quarta-feira, novembro 10, 2010

MAIS LEITURAS

  
 
II. Diversas




Leituras muito diversificadas nestes últimos meses, apesar do já atrás referido predomínio republicano que as comemorações impuseram (e a febre editorial acompanhou). Como estávamos no campo da História Política, não quero deixar de recomendar um ensaio brilhante (mais um que devia ser obrigatório nas escolas, sobretudo se se quer educar para a cidadania): “À Porta Fechada” (Estaline, os Nazis e o Ocidente), de Laurence Rees (ed. D. Quixote) é um relato estarrecedor sobre os tempos da II Guerra Mundial e a divisão do mundo que lhe é posterior. Extremamente bem documentado, com referências indiscutíveis a factos que nos obrigam a corar de vergonha pela desumanidade de quem os projectou e concretizou friamente, este volume não deixa ninguém indiferente (ou deixará?). Tudo se passou há setenta anos, mais coisa menos coisa, no coração da Europa. Como é possível?


Ainda História e ainda biografia, uma fabulosa “Clarice Lispector, uma Vida”, de Benjamin Moser (ed. Civilização). Como admirador incondicional da escritora, ucraniana de nascimento e brasileira pela palavra, esta aventura de uma existência amargurada é uma narração invulgarmente brilhante do percurso de uma personalidade que se afirmou como um dos nomes maiores da literatura mundial do século XX. Combinando a biografia com a análise literária da obra de Clarice Lispector, este é outro texto indispensável.
Benjamin Moser, nascido em 1976, nos EUA, vive na Holanda. Apaixonou-se por Clarice Lispector quando a descobriu ao estudar português (também aprendeu chinês e fala uma quantidade de línguas que nos faz inveja). Escreve bem, com inteligência e clareza, e a sua obra é magnífica.


Brilhante ainda é a selecção de textos de George Steiner, aparecidos no “The New Yorker”, e recolhidos num volume há pouco traduzido para português pela Gradiva. Esta antologia, organizada por Robert Boyers, é exemplificativa do pensamento de Steiner, um dos mais sedutores pensadores da actualidade, que aqui escreve, com desenvoltura e profundidade, sobre literatura, política, história, questões sociais, etc. A leitura é fulgurante e acompanha-se com o fascínio de quem assiste a um lúcido e penetrante exercício de inteligência e perspicácia.


Passando para um campo completamente diferente, cito três romances que me deixaram absolutamente subjugado. “O Seminarista”, do brasileiro Ruben Fonseca (ed. Sextante), começa assim: “Sou conhecido como o Especialista, contratado para serviços específicos. O Despachante diz quem é o freguês, me dá as coordenadas e eu faço o serviço.”
O “Especialista” andou num seminário, e agora é matador profissional. Cita amiudadas vezes clássicos em latim, e o seu ofício é para se executar com brio. Apenas isso. Sem remorso, nem prazer. A escrita é nervosa, muito dialogada, carregada de um humor negro que desarma. “O Seminarista” demonstra a maestria literária de quem redige esta sombria novela que nos restitui um retrato sórdido de uma certa sociedade. Ou da sociedade actual. Ou somente da condição humana?


Brilhante é “Milagrário Pessoal”, de José Eduardo Agualusa (ed. D. Quixote). “As Mulheres de Meu Pai” e “Barroco Tropical” já me tinham deixado rendido à escrita deste invulgar autor da lusofonia. “Milagrário Pessoal” confirma tudo o que vinha de trás e abre caminhos para o futuro. Ao ler Agualusa o que primeiro sinto é o prazer e o orgulho de pertencer a esta lusofonia que permite tal engenho, que viaja de Portugal para o Brasil ou para África, falando a mesma língua, passando por terras e gente que por acaso conheço algumas, e cujas recordações sinto tão vivas e fortes nesta poética digressão em busca de novos vocábulos da língua portuguesa. Um velho anarquista angolano e uma jovem linguista portuguesa vivem paixões e desvendam milagres linguísticos. “Os milagres acontecem a cada segundo. Os melhores costumam ser discretos. Os maiores são secretos.” Absolutamente a não perder.


Descobri há poucos anos Sandor Márai, húngaro que se exilou nos EUA e se suicidou em finais dos anos 80, ignorado do grande público, depois ter sido proscrito e censurado na sua terra natal, pela ditadura comunista que assim procurava calar um dos mais importantes escritores do século XX da Europa Central. Descobri-o com “A Herança de Eszter”, apaixonei-me com “As Velas Ardem até ao Fim”, fiquei empolgado com “A Mulher Certa”, depois continuei com “Os Rebeldes”, e agora manteve-se todo o encanto com “Divórcio em Buda”, uma sensível e discreta descrição da vida quotidiana em Budapeste, decorrem os anos 30 do século passado, e o protagonista, um recto e respeitável juiz de contenciosos familiares, se sente dividido entre passado e presente, entre a Peste da margem esquerda do Danúbio e a Buda que se abre ao futuro na outra margem. Entre a aristocracia em decadência e a burguesia em ascensão, entre duas guerras, entre a tradição e a modernidade, entre o amor e a morte. Excelente no seu desenho miniaturista, atento ao pormenor e ao mais secreto. (ed. D. Quixote).


Já aqui falei da releitura de “Mistérios de Lisboa”, de Camilo Castelo Branco (é sempre saudável regressar aos clássicos!). A nova edição da “Relógio d’Água” é boa e vem enriquecida com um magnífico prefácio de Raoul Ruiz. Vale a pena.


O “policial” é um género que não perco de vista. Não considero um “policial” literatura menor, muito pelo contrário. Alguns dos maiores passaram por lá e presentemente parece que não há romance que não tenho um crime pelo meio. Mas o “policial” assumidamente “policial”, que descende de Poe e Conan Doyle, por vezes revela-nos autores muito interessantes. Quando descubro um bom romance que traz uma autoria que até aí desconhecia, é um prazer enorme devorar toda a restante obra. Foi o que aconteceu com Donna Leon, americana por nascimento (Montclair, New Jersey, 28 de Setembro de 1942), mas que vive em Itália há mais de 20 anos, e que escreveu já uma série de policiais que têm como protagonista o inspector Guido Brunetti e a cidade de Veneza como cenário privilegiado. Os romances são muito interessantes, “familiares”, Brunetti sonha com os cozinhados da mulher, apoquenta-se com o que possa acontecer aos filhos, não suporta o superior hierárquico, vive obcecado pela honradez, numa sociedade de corruptos que praticam crimes mesquinhos, e nem sempre os culpados acabam punidos. A sensação é que “não vale sequer a pena”.

Dela li “Morte no Teatro La Fenice”, “Assassínio na Academia”, “Morte num Pais Estranho” (todos ed. Planeta) e ainda “Acqua Alta” e “Amigos Influentes” (ed. Presença). Todos a valerem a pena. Quanto mais se penetra na intimidade deste universo, mais vontade temos de o acompanhar. Soube que há uma série televisiva, alemã, que já conta com 17 telefilmes, desde 2000 até 2010. Chama-se "Donna Leon" (2000), começou por ser realizada por Christian von Castelberg (2 episódios, em 2000) e tem sido continuada por Sigi Rothemund (15 episódios, entre 2002 e 2010). Os romances são muito mediterrânicos, vêm na tradição de um George Simenon ou de uma Agatha Christie, mais dedutivos que truculentos, não sei se um olhar alemão capta o espírito, mas estou curioso.

Muito diferente é o estilo de Craig Russell, mais vigoroso e impetuoso. Escocês, foi polícia e publicitário antes de se dedicar à escrita, criando um detective afeito à investigação de crimes de uma violência invulgar. O cenário é sempre a nocturna cidade alemã de Hamburgo, povoada por “serial killers” e neo-nazis, cruzados com o submundo da droga e da prostituição. “Águia de Sangue”, “Irmão Grimm” e “Eterno” são os volumes traduzidos para português e editados pela Betrand. Lêem-se de um fôlego e são exemplarmente conduzidos em termos de “suspense”, o que levou o “The Times” a considerar o autor “o mestre do thriller”. Já existe igualmente um teledramático retirado de uma obra sua, “Wolfsfährte”, com direcção de Urs Egger (2010). As referências não são as melhores, infelizmente, pois creio que cada um destes romances daria um excelente “thriller” cinematográfico. Os ingredientes estão todos lá. A saga Jason Bourne seria um bom exemplo.

















segunda-feira, novembro 08, 2010

LEITURAS

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I. Leituras Republicanas

Muitas leituras nos últimos tempos, povoando de sobrecarregadas montanhas de volumes o espaço vulgarmente designado por “livros de cabeceira”. A “cabeceira” é coisa que já não existe, e os livros mal deixam espaço para alcançar a cama. Por outro lado, já nem sei há quanto tempo não dou conta aqui do que vou lendo. Acho, no entanto, que vale a pena referir aqui algumas leituras, ainda que de forma necessariamente sucinta.

Andei numa de descobrir a “República”, passados 100 anos, sem que depois de tantas leituras tenha ficado mais entusiasmado com a nossa “primeira” República. Creio cada vez mais que foi ela que abriu caminho à ditadura de Salazar, o que não se pode dizer que tenha sido fraca herança. Esperemos que a nossa actual República se porte melhor (mas cuidado!, os tempos são outros e as ditaduras não são as mesmas!).
Gostei de ler obras de várias orientações e com diversas perspectivas. Nunca se fica com uma imagem completa quando se lêem ou se ouvem apenas as razões de um dos lados. Assim, muito boa e bem documentada é a “História da Primeira República Portuguesa”, com coordenação de Fernando Rosas e Maria Fernanda Rollo (de que existem duas edições, ambas da “Tinta da China”). Trabalho que reúne especialistas vários, abordando aspectos diferentes, sempre numa visão republicana e de esquerda actual.

Apreciei bastante “o relato do 5 de Outubro visto pelos monárquicos em 1910”, “Diário dos Vencidos”, de Joaquim Leitão, escritor e jornalista que, com elegância de estilo e um notável e vigoroso sentido da reportagem, foi recolhendo testemunhos que reuniu em livro. (ed. Alétheia)
Curioso, mas deixando algumas dúvidas no espírito, é “O Relato Secreto da Implantação da República feita pelos Maçons e Carbonários”, com organização e prefácio de Costa Pimentel (de quem já havia lido um muito discutível livro em que se procurava demonstrar que Salazar era maçon). Apresenta documentos importantes, mas as conclusões são, no mínimo, incertas. (Ed. Guerra e Paz).

Fernando Catroga editou (na”Casa das Letras”) um texto importante, “O Republicanismo em Portugal, da formação ao 5 de Outubro de 1910”, dando particular atenção a alguns temas essenciais na formação do pensamento republicano, como liberdade, livre pensamento, maçonaria, igreja, mulher, moral, poder, ciência, educação e patriotismo. Proveitosa leitura.
“Como se faz um Povo”, com coordenação de José Neves, acompanhou a exposição “Povo”, reunindo testemunhos diversificados sobre o que é ser “povo”, e sobretudo o que é ser “povo” em Portugal. Para se perceber a identidade que somos ou julgamos ser. (ed. “Tinta da China”).

Muito interessante ainda é “A Crise da República e a Ditadura Militar”, de Luís Bigotte Chorão (Ed. Sextante), que devia ser de leitura obrigatória para quem tanto fala da actual crise. A História não se repete, porque as circunstâncias históricas e a ambiência social se modificam, mas, mas… há tantos aspectos semelhantes!
Depois é sempre um prazer ler o catastrofista Vasco Pulido Valente, que mostra uma inteligência e desapego ao politicamente correcto que deslumbra. Ele arrasa “A Velha Republica” em 130 páginas que não deixam pedra sobre pedra. A acutilância crítica do seu pensamento é fascinante. E perturbadora.
Obra de consulta indispensável é “Lisboa Revolucionária (1908-1975)”, de Fernando Rosas, muito ilustrada e inspiradora, igualmente em duas edições da “Tinta da China”, e vou esquecendo pelo meio algumas outras por onde passei apenas os olhos. Além de alguns excelentes catálogos de várias exposições que se puderam visitar em Lisboa e no Porto.

Mas ficaria mal não referir “Afonso Costa”, de Filipe Ribeiro de Meneses, o historiador português que dá aulas na Universidade Nacional da Irlanda, e que abanou os alicerces da historiografia portuguesa contemporânea com uma monumental biografia de Salazar. O livro sobre Afonso Costa é um volume muito mais pequeno, mas creio ser obra particularmente pertinente para se compreender o homem e o seu tempo. Afonso Costa é uma personalidade particularmente polémica que desperta ódios e paixões invulgares, ainda hoje, tantos anos depois da sua morte. Creio que o olhar de Filipe Ribeiro de Meneses não deixará ninguém indiferente e impõe-se pela seriedade da pesquisa.

Aproveito a deixa para referir igualmente o seu retrato de “Salazar”, cerca de oitocentas páginas de análise e revelações de aspectos da personalidade e da obra do ditador que governou com mão pesada Portugal durante mais de 40 anos. A obra é escrita de forma clara e elegante, que se acompanha com prazer, ostenta o olhar de um historiador de formação anglo-saxónica, que se documenta de forma exaustiva, afastado das paixões políticas que fervilham ainda cá por dentro, e mostra a qualidade do trabalho de alguém que consegue analisar melhor ao longe defeitos e virtudes de um homem que marcou para sempre a história do nosso país em pleno século XX. Há quem diga que é a biografia definitiva. Não sei se será, mas de certeza que passará a ser obra de referência primordial.
(as leituras continuam)

domingo, novembro 07, 2010

NO CENTRO CULTURAL DO CARTAXO, DIA 28

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"Lauro António vai estar em mais uma tertúlia da autoria de José Raposo, que promete ser bem recheada de histórias e memórias. Afinal, o realizador de “Manhã Submersa” está neste momento a celebrar, simultaneamente com o 30º aniversário desta sua obra, os 50 anos de carreira como crítico, cineasta, professor de cinema, director de festivais e autor de uma vasta obra escrita. 50 anos de uma vida dedicada à paixão pelo cinema têm muito que contar! Desta vez será a vez de Lauro António passar para o outro lado da câmara e de ser José Raposo a anunciar "luzes, câmara, acção!".
Domingo, 28 Novembro, 21.30h, Conversas . M/6 . Entrada Livre – Bar
In “Noticias do Ribatejo”

CINEMA: A REDE SOCIAL

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A REDE SOCIAL


“A Rede Social” é um filme desconcentrante. Palavroso, vivendo sobretudo de um diálogo compacto e denso que não dá tréguas ao espectador, dir-se-ia não ser objecto destes tempos, e cinematograficamente uma obra “impura”, no mínimo. Poder-se-á tomar como um filme de argumentista-escritor, tanto mais que quem assina o argumento é o reputado Aaron Sorkin, o criador da série "The West Wing" (Os Homens do Presidente), além de argumentista de filmes como “Uma Questão de Honra” (1992), “Uma Noite com o Presidente” (1995), “Má Fé” (1993) ou “Jogos de Poder” (2007), entre outros. Acrescente-se ainda que parte de um livro de grande sucesso, “The Accidental Billionaires", de Ben Mezrich. Quem diria que o cineasta de “Seven” ou de “Clube de Combate” se iria adaptar a uma tal “encomenda” (o argumento foi-lhe proposto e ele aceitou-o sem hesitar, apenas impondo duas questões prévias, que o mesmo fosse rodado nos locais certos e com os nomes oficiais, ou seja “Facebook” é Facebook”, Harvard é Harvard, etc.). Acontece que apesar de alguns acharem que este é um filme de Fincher com pouco de Fincher, pelo contrário encontro-o um dos mais “finchereano”, se tomarmos “Fight Club” como um dos exemplos típicos da sua temática própria de autor.
David Fincher é um dos bons retratistas da realidade social contemporânea e um crítico contundente dessa realidade, marcada pela competição levada ao extremo, pela violência do comportamento individual marginalizado, pela aspereza de uma solidão que invade as almas e as empurra para a patologia de uma conduta associal. Ele é também o retratista do “self made man”, o chamado “sonho americano”, de finais do século XX e inícios do actual. Não nos fala de “cowboys” à conquista de novas fronteiras, com o seu halo de heróis românticos, mas de “serial killers” ou de combatentes de ruas.
Ora que faz ele em “A Rede Social” senão abordar as mesmas personagens e os mesmos conflitos, apenas lhes modificando o cenário e o meio de se exprimirem? Que é “The Social Network” senão um novo “Clube de Combate” mas agora com protagonistas que combatem com palavras? Por isso o filme é palavroso, por isso ele reflecte tão bem o “meio” que procura retratar, por isso ele tão justificadamente “fala” ao público a que se destina. Neste “Fight Club” não se esgrime com murros, mas com palavras e com processos jurídicos. Nada é físico, tudo é virtual. Tal como grande parte da realidade que nos cerca, tal como as operações bancárias fictícias que conduziram à grande crise por que passa o mundo. As riquezas hoje são abstractas, não assentam em minas de ouro ou fábricas que produzem automóveis ou tecidos e calçado. Hoje é-se milionário porque se reúnem 500 milhões de aderentes que trocam mensagens no éter. Ou porque se especula na bolsa com títulos que nada representam de concreto. Tudo voga ao sabor da gritaria das bolsas, e dos imperativos financeiros de uns trapaceiros que dizem que a economia está de boa ou de má saúde conforme lhes interessa, para fazer subir ou descer o seu lucro próprio. “A Rede Social” é, por isso, um grande filme sobre este nosso mundo tão confuso para a grande maioria que se deixa levar por essa onda de palavras que não remetem para nada de palpável, apenas para a avidez de um rendimento desmedido conseguido com base na especulação fiduciária.
“The Social Network” é ficção mas parte de factos concretos e os nomes de pessoas e lugares não estão escondidos atrás de hipotéticos subterfúgios. Fala do que aponta. De Mark Zuckerberg, o jovem universitário que detém a maior rede social do mundo, que estudava em Harvard e não pertencia aos restritos clubes dos alunos endinheirados, que era tímido com as mulheres e um ser algo associal, um “nerd” lhe chamam em inglês. Um dia zanga-se com a namorada e regressa ao quarto resolvido a vingar-se: escreve no seu blogue o que lhe apetece sobre a miúda em questão e depois assalta os arquivos informáticos da universidade, para copiar as fotografias das alunas e elaborar um concurso para saber quais são as mais apetecíveis. Claro que causa furor e enfurece a instituição, mas descobre assim o caminho para socializar na internet com base num “clube privado”, onde só entra quem é convidado. Chama-lhe “TheFacebook”, é convidado pelos irmãos Winklevoss para desenvolver o projecto, opta por pedir apoio ao seu único amigo, Eduardo Saverin, mas acabará por deixar uns e outro pelo caminho, à medida que sobem os números astronómicos dos aderentes a esta rede social. Será mesmo um outro milionário da rede, Sean Parker, o homem que criou o “Napster” e popularizou o “downlaod” pirata da música, sendo por isso condenado, quem o irá trazer para Silicon Valley, e retirar-lhe os últimos vestígios de decência competitiva. No final do filme, Mark Zuckerberg é o mais jovem multimilionário de sempre, mas está isolado numa vasta sala, agarrado a um portátil, qual tio patinhas da tecnologia moderna. Drama da solidão moderna? É melhor não entrar por aí, romantizando a figura do self made man que constrói um império, mas fica isolado do mundo. Esse poderia ser o caso do Cidadão Kane, mas não é necessariamente o que acontece com Zuckerberg, nem com os milhões que têm acesso à sua rede. O que está em causa não é o “Facebook” mas como o “Facebook” nasceu, e que aqui funciona como símbolo de uma sociedade sem outros valores que não seja o lucro fácil. Quem é que acredita que um milionário esteja sozinho sem ser por vontade deliberada?
O que David Fincher nos pretende dizer, aliás de forma muito transparente, sem criar vilões exemplares, é que em Harvard se ensina a competir sem cartel (“strug for life”), e que a competição presentemente é tão radical e desumana que ninguém olha a meios para triunfar. Os que assim fazem são olhados como malfeitores? Não, são seguidos histericamente por quem quer aprender a lição com eles ou por quem quer participar na festança, ou então por rapariguinhas assombradas pelo sucesso e que tudo fazem para se sentarem na mesa (ou deitarem-se na cama) desses “triunfadores” natos. São homens maduros a quem as lições da vida ensinaram o cinismo? Não, são jovens a quem homens maduros ensinaram as lições da vida e do cinismo. Sobretudo do pouco valor da virtude e dos princípios.
Por isso o filme nos fala dos clubes onde os menos favorecidos pela linhagem não podem entrar e depois nos mostra como no ringue da verborreia ganham os que melhor lutam pela contagem dos cifrões. Neste filme não há homens maus, todos se apresentam bem em sociedade, e todos correm atrás do mesmo. Mark Zuckerberg? Sim, mas também os irmãos Winklevoss, Eduardo Saverin, Sean Parker, etc. O que faz correr Sammy continua a ser o lucro ou a perda. Nada mais.
Para lá da excelente construção do filme, que mais se aproxima de um combate de boxe palavroso de que um filme de ideias, apesar de ser uma obra de ideias sob a forma de combate de boxe, servida por uma montagem galvanizante, “A Rede Social” conta ainda com uma fotografia excelente, na recriação de ambientes, e uma partitura musical magnífica. Depois há que referir, este sim um verdadeiro milagre americano, um elenco de jovens quase desconhecidos que impõe uma galeria de personagens inesquecíveis. E aí temos um grande candidato aos Oscars que se aproximam.
Quanto ao “Facebook”, ele veio para transformar o mundo da comunicação, que nunca mais será o mesmo depois dele. Tanto assim é que será lá que vou colocar este comentário. À atenção de Mark Zuckerberg.
 
A REDE SOCIAL
Título original: The Social Network
Realização: David Fincher (EUA, 2010); Argumento: Aaron Sorkin, segundo obra de Ben Mezrich ("The Accidental Billionaires"); Produção: Dana Brunetti, Ceán Chaffin, Michael De Luca, Scott Rudin, Aaron Sorkin, Kevin Spacey; Música: Trent Reznor, Atticus Ross; Fotografia (cor): Jeff Cronenweth; Montagem: Kirk Baxter, Angus Wall; Casting: Laray Mayfield; Design de produção: Donald Graham Burt; Direcção artística: Curt Beech, Keith P. Cunningham, Robyn Paiba; Decoração: Victor J. Zolfo; Maquilhagem: Felicity Bowring, Linda D. Flowers; Guarda-roupa: Virginia Johnson; Direcção de Produção: John David Gunkle, Marc A. Hammer, Carey Len Smith; Assistentes de realização: Scott Kirkley, Allen Kupetsky, Greg Tynan, Bob Wagner, Pete Waterman; Departamento de arte: Theodore Sharps, Randall D. Wilkins, Jane Wuu; Som: Ren Klyce; Efeitos especiais: Robert Cole, Steve Cremin; Efeitos visuais: Elizabeth Asai, Madalina Bland, Steve McLafferty; Companhias de produção: Columbia Pictures, Relativity Media, Michael De Luca Productions, Scott Rudin Productions, Trigger Street Productions; Intérpretes: Jesse Eisenberg (Mark Zuckerberg), Andrew Garfield (Eduardo Saverin), Brenda Song (Christy Lee), Justin Timberlake (Sean Parker), Rooney Mara (Erica Albright), Armie Hammer (Cameron Winklevoss/Tyler Winklevoss), Max Minghella (Divya Narendra), Rashida Jones (Marylin Delpy), Joseph Mazzello (Dustin Moskovitz), Dustin Fitzsimons (Presidente do Phoenix Club), Patrick Mapel (Chris Hughes), Douglas Urbanski (Larry Summers), Wallace Langham (Peter Thiel), Dakota Johnson (Amelia Ritter), Malese Jow (Alice Cantwel), Denise Grayson (Gretchen), Trevor Wright (Josh Thompson), John Getz (Sy), Shelby Young (K.C.), Bryan Barter (Billy Olsen), Calvin Dean, Aria Noelle Curzon, Barry Livingston, Marybeth Massett, Rashida Jones, Henry Roosevelt, Max Minghella, David Selby, Steve Sires, Abhi Sinha, Mark Saul, Cedric Sanders, Inger Tudor, Aaron Sorkin (executivo), Mariah Bonner, Emma Fitzpatrick, Jeffrey Thomas Border, Courtney Arndt, Felisha Terrell, James Shanklin, Alex Reznik, John Hayden, Oliver Muirhead, etc. Duração: 121 minutos; Distribuição em Portugal: Columbia Filmes; Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal: 4 de Novembro de 2010.

quinta-feira, novembro 04, 2010

CINEMA: MISTÉRIOS DE LISBOA

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  MISTÉRIOS DE LISBOA
Camilo Castelo Branco é uma das glórias literárias de Portugal. Escritor do século XIX, prolífero, de obra diversificada e vastíssima, foi dos raros casos em Portugal a conseguir viver, explicava ele que mal, apenas do que escrevia. E escreveu de tudo, traduziu e compilou, adaptou e improvisou, deixou romances e novelas, contos e poesias, narrativas e prosas diversas, folhetins e teatro e muitos artigos variados. Romântico, místico, exilado na província (na sua bela casa de São Miguel de Seide, onde partilhou o amor que o levou ao adultério e ao cárcere), mas não escondendo a vaidade de possuir um título nobiliário, assinou obras-primas de fervorosa paixão e intenso fulgor sentimental, como o sempre citado “Amor de Perdição”, cujo título só por si é um programa, e já justificou várias adaptações ao cinema e à televisão, em Portugal e no estrangeiro. A escrita alvoroçada de Camilo brota com uma claridade e um arrojo formal que ainda hoje entusiasmam os seus leitores, mesmo os menos arrebatados pela sua imagética redentora e a inquieta tormenta passional. Em Portugal, Manoel de Oliveira tem–se aproximado com rigor e precisão deste universo tumultuoso, de “funestos amores” e trágicos destinos, com o qual mantém muito curiosas afinidades.
Coube agora a vez ao chileno Raoul Ruiz, que Paulo Branco adoptou há vários anos, estabelecer encontro com Camilo, tendo para o efeito escolhido o mais obvio para este realizador que principiou a sua carreira no cinema colaborando em telenovelas e folhetins televisivos no país natal. Nada melhor que “Os Mistérios de Lisboa”, uma obra inicialmente publicada em folhetins no jornal do Porto “O Nacional” (entre o número 52, de 4 de Março de 1853, até ao número 25, de 31 de Janeiro de 1855), mais tarde editada em volume, ou melhor em três volumes, que reuniam um indescritível enredo de peripécias diversas, todas elas rodando à volta de um jovem, de nome supostamente João, que mais tarde se sabe ser Pedro, aparentemente filho de pais incógnitos, mas a quem finalmente aparece uma mãe redentora. Sabe-se igualmente que poucos anos depois, Ernesto Biester adaptou o romance para teatro, a que chamou “A Penitência”, tendo a peça sido estreada no palco do D. Maria II.
Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco (nascido em Lisboa, a 16 de Março de 1825, falecido em São Miguel de Seide, a 1 de Junho de 1890) encontrava-se por essa altura no dealbar da sua carreira literária, já com alguns pontos ganhos (como “Anátema”, de 1851), mas ainda oscilando entre a poesia, o teatro, a novela, o romance e o jornalismo. Espírito inquieto e irrequieto, polemista brilhante, amante fogoso, casado e descasado, pai de filhos que ia deixando pelo caminho, até arrimar a Seide, foi este Camilo impetuoso que se abeirou de uma obra que, em muitos aspectos, também recorda o tom e o estilo de Victor Hugo e os seus “Miseráveis” (que todavia só irá aparecer dez anos depois, 1862, mas que contém o espírito do tempo).
Na época, estes “Mistérios” eram frequentes na literatura de várias nacionalidades. Herdeiros do “teatro de cordel” ou dos folhetins que se vendiam na rua, de porta em porta, tiveram em Eugène Sue (Paris, 20 de Janeiro de 1804 - Annecy, 3 de Agosto de 1857), escritor francês, um dos seus mais celebrados cultores (autor, entre outros, de “Les Mystères de Paris” ou “Le Juif Errant”).
“Les Mystères de Paris” iriam mesmo influenciar muitos outros autores pelo mundo fora, não só Camilo em Portugal, mas também Eça de Queirós, que, em parceria com Ramalho Ortigão, nos deu “O Mistério da Estrada de Sintra”, outro folhetim, este publicado no “Diário de Notícias”, em forma de cartas anónimas, alguns anos mais tarde, entre 24 de Julho e 27 de Setembro de 1870, aparecendo a primeira versão em livro somente em 1884.
Também aqui a disputa Camilo-Eça não deixou de dar os seus frutos, sendo que os “Mistérios” do primeiro são mais genealógicos e passionais, enquanto os dos segundos progridem mais no terreno do policial. Um mais romântico, os outros mais realistas. Diga-se ainda que estes “Mistérios” iriam passar ao cinema sob diversas formas, desde os “serials” norte-americanos, como “As Aventuras de Pauline”, até às rocambolescas séries “Fantômas” (1913), “Les Vampires” (1915) e “Judex” (1916), do francês Louis Feuillade, um dos cineastas mais interessantes desta época do cinema mudo.
Com mais de cento e dez filmes contabilizados na sua filmografia (o que também o aproxima de Camilo, até em termos quantitativos: Camilo escreveu para cima de duzentas obras, entre originais e traduções, e etc.), Raoul Ruiz é um cineasta irregular, capaz do muito bom e do menos interessante, que tem percorrido o mundo, desde que se estreou na realização, no seu Chile natal, com uma curta-metragem chamada "La Maleta" (1963). Aí permaneceu até 1974 ("La Expropriación"), deixando obra de sublinhar, como "Três Tristes Tigres" (1968), antes de se exilar em França, após o golpe de Pinochet. Um dos seus títulos mais justamente citados é "L''Hypothèse du Tableau Volé" (1979). No seu exílio europeu rodou em vários países, entre os quais, por diversas vezes, Portugal, onde dirigiu "O Território" (1981), "Treasure Island" (1985), "Les Trois Couronnes du Matelot" (1983), "A Cidade dos Piratas (1983), "Fado, Majeur et Mineur" (1994), "Três Vidas e uma Só Morte" (1996) e "Genealogias de um Crime" (1997), se não nos faltou nenhum. Regressa agora com o apoio da mestria de Camilo.
Os seus derradeiros filmes são desequilibrados ("Combate de Amor em Sonho", "Klimt", "O Tempo Reencontrado"), mas com "Mistérios de Lisboa" acerta na “mouche”. O filme é um belíssimo fresco de quatro horas e meia, que se vê sem enfado, contando com algumas felicíssimas contribuições, a começar desde logo pelo trabalho de Carlos Saboga na adaptação do romance ao cinema, mantendo-se fiel ao essencial da emaranhada história, mas procurando construir uma linha de progressão dramática que clarificasse o cruzar de narrativas e a confluência de peripécias. O que não era tarefa fácil.


Depois temos que sublinhar a magnificência dos cenários naturais, quase todos rondando a região de Sintra (alguns dos quais bem conheço, pois por lá rodei muito da “Manhã Submersa”), e que permitem um clima romântico de grande intensidade. Curiosamente os “Mistérios” são de Lisboa, mas Raoul Ruiz consegue convencer-nos que estamos muitas vezes na capital, sem nos mostrar ruas ou avenidas, apenas quintas e jardins. O efeito é, todavia, bem conseguido e o resultado final, ao nível do ambiente, é excelente, quer em exteriores, como em interiores (o palácio de Seteais é, por exemplo, mais uma vez, muito bem aproveitado). Fotografia, montagem, música, direcção artística só merecem saudações especiais, mas é no domínio da representação que temos o prato forte destes “Mistérios”, com uma não só competente, mas inspirada, interpretação global de um elenco onde quase ninguém destoa e onde alguns sobressaem a muito nível. Particularizando, Adriano Luz é brilhante, Maria João Bastos excelente, Ricardo Pereira muito bem, dividido entre dois papéis muito diferentes, mas unidos num ramo comum, Léa Seydoux deslumbrante, entre muitos outros igualmente dignos de referência. Na verdade estamos na presença de um magnífico trabalho de actores, que é certamente valorizado pela segura direcção, mas igualmente pela matéria-prima de que os mesmos são feitos.

A obra de Camilo parte de um artifício bastas vezes utilizado em literatura: às mãos do escritor chega, via correio endereçado do Brasil, da parte de um “cordial amigo, F”, as memórias autobiográficas de alguém que se confessa e que leva Camilo a afirmar “não ser um romance: é um diário de sofrimentos, verídico, autêntico e justificado.”

Segundo Alexandre Cabral, no seu “Dicionário de Camilo Castelo Branco”, “Os Mistérios de Lisboa”, “produto de uma imaginação truculenta e incontrolável”, narram “Os enredos - múltiplos e diversificados - entrelaçam-se no conjunto dos três volumes, sendo os seus protagonistas personagens estranhas que têm em comum a faculdade exótica de mudarem de nome com a mesma facilidade como quem muda de camisa. Assim, Pedro da Silva, conhecido por João, chamar-se-á também Álvaro de Oliveira; o "Come-Facas" usava os seguintes pseudónimos: Barba-Roixa, Leopoldo Saavedra, Tobias Navarro e Alberto Magalhães, e Sebastião de Melo faz-se passar pelo padre Dinis Ramalho e Sousa e duque de Cliton. Por outro lado, a vastidão do mundo (Portugal, França, Bélgica, Inglaterra, África, Japão e Brasil) é o cenário onde se desenrolam os conflitos ficcionais, marcados por vectores que perdurarão na novelística camiliana: a vingança, o anátema, o amor de mãe, a passionalidade, que se confunde com a ganância, a perversidade e a santidade. De permeio, indícios vários de reminiscências biográficas do autor.”

Nesta obra “em que os pecadores podem ascender à virtude e a virtude se conquista através de sofrimentos e lágrimas”, a personagem central é João (aliás Pedro), órfão de 14 anos quando a narrativa do filme se inicia, e que vai descobrindo, no decorrer da vida, a sua identidade e as trágicas histórias em que se enredam familiares e tutores, como esse paciente e diligente padre Dinis ou o estranho e dúbio Alberto Magalhães, passando por dezenas de outras personagens (que o filme reduz ao essencial) cujo destino com o seu se cruzam. O clima é, pois, pesado, denso, carregado de ameaças, mas igualmente redentor, não havendo o que se possa considerar personagens intrinsecamente más, mas seres a que o destino vai dando segundas oportunidades para se resgatarem. Esta perspectiva cristã que era timbre de Camilo, é assumida por inteiro por Raoul Ruiz que, no excelente prefácio que antecede a recente edição da obra (ed. “Relógio d’ Água”), faz uma judiciosa análise do romance donde parte o seu filme, desenvolvendo curiosos paralelismos entre o folhetim novecentista e a actual telenovela. Na verdade, a construção da telenovela, tal como a conhecemos hoje, não é mais do que o prolongamento até à exaustão das regras do folhetim do século XIX, que aceitava como acção central um determinado bloco dramatúrgico e o ia conjugando com novas acções, paralelas ou transversais, que criavam a teia conflituosa que sustentava toda a obra, lhe dava consistência e a permitia desenvolver-se quase “ad infinitum”. A diferença está na facilidade com que hoje se constroem essas intrigas, e na qualidade temática e estilística com que eram executados os melhores folhetins de outrora. Pelo menos, aqueles que perduraram na memória literária. O mesmo se passa em relação à obra de Ruiz. O ponto-chave da possível querela não está na estrutura folhetinesca e melodramática que assume deliberadamente, mas na forma como a mesma é transposta para o ecrã, com um rigor plástico e uma contenção de estilo invulgares. De uma construção folhetinesca pode resultar uma obra de arte de altíssimo valor, ou uma rotineira produção que enche chouriços para passar o tempo, quando não mesmo uma pimbalhada desprezível. Camilo, e agora Raoul Ruiz, optaram pelo caminho mais difícil, que nem por isso deixa de ser popular: basta recordar o êxito que os folhetins tiveram nos leitores de então, ou o próprio sucesso mundial desta obra de quatro horas e meia, que tem recebido encómios por onde tem passado. Falando da duração do filme, cumpre ainda informar que, em simultâneo com a sua rodagem, se produziu uma série televisiva com seis episódios e outras tantas horas, que irá ser emitida proximamente pela RTP (e por outros canais internacionais – em França já esta anunciada). Série que contará com desenvolvimentos não previstos no filme (e com algumas cenas a menos, como por exemplo a excelente na cela museu de recordações do Padre Dinis).


MISTÉRIOS DE LISBOA
Título original: Mistérios de Lisboa ou Misteres de Lisbon ou Mysteries of Lisbon
Realização: Raoul Ruiz (Portugal, França, Brasil, 2010); Argumento: Carlos Saboga, segundo romance homónimo de Camilo Castelo Branco; Produção: Paulo Branco; Música: Jorge Arriagada; Fotografia (cor): André Szankowski; Montagem: Ruy Diaz, Carlos Madaleno, Valeria Sarmiento; Casting: Patrícia Vasconcelos; Direcção artística: Isabel Branco; Decoração: Paula Szabo; Guarda-roupa: Tania Franco; Direcção de Produção: João Matos, Ana Pinhão; Assistentes de realização: Emídio Miguel, João Pinhão, José Maria Vaz da Silva; Som: Ricardo Leal, Vladan Nedeljkov, António Pedro Figueiredo, Tiago Romão, Aleksandra Stojanovic; Companhias de produção: Clap Filmes; Intérpretes: Adriano Luz (Padre Dinis / Sabino Cabra / Sebastião de Melo), Léa Seydoux (Branca de Montfort), Melvil Poupaud (Ernesto Lacroze), Ricardo Pereira (Alberto de Magalhães / Come-Facas), Clotilde Hesme (Elisa de Montfort), José Afonso Pimentel (Pedro da Silva Adulto), Catarina Wallenstein (Condessa de Arosa), Maria João Bastos (Ângela de Lima), Lena Friedrich (Moçoila), Filipe Vargas (D. Paulo de Albuquerque), Malik Zidi (Visconde Armagnac), Joana Pinhão Botelho (Criadita), Albano Jerónimo (Conde de Santa Bárbara), Carloto Cotta (D. Álvaro de Albuquerque), Margarida Vila-Nova (Marquesa de Alfarela), Miguel Monteiro (Médico da Hospedaria), Marco D'Almeida (Conde de Viso), Joana de Verona (Eugénia), São José Correia (Anacleta dos Remédios), Luciano Neves (Burglar), João Baptista (D. Pedro da Silva), Sofia Aparício (Condessa de Penacova), Ana das Chagas (Deolinda), João Villas-Boas (Criado), Ricardo Aibéo (Cavalheiro), João Arrais (Pedro da Silva Criança), Maria João Pinho (Condessa de Vizo), Cleia Almeida (Francisca), Julien Alluguette (Benoit), Rui Neto (Azarias), Afonso Lagarto (Guarda), Rui Morrison (Marquês de Montezelos), António Fonseca (Moisés Pereira), Paulo Pinto (D. Martinho de Almeida), Marcello Urgeghe (Médico Veneziano), João Ricardo (D. Teotónio de Mascarenhas), Sofia Marques, Dinarte Branco (Diletante), Martin Loizillon (Padre Dinis Jovem), Nuno Távora (Diletante), Helena Coelho (Marquesa de St. Eulália), Duarte Guimarães (Escrivão), Beatriz Leonardo (Dona Antónia), Carlos António (Pescador), Martim Barbeiro (Filho do enforcado), Bruno Ambrósio (Miúdo Líder Escola), Sofia Leite (Prelada), Ana Sofia Campos (Maria Amália), António Simão (Pescador), Raquel Dias (Adelaide), Martinho Silva (José Salema), José Manuel Mendes (Frei Baltazar da Encarnação), Vânia Rodrigues (Dona Antónia), Pedro Carmo (1º Cavalheiro), Américo Silva (Meirinho do Tribunal), José Airosa (Bernardo), Leonor Figueiredo (Emília do Coreto), Dinis Gomes (Joaquim), André Gomes (Barão de Sá), etc. Duração: 272 minutos; Distribuição em Portugal: Clap - Produção de Filmes; Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal 21 de Outubro de 2010; Locais de filmagem: Sintra, Portugal.

quarta-feira, novembro 03, 2010

"MANHÃ SUBMERSA" EM PONTA DELGADA

Tarde cultural em Ponta Delgada
A iniciativa pretende comemorar o 30º aniversário da realização do filme "Manhã Submersa", de Lauro António.

A Livraria Solmar Artes e Letras conjuntamente com o 9500 Cineclube vão promover a a comemoração do trigésimo aniversário da realização do filme “Manhã Submersa”. A Tarde Cultural, que vai decorrer a seis de Novembro próximo, insere-se nas comemorações dos 20 anos da Livraria Solmar, vai evocar ainda os 20 anos da morte do dramaturgo e poeta Carlos Wallenstein que participa no referido filme. Pelas 17h00 terá lugar uma intervenção de Rosa Goulart, docente na Universidade dos Açores, que se irá focar na vida e obra de Vergílio Ferreira, bem como uma intervenção do actor José Wallenstein centrada na obra do seu pai. Pelas 18h00 será exibida, no Cine Solmar, a película Manhã Submersa, de Lauro António. Esta iniciativa tem o apoio da Cinemateca Portuguesa - Museus do Cinema e de Lauro António.

E retrospectiva e exposição prosseguem no Teatro da Trindade, em Lisboa:

terça-feira, novembro 02, 2010

CINEMA: ARREPENDIMENTOS

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ARREPENDIMENTOS


Cédric Kahn, francês, nascido a 17 de Junho de 1966, não é um cineasta particularmente conhecido do público português. Que me recorde, apenas duas obras suas chegaram ao mercado nacional, “O Tédio” e “O Avião”, antes deste “Arrependimentos”. No entanto a carreira deste realizador de 44 anos de idade, já conta com sete longas e uma curta que marcou a sua estreia na realização em 1990, “Les Dernières Heures du Millénaire”. Seguiram-se “Bar des Rails” (1991), “Trop de Bonheur” (1994), “L'Ennui” (1998), “Roberto Succo” (2001), “Feux Rouges” (2004) e “L'Avion” (2005), até chegar a este "Les Regrets". Entretanto, passou pela televisão, onde assinou um episódio da série “Tous les Garçons et les Filles de leur Âge...”, com o título “Bonheur” (1994) e ainda o teledramático “Culpabilité Zero” (1996). “Arrependimentos” aproxima-se, portanto, muito de uma revelação para nós, portugueses, muito embora se saiba que o seu nome e obras são respeitados em França.
Desde logo surpreende a justeza de tom, nesta história de amor transviado, discretamente contada, mas impondo uma intensidade emocional que convém sublinhar, quer pela economia de meios, e pela forma como quase tudo é suportado pelos ombros dos actores, quer pela segurança de uma realização que não deixa a história cair no melodrama barato, e a sustenta a um nível de enorme dignidade.
Mathieu Lievin (Yvan Attal), arquitecto, vive em Paris, casado com a colega de atelier Lisa (Arly Jover), quando é chamado de urgência à sua terra natal, onde a mãe entrou em coma. Por aqui fica uns dias, depois dos médicos o aconselharem a permanecer junto ao leito da enferma, pois o fatal desenlace espera-se a qualquer momento. Assim faz, com curtas permanências na sua velha casa de infância, e rápidas fugas pelas ruas da cidade. Numa dessas paragens, cruza o olhar com Maya (Valeria Bruni Tedeschi), grande amor da sua adolescência, perdida há quinze anos.
Este é um momento chave do filme. Pela importância que irá ter do desenvolver da história, mas também para se perceber como esta irá evoluir estilisticamente. O filme terá palavras gritadas e sussurros, terá paixão incontida e desejo avassalador, terá fúria e lágrimas, sorrisos, terá drama e algum humor, mas sobretudo vive de olhares e de silêncios. São esses os grandes motores desta bela história de amor, com encontros e desencontros, onde os arrependimentos são sugeridos por que aparecem no título. Mas é mais o “fatum”, o destino, que leva alguém a atrasar-se, quando deveria ter chegado antes das 9 horas, ou outro alguém a resolver sair precisamente às 9, e a não esperar mais. È o mesmo “fatum” que impele uma mulher a viajar para Los Angeles ou o Chile, em fuga, ou quando uma e outro se casam, pensando reconstruir vidas novas, quando afinal de vive preso a um rosto, um corpo, uma pele.
Curiosamente, "Les Regrets" principia “pianinho”, em segredo, olhos nos olhos, sem uma palavra, tudo arrumado e parecendo o ambiente solidamente estruturado, ou não fosse Mathieu um arquitecto, que se preocupa em reconstruir rapidamente uma prateleira caída ou em coser um botão de camisa em falta, para progressivamente se envolver num turbilhão de sentimentos à solta, em vertiginosa corrida para Barcelona, por exemplo. De uma vida bem comportada e virtuosa passa-se progressivamente para um vórtice de paixões reacendidas que incendeiam os corações dos protagonistas e colocam uma interrogação sobre o seu futuro.
“Arrependimentos”? Será este um filme sobre arrependimentos, ou seja, sobre actos falhados que conduzem à infelicidade de quem não teve a coragem de enfrentar e traçar o seu destino? Camilo chamava-lhes “amores funestos”, histórias à partida marcadas por uma qualquer maldição que faz dos amantes seres sistematicamente infelizes, ou doridos, ou transviados, quer estejam na presença um do outro, mas imaginando já a ausência e a perda futura, quer quando o espaço e o tempo os separa, e sobrevivem amargurados por esse afastamento.
Uma história destas não resistiria sem grandes actores e Cédric Kahn teve-os e dirigiu-os com rigor e sobriedade invulgares. Um belo filme a merecer melhor sorte do que a que está a ter nestas duas semanas em estreia, onde o público não tem abundado.
Cédric Kahn

ARREPENDIMENTOS
Título original: Les Regrets
Realização: Cédric Kahn (França, 2009); Argumento: Cédric Kahn; Produção: Kristina Larsen; Música: Philip Glass; Fotografia (cor): Céline Bozon; Casting: Stéphane Batut, Antoinette Boulat; Guarda-roupa: Isabelle Pannetier; Direcção de Produção: Cedric Ettouati, Olivier Michel, Sylvain Monod; Assistentes de realização: Juliette Mabille, François Mathon, Rafaele Ravinet-Virbel; Departamento de arte: Catherine Bourgeois, Frank Pitussi; Som: Olivier Mauvezin; Efeitos visuais: Émilie Feret, Elodie Glain, Aurélie Villard; Companhias de produção: Les Films du Lendemain, Maia Cinema, Mars Distribution, Dragon 8, Centre National de la Cinématographie, Canal+, TPS Star, Région Ile-de-France, Centre Images, Région Centre Angoa-Agicoa, La Banque postale Image, Coficup 2, Backup Films; Intérpretes: Yvan Attal (Mathieu Liévin), Valeria Bruni Tedeschi (Maya), Arly Jover (Lisa), Philippe Katerine (Franck), François Négret (Antoine), Lisbeth Wagner, Franck Mercadal, Vincent Berger, Gurvan Cloatre, Laurent Lévy, David Tissot, Emmanuelle Lepoutre, Zélia Briggs, Livia Cortinavis, Marie-Aline Cresson, Fabien Floris, Ito Glissant, etc. Duração: 104 minutos; Distribuição em Portugal: Clap - Produção de Filmes; Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal: 14 de Outobro de 2010.

sábado, outubro 30, 2010

NO TEATRO POLITEAMA

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UM VIOLINO NO TELHADO, I
No palco em Portugal, agora em Lisboa



Disse-o e escrevi-o quando vi o espectáculo no Rivoli, no Porto: acredito que este seja o melhor musical encenado até hoje por Filipe La Feria. O que não é dizer pouco, pois já vi muitos e muito bons musicais com a marca La Féria. Mas “Um Violino no Telhado” tem algo que nalguns outros não existia: uma unidade de estilo e de concepção que torna a obra um todo quase inatacável. Um cenário sóbrio, mas de grande expressividade, um guarda-roupa de uma eficácia e de um bom gosto extraordinários, um bom jogo de luzes, uma marcação de cena e uma coreografia muito acertadas, uma trabalho de actores globalmente muito forte, uma dramaturgia que consegue momentos de amargura e alegria, de desespero e de ternura muito bem doseados, sem serem forçados, uma história comovente e humana como poucas, sem carregar na tragédia (e como foi trágica a sorte do povo judeu na Rússia dos Csars e depois na URSS, que para eles não houve revolução que lhes valesse!), mas sem adocicar o drama para satisfazer a clientela.
Da história já falei (e agora transcrevo o que então aqui publiquei aquando da visita ao Rivoli), mas vale a pena actualizar alguns apontamentos. Reafirmar a extraordinária actuação de José Raposo, num dos seus melhores e mais transpirados trabalhos, onde repete um nervo, um entusiasmo, uma vibração invulgares, a segurança contida de Rita Ribeiro, a entrega de Joel Branco, numa das suas mais logradas actuações, as nuances de Hugo Rendas, igualmente numa das suas melhores prestações, o cossaco muito bem desenhado por Carlos Quintas, as presenças doces mas afirmativas de Cátia Garcia e Sissi Martins, num elenco onde ainda se podem e devem citar Helena Rocha, Jorge Sousa Costa, Alexandre Falcão, Rui Andrade, entre muitos outros e um grupo de arrebatados cossacos.
Com “Um Violino no Telhado”, Filipe La Féria merece o melhor. E nestes tempos de crise, nada melhor do que um bom espectáculo musical que, sem calar a dor, nos ofereça a esperança e o colorido da vida. Do amor. Da alegria de permanecer, mesmo quando as adversidades parecem inultrapassáveis.

UM VIOLINO NO TELHADO, II
No palco em Portugal, no Porto

“Um Violino no Telhado”, em cena no palco do Teatro Rivoli, no Porto, é, creio que sem dúvidas, o melhor musical até hoje encenado por Filipe La Féria. Já escrevi bastante sobre a peça e o filme num texto que surge no programa do Rivoli, interessa-me agora abordar a versão portuguesa. Desde logo um cenário e um guarda-roupa deslumbrantes, de um extremo bom gosto. Depois um jogo de luzes magnifico e um trabalho de actores invulgarmente coerente e globalmente de grande qualidade: José Raposo, no protagonista, é magnifico, de vitalidade, vibração, humanidade e humor, Rita Ribeiro muito segura e contida na “mãe” que vai casando as filhas, Joel Branco, numa das suas mais logradas actuações, José Pinto, fulgurantes em curtas aparições como “Rabi”, Hugo Rendas, igualmente numa das suas melhores prestações, num elenco onde ainda se podem e devem citar Sara Lima, Ruben Madureira, Helena Rocha, Sissi Martins, Carlos Meireles, Alexandre Falcão, entre muitos outros.
Ao todo são 58 actores, cantores, bailarinos e músicos, a maioria dos quais oriundos do Norte. Da Ucrânia surgiu o grupo de bailarinos que interpretam os cossacos. Excelentes.
Num teatro a rebentar pelas costuras (numa quarta-feira), com gente de todos os estratos sociais, com os rostos felizes dos espectadores a acompanharem com um visível prazer o que lhes era dado ver no palco, com muita gente nova no público (quem disse que o musical era coisa de terceira idade não sabe do que fala!), este foi o espectáculo que sabe bem ver e sabe bem saber que existe. Teatro do melhor, com público do melhor, numa noite memorável do Porto.
saber mais AQUI

UM VIOLINO NO TELHADO, IIIDo palco ao cinema, nos EUA (*)
“Um Violino no Telhado” foi durante anos, e não há muitos, o musical com maior número de representações na Broadway. Razões para esta preferência dos espectadores norte-americanos? Uma história humana, comovente e divertida, bem construída, com uma banda sonora inspirada que fica facilmente no ouvido, coreografias nervosas e ritmadas, boas interpretações, uma encenação vigorosa, e ainda dois aspectos que não podem ser esquecidos em palcos americanos: uma história ambientada num época que transformou profundamente o mundo e, sobretudo, uma história de judeus, e sabe-se que New York já foi chamada Jew York.
“Fiddler on the Roof” parte de uma obra originalmente chamada “Tevye”, incluída numa colectânea de contos de Sholem Aleichem (“Tevye and His Daughters” ou “Tevye the Milkman”), escrita em Yiddish e publicada em 1894.
Sholem Aleichem (de nome próprio Sholem Rabinovitz) foi um dos mais famosos escritores europeus judeus. Nasceu em 1859, numa família que vivia em Perevaslav, uma pequena cidade no sul da Rússia. Pouco depois mudaram-se para Voronkov, e toda a vida de Sholem Rabinovitz é a base da sua inspiração literária. A quantidade de irmãos e parentes que reunia à sua volta está na base da intriga de “Um Violino no Telhado.” A sua vida irrequieta e tumultuosa, cheia de altos e baixos, tendo por vezes que fugir a credores que o não largavam, ou a perseguidores rácicos, não “deu um livro”, como muitas vezes se afirma, mas vários. Passou por diversas cidades, até chegar a Odessa, onde escreve a obra de que nos ocupamos, passando depois a Kiev, onde assiste aos massacres e às perseguições, tanto de czaristas como dos bolcheviques a caminho do triunfo, o que o levam a emigrar para a América, fixando-se em Nova Iorque, por pouco tempo, voltado pouco depois à Europa, à Alemanha, onde não feliz e apanhou o início da I Guerra Mundial. Regressa novamente à América como fugitivo. A 16 de Maio de 1916 morre pobre, mas deixa uma obra literária de mérito reconhecido, entre contos e peças de teatrro.
“Fiddler on the Roof”, o musical teatral, e depois o filme, descreve-nos o dia-a-dia numa aldeia russa da Ucrânia, Anatevka, onde predomina uma fechada comunidade judaica. Estamos ainda em plena época czarista, mas os tempos anunoiam mudança. Em redor do ano de 1905, esses sinais eram já visíveis. Tevye (Zero Mostel, no teatro; Topol, no cinema), o leiteiro da aldeia, e a sua família (onde abundam fílhas em idade de casar) são o centro sobre o qual irá rodar toda a intriga. O período é de perturbações sociais, com as contínuas ameaças do czarismo aos judeus e, simultaneamente, essa agitação estabelece o confronto e a contradição. Anatevka é delas retrato, desde a exaltação de uma tradição judaica, de características perfeitamente imutáveis, até à descoberta dos sinais de tempos novos que certas figuras prenunciam com a força das suas convicções. A obra irá, portanto, oscilar entre a tradição e a novidade, entre o amor e o ódio, entre o czarismo agonizante e a vontade popular em vertiginosa ascensão. Uma oscilação de extremos que encontrará o seu motivo maior numa raiz rácica, fértil em provocar confrontos.
De todo este clima Tevye é igualmente um bom exemplo. Nas suas longas conversas com Deus, em momento de corte e ruptura numa progressão dramática ditada pela acção (e que propiciam a introdução de alguns “números” musicais), Tevye funciona numa rudimentar dialéctica que se expressa num simples jogo de alternâncias de razões de certo peso (“por um lado, isto”, ... “por outro lado, aquilo”). Será este espírito aberto à dialéctica, ao confronto dos contrários que, apesar de tudo, obrigará Tevye a abandonar o tradicionalismo em que se baseava toda a sua experiência, voltando-se para novas aventuras e esperanças futuras. A maneira como vai encarando o casamento de cada uma das suas três filhas mais velhas é bem exemplo dessa mudança que se vai operando no seu comportamento e modificando a sua mentalidade.
No início da obra, Tevye explica: “Um violino no telhado, porquê? Porque corresponde à nossa maneira de ser. Esta é a nossa terra! Mantêmo-la com a força da nossa tradição. Temos tradições para tudo, para comer, para trabalhar, para vestir, para ter a cabeça coberta. Como começou tudo isto? Não sei. Mas é a tradição.” Há quem diga que o violino é o simbolo da sobrevivência da cultura e do estilo de vida judaicos na Europa de Leste e não se fazem rogados a estabelecer comparações entre este musical e a obra pictórica de outro judeu famoso, Marc Chagall, que também não se cuibia de colocar violinistas em situações de precária estabilidade.

O musical da Broadway estreou em 1964, fez mais de 3.000 representações pela primeira na história do género. Joseph Stein e Jerome Kobbins (este na adaptação e coreografia) foram os principais responsáveis do êxito no teatro, bem assim como o autor da musica, Jerry Bock. A sua estreia na Broadway foi coroada com a nomeação para dez Tony Awards, de que venceu nove, incluindo Melhor Musical do ano, Melhor Partitura, Melhor Libreto, Melhor Encenação e Melhor Coreografia. Depois foi reposto por quatro vezes e, em 1971, passou ao cinema. Para esta versão cinematográfica seria chamado, Norman Jewison, um cineasta irregular, mas que assinou alguns títulos particularmente interessantes, que se encarregaria da encomenda com certo apuro técnico e algum brilhantismo espectacular.
De um ponto de vista musical o filme tem duas ou três sequências bastante boas, sobretudo na primeira parte, nomeadamente os já famosos “Tradition” “If I Were a Rich Man” (onde a presença de Topol, que terá sido a grande revelação desta obra, é verdadeiramente notável, de força, de segurança, de nervo e ritmo). A coreografia de Jerome Robbins (o mesmo de “West Side Story”) é, ela também, tumultuosa, agressiva e vigorosa, sobretudo nos bailados com grande número de intervenientes (cenas na taberna, o casamento de uma das filhas de Tevye, todo o falso sonho de Tevye, conquanto que este seja de um gosto um tanto ou quanto duvidoso). De qualquer forma é possível verificar-se um estilo Jerome Robbins, bastando para isso comparar alguns bailados de “West Side Story” com outros deste “Fiddler on the Roof”.
O trabalho de Norman Jewisson é, por seu turno, bastante cuidado, criando um clima de certo lirismo. Aqui e ali alguns efeitos menos discretos, ou mais discutíveis (uma ou outra sobreposição rebuscada, sobretudo uma sequência, quase no final da película, com um bailado a dois, em silhueta, que nos parece de grande facilidade formal), poderão ter retirado uma maior coerência, mas no seu todo, o filme mantém um nível bastante aceitável, sendo de realçar o trabalho dos actores, particularmente o de Topol, como jâ assinalámos atrás.
No ano da sua estreia (1971), “Um Violino no Telhado” demonstrou ser uma certa revitalização do “musical”, uma apetência pela renovação no ínterior de um género então já em crise, que daí em diante não deixou de se agravar, apesar do aparecimento de meia dúzia de títulos que, de hora em vez, voltam a agitar o marasmo.
Na cerimónia de atribuição dos Oscars do ano, o filme teve comportamento meritório: venceu nas categorias de Melhor Fotografia, Melhor Som, Melhor Direcção Artística e Melhor Banda Sonora Adaptada, não transformando em estatuetas as nomeações para Melhor Filme, Melhor Actor e Melhor Actor Secundário.

(*) Texto que apareceu no programa do espectáculo de La Féria no Teatro Rivoli no Porto. No Teatro Politeama volta a aprecer um excerto deste texto.

UM VIOLINO NO TELHADO
Título original: Fiddler on the Roof
Realização: Norman Jewison (EUA, 1971); Argumento: Joseph Stein, segundo obras de Sholom Aleichem (romance "Tevye's Daughters e a peça "Tevye der Milkhiker""); Música: Jerry Bock; Fotografia (cor): Oswald Morris; Montagem: Antony Gibbs, Robert Lawrence; Casting: Lynn Stalmaster; Design de produção: Robert F. Boyle; Direcção artística: Michael Stringer, Veljko Despotovic; Decoração: Peter Lamont; Guarda-roupa: Joan Bridge, Elizabeth Haffenden; Maquilhagem: Del Armstrong, Gordon Bond, Wally Schneiderman; Direcção de produção: Richard Carruth, Larry DeWaay, Ted Lloyd; Assistentes de realização: Terence Churcher, Paul Ibbetson, Terence Nelson, Vladimir Spindler, Stevo Petrovic; Departamento de arte: Sam Gordon, William Maldonado, Mentor Huebner, Harold Michelson; Som: David Hildyard, Gordon K. McCallum, Les Wiggins; Produção:Norman Jewison, Patrick J. Palmer; Companhias de produção: Cartier Productions, The Mirisch Corporation. Intérpretes: Topol (Tevye), Norma Crane (Golde), Leonard Frey (Motel Kamzoil), Molly Picon (Yente), Paul Mann (Lazar Wolf ), Rosalind Harris (Tzeitel), Michele Marsh (Hodel), Neva Small (Chava), Paul Michael Glaser (Perchik), Ray Lovelock (Fyedka), Elaine Edwards (Shprintze), Candy Bonstein (Bielke), Shimen Ruskin, Zvee Scooler, Louis Zorich, Alfie Scopp, Howard Goorney, Barry Dennen, Vernon Dobtcheff, Ruth Madoc, Patience Collier, Tutte Lemkow, Stella Courtney, Jacob Kalich, Brian Coburn, George Little, Stanley Fleet, Arnold Diamond, Marika Rivera, Mark Malicz, Aharon Ipalé, Roger Lloyd-Pack, Vladimir Medar, Sammy Bayes, Larry Bianco, Walter Cartier, Peter Johnston, Guy Lutman, Donald Maclennan, René Sartoris, Roy Durbin, Ken Robson, Robert Stevenson, Lou Zamprogna, Susan Claire, Nigel Kingsley, Joel Rudnick, Petra Siniawski, Susan Sloman, Kenneth Waller, etc. Duração: 181 minutos; Distribuição do filme: Rank Filmes; Distribuição do DVD: Metro Goldwing Mayer; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia: 3 de Novembro de 1971 (EUA); Locais de filmagem: Gorica, Croácia.

Notas publicadas neste blogue em 12/14/2008

sexta-feira, outubro 29, 2010

CINE ECO 2010

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algumas presenças do Cine Eco 2010.