quarta-feira, agosto 23, 2006

CINEMA


“OS AMANTES REGULARES”


Nos quadros de estrelas de alguns jornais portugueses, aparece classificado “Les Amants Réguliers” com uma bola preta (“de fugir”, de Eurico de Barros) ou 5 estrelas (“Excepcional”, de João Lopes). Mais uma vez o leitor desprevenido se interroga como é possível a discrepância, mas este filme de Philippe Garrel explica bem como é possível. Este é o tipo de filme que ou se ama ou se ignora. Ia a escrever odeia, mas julgo que é impossível, em boa fé, odiar este filme. Por isso não compreendo de forma alguma o comentário de Eurico de Barros (“Ainda há por aí quem faça filmes nostálgicos–“autoristas” sobre o Maio de 68 e os estados de alma das criaturas que o perpetraram. Depois do risível “Os Sonhadores”, de Bernardo Bertolucci, eis agora o trombudo “Os Amantes Regulares”, de Philippe Garrel, rodado a preto e branco e interpretado, pelo menos, por metade da família, com o filho Louis à frente. Uma verdadeira múmia paralítica.”), por muito que possa compreender e aceitar a sua bola preta. Na verdade julgo que qualquer espectador “normal” pode até passar por fases de amar e de ignorar o filme durante a sua projecção. São três horas de uma obra densa, rodada num preto e branco magnífico, sem qualquer tipo de concessão ao espectador, muito pelo contrário, provocando a sua atenção e a sua disponibilidade. A mim aconteceu-me tão depressa ficar deslumbrado com um plano, como sentir de uma forma física, daí a pouco, o “tempo” desse plano. Mas no final, ponderadas todas as questões, inclino-me mais para as 5 estrelas do que para a bola negra. “Os Amantes Regulares” é uma proposta ambiciosa, sobretudo para ser concebida com os meios de que Garrel dispunha. Mas Garrel não queria outros meios, nunca terá pensado numa superprodução com reconstituições de multidões. O seu cinema é este: quase artesanal, feito mais de sugestão do que realismo. Por isso reconstituir a época de Maio de 68, em Paris, só poderia ser para ele reconstituir uma certa ambiência humana e intelectual. Um pouco de auto-biografia, pessoal e colectiva, que se estenderia depois pelo “desarmar da feira”, esses tempos de decepção e desilusão que se seguiram à grande libertação. Portanto a ideia era conciliar duas vertentes: uma história de amor, nascida durante a revolução de Maio 68, e a própria evocação desses tempos. A mim soa-me familiar esta ideia, por que também a tentei num filme meu, com resultados que parece não terem sido os melhores, mas com intenções muito semelhantes: uma história de amor fracassada, no interior de uma revolução frustrada, ou seja, personagens sem estofo para as aventuras, colectivas ou individuais, exteriores ou interiores, em que se envolvem. O filme chama-se “O Vestido Cor de Fogo”, para quem tiver curiosidade em saber.

François (Louis Garrel), jovem poeta, é um dos arruaceiros de Maio de 68. Está nas barricadas, nos distúrbios de rua, no lançamento de pedras e cocktails Molotov, é dos que a polícia persegue, é dos que sofre com o matraquear dos bastões e dos que é preso e julgado sumariamente. Para Garrel tudo se passa no filme como se Maio de 68 fosse uma noite de que se acorda na manhã seguinte, estremunhado e desiludido, carpindo as mágoas no colo da mãe. Mas com uma namorada e um amor louco nas mãos. Lilie (Clotilde Hesme), a estudante de escultura, que trabalha no atelier de um pintor a quem serve de modelo nas horas vagas, será a sua paixão, a que se entrega com o mesmo fervor com que se ofertara à revolução. Garrel não é particularmente simpático para com estes jovens (ele próprio e a sua geração) que perderam a hipótese de transformar o mundo, porque não estavam preparados para o fazer. Existe uma certa ternura no olhar, mas também uma visão crítica e agressiva, nalguns aspectos. Muito mais anarquistas e libertários do que comunistas (há conversas no filme que denunciam este afastamento do PCF: “não precisamos de ser dirigidos, primeiro tomamos o poder, depois organizamo-nos”; e mais adiante: “tomar o poder para o proletariado, contra o próprio proletariado”, que Garrel acusa de só querer mais dinheiro e de se ter aburguesado), muitos deles filhos de família cheios de dinheiro, que entravam na revolução mais por excitação de aventura do que por convicção profunda, são seres frágeis na sua deliberação de violência, que depois de voltarem para casa, se entregam a exercícios individualistas de sexo e drogas (o ópio circula livremente por entre estes “artistas” individualistas e solitários que se colocam à margem da sociedade e que aceitam viver numa parasitagem tolerada). Garrel tinha a idade do protagonista (interpretado pelo seu filho Louis) em Maio de 68. Fala do que sabe. Sem nostalgias e sem amargura pelas esperanças perdidas. Mas o conhecimento directo dos factos e, sobretudo, da atmosfera permite-lhe criar, num plano único, de uma duração invulgar, todo o clima de fim do mundo das ruas de Paris nessas noites de pesadelo e euforia. A reconstituição de Paris, Maio, 68, é absolutamente deslumbrante: um plano quase fixo, três jovens de costas, um cenário suburbano, meia dúzia de carros virados, a arder, uma fogueira volumosa à direita do ecrã, vultos que atravessam o campo, atirando pedras, cadeiras, projécteis incendiários, e com tão pouco se cria um ambiente que roça a tragédia. A fotografia, a preto e branco, de William Lubtchanski, contribui em muito para este resultado, como a música de Jean-Claude Vannier, e o tratamento sonoro de Alain Villeval. Mas o talento de Garrel é indiscutível. E mostra-se em muitas sequências brilhantes: um pequeno-almoço com os pais, uma busca da polícia para cobrar uma multa, a audiência, as reuniões políticas, os encontros em casa de Antoine, as cenas de amor entre Louis e Lilie. Sobretudo de referir a subtileza com que trata essa desilusão de revolta e de amor, uma sobrepondo-se à outra, uma derivando da outra, ambas resultando em processos de amadurecimento e perca de inocência, ambas mostrando que as boas intenções e os bons sentimentos dificilmente vingam num mundo de oportunismo e de domínio opressivo de quem detém o poder. “Os Amantes Regulares” mantém com "The Dreamers" de Bernardo Bertolucci algumas semelhanças (a começar desde logo pela presença de Louis Garrel entre os intérpretes), mas globalmente os projectos afastam-se, ainda que abordando realidades semelhantes. O seu cinema coloca-se muito mais na linha de um Rivette ou Jean Eustache de “La Maman et la Putain”.

Garrel, o filho
Garrel, o pai

OS AMANTES REGULARES (Les Amants Reguliers), de Philippe Garrel (França, 2005), com Louis Garrel, Clotilde Hesme, Julien Lucas, Mathieu Genet, Marc Barbe, etc. 184 min; M/ 12 anos.

terça-feira, agosto 22, 2006

Lauro Corado/ SCP

Carta a meu pai,
ainda por causa do SCP

auto retrato de Lauro Corado
(Museu de Aveiro)

Íamos lado a lado, Campo Grande fora, até ao estádio. Eram tardes de domingo. Domingos de sol ou acinzentados de Outono, domingos pingados de chuva miudinha. Levavas contigo uma daquelas almofadas de plástico, acolchoadas, verdes, pois claro, dobrada ao meio, que servia para te atenuar o frio do cimento da bancada. Falávamos de futebol. Do jogo que se adivinhava, do anterior que ainda se digeria. Às vezes, mal: o árbitro que errara, a equipa que jogara mal ou não tivera a sorte do jogo do seu lado (sim, porque há dias em que, por muito bem que se jogue, a bola nunca entra, bate nas pernas, na trave, no poste, vai para fora ou o guarda-redes contrário faz a exibição da sua vida!). Pelas bermas da avenida iam ficando os carros, arrumados à pressa. Mais perto do estádio, os comes e bebes, os coiratos e as cervejolas, as tendas com “souvenirs”, as bandeiras e os cachecóis, os gorros e os portas chaves, uma animação semanal que atravessávamos, curiosos, parando aqui e ali. Depois o jogo, sentados lado a lado, dois companheiros, que ali se uniam ainda mais pela mesma cor, a mesma bandeira, o mesmo emblema, os mesmos ídolos que faziam de homens feitos meninos coleccionadores de cromos da bola. Gritávamos, protestavas com veemência, vivias o jogo com intensidade, sem remorsos. Longe estava ainda o tempo das claques telecomandadas da grosseria colectiva. Naquela altura ofendia-se lealmente o árbitro, de homem para homem, com a inspiração do momento. Lembras-te daquele jogo decisivo em que ficamos literalmente com os pés no ar, comprimidos numa das entradas da bancada, até ao apito final que nos fez campeões? Foi o último campeonato ganho, antes do jejum de 18 anos. Tu, infelizmente, já não já sofreste com essa contrariedade. Mas todas as semanas não esqueço a nossa viagem. Por isso, até domingo, pai. Vamos ganhar! Este ano é que voltamos a ganhar o campeonato!

o filho de Lauro Corado, em dois quadros do pintor
(Museu de Aveiro)

Lauro Corado

"O MENINO DO COBERTOR"

Um dos quadros de meu pai, Lauro Corado, "O Menino do Cobertor", encontrava-se exposto no Museu Gão Vasco, em Viseu. Sempre que visitei o museu, da portaria até à sala onde o quadro se encontrava exposto, toda a gente me ia falando da obra, uma das mais populares do acervo do museu, muitos recordavam que o menino era eu, muitos amigos me contavam que quando lá iam os guias indicavam que "o menino do quadro é o Lauro António, filho do pintor". Havia uns postais à venda na portaria que tinham muita saida.
Entretanto, o Museu foi para obras e, quando reabriu, "O Menino do Cobertor" desapareceu do Museu. Alguém me sabe dizer por que?


segunda-feira, agosto 21, 2006

SCP

O "CANTINHO" DO SCP

LUIS FIGO

"Sportinguista até à morte"



SCP PARA 2006

Toda a nosas confiança em Paulo Bento e na bela equipa que conseguiu reunir.



SCP forever!


MÚSICA

WANDA STUART
NO ARENA LOUNGE,
NO CASINO DE LISBOA



No Casino Lisboa, na Alameda dos Oceanos, no Parque das Nações, há hipótese de passar uma boa noite assistindo a um espectáculo diversificado, sem gastar um tuste. Não fique com problemas de consciência: outros pagarão por si esta oportunidade de ver de borla um bom espectáculo. Mas se preferir, sente-se com a família, no Arena Lounge, tome um café, uma coca-cola, um chá “arena lounge” (recomendo vivamente!) ou algo muito mais sofisticado. Pode comer, e há várias alternativas (entre as quais um bom restaurante no terceiro andar com um cardápio “de autor”). A verdade é que não me pagam para publicidades destas, bem pelo contrário (sempre que tento a sorte nas Cleópatras, já sei que venho para casa mais “leve”).
Mas o espectáculo que por lá mora até fim de Agosto, vale mesmo a pena. Ao nível do chamado “Novo Circo” dois números merecem destaque, especialmente o duo Varey, ucranianos em jogos de força e destreza, e ainda 3D Laserman, manipulação de laser. Depois há vários cantores, stand up comedians (Aldo Lima sobretudo), várias cantoras e finalmente, à meia-noite, Wanda Stuart, num espectáculo intimista, cantando canções de amor, francesas, brasileiras, americanas, alemãs, ou então uma antologia de obras de musicais célebres (depende da noite).
Acontece que Wanda Stuart tem uma estaleca de fazer inveja a uma ginasta experimentada e uma voz surpreende que trabalha cada vez melhor. Depois é uma mulher simpatiquíssima (apesar de um dia ter dito que queria o PSL na CML e no MC, enfim, ó rapariga, cura-te!). Gosto da Wanda. Aprendi a gostar dela numa série de evocações de musicais que o meu bom amigo João Pereira Bastos concebeu no São Luiz. A partir daí esta “história de amor” por essa mulher de cabelo azul mantém-se. Gostava de a dirigir numa peça de teatro ou num musical. Vamos lá ver se consigo. Tenho um projecto a pensar nela. Já tive outro, que falhou.
Entretanto, quem goste de musicais, de Marlene, Kurt Weil, Liza Minnelli ou Kate Bush, MPB ou clássicos da canção francesa e alemã tem uma boa oportunidade de matar saudades, numa voz magnifica, acompanhada ao piano pelo maestro Mário Rui.
Enquanto a mãe canta na Arena Lounge, a filha de dez meses espera-a nos bastidores. E, diz a Wanda, já vai cantalorando algumas melodias. “Aquecendo a garganta…”
Diz a promoção da artista: “Wanda Stuart nasceu em Lisboa no dia 6 de Janeiro de 1968. Começou a cantar em bares, onde ganhava para pagar aulas de canto. Revelou-se no musical ‘Maldita Cocaína’, de La Feria. Antes de pintar o cabelo de azul, experimentou “todas as cores do arco-íris”. É considerada por muitos a Liza Minnelli portuguesa. Em 2004, gravou “Animais Nocturnos” e o espectáculo homónimo foi estrado no Casino Estoril.”
(Wanda actua só aos domingos, 2ªs, 3ªs, 4ªs das Oh10 à 1h).

domingo, agosto 20, 2006

UM BLOG (POR DIA) PARA VISITAR (14)

“A a Z”

Nestas minhas deambulações por blogs alheios não tenho referido os de nomes muito conhecidos, dado que muitos deles são suficientemente saudados para necessitarem de outras menções. Mas não posso passar por cima de alguns, daqueles que me enchem de prazer quando planeio na blogosfera. Alguns são de amigos queridos, outros de velhos colegas de faculdade, outros de personalidades que admiro, ás vezes à distância, outras vezes na confraternização regular de ocasionais encontros. Um desses blogs imprescindíveis, que já citei aqui algumas vezes, é o “A a Z”, o Nuno Júdice, que devia ser considerado “monumento nacional” e “serviço público” com direito a entrada directa no registo dos raros benfeitores da Humanidade. Um homem que escreve como o Nuno Júdice e que põe á disposição do público, gratuitamente, essas dádivas, merece mais do que palavras de louvores: uma reforma condigna, pelo menos.
O Nuno Júdice, companheiro de universidade, de lutas e de (algumas) paixões (a poesia, por exemplo), é sem dúvida um dos maiores poetas do amor que Portugal conheceu, e não ficará atrás de Camões, David Mourão Ferreira ou Herberto Hélder, para citar apenas uns. Mas não haverá muitos mais.
Visitar o seu blog é obrigação nossa de todos os dias. Aqui ficam claros exemplos de uma inspiração sem mácula (já agora, onde é que vais desencantar tantas e tão esplendorosas ilustrações? A poesia é dom, já sabemos, mas a escolha das ilustrações é primorosa).

Segunda-feira, Maio 29, 2006
Trânsito


Ao voltar a casa, com o rádio do carro
aberto, lembrei-me de ti, com o cabelo apanhado,
o alfinete de dama a prender-te o vestido,
que podia ser uma farda, e o teu rosto
dividido: de um lado, a luz da vida,
do outro, a obscuridade que o flash do
fotógrafo não conseguiu resolver. Posso
dizer-te que amo os teus olhos, e que
muitas vezes os atravessei para descobrir
o outro lado da alma, onde se esconde
o que os teus lábios não revelam. Um
dia, porém, perguntar-te-ei: quem és?
E talvez saias da sombra, abrindo-me
um sorriso que me empurrará para
a outra margem que não conheço. Servir-me-ás
de guia? Ou voltarás para o teu canto,
desapertando o alfinete de dama que
sempre te incomodou. O rádio do carro
continua aberto, com as notícias do dia;
mas o que quero saber é o que tens
para me contar, e o tempo apagou.

posted by Nuno Júdice @ 21:35


Quinta-feira, Maio 18, 2006
Laranja

Félix Valloton

Ocasionalmente, uma laranja descasca-se
por si só. Arranco-a da árvore, e parte da casca
fica presa ao ramo. Vejo o sumo a escorrer
pelos rasgões; e tiro lentamente cada pedaço
até ficar, por fim, com os gomos na mão. Não me
custou nada; e ia levá-los à boca se o homem
do pomar não me tivesse prevenido: «Cuidado
com a calda contra os insectos.» Poderia dizer-lhe: «Mas
não vou comer a pele, só me interessa o sumo»; e
ele não me ouviria. A sua função é evitar
que a laranja seja comida antes de tempo. Então,
resta-me esperar que ele se volte, e vou para trás
da árvore, onde mato a sede.

posted by Nuno Júdice @ 23:40


Quinta-feira, Julho 13, 2006
FIM


AMOR

Desfolho a rosa furtiva, com
os veios corroídos pela seiva
de um relâmpago frio.

Amo a lentidão imprevista
do instante que os teus seios
elaboram.

E ouso o rio de púrpura
exangue que irrompe no leito
do teu sexo.


Maio a Julho de 2006

posted by Nuno Júdice @ 20:41



Sexta-feira, Agosto 18, 2006
Elegia


Se a manhã nascesse da tua ausência,
a névoa se dissipasse entre os teus dedos,
o frio orvalho secasse nos teus olhos,
a noite passasse sobre os teus ombros;

se a tua voz fosse mais do que memória,
as tuas palavras rompessem este silêncio,
um vento te sacudisse os cabelos,
os teus braços fossem um fim de viagem;

se um pássaro cantasse no teu rosto,
o céu se abrisse nos teus lábios,
as tuas mãos colhessem o sonho

em que o teu corpo se vestiu de música:
um sulco de sol afastaria a sombra,
um eco de vida encheria o vazio.

posted by Nuno Júdice @ 22:28

(Nuno: este não sabes, mas foi uma bela prenda de anos!)

UM BLOG (POR DIA) PARA VISITAR (13)

un petit prince pas comme les autres

Lou tem sete anos. É cego de nascença. Um, em dez milhões de seres, é atacado pelo sindroma da displasia septo-óptica. Lou foi esse mesmo. Para lá de ser cego, o cérebro também foi afectado. Lou vive e os pais acompanham a sua doença, e a sua vida nessas condições. O pai de Lou iniciou um blog há uns anos para ir contado a vida de Lou, para que essa vida sirva de exemplo a outras crianças e a outros pais, e também para que esta experiência dolorosa, mas vivida igualmente de forma tão exaltante e intensa.
Os blogs servem para tanta coisa, comunica-se de tanta forma, com intenções tão diversas. Este é seguramente um blog muito especial que impõe um respeito e uma admiração invulgares.
Proponho uma visita ao Blog do Lou (há versão em francês e inglês) e uma palavra amiga quer o leve a sentir que em Portugal (sabes onde fica, Lou?) há pais, irmãos, filhos, avós e demais familiares que torcem por ele e por todos os que, como ele, são apenas diferentes, mas sofrem com essa diferença.

Je suggère une visite au Blog du Lou (il y a une version en Français et une autre en Anglais) pour y laisser un mot ami que lui fasse savoir qu'au Portugal (tu sais où c’est, Lou ?) il y a des parents, des frères, des fils, des grands-parents et des familles entières qui désirent le meilleur pour lui et pour tous ceux qui, comme lui, sont seulement différents, mais qui souffrent à cause de cette différence.

Vejam algumas notas da homepage:

Blog Lou
Bonjour, je m'appelle Lou.
Je suis un petit garçon qui ne voit bien qu'avec le coeur, ce qui rend la vie de mes parents et mon éducation épiques !
Je suis donc aveugle et différent dans ma petite tête blonde, raison pour laquelle c'est mon papa qui écrit pour moi ce journal. J'en suis bien incapable à ce jour.

Qu'ai-je ? (Les handicaps de Lou)
(Extrait du film "Lettre à Lou")
Il nous a pas fallu plus de trois semaines après ta naissance pour comprendre que quelque chose n'allait pas.
Il faudra trois mois pour qu'enfin tombe le résultat d'un énième examen, une résonance magnétique :
"Votre fils est atteint du syndrome de dysplasie septo-optique. C'est une malformation congénitale très rare, 1 cas sur dix millions. ...une maladie orpheline.
Je vous explique : votre fils est aveugle. "
(On s'en doutait).
"Il n'a pas les nerfs optiques atrophiés et pas de septum... "
(De quoi ?)
"De septum : c'est une membrane qui sépare les deux hémisphères du cerveau. "
(Et ça sert à quoi ?)
"On ne le sait pas encore. Des enfants naissent sans septum et ont une vie tout à fait normale, mais il y a par contre des cas d'handicaps mentaux plus ou moins sévères."
(...Merci la vie).
"Ah oui, j'oubliais, on a aussi une explication quant au fait qu'il ait toujours soif : Lou a une hypophyse sous développée. C'est fréquent avec ce syndrome."
(Pardon ?)
"C'est une glande à l'arrière du cerveau qui régule tout le système hormonal. Dans le cas de Lou, il ne retient pas l'eau, mais cela se compense par la prise régulière de médicaments."
(putain de vie).

Ca n'arrive qu'aux autres...
Une naissance sur dix milles, mais avec le cumul et le degré d'handicap qui est le mien, on parle d'un cas sur dix millions ! Je suis donc le seul cas de mon espèce recensé en Belgique en 1998.
235 cas naissent chaque année aux Etats-Unis. C'est dire le rareté de mon handicap...
On appelle cela, un maladie orpheline. Mais moi, je ne le suis pas du tout !
Tant qu'à choisir, j'ai choisi de naître chez eux... Ils m'avaient l'air sympa !
Je suis né le 12/08/1998.

Bonjour,
je m'appelle Lou. J'ai 7 ans (5 ans au début de ce récit). Je suis aveugle de naissance, et différent dans ma tête....
Mon papa a décidé de réaliser ce site pour vous faire partager l'expérience un peu folle qu'est mon apprentissage de la vie.
Lou

UM BLOG (POR DIA) PARA VISITAR (12)

"A CASA ENCANTADA"

"A Casa Encantada" é um filme de Alfred Hitchcock, mas é também um curioso blog de cinema, assinado por Jorge Mourinha, e que vai acompanhando os filmes que ele vai vendo (e vê muitos, por semana).

Os comentários são rápidos e sucintos, mas são eficazes, sensatos, informados, sensiveis e são uma boa referência para quem lê o blog. Mas o último post data de 26 de Junho de 2006, e, ou o autor aufere de umas dilatadas férias, ou então... temo que o blog tenha sido abandonado. O que seria uma pena.

O blog tem arquivos por semana. Por estreias. Cada semana dá contas de todas as estreias, mesmo as que o seu autor não viu, o que funcionaria como uma base de dados interessante, se fosse criteriosa na forma como abarca "todas as estreias". Vamos a ver se "A Casa Encantada" fechou para "férias do pessoal" ou se meteu escritos. Faço votos para que o seu locatário regresse... e em boa forma.

CINEMA

“SUPERMAN – O REGRESSO”

“Superman” é uma criação de “comic books”, ou banda desenhada, da responsabilidade do escritor Jerry Siegel e do desenhador Joe Shuster. Colegas de escola em Cleveland, ambos fervorosos adeptos de ficção científica, começaram mesmo por publicar um “fanzine” chamado “Science Fiction”, onde Joe era artista gráfico e Jerry editor." Em Janeiro de 1933, Siegel escreve “The Reign of the Superman”, que Shuster ilustra. Nesse conto, "Superman" tornava-se um vilão por influência de um sábio louco, na linha do que viria a ser futuramente o seu inimigo figadal, Lex Luthor. Mais tarde, “Superman” iria adquirir os contornos e as características por que hoje o conhecemos. Seria no verão de 1934 que Siegel e Shuster, praticamente numa noite, conceberam e desenharam Clark Kent, Lois Lane e Superman, já com o seu fato, o símbolo no peito, a capa. Estava criada uma das personagens de maior impacto no universo da banda desenhada, estava lançada uma das maiores aventuras de sempre, estava igualmente em marcha uma das locomotivas do mundo dos “comics” norte-americanos, que só tem rival no “Batman” e no “Homem Aranha.” Com uma característica que faz toda a diferença, como o recorda Quentin Tarantino, quando uma personagem sua fala do super-herói: “Batman” e “Homem Aranha” são homens que adquirem super-poderes. “Super-Homem” é um extra-terrestre que se mascara de humano.”

Estávamos em pleno rescaldo da Grande Depressão, a América reconstruía-se com enorme sacrifício, a imagem do Superman dava alento. Não muito tempo depois, iria aparecer em animação, pela mão de Dave e Max Fleischer, uma série de episódios que se inicia com “Superman” (ou “The Mad Scientist”), de Dave Fleischer, estreado na televisão no dia 26 de Setembro de 1941. Estamos em plena II Guerra Mundial, e o super-herói combatia as forças do Mal.
Em plena década de 50, Superman surge na televisão numa série que iria durar vários anos. Serão 104 episódios, que irão ocupar seis temporadas, de 1951 a 1958. O episódio piloto, 'The Unknown People" seria dividido ao meio e apresentado como 25º e 26º episódio da primeira série, com o título “The Unknown People”. A série iniciara-se em Dezembro de 1951, com o primeiro episódio, “Superman and the Mole Men” (67 min).
Em 1978, surge o filme que iria eternizar Superman no cinema. Chamava-se “Superman – the Movie”, com realização de Richard Donner, produção de Ilya Salkind e Pierre Spengler, com argumento baseado obviamente nas aventuras criadas por Jerry Siegel e Joe Shuster, mas guião escrito por Mario Puzo, David Newman, Leslie Newman, Robert Benton e contribuições de Tom Mankiewicz. Christopher Reeve era o Superman/ Clark Kent como nunca mais haverá outro, o pai era Marlon Brando, Margot Kidder era Lois Lane, os vilões Gene Hackman, Ned Beatty, e havia muita coisa brilhante neste filme que se estreou a 15 de Dezembro de 1978. Teve um orçamento de 55,000,000 dólares e teve receitas, nos EUA, de 134,218,018 e de 166,000,000 fora da América, o que deu um resultado bruto de 300,218,018. Histórico.
A este sucedeu-lhe “Superman II” (1980) e “Superman III” (1983), ambos com a assinatura de Richard Lester. O primeiro Lester era igualmente muito bom, o segundo já deixava adivinhar a queda futura: “Superman IV: The Quest For Peace” (1987), de Sidney J. Furie era francamente mau, e já não foi produzido por Salkinds, mas pela dupla Golan-Globus e Cannon Films, ainda que em associação com a Warner Bros.
“Supergirl” é de 1984, com Helen Slater na figura da protagonista, e direcção de Jeannot Szwarc. Uma mediocridade mais a acrescentar à lista. Daí em diante, Superman não parou, ainda que a sua melhor fase cinematográfica tenha ficado para trás. A partir daí são duas séries televisivas que dão cartas e vão mantendo os fãs alerta: “Superboy” (produzida igualmente por Alexander Salkind), “Lois and Clark: The New Adventures of Superman”, “Superman: The Animated Séries”, e a mais badalada das séries, “Smallville”.
Até que chega 2006. Afastado dramaticamente Christopher Reeve da figura de Superman, para regressar ao grande ecrã era necessário encontrar alguém que fosse credível para a personagem, e que se aproximasse da figura legada por Christopher Reeve, hoje em dia referência mítica inquestionável (porque foi um excelente Superman, e por toda a dramática sequência de factos que o envolveu posteriormente, e ajudou a criar a lenda).

O escolhido foi um desconhecido Brandon Routh (que interviera apenas em séries de televisão) que todavia não se comportou mal, apesar de andar muito longe do carisma e da presença de um Christopher Reeve. Mais grave porém foi a escolha de Kate Bosworth para o papel de Lois Lane (muito longe da composição de Margot Kidder), que estabelecia com Reeves alguma faísca, coisa que pouco se sente neste par que agora nos lançam e que tem a sexualidade muito por baixo, muito embora seja neste filme que apareça pela primeira vez consumada uma cena de amor (ou seja, a cena não se vê, mas vê-se o rebento dela gerado, nascido cinco anos antes!). Quanto a actores, havia ainda o caso do vilão. Lex Luthor aprece sob o rosto de Kevin Spacey que introduz algumas nuances. O seu vilão é mais moderno, mais homem de boa cara, menos brutal nas suas maneiras, ainda que o resultado seja idêntico. Para terminar com as referências ao elenco, há ainda que registar Jimmy Olsen, como o estagiário no jornal, Richard White, (James Marsden), como o homem com quem Lois Lane vive e que é sobrinho do editor do jornal Daily Planet, Perry White (Frank Langella), numa convincente e forte composição. Mas quem não gosta de Frank Langella? Portanto, o elenco não deslustra, mas não atinge o nível dos dois primeiros filmes da série Christopher Reeves. Deixar saudades é sempre trágico.

Falemos do realizador. Bryan Singer tornou-se conhecido de um dia para o outro com um filme invulgar, “Os Suspeitos do Costume” (The Usual Suspects, 1995). Antes disso já tinha realizado “Lion's Den” (1988) e “Sob Chantagem” (Apt Pupil, 1998). A sua cotação no mercado americano permitiu-lhe ser contratado para dirigir dois “blockbousters” retirados de bandas desenhadas, “X-Men” (2000) e “X2” (2003), ambos com excelentes resultados de bilheteira, o que lhe deu possibilidade de ser o escolhido para regressar com “Superman Returns” (2006). Como o efeito Bryan Singer não pára de brilhar lá onde os estúdios mais ambicionam, na bilheteira, a sua carreira futura está assegurada. Em produção tem “You Want Me to Kill Him?” e “The Mayor of Castro Street” (ambos para 2007) e uma nova aventura de “Superman” (com estreia prevista para 2009).
Voltando a “Superman – o Regresso” há que dizer que de certa forma o filme retoma o aparecimento do super herói na Terra. Desta feita aparece já crescidinho, depois de uma ausência de cinco anos, durante os quais tentou saber qual o destino do seu planeta natal, Krypton, que descobre completamente arruinado e sem vivalma. Volta então à Terra, a tempo de descobrir que por cá as ameaças continuam, os vilões são desamparam a loja, e, apesar de Lois Lane ganhar um Prémio Pulitzer com um artigo que se intitulava “Não precisamos de Super Homens”, a verdade é que todos precisamos cada vez mais de super-heróis. Tanto mais que Lex Luthor foi libertado antes de tempo e já engendra novas aventuras na área do imobiliário em alta escala, depois de ter visitado a “Fortaleza da Solidão”, fazer-se passar por Superman para ouvir a voz (recuperada) de Marlon Brando e roubar certos cristais que guardavam os ensinamentos de Jor-El. Com eles tenta reproduzir o planeta Krypton na Terra, afundando parte da América e destruindo milhões de vidas humanas. Parker Posey (Kitty Kowalski) é a namorada tonta de Lex Luthor, mas nem por isso deixa de se emocionar com as perspectivas sombrias da Humanidade, e de torcer por ela no momento decisivo.

Nunca atingindo o nível do seu modelo, este regresso de Superman aceita-se como um bom espectáculo, com uma cuidada realização de Bryan Singer que se esmera nalgumas cenas de acção, com efeitos especiais bastante bons, e alguma simbologia bem explorada. Há um aproximar da personagem do Superman da figura de Cristo que é feito de forma discreta, como por exemplo numa cena com o super-herói a flutuar na atmosfera, ouvindo as preces dos humanos que procuram auxílio. Mas as grandes criações cénicas não lhe ficam atrás, como a Fortaleza da Solidão, toda em cristais, ou o cenário onde evolui Lex Luthor, uma enorme e fantástica cidade em miniatura, com comboios e carros, que se desmorona à medida que a verdadeira Metropolis é abalada pela falta de energia.

Numa crítica de Roger Ebbert a este filme, aparece citado Tom Mankiewicz que descreve Superman como uma peça em três actos: o momento de Krypton é "Shakespeareano", a época de Smallville assemelha-se à obra do pintor americano Andrew Wyeth, e finalmente Metropolis sai das páginas de um “comic book”. Creio que Tom Mankiewicz não se refere a este filme em particular, mas à criação na sua globalidade. Acontece que esta trindade de influências, teatrais, pictóricas e de banda desenhada está muito bem observada, e todas elas se podiam ver nos filmes de Richard Donner e Richard Lester, e se entrevêem neste de Bryan Singer.

quadro de Andrew Wyeth

o realizador Bryan Singer
SUPERMAN - O REGRESSO (Superman Returns), de Bryan Singer (EUA, 2006), com Brandon Routh, Kate Bosworth, Kevin Spacey, James Marsden, Frank Langella, Parker Posey, Sam Huntington, Eva Marie Saint, Kal Penn, David Fabrizio, etc. 154 min: M/ 12 anos.

CINEMA


“ROMANCE E CIGARROS”

John Turturro é sobretudo conhecido como actor (brilhante) de várias obras onde a sua presença marcou (como, sobretudo, em filmes dos irmãos Coen e de Spike Lee, e de alguns mais que aqui se recordam: “She Hates Me” (2004), “Secret Window”, “O Brother, Where Art Thou?” (2000), “Company Man”, “Summer of Sam” (1999), “Cradle Will Rock”, “Rounders” (1998), “The Big Lebowski”, “Girl 6” (1996), “Clockers” (1995), “Quiz Show” (1994), “Jungle Fever” (1991), “Barton Fink”, “State of Grace” (1990), “Miller's Crossing”, “Mo' Better Blues”, Do the Right Thing (1989), “The Sicilian” (1987), “The Color of Money” (1986), “Hannah and Her Sisters” ou “To Live and Die in L.A.” (1985). Mas Turturo também ensaiou até hoje algumas incursões na realização com resultados irregulares, mas sempre interessantes, como são os caso de “Mac” (1992), “Illuminata” (1998) ou deste “Romance & Cigarettes” (2005). Quase todos os filmes que interpreta e realiza não são filmes normalizados. Há sempre um toque de loucura no que faz, o que torna duplamente inquietante e interessante o seu trabalho.

Com “Romance & Cigarettes” volta a acontecer o mesmo. Estamos no domínio do musical dramático, mas de um musical muito especial, de que não há muitos exemplos ao longo da história do cinema, mas de que existem alguns sumamente interessante. Num registo realista, dramático, por vezes trágico, introduzem-se quebras fantásticas, irreais, que têm a ver com a música. O que transforma os filmes assim concebidos numa mistura acre-doce de efeitos muito especiais: quem não se lembra de títulos como “Dinheiro do Céu”, “Moulin Rouge”, “Do Fundo do Coração”, “Dance in the Dark”, ou "É Sempre a Mesma Cantiga"? Que lista! Quase só obras-primas. Ao lado destas, “Romance e Cigarros” faz figura de parente pobre, mas, mesmo assim, revela qualidades.

A história é apenas um pretexto. Escolhendo como cenário, uma América sub urbana, actual e atormentada por pequenas querelas sentimentais, o filme centraliza a atenção num casal, Nick Murder (James Gandolfini) e Kitty (Susan Sarandon), ele, metalúrgico, ela, costureira, com três filhas que integram uma banda pop. Tudo começa no dia em que Kitty descobre que Nick Murder tem uma amante, uma empregada de balcão de uma loja de lingerie que tem tudo para se poder chamar ninfomaníaca. Essa sedutora Tula (Kate Winslet) põe em causa a tranquilidade familiar da célula em que se intromete, mas o efeito é devastador, como no melhor dos melodramas mais intensos. Que não vamos obviamente revelar, mas que, de tão excessivo e puritano, contra o adultério e o consumo do tabaco, só pode ser interpretado como uma sátira algo mordaz.
O próprio Turturo explica: "Quando as personagens não conseguem já exprimir-se por palavras, começam a cantar, sincronizando os seus movimentos de lábios com as canções que habitam o seu subconsciente. É a sua forma de fugir à realidade do seu mundo: sonhar, recordar, ligar-se com outro ser humano."
Com produção dos irmãos Coen, e evocações de canções célebres de Elvis, Tom Jones, James Brown, Nick Cave, Bruce Springsteen, entre muitos outros, “Romance & Cigarettes” é um drama musical que cedo se torna uma comédia e que principia com uma meia hora notável, com “números” musicais brilhantes e um humor feito de ironia e alguma nostalgia. Depois o filme deslassa como a maionese, passa por altos e baixos, continua a manter um tom interessante de acompanhar, mas alguns excessos na caracterização de personagens e uma deficiente estruturação narrativa fazem perder a unidade e perder-se o filme. Infelizmente. “Um pouco mais de azul e era além”. Faltou-lhe o azul e, quando assim é, lamenta-se duplamente. Porque esteve tão próximo de ser, e não foi.
Ficam interpretações excelentes de James Gandolfini, Susan Sarandon, Kate Winslet (notável, depois de “Titanic”), Christopher Walken (surpreendente!), Steve Buscemi, Mary-Louise Parker, Eddie Izzard ou de Cady Huffman (uma pequena cena que termina com uma faca nas entranhas, mas que anuncia uma belíssima e grande actriz).

ROMANCE E CIGARROS (Romance & Cigarettes), de John Turturro (EUA, 2006), com James Gandolfini, Susan Sarandon, Kate Winslet, Christopher Walken, Steve Buscemi, Mandy Moore, Bobby Cannavale, Mary-Louise Parker, Aida Turturro, Eddie Izzard, etc. 115 min; M/12 anos.

quinta-feira, agosto 17, 2006

UM BLOG (POR DIA) PARA VISITAR (11)

"LAPIS EXILIS"

Isto sou eu a supor (esperemos que bem!): Chama-se Maria Sobral Mendonça, assina com o nick “musqueteira”, é de Oeiras, pintora, e assegura um blog chamado “Lapis Exilis” que tem por devisa “Mas sabei que nós estamos todos de acordo, seja o que for que digamos.” (Turba Philosophorum).

O blog é curioso e merece seguramente uma visita: mistura com discrição e bom gosto, obras plásticas (muitas delas da autora, como se documenta acima com dois bosn trabalhos) textos e links musicais. O todo é agradável, não quer dizer que goste de tudo, mas globalmente é um blog de alguém empenhado, criterioso, com boa vontade e sentido crítico.
Dois exemplos de posts:

31.1.06
[...Frame-to-Frame...]
{ Frame-to-Frame... talvez a vida seja exactamente isso. Momentos exactos registados através de bruscas paragens do tempo. Afinal podemos parar o tempo!... Registar o movimento, num pedaço de papel rabiscado com datas e acontecimentos... depois, depois basta aceder à memória das coisas... e alí está ele, o tempo... estáctico à espera de nós mesmos.
Cada momento é isolado de si mesmo... de sons, cheiros, emoções, sensações, luz e contrastes de um todo. E a vida é exactamente isso... o agrupamento múltiplo de vários registos.
A constante procura... talvez quem sabe... não seja esse o mistério da vida... desvendar tantos outros registos herdados genéticamente que coabitam na memória de cada um. Parar o tempo, colar imagens, repor o som, contar uma história... criar personagens, e por fim... por fim, voltar a parar o tempo e recomeçar tudo de novo.
Frame-to-Frame... talvez a vida seja exactamente isso.}
posted by musqueteira at 09:17

16.8.06
[...Nicolais Judelewicz...]
http://www.kenzo.com/kenzo_ah06/index.html
{... as imagens podem ter cor, ou não. Mas a música que as animará num ecrã, pode ou deve transcrever no seu todo, uma só e única sonoridade plástica. Se eu pudesse estar neste preciso momento em Paris... sei bem o que de novo lá faria! Mas, também ainda é cedo para questionar toda a composição sonora da próxima exposição. Afinal de contas, há ainda um ano para criar as imagens que irão mais tarde ser animadas em película. E, só depois disso tudo, é que todos os "acordes" sonoros são realizados. Se eu pudesse estar neste preciso momento em Paris, visitava Nicolais Judelewicz! Sómente se eu pudesse já lá estar... era exactamente o que faria.}
posted by musqueteira at 11:04

Aqui fica a minha escolha de hoje, porque quero que estas sugestões que aqui vou deixando sejam abrangentes, não se confinem a nichos muito específicos, mas sejam representativas do que se faz na blogosfera com qualidade e interesse. A ideia destas indicações é, sobretudo, mostrar como o blog pode ser um instrumento valioso de comunicação, e sobretudo de comunicação na variedade, na diversidade, na complementaridade. Não concordo que se deva estar sempre de acordo, diga-se o que se disser. Mas que tal ouvir o que cada um tem para dizer?

terça-feira, agosto 15, 2006

UM BLOG (POR DIA) A VISITAR (10)

"PLAY IT AGAIN"
H. (Helena F.) julgo ter 20 anos, ser do signo astrológico dos Peixes e do ano do zodíaco do Tigre. Tem um blog de cinema (“Play It Again”) e colabora num blog musical (“Take a Break”). Como filmes favoritos anuncia os seguintes: The Dreamers, Rebel Without a Cause, Lost in Translation, The Misfits, Manhattan, The Eternal Sunshine of the Spotless Mind, Lord of the Rings, Trilogy Before Sunrise / Sunset, Edward Scissorhands, Citizen Kane, The New World, Jules et Jim, Wonder Boys, The Lady Vanishes, Rushmore, Magnólia, The Million Dollar Hotel, Bus Stopk The Red Shoes, Donnie Darko... Não é uma má escolha.
Acontece que esta Helena, com vinte aninhos, tem um blog bem escrito (com ou outro lapso, mas enfim!), bem doseado, com um design moderno e vivo, falando de filmes que, à partida, são boas escolhas e cuja análise denuncia sensibilidade, inteligência, cultura, gosto. Sabe bem descobrir uma Helena com 20 anos e esta paixão pelo cinema! Por isso elejo hoje o seu blog o meu candidato a uma visita guiada.
Seguidamente transcrevo excertos de quatro comentários seus que vão de Garrell a “Maimi Vice”. Esta Helena pode ir longe.

Domingo, Agosto 13, 2006
Les Amants Réguliers - Os Amantes Regulares

A revolução, ou que se queria que fosse, as barricadas, o fogo, a polícia, as fugas. É nessa explosão de juventude que a primeira parte do filme se passa, mas há também a relevância da casa em contraposição às ruas. A casa de Antoine, o rico do grupo, o “burguês”, que faz das suas divisões o ponto de encontro para um grupo de jovens que partilham o ópio, a música, a arte e os corpos. É nessa casa que Antoine conhece Lilie (Clotilde Hesme) – e essa breve conversa inicial é das cenas mais bonitas do filme.
Entre ambos nasce um amor perfeito, de partilha artística (ele é poeta, ela é escultora) e corporal (é elucidativa a confissão de Lilie a uma amiga, dizendo que com Antoine era amor e sexo de forma incansável, mesmo que sentisse desejos momentâneos com outros – a que ele aliás nunca se opõe).
Retrato nostálgico de um tempo, mas com a amargura da consciência do seu término, Os Amantes Regulares é um filme que se demora, que não se apressa, que se concentra, que quer mostrar tudo, todos os pequenos nadas que eram tudo, e um tempo que existiu, numa confusão sonolenta de utopia estranha, mas que passou, porque a vida teve de continuar, porque haverá sempre escolhas enquanto houver sonhos.(…)
Quinta-feira, Agosto 10, 2006
Superman Returns - Super-Homem: O Regresso


‘You wrote that the world doesn't need a saviour, but every day I hear people crying for one’

Deliberadamente nostálgico dos primeiros filmes, Singer esquece-se de imprimir à sua película uma vitalidade renovada, trazendo para o ecrã uma série de lugares-comuns do cinema do género sem sequer explorar devidamente algumas cenas até ao fim. Um exemplo é o flashback curto da infância do herói, quando este começa a dominar os seus poderes, cuja pertinência é altamente duvidosa, ainda para mais quando é um caso isolado. É certo que o objectivo do filme não era explicar as origens do Super-Homem mas sim centrar a acção no seu retorno à Terra, mais precisamente a Manhattan, perdão, Metropólis, cinco anos após ter desaparecido sem um simples adeus.
Ora, quando ele (Brandon Routh) volta – como Super-Homem e como o seu “outro eu” desajeitado e atencioso Clark Kent – encontra o mundo num caos e o seu amor, a colega repórter Lois Lane (Kate Bosworth), como mãe e quase esposa de outro (James Marsden, um dos X-Men), ainda para mais o sobrinho do patrão (Frank Langella). Como se esta maré negra não bastasse, Lex Luthor (Kevin Spacey), o eterno inimigo do herói voador, vê a sua dupla sentença de prisão perpétua atenuada e volta com um projecto demolidor envolvendo kriptonite para destruir o salvador da capa vermelha.
(…) É verdade que os efeitos especiais são bons, é verdade que há duas ou três cenas fantásticas (incluindo o final), é verdade que a voz de Marlon Brando (ressuscitada das gravações do filme de 1978 em que fazia de Jor-El, pai do Super-Homem) e a breve presença de Eva Marie Saint como a mãe adoptiva de Clark valem ouro, é verdade que na conjuntura política actual um ser que impede aviões de cair e salva pessoas em pequenos e grandes perigos seja como uma materialização de um apelo colectivo subconsciente por um salvador, mas isso não apaga o facto deste retorno do Super-Homem não encher as medidas de quem esperou um blockbuster arrebatador. Eu, que aliás sempre preferi o Clark de óculos de massa e ternura atrapalhada ao Super-Homem mumificado em licra, continuo a eleger o controverso V como o herói maior deste ano. E continuo a ter saudades daqueles anos em que no espaço a guerra era a das estrelas…

Terça-feira, Agosto 08, 2006
Romance & Cigarettes - Romance e Cigarros

Nesta sua terceira experiência atrás das câmaras, o actor John Turturro cria um musical de contornos kitsch que parece resultar de uma mescla do delírio de cor e citação musical de Moulin Rouge, com um bocadinho do universo dos irmãos Coen (que são, aliás, produtores executivos do filme), uma pitada de John Waters e um quê de Grease. Acrescente-se ainda a semelhança do título com Café e Cigarros de Jarmusch.
O melhor do filme encontra-se precisamente nos momentos em que os actores cantam (ou melhor, fazem um playback propositado, que nem sempre resulta bem) e gesticulam em coreografias de típico musical. Quando os diálogos perdem a banda sonora tornam-se demasiado básicos para terem alguma piada. Mas quando as emoções são gritadas ao som da música, de forma tão exagerada como irresistível, aí até apetece dançar na cadeira. O enfoque vai para o fabuloso Chrisopher Walker e a sua “Delilah” (original de Tom Jones), que protagoniza a melhor sequência do filme.
O elenco é composto por um rol de nomes sonantes, como James Gandolfini, Susan Sarandon, Kate Winslet, Christopher Walken, Mary Louise Parker, Steve Buscemi, Bobby Cannavale, Mandy Moore e a esposa do realizador, Aida Turturro. E se no conjunto todos se apresentam excentricamente fantásticos (talvez Susan Sarandon, sendo tão tremendamente competente tenha mais dificuldade em entrar na paródia), Christopher Walken destaca-se na sua pequena participação como o primo Bo e Kate Winslet é surpreendente na pele insaciável Tula – o motivo pelo qual James Gandolfini (cuja personagem tem o sugestivo nome de Nick Murder) porá em perigo o seu casamento – provando como ser sexy não tem necessariamente a ver com ter-se uma silhueta socialmente recomendada. (…)

Domingo, Agosto 06, 2006
Miami Vice

(…) A história de dois agentes que se infiltram num grupo de traficantes de droga pode não soar a algo de particularmente novo (um bom exemplo, embora muito diferente, é Donnie Brasco, de Mike Newell), mas tudo o que nos é mostrado prende-nos ao ecrã de tal forma que mesmo que não haja qualquer identificação com as personagens, há uma oportunidade de participar nas suas emoções.
O leque de actores escolhido é suficientemente competente para entrar convincentemente na pele das personagens, mas suficientemente longe de um patamar de perfeição e arrebatamento interpretativo que nos faça destacar algumas prestações em detrimento de outras.
(…) Tal como Collateral, Miami Vice é um filme essencialmente passado à noite. Tal como em Collateral, também tem uma sequência muito boa filmada no interior de uma discoteca. Neste caso trata-se do início do filme, em que a mestria de Mann a filmar por entre a massa de gente que enche o clube é tão hipnotizante que até nos esquecemos da pouca pertinência de uma tão longa “ouverture” para o conjunto do filme.
Há máquinas e velocidades, há explosões e sexo, há uma banda sonora que mais parece uma verdadeira playlist de rock desinteressante (embora com algumas faixas de excepção da autoria dos Goldfrapp, Mogwai ou Moby), há um corte de cabelo de Colin Farrell de gosto duvidoso... mas a dar algum sentido a tudo isto há a visão de um realizador capaz de filmar o negro do submundo de uma forma que prende sem causar admiração, que convence sem causar arrebatamento, que entretém sem olvidar a qualidade artística.
Miami Vice é pois um filme a não perder, uma vez que não defrauda as expectativas de quem procura uma ida ao cinema onde a acção frenética se alia ao deleite contemplativo de mais um Michael Mann nocturno.


“A CASA DA LAGOA”

Ela (Sandra Bullock) vive em 2006, é médica; ele (Keanu Reeves) vive em 2004, é arquitecto. Mas obviamente ambos vivem em conjunto em 2004 e 2006, só que uns vivem mais que outros, e às vezes até se cruzam, não sabendo que se vão encontrar em tempos distintos. Mas a coisa é mais complexa: vivem os dois na mesma casa do lago, nos arredores de Chicago, mas não em simultâneo. Ele viveu antes dela, ela julga abandonar a casa para ele, mas foi o contrário. Ambos deixam bilhetinhos na caixa do correio e ambos os lêem com dois anos de intervalo, mas em simultâneo. Confuso? Nada disso, se virem o filme é que descobrem o que é ser confuso.

Ela é uma solitária, bem bonita e bem apresentável, mas que não se interessa por ninguém, a não ser pelo impossível. Ela gosta de esperar, como “Persuasão”, o seu romance preferido de Jane Austen. Ele é um bonitão bem colocado na vida, filho de um arquitecto célebre (que combina Le Corbusier e Frank Lloyd Wright, dizem), o mesmo que construiu a casa à beira do lago, toda envidraçada, deixando passar a luz e dando visibilidade total para fora e para dentro. De tal forma que ali o tempo não pára, não cristaliza numa cronologia precisa, e circula livremente para a frente e para trás. Confuso? Esperem pelo filme para saberem o que é confuso. Isto é apenas uma pequena amostra.
Podem dizer que a ideia é completamente irrealista e idiota. Irrealista acho que sim, mas idiota, por quê? Já se aceitou tanta fantasia no cinema e na literatura, por que não aceitar mais esta? Não me custa nada admitir como ponto de partida esta cláusula: é possível a troca de correspondência entre dois seres, com dois anos de intervalo, sem que tenham sido os CTT a atrasarem as entregas. Tudo bem. Mas depois, adoptada a premissa, é preciso assegurar que tudo o mais funciona. Ora há demasiadas falhas neste argumento, para ele ter alguma consistência ou credibilidade, mesmo no domínio da fantasia. Não se pode inventar e deixar andar ao sabor da invenção. É o que acontece, neste filme que parece conhecer grande sucesso de público, talvez pelo romantismo exacerbado de que dá mostras, talvez pelo clima de fantasia temporal que evoca. Mas jogar com o tempo já foi feito muitas vezes no cinema e muito melhor. Quem não recorda um belíssimo filme com Bill Murray, “Groundhog Day”, de Harold Ramis (1993)?
Remake de uma obra sul-coreana de 2000, chamada “Siworae” (ou “Il Maré”, na sua versão ocidental), uma realização de Hyun-seung Lee, que tinha argumento de Ji-na Yeo, baseada no romance de Jiro Asada, “The Lake House” tem direcção do argentino Alejandro Agresti, e guião escrito por David Auburn. Um verdadeiro puzzle de nacionalidades.
Quanto aos actores, Sandra Bullock é convincente, Keanu Reeves, anda um pouco aos papéis (literalmente aos papeis, ou seja às cartas), Christopher Plummer, no arquitecto egocêntrico, compõe uma personagem curiosa. Mas nada disto chega para tornar este filme numa obra a considerar. É daqueles que só se vêm quando nos enganamos na hora de inicio do filme que queríamos ver, não temos mais para fazer e lá fora está um calor de rachar. Foi o que aconteceu comigo. A sala estava fresquinha.

A CASA DA LAGOA (The Lake House), de Alejandro Agresti (EUA, 2006), com Keanu Reeves, Sandra Bullock, Christopher Plummer, etc. 105 minutos; M/12 anos; Columbia.

domingo, agosto 13, 2006

UM BLOG (POR DIA) PARA VISITAR (8)

"EROTISMO NA CIDADE"
CANTOS DE UM AMOR REINVENTADO


“Encandescente” é o nick, de quem o ostenta nada mais sabemos, apenas que o Sexo é female, o Local é Portugal e os Blogs que assina são “Erotismo na Cidade” e “Pequenas Histórias” (lamentavelmente este não tem acesso permitido). Uma mulher, portuguesa, que assina um blog profundamente erótico, é obra, sobretudo se os seus trabalhos tiverem qualidade. E têm.
Blogs com textos “poéticos”, lamechas e delicodoces, com arremedos de florbelices mais ou menos romântico-sensuais, é o que há mais e nem por isso nos sentimos felizes. Ao menos que as autores o estejam, ao efectuarem essa catarse psicanalítica. Mas literariamente a qualidade deixa muito a desejar e dessas centenas de blogs confessionais e engatatorais muito não há a dizer.
Os textos da “Encandescente”, felizmente, são normalmente fortes, densos, muito carregados de uma envolvência erótica, sensual, sexual intensa. Por vezes serve-se da elipse, da simbologia, da metáfora, mas noutros casos abdica de aligeirar a imagem, e investe com a brutal coragem de quem chama “os bois pelos nomes”. Quase sempre com propriedade, com arrojo seguramente, e com a reivindicação solene e orgulhosa de que “sou mulher e digo-o.”
“Erotismo na Cidade”, o blog, já deu origem a dois volumes que estão ali mesmo publicitados, “Erotismo na Cidade” e “Encandescente”. Fiquei curioso. Vou tentar encontrá-los na Fnac. Depois direi. Mas para já vale a pena visitar este blog e percorrer longamente as suas páginas. Num livro, esse percurso é desde logo voluptuoso. Abrir as páginas de um livro é algo profundamente sensual, dependendo da textura do papel o quão sensual pode ser. Vamos tentar perceber se as páginas de um blog também podem possuir esse inebriante contacto, levando a mão a deslizar no texto, nas fotos, a impregnar-nos desse doce encantamento. O blog da “Encandescente” permite a experiência.


Para já dois textos a abrir o apetite:

Terça-feira, Agosto 01, 2006
Detrás da porta


Meu querido
Lembras-te quando chegavas e eu te agarrava logo ali, junto à porta, e me encostava e te encostava à parede, e te despia num ápice, as mãos vorazes, a boca colada à tua, a boca dizendo na tua: - Não te mexas. Não te movas.
E tu não podias, e tu não querias, e tu não te movias, e mordias os lábios para sufocares o grito, para não soltares o grito, para não ouvirem a tua nudez, do outro lado da porta.
E as minhas mãos que procuravam o teu sexo e encontravam a tua erecção e a seguravam e a apertavam e a consumiam e a esgotavam e te esgotavam e no chão…
No chão marcadas a tua chegada e a tua vinda, e eu olhando-te e tu cansado, e tu ofegante, e tu seco de sémen e repleto de prazer e eu...
Eu apertava-te o rosto e puxava o teu cabelo, e abria as minhas pernas, e empurrava a tua cabeça, e descias no meu corpo, e eu dizia-te apontando chão, apontando marcas:
- Falta ali junto ao teu o meu sinal.

posted by encandescente at 8/01/2006 / Foto: Kay


Perdida


Fecha-me na tua mão
Se me fechares na tua mão estarei segura
Se me guardares na tua mão nem os meus medos
De mim saberão e de mim perderão todos os sinais.
Depois…
Depois leva-me para onde fores
Num bolso fechada
Num canto do peito escondida
Que de mim me quero perdida
E por ti perdida de amores.

posted by encandescente at 8/10/2006 / Foto: Lia Costa Carvalho
Entretanto, Encandescente vai recolhendo textos seus
num arquivo a que pode ter acesso em:

ACTRIZES QUE ME MARCARAM (IV)

MARLÈNE DIETRICH

“If she had nothing more than her voice she could break your heart with it. But she has that beautiful body and the timeless lovliness of her face. It makes no difference how she breaks your heart if she is there to mend it.”
- Ernest Hemingway

“Não sou uma actriz, sou uma personalidade”, disse Marlène um dia. Uma personalidade, é certo, e mais: um mito. Mito-mulher, mulher-mito de uma geração que foi a dos nossos pais. Mito-mulher, mulher-mito de todos nós que a descobrimos depois, feita “Anjo Azul” descido à cidade para desespero dos homens. Marlène é mais do que um nome. É lenda. Lenda que não consegue ultrapassar a realidade, porque Marlène perdura para além da lenda que a não consegue totalmente abarcar.

“No Oeste, quando a lenda ultrapassa a realidade, nós imprimimos a lenda”, afirma um jornalista a James Stewart no final do “O Homem que Matou Liberty Valance”, de John Ford. Que fazer, porém quando a própria realidade ultrapassa a sua lenda? Que fazer quando as palavras se mostram absolutamente impotentes para transmitir o que quer que seja que vá além de uma simples aproximação? Já Robert Benayount (na revista "Positif") pusera idêntica questão: “Ela ultrapassa a obra de arte, por muito genial que a obra seja e que se queira... Ela ultrapassa até o próprio mito, sem se distanciar, sem o pôr em questão. Porque essa mulher verdadeira, apesar do mito, vale sempre mais do que o próprio mito”.

Marlène nasceu em Berlim, a 27 de Dezembro de 1901. O nome de baptismo: Maria Magdalena Dietrich von Losch. Filha de um oficial de cavalaria e de uma pianista, foi educada segundo uma disciplina monacal que a levou a resguardar no seu íntimo a vitalidade e a alegria de viver que a sua personalidade desde logo denunciou. Conta-se até que a mãe a obrigava a sair de casa nos dias mais frios do inóspito clima nórdico, levando-a a suportar estoicamente as maiores privações, da fome à sede, a fim de lentamente a «despojar de todos os sintomas de angústia e descontentamento que uma educação menos rígida poderia favorecer».

Os estudos secundários fê-los em Weimar, e durante algum tempo dedicou-se ao piano e ao violino (onde poderia ter sido uma virtuose, se não fora a existência de «um gânglio no nervo primário do pulso esquerdo»), recebendo ainda lições de dança, equitação e línguas estrangeiras. Antes de se estrear no teatro, frequentou o curso de Arte Dramática de Max Reinhardt, célebre encenador alemão de inícios do século XX, que revolucionou profundamente a estrutura cénica do teatro, jogando com o aproveitamento da luz e dos volumes que estão na base de uma estética expressionista.

Quando Josef von Sternberg a descobre numa revista por ele considerada medíocre (“Zwei Kravatten”) já Marlène (então casada com o argumentista e produtor Rudolph Sieber, de quem teve uma filha) ostentava o corpo miraculosamente desenhado que Sternberg saberia realçar, encobrindo-o com véus diáfonos e plumas, possuindo também aquele rosto de volumes admiravelmente conjugados que lhe avivavam o mistério inefável de uma sensualidade simultaneamente serena e obsessiva. A sua carreira profissional fora, contudo, e até aí, pouco promissora. Repartira o tempo por operetas medíocres, espectáculos de «music-hall» de terceira ordem ou papéis pequenos e insignificantes em filmes que nunca deram a medida aproximada do seu talento. Apesar disso, porém, Marlène fora dirigida por cineastas de importância incontroversa, caso de C. W. Pabst (“Die Freudlose Gasse”, “Rua Sem Sol”), William Dieterie (“Menschen am Weg”), Joe May (“Die Tragodie der Liebe”), Alexander Korda (“Eine du Barry von Heute”), Arthur Robinson (“Manon Lescaut”), Maurice Tourneur (“Das Schiff der Verlorenen Menshcen”) ou Kurt Bernhart (“Die Frau Nach der Man Sich Sehnt”).

A revelação de Marlène Dietrich será, entretanto, obra do sexto sentido de um homem que soube olhar para além das aparências e descortinar o essencial de uma personalidade estranhamente rica e fascinante. Uma das poucas mulheres que poderiam ser Lolo-Lola e cantar o tema de “O Anjo Azul”: “Ich bin von Kofp bis Fuss auf Liebe eingestellf” (“Sou toda amor, da cabeça aos pés”).

Marlène teve consciência da importância decisiva do seu encontro com Josef von Sternberg e nunca se cansou de o repetir para quem a quis ouvir: “Foi Sternberg quem me descobriu, quando eu não era ninguém. Acreditou em mim, fez-me trabalhar, deu-me todo o seu saber, a sua experiência, a sua energia e construiu desta maneira o meu triunfo.” Ou ainda, a famosa dedicatória de uma fotografia sua «a Von» “Sem ti não seria ninguém.” A isto responde Sternberg, do alto da sua megalomania e do seu incomensurável talento: “Marlène não é Marlène. Marlène sou eu!” Mas, que era este “Pigmalião” consciente e autorizado?

Duas personalidades invulgares irão encontrar-se por força do destino. Esse encontro, visualizado em “O Anjo Azul”, será, simultaneamente, o desdobrar de uma paixão impetuosa. Mas, como se terá passado na realidade nos bastidores? Isso mesmo nos conta o próprio Josef von Sternberg, em páginas das suas memórias (“Fun in a Chineses Laundry”):

“Vestida com um "tailleur" de Inverno, chapéu, luvas e muitas peles, tinha o ar de vir ver-me para gozar de um descanso bem mereceido para a fazer sair da sua letargia, perguntei-lhe porque é que a sua reputação de actriz era tão pouco conhecida. Ela olhou longamente as mãos enluvadas e, bruscamente, como se as tivesse mostrado muito tempo, escondeu-as atrás das costas. Decididamente, pensei, iria ser muito difícil transformar em "devoradora de homens" a mulher acanhada que estava à minha frente!”

“O Anjo Azul”, datado de 1930, marca portanto a convergência de duas carreiras, para além de assinalar igualmente o encontro com um outro actor admirável, esse Emil Jannings a que o cinema alemão das décadas de 20 e 30 ficou a dever algumas das suas criações mais notáveis.

Em 1935, depois do êxito clamoroso de filmes como “Marocco” (30), “Dishonored” (31), “Song of Songs” (33), e “The Scarlet Empress” (34), e depois do fracasso de “The Devil is a Woman”, Marlène e Sternberg rompem a sua ligação, indo, cada um por seu lado, à procura de um ideal perdido: Sternberg tentará fazer de cada nova vedeta uma nova Marlène; Dietrich, por seu turno, só muito tardiamente conseguirá libertar-se do retrato que dela impunham os produtores e que o público não se cansava de reclamar.

Posteriormente, apareceu ainda em muitos filmes memoráveis, muito embora nenhum deles ostente a auréola lendária das obras interpretadas sob a direcção de Sternberg. Mas “Destry Rides Again”, “A Foreign Affair”, “Witness for the Prosecution”, “Touch of Evil2, ou “Judgment at Nuremberg” foram obras a todos títulos importantes. Deve ainda salientar-se a sua actividade como cantora, em filmes (o caso de “The Blue Angel”, onde canta um tema que se colaria a ela para sempre, uma das mais belas canções de amor de que há memória, "Falling In Love Again"), mas também em, concertos, em tournées pela Europa e América.

Em 1937, torna-se cidadã americana, depois de ter fugido da Alemanha nazi, recusando todos os cargos que as autoridades do III Reich lhe ofereceram. Pelo contrário fez campanha pelos Aliados, e radicalizou posições políticas, cantou em diferentes frentes de batalha e gravou discos de apoio à causa (como o famoso “Lili Marleen” que, durante a II Guerra Mundial, era cantado os sdois lados das barricadas). A sua vida sentimental também foi muito movimentada e sobretudo muito comentada. Casada com Rudolf Sieber, assistente de realização, veio com Sternberg para a América, teve, ao que dizem, relações lésbicas (Mercedes de Acosta conta-se entre os seus amores femininos), mas confessou sempre que o grande amor da sua vida tinha sido o actor francês Jean Gabin.

Essa Marlène de olhar voluptuoso, a meio caminho entre a mítica pureza de uma deusa inacessível e a diabólica presença inquietante de uma mulher destruidora; essa Marlène regressada do reino das sombras e das trevas, esse rosto iluminado, que permanece misterioso para além de toda a descoberta; essa Marlène de tempos idos, mulher-mito, mito-mulher, estará para sempre entre nós, fazendo de cada um, um novo professor Unrat que, por amor desmedido e desejo incontido, mergulha no irracional e no desespero. Morreu aos 90 anos de idade, em Paris, há muito retirada dos palcos, no dia 6 de Maio de 1992.