sábado, agosto 12, 2006

Fotos de
Luísa Cavalheiro Gomes
na estreia de MISS DAISY

Luísa Cavalheiro Gomes é fotógrafa, fotógrafa de espectáculos, essencialmente. Não há estreia no meio teatral em que ela não apareça. Mas há mais: ela acompanha ensaios e espectáculos de várias companhias. Vai registando o que vê, com olhos de quem vê.
No seu portfólio há um pouco de tudo, do teatro à música, do cinema à literatura. Há anos, deu-me a honra de ter uma exposição sua na abertura do Famafest 2001, com um impressionante conjunto de fotografias de actores portugueses e músicos de jazz internacionais.
A Luísa esteve na estreia da peça “Miss Daisy”, no Teatro Eunice Muñoz, em Oeiras (de que aqui falei). Aí me fotografou por diversas vezes e fez agora o favor de me enviar as fotos. Excelentes como sempre nela, apesar de ela confessar não gostar de fotografar com flash. São igualmente bons momentos para recordar, o bom abraço à “minha” Eunice, à "minha" Lia Gama, à minha Maria Eduarda Colares, e ainda a cavaqueira com o bom amigo e encenador Celso Cleto (infelizmente aqui sem a “sua” bela Sofia Alves).



UM BLOG (POR DIA) PARA VISITAR (7)

"uma forma...
LIA COSTA CARVALHO
Photography"


“O sonho é ver as formas invisíveis da distância imprecisa, e, com sensíveis movimentos da esperança e da vontade…” de Mensagem (1934) / Horizonte / Fernando Pessoa

uma forma... LIA COSTA CARVALHO Photography” é o blog de uma fotógrafa que eu não conhecia e que descobri viajando de blog em blog. Descoberta preciosa, porque Lia Costa Carvalho (será brasileira?), que vive em Lisboa, e trabalha em Portugal, e que se interessa sobretudo pelo universo do espectáculo e da literatura, apresenta um portfólio magnifico, ilustrando um olhar novo, moderno, contemporâneo, mas bem radicado na realidade, atento ao pormenor significativo e à verdade interior. Joga com cores puras e formas simples, enquadra de forma surpreendente por vezes, e tem sobretudo uma limpidez de visão que encanta. Um blog magnífico, que aqui saúdo e proponho à visita/visão dos bloguistas que me lerem. Já agora visitem também, além deste blog, o Portfólio Fotográfico / Lia Costa Carvalho. E dêem-se por felizes. São excelentes fotografias, excelentes para estes dias de canícula de Agosto.
Para ilustrar o que digo, retiro com a devida vénia (espero que a Lia não se importe) duas fotos de mulheres de quem gosto muito, A Adelaide João, minha actriz de sempre, grande prémio de interpretação no cinema, num filme meu (“Mãe Genoveva”), e Raquel Freire, realizadora de uma longa-metragem por que tenho especial carinho, “Rasganço”. E “roubo” também um “vermelho” de uma estranha sensualidade, de uma mulher que não devo conhecer, mas que gostaria muito certamente de conhecer.

UM BLOG (POR DIA) PARA VISITAR (6)

"CORPO VISIVEL"

"Corpo Visivel" é um belissimo blog, de colagens efectuadas com um bom gosto e um sentigo gráfico e poético indiscutíveis. Um bom blog pode ser um blog de palavras, de sons, de imagens, ou de uma conjugação de tudo isso, sendo que a originalidade do/a bloguista vem precisamente da escolha e da arrumação desses materiais. Este "Corpo Visível" é notável de sobriedade, de "sentido", de definição de um gosto e de uma sensibilidade, que obviamente adora cinema e poesia.
Quem é este "Corpo Visivel" não sei. Não sei se é homem ou mulher, novo ou velho, daqui ou dali. Sei que o blog me impressionou francamente e que dá prazer passear pelas suas raras páginas. Vale a pena percorrer este "corpo visível" e imaginar o outro invisível que lhe estará por detrás.


sexta-feira, agosto 11, 2006

NOVO MUSICAL DE LA FÉRIA


"MÚSICA NO CORAÇÃO"
NO CINEMA
NO TEATRO


NO TEATRO (2)
PROXIMAMENTE (SETEMBRO)
NO TEATRO POLITEAMA

“Música no Coração” é, seguramente, um dos mais célebres musicais de toda a história do teatro e do cinema musicais. O seu êxito triunfal em (quase) todas as temporadas teatrais e o seu apoteótico sucesso nas salas de cinema, a quando da estreia do filme assinado por Robert Wise, que esteve em Lisboa, quase dois anos consecutivos no Tivoli, com sessões esgotadas e espectadores que repetiam a sua visão vezes sem conta, não termina de surpreender tudo e todos. A odisseia sentimental e bélica da famosa família Von Trapp vai figurar na memória de qualquer espectador medianamente atento ao que se passa no mundo. Ninguém se pode furtar a mais uma “Música no Coração” num qualquer canal de televisão na quadra no Natal, ninguém passa por Londres ou Nova Iorque sem se confrontar com uma nova encenação do êxito de Richard Rodgers e Oscar Hammerstein III. Ninguém se furta ao fascínio de um novo lançamento em DVD (com dezenas e dezenas de extras, a explicar como foi o que foi), e ninguém pode negar a genialidade de Robert Wise a conduzir este filme, muito embora muitos possam não suportar o tom algo lamechas e o peso de um argumento que, não sendo convencional, acaba por não se furtar a todos os rodriguinhos do melodrama musical.
Acontece que revisto agora, o que sobressai é realmente a portentosa realização de um mestre, Roberto Wise. A sua relação com os cenários, a forma como enquadra, como movimenta a câmara, como dirige os actores, como se serve da sumptuosa paisagem, como estabelece a relação entre as personagens no interior de um mesmo plano (como realiza a mise-en-scéne, em suma) é realmente brilhante. Depois a história por vezes arrasta-se nalguns convencionalismos escusados. Mas a verdade é que o filme sobrevive, e sobrevive bem.
Agora anuncia-se a versão teatral portuguesa, com a assinatura de Filipe La Féria, com Lúcia Moniz e Anabela a alternarem no papel de “A Noviça Rebelde” (título do filme no Brasil). Em Setembro, no Teatro Politeama. Lá estaremos.

UM BLOG (POR DIA) PARA VISITAR (5)


Sei apenas que se chama Rita. Não a conheço. Andava voando de blog em blog, de comentário em comentário, quando deparei com o blog “A(mar)”, assinado por uma Rita. Uma Rita que se despedia da blogosfera. Assim:

Domingo, Agosto 06, 2006
A-MAR

Não sei bem porque é que o a-mar surgiu. Quando comecei, pensava que sabia. Durante estes meses, embora que em constante reformulação do sentido, pensava que sabia. Hoje não sei nada. Esta é aquela fase em que, dizem os sábios, despojados de tudo, estamos finalmente aptos a começar a conhecer. Não sei se é assim. Sempre tive medo de me perder. Esta sensação de desamparo, de total vazio, em nada me estimula - e só me paralisa. Perdi-me, apesar de tudo. Isso sei.
Suponho que já não tenho vontade de continuar o a-mar, que já não me faz sentido continuar o a-mar.
Fazem-se afectos na blogosfera. Há pessoas que conhecemos, ou melhor, reconhecemos, porque têm algo que nós também temos, e de que passamos a gostar. Falo agora delas e se, possível, também para elas.
O meu obrigada a todas, não por me terem lido, mas por me terem permitido lê-las, no que isso tem, apesar de tudo, de subjectivo, e que é ler-me também. O meu mundo ficou maior!
Obrigada ao Jorge, porque tudo o que constrói me parece sempre sério e belo.
Obrigada ao mfc, que há muito que deixou de me visitar, ele que sempre me visitava no impossibilidades, mas cuja ausência me fez repensar a importância de não desistirmos, mesmo quando estamos sós e, sobretudo, a importância de cuidarmos melhor dos nossos afectos.
Obrigada ao jrd, também ausente.
Obrigada ao Pedro Ferreira, por ser sempre igual a ele próprio.
Obrigada à Elsa, amiga da vida, dita real, que me mostra sempre o outro lado da Lua ou do Sol e que me faz relembrar os momentos mais bonitos da minha infância.
Obrigada ao Alba, pela sua consistência, coragem e perseverança.
Obrigada à Maria do Rosário, cujas visitas silenciosas me fizeram acreditar que haveria algo em mim de imutável, ela que me leu no impossibilidades e que pareceu reconhecer-me também aqui, ela que, como eu, adora ser mãe.
Obrigada ao Pedro Estácio e ao Lino, do Porto, que me mostraram, de outra forma, o calor daquela cidade.
Obrigada ao Pedro Farinha e a toda a equipa do Farol das Artes, pela paz interior e harmonia que sempre me inspiraram e inspiram.
Obrigada ao jmnk, que acabo de conhecer mas que já me faz pensar.
Obrigada a todos os que não referi, mas que constam da minha lista de favoritos, e que também ajudaram a tornar maior o meu mundo.
Finalmente, obrigada ao jctp, pessoa que mais mexeu comigo durante estes escassos seis meses e que deitou por terra muitas das minhas certezas. Obrigada por me fazeres crescer!
Até breve, espero.
posted by Rita at 09:35

Lido na diagonal o “A(mar)”, ficou-me a vontade de ler mais Rita, de ir até aos seus blogs anteriores, esse “im(possibilidades”, que mudou de poiso em Novembro de 2005, e passou a “im(possibilidades 2”, transformando depois neste “A(mar)”, e embrenhei-me ainda mais e fui descobrir colaboração sua num tal “o princípio e o fim”, blog sobre livros, que são lidos e referenciados também por outros loguistas: katraponga, broa quente, Ana, jmnk, kyler, Isabela, Carrie, Daniela, Susana e Bês. Uma boa iniciativa que seria muito melhor se os colaboradores fossem mais persistentes. A ideia é óptima.
A Rita tem sempre uma tonalidade de nostalgia a roçar a tragédia em tudo o que escreve. Há uma sombra de solidão e tristeza em muitos textos. Há uma mistura de dor e prazer, de cumplicidade e insularidade que tornam os seus textos entre lamentos e gritos que nos tocam. Para essa solidão, para essa forma distante de olhar a vida (que, no entanto, necessita tanto de companhia), há muitas formas de resposta. Uma delas é não abandonar os seus post no “A(mar)” ou noutro blog qualquer, e não esquecer o que a própria Rita citou de Rouseau:

Não há felicidade solitária
É a fraqueza do homem que o torna sociável; são as nossas mi­sérias comuns que levam os nossos corações a interessar-se pela humanidade: não lhe deveríamos nada, se não fôssemos homens. Todos os afectos são indícios de insuficiência: se cada um de nós não tivesse necessidade dos outros, nunca pensaria em unir-se a eles. Assim, da nossa própria enfermidade, nasce a nossa frágil fe­licidade. Um ser verdadeiramente feliz é um ser solitário; só Deus goza de uma felicidade absoluta; mas qual de nós faz uma ideia do que isso seja? Se algum ser imperfeito se pudesse bastar a si mes­mo, de que desfrutaria ele, na nossa opinião? Estaria só, seria mi­serável. Não posso acreditar que aquele que não precisa de nada possa amar alguma coisa: não acredito que aquele que não ama na­da se possa sentir feliz. - Jean-Jacques Rousseau, in 'Emílio'

Rita do A(mar), não vá, fique. Quero ler mais textos seus. Eu e muitos outros amigos e leitores seus.

Não resisti a “roubar” esta sequência de fotogramas de “Der Himmel Uber Berlin” e já agora acrescento-lhe um texto meu de há uns anos onde se destca bem a minha paixão por esta obra única.

Segunda-feira, Junho 05, 2006
Der Himmel Uber Berlin, Wim Wenders

"AS ASAS DO DESEJO"

Depois de obras como “O Amigo Americano” ou “Alice nas Cidades”, Wim Wenders lança-se na realização de “As Asas do Desejo”, um título de 1987, rodado portanto somente dois anos antes da queda do muro de Berlim.
A um período de um certo nihilismo ideológico, representado por exemplo por “Alice nas Cidades”, sucede uma nova forma de encarar a realidade. Wim Wenders assume um olhar metafísico, ou pelo menos denotando uma procura do espiritual de que “As Asas do Desejo” é não só um claro síntoma, como um excelente e belissimo exemplo.
Dois anjos, Daniel e Cassiel, descem à cidade. A cidade é Berlim, terra dividida pelo muro. Os anjos descem do céu, misturam-se com os humanos, observam-nos nas ruas e nas bibliotecas, no circo ou durante a rodagem de um filme... E descobrem, um pouco por todo o lado, uma certa tristeza, uma visível indiferença, uma profunda incomunicabilidade. Entre os humanos, um antigo anjo é hoje actor de cinema e chama-se Peter Falk. Os anjos descobrem mais, descobrem por entre os homens que se ignoram, o amor possível de um anjo por uma trapezista de nome Marion. O amor de um anjo que desceu do céu à terra, por uma mulher que diariamente partindo da terra tenta agarrar o céu, equilibrando-se no frágil fio da sua arte. É um momento mágico de cinema, este que Wim Wenders consegue neste filme admirável, único, surpreendente.
Enquanto o cinema recria o pesadelo nazi, através do filme dentro do filme, Wim Wenders retrata-nos a cidade dividida, a Alemanha dividida, o mundo dividido. Primeiramente a preto e branco, porque os anjos não conhecem as cores; depois, a cores, porque os anjos quizeram experimentar a natureza do humano, e se confrontam com os perigos bem complexos da realidade.
Mais do que um filme, “As Asas do Desejo” é um poema sobre o destino do homem. Os poemas só muito dificilmente se explicam. Sentem-se, ou não se sentem. Gostaria muito de partilhar convosco esta experiência que julgo singular na história do cinema, e dar simplesmente as boas vindas aos anjos que vêm lá "do céu sobre Berlim". Assim, sem mais. (LA. 29.10.1994).

AS ASAS DO DESEJO
Título original: Der Himmel Uber Berlin; Realização: Wim Wenders (RFA, 1987); Argumento: Wim Wenders e Peter Handke; Fotografia (p/b e cor): Henri Alekan; Música: Jurgen Knieper; Montagem: Peter Przygodda; Direcção artística: Heidi Ludi; Produção: Wim Wenders e Anatole Dauman /Argos Films, Road Movie, Westdeutscher Rundfunk.
Intérpretes: Bruno Ganz, Peter Falk, Solveig Dommartin, Otto Sander, Curt Bois, etc. Duração: 130 minutos.

quinta-feira, agosto 10, 2006

“PROFISSÃO REPÓRTER”

Repôs-se num cinema de Lisboa, um dos grandes filmes de Michelangelo Antonioni, “Profissão Repórter”. Vou “repor” uma critica minha escrita aquando da estreia do filme em Portugal, e aparecida da revista “Opção”, uma excelente revista que deixou saudades. O texto surgiu no nº 109, de 25 de Maio de 1978. Aqui vai, com alterações apenas de letras. O curioso é manter o sabor da época, para um filme de época. Talvez faça a experiência de escrever outro, com os olhos de hoje.

Continuando a deambular pelo mundo, recolhendo imagens e sons (qual repórter), Antonioni viaja até à China de Mao Tse Tung, que lhe abre as portas para um longo documentário. Os resultados, porém, não agradaram às entidades oficiais chinesas, que tenta­ram "vetar" o filme um pouco por todo o lado. Estamos em 1972. Dois anos depois, com "The Passenger", a rota de Michelange­lo prossegue. Continuando a trabalhar fora de Itália, o cenário muda, agora estende-se do Norte de África até Londres, Munique e Espanha.

David Locke (Jack Nicholson), jornalista inglês, "de formação americana", encontra-se no Norte de Africa, tentando entrar em contacto com os guerrilheiros de um país não identificado. Frustrada a tentativa, en­contra num pequeno hotel incrustado no de­serto um outro hóspede que fisicamente se lhe assemelha muito. É esse mesmo Robertson que aparece morto no seu quarto. Loc­ke não resiste ao apelo da aventura, troca as fotos dos passaportes, as vestes, as bagagens, e anuncia a morte de David Locke, o repórter. A partir daí ele será Robertson, uma incógnita que pro­curará desvendar. Donde o título original: "The Passenger", o passageiro, aquele que viaja a bordo de um corpo que não é o seu, fugindo de uma vida que lhe não diz já nada.

Entre a bagagem de Robertson descobre uma agenda com vários encontros marcados para as próximas semanas: Munique, Londres, Barcelona. E alguns nomes enigmáti­cos: Daisy, Melisa, Lucy. De "rendez vous" em "rendez vous", Locke descobre a verda­deira actividade de Robertson: tráfico de ar­mas. No momento, procurando vender armas a um grupo de guerrilheiros que tudo indica serem os mesmos com quem Locke procurara estabelecer contacto em África.
Entretanto, em Londres, a mulher que se desinteressara de Locke há algum tempo, considerando-o um jornalista demasiado contemplativo, que aceita veicular a menti­ra, sem questionar a realidade até ao fim (o que é documentado com uma entrevista com o chefe político do país africano em questão, um presidente que anuncia eleições para o ano seguinte e não admite a presença da oposição, "porque não há oposição. To­dos procuram trabalhar para o País. É um país cheio de futuro!"), sente-se profunda­mente atraída por Locke, quando este é dado como morto. Inicia mesmo um inquérito particular que procura saber em que circunstâncias se deu essa morte. O inquérito levá-la-á até ao verdadeiro Robertson, o outro hóspede do hotel onde Locke falecera. Esta­belecesse assim um duplo "suspense", no in­terior deste filme que, tal como "A Aventu­ra" ou "Blow Up", vai assentar a sua estru­tura dramática numa intriga de fundo poli­cial, ainda que continuamente coarctada nos seus possíveis desenvolvimentos. Temos por um lado Locke percorrendo o caminho que Robertson nunca chegou a efectuar, para deste modo saber quem ele era, o descobrir como “identidade” (e através dele, o mundo); por outro lado, há Rachel procuran­do chegar a Locke que julga morto, perseguindo Robertson que continuamente se lhe escapa.
O interesse central de Antonioni não se dirige, porém, para esta intriga que possibili­ta o "suspense", mas para as razões que le­vam ao "disfarce" de Locke. Quando este encontra uma rapariga inglesa, estudante de arquitectura, que visita em Barcelona as ca­sas projectadas por Gaudi, e ela lhe pergunta quem ele é, a resposta adivinha-se: "Alguém que se faz passar por outro". Mais tarde, Maria (Maria Schneider) volta a colocar-lhe uma pergunta definitiva: "De que foges?". Locke, pedindo-lhe para se voltar para trás, indica-lhe o cenário: a sua fuga é de todo um passado, de tudo o que para trás vai ficando até esse momento de um furtivo presente roubado a alguém.
Incapaz de penetrar a realidade com as armas que o jornalismo lhe concede (incapaz de penetrar a fotografia até à minúcia, como fazia Thomas, em "Blow Up"), Locke viaja agora sob a aparência de outro. As primeiras sensações são de libertação (veja-se a sequên­cia no teleférico de Barcelona, com Locke "voando" por sobre a cidade, braços abertos para o espaço que se lhe oferece, numa si­tuação muito semelhante à que o jovem de 'Zabriskie Point" experimenta ao pilotar um avião roubado). Mas viver "disfarçado" comporta igualmente os seus riscos. Conhecer o mundo por interposta pessoa não será tão produtivo como enfrentá-lo directamente. Por vezes a crueza da realidade circundante mostra-se de uma agressividade insuportável. Locke, momentos antes de "sair de campo" neste filme que o acompanha de princípio a fim, conta a Maria uma história que funcionará como "chave": "um amigo cego consegue um dia, através de uma operação, passar a ver. Ao princípio, o mundo encanta-o. As cores, as formas, os volumes. Mas, à medida que vai conhecendo o mundo, este mostra-se bem mais pobre do que aquele outro que ele idealizara quando cego, e suicida-se."
A história é premonitória, Maria sabe-o. Locke fecha-se num quarto de uma pensão espanhola, abre a janela que se estende para uma praça, e espera a chegada dos enviados de um país africano. Num plano sequência admirável, de longuíssima duração (fala-se em sete minutos, que não controlámos), a câmara começa por deixar Locke encerrado na sua “prisão” (a identidade de Robertson e o seu negócio de tráfego de armas), enquanto na praça se ouvem os acordes de um carro anunciando uma tourada. De morte. A víti ma fica estendida numa cama, esperando de­liberadamente a estocada final. De suicídio se trata, ainda que de assassinato se fale. Locke chegou ao fim da caminhada. Ele que morrera já no corpo de Robertson, oferece-se agora com a nova identidade. A experiên­cia não se mostrara enriquecedora. Cortado do mundo de que só retinha as aparências, Locke perpetuava um novo caso de aliena­ção. Quando a recusa e aceita penetrar no significado interno e profundo da realidade, esta esmaga-o. A câmara continua a viajar, sai agora do quarto, rompendo as grades, percorre a pequena praça, volta-se sobre si própria, regressa ao hotel "Gloria dela Osuna", onde, por entre as grades de um quarto, se redescobre Locke, enquanto a mulher lhe verifica a identidade. "Reconhece-o?", per­guntam as autoridades. "Nunca o vi", garan­te Rachel.
Primeira incursão de Antonioni em terra africana, "Profissão: Repórter" prolonga, no entanto, as referências que à África se fazem ao longo de vários filmes seus, da "A Noite" a "Blow Up". Sempre associado à ideia de nostalgia, de exotismo, o continente que aqui nos aparece no deserto dos seus hori­zontes, ajuda a caracterizar pela imagem o espaço vazio de um personagem em crise. Num universo em constante ruptura emocional, que é o de Antonioni, são ainda as mulheres quem quase sempre comanda o jo­go, neste caso quer através de Rachel que investiga "Robertson", quer de Maria que, por meio de vários expedientes, consegue furtar Locke das diversas armadilhas em que continuamente se vê envolvido.
Mantendo a coerência da sua pesquisa, permanecendo perfeitamente fiel a uma te­mática que se mostra obcecante no interior da sua filmografia (por muitas inflexões de rumo que possa comportar), Michelangelo Antonioni volta a atingir um momento alto da sua carreira, neste filme rigorosamente trabalhado, milimetricamente calculado, por onde se sente, todavia, perpassar a sinceridade espontânea de algumas das dúvidas maiores que preocupam de há muito o cineasta. Nu­ma sociedade em crise de valores, num mun­do em mutação e vertigem, qual o lugar do homem, viajante transitório? No caligrafismo da sua escrita depurada, Antonioni pro­cura visar o essencial, os sentimentos dete­riorados, a realidade difusa, um frente a frente de um doloroso pessimismo. Será dentro de nós que nos teremos de encontrar, conclui Antonioni. Ninguém pode viajar "à boleia". Os “passengers” acabam sempre por pagar bilhete.

quarta-feira, agosto 09, 2006

UM BLOG (POR DIA) PARA VISITAR (4)

“não há nada como o realmente

As moedas de que ele fala eram minhas ou da mãe. “Os cavalinhos, carrinhos, aviões, naves e foguetões ou pranchas de surf e girafas” onde ele viajava para mundos inimagináveis apareciam em vários locais, por exemplo nas esplanadas das praias ou à porta do Vávà. Caça níqueis implacáveis.
Mas era uma época feliz, com o Frederico a sonhar e nós a tentar evitar que todo o mal do mundo lhe passasse ao lado. Como tudo na vida, que é feita de altos e baixos, nem sempre o conseguimos, mas a ideia era essa. Infelizmente, nós pomos e alguém dispõe, e nem sempre as viagens foram de sonho. Houve alegrias e dores, o que ajuda a construir os homens (e as mulheres). Mas lá vai indo, por entre palcos e écrans, perseguindo sonhos sempre. Nós bem o avisámos que não era vida de gente. Mas também nunca lhe cortámos as asas, porque cada um voa à sua medida.
Agora viaja na blogosfera, num espaço a que chamou “não há nada como o realmente” que tem, como referência, uma citação de Gustave Flaubert: "A medida de uma alma é a dimensão do seu desejo."
Todos vocês sabem o que são os desejos dos filhos, para os pais. Pois que este seja um blog de referência, com esse estilo jovem e muito cool. E que vás dando notícias dos ensaios de “Música no Coração”, o novo musical do La Féria, que vais acompanhando dia a dia.

Um exemplo de post, muito pessoal:

Tuesday, August 08, 2006
procura-se
os cavalinhos, carrinhos, aviões, naves e foguetões ou pranchas de surf e girafas onde eu quando era pequenino passava horas deixando-me viajar para sitios inimagináveis até a falta de moeda pôr um fim à minha viajem (já em pequeno eram as moedas, ou a falta delas, que faziam com que ficasse em terra) estão a desaparecer. já não os vejo às portas dos cafés ou nos centros comerciais, assim como cada vez menos vejo as máquinas de fotografia, as photomatom, onde fiquei várias vezes com cara de parvo para fazer fotografias para o BI. será que vamos deixar de poder viajar e ser fotografados no fim das nossas viagens enquanto celebramos o nosso regresso a terra segura?
posted by fc at 8:23 PM

Com esta chamada de atenção para o blog do filho, ficam encerradas as chamadas de atenção para blogs familiares. Não há mais bloquistas na família mais chegada, pelo menos por enquanto.