. Isto é a base, mas o filme é, sobretudo, o que transcende esta pequena sinopse. O filme de Noah Baumbach, que escreve também o argumento, analisa personagens e situações, escalpeliza pequenos nadas, conversas, esmiúça relações e, sem nunca atingir o drama profundo, sem nunca permitir que os advogados corrompam a relativa harmonia do casal, mesmo em vésperas de divórcio, consegue a extraordinária proeza de ser apaixonante de seguir sem nunca esmorecer, acompanhando uma aventura interior como raras vezes se viu concretizada em imagens no cinema moderno.
Para isso, muito contribui o argumento, de uma sensibilidade e inteligência invulgares, com um diálogo brilhante, sem nunca ser rebuscado, bem como a realização que quase se limita (o que é tanto!) a acompanhar com delicadeza e pudor as personagens. Assim sendo, são precisamente as personagens que adquirem um destacado papel neste filme que é sobretudo uma lição de representação. Noah Baumbach sabe disso e faz brilhar o seu elenco, colocando a câmara bem em cima dos rostos de cada um e deixando-os evoluir ao sabor do seu talento. E que talento, meu Deus, Adam Driver, Scarlett Johansson e Laura Dern (mesmo Alan Alda) aqui demonstram! Há alturas de absoluto fascínio protagonizadas por este trio de actores fabulosos que, sem qualquer apoio, com cenários quase límpidos, frente a uma câmara fixa, nos oferecem planos de uma intensidade dramática e de um humanismo invulgares. Este é, obviamente, um filme de actores, servidos por um texto magnifico e uma realização absolutamente invulgar pela sua sobriedade e discrição. Numa época em que o cinema parece estar submerso pelos efeitos especiais e pela monumentalidade cacofónica dos brutais blockbusters da grande industria, um filme como “Marriage Story” é um bálsamo para quem ainda acredita nas potencialidades do grande cinema.
Todos os prémios que lhe caírem em cima serão bem-vindos.



Título original: Marriage Story
Realização: Noah Baumbach (EUA, 2019); Argumento: Noah Baumbach; Produção: Noah Baumbach, Leslie Converse, David Heyman, Marshall Johnson, Tracey Landon, Craig Shilowich; Música: Randy Newman; Fotografia (cor): Robbie Ryan; Montagem: Jennifer Lame; Casting: Douglas Aibel, Francine Maisler; Design de produção: Jade Healy; Direcção artística: Andrew Hull, Joshua Petersen; Decoração: Lizzie Boyle, Nicki Ritchie, Adam Willis; Guarda-roupa: Mark Bridges; Maquilhagem: Kathleen Brown, Deborah La Mia Denaver, Claire Mahony, Tracie Morrison, Barbara Olvera, Ann Pala, Aaron Saucier, Laine Trzinski; Direcção de Produção: Michelle Brattson, Tracey Landon, Mackenzie Luzzi, Michael Morgan, Wednesday Standley; Assistentes de realização: Dustin Bewley, Ryan Robert Howard, Karen Kane, Narbeh Nazarian, Darin Rivetti, Paul Schmitz, Pete Waterman; Departamento de arte: Gabriel Alicto Chavez, Destiny Grant, Rose Leiker, RosaMaria Sasso, Matt Sazzman, Dorothy Street, Roland Trafton, Josh Votaw, Sam Wegner, Ashby Whorf, etc. Som: Amanda Jacques, Randall L. Johnson, Avi Laniado, Lisa Pinero, Jac Rubenstein, Christopher Scarabosio, Cathy Shirk, etc.  Efeitos especiais: Joe Pancake; Efeitos visuais: Ruben Gloria, Vico Sharabani; Companhias de produção: Heyday Films, Netflix; Intérpretes: Adam Driver (Charlie), Scarlett Johansson (Nicole), Laura Dern (Nora Fanshaw), Ray Liotta (Jay Marotta), Alan Alda (Bert Spitz), Azhy Robertson (Henry Barber), Julie Hagerty (Sandra), Merritt Wever (Cassie), Mark O'Brien (Carter), Matthew Shear (Terry), Brooke Bloom (Mary Ann), Kyle Bornheimer (Ted), Mickey Sumner (Beth), Wallace Shawn (Frank), Martha Kelly (Avaliadora), Julia Greer, Matthew Maher, Eric Berryman, David Turner, Gideon Glick, Jasmine Cephas Jones, Raymond J. Lee, Mary Wiseman, Pete Simpson, etc. Duração: 137 minutos; Distribuição em Portugal: Netflix; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: Dezembro de 2019.  

domingo, dezembro 15, 2019

OS FILMES DOS OSCARS DE 2019 (1) O IRLANDÊS




OS FILMES DOS OSCARS DE 2020 (1)


O IRLANDÊS

Vão continuar a ser realizados filmes sobre gangsters, não tenho dúvidas. Mas a verdade é que depois de “O Irlandês”, de Martin Scorsese, parece estar tudo dito sobre este tipo de filmes. Na verdade, esta última obra de Scorsese parece constituir-se como que uma enciclopédia dos principais temas emergentes no chamado filme de gangsters, praticamente desde “Scarface, o Homem da Cicatriz”, de Howard Hawks, até ao presente.
Com o talento que é desde sempre reconhecido a este cineasta para se ambientar em território do crime organizado em terras norte-americanas, mas com herança indiscutível no passado italiano (a mafia siciliana que atracou em Nova Iorque e daí se distribuiu por todo o território ianque), “O Irlandês” parte de uma história real, contada pelo próprio Frank Sheeran, um irlandês que se colocou ao serviço da Máfia italo-americana e que escreveu as memórias sobre as quais o argumento do filme se baseia.
São três horas e meia de duração, que só se podem ver, por agora (e não sabemos se no futuro) na Netflix, em sistema de streaming, que tudo indica veio para ficar e para causar alguns engulhos às salas de cinema tradicionais e à própria comercialização de DVDs e Blu-rays. Neste contexto, as salas de cinema já reagiram, e instituições como a Academia de Cinema de Hollywood, que promove a distribuição dos Oscars, já tentaram boicotar os filmes produzidos pela Netflix, procurando ignorá-los na sua cerimónia, mas como se viu no ano passado com “Roma”, e como se irá ver este ano com várias produções, o streaming veio para ficar, com a Netflix, mas igualmente com HBO, Amazon ou Walt Disney, entre várias outras alternativas que se avizinham.
“O Irlandês” parte, portanto, da autobiografia de Frank Sheeran (Robert De Niro) e acompanha a sua trajectória desde camionista em Filadélfia até braço direito dos chefes mafiosos Russell Bufalino (Joe Pesci) e Angelo Bruno (Harvey Keitel), passando depois a colaborador directo de Jimmy Hoffa (Al Pacino), o chefe sindicalista envolvido com a mafia, desaparecido em julho de 1975, e cujo corpo nunca encontrado.
Por este curto resumo se pode ver que “O Irlandês” reúne várias vertentes sob que o filme de gangsters pode ser observado. Mas há ainda outras questões que a obra coloca, quase todas elas de índole política, como as relações entre os EUA e Cuba, durante a invasão da baía dos porcos, o assassinato de John F. Kennedy, e a influência da mafia neste acontecimento, as implicações de J. Edgar Hoover e do FBI na luta contra o crime organizado, enfim um nunca mais acabar de interligações extremamente perigosas e conflituosas, mostrando como a mafia se infiltrava em todos os quadrantes da sociedade, corrompendo e submetendo todos os poderes ao seu poder.
Scorsese desde muito cedo na sua carreira profissional, e obviamente em função da sua ascendência italiana, que se interessou pelo crime, pela mafia, pelo crime organizado na sociedade norte-americana. Em 1973, com “Mean Streets” (Os Cavaleiros do Asfalto), inicia essa aproximação, que ganha estatuto de obra-prima em 1990, com “Goodfellas” (Tudo Bons Rapazes), continuando em 1995, com “Casino”, para se situar nas conturbadas origens de Nova Iorque, em 2002, com “Gangs of New York” (Gangs de Nova Iorque) e voltando a culminar noutra obra admirável, em 2006, com “The Departed” (Entre Inimigos). Este regresso aos ambientes do bas-fonds norte-americano, conta com a presença de alguns actores fetiches do cineasta, como Robert De Niro, Harvey Keitel ou Joe Pesci, agora, e pela primeira vez, com a colaboração de Al Pacino. Todos eles são excelentes, como é hábito, mas Pesci e Pacino ultrapassam-se. Há ainda que ressaltar, no campo da interpretação, a utilização de novos processos de caracterização, agora digital, o que permite “transformar” fisiologicamente os diferente actores, ao longo de três etapas etárias. As modificações são subtis e discretas, abrindo lugar a grandes expectativas no futuro desta nova tecnologia.
Deve dizer-se que a realização de Scorsese é brilhante, o argumento de Steven Zaillian é de um rigor e de uma inteligência a saudar, a reconstituição de época notavelmente conseguida, com uma direcção artística impecável, na ambientação, na decoração ou no guarda-roupa, assim como são de louvar a fotografia, a montagem, alguns elementos de identificação que surgem ao longo da obra, legendas que se vão sobrepondo a imagem fixas de certas personagens.  
Nas nomeações para os Golden Globes de 2020, que serão entregues no próximo dia 5 de Janeiro, “O Irlandês” fica bem colocado nas categorias de Melhor Filme Dramático, Melhor Realizador, Melhor Argumento, Melhor Actor Secundário para Pesci e igualmente para Pacino. Esperemos pelos Oscars.


O IRLANDÊS
Título original: The Irishman
Realização: Martin Scorsese (EUA, 2019); Argumento: Steven Zaillian, segundo obra de Charles Brandt; Produção: Troy Allen, Richard Baratta, Gerald Chamales, Robert De Niro, Randall Emmett, George Furla, Niels Juul, Gastón Pavlovich, Jane Rosenthal, Martin Scorsese, Jai Stefan, Emma Tillinger Koskoff, Chad A. Verdi, David Webb, Berry Welsh, Irwin Winkler, Tyler Zacharia; Música: Robbie Robertson; Fotografia (cor): Rodrigo Prieto; Montagem: Thelma Schoonmaker; Casting: Ellen Lewis; Design de produção: Bob Shaw; Direcção artística: Laura Ballinger, J. Mark Harrington; Decoração: Regina Graves; Guarda-roupa: Christopher Peterson, Sandy Powell; Maquilhagem: Malinda Ballesteros, Shellie Biviens, John Caglione Jr., Anthony Canonica, Rick Caroto, Ruth G. Carsch, Kevin Carter, Roma Demartino, Jessica Dobson, Etzel Ecleston, Sunday Englis, Gary English, Sean Flanigan, Michael Fontaine, JT Franchuk, Lindsay Gelfand, Joshua Gericke, Lisa Hazell, Rob Hinderstein, Scott Holbert, John Jones, Aaron Mark Kinchen, Nicki Ledermann, Ashley Leitzel-Reichenbach, Anette Lian-Williams, Jose L. Lopez, Michael Marino, Stephanie Glover McGee, Donyale McRae, Caroline Monge, Teresa Morgan, Matthew W. Mungle, Nancy Nieves, Janine JP Parrella, Claudia Pascual, Greg Pikulski, Jerry Popolis, Amy Porter, Liz Ramos-Reilly,Obi Reyes, Tania Ribalow, Aaron Saucier, Brett Schmidt, Genyii Scott, Jonathan Sharpless, Yasmina Smith-Tyson, Stacy St. Onge, Kim Taylor, Fiona Tyson, Enrique Veja, Carla White, Adenike Wright, Nakoya Yancey; Direcção de Produção: Kelley Cribben, Helena Holmes, Elayne Keratsis, John A. Machione, Michael Morgan, Nadia Paine, Carla Raij; Assistentes de realização: David Webb, G.A. Aguilar, Rachel Jaros, Jeremy Marks, Victor Mathews, Francisco Ortiz, Trevor Tavares, Woodrow Travers, Oren Tuvia, Katie Valovcin, etc. Departamento de arte: Stephanie Abbaspour, Sarah Arvanites, Kimberly Asa, Ann Bartek, William Bianchi, Julia Colicchio, Clara Cuffe, Mark Dane, Eric Fehlberg, Justin Horowitz, Michael Jortner, James Klotsas, Brian Kontz, Nick Miller, Sean Murray, Michael Lee Nirenberg, Brandon Smith, Miccah Underwood, Ginny Walsh, Holly Watson, etc. Som: Jason Friedman-Mendez, Frank Kern, Timothy Preston, Jason Stasium, Julia Stockton, Philip Stockton, Jerry Yuen, etc. Efeitos especiais: Cory Brink, Doug Facciponti, Dave Lieber, Brandonn S. Petri, Amber Quillen, Joseph Sacco, Taylor Schulte; Efeitos visuais: Jeff Atherton, Brian Battles, Alexis Borchardt, Ed Bruce, Diana Cobo, Andrew Eick, Erin Fernie, Martin Furman, Chris M. Halstead, Pablo Helman, Lane Howard, Weldon Huang, David Isetta, John M. Levin, Laura Murphy, Nicholas Murphy, Trent Newton, Rebecca Norton, Ben O'Brien, Jason Pomerantz, Insa Ruderich-Burch, Ellis Trespalacios, Aidan Waugh, Rebecca West, etc. Companhias de produção:Tribeca Productions, Sikelia Productions, Winkler Films; Intérpretes: Robert De Niro (Frank Sheeran), Al Pacino (Jimmy Hoffa), Joe Pesci (Russell Bufalino), Harvey Keitel (Angelo Bruno), Ray Romano (Bill Bufalino), Bobby Cannavale (Skinny Razor), Anna Paquin (Peggy Sheeran, em velha), Stephen Graham (Anthony 'Tony Pro' Provenzano), Stephanie Kurtzuba (Irene Sheeran), Jack Huston (Robert Kennedy / RFK), Kathrine Narducci (Carrie Bufalino), Jesse Plemons, Domenick Lombardozzi, Paul Herman, Gary Basaraba, Marin Ireland, Lucy Gallina, Jonathan Morris, Dascha Polanco, Welker White, Louis Cancelmi, Bo Dietl, Sebastian Maniscalco, Aleksa Palladino, Steven Van Zandt, Jim Norton, Daniel Jenkins, Billy Smith, Kevin O'Rourke, Action Bronson, etc. Duração: 209 minutos; Classificação etária: M/ 16 anos; Data de estreia em Portugal: 27 de Novembro de 2019 (Netflix).