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domingo, fevereiro 17, 2008

LIVROS: ESTE PAÍS NÃO É PARA VELHOS


ESTE PAÍS NÃO É PARA VELHOS,
de Cormac McCarthy

“Concordei com ele quando disse que não havia muita coisa boa para dizer sobre a velhice e ele disse que tinha descoberto uma e eu perguntei o que era. E ele disse: É que não dura muito.” - Cormac McCarthy

Não conhecia nada de Cormac McCarthy (Charles Joseph McCarthy, Jr), até me alertarem para a qualidade de “A Estrada”, e para uma frase sensacionalista do Newsweek: “A cada livro, Cormac McCarthy vai alargando o território da ficção norte-americana.” Talvez por isso recebeu o Prémio Pulitzer em 2007. Já tinha sido “National Book Award for Fiction”, em 1992, por “All the Pretty Horses”. Não era de esperar pouco da sua leitura. E não foi.
Cormac McCarthy nasceu em Providence, Rhode Island, em 23 de Julho de 1933. Estudou na Knoxville Catholic High School, e depois na University of Tennessee, Knoxville, que deixou para ingressar na Força Aérea. Vive presentemente em Santa Fé, perto da fronteira sul dos Estados Unidos, com a terceira mulher e um filho. Foi casado com Lee Holleman (1961, de quem se divorciou em 1961, com um filho, Cullen), com Anne DeLisle (1966, novo divórcio), finalmente com Jennifer Winkley (um novo filho, John).
O seu romance preferido é “Moby Dick”, de Herman Melville. É autor de nove romances (The Orchard Keeper (1965), Outer Dark (1968), Child of God (1974), Suttree (1979), Blood Meridian (1985), All the Pretty Horses (1992), The Crossing (1994), Cities of the Plain (1998) e No Country for Old Men (2005)), dos quais a Relógio D’Água publicou “O Filho de Deus”, “O Guarda do Pomar”, “Meridiano de Sangue” e “Este País não é para Velhos”, este último adaptado ao cinema pelos irmãos Cohen e, nesta altura, à espera da consagração dos Oscars, ao que consta.
No cinema a sua contribuição foi até agora diminuta. Escreveu alguns episódios de uma série, "Visions" (1976), viu adaptado em 2000 “All the Pretty Horses” (Espírito Selvagem), por Billy Bob Thornton (com Matt Damon, Henry Thomas, Penélope Cruz, J.D. Young, Laura Poe, Sam Shepard, etc.), até chegar ao ano de 2007 e ao sucesso de “No Country for Old Men”. Agora tem em produção, duas outras adaptações, “The Road”, numa realização de John Hillcoat, e um elenco onde surgem Charlize Theron, Viggo Mortensen, Guy Pearce e Kodi Smit-McPhee (2008) e “Blood Meridian”, a ser dirigido por Ridley Scott (2009).
Li agora “Este País não é para Velhos”, numa cuidada tradução de Paulo Faria para a Relógio d’Água. Excelente realmente. Um magnifico retrato de um western actual, de uma América de fronteira, não tanto a fronteira dos colonos, mas a fronteira intima entre o Bem e o Mal, entre a generosidade e a ganância, entre a luz e as trevas, entre a (pequena cidade) e o deserto, entre a areia e a água do rio, entre uma certa ingenuidade pacóvia e a maldade mais completa que se torna ininteligível, à força de ser tão abstracta, tão desregrada, tão sem sentido para lá do sentido único do seu exercício quase gratuito.
Um homem que passa pelos arredores de uma cidadezinha americana do Rio Grande do Sul, por entre o deserto e o campo, encontra um carros abandonados, mortos vários, um moribundo que rapidamente passa a cadáver, quantidade de heroína em barda, 2 milhões de dólares numa mala, que resolve tornar sua. Essa mala desencadeia perseguições variadas, entre elas a de um “serial killer” que mata sem emoção. O humano transformado num autómato do Mal, um num “profeta da destruição”, como o xerife da localidade sugere, quando afirma: “Dizem que os olhos são as janelas da alma. Eu cá por mim não sei de que é que os olhos são as janelas e se calhar até prefiro não saber. Mas há uma outra maneira de ver o mundo e outros olhos para o ver e é por esse caminho que nós vamos. Eu próprio o trilhei e conduziu-me a um lugar na minha vida que nunca imaginei chegar a conhecer. Algures por aí anda um profeta da destruição, um profeta genuíno, de carne e osso, e eu não o quero enfrentar.” Um profeta que é melhor não enfrentar. Algo que completamente desumano, uma máquina, um robot, alguém para quem se olha e não se reconhece nele feições de gente. Esta é a América de uma violência traumatizante, desconhecida, perturbante, que é atravessada neste romance nervoso, agressivo, provocador, estimulante que nos recoloca na melhor tradição da literatura norte-americana. Hemingway, sim, pela secura dos diálogos, pela poesia dos cenários, Falkneur, sem dúvida, um pouco da violência ingénua de uns “Ratos e Homens”, mas reciclada para novos continentes de um total desencanto. Depois há quem fale de actuais, como Don Delillo, Philip Roth ou Thomas Pynchon, é possível, sobretudo no retrato de uma sociedade doente, dada num registo sincopado, que mostra as aparências e deixa as chagas soterradas, à espera que o leitor as descubra por si só. Terríveis os tempos que geram obras como estas, de um cinzento pesado, de um ar poluído pelo desespero, de uma humanidade desgarrada e à deriva.
Há personagens absolutamente inesquecíveis, como o assassino Anton Chigurh, ou o julgado esperto Llewelyn Moss, ou o desalentado xerife Ed Tom Bell, que conheceu a II Guerra Mundial, e que tem uma ideia do Vietname e dos EUA muito bem condensada nesra frase: “As pessoas dizem que foi o Vietname que pôs este país de rastos. Mas eu nunca acreditei nisso. O país já estava em muito mau estado. O Vietname foi só a cereja em cima do bolo. (…) Não sei o que vai acontecer quando vier a próxima. Não sei mesmo.” Ora a verdade é que a próxima já chegou e o que os escritores (e cineastas) norte-americanos reflectem é esse “não sei mesmo.” A América na encruzilhada, mas mais do que isso, nós todos na mesma encruzilhada.
Magnífico livro. Fico à espera de um igualmente magnífico filme. Seguramente.

segunda-feira, agosto 20, 2007

LIVROS E FILMES: NOW, VOYAGER

NOW, VOYAGER


Na “Manhã Submersa” há um momento em que o jovem protagonista, quando volta do seminário para a sua aldeia natal, lá nos picos da serra da Estrela, pára por momentos na esquina de uma ruela, olhando os cartazes que anunciam dois filmes para proximamente no cinema da terra. Um é bíblico, “O Sinal da Cruz”, de Cecil B. de Mille, o outro é um melodrama admirável de Gorge Cukor, “A Dama das Camélias” (“Camille” no original, o que terá a sua futura importância para este comentário). Enquanto vê as fotografias cartonadas ouve-se o fabuloso tema musical que Max Steiner criou para “Now Voyager”, um outro melodrama da época (este de 1942), realizado por Irvin Rapper, segundo romance de Olive Higgins Prouty (que também escrevera com muito sucesso “Stella Dallas”). Interpretado muito superiormente por Bette Davis, Paul Henreid, Claude Rains e Gladys Cooper, “A Estranha Passageira”, que revi agora, é mesmo uma das mais poderosas e fascinantes histórias de amor que o cinema nos deu e um dos retratos de mulher mais intrigante, complexo, perverso e ao mesmo tempo generoso que me lembro de ver. Que procurava eu ao colocar o miúdo de “Manhã Submersa” a ver a sua atenção ser solicitada por dois melodramas de sentido contrário, o melodrama bíblico e o melodrama de perdição amorosa? Tornar visível, em imagens que funcionassem pela sua própria simbologia, o drama interior de António, dividido entre a vida no seminário e o apelo do exterior.
“Now Voyager” adquiria assim, para mim, mas também para milhões de espectadores no mundo todo, o estatuto de referência mítica de uma obra onde o amor, nas suas mais diversas facetas, era tratado de forma sublime.
A América pode ter muitos defeitos, que têm; podemos estar muito zangados com algumas atitudes de muitos americanos, e invariavelmente estamos; mas, de repente, há um romance, um filme, um tema musical, uma peça de teatro, um quadro, uma declaração política, um gesto que nos mostra a grandeza desse povo. “Now, Voyager”, realizado em 1942, é uma obra admirável, que não deixa de surpreender ainda hoje, que ostenta uma modernidade, uma complexidade de análise, um intrincado jogo de sentimentos, de emoções, de situações que mostra bem a grandeza do romancista, do realizador, dos técnicos (fotografia a preto e branco magnífica, partitura musical inesquecível) e dos actores (todos brilhantes, mas uma Bette Davis de talento arrebatador) e impõe a grandeza do país onde foi criado. Em pleno regime pesado do malfadado Código Hayes, lançar-se no mercado um filme como este é obra que merece ser sublinhada.

Falemos então um pouco deste filme, ainda sob os efeitos do encantamento provocado pela sua visão. Não é uma obra-prima, não é um filme perfeito, tem arestas agrestes e uma ou outra sequência que deixa a desejar (mais uma vez o folclorismo do exótico de papelão, com uma passagem pelo Rio de Janeiro onde se fala um espanhol italianizado que escandaliza pela ligeireza, onde as transparências rodadas em estúdio chocam, onde apenas um ou outro plano tem autenticidade mínima). Mas, não sendo um filme perfeito, é uma daquelas obras que arrebata de principio a fim, que não nos deixa soltar os olhos do ecrã, que de quando em vez nos rasa os olhos de lágrimas de felicidade, que nos faz acreditar na beleza superior da arte, e que nos faz sentirmos felizes por existirmos. Mesmo quando se vêem exemplos do que se podem considerar fraquezas humanas e vícios sociais que, por vezes, destroem vidas impunemente.
Charlotte Vale (Bette Davis) é a filha não querida de Mrs. Henry Windle Vale (Gladys Cooper) que, por isso, a trata de forma despótica e a transforma numa mulher amarrotada pela vida e angustiada, tímida e fugitiva, sempre à beira de uma depressão. Nasceu fora de prazo, e muito embora no seio de uma família rica e das mais reputadas de Boston, Charlotte vive no andar de cima, fechada num quarto que é refugio e prisão, cabelo agarrado, vestido de tia solteirona, óculos de freira laica, olhar mortiço e uma única lembrança a ligá-la ao amor: um cruzeiro, uma fugaz história de amor com o oficial das comunicações, apanhados os dois em flagrante numa noite de luar no interior de um carro no porão das mercadorias. A vergonha, pelos olhos e a voz da mãe e do capitão do navio.
Daí em diante tem sido o exílio imposto e assumido. Até ao dia em que surge na família o Dr. Jaquith (Claude Rains), “o mais famoso psiquiatra do país”, que vem analisar o caso de Charlotte e descobre que a “a tirania é, por vezes, a expressão de instinto maternal.” Ao que Charlotte responde: “Se isso é o amor maternal, não quero colaborar nisso.” Jaquith leva Charlotte para uma casa de repouso e sanatório que dirige em Vermont, onde a rapariga rapidamente recupera a alegria de viver e a espontaneidade dos gestos. Foi necessário apenas desenvolver a auto estima e estimular a vontade própria para florescer uma mulher completamente diferente, confiante e divertida, extrovertida e sequiosa de amor. O que acontece durante a prova final do desafio superado, uma viagem a bordo de um cruzeiro, onde conhece e se apaixona por Jerry Durrance (Paul Henreid), um arquitecto, casado e pai de duas filhas.
As noites de amor existem, apesar de pudicamente elididas no filme (há elipses que tornam ainda mais fortes e intensas as imagens que apenas se pressentem e intuem), e, durante uma paragem no Rio de Janeiro, a voz do coração (e do desejo do contacto físico) fala mais alto. (Ficam por estas zonas as sequências estereotipadas sobre o Brasil, que mancham de alguma forma a coerência do projecto, mas adiante). Findo o cruzeiro, cada um parte para seu lado, mas Charlotte passa a ser para sempre a Camille de Jerry Durrance, recebendo camélias brancas directamente de Nova Iorque. Camille é a heroína de “Dama das Camélias”, vale a pena recordar, a mulher do prazer que se imola por amor, e Charlotte aceitar este labelo tem muito que se lhe diga.

Se durante a primeira parte do filme se vive na perversidade de um jogo de poder, com a mãe a dominar a filha de forma repulsivamente tirânica, a partir daqui a perversidade é outra. Não que a filha se volte contra a mãe, apesar de ignorar as suas pressões e chantagens, mas sobretudo nas relações que se prolongam entre Charlotte-Camille e Jerry Durrance. Ele habita longe, raramente se encontram, mas vivem um para o outro, num amor secreto que é um pacto de silêncio pejado de desejos. Charlotte chega mesmo a ficar noiva de uma pretendente de Boston. Uma noite, o casal de noivos vai a um concerto, na companhia de Jerry Durrance. Charlotte-Camille oferece a sua mão ao noivo e ostensivamente olha para Jerry Durrance. O plano é de uma obsessiva violência de significado. Charlotte não só sabe muito bem o que quer como quer libertar-se das peias que a amarram. Num outro plano fabuloso, pela sua encenação, vê-se a mãe de Charlotte de costas, com um braço a atravessar o enquadramento, enquanto a filha, oculta atrás de uma parede, vai discorrendo sobre o que quer para si e, sobretudo, sobre o que não quer que se mantenha, essa opressão sinistra exercida em nome de um amor maternal que não pode existir.
A história repete-se depois. A filha mais nova de Jerry Durrance, Tina, passa pelo mesmo calvário que Charlotte havia conhecido, vai parar à mesma casa de repouso, Charlotte serve-lhe de enfermeira e adopta-a como filha. Finalmente ela e Jerry Durrance têm algo em comum, uma filha, o resultado de um amor que não morre, que se estende para lá do impossível. “Para que queremos a Lua, se temos as estrelas?” é a frase final desta obra que materializa de forma brilhante o poder hipnótico do melodrama levado à sua essência, sem que, no entanto, por esse facto se deixem de abordar e tratar temas de uma gravidade e complexidade notáveis. “Now, Voyager” é o cinema no seu mais extremado limite de repensar o humano na sua vastidão e multiplicidade.
Na década de 40 a psicanálise ganha adeptos e impõe-se na América, nomeadamente. O filme é o reflexo dessa crença nas novas possibilidades desta terapia, mas fá-lo sempre com uma nobreza e seriedade invulgares. A figura do Dr. Jaquith é perfeita no registo, de uma compreensão e “sagesse” raras. O desdobramento de personalidades e de comportamento de Charlotte (de Charlotte para Camille) é particularmente brilhante. Bette Davis é uma actriz espantosa, que o público nem sempre compreendeu. Não era especialmente bonita ou escultural (como Garbo ou Marlene), mas esses handicaps tornam mais relevante a sua carreira, ainda por cima carregada de personagens sinistras e viciosas que afastam as actrizes da fácil simpatia das plateias. O retrato de Charlotte é uma das mais soberbas representações femininas da história do cinema.
Mesmo nos momentos mais depressivos, uma ponta de humor atravessa a obra. Quando perguntam a Charlotte se é menina ou senhora, ela responde com raiva, mas também algum orgulho, “Sou tia. Em todas as famílias há uma “tia”. Eu sou a tia dos Vale.”
De resto, psicanaliticamente, o filme desdobra-se em significações múltiplas. Será o Dr. Jaquith, a responder à mãe de Charlotte com uma frase que terá conotações pessoais, mas que poderá igualmente ter um leitura política e social (veja-se o caso português, o salazarismo, por exemplo): “Minha querida Mrs. Vale, se planeou deliberada e maliciosamente destruir a sua filha, não o poderia ter feito mais completamente.” Mrs. Vale, indignada, reage: “Como? Exercendo os direitos de mãe?” Jaquith volta ao ataque: “Os direitos da mãe? Uma criança tem os seus direitos, uma pessoa tem os seus direitos, tem de ser ela a descobrir os seus erros, a construir o seu caminho, a crescer e florir no seu próprio terreno.” Mrs. Vale, ironicamente, responde: “Agora fala-me de botânica, doutor? Nós somos flores?”
Outro dos aspectos muito curiosos desta obra parte de algo que hoje em dia se tornou um fantasma e uma obsessão: o cigarro. A lenda não sabe a quem atribuir um dos gestos que tornariam célebre este filme e que contribuiu igualmente para a criação do mito em redor desta obra e da sua simbologia erótica. A bordo do cruzeiro, a determinada altura do convívio de Charlottte com Jerry, este acende dois cigarros de uma só vez e estende um deles à companheira de conversa, que o aceita e leva aos lábios. A partir desta primeira cena, outras haverá ao, longo do filme, que assinalam momentos de maior proximidade afectiva ou intimidade. Essa troca de cigarros que passam de uma boca para a outra, esses beijos consentidos através de um prazer proibido (os cigarros estavam proibidos em casa dos Vale; Charlote fumava, fechada no seu quarto, às escondidas da mãe) são fogo que se alumia na noite do desejo, de um desejo que se compartilha, de uma solidão que se rejeita, de uma cumplicidade que se instala.
Ninguém sabe quem imaginou esta cena, o realizador chama-a a si, o autor do romance assinala que algo de semelhante era descrito do romance (cada um acende um cigarro e trocam-nos depois), mas é Paul Henreid quem vai mais longe, referindo que foi ele que teve a ideia de trazer para o filme algo que era costume ser feito em sua casa, entre ele e a mulher. Sem se saber quem foi realmente o autor da inspiração, fica o momento único desse cigarro que passa de boca em boca. Num filme onde o indizível tem tamanha forma e presença, esse gesto carregado de sentido é penas um entre muitos outros momentos de magia que fazem de “Now, Voyager” um clássico que permanece imaculável 55 anos depois. Tal como “Casablanca”, filme do mesmo ano e da mesma produtora, onde se descobrem igualmente dois dos mesmos actores, Claude Rains e Paul Henreid.
O título deste épico dos sentimentos, foi retirado de uma poema de um dos maiores escritores norte-americanos de sempre, o poeta Walt Whitman, que, em 1892, lançou “Leaves of Grass”, onde se encontra o citado “The Untold Want”: “The Untold Want / By Life and Land Ne'er Granted / Now, Voyager / Sail Thou Forth to Seek and Find.”
A ESTRANHA PASSAGEIRA
Título original: Now, Voyager
Realização: Irving Rapper (EUA, 1942); Argumento: Casey Robinson, segundo romance de Olive Higgins Prouty ("Lisa Vale"); Música: Max Steiner; Fotografia (p/b): Sol Polito ; Montagem: Warren Low; Montagens de sequência: Don Siegel; Direcção artística: Robert M. Haas; Decoração: Fred M. MacLean; Guarda-roupa: Orry-Kelly; Maquilhagem: Perc Westmore; Som: Robert B. Lee; Efeitos especiais: Willard Van Enger; Produção: Hal B. Wallis; Companhia de produção: Warner Bros. Pictures
Intérpretes: Bette Davis (Charlotte Vale), Paul Henreid (Jerry Durrance), Claude Rains (Dr. Jaquith), Gladys Cooper (Mrs. Henry Windle Vale), Bonita Granville (June Vale), Ilka Chase (Lisa Vale), John Loder (Elliot Livingston), Lee Patrick (Deb McIntyre), Franklin Pangborn (Mr. Thompson), Katherine Alexander (Miss Trask), James Rennie (Frank McIntyre), Mary Wickes (Dora Pickford), Janis Wilson (Tina Durrance), Michael Ames (Dr. Dan Regan), Charles Drake (Leslie Trotter), Frank Puglia (Manoel), David Clyde (William), Tod Andrews, Brooks Benedict, Frank Dae, Yola d'Avril, Donald Douglas, Claire Du Brey, Elspeth Dudgeon, Bill Edwards, Mary Field, Bess Flowers, Reed Hadley, Sheila Hayward, Bill Kennedy, George Lessey, Lester Matthews, Corbet Morris, Tempe Pigott, Hilda Plowright, Constance Purdy, Georges Renavent, Dorothy Vaughan, Isabel Withers, Ian Wolfe, Charlotte Wynters, etc.
Duração: 17 minutos; Estreia: 22 de Outubro de 1942 (EUA); Distribuição em Portugal (DVD): Warner

sexta-feira, agosto 17, 2007

LIVROS E FILMES: CHUVA




W. SOMERSET MAUGHAM:
“CHUVA”, EM TRÊS TEMPOS

“Miss Sadie Thompson” (Chuva), uma realização de Curtis Bernhardt, com interpretação de Rita Hayworth, José Ferrer, Aldo Ray e Charles Bronson (em início de carreira), é a terceira versão (reconhecida enquanto tal) da adaptação de um conto de William Somerset Maugham, “Rain”, publicado na antologia “Contos dos Mares do Sul” (The Trembling of a Leaf), aparecida em 1921. Esta obra mereceu inicialmente (logo dois anos depois) uma adaptação ao teatro, “Rain”, escrita por John Colton e Clemence Randolph e estreada no Garrick Theatre de Londres, em 12 de Maio de 1925.


Em 1928, o cinema iria interessar-se pela primeira vez por esta pequena história. Raoul Walsh e C. Gardner Sullivan (autor dos inter títulos) adaptam a peça teatral com uma destinatária óbvia, que, aliás, produziria o projecto: Gloria Swanson (a mesma de “O Crepúsculo dos Deuses”). O filme de Raoul Walsh (que aparecia igualmente como actor, contracenando com a grande vedeta) mereceu duas nomeações para os Oscars da Academia, uma para a melhor actriz (Gloria Swanson), outra para melhor fotografia.
Parece que a representação da actriz era altamente escandalosa ao nível dos diálogos (diz quem consegue ler nos lábios dos outros sem ouvir os sons da palavras, estávamos em finais do cinema mudo!), mas como não transparecia para as legendas (ou inter títulos) o filme passou sem grande moléstia da censura. Refira-se ainda que estávamos também numa altura em que o código Hayes não funcionava em pleno. (o código, instituído pela The Motion Pictures Producers and Distributors Association (MPPDA), mais tarde conhecida por The Motion Picture Association of America (MPAA), só foi criado em 1930, tornando-se efectivo em 1934, vindo a ser abandonado unicamente em 1967, quando foi substituído pela classificação etária promovida pela MPAA, que ainda hoje vigora, com alterações ligeiras ao longo das últimas quatro décadas).
A obra, pensada para glória de Gloria Swanson, é contada com a eficácia de estilo de um clássico da aventura, com a secura narrativa de um cineasta tradicionalista como Raoul Walsh, com o talento e a elegância descritiva de uma realizador em plena fase de criativa maturidade. A representação de Gloria Swanson é excelente, uma das melhores da sua carreira. O filme, que esteve desaparecido, conta ainda com algumas cenas perdidas, mas foi recuperado recentemente para edição em DVD e oferece magnificas imagens e uma reconstrução das sequências finais, partindo de fotos e de material de estúdio. É uma ocasião quase única para surpreender a grande vedeta no apogeu da sua fase gloriosa, descobrir a sua sensualidade vulcânica, o seu olhar fatal, a sua forma de representar, contracenando com um brilhante Lionel Barrimore e um Walsh de olhos claros (ainda distante do famoso pala negra de Hollywood).


Pouco depois, em 1932, seria Joan Crawford a interpretar o papel de Miss Sadie Thompson, num elenco que a colocava ao lado de Walter Huston, Guy Kibbee e Beulah Bondi. A adaptação (partindo do conto e da mesma peça teatral) era do dramaturgo Maxwell Anderson, e a realização de Lewis Milestone. O filme chamava-se “Rain” e surgiram diversos problemas com a censura, apesar do Código ainda estar em período de instalação. Joan Crawford era a prostituta que chega a Pola-Pola e desencadeia a cólera do austero (e hipócrita) missionário (criado a preceito pelo fabuloso Walter Huston).
A realização de Lewis Milestone altera radicalmente o tom da adaptação, numa mistura de cinema de vanguarda com algumas experiências documentais que relembram Flaherty. Enquadramentos estranhos, montagem muito ritmada, uma representação expressiva, vivendo muito do grande plano e da eloquência do trabalho dos excelentes actores, alternam com planos de uma duração invulgar na época e mesmo um ou outro hesitante plano sequência. Há cenas notáveis, como a que opõe Walter Huston, o irredutível missionário, à escandalosa Joan Crawford, com o religioso no cimo de uma escada e a devassa em plano inferior, ambos falando em simultâneo, discursos paralelos que se anulam e nem um nem outro ouve, até que lentamente a demagogia do prior se acentua, domina Sadie que se cala e se afasta, se “apaga”, se intimida e se converte. Mas o trabalho de Joan Crawford é também ele de uma qualidade e força impares, mostrando bem como deveriam ser, por essa altura, os seus duelos com Bette Davis.
As interpretações ficaram na memória de muitos, de tal forma que a dupla Sonny and Cher, no seu programa de televisão "The Sonny and Cher Comedy Hour" (1971-1974) tinha um apontamento que surgia, de tempos a tempos, inspirado nesta dupla Crawford-Huston, a que dava o nome de "The Vamps." Também em “Road to Bali” (1952) há uma referência a esta versão, de que, curiosamente, Joan Crawford não gostava muito. Dizem as más-línguas que não se sentia a representar, que era a sua verdadeira maneira de ser que vinha ao cimo. Mas há também quem diga que é uma das películas mais inteligentes produzidas na América na década de 30, e quem refira a qualidade da realização de um grande cineasta, Lewis Milestone, que havia rodado, pouco antes, o brilhante “All Quiet on the Western Front” (1930). O filme denunciava um puritanismo hipócrita que tanto actores como realizador não procuraram dissimular. Por isso nunca conseguiu entrar no circuito comercial português, certamente “protegido” por uma forte censura dos costumes. Nesta versão a chuva e a paisagem atingem a importância de personagens, interferindo e condicionando psicologicamente figuras e situações.


Em 1946, aparece um filme curioso, de visão difícil hoje em dia, “Dirty Gertie from Harlem U.S.A.”, com Francine Everett e Don Wilson, escrito por True T. Thompson, e realizado por Spencer Williams. Trata-se de um versão, não creditada oficialmente, do mesmo conto de W. Somerset Maugham, mas desta feita inteiramente rodado com actores negros, em cenários condizentes. Não vimos nem conseguimos grandes informações suplementares.
Na comédia “Love Happy”, de 1949, imaginada pelos Irmãos Marx, aparece uma sequência coreografada, na qual Vera-Ellen dança com um grupo de Marines, regressados da II Guerra Mundial, bailado que cita directamente a obra de Lewis Milestone.


Será, todavia, em 1953, no filme “Miss Sadie Thompson”, com a exuberante Rita Hayworth, dirigida por Curtis Bernhardt, que o conto de W. Somerset Maugham adquire maior projecção no cinema, apesar de não ser talvez a sua melhor adaptação. O drama da prostituta que viaja pelos mares do Sul, e encalha em Pola-Pola, ficando aí retida pelas tremendas chuvas tropicais que assolam a ilha, sofre algumas alterações para contentar o espírito moralista da época (com o código a funcionar em pleno!). Sadie Thompson deixa, por exemplo, de ser prostituta e passa a ser uma cantora, animadora de cabarets baratos, em viagem entre dois empregos. Em Pola-Pola, no Hawai, base militar americana, fica instalada numa pensão decrépita, onde se recolhem igualmente um missionário e um médico e as respectivas esposas. O missionário é um irrequieto pregador da virtude, a quem o gramofone de Miss Thompson causa calafrios, bem assim como a boa disposição desta, o seu imoderado gosto pelo tabaco e a bebida, e a forma franca e descomplexada como recebe nos seus aposentos marines que curtem as folgas. Alfred Davidson (José Ferrer), o missionário, é o protótipo do pior que a América sempre teve, e tem, e que é uma herança de um certo puritanismo fradesco e fascistoide de inspiração europeia, óbvio. Mesmo um conservador, como o Dr. MacPhail (Russell Collins), não consegue entender a maldade que se esconde sob as vestes da prepotência espiritual do sacerdote, e chega timidamente a revoltar-se. Mas Alfred Davidson está na disposição de enviar Miss Sadie Thompson para fora da ilha, recambiá-la para São Francisco, e para um prisão infecta, denunciá-la ao governador e marcar passagem no primeiro navio que por ali passar, até que Miss Thomson se arrepende, e procura ter o conforto do missionário para a “libertar do demónio” nas longas, mas poucas noites que lhe restam em Pola-Pola. Afinal não será a voluptuosa Miss Sadie a ceder, perante a imagem do milagroso Davidson, mas este a revelar a sua verdadeira essência. Alfred Davidson referindo-se a Sadie Thomson dizia: “From now on you will be strong. There is to be no more fear. Radiant... beautiful... you will be one of the daughters of the kingdom. That's what you are now, Sadie, one of the daughters of the kingdom... radiant... beautiful.” Beautiful.


O filme oscila entre o drama social e o musical (as duas nomeações para os Oscars do ano vão para a partitura musical e a canção de Lester Lee e Ned Washington: "Sadie Thompson's Song - Blue Pacific Blues"), mas tem vastos motivos para ser visto. Desde logo pela presença de Rita Hayworth, vinda de “Gilda” e “A Dama de Xangai”, que aqui nos dá um bom retrato de mulher aventureira e rebelde. Também pela rigidez de actuação de José Ferrer, que consegue ser odioso nas suas acções e palavras. A realização não será particularmente brilhante, mas é eficaz. Mesmo o folclorismo da encenação numa ilha do Hawai não é totalmente desinteressante, marcando um bom contraste com a austeridade de uns poucos e a alegria de viver da maioria. Mas em qualquer dos casos a obra de W. Somerseth Maugham é definitivamente muito mais cáustica e arrasadora de preconceitos e hipocrisias que qualquer uma das suas adaptações. Creio poder mesmo dizer que com “Rain” nos deparamos com uma das obras-primas do conto que nunca teve a sorte de encontrar transposição para o ecrã à altura dos seus méritos. Apesar de nenhuma das adaptações ser menosprezável.



A SEDUÇÃO DO PECADO
Título original: Sadie Thompson
Realização: Raoul Walsh, William Cameron Menzies (EUA, 1928); Argumento: Raoul Walsh, C. Gardner Sullivan, segundo peça teatral “Rain”, de John Colton e Clemence Randolph, retirada do conto de W. Somerset Maugham ("Miss Thompson"); Fotografia (p/b): George Barnes, Robert Kurrle, Oliver T. Marsh; Montagem: C. Gardner Sullivan; Direção artística: William Cameron Menzies; Direcção de produção: Pierre Bedard; Assistente de realização: William Tummel; Produção: Raoul Walsh, Gloria Swanson; Companhias produtoras: Gloria Swanson Pictures Corporation;
Intérpretes: Gloria Swanson (Sadie Thompson), Lionel Barrymore (Alfred Davidson), Blanche Friderici (Mrs. Alfred Davidson), Charles Lane (Dr. Angus McPhail), Florence Midgley (Mrs. Angus McPhail), James A. Marcus (Joe Horn), Sophia Artega (Ameena), Will Stanton (Bates), Raoul Walsh (Sgt Timothy 'Tim' O'Hara), Charles Sullivan (Marinheiro), etc.
Duração: 91 minutos (97 minutos, na versão original); Estreia: 7 de Janeiro de 1928 (EUA); Locais de filmagem: Ilha de Santa Catalina, Channel Islands, California, EUA.

(Sem título em Portugal; não estreado comercialmente)
Título original: Rain
Realização: Lewis Milestone (EUA, 1932); Argumento: Maxwell Anderson, segundo peça teatral “Rain”, de John Colton e Clemence Randolph, retirada do conto de W. Somerset Maugham ("Miss Thompson"); Música: Alfred Newman; Fotografia (p/b): Oliver T. Marsh; Montagem: W. Duncan Mansfield; Direção artística: Richard Day; Assistente de realização: Nate Watt; Som: Frank Grenzback; Produção: Lewis Milestone, Joseph M. Schenck; Companhias produtoras: Lewis Milestone Productions Inc., United Artists, Feature Productions.
Intérpretes: Joan Crawford (Sadie Thompson), Walter Huston (Alfred Davidson), Fred Howard (Hodgson), Ben Hendricks Jr. (Griggs), William Gargan (Sgt. Tim 'Handsome' O'Hara), Mary Shaw (Ameena), Guy Kibbee (Joe Horn), Kendall Lee (Mrs. Robert MacPhail), Beulah Bondi (Mrs. Alfred Davidson), Matt Moore (Dr. Robert MacPhail), Walter Catlett (Bates), etc.
Duração: 92 minutos; Estreia: 12 de Outubro de 1932 (EUA); Locais de filmagem: Ilha de Santa Catalina, Channel Islands, California, EUA.

(Sem título em Portugal; não estreado comercialmente)
Título original: Dirty Gertie from Harlem U.S.A.
Realização: Spencer Williams (EUA, 1946); Argumento: True T. Thompson, Segundo conto de W. Somerset Maugham ("Miss Thompson"), não creditado; Fotografia (p/B): John L. Herman; Direcção artística: Ted Soloman; Maquilhagem: Frillia; Departamento de arte: J.L. Bock; Som: Richard E. Byers; Produção: Bert Goldberg, Alfred N. Sack; Companhia de produção: Sack Amusement Enterprises
Intérpretes: Francine Everett (Gertie La Rue), Don Wilson (Diamond Joe), Katherine Moore (Stella Van Johnson), Alfred Hawkins (Jonathan Christian), David Boykin (Ezra Crumm), L.E. Lewis (Papa Bridges), Inez Newell (Mama Bridges), Piano Frank (Larry), John King (Al), Shelly Ross (Big Boy), Hugh Watson, Don Gilbert, Spencer Williams, July Jones, Howard Galloway, etc.
Duração: 65 minutos; Locais de filmagem: Dallas, Texas, EUA; San Antonio, Texas, EUA.

CHUVA
Título original: Miss Sadie Thompson
Realização: Curtis Bernhardt (EUA, 1953); Argumento: Harry Kleiner, segundo conto de W. Somerset Maugham ("Miss Thompson"); Música: George Duning; Fotografia (cor): Charles Lawton Jr.; Montagem: Viola Lawrence; Direção artística: Carl Anderson; Decoração: Louis Diage; Guarda-roupa: Jean Louis; Maquilhagem: Clay Campbell, Helen Hunt, Robert J. Schiffer; Assistente de realização: Sam Nelson; Departamento de arte: Harold Michelson; Som: George Cooper; Coreografia: Lee Scott; Produção: Jerry Wald; Companhias produtoras: Columbia Pictures Corporation.
Intérpretes: Rita Hayworth (Sadie Thompson, com a voz de Jo Ann Greer nas sequências cantadas), José Ferrer (Alfred Davidson), Aldo Ray (Sgt. Phil O'Hara), Russell Collins (Dr. MacPhail), Diosa Costello (Ameena Horn), Harry Bellaver (Joe Horn), Wilton Graff (Governador); Peggy Converse (Mrs. Davidson), Henry Slate (soldado Griggs), Rudy Bond (soldado Hodges), Charles Bronson (como Charles Buchinsky) (soldado Edwards), Frances Morris (Mrs. MacPhail), Peter Chong (Chung), John Grossett (padre), Robert G. Anderson, Elizabeth Bartilet, Erlynn Mary Botelho, Eduardo Cansino Jr., Johnny Duncan, Ben Harris, Harold 'Tommy' Hart, Charles Horvath, Ted Jordan, Al Kikume, Freddie Letuli, Joe McCabe, Dennis Medieros, Ted Pavelec, Frank Stanlow, Billy Varga, etc.
Duração: 91 minutos; Estreia: 23 de Dezembro de 1953 (EUA); Locais de filmagem: Kaua`i, Hawaii, EUA.

terça-feira, agosto 14, 2007

LIVROS E FILMES: O FIO DA NAVALHA

"O FIO DA NAVALHA":
O ROMANCE
E AS VERSÕES CINEMATOGRÁFICAS
“O Fio da Navalha” é um dos romances de maior sucesso de Somerset Maugham, só ultrapassado, ao que julgo, por “Servidão Humana”. De “The Raizor’s Edge” os americanos realizaram duas adaptações cinematográficas, uma de 1946, com realização de Edmund Goulding, e com um excelente elenco, onde se destacavam Tyrone Power (Larry Darrell), Gene Tierney (Isabel Bradley), John Payne (Gray Maturin), Anne Baxter (Sophie Nelson Macdonald), Clifton Webb (Elliott Templeton), Herbert Marshall (W. Somerset Maugham), Lucile Watson (Louisa Bradley), Frank Latimore (Bob Macdonald) e Elsa Lanchester (Miss Keith, secretária da Princesa). A fabulosa fotografia a preto e branco era assinada por Arthur C. Miller e a partitura musical da responsabilidade de Alfred Newman. Não se tratava de uma obra-prima, mas, com uma ou outra cedência a um exotismo de pacotilha nas sequências rodadas fora dos EUA (Paris e Índia, sobretudo), este “The Razor's Edge” aproximava-se muito do que se pode pedir a uma boa adaptação, com alguns aspectos arrojados e uma notável criação de personagens.
Nos anos 80, mais precisamente em 1984, foi a vez de John Byrum voltar ao clássico, desta feita com uma adaptação promovida e escrita por Bill Murray (de colaboração com o próprio John Byrum), que interpretaria o papel principal, Larry Darrell, ao lado de um elenco curioso: Theresa Russell (Sophie MacDonald), Catherine Hicks (Isabel Bradley), Denholm Elliott (Elliott Templeton), James Keach (Gray Maturin), Peter Vaughan (Mackenzie) e Brian Doyle-Murray (Piedmont), A fotografia, a cores, era da responsabilidade de Peter Hannan, e a música de Jack Nitzsche. O resultado, deve dizer-se, ficou muito aquém das expectativas, sobretudo porque Bill Murray “leu” o romance para o encaixar na sua pele de actor, fazendo deslizar os contornos de personagens e situações a seu belo prazer, colocando um certo acento demasiado visível numa faceta de humor que nunca existiu no romance de W. Somerset Maugham (ironia sim, mas nunca o humor quase burlesco de certas situações recriadas por Bill Murray). Mas haverá muito mais a dizer, o que faremos a seu tempo.

Falemos do romance, que data de 1944: Larry Darrell (curioso o facto de W. Somerset Maugham colocar como protagonista alguém com o nome de Lawrence Darrel, com uma única letra a separá-lo de Lawrence Durell, um escritor que tudo indica ser homenageado nesta referência) é americano, jovem, bem apessoado, esteve como piloto na I Guerra Mundial, regressa a Chicago, onde é bem recebido por vários amigos e uma namorada, Isabel Bradley, que está por ele apaixonada e o esperou com ansiedade. Isabel é filha de Louisa Bradley, sobrinha de Elliott Templeton, um “dandy” que fez fortuna a vender antiguidades, se passeia entre a América, Paris, Londres e estâncias de turismo muito in, e que não acha muita graça a Larry, por este, regressado da guerra, querer “vadiar” e não estar muito interessado em contribuir para o progresso da América, arranjando um bom emprego e desfrutando da sua condição de pertencer à melhor sociedade, aos endinheirados que tudo podem e tudo se permitem. Pelo contrário, Larry vive angustiado com uma recordação dolorosa da guerra, que evoca com discrição: foi salvo por um camarada de armas que morreu ao salvá-lo a ele. A sua viagem agora é uma longa procura espiritual: quer encontrar um sentido para a sua vida e um sentido para aquele acto de extrema generosidade e abnegação desse piloto que se atravessou entre o seu avião e o de um alemão.
Larry não quer casar já, quer passar um ou dois anos em Paris, para onde parte. Aí chegado, não aceita os préstimos de Elliot, que o procura apresentar à melhor sociedade, aluga um quarto manhoso numa pensão de quinta ordem, lê tudo o que pode, confraterniza em tertúlias de artistas, viaja e flaneia à sua maneira. Passa pela Alemanha, trabalha numa mina em França, onde cria amizade com um polaco, persegue gurus que o levam até à Índia, descobre-se iluminado por um saber interior que estimula a sua espontânea generosidade. Reencontra-se por várias vezes com Isabel, com quem aceita desfazer o casamento, mas nunca a amizade, troca carícias e amor com mulheres avulsas que o seduzem e de quem aceita o prazer, mas nunca se descobre um amante impulsivo e apaixonado. Recebe a notícia do casamento de Isabel com Gray Maturin com satisfação, assiste à derrocado emocional de Sophie, que vê marido e filho morrerem num acidente de automóvel, e que nunca mais se recompõe do terrível trauma, surpreende-a anos depois numa tasca imunda de Paris, bêbeda e promíscua, dependente do ópio e de uma angústia que a prostra e a levará à morte, pescoço cortado por uma fina lâmina que a atira, primeiro para o Sena e depois para a morgue. No meio de todo este drama, Larry tenta ainda salvar Sophie, oferece-lhe o seu amor (sobretudo o seu “calor”) e o seu quarto em Montparnasse, pede-a em casamento e tenta libertá-la do vinho e das drogas, mas uma “imprevidência” deliberada de Isabel provoca a queda no abismo e a tragédia da sua melhor amiga de infância, que, todavia, ela não consegue ver casada com Larry, o homem que ela sempre amou, e ainda ama, e sempre irá amar, mas que abandonou, perante a perspectiva de uma vida inquieta a seu lado, e o radioso futuro de uma existência tranquila e abastada ao lado de Gray.

Acontece que a fortuna dos Maturin se afundou com a grande recessão de 1929, e o casal volta a Paris na penúria, com duas filhas, aceitando a “esmola” de viverem no palácio de Elliot enquanto se regeneram socialmente. Larry terá mesmo a função de curar Gray de persistentes enxaquecas, com o milagroso saber que trouxera da Índia. Finalmente, um dia, depois de muitas aventuras e peripécias, de dramas e tragédias, com algumas alegrias pelo meio, Larry está pronto para voltar à sua terra, a América. Para ser taxista, talvez, mas agora com alguma possibilidade de entender um pouco melhor a vida e a sua finalidade. A procura terminou, Larry sabe-se um entre milhões, não será nunca um homem excepcional, não irá colocar em letra de forma a sua extraordinária aventura, basta-lhe viver o melhor que pode o resto da sua vida. W. Somerset Maugham assim pensa: “Não tem ambições, nem desejo de se tornar célebre; distinguir-se aos olhos do público ser-lhe-ia sumamente desagradável; é, portanto, admissível que se contente em levar a vida que escolheu e ser apenas ele próprio. É excessivamente modesto para se oferecer como exemplo aos olhos dos outros; mas é possível que julgue que algumas almas indecisas – para ele atraídas como borboletas para a chama - chegarão, com o tempo, a compartilhar da sua maravilhosa crença de que a verdadeira felicidade só pode ser encontrada nas coisas do espírito, e que esteja convencido de que, trilhando com abnegação e renúncia o caminho da perfeição, está praticando o bem tão positivamente como se estivesse escrevendo livros ou discursando a multidões.”
Toda esta intriga é acompanhada, portanto, pelo próprio W. Somerset Maugham que, assumindo-se como personagem do seu próprio romance, logo a abrir, confessa: “Não inventei coisa nenhuma.” E acrescenta: “Este livro parte das recordações que tenho de um homem com quem, em épocas muito espaçadas, tive íntimo contacto; mas pouco sei do que lhe aconteceu nos intervalos. Creio que, recorrendo à imaginação, eu poderia preencher plausivelmente as lacunas e tornar mais coerente a minha narrativa; mas a tal não me sinto atraído. Quero unicamente relatar factos de que tenho conhecimento.”
Pelos vistos assim será. Durante anos, após o lançamento do livro, e sobretudo após as adaptações ao cinema, muito se tem especulado sobre quem seriam na realidade as personagens em que se inspirara W. Somerset Maugham para escrever o seu romance. Elliot Templeton terá merecido alguma atenção, bem como o “holy man” que Lary visita na Índia e que para muitos estudiosos parece fácil de desvendar (fala-se em Sri Ramana). Mas a figura mais enigmática e aquela que tem feito correr mais tinta é obviamente a de Larry Darrell. Há um site na internet que ao longo de centenas de páginas procura explicar que Larry Darrell não é outro senão um tal americano de nome Guy Hague que terá percorrido um caminho idêntico ao de Darrell. Para os interessados fica aqui a chave de entrada nesse reino de pesquisa que não acaba mais:
http://www.geocities.com/upakaascetic/all_larry_darrell.html.

O Filme de 1946
George Cukor terá sido o primeiro a ser convidado a assinar a versão de 1946 de “The Razor’S Edge”, mas rapidamente o produtor Darryl F. Zanuck o despediu, em virtude do tipo de adaptação que o realizador sugeria e que não agradava de forma nenhuma ao boss da Twenty Century Fox. Acabou por ser Edmund Goulding, um realizador interessante, mas homem sem grande marca pessoal, a aceitar a encomenda de que se desembaraçou com satisfação geral.
Tyrone Power, que acabava de regressar da Europa e da intervenção na II Guerra Mundial, mostrava-se farto de interpretar a figura de aventureiros sem registo psicológico de assinalar, pretendia papéis com outra dimensão humana, e prometeu regressar a Zorro se lhe oferecem o desempenho de Larry Darrell. Por outro lado, W. Somerset Maugham, vivendo do sucesso dos seus romances mais falados, viajou até Hollywood em 1945 para escrever a adaptação do seu romance para cinema, de colaboração com Lamar Trotti, um argumentista da velha escola de Hollywood. Quando Darryl F. Zanuck lhe perguntou quanto levava pelo trabalho, três meses depois, o escritor declinou qualquer pagamento (bastavam-lhe os direitos que auferiu na concessão do livro para adaptação ao cinema, e que ascenderam a 150.000 dólares, recebidos em Outubro de 1944), aceitou apenas ser ressarcido das suas despesas nos EUA, mas acabaria por receber na volta um quadro de Matisse (dizem que no valor de 15.000 dólares). Darryl F. Zanuck mostrou-se generoso quanto ao pagamento, mas não usou uma linha dessa adaptação. W. Somerset Maugham não ficou nem surpreendido, nem aborrecido. Conta-se, aliás, que quando trabalhava com Lamar Trotti o descobriu tão zeloso na fidelidade à obra e na forma de a adaptar ao cinema, que lhe confidenciou: “Você ainda é mais respeitoso com Maugham, o escritor, do que eu mesmo!”
Na capa do guião escrevera mesmo: “Por favor, notem que, no fundo, isto é uma comédia, e deve ser interpretada enquanto tal por todos os actores, excepto nas passagens definitivamente sérias.”
A adaptação do escritor funcionou apenas como um esboço para a adaptação final. Maugham comentou: “Zanuck nunca utilizou uma única linha do meu guião…. Tomaram imensas liberdades com o meu romance original no guião que acabou por ser filmado. Mas Maugham sentiu-se satisfeito por “ter sido eliminado por $15,000" e admitia que “The Razor's Edge” tinha algumas qualidades de acção, de movimento ("pedestrian”) que convidavam à injecção de certos estímulos cinematográficos. “

Estreado a 20 de Novembro de 1946, no "Roxy", em New York City, numa soirée de gala, “O Fio da Navalha” dividiu opiniões críticas. Muitos apoiaram entusiasticamente, mas o crítico do “The New York Times” refere "diálogos vazios". O que não impediu o filme de galopar nas bilheteiras até uma receita de cinco milhões de dólares (tendo custado 1, 2 milhão).
Na cerimónia de atribuição dos Oscars do ano, “O Fio da Navalha” ganhou o “Oscar de Melhor Actriz Secundária (para Anne Baxter), além de ter sido nomeado em outras três categorias: Melhor Filme, Melhor Actor Secundário (Clifton Webb) e Melhor Direcção Artística (a preto e branco). Entretanto, nos Globos de Ouro, alcançou duas estatuetas: para os dois actores secundários (Clifton Webb e Anne Baxter).
Perante estes resultados, artísticos e sobretudo económicos, Zanuck pensou numa sequela, mas Maugham não aceitou: “A única sequela que conheço tão boa como o original é “Don Quixote”, e eu estaria louco se admitisse uma continuação para “The Razor's Edge".
O filme foi lançado com uma boa proposta: “Ele tinha tudo e não queria nada. Aprendeu que não tinha nada e queria tudo. Salvou o mundo e ficou devastado. O caminho para a salvação é tão cortante e fino como o fio da navalha.” O que se aproxima muito da frase de Katha-Upanishad que serve de citação inicial à obra literária: “Difícil é andar sobre o fio aguçado de uma navalha e árduo, dizem os sábios, é o caminho da salvação.”
Estas obras, tanto o romance de 1944, como o filme, de dois anos mais tarde, terão sido percursoras do movimento “hippie” que se desencadeou durante a década de 60, bem como instigadoras fundamentais das inúmeras peregrinações ao Oriente, em direcção a Kathmandu e outras paragens de inspiração budista e hinduísta. Foram igualmente importantes para modificar o olhar e a posição do Ocidente em relação ao Oriente, afastando a ideia de que por estas bandas asiáticas só imperava o mistério maléfico de Fu Manchu e parceiros. Rapidamente citem-se duas razões para avalizar uma boa adaptação: a primeira é que se não se quer ser fiel ao espírito da obra, então porque se adapta? A segunda é que nem sempre (ou melhor, quase nunca) uma adaptação fiel ao romance (ou à obra original) assegura uma nova obra de qualidade. Dito isto, tudo é possível. No caso da versão de 1946 de “The Razor’s Edge” há que referir desde logo algo que me parece muito original na altura: aparecer a personagem do escritor, enquanto tal (Somerset Maugham em pessoa) que convive com as outras personagens do seu romance em pé de igualdade. Ele funciona como no livro: um inquisidor que vai despoletando diálogos, recolhendo informações, inquirindo, procurando saber, ligando factos e figuras, dando algum sentido a uma história cheia de hiatos. Herbert Marshall é um W. Somerset Maugham plausível e correcto, não intervindo demasiado, olhando com alguma ironia esse "jet-set" que interpela, essa "beautifull people" com que se encontra, mas nunca deixando de os observar com alguma ternura e sensibilidade. Para Maugham, um mineiro e um dandy podem e devem ser vistos com a mesma delicadeza de olhar e igual afecto. Ambos participam de uma obra muito vasta, ambos se moldam com a mesma matéria, com fraquezas e vícios, virtudes e forças desconhecidas a uma primeira impressão. O que não quer dizer que todos sejam objecto da mesma fraternidade e simpatia. Ao longo do romance há personagens de sombreado mais carregado, de interpretação menos dúbia. Mas, obviamente, que o prazer da companhia vai direitinho para Larry Darrell, que dir-se-ia o “seu tipo inesquecível”.
A adaptação parece-me extremamente interessante, porquanto não se procura manter apenas fiel às peripécias do romance, mas procura “adaptá-lo” a um novo contexto narrativo, sem perder a essência da obra donde parte. Houve que concentrar situações e personagens, há figuras que desaparecem, como Suzanne Bouvier, outras que ganham mais força no filme, como Isabel Bradley, Sophie Nelson Macdonald ou Elliott Templeton (valorizadas, e muito!, pelos desempenhos notáveis de todos os actores que os vivem), há muita conversa em busca do Absoluto que é substituída por imagens que tendem a instalar a sugestão. Há uma soberba fotografia que acentua o lado espiritualista do projecto, sublinhando a riqueza dos cinzentos, num mundo que nunca é visto num agressivo e contrastado preto e branco.
Há infelizmente, como já procurei referir a abrir, algumas sequências de um exotismo de pacotilha, sobretudo nas “caves” de Paris, com parisienses de bigodinho e comportamento estereotipado. Mas existe, por outro lado, uma preocupação de verdade noutras cenas, quer nos ambientes requintados de Chicago ou Paris, quer nas minas francesas ou nas alturas das montanhas indianas.
Resumidamente, parece-me um filme plasticamente muito bem resolvido, sem o sopro do génio na realização, é certo, mas com o saber técnico e o rigor seguro de um profissional competente, servido aqui e ali por alguma respiração a rondar a excepção, o que torna o projecto ambicioso e exaltante. É o tipo de filme que se vê e se não esquece facilmente.

O Filme de 1984
O mesmo não se poderá dizer de “O Fio da Navalha”, na sua versão de 1984, rodada por John Byrum, com a colaboração no argumento de Bill Murray, que é igualmente o protagonista. Nalguns aspectos, a história repetia-se. Bill Murray, apaixonado pelo projecto, teve de se impor à produtora, a Columbia, com argumentos idênticos aos de Tyroner Power, quarenta anos antes: “Se quiserem mais “Biggie Goes to College Movies" (tipo de filmes que interpretava com imenso sucesso), terei de fazer “The Razor's Edge”.
Inicialmente há que referir a adaptação que é, curiosamente, o inverso da de 1946: aqui tudo se transforma. Larry Darrell é visto abundantemente durante a sua contribuição na I Guerra Mundial (como elemento de uma ambulância da Cruz Vermelha, e não como piloto, o que desvia o filme do romance para o romancista: Maugham é que desempenhou semelhante tarefa durante esse conflito), o que permite várias sequências de movimentadas acções militares, que acenam à espectacularidade, mas acabam por sofrer de um decorativismo sem autenticidade, cheirando tudo a plástico e a vulgar guarda-roupa. Depois, o tratamento dado ao romance é discutível, não tanto por sublinhar umas situações e personagens e relegar para a sombra outras. Essa seria uma liberdade que se justifica, se os fins o confirmassem. Mas, infelizmente, nada se passa assim. Isabel é quase esquecida, para dar lugar a uma Sophie muito mais presente (a escolha das actrizes desde logo prenunciava tal: Theresa Russell é Sophie MacDonald, Catherine Hicks é Isabel Bradley), sem que se consiga nada de suplementar (muito pelo contrário, a obra fica coxa). A personagem de Larry Darrell é construída por Bill Murray na linha das suas composições na época (“Stripers” ou “Os Caça-Fantasmas”, por exemplo), e muito longe do que depois seria o seu trabalho num outro registo, em “Lost in Translation”, por exemplo. Demasiado humor de situação e pouca ironia. Parece que a ideia de Murray-Byrum era actualizar a mensagem do romance e levá-la as gerações mais jovens. Intenções malogradas, já que o insucesso foi completo e o filme um tremendo “flop”. Finalmente, todo o projecto enferma de um mesmo vício: um esteticismo “bonitinho” que passa da fotografia à música, da direcção artística aos cenários. Tudo muito bilhete-postal, desde as cenas rodadas no campo de batalha até aos interiores de Paris ou aos exteriores da Índia. John Byrum que se estreara em 1974, com uma obra profundamente interessante e surpreendente, “Inserts”, prosseguira-a depois com Heart Beat (1980), ainda muito estimável, mas daí em diante nunca mais se voltou a notabilizar. Construiu uma lenda de autor intratável que o lançou para raras contribuições na televisão e pouco mais. O seu “The Razor's Edge” (1984) é uma decepção que, todavia, mantém admiradores incondicionais (veja-se o site
http://www.theoldcorner.org.uk/exclusive.htm).
O FIO DA NAVALHA
Título original: The Razor's Edge
Realizador: Edmund Goulding (EUA, 1946); Argumento: Lamar Trotti, segundo romance de W. Somerset Maugham; Darryl F. Zanuck (sequências adicionais); Música: Alfred Newman; Fotografia (p/b): Arthur C. Miller; Montagem: J. Watson Webb Jr.; Direcção de arte: Richard Day, Nathan Juran; Decoração: Thomas Little; Maquilhagem: Ben Nye; Direcção de produção: Raymond A. Klune; Guarda-roupa: Oleg Cassini, Charles Le Maire, Sam Benson; Assistentes de realização: Saul Wurtzel; Departamento de arte: Paul S. Fox, Lady Elsie Mendl; Som: Alfred Bruzlin, Roger Heman Sr.; Efeitos especiais: Fred Sersen; Produção: Darryl F. Zanuck; Companhia produtora: Twentieth Century-Fox Film Corporation
Intérpretes: Tyrone Power (Larry Darrell), Gene Tierney (Isabel Bradley), John Payne (Gray Maturin), Anne Baxter (Sophie Nelson Macdonald), Clifton Webb (Elliott Templeton), Herbert Marshall (W. Somerset Maugham), Lucile Watson (Louisa Bradley), Frank Latimore (Bob Macdonald), Elsa Lanchester (Miss Keith, secretária da Princesa), Fritz Kortner (Kosti), John Wengraf (Joseph), Cecil Humphreys (Homem sagrado), Harry Pilcer (dançarino), Cobina Wright Sr. (Princesa Novemali), Dorothy Abbott, George Adrian, Demetrius Alexis, Olga Andre, John Ardell, Frank Arnold, Juan Arzube, Richard Avonde, Claude Avray, Louis Bacigalupi, Virginia Barnato, Robert Barron, Claude Bayard, Eugene Beday, Pati Behrs, Emile Bejaut, Stanislaw Belski, Wilson Benge, Evelyn Bennett, Carmen Beretta, Walter Bonn, Eugene Borden, Jacques Boyjan, George Brenner, Mary Brewer, Maurice Brierre, George Bruggeman, Frederic Brunn, Paul Bryar, Joseph Burlando, Peter Camlin, Renee Carson, Jaque Catelain, David Cavendish, André Charlot, Jack Chefe, Gordon Clark, Louise Colombet, Helene Copel, Robert Cornell, Franco Corsaro, Noel Cravat, Mary Currier, Adolph Damotte, Roberta Daniel, Eddie Das, Alexis Davidoff, John Davidson, George Davis, Jack Davis, Jean De Briac, Paul De Corday, Marcel De la Brosse, Gene De Liere, Jean Del Val, Harry Denny, Ray De Ravenne, Henri DeSoto, Marion de Sydow, Juan Duval, Gerald Echaverria, Gale Entrekin, Edward Equinet, Nestor Eristoff, Ben Erway, Joe Espitallier, Paul Everton, Fed Farrell, John Farrell, Bertha Feducha, Bess Flowers, Robert Ford, Leo Galitzine, Jack Gargan, George Gastine, Helen Giere, Fred Godoy, Sol Gorss, Dolores Graham, Don Graham, Fred Graham, Marcelle Grandville, Greta Granstedt, Edna Mae Harris, Susan Hartmann, Jamiel Hasson, Yvette Heap, Bert Hicks, Jackson Jordan, Wanda Karska, Dorothy Kelly, Frank Kerbrat, Hassan Khayyam, Ilia Khmara, Nicholas Kobliansky, Theodore Kompanetz, Edward Kover, Serge Krizman, Yolanda Lacca, Isabel La Mal, Raymond Largay, Robert Laurent, Tony Laurent, Eddie Le Baron, Henri Letondal, Arthur Little Jr., Manuel López, Jacques Lory, Charles Loyal, Tanya Lupeea, Maurice Marsac, Andre Marsaudon, Michael Mauree, George Mendoza, Louis Mercier, Ruth Miles, Rene Mimieux, Baldo Minuti, Frances Morris, Diana Mumby, Henri Muro, Forbes Murray, Joan Myles, George Navarro, Mayo Newhall, Barry Norton, Robert Norwood, Suzanne O'Connor, Peggy O'Neill, Alfredo Palácios, Manuel Paris, Helen Pasquelle, Marg Pemberton, Albert Petit, Alex Pollard, Albert Pollet, Marie Rabasse, Alfred Redgis, Frances Rey, Loulette Sablon, Cosmo Sardo, Leonardo Scavino, Suzanne Schwing, Shushella Shakari, Robert Shaw, Mario Siletti, Paul Singh, Dina Smirnova, George Sorel, Aldo Spoldi, Lillian Stanford, Ann Staunton, Hermine Sterler, Laura Stevens, Adele St. Mauer, Blanche Taylor, Dr. Ross Thompson, Olga Marie Thunis, Willy Thunis, Nanette Vallon, Roger Valmy, Tyra Vaughn, Odette Vigne, Jacques Villon, Betty Lou Volder, Jack Wagner, Basil Walker, Joe Warfield, Joanee Wayne, Barrett Whitelaw, Crane Whitley, Marek Windheim, Al Winters, Bud Wolfe, Frank Wolf, Jack Young, etc. Duração: 145 minutos; Locais de filmagem: Denver, Colorado (EUA); Data de estreia: Dezembro de 1946 (EUA).

O FIO DA NAVALHA
Título original: The Razor's Edge
Realizador: John Byrum (EUA, 1984); Argumento: John Byrum, Bill Murray, segundo romance de W. Somerset Maugham; Música: Jack Nitzsche; Fotografia (cor): Peter Hannan; Montagem: Peter Boyle; Design de produção: Philip Harrison; Direcção de arte: Malcolm Middleton; Decoração: Stuart Rose, Ian Whittaker; Guarda-roupa: Shirley Russell, Catherine Halloran, Michael Jeffery, Aperna Kasara; Maquilhagem: George Frost, Mike Jones, Mike Lockey; Direcção de produção: Atul Bhasin, John Comfort, Sudesh Syal, Serge Touboul; Assistentes de realização: Laurent Brégeat, Ray Corbett, Kieron Phipps, Kanwal Swaroop; Departamento de arte: Terry Apsey, Jean-Pierre Bazerolle, Arun Joglekar, Robert Le Corre, Marcel Simeon, Saba Zaidi; Som: Rene Borisewitz, Stan Fiferman, Leslie Hodgson; Efeitos especiais: Martin Gutteridge; Casting: Elizabeth Desouches, Jacqueline Perpere, Jennifer Shull, Maude Spector; Produção: Harry Benn, Rob Cohen, Jason Laskay, Robert P. Marcucci; Companhias produtoras: Columbia Pictures Corporation, Marcucci-Cohen-Benn Production.
Intérpretes: Bill Murray (Larry Darrell), Theresa Russell (Sophie MacDonald), Catherine Hicks (Isabel Bradley), Denholm Elliott (Elliott Templeton), James Keach (Gray Maturin), Peter Vaughan (Mackenzie), Brian Doyle-Murray (Piedmont), Stephen Davies (Malcolm), Saeed Jaffrey (Raaz), Faith Brook (Louisa Bradley), André Maranne (Joseph), Bruce Boa (Henry Maturin), Serge Feuillard (Coco), Joris Stuyck (Bob MacDonald), Helen Horton, Michael Fitzpatrick (Tyler), Robert Manuel (Albert), Sam Douglas, Nora Connolly, Jeff Harding, Richard Oldfield, Gordon Sterne, Mary Larkin, Christopher Muncke, Russell Sommers, John Moreno, Hugo Bower, Abbie Shilling, Cassie Shilling, Jean-François Soubielle, Claude Le Saché, Caroline John, Daniel Chatto, Louis Sheldon, Kunchuck Tharching, Derek Lyons, etc.
Duração: 128 minutos; Data de estreia: 19 de Outubro de 1984 (EUA).