sexta-feira, janeiro 09, 2009

LIVROS: O HÓSPEDE




O HÓSPEDE

Numa Londres vitoriana, envolvida pelo nevoeiro e pelo mistério, lá fora acontecem os crimes sangrentos de Jack, o Estripador, que assinava os seus loucos e sádicos esventramentos de prostitutas e alcoólicas com a sinistra designação de “O Vingador”, enquanto dentro daquela pobre casa vivia um casal de criados aposentados, que havia aceite um hóspede. Um estranho inquilino, na verdade. Este o ponto de partida de "O Hóspede" de Marie Belloc Lowndes (ed. Quidnovi, 2008).
Mr. e Mrs. Bunting tinham dificuldades na vida até à chegada de Mr. Sleuth, um bem apessoado gentleman, que só lê a Bíblia, vive retirado no seu quarto durante o dia, e dá problemáticas e intrigantes escapadas durante a noite. As libras começam a correr naquela casa, enquanto nas ruas pobres e mal iluminadas de Londres corre o sangue. A esmerada educação e placidez de que dá sobejas provas Mr. Sleuth, ao mesmo tempo que o tornam simpático, fazem dele uma personagem assustadora, sobretudo sabendo-se que, lá fora, na noite, os surtos de um cavalheiro bem vestido, com uma mala ou um embrulho na mão, não dão tréguas a mulheres perdidas que se encontram barbaramente assassinadas pelas vielas e becos mais desertos.
Ellen Bunting, que de parva não tem nada, mas viu entrar pela porta dentro uma mina de libras e não a quer delapidar, pressente o perigo, mas acha que denunciar não é da sua competência. Vai de íntima desculpa em secreta desculpa, até a realidade se afirmar na sua frente. Numa altura em que Daisy, a filha de um antigo casamento de Mr. Bunting se instala lá em casa e anuncia noivado com o detective Joe, da Scotland Yard, que não deixa de visitar a casa sob qualquer pretexto, sem no entanto farejar nada de estranho. Tudo tão obvio e afinal tão longe de o ser.
Entretanto lá fora, pela manhã, ou ao cair da noite, as noticias dos jornais sensacionalistas, não deixam de atordoar a cabeça do velho casal, com a progressão imparável de novos crimes gritados a plenos pulmões. Entre a pacifica existência do “dentro de casa”, e a assustadora realidade do “lá fora”, se prolonga a escrita engenhosa na sua estrutura dramática, elegante, precisa, envolvente, misteriosa de Marie Belloc Lowndes, uma escritora inglesa de policiais (e outros romances mais) que Portugal não conhecia (apesar de muita da sua família viver em Portugal) e que a editora Quidnovi agora lançou (em boa hora). Trata-se de um belíssimo policial, que está na origem de diversas adaptações cinematográficas (entre as quais uma de Alfred Hitchcock, de 1927, “The Lodger, a Story of the London Fog”, que quero agora muito rever, bem como algumas outras versões de que mais tarde darei conta).

terça-feira, janeiro 06, 2009

PRÓXIMO VAVADIANDO

28 º J A N T A R D A T E R T Ú L I A
V Á .V Á . D I A N D O
22.JANEIRO.2009 + 20,00 horas

VAMOS FALAR DE MÚSICA
CONVIDADO:
ANTÓNIO VICTORINO D’ ALMEIDA
(NOME MAIOR DA MÚSICA PORTUGUESA CONTEMPORÂNEA,
ESTARÁ NO CENTRO DE MAIS UM DEBATE, NUMA
ESTIMULANTE CONVERSA À RODA DA MESA)

Depois de RAÚL SOLNADO, FERNANDO DACOSTA, NUNO JÚDICE, TEOLINDA GERSÃO, IVA DELGADO, LÍDIA JORGE, MARIA DO CÉU GUERRA, EURICO GONÇALVES, PAULO PORTAS, LAURO ANTÓNIO, ROGÉRIO SAMORA, CARLOS DO CARMO, CELINA PEREIRA, OTELO SARAIVA DE CARVALHO, MARCELO REBELO DE SOUSA, IRENE PIMENTEL, PADRE FEYTOR PINTO, FERNANDO ROSAS, BÁRBARA GUIMARÃES, NICOLAU BREYNER, GONÇALO RIBEIRO TELLES, FRANCISCO MOITA FLORES, BAPTISTA BASTOS, ALICE VIEIRA, SÃO JOSÉ LAPA, INÊS LAPA LOPES CONTINUAM OS NOSSOS ENCONTROS, MANTENDO UMA TRADIÇÃO DE TERTÚLIA DO CAFÉ-RESTAURANTE VÁVÁ.

ENTRADA: 17,5 EUROS POR PESSOA. COM DIREITO A ENTRADAS, SOPA, UM PRATO DO DIA, PEIXE OU CARNE, SOBREMESA, BEBIDA (VINHO É O DA CASA!) E CAFÉ. EXTRAS POR CONTA DO FREGUÊS.


[ LOTAÇÃO LIMITADA A 50 CADEIRAS. ACEITAM-SE INSCRIÇÕES NO BALCÃO DO VÁVÁ. ]
PRÓXIMO CONVIDADO: JOSÉ MANUEL ANES (Fevereiro de 2009)
Para informações e marcações de lugares:
LAURO ANTÓNIO - Blogue Va.Va.diando (http://vava-diando.blogspot.com/]
[mail: laproducine@gmail.com]
RESTAURANTE - CAFÉ VÁVÁ AV. EUA, Nº 100 - 1700-179 – LISBOA (TELF 21.7966761).
VÁ.VÁ.DIANDO
ANTÓNIO VICTORINO D’ ALMEIDA

Figura bem conhecida no panorama cultural português, António Vitorino d' Almeida é considerado "o homem dos sete instrumentos". Se é verdade que o talento deste comunicador sempre foi uma certeza nos campos da música e composição, não é menos verdade que demonstra excelentes capacidades ao aventurar-se pelos terrenos da televisão, do cinema, do teatro, da escrita, não esquecendo a rápida incursão que fez no mundo da política/diplomacia. António Vitorino d' Almeida é um comunicador nato, capaz de cativar todo o tipo de públicos com a inteligência das suas palavras e a sua simpatia. Cultiva alguma excentricidade, visível na bengala e nos cabelos em desalinho, traços que sublinham o seu espírito crítico desconcertante.
António Victorino Goulart de Medeiros e Almeida
é uma das figuras mais populares da música e da televisão portuguesas.

Nascido em Lisboa a 21 de Maio de 1940, Victorino d' Almeida foi profundamente marcado pelas referências culturais que o ambiente familiar lhe proporcionou: O seu avô paterno, Achilles d'Almeida, era músico amador, poeta, autor e encenador de peças de teatro e Maria Amélia Goulart de Medeiros, de origem açoriana, mãe do Maestro, iniciou uma curta carreira de cantora lírica. Sua sogra, Odete Saint-Maurice (primeiro casamento com Maria Armanda, mâe de Inês e Maria de Medeiros), Odete Saint-Maurice, foi escritora. Seu pai, o advogado Victorino d'Almeida,
filho único, a desenvolver o gosto pela música.
Com tantos ascendentes artísticos, o jovem António começou desde muito cedo a aprender música. Aos cinco anos compôs a primeira obra, mas apesar de ter sido considerado menino-prodígio, teve uma infância «normal». Com sete anos deu a primeira audição e interpretou obras de Mozart e Beethoven, para além de duas peças de sua autoria. Uma crítica da época, no Século Ilustrado, baptiza o pequeno prodígio de "Antonito" e considera "maravilhoso o seu poder de interpretação".
Victorino d' Ameida frequentou o liceu em simultaneidade com o Curso Superior de Piano no Conservatónio Nacional de Lisboa.Campos Coelho terá sido o professor de música que mais o influenciou. Concluiu o curso com 19 valores e obteve uma bolsa de estudo do Instituto de Alta Cultura para estudar composição em Viena de Áustria, na Academia de Música. Foi aluno do professor austríaco Karl Schiske, e concluiu esta post-graduação com a mais alta classificação dada por aquela escola: a distinção por unanimidade do júri e consequente prémio especial do Ministério da Cultura da Áustria. Fixou residência em Viena, onde viveu durante duas décadas,
sem contudo deixar de fazer visitas regulares ao seu país.
Durante sete anos (1974-1981), foi adido cultural da Embaixada Portuguesa em Viena, cargo que lhe valeu uma condecoração atribuída pelo Presidente da República da Áustria. Em 1989 decide entrar na arena política nacional e apresenta a sua candidatura ao Parlamento Europeu como cabeça de lista pelo MPD/CDE, vaga que não chegou a preencher. Victorino d' Almeida leccionou ainda cursos de musicologia
na Universidade do Porto e em Tavira.
A sua carreira como concertista entrou algumas vezes em conflito com a actividade de composição e ambas sofrem da dispersão por áreas aparentemente tão distintas como o cinema, a televisão, a escrita e a rádio. Apesar de ter sempre o tempo muito ocupado, António Victorino d' Almeida privilegia sempre a música, pois considera ser essencialmente um compositor e argumenta que a música é o elo de ligação
que dá consistência a tudo o que faz.
A sua obra é muito vasta e abrange os mais variados géneros musicais, desde a ópera, à música sinfónica, de câmara, à música para cinema, teatro e fado.
Maria de Medeiros e Inês de Medeiros são filhas do Maestro António Victorino d' Almeida. Inês estreou-se com dez anos no filme que o pai realizou. Maria e Inês de Medeiros, as filhas mais velhas, são já actrizes reconhecidas internacionalmente e a mais nova, Ana Victorino d' Almeida, decidiu seguir a carreira do pai no campo da música.
Editou recentemente uma monumental obra em dois volumes, "Toda a Musica que eu Conheço", Oficina do Livro, 2008.
Biografia retirada de CITI, Centro de Investigação da Universidade Nova de Lisboa, e rectificada nalguns pontos.

segunda-feira, janeiro 05, 2009

GRANDE CONCERTO DE ANO NOVO

GRANDE GALA STRAUSS
Acabei de ser dirigido pelo maestro búlgaro Dimitar Panov no encerramento do “Grande Concerto de Ano Novo”, dedicado a “Johann Strauss”, no Coliseu dos Recreios. No dia um deste mês tinha assistido, via RTP, a um outro “Concerto de Ano Novo” ou “Grande Gala Srauss”, este “comme il faut”, com tudo “en su sitio”, isto é em Viena de Áustria, com músicos e bailarinos de primeira escolha. Os de Lisboa não eram maus, vêm daquela tradição de eficazes funcionários públicos das ex-democracias de Leste, tocam bem mas não encantam, têm a lição bem aprendida mas falta-lhes alma. A Strauss Festival Orchestra tocou o reportório habitual, esse mesmo a que íamos, Tatsiana Piatrova, soprano, destacou-se pela bela voz nalgumas áreas, e o Strauss Festival Ballet Ensemble enfeitou o conjunto com a elegância das meninas e alguma falta de jeito dos meninos. O Coliseu dos Recreios tinha meia plateia cheia e o resto às moscas, e, no final, quando o maestro deu ordem para se atacar a “Marcha Rdetzky”, lá vieram as palmas do público. Dimitar Panov acenou para nós, e, única excitação extra, nós acompanhámos ao ritmo. Foi assim que acabei de ser dirigido pelo maestro búlgaro Dimitar Panov. No Coliseu dos Recreios. Neste caso o nome está muito bem atribuído: dos recreios. Foi o que aconteceu: um recreio de início de ano para exorcizar os demónios que dizem que podem vir aí.

domingo, janeiro 04, 2009

SETÚBAL, 3 DE JANEIRO DE 2009

DO TRABALHO E DOS DIAS,
DO LAZER E DA AMIZADE
Se há coisas boas na vida, uma delas é viajar com amigos, almoçar com amigos uma dourada de mar, divina, num restaurante de Setúbal, regatear e comprar depois um par de estatuetas negras da Nigéria, enquanto se espera pela aludida dourada, beber um bom café e fumar uma cigarrilha, com amigos, numa esplanada a cheirar a mar ao fundo, mesmo num dia de Inverno, com a chuva a ameaçar entrar por entre as ligações dos toldos. Se há coisas boas na vida é visitar, pela tardinha, com amigos, um museu, dirigido carinhosamente por mão fraterna, que reúne peças do trabalho árduo e quotidiano da faina da pesca e da conserva de peixe (falo do Museu do Trabalho, em Setúbal) e reviver dramas profundos e alegrias breves de esforçados trabalhadores que deram suor e arte a troco de parcas lentilhas. Coisa boa não é certamente recordar os dramas e as tragédias, mas já o será saber que elas não caíram de todo no esquecimento e ali estão para serem meditadas no presente e no futuro, a fim de impedir, se possível, outros tantos dramas e tragédias e prolongar as alegrias breves de quem trabalha. Foi esta a visita que se fez, acompanhados pela voz de quem sabe explicar que aquele edifício era a antiga fábrica de conserva de peixe da família francesa Perienes, como foi recuperado e lançado museu, de como se recolheu uma parte do espólio de Michel Giacometti (ao encontro do povo, no mundo rural), de como se acomodou centenas de peças e registos sobre o universo da pesca e da conserva de peixe, de como se transladou para o interior das suas instalações todo o recheio da fabulosa Mercearia Liberdade (que existia na Av. da Liberdade e foi parar a Setúbal com armas e bagagens, com um efeito de mágico resgate que assombra). No museu ainda se pôde ver, guiados pelos olhos do autor, uma exposição temporária de João Concha sobre as suas cada vez mais célebres Alices. Sempre rodeado de amigos. E com amigos se terminou a tarde, num espaço muito agradável, “Três quinze Dias”, bebendo um chá ou um chocolate, servidos por uma simpática ucraniana, reencontrando a Célia David, protagonista de uma peça minha que encenei há anos no TAS, antes de com amigos se regressar a Lisboa, já a combinar nova viagem, possível ou impossível, a Braga, por exemplo. Pelo meio ficam os sorrisos que não se descrevem, os cheiros que perduram no ar da cidade, a neblina do porto, a auto-estrada e a ponte. E como Setúbal foi generosa até ao fim, no desfecho da noite, já em casa, regressei à cidade do Sado para ver, na tv, o Sporting ganhar. Passado este embate desejo ao Vitória que ganhe todos os encontros até jogar em Alvalade.
Os amigos desta tarde memorável foram a Eduarda e o Frederico (que são mais do que amigos), a Isabel MF e a Rosário, a Isabel (directora) Victor e o Pedro, e o Pires F, e a Sónia e o João (Alice) Concha. É bom ter amigos como vocês. Verdadeiros “bandidos” no tráfico de beijos e abraços.

fotos (2) de MEC e as restantes do autor

sexta-feira, janeiro 02, 2009

CINEMA: AUSTRÁLIA

AUSTRÁLIA
Baz Luhrmann não tem sorte com a maioria dos críticos encartados. Quando os seus filmes se estreiam, por exemplo em Portugal, as primeiras opiniões são francamente desfavoráveis, depois com o passar do tempo e com as opiniões do comum dos espectadores que transformam os seus filmes em obras de culto, muitos dão a mão à palmatória, dão o dito por não dito, e aclamam os lançamentos em DVD, e outras coisas tais. Aconteceu em “Romeo + Julieta”, aconteceu de forma dramática com essa obra-prima chamada “Moulin Rouge”, volta a acontecer agora com este belíssimo e sumptuoso épico melodramático erigido em louvor da sua terra natal, “Austrália”
Como já perceberam, gosto muito do filme, ainda que não o considere uma obra-prima (mas que importa isso? que importa se um filme não é perfeito, quando nos sentimos tão bem na sua companhia?). Ora já convém saber o que me leva a gostar do filme, porque gostar só por gostar não interessa muito (a não ser numa perspectiva pessoal).
Vamos ver se consigo colocar aqui as principais razões. A primeira, porque se trata de um filme que gosta de contar histórias, que vive de contar histórias, o que se percebe logo desde o inicio quando uma criança aborígene australiana explica o que o mágico seu avô lhe confessou: “O mais importante do mundo é contar histórias”, porque ao contar histórias estamos a perpetuar a nossa História. Esta perspectiva de “contar histórias”, que começou por ser oral, passou à escrita e ao papel, e agora progride nas imagens e nos sons, é algo de fabuloso que urge preservar. “Contar histórias” pode ser tanta coisa, mas é sobretudo dialogar, ofertar saber, imaginação, e transformar o homem num ser “culto”. A cultura alimenta-se de histórias. Um filme que gosta de personagens que contam histórias é um filme que gosta de contar histórias, para um público que goste de ouvir histórias. Agrada-me. A seguir vem a história que Baz Luhrmann quer contar, o que pode ser observado sob vários pontos de vista. Mas há um que sobressai sobre todos os outros: Baz Luhrmann é australiano e ama a sua terra, a cor da paisagem, o pó dessa terra vermelha, ensanguentada, os pores-do-sol, a água que jorra em cascatas infinitas, as montanhas rasgadas a pique sobre desfiladeiros ou planícies, ama as vacas e os cavalos selvagens, ama a vida livre e selvagem, ama os mágicos que se sustentam do alto das montanhas só sobre um pé, ama as crianças que acreditam nos poderes sobrenaturais, ama os actores e os técnicos do seu país (o filme é quase integralmente criado por um elenco e uma equipa técnica australiana) e consegue transmitir-nos esse enorme amor a uma terra, uma cultura, uma história, uma realidade presente (que se torna “presente” através de uma história do passado recente). Fá-lo não de forma pretensiosa, mas com uma sinceridade que surpreende. Nada no filme soa a falso, nada faz lembrar um frete de encomenda (apesar do governo da Austrália, ao que se sabe, ter subsidiado em grande o filme, para fazer dele um cartão de visitas condigno). É, pois, uma parte da história da Austrália que Baz Luhrmann quer contar, ou, como confessou numa entrevista, “explicar aos filhos porque eles se devem orgulhar da sua terra.” Aos seus filhos e aos filhos de todo o mundo que olham esta gesta e se devem sentir ufanos não só de serem australianos, mas humanos. Porque esta é também uma história sobre a grandeza do homem. De um homem que para ser grande tem de ultrapassar barreiras ignóbeis criadas pelo próprio homem. Essa é já uma outra parte da história.
Estamos em 1939, a Alemanha nazi invadiu a Polónia e “O Feiticeiro de Oz” estreia-se nos cinemas, com Judy Garland a cantar “Over de Rainbow”. Sarah Ashley (Nicole Kidman), uma aristocrata inglesa, cujo marido se encontra na Austrália, criando gado e preparando-se para o vender ao exército, resolve viajar até Darwin, a cidade mais próxima de “Faraway Downs”, uma quinta de criação de cavalos e vacas, com terras a perder de vista, no norte do continente. Não é o marido que a recebe, mas o condutor de gado, Drover (Hugh Jackman). Sarah e Drover não simpatizam desde logo um com o outro, Sarah vem para esta terra inóspita carregada de malas, de preconceitos e de ideias estabelecidas (julga que o marido a trocou por alguma aborígene), mas lentamente descobre várias realidades encobertas, a primeira das quais que o senhor Ashley acabara de ser assassinado, que ela se encontra viúva numa terra estranha, que dirigir “Faraway Downs” vai ser matéria dura de roer, que existe nessa fazenda um miúdo, Nullah (Brandon Walters), órfão, que “não é preto nem branco” e foge das autoridades que o querem aprisionar e tornar escravo, por quem se vai tomar de amores. Escusado será dizer que por outros amores se tomará pelo condutor de gado. Mas antes há que referir a existência de um cruel e desapiedado administrador da quinta, Neil Fletcher (David Wenham) e o tenebroso latifundiário e proprietário de gado, King Carney (Bryan Brown), que não quer concorrentes neste campo e tudo faz para afastar Sarah e “Faraway Downs” do seu caminho. Mas quanto mais a enxotam, mais Sarah parece interessada em levar a sua avante, ou não fosse ela uma continuação das mulher abnegadas e de rija temperada que têm em Scarlett O’Hara modelo, tal como “Austrália” tem como paradigma “E Tudo o Vento Levou” (para lá de outras epopeias de um David Lean, por exemplo), e “Faraway Downs” recorda “Tara”. As semelhanças vão mais longe. Vejam-se as heroínas: uma sai da Irlanda para a América, jovem nação, que entra numa guerra de Norte contra o Sul, de irmãos contra irmãos; a outra viaja de Inglaterra, rumo à Austrália, onde vai descobrir igualmente os horrores de uma guerra devastadora, a II Guerra Mundial, com os japoneses a bombardearem e invadirem a Austrália, entrando por Darwin, que destroem por completo. Uma mulher “de rendas”, vinda do velho continente, que surpreende dentro de si as forças necessárias para levar a sua tarefa até ao fim, um condutor de gado que não aceita amarras nem conluios, uma criança que gosta de ouvir histórias, e à volta de tudo isto, exploradores de gado gananciosos, assassinos a soldo, padres vendidos, missões transformadas em bases de recrutamento de mão de obra escrava, preconceitos de raça, de sexo e de casta financeira, brancos, pretos e nem uma coisa nem outra, aborígenes que lentamente foram sendo dizimados, e a II Guerra Mundial a estoirar no centro das suas vidas. Uma história e tanto!
Mas o mais curioso é que Baz Luhrmann não pega na história de uma forma realista. Nada disso ou não fosse ele o autor de “Romeo + Julieta” e de “Moulin Rouge”. O que faz é precisamente recolher os estereótipos destas histórias melodramáticas e coser um puzzle onde tudo se apresenta conforme a convenção, para depois se reconduzir ao seu lugar mais realista. A inglesa (num novo continente) surge em Darwin carregada de malas azuis, de roupa interior rendada, de saltos altos, tremelicando ao andar nas ruas de terra batida, tal como a lenda diria que o que fora, assim acontecera. O “condutor de gado” anda à zaragata num bar como nos bons velhos tempos do Oeste, sozinho contra todos e acabando por vencer. O miúdo é salvo de ser espezinhado por uma manada de mil e quinhentas vacas por acção mágica. E, no entanto, pelo poder de contar uma história, ali estamos nós, comovidos e absortos, a rir intimamente com os estereótipos e a chorar por fora, que bem se ouviam os soluços na sala e os lenços amarfanhados nas mãos. Romântico até dizer chega (o par em contraluz numa baía de sonho, à noite, com as luzes da cidade a reflectirem-se na água), melodramático até às lágrimas (o reencontro final não deixa ninguém indiferente), bem intencionado até à medula (com a defesa dos fracos e dos oprimidos, dos negros e dos aborígenes, das mulheres e das crianças, e da liberdade do mundo), “Austrália” consegue ser tudo isso de uma forma tão galvanizante que, partindo da mentira do espectáculo que todos descobrem ser falso, acaba por atingir a verdade. A verdade dos travellings de Baz Luhrmann sobrevoando aquela terra mágica com uma beleza selvagem e pura. A verdade de um elenco extremamente bem dirigido, onde os momentos míticos, na linha do mais puro cinema clássico americano, surgem fulgurantes (deixemos de lado a presença de Nicole Kidman, que já conhecemos, e que se mantém igual a si própria, ou seja excelente sob todos os pontos de vista, e atentemos nas “aparições” do novo sex symbol do cinema, Hugh Jackman, que são escolhidas a preceito: toma banho para valorizar o tronco, numa cena certamente das mais épicas para o público feminino – e algum masculino; surge de súbito no cimo de uma escadaria, em impoluto fato branco, deslumbrando pelo inesperado; embrenhar-se nalguns dos beijos mais sensuais do cinema dos últimos anos; etc.). Depois temos a referência constante a “O Feiticeiro de Oz”, ao seu universo mágico, e ao prazer inesquecível de “regressar a casa”, depois da aventura e da tormenta. Todos, no filme, regressam a casa, a essa Austrália que os viu nascer e que os lançou no cinema mundial. Agora regressam agradecidos.
Talvez um pouco excessivamente longo, talvez um pouco desequilibrado, talvez um pouco … sei lá, não é uma obra-prima perfeita, mas é um daqueles filmes que dá um prazer danado ver. Por isso o cinema é grande.
AUSTRÁLIA
Título original: Australia
Director: Baz Luhrmann (Austrália, EUA, 2008); Argumento: Baz Luhrmann, Stuart Beattie, Ronald Harwood, Richard Flanagan; Produção: G. Mac Brown, Catherine Knapman, Baz Luhrmann, Catherine Martin, Paul 'Dubsy' Watters; Música: David Hirschfelder; Fotografia (cor): Mandy Walker; Montagem: Dody Dorn, Michael McCusker; Casting: Nikki Barrett, Ronna Kress; Design de produção: Catherine Martin; Direcção artística: Ian Gracie, Karen Murphy; Decoração: Beverley Dunn; Garda-roupa: Catherine Martin; Maquilhage: Simone Wajon, Kerry Warn; Direcção de produção: Aaron Downing, Simon Lucas; Assistentes de realização: Danielle Blake, Jeremy Grogan, Bruce Hunt, Jennifer Leacey, Scott Lovelock, Guy Norris, Simon Warnock; Departamento de arte: Kristen Anderson, Colette Birrell, Simon Elsley, Jenny Hitchcock; Som: Wayne Pashley; Efeitos especiais: Brian Cox, Thomas Van Koeverden; Efeitos visuais: Myles Asseter, Viv Baker, David Booth, Chris Godfrey, Danny Huerta, Gemma James, Chad Malbon, James E. Price, Peter Webb; Animação (cena de cangurus): Gerard Van Ommen Kloeke; Companhias de produção: Bazmark Films, Twentieth Century-Fox Film Corporation.
Intérpretes: Nicole Kidman (Lady Sarah Ashley), Hugh Jackman (Drover), Bryan Brown (King Carney), Brandon Walters (Nullah), Ray Barrett (Bull), David Wenham (Neil Fletcher), Ben Mendelsohn (Capitão Dutton), Sandy Gore (Gloria Carney), Jacek Koman (Ivan), Essie Davis (Cath Carney), Tony Barry, Tara Carpenter, Rebecca Chatfield, Lillian Crombie, Max Cullen, Arthur Dignam, Michelle Dyzla, Haidee Gaudry, Terence Gregory, David Gulpilil, Jamie Gulpilil, Peter Gwynne, Sean Hall, Joy Hilditch, Matthew Hills, Jimmy Hong, Bill Hunter, Jarwyn Irvin-Collins, Robert Jago, John Jarratt, Eugene Kang, Crusoe Kurddal, Liam Lannigan, Siena Larsson, Cody Lea, Jack Leech, Charles Leung, Jacob Linger, Mark Malabirr, John Martin, Logan Mattingley, Adam McMongial, Dylan Minggun, Phillippe Moon, Nyalik Munungurr, Patrick Mylott, David Ngoombujarra, Barry Otto, Angus Pilakui, Robin Queree, Mark Rathbone, Garry Scott, John Sheerin, Bruce Spence, Jack Thompson, Wah Yuen, Kerry Walker, Elaine Walker, Matthew Whittet, Ursula Yovich, Anthony Cogin, Anton Monsted, etc.
Duração: 165 minutos; Distribuição em Portugal: Filmes Castello Lopes; Classificação etária: M /12 anos; Estreia em Portugal: 25 de Dezembro de 2008 (Portugal).
Baz Luhrmann

quinta-feira, janeiro 01, 2009

O ÚLTIMO ROMANCE DE 2008

A VIAGEM DO ELEFANTE
Já o disse por diversas vezes: Saramago não é autor cuja escrita me toque particularmente. Pois bem, acabei de ler “A Viagem do Elefante” e gostei muito. Trata-se de um romance muito bem construindo, com uma escrita desenvolta, elegante, divertida, mesclando realidade histórica e imaginação ficcionista com uma liberdade e habilidade notáveis. A base é, como se sabe, real: no século XVI, o nosso rei D. João III, querendo impressionar a Europa do seu tempo e em particular o seu primo, genro do imperador Carlos V, o arquiduque Maximiliano da Áustria, envia a este, em caravana, por terra, o presente mais exótico que imaginar se poderia por essa altura, Salomão, um elefante indiano que viajara de Goa, na Índia, dois anos atrás, e se encontrava em Belém. O romance acompanha o itinerário do elefante e do seu tratador, o cornaca Subhro (depois chamado Fritz, por vontade do arquiduque) de Lisboa a Valladolid, onde se encontravam, de férias, o arquiduque e a sua mulher, Maria. E depois, atravessando os Alpes, em pleno Inverno, de Espanha até Viena de Áustria, passando por Itália.
O livro abre com uma citação do “Livro dos Itinerários”: “Sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam”, citação sobre que se baseará a metáfora de toda a obra. Mas o que costuma ser por vezes pesadamente demagógico em Saramago é aqui aberto e saudavelmente livre, arejado por um humor comunicativo e uma ironia fina. Boa surpresa e seguramente um dos melhores trabalhos do nosso Prémio Nobel, que nem parece ter sido escrito em condições desvantajosas, com a doença a rondar.
E assim escreve José Saramago, lá pelos meios do romance:

“Não há vento, porém a névoa parece mover-se em lentos turbilhões como se o próprio bóreas, em pessoa, a estivesse soprando desde o mais recôndito norte e dos gelos eternos. O que não está bem, confessemo-lo, é que, em situação tão delicada como esta, alguém se tenha posto aqui a puxar o lustro à prosa para sacar alguns reflexos poéticos sem pinta de originalidade. A esta hora os companheiros da caravana já deram com certeza pela falta do ausente, dois deles declararam-se voluntários para voltar atrás e salvar o desditoso náufrago, e isso seria muito de agradecer se não fosse a fama de poltrão que o iria acompanhar para o resto da vida, Imaginem, diria a voz pública, o tipo ali sentado, à espera de que aparecesse alguém a salvá-lo, há gente que não tem vergonha nenhuma. É verdade que tinha estado sentado, mas agora já se levantou e deu corajosamente o primeiro passo, a perna direita adiante, para esconjurar os malefícios do destino e dos seus poderosos aliados, a sorte e o acaso, a perna esquerda de repente duvidosa, e o caso não era para menos, pois o chão deixara de poder ver-se, como se uma nova maré de nevoeiro tivesse começado a subir. Ao terceiro passo já não consegue nem sequer ver as suas próprias mãos estendidas à frente, como para proteger o nariz do choque contra uma porta inesperada. Foi então que uma outra ideia se lhe apresentou, a de que o caminho fizesse curvas para um lado ou para o outro, e que o rumo que tomara, uma linha que não queria apenas ser recta, uma linha que queria também manter-se constante nessa direcção, acabasse por conduzi-lo a páramos onde a perdição do seu ser, tanto da alma como do corpo, estaria assegurada, neste último caso com consequências imediatas. E tudo isto, ó sorte mofina, sem um cão para lhe enxugar as lágrimas quando o grande momento chegasse. Ainda pensou em voltar para trás, pedir abrigo na aldeia até que o banco de nevoeiro se desfizesse por si mesmo, mas, perdido o sentido de orientação, confundidos os pontos cardeais como se estivesse num qualquer espaço exterior de que nada soubesse, não achou melhor resposta que sentar-se outra vez no chão e esperar que o destino, a casualidade, a sorte, qualquer deles ou todos juntos, trouxessem os abnegados voluntários ao minúsculo palmo de terra em que se encontrava, como uma ilha no mar oceano, sem comunicações. Com mais propriedade, uma agulha em palheiro. Ao cabo de três minutos, dormia. Estranho animal é este bicho homem, tão capaz de tremendas insónias por causa de uma insignificância como de dormir à perna solta na véspera da batalha. Assim sucedeu. Ferrou no sono, e é de crer que ainda hoje estaria a dormir se salomão não tivesse soltado, de repente, em qualquer parte do nevoeiro, um barrito atroador cujos ecos deveriam ter chegado às distantes margens do ganges. Aturdido pelo brusco despertar, não conseguiu discernir em que direcção poderia estar o emissor sonoro que decidira salvá-lo de um enregelamento fatal, ou pior ainda, de ser devorado pelos lobos, porque isto é terra de lobos, e um homem sozinho e desarmado não tem salvação ante uma alcateia ou um simples exemplar da espécie. A segunda chamada de salomão foi mais potente ainda que a primeira, começou por uma espécie de gorgolejo surdo nos abismos da garganta, como um rufar de tambores, a que imediatamente se sucedeu o clangor sincopado que forma o grito deste animal. O homem já vai atravessando a bruma como um cavaleiro disparado à carga, de lança em riste, enquanto mentalmente implora, Outra vez, salomão, por favor, outra vez. E salomão fez-lhe a vontade, soltou novo barrito, menos forte, como de simples confirmação, porque o náufrago que era já deixara de o ser, já vem chegando, aqui está o carro da intendência da cavalaria, não se lhe podem distinguir os pormenores porque as coisas e as pessoas são como borrões indistintos, outra ideia se nos ocorreu agora, bastante mais incómoda, suponhamos que este nevoeiro é dos que corroem as peles, a da gente, a dos cavalos, a do próprio elefante, apesar de grossa, que não há tigre que lhe meta o dente, os nevoeiros não são todos iguais, um dia se gritará gás, e ai de quem não levar na cabeça uma celada bem ajustada. A um soldado que passa, levando o cavalo pela reata, o náufrago pergunta-lhe se os voluntários já regressaram da missão de salvamento e resgate, e ele respondeu à interpelação com um olhar desconfiado, como se estivesse diante de um provocador, que havê-los já os havia em abundância no século dezasseis, basta consultar os arquivos da inquisição, e responde, secamente, Onde é que você foi buscar essas fantasias, aqui não houve nenhum pedido de voluntários, com um nevoeiro destes a única atitude sensata foi a que tomámos, manter-nos juntos até que ele decidisse por si mesmo levantar-se, aliás, pedir voluntários não é muito do estilo do comandante, em geral limita-se a apontar tu, tu e tu, vocês, em frente, marche, o comandante diz que, heróis, heróis, ou vamos sê-lo todos, ou ninguém. Para tornar mais clara a vontade de acabar a conversa, o soldado içou-se rapidamente para cima do cavalo, disse até logo e desapareceu no nevoeiro. Não ia satisfeito consigo mesmo. Tinha dado explicações que ninguém lhe havia pedido, feito comentários para que não estava autorizado. No entanto, tranquilizava-o o facto de que o homem, embora não parecesse ter o físico adequado, deveria pertencer, outra possibilidade não cabia, pelo menos, ao grupo daqueles que haviam sido contratados para ajudar a empurrar e puxar os carros de bois nos passos difíceis, gente de poucos falares e, em princípio, escassíssima imaginação. Em princípio, diga-se, porque ao homem perdido no nevoeiro imaginação foi o que pareceu não lhe ter faltado, haja vista a ligeireza com que tirou do nada, do não acontecido, os voluntários que deveriam ter ido salvá-lo. Felizmente para a sua credibilidade pública, o elefante é outra coisa. Grande, enorme, barrigudo, com uma voz de estarrecer os tímidos e uma tromba como não a tem nenhum outro animal da criação, o elefante nunca poderia ser produto de uma imaginação, por muito fértil e dada ao risco que fosse. O elefante, simplesmente, ou existiria, ou não existiria. É portanto hora de ir visitá-lo, hora de lhe agradecer a energia com que usou a salvadora trombeta que deus lhe deu, se este sítio fosse o vale de josafá teriam ressuscitado os mortos, mas sendo apenas o que é, um pedaço bruto de terra portuguesa afogado pela névoa onde alguém (quem) esteve a ponto de morrer de frio e abandono, diremos, para não perder de todo a trabalhosa comparação em que nos metemos, que há ressurreições tão bem administradas que chega a ser possível executá-las antes do passamento do próprio sujeito. Foi como se o elefante tivesse pensado, Aquele pobre diabo vai morrer, vou ressuscitá-lo. E aqui temos o pobre diabo desfazendo-se em agradecimentos, em juras de gratidão para toda a vida, até que o cornaca se decidiu a perguntar, Que foi que o elefante lhe fez para que você lhe esteja tão agradecido, Se não fosse ele, eu teria morrido de frio ou teria sido comido pelos lobos, E como conseguiu ele isso, se não saiu daqui desde que acordou, Não precisou de sair daqui, bastou-lhe soprar na sua trombeta, eu estava perdido no nevoeiro e foi a sua voz que me salvou, Se alguém pode falar das obras e feitos de salomão, sou eu, que para isso sou o seu cornaca, portanto não venha para cá com essa treta de ter ouvido um barrito, Um barrito, não, os barritos que estas orelhas que a terra há-de comer ouviram foram três. O cornaca pensou, Este fulano está doido varrido, variou-se-lhe a cabeça com a febre do nevoeiro, foi o mais certo, tem-se ouvido falar de casos assim, Depois, em voz alta, Para não estarmos aqui a discutir, barrito sim, barrito não, barrito talvez, pergunte você a esses homens que aí vêm se ouviram alguma coisa. Os homens, três vultos cujos difusos contornos pareciam oscilar e tremer a cada passo, davam imediata vontade de perguntar, Onde é que vocês querem ir com semelhante tempo. Sabemos que não era esta a pergunta que o maníaco dos barritos lhes fazia neste momento e sabemos a resposta que lhe estavam a dar. Também não sabemos se algumas destas coisas estão relacionadas umas com as outras, e quais, e como. O certo é que o sol, como uma imensa vassoura luminosa, rompeu de repente o nevoeiro e empurrou-o para longe. A paisagem fez-se visível no que sempre havia sido, pedras, árvores, barrancos, montanhas. Os três homens já não estão aqui. O cornaca abre a boca para falar, mas torna a fechá-la. O maníaco dos barritos começou a perder consistência e volume, a encolher-se, tornou-se meio redondo, transparente como uma bola de sabão, se é que os péssimos sabões que se fabricam neste tempo são capazes de formar aquele maravilhas cristalinas que alguém teve o génio de inventar, e de repente desapareceu da vista. Fez plof e sumiu-se. Há onomatopeias providenciais. Imagine-se que tínhamos de descrever o processo de sumição do sujeito com todos os pormenores. Seriam precisas, pelo menos, dez páginas. Plof.”

DAR AS ENTRADAS A 2009 COMO EM 2000, 7

sábado, dezembro 27, 2008

ÚLTIMAS LEITURAS DE 2008

HOMEM NA ESCURIDÃO
Não se percebe muito bem o que leva alguns leitores e certos críticos a afastarem-se de Paul Auster por ele se manter fiel a si próprio. O que me agrada em Auster é precisamente o facto dele ter um universo muito próprio e não o abandonar. Quando se pega (avidamente, digo eu!) num novo livro de Auster (como de quase todos os grandes autores) é sempre com o prazer de ir reencontrar um mundo. Com diferenças de enredo, de intriga, com personagens novas, situações inesperadas, mas um estilo que se mantém, uma estrutura que remete para as mesmas obsessões, os mesmos temas, os mesmos fantasmas. Não sei se “Man in the Dark”, o último a ser lançado em tradução portuguesa, é melhor ou pior do que o anterior. Sei que é Paul Auster, que me “apanhou” mal o comecei a ler e que só o larguei (com pena) quando da última página. Depois, as edições da Asa mantêm o mesmo estilo de apresentação, e tudo ressoa a familiar. É muito saudável.
August Brill é um crítico literário retirado, que vive sozinho com uma filha e uma neta, ambas traumatizadas por casos emocionais mal resolvidos (um divórcio, uma viuvez). Ele próprio recorda a mulher desaparecida e não suporta as insónias que o deixam acordado noites a fio, durante as quais vai escrevendo uma história que se transforma num mundo paralelo: depois das conturbadas eleições de 2000, que terminaram com a vitória de Bush, os EUA voltaram a dividir-se numa nova guerra de Secessão, com Estados fiéis a Bush e outros que se revoltaram e criaram uma federação independente. Nas noites em que não escreve, vê clássicos de cinema com a neta e ambos se entretêm a prolongar o prazer da visão dos filmes, explorando os seus significados, em desenvolvidas críticas que são magníficos estudos sobre o poder da imagem (Ladrões de Bicicletas, A Grande Ilusão, O Mundo de Apu, Viagem a Tóquio). Afinal está lá tudo o que tem a ver com Paul Auster. Algo que aprendi com a idade foi a explorar em profundidade os autores que me marcam. Ler uns atrás de outros os livros de alguém que subitamente nos iluminou. E ficar depois à espera que, mais ano, menos ano, apareça um novo título para nos dizer que tudo está bem, o mundo continua a girar e nós ainda reconhecemos o reconhecível. Mesmo quando, como no caso presente, um romance se torna algo inquietante. Aqueles mundos paralelos podem não ser tão paralelos assim. Visionário por absurdo, Paul Auster não especula senão com a realidade dos nossos dias.
UM HOMEM MUITO PROCURADO
John Le Carré é um velho conhecido, desde “O Espião que saiu do Frio” (conhecido como escritor, conhecido também como invulgar fornecedor de boas histórias para o cinema, veja-se o recente “O Fiel Jardineiro”, excelente romance e não menos digno filme do brasileiro Meireles). Com “Um Homem Muito Procurado” (Ed. Dom Quixote, 2008), John le Carré mantém-se ao nível do seu melhor, abordando um tema de enorme actualidade e de uma forma equilibrada e bem documentada. Dizem por aí alguns críticos literários que esta III Guerra Mundial que vivemos agora contra um inimigo encoberto que utiliza o terrorismo como arma letal, e cujos principais instigadores se ajaezam (bom termo, neste contexto!) no mundo islâmico não tivera até hoje um autor que o descrevesse melhor e que Carré logra onde muito outros haviam falhado. Na verdade o que sobressai a uma primeira leitura é a equidistância a que se coloca Le Carré, dando voz quer ao Ocidente (serviços secretos da Alemanha, de Inglaterra, dos EUA), quer ao sentir islâmico.
Todo roda à volta de um homem muito procurado, que se diz chamar Issa, devoto de Alá, jovem meio russo, meio checheno, que chega a Hamburgo vestindo um sobretudo preto comprido e morto de fome, com um passado de prisões e torturas por todos os sítios por onde passara. Quer ser médico, para ajudar os seus, usa uma pulseira de ouro, legado materno que não abandona, e sabe que em Hamburgo existe uma conta “suja” que seu pai, militar russo da velha guarda, lhe deixou com muitos milhões de euros onde não pensa tocar, mas que quer endereçar aos que sofrem na “sua” Chechénia. Uma instituição de apoio a refugiados e emigrantes manda Annabel, uma jovem advogada alemã especializada em direitos humanos, apoiar Issa e defendê-lo de uma deportação mais que óbvia. Para desenterrar a herança, têm de falar com Tommy Brue, o director do Brue Frères, um banco britânico que no passado tinha ajudado a lavar a fortuna de Karpov. Mas espiões alemães, ingleses e americanos querem chegar a Issa e a outros possíveis contactos muçulmanos acobertados em Hamburgo, com intenções muito precisas.
Curiosamente, num universo de uma total desumanidade e de uma violência extrema, não há uma morte descrita no romance. O clima é de histeria generalizada, onde o leitor não consegue deslindar o verdadeiro do falso, os factos reais das fantasias engendradas pela patologia de uma guerra sem cenário, ou que permite todos os cenários. Escrito de forma magnífica, tensa, comovente, movendo-se entre o Bem e o Mal com uma agilidade desarmante, “Um Homem Muito Procurado” acompanha-se sem descolarmos os olhos das suas páginas. Não é um “simples romance de espionagem”. É um esplêndido romance de um dos grandes escritores actuais sobre o nosso mundo. Muito inquietante, na verdade.

MYRA

“Myra”, de Maria Velho da Costa (Ed. Assírio & Alvim), é outro dos grandes romances deste fim de ano em Portugal. Uma das “Três Marias”, como ficou conhecida desde os anos 70, quando, juntamente com Maria Teresa Horta e Maria Isabel Barreno, lançou “Novas Cartas Portuguesas”, Maria Velho da Costa já tinha atrás de si um belíssimo romance, “Maina Mendes” (1969). Licenciada em Filologia Germânica, professora no ensino secundário, membro da direcção da Associação Portuguesa de Escritores, leitora do Departamento de Português e Brasileiro do King's College, da Universidade de Londres, adjunta do Secretário de Estado da Cultura, em 1979, adida cultural em Cabo Verde, membro integrante da Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, Maria Velho da Costa trabalha actualmente no Instituto Camões. Prémio Vergílio Ferreira, da Universidade de Évora, pelo conjunto da sua obra, em 1997, Prémio Camões, em 2002, a escritora aproximou-se várias vezes do cinema, participando na elaboração de argumentos de filmes de João César Monteiro, Margarida Gil e Alberto Seixas Santos.
“Myra”, seu mais recente romance, é uma obra admirável a vários níveis, que fica a martelar na cabeça do leitor dias a fio. Muito bem escrito, com uma ousadia de termos e de imagens invulgar, que ronda a terminologia arrevesada, mas que pela propriedade se mostra eficaz e colorida, “Myra” é ainda uma envolvente e sedutora história de fadas que termina da pior maneira possível, demonstrando que o reino das fadas e das crónicas de príncipes e princesas é mesmo coisa de “encantar”. Myra é uma menina russa que emigra para Portugal, por onde vagueia sozinha, à mercê dos maiores dissabores e constrangimentos, quando descobre, moribundo, um cão de raça violenta de que se torna amiga. Ambos irão ser adoptados uma e outra vez, ambos viajam com e sem destino pelo país, ambos conhecerão o que terá de ser conhecido por quem ler este brilhante exercício de escrita e de terror. Dois excertos, à laia de exemplo:
“O céu estava baixo e muito escuro. Havia estrias roxas e verdes na distância mais clareada do horizonte e pareciam, céu e mar, uma única onda a levantar-se para cobrir a terra. Myra tirou os sapatos e as meias rotas e ficou parada a ver aquele assombro. Se corresse por ali adentro ninguém daria com ela nunca mais, nem no país dali, nem em nenhum outro.”
(…) “Falta muito?, perguntou Myra, no desvio do descampado deserto, agreste de árvores cinza na madrugada, rebanhos de ovelhas e bois com a cabeça descida à terra ocre, de fome, de sono.
Falta o que falta da tua história. E o Sr. Kleber sorriu.
Não tenhas medo, miúda. Em todas as histórias há sempre uma ponta do paraíso, um véu de clemência que estende uma ponta, fugaz que seja.”
A não perder.

EM BUSCA DO GRANDE PEIXE

“Em Busca do Grande Peixe”, de David Lynch (Ed. Estrela Polar, 2008), é um livro de certa forma desconcertante. Tanto aborda o seu processo criativo, como se apruma como obra de bons conselhos iniciáticos, para quem a meditação é um fenómeno essencial, como base de enriquecimento da sua consciência pessoal e como aspecto fundamental para a sua criatividade. Mas não se trata de um qualquer tipo de meditação, mas sim da “Meditação Transcendental”, promovida pela “Foundation for Consciousness-Based Education and World Peace”, entidade a que destina os lucros da edição internacional desta obra, com o objectivo de angariar fundos para incentivar novos programas nas escolas de todo o mundo.
“As ideias são como peixes. Se quisermos capturar peixes pequenos, podemos ficar pelas águas pouco profundas. Mas, se quisermos capturar os peixes grandes, temos de ir mais fundo. Nas águas profundas, os peixes são mais poderosos e mais puros. São enormes e abstractos. E são muito bonitos.” Esta a ideia condutora da obra, que, todavia, conta casos concretos da concepção de certos momentos da sua obra como realizador, dos mais representativos e considerados da actualidade. Pode parecer um livro de “auto-ajuda” e é-o, sem dúvida, mas escrito por uma personalidade fascinante.
Leia-se o que David Lynch confessou a um jornalista brasileiro sobre “Meditação Transcendental”: “A meditação transcendental é uma técnica mental, uma forma antiga de meditação, trazida para o nosso tempo pelo Yogi Maharishi Mahesh. Qualquer ser humano pode usar essa técnica, se achar a chave para abrir a porta para o mais profundo nível da vida. Ciência moderna unida ao antigo oceano da pura consciência vibrante e amplamente desperta, que sempre existiu. Campo eterno, campo infinito, sem limites, que se baseia em matéria e mente. Você tem um mantra, um som bem específico de vibrações e pensamentos.
O mantra de Maharishi torna a consciência interna num mergulho natural nos profundos níveis da mente e do intelecto e então transcende. Experimenta esse oceano, experimenta uma consciência viva e todas essas qualidades positivas. Tudo que na sua vida foi sempre igual passa a expandir-se, todas essas qualidades positivas passam a expandir-se. Em pouco tempo, a vida torna-se muito boa. (…) Um mantra é uma coisa muito preciosa, ele tem que ser um suporte para a vida em todos os níveis profundos.
“ (…) Totalmente desperto é esclarecedor, e o esclarecimento é a única maneira de estar realmente desperto. Todo ser humano tem esse potencial. O potencial total do ser humano é chamado de esclarecimento. Mas precisamos desdobrar isso. Os efeitos colaterais de expandir o esclarecimento são o fim dos pensamentos negativos. Nas escolas há muito stress, muitos problemas. Eles levam os problemas para casa, depois trazem os problemas de casa de volta à escola, é um pesadelo. Passaram a existir dezasseis escolas nos EUA. Um ano antes de começarem, havia violência, tiroteio, facadas, suicídios, stress, stress e mais stress. Aprendia-se muito pouco. Eles começaram a usar a meditação transcendental há um ano e tudo mudou radicalmente. Passaram a ser escolas que todos gostariam de frequentar, as brigas acabaram, as revoltas também. As relações pessoais melhoraram.(…) Não é uma religião. Não é contra nenhuma religião. Não é um culto. É próprio do ser humano. As pessoas passam a falar. Você passa a ouvir mais e mais histórias. Não é uma coisa estranha, é uma coisa do ser humano. Achavam que meditação é muito estranho para usar em escolas e agora descobrem que estranho é não usa-la nas escolas.”
Este lado de “Em Busca do Grande Peixe” é interessante e sabemos que David Lynch não é um charlatão e está sinceramente a falar de algo que conhece e diariamente experimenta. Por outro lado, as pequenas “narrativas” de memórias cinematográficas do cineasta, essas são a não perder.

DUST

“Dust”, de Martha Grimes, é outro policial da Ed. Estampa, colecção Sombra de Dúvida, onde eu descobrira um magnifico “Marcado para Morrer”, de que já aqui falei. Pois “Dust”, nome de bar, não se aproxima da qualidade da obra de John Dunning, apesar de lhe ser aparentado no gosto pela literatura. Desta feita a intriga gira à volta do assassinato de um jovem celibatário, que é baleado num quarto de hotel, a poucos metros da casa onde vive, e a meio de uma refeição. Richard Jury, superintendente da Scotland Yard, chamado por um jovem de treze anos, seu amigo, Benny Keegan, começa a investigação que no entanto tem na inspectora Lu Aguilar, da polícia local, uma mulher surpreendentemente erótica que, cada vez que encontra Jury, o derruba com uma frontalidade e violência que põe o prédio onde este habita em polvorosa.
Billy Maples, assim se chamava a vítima, tomava conta de uma casa museu de Henry James. Aqui entra a atracção pela literatura que vem contagiando dezenas de policiais recentes. Mas desta vez essa atracção foi relativamente fatal para o romance. Martha Grimes deixa-se enredar por toda essa fancaria exterior ao nervo do romance e este não anda nem desanda durante um número excessivo de páginas. O resultado é frustrante. O que para um policial, é… frustrante..

DAR AS ENTRADAS A 2009, 2

sexta-feira, dezembro 26, 2008

MORREU HAROLD PINTER

HOMENAGEM A HAROLD PINTER
Ontem, 25 de Dezembro de 2008, morreu Harold Pinter, com 78 anos, Prémio Nobel da Literatura de 2005, e um dos mais importantes escritores, dramaturgos, intelectuais ingleses e europeus das últimas décadas. Em 2006 foi homenageado no Famafest (Festival de Cinema e Vídeo de Famalicão, dedicado a "Cinema e Literatura").
Aqui deixamos alguns dos textos então publicados no programa do Festival, onde se destaca uma filmografia de Harold Pinter como escritor (adaptado), argumentista, realizador e actor.
Os textos relativos a esta homenagem podem ser lidos no Blogue FAMAFEST 2009
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