quarta-feira, agosto 09, 2006

LITERATURA E FUTEBOL (2)
Aqui há tempos, por volta da Copa 2006, dei aqui referência de alguns bons livros de excelentes autores sobre futebol. Dá gosto sentir a paixão de alguns escritores excepcionais pelo jogo de futebol, pelo seu clube, pela sua selecção. Há páginas brilhantes que imortalizam todos os intervenientes: quem escreve e quem é descrito.
Dou hoje aqui mais alguns exemplos dessa paixão cruzada entre literatura e futebol. Começo por uma colecção brasileira de que li apenas 5 títulos, mas que me parece toda ela bem interessante. A ideia é um escritor "torcedor" falar do seu "time". Luís Francisco Verissimo escreve sobre o Internacional, Nelson Motta sobre o Fluminense, Ruy Castro sobre o Flamengo, Washington Olivetti sobre Corinthians, etc. Excelente, a não perder, entre o memorialismo e a elegia.
Que tal fazer o mesmo em Portugal? Ofereço-me desde já para ficar com o volume sobre o Sporting Clube de Portugal. Eu sei que há outros sportinguistas que escrevem melhor, mas tive a ideia!



Notas sobre cada livro da colecção fornecidas pela editora:
GRÉMIO - NADA PODE SER MAIOR
de Eduardo Bueno

Em vez das jogadas de efeito, a aplicação táctica. No lugar da técnica e dos dribles desconcertantes, força de vontade e raça. Esqueça os atacantes habilidosos, o que interessa são os volantes de contenção. Este é o verdadeiro futebol, na visão do escritor Eduardo Bueno. Com boa dose de ironia, Bueno defende a ideia de que a essência do futebol não tem nada a ver com o futebol-arte admirado em terras brasilienses. A bravura, a entrega de corpo e alma ao time e o poder colectivo seriam qualidades dos que jogam o verdadeiro futebol. Alguma dúvida de que time carregaria esses atributos? O escritor também sustenta a tese de que o Grémio não é uma equipe brasileira, mas sim um “time cisplatino, quase uruguaio, com fibra inglesa e disciplina alemã”.

PALMEIRAS - UM CASO DE AMOR
de Mário Prata

Não são poucos os craques e momentos memoráveis destacados por Mario Prata, afinal, um clube quatro vezes campeão brasileiro, com uma Libertadores da América e 21 campeonatos paulistas tem história de sobra para contar. Como a vez em que os jogadores palmeirenses vestiram o uniforme da Selecção Brasileira para enfrentar o Uruguai na inauguração do Mineirão, em Belo Horizonte. Ou o campeonato mundial conquistado no Rio de Janeiro, em 1951, contra a poderosa Juventus, da Itália, e mais recentemente, a Taça Libertadores, em 1999. Dos craques que vestiram a camisa verde, um tem lugar especial entre os ídolos do escritor: o amigo de infância Leivinha, que jogou no Verdão entre 1971 e 1975 e foi companheiro de Prata nas peladas em Lins, São Paulo, onde os dois cresceram. Se Leivinha e tantos outros jogadores encheram Mário Prata de alegria com títulos e vitórias, ele retribui à altura com a bela homenagem ao clube de coração.

FLUMINENSE - A BREVE E GLORIOSA HISTÓRIA DE UMA MÁQUINA DE JOGAR BOLA
de Nelson Motta

Nelson Motta narra com paixão a história de Francisco Horta, o dirigente-mito do Fluminense. Além de ser um documento que revela toda a grandeza do clube tricolor, é um romance desportivo que deve ser lido por qualquer pessoa que aprecia a aventura do futebol.

SÃO PAULO
de Conrado Giacomini

A primeira grande obra sobre o S.P.F.C conta a história do clube, de seus grandes ídolos, o porquê da rivalidade com seus principais adversários e, de quebra, uma boa parte da história do futebol brasileiro. “O livro me faz compreender de forma explícita aquilo que sempre senti na pele durante os oito anos em que me dediquei a este clube”, diz Raí, autor da apresentação.

ATLÉTICO MINEIRO
de Ricardo Galuppo

Viajem com Ricardo Galuppo pela história de um time que nasceu do sonho de estudantes e eternizou nomes como Dadá Maravilha, Nelinho, Kafunga, Gilberto Silva, Taffarel e muitos outros. Tão empolgante como o “Vou festejar” cantado pela nação atleticana no Mineirão apinhado, o livro deve ser lido não só pelos torcedores do galo, mas por todos que adoram futebol.

CORINTHIANS
de Washington Olivetto e Nirlando Beirão

O publicitário Washington Olivetto tem as melhores credenciais para escrever a história do Corinthians. Ex-vice-presidente de marketing do clube, Olivetto é como a torcida do Timão, a mais participativa e apaixonada do país. Nessa obra, ele explica essa paixão a um colega americano. Para ajudá-lo na tarefa, convocou o jornalista e corintiano Nirlando Beirão, que intervém na narrativa em notas cheias do humor.

SANTOS - DICIONÁRIO SANTISTA
de José Roberto Torero

Como narrar a história de um clube com tantos momentos de glória, tantos recordes, e que foi a casa do jogador chamado por todos de Rei Pelé? José Roberto Torero encontrou a forma ideal: “o modo canguru, ou seja, dando saltos de um assunto para o outro, de um tempo para o outro”. É assim que o escritor cobre a história – desde a fundação, em 1912, até a conquista do Campeonato Brasileiro de 2004 – do clube por que é apaixonado: o Santos Futebol Clube.


INTERNACIONAL - AUTOBIOGRAFIA DE UMA PAIXÃO
de Luis Fernando Verissimo

É uma felicidade que o melhor do homem seja a sua capacidade de lembrar. Um escritor é surpreendido na frase pela intromissão gloriosa da memória – e da melhor memória, a da infância, da primeira adolescência, dos fatos insubstituíveis e fundadores da existência. O Luís não devia nada. Mas agora, com Autobiografia de uma paixão, o futebol por sua inesgotável exigência de que sejamos diante dele o que sempre fomos, em fidelidade, aprumo e compromisso, revela um Luís anterior ao Luís que quase todos conhecem e admiram. Este livro são as memórias do guri da Felipe de Oliveira, da vó elma, dos eucaliptos, das primeiras escolhas definitivas sobre a vida que devem ter valido para as grandes decisões: escrever ou não escreve, casar, deixar o Rio, fazer desenhos. Enfim, os méritos que o livro repassa são como uma dádiva da escrita, da percepção das coisas e dos homens, da invejável ironia que não permite ao autor sentir-se acima do leitor, do sarcasmo com que sabe destituir as imponências, e esse olhar compreensivo e solidário que tem sobre o mundo, tudo isso é pouco diante do que esse livro concede ao leitor, o Luís memorialista. Só mesmo o futebol.

FLAMENGO - O VERMELHO E O NEGRO
de Ruy Castro

Há quem discorde, mas quarenta milhões de pessoas - quase a população da Espanha - consideram “Flamengo: O Vermelho e o Negro”, de Ruy Castro, o mais importante volume da coleção Camisa 13, que reúne a história dos principais clubes brasileiros. Bem ou mal nas tabelas, o Flamengo continua sendo querido. Afinal, “uma vez Flamengo, Flamengo até morrer”. Essa narrativa ágil, alegre e informativa das glórias e das derrotas do clube rubro-negro carioca deve ser lida por todos os seus admiradores, pelos adversários (nem que seja para falarem mal depois), e até pelos que não torcem por time nenhum (e que, depois disso, talvez consigam entender a estranha magia que um clube desperta). Ruy Castro, que antes de ser escritor já era flamenguista, começa revivendo o ano 1895, quando o clube foi fundado. Ele conta que o desporto da moda era o remo, e que foi o ciúme provocado pelos remadores do Botafogo (“eles vinham remar no Flamengo e conquistavam as moças com seus músculos”) que deu origem ao clube. “Os rapazes da praia do Flamengo não gostavam nem um pouco daquilo. E quatro deles resolveram tomar providências”, narra. Sentados à mesa de um bar, eles fizeram a pergunta histórica: “Por que nós não criamos um grupo de regatas do Flamengo?”. Em 1912, a camisa rubro-negra rumou para os gramados e passou também a jogar futebol. Daí em diante, foram grandes clássicos, belas jogadas, milhares de golos, relembrados com entusiasmo pelo autor e ilustrados nas fotos que completam a obra.


Outro magnífico livro sobre futebol é a antologia de textos de Javier Mariás, "Selvagens e Sentimentais", crónicas apaixonadas e algumas bem verrinossa de uma fanático do Real Madrid. Abra o apetite com este naco de prosa literária que reune literatura da boa, futebol do melhor e cinema de eleição:

"O futebol é semelhante em tantas coisas ao cinema que talvez por isso o seu mundo nunca tenha sido transportado para o ecrã: pareceria uma redundância. Sendo um desporto de equipa, é o mais generoso com os seus jogadores, pois permite que sejam recordados individualmente, apesar dos equipamentos, com a mesma nitidez com que se é capaz de referir os rostos, as figuras, as maneiras de andar e os nomes dos actores de cinema, principais ou secundários. (...) Quanto ao Real Madrid, lembra Hitchock, cujos filmes se vêem com a alma em sobressalto mas costumam acabar bem (...). E não se esqueça que, também como Hitchcock, sempre preferiu as heroínas loiras: Di Stéfano, Kopa, Netzer, Velàzquez, Pardeza, Prosinecki e, sobretudo, Butragueno, continuam a ser o que há de mais parecido que alguma vez se viu num campo de futebol com Grace Kelly ameaçada, mas com tesouras."

Javier Marías, em "Selvagens e Sentimentais: Histórias do Futebol", uma edição Dom Quixote, na colecção Ficção Universal. Reúne crónicas publicadas entre 1992 e 1999.

"MIAMI VICE"
PUBLICIDADE
Reparem: não é só o filme que é bom.
Vejam a campanha de publidade.
Um espanto de eficácia, concisão, rigor.
As cores. os enqaudramentos. O claro escuro.
O cobre/descobre.
O cartaz de Li Long
que se dá ao luxo de deixar na sombra
o belíssimo rosto da actriz.~
Uma campanha de arrasar.







“MIAMI VICE”

O que fascinava nos policiais e nos “filmes negros” das décadas de 30 a 50 era, sobretudo, a atmosfera criada, o clima de um preto e branco pesado, de sinistros presságios. Havia grandes actores, notáveis realizadores, excelentes argumentistas, mas havia, por sobre tudo isso, um “tempo” físico, humano, social que era restituído por essas obras que ainda hoje mantêm a sua sedução intacta e reflectem muito da época em que foram criadas.
Uma obra de arte ou “fala de nós” de alguma forma, ou não tem grande interesse. Este “falar de nós” é que se pode expressar em muitas línguas. Às vezes até é preciso dicionário, mas vale a pena tentar compreender.

“Miami Vice”, à semelhança de algumas outras obras actuais (poucas, mas certamente algumas, entre elas as de Steven Soderberg, como “Ocean's Eleven” (2001) ou Ocean's Twelve (2004), consegue esse raro privilégio de ser uma obra de arte, um típico e brilhante produto de uma indústria que consegue por vezes ser espelho do seu tempo e do ambiente estético predominante. Nesse aspecto Michael Mann é uma boa referência, pois algumas outras películas suas, como “Heat” ou “Colateral”, já eram exemplos significativos de um tipo actual de “filme negro” norte-americano que tem características muito próprias e, sobretudo, uma estética muito definida. Estamos nos domínios do “tecno”, do “cool”, do “Postmodernismo”. Chame-se-lhe o que se quiser. Todos estão certos.
Este “Miami Vice” começa por ser a adaptação ao cinema da popular série televisiva que tinha o mesmo nome, produzida entre 1984 e 1989 pelo próprio Michael Mann, também realizador do actual filme. Sonny Crockett e Rico Tubbs, detectives, continuam a ser os protagonistas desta nova aventura. Um é branco, o outro negro, formam uma equipa de uma eficácia total, ambos funcionam como silhuetas de polícias incorruptíveis, mas sem grandes espessuras psicológicas, que se infiltram no sub mundo do tráfico de narcóticos e armas. A história também não é muito importante. Diria mesmo que não é nada. Nenhuma novidade especial, em relação às centenas de historietas sobre droga já vistas e revistas, com vilões sul e centro americanos, e policias norte-americanos a impor a lei. Não é por aí que se saúda o filme, mas sim pelo estilo que consegue impor, mas um estilo que é só por si uma forma de “falar de nós”.

Não é um filme onde se discurse muito, onde se “digam coisas muito importantes”. Ninguém afirma directamente que estamos numa sociedade fria, distante, desapiedada, brutal. Mas sentimos isso pela “forma”, pela maneira como Michael Mann trata a cidade, descreve os personagens, enquadra a solidão, regista a paisagem (interior e exterior), trata as cores, a iluminação, como coreografa esses bailados de carros, barcos, helicópteros, como monta sem complacências, como resolve cada cena de acção com uma economia de meios que chega a ser de uma brutalidade incomparável. Nesse aspecto, “Miami Vice” é sem dúvida um dos grandes filmes do ano, atrevo-me quase a dizer que uma das raras obras-primas que vi nos últimos meses.
A desolação deste azul metalizado que perpassa pelo filme, o canto desesperado desses corpos que se amam gritando uma cumplicidade de sangue, lágrimas e esperma, sem futuro aparente (mesmo quando o futuro parece ser um fugaz “happy end” sem continuidade), a terrível solidão de cada personagem, mesmo quando a seu lado tem o “partner” de sempre ou a amante de ocasião, tudo isso demonstra o brilhantismo consequente, cheio de ideias e de intenções de um cineasta como Michael Mann.

Por vezes há em “Miami Vice” planos de cortar a respiração, figuras enquadradas de costas, com o cenário ao fundo por onde investem as tempestades tropicais ou paisagens que relembram Chiricó. Despidas. Uma palmeira através de uma porta aberta. A solidão mais radical. A beleza mais austera. O vento. A chuva. Os elementos a fustigarem uma Humanidade sem inocência possível. Os sentimentos que se perseguem, num universo onde nada é como deve ser, mas onde o crime avassala, e a violência não pensa duas vezes. Raras vezes se vê, como aqui, a rapidez do tiro fulminante, da explosão imediata, do gesto irreparável.

Lembram-se todos daqueles filmes desesperantes em que o vilão aprisiona o herói, e em lugar de o liquidar de imediato (e acabar com o filme!), começa a falar com ele, até este ter hipótese de fuga e recomeçar a perseguição? Aqui nada disso é possível: inimigo aprisionado, inimigo abatido. Guerra total, sem prisioneiros. Nenhumas complacências. O deserto das emoções. Apenas a ambição do lucro, sem olhar a nada. O mais puro dos cinismos, o mais completo dos desamores. Quando a humanidade se perde, fica a tragédia. “Miami Vice” é Shakespeare, séc. XXI.
De resto, tudo é bom em “Miami Vice”, dos actores aos técnicos. Até a personagem meio “pimba” de Colin Farrell (o Detective James 'Sonny' Crockett), é um retrato brilhante, bem como o tom meio perdido, escolhido por Jamie Foxx (o Detective Ricardo Tubbs), ou a fabulosa personagem criada por Li Gong (Isabella), que, no meio deste deserto de emoções, desencadeia uma onda de um romantismo lancinante. Mas se as emoções parecem à deriva, sem porto de abrigo, já a sensualidade dos corpos transpira em duas ou três cenas de um sexo feroz e de um erotismo brutal. Faz-se amor de cada vez como se fosse a última. Há uma cena entre Tubbs e a sua colega Trudy, e outra entre Sonny com a inesperada Isabella que merecem figurar nas antologias do erotismo no cinema. E, no entanto, é só talento que se vê. Só sugestão. Só desejo. Como é belo o grande cinema!

MIAMI VICE, de Michael Mann (EUA, 2006); com Colin Farrell, Jamie Foxx, Li Gong, Naomie Harris, Ciarán Hinds, Justin Theroux, etc. 134 min; M/ 12 anos.

UM BLOG (POR DIA) PARA VISITAR (3)

"AMARCORD"
“Amarcord” é um filme belíssimo, dilacerante de Federico Fellini. “Amarcord” é o blog de um apaixonado pelo cinema, Hugo Alves, que o cultiva com desvelo e muito amor. A encimar, uma frase de Bernardo Bertolucci: “Isto é algo que sonho muitas vezes: viver os filmes, chegar a um ponto em que posso viver para os filmes, pensar cinematograficamente, comer cinematograficamente, dormir cinematograficamente, tal como um poeta, um pintor, vivem, comem, dormem pintando." Aí está um programa de vida. O blog é um tecido de paixões, com entradas muito sintomáticas do (bom) gosto cinematográfico de Hugo Alves.

Partiu ontem para férias, acompanhado de ecos de “Rocco e i suoi fratelli”. Como é bom surpreender paixões assim.

Quarta-feira, Agosto 9
Bello paese mio
Agosto. Silly season. Férias. Um bloggeiro de serviço acossado pelos inúmeros afazeres. Académicos e não só. Eis o sinónimo de férias blogosférias. Em Setembro voltarão as recordações de tempos idos e as reflexões sobre o cinema que se vai fazendo.
Nos entretantos, o redactor destas linhas, sempre embalado pela Canzone barese de Rocco e i suoi fratelli continuará vivendo na projecção dos espectros, com os fotogramas inesquecíveis encrustados na memória, como se se tratasse do maior dos filões de minério alguma vez visto. E, votando-me ao silêncio, momentaneamente, vem-me à memória o plano final de Rocco: vazio da alma, da família e da humanidade, contrabalançado pela esperança na infância e na juventude, repositório de fé e último reduto da inocência...
O bello paese mio, terra lontana...
Até Setembro. / publicado por Hugo Alves pelas 00:28

O que é o Cinema?
Jean-Paul Belmondo e Samuel Fuller em Pierrot le fou



"Um filme é como um campo de batalha. O amor. O ódio. A acção. A violência e a morte. Numa palavra: emoção." - Samuel Fuller

Hugo Alves, tem 24 anos, escorpião, de Lisboa. Tem como filmes favoritos, entre muitos outros, “La nuit américaine”, “Les 400 Coups”, “Baisers Volés”, “8 ½”, “Amarcord”, “1900”, “Il Gattopardo”, “Rocco e i suoi fratelli”, “Blow Up”, “L'eclisse”, “Lawrence of Arábia”, “Pierrot le fou”, “Nuovo Cinema Paradiso”, “Zorba the Greek”, ”Once upon a time in the West”, “Dr. Strangelove”, “Vertigo”, “Le mépris”.

Um blog a merecer a atenção dos cinéfilos (e não só).

terça-feira, agosto 08, 2006

UM BLOG (POR DIA) PARA VISITAR (2)

"O PIANO" /
"AFINIDADES ELECTIVAS"

Aqui há anos, frequentávamos muito o café/restaurante Vávà. Eu continuo (moro ao lado, moro por cima), a ela, deixei de a ver. Era uma mulher bonita, loura (mas não das anedotas), prendada. Pintava. Aguarelas leves. Onde predominava o azul. Escrevia. Fazia coisa na televisão. Eu escrevia, fazia filmes, escrevia teatro e encenava algum. Um dia, um numa mesa, outro noutro, ou fomos apresentados ou começámos a falar, que de envergonhados nada temos. Nem eu, nem ela. Falámos durante dias, meses. Fomo-nos encontrando por aí. Um dia, ela fez uma exposição, e ou me convidou, ou me ofereci para lhe fazer a apresentação da sua pintura. Eu gostava daquelas aguarelas (e gostava da loura, reconheço), por isso nada me custou, muito pelo contrário, escrever meia dúzia de parágrafos a apresentar a Isabel Mendes Ferreira e a sua pintura. Continuámo-nos a ver mais algum tempo, depois cada um foi para o seu lado (mentira: eu continuo no VáVá), e pouco mais soube dela. Uma ou outra referência na comunicação social, pouco mais. Lamentava o facto. Era uma boa amiga, uma boa companhia, e uma loura daquelas que sabe bem ter ao nosso lado.
Ontem, descobriu-me na blogosfera e mandou-me um comentário simpatiquíssimo. Desvanecedor. Tinha re-encontrado a Isabel, e fui visitar os seus dois blogs, “
O Piano” e “afinidades electivas”, ambos de bom nível gráfico, bom gosto, sensibilidade, qualidade poética enfim, “coisas” bem da Isabel Mendes Ferreira que eu conhecia. Foi bom reencontrar-te, para já na blosgosfera, qualquer dia, se calhar, no Vává para pormos a conversa em dia (e eu matar saudades da loira. Ainda és?).
Entretanto, para se perceber do que fala, aqui fica um exemplo, retirado das “afinidades electivas”:

Quarta-feira, Agosto 02, 2006

o que não digo é público
o que não faço é visível.
o que não sinto é fatídico.
o que não é rio é chão.

e rio-me.
na palma da tua mão. pequena.
mescalina.

posted by Mendes Ferreira at 8:48 AM

e uma contribuição (em forma de foto) do EU&EU (Ângela, do blog “Sob o Signo de Antigona”?), parceira à altura deste blog.

Agora um texto e foto do blog “O Piano”, certamente o texto que inspirou o título. As fotos aparecem trocadas (liberdade artistica minha). A de "O Piano", que é do mais recente post (veja-se a qualidade de muitas das fotos deste belo blog), aparece no texto de cima, a debaixo é de "afinidades electivas).

O homem do piano


o branco e o negro. o silêncio inteiro. profundo.macio.palpável.
e a cabeça vazia. só mãos. as mãos e o corpo. agora nu. exposto. próximo dela. da morte. respirava-lhe o hálito. denso. doce. dardo a espetar-lhe um dedo de aço nos olhos. que fechou.
atacou então o piano. nada de clássicos. nada que antes existisse. uma orgia de sons.de gritos. de bemóis. um festim. uma gruta.
e o sexo a dançar-lhe nas mãos. e tocou. tocou até tocar sanguíneamente o tambor da guerra do fogo. e devagar porque morria depressa e todos os gestos eram de fome começou a lambe-la. como um cão como um lobo sedento e ávido e pária vadio e selvagem. primeiro a raíz dos cabelos fulvos como o sangue enrolados na testa arrepiados no contorno do rosto. desceu aos olhos e selou-os com fios de baba. caiu-lhe na boca. mergulhou-a de água e fez-lhe um ninho de saliva desde a raíz dos dentes à seara da língua agora dançarina. desvairada serpente sem véus nem espadas. apenas boca. profunda. molhada.
o mar o mar o mar a navegar-lhe a garganta. depois a vereda. o pescoço inclinado abrindo
sulcos e angulos e vales de pele escorregadia.
e escorregou lentamente sobre os seios altos. retirou a forma triangular com beijos de ostra.bebeu-se no suor que orvalhava como chuva na pele. e parou.

o coração atacava os ouvidos. tocava staccattos intensos. bravios. desconfortáveis. zumbidos de pássaros em cio a cercar-lhe os ombros. e a morte a aproximar-se. altiva. urgente. indomável. gélida. surda.

(mozart entra e toca. toca-me nas costas toda a lacrimoza)

e sentou-se. bem em cima do piano. alargando-me o olhar para o meio das pernas. que abriu. com a tenra teatralidade de um godot quase terno e desesperado. e ali estava a minha casa.naquele sexo ostensivamente vermelho de verão. era dia de colheita. os morangos cresciam. rosados e palpitantes. via-lhes a textura de língua sedenta e o cheiro inquietante.
ébrios de um vício opalino estremeciam à minha frente como chamas. queria tocar. tocar-lhes. atirar-me inteiro naquele dentro que era chão.
e iniciei-me então. ansioso e redondo abri-me como fenda como asa sabendo que a seguir morreria. quando ela fechasse as pernas. o tempo. o silêncio. o piano. tudo. revi em segundos uma vida de enganos e de facas de retornos e de falsos mapas e sem magoa nem medo entrei. todo.
entumescido. violento. aceso. nu. a sentir-me maduro. a explodir. a vir-me. como a chuva. como o mar sobre a areia. em noites de temporal.
entrei todo.
e ela fechou as pernas.
anoiteceu.
e o tempo caiu. avé maria de shubert. morri.
e o piano tocou. sozinho.

posted by Mendes Ferreira at 9:17 PM

segunda-feira, agosto 07, 2006

UM BLOG (POR DIA) PARA VISITAR (1)

"TALVEZ TE ESCREVA"

A partir de hoje apetece-me salientar aqui, todos os dias, um blog de que eu goste, um blog que passe a visitar com regularidade. Hoje chama-se "Talvez te Escreva". Não sei quem o escreve, mas eu escrevi-lhe. Acabo de lhe deixar lá o seguinte comentário:
"Bonito blog. gostei muito. é uma viagem refrescante por uma universo que só podia ser feminino. com um toque inconveniente e surrealista que lhe confere a originalidade. obrigado pelo link. farei o mesmo. LA."
No blog há um projecto de vida, assinado por uma Encandescente, que pode servir de apresentação:
Prometo ser desobediente
E contestar todas as regras
Que não entenda, que não apreenda
Que não me expliquem
E que interfiram com a minha liberdade.
Prometo ser inconformada
Se ser conforme fôr assumir formas
Que não a minha
E conformada fôr aceitar
A imposição e aborrecimento duma rotina.
Prometo ser mal-educada
E mandar à merda quem me disser:
Sê conformada, tem paciência
A vida é isto, a vida é assim.
Prometo ser inconveniente
Se a conveniência não me servir
E conveniência for conivência
Aceitação, anulação e conformismo.
Ninguém nasce de trela e mordaça
Portanto, eu
Prometo ser eu!
Desobediente, inconveniente
Inconformada, mal-educada
E mandar à merda vida e regras
Quando e se me apetecer.
Escrito por: Encandescente.


E vou também roubar uma ilustração para tentar dar o tom do blog.
"The Art of Life", René Magritte

domingo, agosto 06, 2006

POEMA "SURREALISTA" / AGARRA TOLOS

Disseram-me, e acredito piamente, que a melhor maneira, não de ter leitores no seu blog, mas de ter frequentadores do seu blog, é reunir um conjunto de "chamadas de atenção", entre as mais requisitadas na blogosfera. Por isso há muitos blogs que utilizam textos preparados especialmente para o efeito. Um excelente exemplo deste tipo de trabalho de pesca clandestina, encontrei-o no blog "Divas e Contrabaixos", de que, à laia de exemplo, transcrevo uns bons excertos (primeira maldada "surrealista" deste post: ao transcrevê-lo, espero importar os seus visitantes, os mesmo que vão até esse blog, sem despertar a ira da Rosário):
Abril 19, 2005
Divas & Golpe baixo

Durante 5 meses este blogue andou direitinho e graças a leitores respeitáveis ultrapassei as 10000 visitas.Mas hoje-inho, Senhorias, permiti-me ajavardar por completo o sistema. A ideia não é original. Pois não! Mas vou fazer a experiência.Amigos do Google, Yahoo, Sapo e de outros motores de busca, com gostos mordazes e algumas parafilias, este post é vosso! Só este. Também vós, perdoai este golpe baixo, mas que sejam muitas as pesquisas falhadas!
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Ora bem, depois deste exercício soft, é altura de ensaiar o meu discurso "poético", à cata de visitantes. Pode ser que algum venha à procura de "portuguesas famosas muito nuas, totalmente nuas", e se fique a ler uma nota sobre "A Lula e a Baleia". Se querem saber, duvido. mas dá gozo. E também é uma boa justificação para se dizerem certos palavrões.
SEGUNDO AS ESTATISTICAS
Do que eles e elas gostam,
por estas bandas, é de
MULHERES NUAS
FAMOSAS PORTUGUESAS NUAS
MUITO NUAS
TOTALMENTE NUAS
NUAS; NUAS; NUAS
Com muito SEXO
SEXO TÂNTRICO
SEXO ORAL
SEXO ANAL
SEXO ANIMAL
SEXO, SEXO, SEXO
Também gostam de ver
Ou usufruir
(depende dos gostos)
DE PÉNIS BEM DOTADOS
PÉNIS GRANDES
PÈNIS DESCOMUNAIS
PÉNIS DE CAVALOS (e afins!)
E DE VAGINAS
PROFUNDAS::::
VAGINAS VAGAS E OCUPADAS
VAGINAS LIVRES E COM ESCRITOS
VAGINAS, VAGINAS, VAGINAS
E
PORTUGUESAS NUAS FAMOSAS
OU
NUAS FAMOSAS PORTUGUESAS
OU
FAMOSAS NUAS PORTUGUESAS
*
NUAS INTERNACIONAIS
Também funcionam
(ao que dizem)
Há quem delire com
LÉSBICAS
HOMOSSEXUAIS
PERVERSÕES VÁRIAS
SADO
BONDAGE
MASOQUISMO
(expressões populares:
LEVAR NA BILHA,
QUEBRAR A BILHA
Também se arrisca a fazer bom papel)
SADE
MASOCH
LESBOS
AFRODITE
SHARON STONE
(no seu melhor)
E sempre
PAMELLA ANDERSEN
PARIS HILTON
(como os hotéis)
Mas NUAS
*
PORNO
PORNOGRAFIA GRÁTIS
(não se esqueça do cartão de crédito!)
VIDEOS DE SEXO
FILMES SEXY
SEX MOVIES
XXX
XXX RATED
FOTOGRAFIAS DE GAJAS NUAS
(portuguesas nuas famosas!)
FOTOS
PHOTOS SEX
FANTASIAS ERÓTICAS
(com galinhas!)
FANTASIAS PORNO
(com o elefante do jardim zoológico
e o sininho, ou a Sininha)
TRANSGRESSÕES SEXUAIS
TRANSGRESSÕES MORAIS
TRANSGRESSÕES SOCIAIS
Travestis
Transsexuais
A Gigi é PUTA
O Fininho gosta de
ABAFAR A PALHINHA
(Portugueses famosos nus também funcionará?)
FOTOS DE AMADORAS NUAS
WEB CAM AMADORAS
HOME WEB CAM
WEB CAM HOME
CAM HOME WEB
CAM
COME TO ME
IN AND OUT
VIPS PORTUGUESAS NUAS
(sem botox, com botox)
LÉSBICAS EM SHOW
VIAGRA
V.I.A.G.R.A
GRÁTIS
(não se esqueça do cartão de crédito!)
ESTOU FARTO
Um dia destes há mais
Está um calor da penica
Vou ao cinema
Para o ar condiciondo
GRÁTIS
Ver
BRISA DE MUDANÇA

sábado, agosto 05, 2006

O “POLICIAL” DE
LUIZ ALFREDO GARCIA-ROZA

Devoro policiais. Em cada dez há uma obra-prima, ou um romance excepcional. Nos nove restantes, uns seis são boa companhia. Os três que ficam, deixo-os pelo caminho, quando percebo que estou a perder tempo e nem me interessa sequer saber quem é o assassino. O nome vem na capa, é o autor. Mas, tal como antigamente, com o cinema fantástico, os policias raras vezes chateiam: ou são muito bons, ou dão gozo, ou são tão maus que até divertem. Esta a fórmula do sucesso do Fantasporto – casa sempre cheia para vários públicos, com ambições e necessidades diferentes. O que não acontece com mais nenhum outro tipo de cinema.

Falando de policiais, há uma descoberta minha de há uns dois ou três anos a esta parte que quero partilhar com os potenciais leitores destas notas bloquistas: chama-se Luiz Alfredo Garcia-Roza, é brasileiro, nasceu em 1936, no Rio de Janeiro, é psicanalista, formado em filosofia e em psicologia, professor universitário e autor de oito livros sobre psicanálise. Mas nunca li nada de psicologia com a sua assinatura. Li toda a obra romanesca, de que sou incondicional, muito embora o último livro dele, “Berenice Procura”, que comprei logo na livraria do Aeroporto de São Paulo, mal pisei terra firme do Brasil, em Junho passado, me tenha desiludido um pouco. Mas Luiz Alfredo Garcia-Roza é um escritor excepcional. Todos os seus policiais se passam no Rio de Janeiro, centrados entre a Avenida Atlântica e Nossa Senhora de Copacabana, com incursões por outros bairros do Rio, e captam como ninguém a atmosfera do lugar, as figuras, as cores, os sons, os cheiros, a alegria e a nocturna melancolia dessa terra maravilhosa. Todos os seus romances anteriores têm como protagonista um fabuloso inspector Espinosa, um cansado policial daquela zona, que vive só, colecciona livros usados que compra em sebos que regularmente visita, e vai mantendo relações desencantadas, mas bem calorosas, com algumas mulheres que fazem o favor de serem suas amigas.
Os títulos (todos indispensáveis, alguns saídos em Portugal): “O Silêncio da Chuva”, “Achados e Perdidos” (passado agora a filme, estou com curiosidade de ver o que dali resultou, pois todos são sumamente cinematográficos), “Vento Sudoeste”, “Uma Janela em Copacabana” (o primeiro que li, e que provocou esta paixão, e que, talvez por ter sido o primeiro, não tem ainda rival), “Perseguido” e “Berenice Procura”. Ficaram de fora as obras de psicanálise e filosofia. A relação aqui fica: “Acaso e Repetição em Psicanálise, Uma introdução à teoria das pulsões”, “Freud e o Inconsciente”, “Introdução à Metapsicologia Freudiana 1, Sobre as afasias: o projecto de 1895 (1891)”, “Introdução à Metapsicologia Freudiana 2, A interpretação do sonho (1900)”, “Introdução à Metapsicologia Freudiana 3, Artigos de metapsicologia: narcisismo, pulsão, recalque, inconsciente (1914-1917)”, “O Mal Radical em Freud” e “Palavra e Verdade na filosofia antiga e na psicanálise”.

Na web, encontrei uma muito interessante entrevista com o escritor: Garcia-Roza: “A violência do Rio é estúpida e não serve ao romance policial”, por Ana Paula Conde.
Com a devida vénia, e chamando a atenção para este dossier, aqui a adopto para ajudar a despertar o apetite para o escritor.

Luiz Alfredo Garcia-Roza sempre foi apaixonado por literatura policial. Mesmo com o tempo apertado e dividido entre as aulas, a orientação de teses, a coordenação do programa de pós-graduação em teoria psicanalítica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), sem falar na preparação de livros de psicanálise e filosofia, ele arranjava tempo para ler Arthur Conan Doyle, Raymond Chandler e Dashiell Hammett, alguns de seus autores preferidos.
A partir de 1996, quando lançou seu primeiro romance policial, “O silêncio da chuva”, o género literário saiu do segundo plano para o papel de protagonista. Motivado pelo prémio Nestlé de literatura e pelo prémio Jabuti, ganhos com a obra de estreia, Garcia-Roza decidiu deixar a vida académica para se dedicar unicamente à literatura.
Para surpresa do autor, seus livros não só ganharam a simpatia do público como viraram best-sellers. Juntos, “O silêncio da chuva”, “Achados e perdidos”, “Vento sudoeste”, “Uma janela em Copacabana” e “Perseguido”, todos da Companhia das Letras, venderam 90 mil exemplares no Brasil. “Fiquei assustado. Nunca imaginei que isso pudesse acontecer. A própria feitura de um best-seller supõe quase uma fórmula e eu não sigo nada disso”, afirma o autor.
E não é só no Brasil que as novelas policiais de Garcia-Roza fazem sucesso. Suas histórias também foram lançadas na Espanha, Estados Unidos, Portugal, França e Grécia. Além de atravessar o oceano, as tramas do autor carioca vão em breve ganhar as telas dos cinemas. O diretor José Joffly está na fase de produção de um filme baseado em “Achados e perdidos”. “Vento sudoeste” foi vendido para a produtora Ana Maria Bahiana. “Ela vai fazer um filme e uma série para a TV”, conta Garcia-Roza.
Um dos principais responsáveis por todo esse sucesso é o delegado Espinosa, personagem presente em todos os livros do autor. Ele não é um super-herói, é um homem comum, com dúvidas e angústias, que cumpre com responsabilidade, inteligência e honestidade suas funções como titular da 12ª DP, em Copacabana. Ele conhece a corrupção que ronda a delegacia e sabe muito bem em quem pode e em quem não pode confiar, mas vai levando, sabendo que pouco pode fazer para mudar essa estrutura.
Garcia-Roza gosta e quer continuar fazendo ficção. Não interessa ao autor retratar com fidelidade a violência que marca cotidianamente o Rio. As ruas do centro e de Copacabana, bairro onde nasceu, em 1936, e os problemas que atingem a cidade estão nas páginas dos seus livros, mas tudo é usado apenas como elemento de fundo para a criação de suas tramas. “Os acontecimentos policiais do Rio servem somente para me manter dentro da temperatura da cidade. Nada mais do que isso. Não tenho interesse em saber detalhes. A violência da cidade não é sedutora”, afirma.
O autor já começou a escrever o próximo livro. Ele tem passado os dias em frente ao computador do seu escritório no centro, de onde se vê a Baía de Guanabara e o Pão de Açúcar. Para tristeza dos leitores, Espinosa não será personagem da nova obra. “Ele vai tirar umas férias”, diz o escritor, que promete trazê-lo de volta brevemente.
A seguir, Garcia-Roza fala sobre sua antiga relação com a novela policial, do interesse das editoras e da persistência do preconceito em relação a esse género literário.
Como é escrever romances policiais em uma cidade marcada pela violência, como o Rio? Isso instiga o senhor de alguma forma?
Luiz Alfredo Garcia-Roza: Não sou de maneira alguma provocado a escrever novela policial em função da violência da cidade. Ela é grosseira, estúpida, ignorante e inteiramente gratuita. Não tem nada de sedutora, nem sequer tem o lado cerebral dos grandes crimes. Acho que a alta taxa de criminalidade também não instiga o leitor. Se ele se sentisse tão tocado pela violência nem precisaria ler. Por que alguém escreve um livro policial? Porque pode matar quem quiser sem ser preso e sem que ninguém morra efectivamente.
Na literatura, a violência pode se exercer e se expressar no universo da fantasia. Fico imaginando Dostoievski, com a fragilidade física dele, criando Raskolnikoff, de “Crime e Castigo”, que mata duas mulheres a machadadas. A literatura permite que os demónios venham à tona. Os demónios assassinos, os psicopatas e os sexuais emergem, e o autor, de certa maneira, os doma. O escritor é um domador de demónios. É preciso deixar a loucura aflorar e usar a razão para transformar tudo isso literariamente. Esse é o grande fascínio de ser escritor.
A violência do Rio não dá um bom romance?
Garcia-Roza: Acho que não. Não se trata da violência do civilizado, que se civilizou tanto que precisa dar conta dos seus demónios recalcados. A criação não se faz pela pura soltura da boçalidade. Ela se faz exactamente desse jogo da loucura com a racionalidade. Essas duas coisas precisam estar juntas. Se a pessoa só tiver a racionalidade, será um chato; se só tiver a bestialidade, será um louco. A capacidade de juntar essas duas coisas e de transformá-las numa expressão inteligente é que faz o grande escritor, o grande poeta, o grande pensador.
O senhor acompanha o noticiário policial de maneira diferente depois que começou a escrever?
Garcia-Roza: Não. Nunca tive interesse pelo noticiário policial. Conversei uma vez com o José Louzeiro sobre isso. Ele é jornalista e a literatura que faz é baseada na sua actividade profissional. Ela tende, de alguma maneira, a ter um carácter quase documental. Sigo outro caminho, faço mesmo ficção. Os acontecimentos policiais servem somente para me manter dentro da temperatura da cidade, nada mais do que isso. Se não fizer assim, o autor começa a espelhar a realidade e pára de criar. E o que me fascina é a actividade criativa. Mesmo no hospital de “Perseguido” procuro o mínimo possível jogar com minha experiência universitária. O campus tem três hospitais. Peguei características de cada um deles para evitar o registro descritivo.
Como começou seu interesse por esse tipo de literatura?
Garcia-Roza: Foi na adolescência. Comecei lendo os clássicos: Conan Doyle, Raymond Chandler e Dashiell Hammett. Logo percebi que ali havia um mundo próprio e que aquele universo literário tinha uma particularidade encantadora. Nunca mais parei de ler novela policial. Minha vida sempre foi pautada por três interesses: literatura policial, teoria psicanalítica e filosofia. Sou um pouco o retrato dessa tripartição. Comecei a ler muito cedo, e a literatura foi me encaminhando para outros autores, que eram mais da área de filosofia. A psicologia e a psicanálise vieram num segundo momento.
Quais elementos mais atraem no género?
Garcia-Roza: Curiosamente são os mesmos que me atraem na filosofia e na psicanálise. São os temas centrais do homem: a morte e a sexualidade. É a matéria-prima do mito, da tragédia grega, da literatura e da psicanálise. Todos trabalham as mesmas questões com abordagens diferentes.
A literatura policial pega tudo isso, que é um pouco marginal nos outros campos, e coloca no próprio cerne da sua trama, quase em estado bruto. A forma como ela entra em temas quase sagrados sempre me fascinou. Quando comecei a me interessar pelo género não me dava conta de que isso era um factor de atracção. Tenho um longo caso de amor com a novela policial. Mesmo quando estava nos meus momentos mais ocupados intelectualmente, trabalhando uma tese ou coordenando uma pesquisa na universidade, sempre havia espaço para ela.
Quais são seus autores preferidos?
Garcia-Roza: Tenho vários preferidos. Raymond Chandler e Dashiell Hammett, sem dúvida alguma, estão minha lista. Ross MacDonald e Cornell Woolrich são magníficos. Patricia Highsmith é uma belíssima escritora. Teria uma relação de dez autores para citar e, quando chegasse ao décimo, teria outros dez.
Ainda existe preconceito com a literatura policial?
Garcia-Roza: Sim, existe. Ainda enxergam a literatura policial como entretenimento. Como se ela, de alguma forma, fosse música de elevador, feita apenas para distrair por um momento. Qualquer literatura te arranca da realidade e te remete para um universo de fantasia, provocando seu imaginário. Isso não é negativo. Muita gente diz que não há mais preconceito, mas é perceptível que certos autores, que se dedicam a outro tipo de literatura, se consideram numa posição privilegiada. Mas não me importo minimamente com isso.
Acho um privilégio um romancista demorar seis anos escrevendo um livro, procurando o que há de mais precioso na linguagem, garimpando a palavra certa, como o pintor procura a cor ideal, mas não porque esteja fazendo outro tipo de literatura. Se estivesse escrevendo um livro policial dessa mesma forma estaria sendo especial também. É isso que faz Cornell Woolrich, Dashiell Hammett e Patricia Highsmith grandes escritores.
O senhor deixou a universidade para ser escritor policial. Como a academia reagiu a esse fato?
Garcia-Roza: As pessoas ficaram pasmas quando eu cheguei e disse: “Muito prazer, gostei muito de estar com vocês, mas tchau!”. Causou espanto eu ter deixado tudo depois de 40 anos de vida académica. Nunca havia feito outra coisa na vida a não ser ensinar. Esse corte radical impressionou.
O senhor ainda tem algum tipo de contacto com a vida académica?
Garcia-Roza: Minha vida universitária acabou há seis anos. Nem sequer participo de bancas, seminários e congressos. Isso tudo era o meu dia-a-dia, meu feijão com arroz. Era rara a semana em que não participava de banca de tese ou de algum seminário. Fora as aulas e a orientação de pesquisas e teses. Houve efectivamente uma mudança radical.
Foi uma decisão planejada?
Garcia-Roza: Não foi uma decisão trabalhada durante muito tempo, mas não foi um arroubo emocional, um momento de ódio à universidade. Pelo contrário, minha vida na academia foi muito boa, gostava imensamente de dar aulas. A verdade é que me dei conta, e é muito difícil dizer essas coisas, que dali para frente iria continuar somente no impulso. É como se minha actividade criadora estivesse minguando, como se eu estivesse caindo numa repetição. Quando imaginei que seria assim dali para frente achei melhor sair. Eu não estava devendo nada à universidade e nem ela estava me devendo. Em menos de um ano decidi fazer isso e fiz.
Qual o papel de “O silêncio da chuva” nesse processo?
Garcia-Roza: O livro foi lançado antes da minha saída da universidade. Ele foi escrito em um ano, concomitantemente a esse processo. Quando chegou às livrarias eu não imaginava qual seria o resultado. Nunca havia escrito ficção na vida, podia ser um total fracasso. Fiquei surpreso com o fato do meu primeiro livro ter ganho dois prémios: o Nestlé de literatura e o Jabuti. Vi que era possível ser novelista policial e decidi cortar a universidade. Só faço agora alguns seminários de filosofia em São Paulo. É difícil, impossível, largar a filosofia.
Como é seu processo de criação? O senhor parte de uma estrutura fechada?
Garcia-Roza: Sou um anárquico escrevendo. Parto de uma estrutura básica, de um desenho mínimo, que não chega nem a ser uma espinha dorsal. O restante vai sendo escrito paralelamente à feitura da história. Vou sendo, de certa forma, levado pelos personagens. Soube que a P. D. James começa um livro sabendo como vai ser a ultima página. Fico fascinado por um negócio como esse. É quase uma actividade burocrática, arquivista. Ela não é surpreendida nunca e, no entanto, é uma bela escritora.
Por que a escolha do nome Espinosa?
Garcia-Roza: Ele foi um pensador com uma cabeça brilhante, uma racionalidade incrível, um pensamento profundamente ético e, ao mesmo tempo, um homem do desejo e do afecto. Pensei: “Quem sabe com esse nome a gente não cria uma outra imagem para o policial, que não seja a de um troglodita, de um torturador?”. Queria romper com a visão que tinha desde o tempo da ditadura do Vargas, piorada por 20 anos de ditadura militar. Vemos a polícia como repressora, torturadora e grosseira.


Site para o autor:

http://www.garcia-roza.com

sexta-feira, agosto 04, 2006

INTERNACIONALIZAR A AMAZÓNIA?


Recebi por email este texto.

Parece de interesse e

merece ser divulgado.

Discurso do Ministro

Brasileiro de Educação

nos EUA

Durante um debate numa universidade nos Estados Unidos, o actual Ministro da Educação CRISTOVAM BUARQUE, foi questionado sobre o que pensava dainternacionalização da Amazónia (ideia que surge com alguma insistência nalguns sectores da sociedade americana e que muito incomoda os brasileiros). Um jovem americano fez a pergunta dizendo que esperava aresposta de um Humanista e não de um Brasileiro. Esta foi a resposta do Sr. Cristovam Buarque:
”De fato, como brasileiro eu simplesmente falaria contra a internacionalização da Amazónia. Por mais que nossos governos não tenham o devido cuidado com esse património, ele é nosso. Como humanista, sentindo o risco da degradação ambiental que sofre a Amazónia, posso imaginar a sua internacionalização, como também de tudo o mais que tem importância para a humanidade.Se a Amazónia, sob uma ética humanista, deve ser internacionalizada, internacionalizemos também as reservas de petróleo do mundo inteiro... O petróleo é tão importante para o bem-estar da humanidade quanto a Amazónia para o nosso futuro. Apesar disso, os donos das reservas sentem-se no direito de aumentar ou diminuir a extracção de petróleo e subir ou não o seupreço.Da mesma forma, o capital financeiro dos países ricos deveria ser internacionalizado. Se a Amazónia é uma reserva para todos os seres humanos, ela não pode ser queimada pela vontade de um dono, ou de um país. Queimar a Amazónia é tão grave quanto o desemprego provocado pelas decisões arbitrárias dos especuladores globais. Não podemos deixar que as reservasfinanceiras sirvam para queimar países inteiros na volúpia da especulação. Antes mesmo da Amazónia, eu gostaria de ver a internacionalização de todos os grandes museus do mundo. O Louvre não deve pertencer apenas à França. Cada museu do mundo é guardião das mais belas peças produzidas pelo génio humano. Não se pode deixar esse património cultural, como o património natural Amazónico, seja manipulado e destruído pelo gosto de um proprietário ou de um país. Não faz muito tempo, um milionário japonês, decidiu enterrar com ele, um quadro de um grande mestre. Antes disso, aquele quadro deveria ter sido internacionalizado. Durante este encontro, as Nações Unidas estão realizando o Fórum do Milénio, mas alguns presidentes de países tiveram dificuldades em comparecer por constrangimentos na fronteira dos EUA. Por isso, eu acho que Nova York, comosede das Nações Unidas, deve ser internacionalizada. Pelo menos Manhatan deveria pertencer a toda a humanidade. Assim como Paris, Veneza, Roma, Londres, Rio de Janeiro, Brasília, Recife, cada cidade, com sua beleza específica, sua história do mundo, deveria pertencer ao mundo inteiro. Se os EUA querem internacionalizar a Amazónia, pelo risco de deixá-la nasmãos de brasileiros, internacionalizemos também todos os arsenais nucleares dos EUA. Até porque eles já demonstraram que são capazes de usar essas armas, provocando uma destruição milhares de vezes maior do que as lamentáveis queimadas feitas nas florestas do Brasil. Nos seus debates, os actuais candidatos à presidência dos EUA têm defendido a ideia de internacionalizar as reservas florestais do mundo em troca da dívida. Comecemos usando essa dívida para garantir que cada criança do Mundo tenha possibilidade de COMER e de ir à escola. Internacionalizemos as crianças tratando-as, todas elas, não importando o país onde nasceram, comopatrimónio que merece cuidados do mundo inteiro. Ainda mais do que merece a Amazónia. Quando os dirigentes tratarem as crianças pobres do mundo como um património da Humanidade, eles não deixarão que elas trabalhem quando deveriam estudar, que morram quando deveriam viver. Como humanista, aceito defender a internacionalização do mundo. Mas, enquanto o mundo me tratar como brasileiro, lutarei para que a Amazónia seja nossa. Só nossa!"
ESTE DISCURSO NÃO FOI PUBLICADO.
AJUDE-NOS A DIVULGÁ-LO
Porque acho é muito importante... mais ainda, porque foi Censurado

Também acho. Aqui fica.

Porque todas as informações são necessárias, aqui fica a ressonância:

MRF disse...
Cristovam Buarque já não é ministro de educação. Agora é mesmo candidato presidencial e um dos muitos críticos de Lula.- http://www.mec.gov.br/organiza/galeria/gl_min51.shtm- http://www.cristovam.com.br/Mas este texto é fantástico!
Sexta-feira, Agosto 04, 2006 6:24:02 AM

João Lisboa disse...
É um texto muito bom mesmo. Gostei!
Sexta-feira, Agosto 04, 2006 10:05:41 AM

Matilda Penna disse...
Cristovam Buarque, senador, atualmente é candidato a Presidência da República pelo PDT, sem chances, infelizmente.Foi governador do Distrito Federal, nessa época filiado ao PT, partido do presidente Lula, na gestão do qual foi Ministro da Educação, por pouco tempo e foi despedido do cargo de ministro pelo telefone, quando estava, se não me engano, em Portugal numa viagem.Depois de desentedimentos políticos deixou o PT e filiou-se ao PDT.
Também é blogueiro, http://www.cristovam.com.br/blog/. E tem um site, http://www.cristovam.com.br/. E o discurso foi publicado sim, em jornais americanos na época, faz uns cinco anos.Realmente, me pergunto o porque dessa volta a circulação na internet justo agora...Enfim, concordo com as palavras, claro, :).
Sábado, Agosto 05, 2006 1:12:31 AM

Obrigado a todos pelas informações. O texto pode estar des_datado, mas é importante e revela uma posição.

“PIRATAS DAS CARAIBAS:
O COFRE DO HOMEM MORTO”

Não percebo a histeria. Ando com certeza ao contrário de muita gente. Em 2003, fui dos poucos que gostou abertamente de “Pirates of the Caribbean: The Curse of the Black Pearl”, que era efectivamente uma belíssima e divertida aventura de piratas, como há muito se não via pelas telas de todo o mundo, desde os tempos do “Pirata Vermelho” ou de “O Gavião dos Mares”. Johnny Depp era brilhante, a aventura era trepidante, o humor doseado, atravessado por uma irreverência branda, mas tudo aquilo sabia bem, era o verdadeiro filme de puro e sadio entretenimento, o “filme de verão”, “para a família”, ainda por cima inteligente e algo inquietante pelo seu sabor surrealista.
Agora, esta sequela, “Pirates of the Caribbean: Dead Man's Chest”, que não me divertiu nada, que achei particularmente desagradável quanto ao imaginário que chama a si, que satura pelos trejeitos e maneirismos de Johnny Depp (como ele era extraordinário na primeira parte desta aventura!), que cansa nas suas duas horas e meia de interminável perseguição ao “Cofre do Homem Morto”, enfim, esta é que está a provocar o êxtase de alguma crítica que, ao que parece, anda sempre atrasada e não sabe ter opinião própria.

Eu não digo que o filme seja mau. Não é. Tem momentos de prodígios de técnica, a utilização da imagem virtual é brilhante, a criação de algumas personagens fantásticas é absolutamente surpreendente: o comandante Davy Jones, interpretado pelo actor Bill Nighy, mas “maquilhado” pela técnica de “motion capture”, é simultaneamente um repelente e fascinante meio-homem, meio-polvo, ao lado de peixes martelos e outros animais marítimos que tripulam o novo “navio fantasma” do ciclo, o “Holandês Voador”, que traz redobrados pesadelos ao espectador. Os actores são particularmente bons: Johnny Depp continua a ser o intérprete invulgar que conhecemos e amamos, mas aqui é excessivo, quando tinha encontrado o equilíbrio exacto no anterior Jack Sparrow; a bela Keira Knightley (Elizabeth Swann) tem mais trabalho e de uma maior consistência nesta sequela, Orlando Bloom (Will Turner) continua o sensaborão do costume, mas enfim, não estamos num filme de piratas?, Jonathan Pryce volta a ser um convincente Governador Weatherby Swann, e Geoffrey Rush aí está de novo, com uma caracterização magnífica.

A fotografia é brilhante, a direcção artística brilhante é, brilhante o guarda-roupa, brilhantes os efeitos, a música, enfim, de tudo tão brilhante soube-me a muito pouco o filme, não sei se percebem?, a essência da coisa, o que nos deve tocar no coração e na imaginação. Nunca me consegui descolar (enfim, quase nunca) da análise da qualidade técnica do que via, o que é mau sinal. Quando se descobrem os cordelinhos por detrás dos brinquedos, não há magia que resista. Depois, o que era uma diversão sadia e delirante, passou a soturno e pesado pesadelo que relembra os peganhentos aliens da dita cuja série. Ora eu não ia à espera de terror no fundo do mar, e as “20.000 Léguas Submarinas” nunca foram assim. Os polvos eram outros. O “Flying Dutchman” é um navio mítico, mas vive de poesia e distância, não deste conglomerado de crustáceos em adiantado estado de decomposição. É realmente ao nível da originalidade e da inspiração que esta sequela se distancia da primeira etapa da aventura da “Disneylandia”, confirmando o que já várias vezes foi negado, que não há amor como o primeiro e nunca uma sequela foi melhor que um original. Já foi sim, senhor, mas não desta vez.

A história é, pois, uma perseguição que faz lembrar “O Mundo Maluco” (quem viu? quem se lembra?) em que toda a gente persegue um tesouro perdido, enterrado no deserto, o que propiciava as mais loucas e convulsivamente divertidas peripécias. Aqui o tesouro é um cofre de que se conhece apenas o desenho da chave. E todos procuram chegar primeiro para abrir o cofre que tem lá dentro o coração de um pirata que só dará tréguas se for encontrado.


Jack Sparrow tem o desenho da chave e a malícia do “pior pirata que já existiu” (“mas falaram-lhe de mim, não foi?”, belíssima piada, mas do outro filme), e depois há outros piratas avulsos, para todos os gostos, até um intelectual (este sim, tem graça!, boa malha dos argumentistas), cavalheiros impolutos e intrépidas donzelas, todos engalfinhados numa luta sem quartel, com navios de bandeira negra, ilhas de perdição, magias de caribenhas apaixonadas, nativos exóticos, muito decorativos e antropófagos desnutridos, e tudo se passa como num “cartoon” ou banda desenhada. Pela descrição parece que vale a pena? Não sei. O primeiro divertiu-me a valer e viu-o várias vezes, de seguida, sempre com muito gozo. Este, acho que já vi. Não me inspira uma revisão “crítica”. Mas o pirata intelectual, que tem explicação “muito cultural” para tudo, e o interminável duelo triplo numa roda de moinho que circula livremente pela natureza, em direcção ao precipício, são bons momentos. Pena que o filme não seja todo assim, e não tenha menos 20 minutos.

PIRATAS DAS CARAIBAS: O COFRE DO HOMEM MORTO (Pirates of the Caribbean: Dead Man's Chest), de Gore Verbinski (EUA, 2006); com Johnny Depp, Orlando Bloom, Keira Knightley, Jack Davenport, Bill Nighy, Jonathan Pryce, etc. 150 min; M/12 anos.

quinta-feira, agosto 03, 2006

FELIZMENTE HÁ LUAR

Já tinha lido a peça há muito, logo quando saiu nos anos 60, andava eu e a Céu a entrar na Faculdade de Letras. Já a tinha visto representada, depois de Abril, quando deixou de existir a censura que a proibira. Gostara, era um bom exercício de escrita teatral, numa linha de narrativa distanciada brecheteana, bem conseguida. Mas não tinha a recordação de que fosse tão boa. Era uma boa peça, mas não a julgava tão boa. É excelente, agora que a revi numa encenação de “A Barraca” que percorreu o País, escola a escola (enfim, algumas… ) e fez uma temporada no velho Cinearte, no largo de Santos.
Belíssimo texto, foi a primeira conclusão a extrair. Esta versão encurtou o original, colocou-o na hora e meia bem medida, mas a verdade é que não se notam os cortes e a globalidade do projecto mantém-se.

Depois devo dizer que a encenação (pensada para uma longa itinerância e para diversos espaços), funciona muito bem. De grande simplicidade, vive de um bom guarda-roupa, e de uns modelos de casas minúsculos que ocupam o rodapé do palco. Situam a acção, apenas. A iluminação cria bons momentos fantasmagóricos. E não é preciso mais. O resto cumpre-o a imaginação dos espectadores.

Bons actores, a começar pela dupla Maria do Céu Guerra e João d’Ávila, passando depois por todo o restante elenco: André Nunes, Luís Thomar, Patrícia Adão Marques, Pedro Borges, Ruben Garcia, Sérgio Moras, Sérgio Moura Afonso e Susana Costa. Há modelações, mas globalmente a unidade impera. Maria do Céu Guerra destaca-se num longo monólogo, revelando a fibra e o talento de quem se entregou desde sempre a esta paixão. Vi o espectáculo numa tarde de domingo (último dia de representações, mas atenção volta em Outubro!), com um calor sufocante, a casa cheia, o ar irrespirável. Se era mau para os espectadores, como não seria para os actores, debaixo de projectores e bem agasalhados nas suas pesadas vestimentas da época. É necessário ar condicionado neste teatro.
Quanto à peça ela fala de um general sem medo, o Gomes Freire de Andrade, que os miguelistas lançaram na fogueira da inquisição, como inimigo da Pátria, por que ee se afirmava como a esperança de um povo mergulhado na ditadura. Quando foi escrita, no início dos anos 60, andava ainda por aí o fantasma de um outro “general sem medo”, Humberto Delgado. Óbvio que a peça lança pistas para se criarem semelhanças, o resultado foi ser tão perseguida que nunca foi encenada antes de 25 de Abril de 1974. Mas a sua actualidade mantém-se, enquanto existirem desigualdades sociais, ditaduras, jogos de poder, intrigas palacianas. Enquanto a deixa de Manuel for verdadeira: “Se há guerra, se temos o inimigo à porta, “Aqui d’el rei” que a terra é de todos e todos a temos que a defender, mas, batido o inimigo, chegada a época das colheitas, quando se trata de comer os frutos da tal terra que é de todos, então não! Então a terra já é só deles!”

Quando matam o general na fogueira, cujas labaredas se erguem na noite, Matilde, a mulher de Gomes freire de Andrade, grita: “Julguei que isto era o fim e afinal é o princípio. Aquela fogueira, António, há-de incendiar esta terra! Olhem bem! Limpem os olhos no clarão daquela fogueira e abram as almas ao que ela nos ensina. Até a noite foi feita para que a vísseis até ao fim… Felizmente – felizmente há luar.“
Um belíssimo trabalho de A Barraca.

A HERANÇA DE ESZTER

"A HERANÇA DE ESZTER”

Nasceu húngaro, em 1900, em Kassa, uma peque­na cidade que hoje pertence à Eslováquia. Chama-se Sándor Márai foi escritor, exilou-se voluntariamente na Alemanha e na França durante o regime de Horthy, nos anos 20, até que abandonou definitivamente o seu país em 1948 com a chegada dos comunista ao poder, tendo-se fixado nos Estados Unidos. A sua obra foi então proibida na sua Pátria, e também no mundo, o que o levou a um estranho esquecimento, ele que era considerado um dos grandes escritores da Europa Central. Sándor Márai suicidou-se em 1989, em San Diego, na Califórnia, poucos meses antes da queda do muro de Berlim. Depois da sua morte, foi “redescoberto” no seu país e no mundo. Outro romance seu já foi publicado em Portugal: “As Velas Ardem até ao Fim” (Dom Quixote, tal como “A Herança de Eszter” que acabei de ler).

“A Herança de Eszter” é um romance límpido, sereno, sem sobressaltos de escrita ou de tom. E todavia perpassa por ela uma história invulgar e duas personagens difíceis de esquecer: Eszter e Lajos.
Tudo começa no dia em que Lajos, depois de vinte anos de ausência, anuncia o seu regresso a Eszter, que foi no passado seu grande amor, mas a quem Lajos fez as piores patifarias. Durante esta tão longa ausência, “Eszter viveu uma existência cinzenta e monótona, fechada sobre si própria, esperando a morte e sonhando com o retorno de um amor impos­sível. Até ao dia em que, inesperadamente, recebe um telegrama de Lajos, o único homem que amou e graças ao qual encontrou, por um breve período, sentido para a sua vida. Grande sedutor e canalha sem escrúpulos, Lajos não só traiu Eszter como destruiu a sua família, tirando-lhe tudo o que possuía. Agora, depois de uma ausência prolongada, regressa e Eszter prepara-se para o receber comovida e perturbada por sentimentos contraditórios.”
O espantoso nesta história de amor e renúncia, para lá do estilo despojado e distante do escritor, que se afasta sempre do melodrama, que todavia não deixa de se insinuar, é o comportamento desses dois seres, aparentemente tão contraditórios. Eszter sobressalta-se com o regresso, Lajos planeia um derradeiro “assalto”, com as palavras da paixão. Eszter aceita tudo em nome de um amor, Lajos não hesita, comandado pelo despotismo. Mas, no meio de todas estas aparências irrefutáveis, há umas cartas que nunca foram lidas pela destinatária e que, talvez, tenham sido a causa da principal patifaria desta aventura sentimental.


Um excerto da obra. É Lajos que fala:
“Agora deixa que te diga uma coisa - disse, e encostou-se à cómoda, acendeu um cigarro e, num gesto distraído, deitou o fósforo na salva dos cartões-de-visita. - Entre nós sucederam coisas que não podemos calar por mais tempo. Há quem silencie durante toda a vida o que foi mais importante. Às vezes morrem connosco. Mas, às vezes, há maneira de as dizer... e, então, não se pode, não é admissível que continuemos calados. Creio que um silêncio destes pode ter sido o pecado original de que se fala na Bíblia. Há uma mentira ancestral na vida; o homem tarda a dar-se conta dela. Não queres sentar--te? Senta-te, Eszter, e escuta-me. Não, desculpa, mas, desta vez, gostaria de ser eu a elaborar a acusação e a ditar a sentença. Até agora foste tu a sentenciar. Senta-te, por favor.
Falava em tom cortês, mas peremptório.
- Toma - disse, e indicou uma cadeira. - Olha, Eszter, nós falamos sobre tudo há vinte anos, As coisas não são assim tão simples, Tu elencas os meus pecados - tu e os outros -, e esses pecados, infelizmente, são ver­dadeiros. Falas-me de um anel e de mentiras, de promessas que não cumpri, de letras que não paguei. Mas há outras coisas, Eszter. E piores. É supérfluo dizer tudo... não me quero defender... pois não são já esses pormenores a decidir o meu destino. Fui sempre um fraco. Gostaria de ter feito alguma coisa neste mundo, e nem era absolutamente desprovido de talento. Mas intenções e talento tudo isso é muito pouco. Agora já sei que é pouco. Para a criação é preciso algo mais... Uma espécie de força particular, ou de disciplina, ou as duas juntas, e julgo que isso é o que se chama ter carácter… E essa capacidade, ou característica, é que me falta. É uma estranha surdez. É como se alguém conhecesse exactamente a música cuja melodia entoa mas não ouvisse os sons. Quando te conheci, ainda não sabia isto assim, com a precisão com que te conto... nem sabia que tu significavas, para mim, o carácter. Compreendes?
- Não - disse, com franqueza.
Não eram tanto as suas palavras que me surpreendiam, mas o seu tom de voz e a maneira de falar. Nunca o ouvira falar neste tom. Falava como alguém que... não, é-me quase impossível descrever o tom da sua voz. Falava como alguém que entrevê algo, uma verdade, ou uma descoberta, e vai pelo caminho certo, não pode ainda dizer a sua verdade, mas está cada vez mais perto da sua visão e, em espasmos, esforça-se por gritar ao mundo as suas impressões. Falava como alguém que sente algo. Eu não estava habituada a esse tom de voz em Lajos. Observava-o em silêncio.
Que simples - disse. - Depressa compreendes. Tu foste, tu poderias ter sido, para mim, o que me faltava: o carácter. São coisas que se sentem. Uma pessoa que não tem carácter, ou não tem um carácter perfeito, tem o seu quê de inválido, no sentido moral. Há muitas pes­soas assim. Como se fossem criaturas perfeitas, a quem falta uma mão, ou uma perna. Aplica-se-lhes uma prótese e tornam-se logo capazes de trabalhar, de ser úteis à sociedade. Não te ofendas com a analogia, pois tu poderias ter sido uma prótese para mim... Uma prótese moral. Espero não magoar-te -acrescentou, docemente, e inclinou-se para mim.
Não - disse -, só não acredito nisso, Lajos. Um carácter não se pode substituir. O sentido moral não se pode transmitir de uma pessoa para outra como um transplante artificial. São teorias. Não te ofendas.
- Não são só teorias. O sentido moral, vês, não é algo de hereditário, mas uma característica adquirida. Os homens nascem sem moral. O sentido moral dos sel­vagens ou das crianças é diferente da moral de um juiz de sessenta anos do Supremo Tribunal de Viena ou de Amesterdão. Adquire-se o sentido moral durante a vida, tal como se adquirem maneiras e cultura.”

Não será Dostoievski, mas é bem interessante, este romance de Sándor Márai. Vou à procura de “As Velas Ardem até ao Fim”. Gosto deste tom de murmúrio por que se expressam grandes paixões e se afundam na desgraça protagonistas arrastados por uma qualquer ideia de destino. Amores nefastos.

terça-feira, agosto 01, 2006



“UM HOMEM SEM PÁTRIA”
(Memórias da América de George W. Bush)
de Kurt Vonnegut

Acordei, com o telefone e comecei logo com uma mentira piedosa: Acordei-te? Não. Tinha acordado, mas não eram horas para eu aceitar a verdade. A verdade é que me tinha deitado às 7 a reler o “Felizmente à Luar” (logo mais conto!), e que acordara realmente com o telefonema, cerca das 14. Abençoado telefonema. Acordei, levei a mão à resma de livros que tenho ao lado da cama, pequei no “Um Homem sem Pátria” (Memórias da América de George W. Bush), de
Kurt Vonnegut, e comecei a ler treze crónicas ilustradas, que devorei num ápice. Num ápice passei ao pc, de que Vonnegut não gosta, e num ápice me apeteceu dar conta aos leitores deste blog da qualidade, actualidade, humor, irreverência e saudável pessimismo destes escritos.

Sabem? O ideal seria transcrever o livro todo. Tudo nele é admiravelmente inteligente, sucinto, o humor funciona por deliciosas elipses e paralelismos desconcertantes, há um tom passadista, agarrado ao passado, mas que logo se transmuda numa fabulosa alegria de viver e numa entusiasmante elegia da natureza. Kurt Vonnegut não levaria a mal que eu transcrevesse grandes excertos, ou colocasse on line o seu texto, ele que proclama, como exemplo a seguir, o caso de Benjamin Franklin que inventou a salamandra e a colocou no mercado sem direitos de autor, como forma de retribuição pelas tantas e tantas outras invenções de que diariamente dispunha. Mas os editores (Tinta da China) não iriam gostar. Além disso manusear um livro, só tem um paralelo na vida: manusear uma mulher, ambas as actividades a efectuar com muito amor, pois claro. Por isso comprem o livro, e manuseiem-no como se abrissem as páginas de alguém que amam. Vocês vão amar este livro. Podem mesmo manuseá-lo a quatro mãos: um/uma lendo e relendo para o outro/ a outra cada parágrafo, e saboreando cada frase.
Querem um exemplo (não resisto á transcrição)? Ele reclina-se no sofá, ela pousa a cabeça no ombro, ele lê ela ouve:
“Pronto, agora vamos divertir-nos um pouco. Vamos falar de sexo. Vamos falar de mulheres. Freud dizia que não sabia o que queriam as mulheres. Eu sei o que querem as mulheres: querem uma grande quantidade de gente com quem falar. Sobre o que e que querem falar? Querem falar sobre tudo.
O que querem os homens? Querem uma data de compinchas, e gostavam que as pessoas não se zangassem tanto com eles.
Porque há tanta gente a divorciar-se hoje em dia? É porque a maioria de nos já não tem uma família alargada. Antigamente, quando um homem e uma mulher se casavam, a noiva ficava com muito mais gente com quem falar sobre tudo. O noivo ficava com muito mais compinchas a quem podia contar anedotas parvas.
Há uns poucos americanos, mas são muito poucos, que ainda tem famílias alargadas. Os navajos. Os Kennedys.
Mas para quase todos nós, se nos casarmos nos dias que correm, somos só mais uma pessoa para a outra pessoa. O noivo fica com mais um compíncha, mas é uma mulher. A mulher fica com mais uma pessoa com quem pode falar sobre tudo, mas é um homem. Quando um casal tem uma discussão hoje em dia, eles podem pensar que é sobre dinheiro, poder, sexo, ou sobre como educar os miúdos, ou outra coisa qualquer. Mas o que eles estão realmente a dizer um ao outro, embora não se apercebam disso, é isto: “Tu não és pessoas que cheguem!”
Um marido, uma mulher e uns quantos miúdos não são uma família. São uma unidade de sobrevivência muitíssimo vulnerável.”

Chega para abrir o apetite?
Não? Querem algo mais substancial? Mais na linha do que o título promete? Memórias da América de George W. Bush?
Então agarre na mão dele ou dela, e comece a sussurrar-lhe ao ouvido:
“TENHO ALGUMAS NOTÍCIAS PARA VOS DAR.
Não, não me vou candidatar à presidência, apesar de saber que uma frase, se for para ser completa, tem de ter tanto um sujeito como um verbo.
Nem tão-pouco vou confessar que durmo com crianças. Mas há uma coisa que posso dizer: a minha mulher é de longe a pessoa mais velha com quem já dormi.
As notícias são estas: vou processar a tabaqueira Brown & Williamson, que fabrica os cigarros Pall Mali, por danos no valor de mil milhões de dólares! Desde os meus doze anos, nunca fumei outra coisa que não fosse Pall Malls sem filtro, uns atrás dos outros. E há já muitos anos que a Brown & Williamson promete, ali mesmo na embalagem, que me há-de matar.
Mas agora tenho oitenta e dois anos. Obrigadinho, seus patifes nojentos. A última coisa que eu queria era estar vivo numa altura em que as três pessoas mais poderosas de todo o planeta se chamassem Bush, Dick e Cólon.
O nosso governo está empenhado numa guerra contra as drogas. Isso é certamente muito melhor do que não haver drogas de todo. Foi o que se disse sobre a lei seca. Têm a noção de que, entre 1919 e 1933, era absolutamente proibido fabricar, transportar ou vender bebidas alcoólicas? E o jornalista cómico Ken Hubbard disse: “A lei seca é melhor do que não haver álcool de todo.”
Mas agora ouçam isto: as duas substâncias das quais mais pessoas abusam mais vezes, as mais viciantes e destruidoras de todas são ambas perfeitamente legais.
Uma, é claro, é o álcool etílico. E o presidente George W. Bush, nada mais, nada menos, e ele próprio o admite, esteve bêbedo, ou não muito bem, ou mais para lá do que para cá durante grande parte do tempo desde os dezasseis até aos quarenta anos. Aos quarenta e um anos, diz ele, Jesus apareceu-lhe e fê-lo largar a garrafa, parar de se alimentar pelo nariz.
Outros bêbedos viram elefantes cor-de-rosa.
Quanto ao meu historial particular de abuso de substâncias estranhas, fui um cobarde no que toca à heroína e à cocaína, ao LSD, e por aí adiante, com medo de que elas me fizessem passar para o outro lado. Fumei, de facto, um charro de marijuana uma vez, com o Jerry Garcia e os Grateful Dead, só para ser sociável. Não pareceu que tivesse tido qualquer tipo de efeito sobre mim, nem bom nem mau, portanto nunca mais voltei a fazê-lo. E, graças a Deus ou seja lá ao que for, não sou alcoólico, o que é em grande parte uma questão de genes. Tomo uma ou duas bebidas de quando em quando, e fá-lo-ei outra vez esta noite. Mas duas é o meu limite. Sem problemas.
Claro, sou claramente agarrado aos cigarros. Continuo na esperança de que os malditos me matem. Numa ponta uma chama e na outra um tonto.”
Bom, só vos peço que continuem a leitura. È proveitosa e estimulante. Um belo livro. Daqueles que se agarra na primeira página e só se larga na última, e se volta atrás para saborear uma frase ou uma consideração mais grave ou mais oportuna. Ou mais delirante.
De Kurt Vonnegut só conhecia “Matadouro 5” (Slaughterhouse-Five), arrepiante descrição dos bombardeamentos de Dresden, de que foi sobrevivente. Este romance poderosíssimo deu origem a um filme particularmente interessante de George Roy Hill que estreei no Apolo 70, quando eu era seu director de programação.

MATADOURO 5
Título original: Slaughterhouse-Five
Realização: George Roy Hill (EUA, 1972); Argumento: Stephen Geller, segundo romance de Kurt Vonnegut Jr.; Música: Glenn Gould; Johann Sebastian Bach; Fotografia (cor): Miroslav Ondrícek; Montagem: Dede Allen; Casting: Marion Dougherty; Design de produção: Henry Bumstead; Direcção artística: Alexander Golitzen, George C. Webb; Decoração: John McCarthy Jr.; Maquilhagem: John Chambers, Mark Reedall; irecção de produção: Production Management, Lloyd Anderson, Ernest B. Wehmeyer; Assistentes de realização: Ray Gosnell Jr.; Harvey S. Laidman; Som: James R. Alexander, Vincent Connelly, Andrew Kazdin, Milan Novotny, John Strauss, Dick Vorisek; Efeitos visuais: Albert Whitlock; Produção: Jennings Lang, Paul Monash.
Intérpretes: Michael Sacks (Billy Pilgrim), Ron Leibman (Paul Lazzaro), Eugene Roche (Edgar Derby), Sharon Gans (Valencia Merble Pilgrim), Valerie Perrine (Montana Wildhack), Holly Near (Barbara Pilgrim), Perry King (Robert Pilgrim), Kevin Conway (Roland Weary), Friedrich von Ledebur, Ekkehardt Belle, Sorrell Booke, Roberts Blossom, John Dehner, Gary Waynesmith, etc.
Richard Schaal,
Duração: 104 min

Kurt Vonnegut nasceu em Indianápolis, EUA, em 1922. Actualmente vive em Nova Iorque e Bridgehampton.
Autor de trinta romances, vários ensaios e peças de teatro, muitos dos quais com adaptações ao cinema e à televisão, Kurt Vonnegut é um dos poucos grandes mestres da literatura norte-americana contemporânea.
Apesar da sua vasta obra, somente “Galápagos” e “Matadouro Cinco ou a Cruzada das Crianças” se encontram disponíveis em traduções portuguesas.

Obras sobre Kurt Vonnegut:
- Allen, William Rodney. Understanding Kurt Vonnegut. Columbia: University of South Carolina Press, 1991.
- Federman, Raymond. Critifiction: Postmodern Essays. Albany: State University of New York Press, 1993.
- Hume, Kathryn. "Kurt Vonnegut and the Myths and Symbols of Meaning". Critical Essays on Kurt Vonnegut. Ed. Robert Merrill. Boston: G.K. Hall & Co, 1990. 201-215.
- Klinkowitz, Jerome. Slaughterhouse-Five: Reforming the Novel and the World. Boston: Twayne Publishers, 1990.
- Krassner, Paul. "Case History of a Cyberhoax." The Realist Autumn, 1997: 1-4.
- Leeds, Marc. The Vonnegut Encyclopedia: an authorized compendium. London: Greenwood Press, 1995.
- Reed, Peter J. The Short Fiction of Kurt Vonnegut. London: Greenwood Press, 1997.
- The Vonnegut Web. Online. Duke University. Internet. 31 March 1998. Available: .
- Vonnegut, Kurt, Jr. Welcome to the Monkey House. New York: Dell Publishing Co., 1971.
- Weide, Robert. "The Morning After Mother Night." The Realist. Autumn, 1997: 1-11.

Outras obras de Kurt Vonnegut:
- Cat's Cradle. New York: Dell Publishing Co., 1972.
- Mother Night. New York: Avon Books, 1972.
- Palm Sunday. New York: Dell Publishing Co., 1984.
- God Bless You, Mr. Rosewater. Dell Publishing Co., 1974.
- Slaughterhouse-Five. Dell Publishing Co., 1991.
- Hocus Pocus. New York: Berkley Books, 1990.
- Timequake. New York: G.P. Putnam's Sons, 1997.
- Fates Worse Than Death. New York: G.P. Putnam's Sons, 1991.

Kurt Vonnegut no cinema: Como argumentista, ou escritor de que outros retiram argumentos para filmes, Kurt Vonnegut, ou Kurt Vonnegut Jr. Apatrece ligado aos seguintes títulos: "Bus Stop", episódio “he Runaways” (1961) TV; “Happy Birthday, Wanda June”(1971); “Between Time and Timbuktu: A Space Fantasy” (1972) (TV); “Matadouro 5” (Slaughterhouse-Five) (1972) (do romance “Slaughterhouse-Five Or The Children's Crusade”); Rex Harrison Presents Stories of Love (1974) (TV) (história do episódio "Epicac"); “Next Door” (1975); “Karikakramäng” (1977) (história do episódio "Promenaad"); “Slapstick” (Of Another Kind) (1982); “American Playhouse: Who Am I This Time?” (1982) (TV); “Displaced Person” (1985) (TV); “Long Walk to Forever” (1987); Monkey House (1991) (TV) (contos “Next Door”, “The Euphio Question” e “All the King's Horses” do livro “Welcome to the Monkey House”); Harrison Bergeron (1995) (TV); Mother Night (1996); “Breakfast of Champions” (1999) e tem neste momento em produção (Leonardo DiCaprio) “Cat's Cradle” (para estreia em 2007).