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sexta-feira, junho 06, 2008

CINEMATECA PORTUGUESA?

Anda por ai a circular uma petição para a Cinemateca Portuguesa criar um extensão no Porto. Já assinei, claro. Mas acho estranho existir a Cinemateca Portuguesa há tanto tempo, e só agora se lembrarem dela como sendo “portuguesa” e não “lisboeta”, que é o que tem sido desde que o seu actual director a dirige a seu belo prazer. Acontece que o facto da Cinemateca Portuguesa não ter extensões no Porto, não é estranho, pois que não tem em mais parte nenhuma, e que há tantas outras anomalias no seu funcionamento e quase ninguém dizer nada. Uma cinemateca é um local onde se recolhe e se ajuda a fazer a história do cinema. Não de uma corrente histórica ou estética do cinema, mas de todo o cinema. A Cinemateca Portuguesa nunca o fez. Obedece aos ditames estéticos do seu director e só a esses. O senhor não gosta de 80 por cento do cinema português, que aliás já o disse e o escreveu, “não existe”. Quando morre um daqueles de quem não gosta, lá aceita passar um ciclozinho de homenagem, com o ar de que “deste já nos livrámos”, já não volta a chatear. E publica um opusculozinho de vinte páginas a preto e branco para celebrar a efeméride e arrumar com o caso. Mas depois há “os filhos” e “os amigos” para quem nunca são demais as benesses.
O senhor gosta de fazer ciclos para cem espectadores em Lisboa e ninguém se lembrou nunca de questionar esta característica. O senhor não gosta de emprestar os seus filmes a ninguém, nem em extensões, nem em festivais, nem em ciclos, nem em comemorações. Todos sabem isso, mas tudo continua na paz dos anjos. O senhor gosta de catálogos luxuosos, onde imprimir os seus textos e os trabalhos que os seus empregados coligem para ele. Com o orçamento de um catálogo, poderiam fazer-se dois ou três, mas que importa? O senhor acha que o cinema é uma arte, e esquece que o cinema não é só uma arte, é uma indústria, é um precioso espólio histórico, é uma fonte inesgotável de conhecimento e de ensinamentos, mas nunca o foi para a Cinemateca Portuguesa.
O senhor gosta de se julgar um reizinho que pode por e dispor, até de nomear sucessores e deixar descendência. E a malta aceita. Não se vêem manifestações na rua Barata Salgueiro. O senhor afinal pode dizer as asneiras que quiser, atropelar a História, inventar factos e personagens que está imune. Não se contraria um Prémio Pessoa. Quando se tenta repor a verdade dos factos e se escreve para um jornal e se pede publicação, se a pessoa visada for o senhor, nada a fazer. O texto cai no esquecimento e o senhor não será incomodado. Não se publica nem se dá qualquer explicação para o facto.
Há factos que concedo: o senhor escreve bem e tem, normalmente, bom gosto. Mas não são essas as características essenciais para dirigir uma Cinemateca. Numa Cinemateca não se exige bom gosto, exige-se competência histórica, exige-se igualdade de tratamento, exige-se isenção, exige-se um respeito idêntico por todos, para lá que qualquer “questão” de gosto pessoal. Exige-se que uma Cinemateca Portuguesa esteja ao serviço de todos quantos a sustentam. Que somos nós todos, portugueses, e não o grupinho de amigos fixes que se reúne para ver as obras que o mestre sanciona.
Exige-se mais. Exige-se alguém que percebe que o cinema não parou no tempo. Que a única maneira de ver filmes não é numa sala de cinema, onde corre uma película de 35 milímetros. Por muito que lhe custe, o cinema muda, como tudo na vida. É vergonhoso que a Cinemateca Portuguesa não tenha ainda colocado à disposição do público DVDs com clássicos do Cinema Português. Não há um único filme mudo à disposição do espectador, das escolas, das universidades. Deveria ser uma tarefa da Cinemateca. Todas as congéneres no mundo o fazem. Em Portugal, o cinema é para ver em sala, em 35 milímetros, e fundamentalmente na salinha da Barata Salgueiro.
Será que algo vai mudar?
Petição: Mais de 3.600 pessoas já assinaram. Aqui: