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quinta-feira, dezembro 15, 2011

TEATRO: QUEM TEM MEDO DE VIRGINIA WOOLF?

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 QUEM TEM MEDO DE VIRGINIA WOOLF?

NO CINEMA E NO TEATRO

As possibilidades oferecidas pelas novas tecnologias têm aspectos muito positivos. Mal acabei de ver “Quem tem Medo de Virgínia Woolf’” no Teatro Nacional de D. Maria II, chegado a casa recordei o filme, com o simples gesto de introduzir o DVD no leitor. Algo impensável há anos atrás e que agora permite leituras quase simultâneas, comparações e revisões da matéria dada num ápice. Além de somar às duas horas e meia da peça os 125 minutos do filme. Juro que não foi masoquismo, mas um exercício muito interessante e proveitoso, para perceber estratégias e opções de encenação e realização. E de adaptação.
Claro que é difícil sustentar uma comparação entre a versão portuguesa e a que o filme nos oferece, mas, apesar disso, julgo meritório o esforço de actores e técnicos nacionais. Mas vamos por partes. 
“Who's Afraid of Virginia Woolf?”, a peça de Edward Albee, estreou no Billy Rose Theater, na Broadway, no dia 13 de Outubro de 1962, numa encenação de Alan Schneider, com um elenco constituído por Arthur Hill (George), Uta Hagen (Martha), Melinda Dillon (Honey) e George Grizzard (Nick). Esteve em cena durante dois anos, com 664 representações. Durante esse tempo, o elenco foi substituído. Entraram Henderson Forsythe, Eileen Fulton, Mercedes McCambridge e Elaine Stritch. E como a peça era muito longa, com uma duração que quase atingia as três horas, havia um elenco de substituição para algumas récitas, sobretudo matinées: Kate Reid (Martha), Shepperd Strudwick (George), Avra Petrides (Honey) e Bill Berger (Nick).
Um acontecimento para a época, dado que Albee não era um autor conhecido senão dos circuitos off-Broadway, onde já tinha estreado algumas peças em um acto, nomeadamente “The Zoo Story” (1958) ou “The Sandbox” (1959). Mas “Who's Afraid of Virginia Woolf?”, a princípio recebida com alguma relutância, em função sobretudo da sua linguagem desabrida e pouco habitual em palcos, haveria de recolher o Tony de 1963 para a melhor peça do ano e o Prémio do Círculo de Críticos Teatrais de Nova Iorque. Foi seleccionada para o Pulitzer de 63, mas a Universidade de Columbia, que patrocina o prémio, não permitiu que o mesmo fosse atribuído, com a justificação de que a obra continha alusões sexuais e obscenidades.
Como facilmente se percebe “Who's Afraid of Virginia Woolf?” é uma brincadeira que parte da canção do filme de animação de Walt Disney “The Three Little Pigs”, onde aparece a pergunta: "Who's Afraid of the Big Bad Wolf?". Dado que se trata de um peça que decorre em ambientes universitários, o trocadilho literário impunha-se sintoma de um certo snobismo intelectual.
Albee reúne dois casais na sala de estar da casa de um deles. A peça estrutura-se em três actos que o autor identifica: “Act One - "Fun and Games”, “Act Two - "Walpurgisnacht" e “Act Three - "The Exorcism".
A casa é a de George e Martha, que acabam de regressar de uma festa e que convidam para uma longa noitada um casal recém chegado ao campus universitário. George é professor de História numa universidade americana cujo reitor é o pai da sua mulher Martha. Nick e Honey são os debutantes, sendo que ele vem assegurar uma cadeira de biologia. O álcool já correra na festa de onde vêm, e continuará a circular abundantemente durante o resto da vigília. George e Martha gostam de ter plateia para os seus confrontos verbais. Tudo indica que esta é apenas mais uma das sua típicas discussões, onde se agridem sem pudor, onde deixam extravasar toda a sua frustração e tristeza. George sonha com a cátedra de História, mas não a alcança e Martha humilha-o por isso. Nick e Honey são, aparentemente, os cordeirinhos escolhidos para o sacrifício dessa noite. Eles são os espectadores de um “jeu de massacre” impiedoso, e Nick oferece-se mesmo para concretizar a vingança de Martha.
Mike Nichols passou a cinema esta peça em 1966 e escolheu para o reduzido elenco duas excelentes duplas de actors: Elizabeth Taylor (Martha) e Richard Burton (George), George Segal (Nick) e Sandy Dennis (Honey). A escolha de Burton e Taylor não poderia ter sido melhor, dado que a própria vida privada deste casal poderia ter algo a ver com a de George e Martha. De todas as formas, o que prevalece no filme, que consegue uma extraordinária tensão entre as personagens, servido pelo magnífico preto e branco do notável director de fotografia Haskell Wexler, é a oposição entre um casal carregado de passado, de traumas e frustrações, que explode (regularmente?) como forma de exorcizar esses fantasmas, e um novo casal, sem passado visível e nada assegurando que com muito futuro. O peso da representação dos actores é impressionante, tornado particularmente complexa a relação que se estabelece entre eles. Os três “rounds” deste cruel combate que chega a ser quase de vida ou de morte, não se esgotam numa simples definição. George e Martha coabitam odeiam-se mas também se amam. A sequência final é significativa. Eles estão ali para continuarem, para enlaçarem as mãos e, no próximo fim-de-semana, voltarem a envolver-se numa feroz disputa. Com amor e ódio.
Mike Nichols foi muito inteligente na forma como adaptou a peça ao ecrã, com curtas saídas da sala de estar, nunca permitindo que essas “excursões” cortassem a densidade e a tensão psicológica estabelecida entre as personagens.
Esta nova encenação portuguesa não é deslumbrante, mas cumpre eficazmente o regresso da obra às salas portuguesas. Surge depois das encenações de João Vieira, numa produção Vasco Morgado, em 1971, de Fernanda Lapa, no Teatro de Hoje, em 1990, e de Carlos Otero, no TAS, em 2000.
Com um belíssimo cenário de F. Ribeiro e um excelente desenho de luzes de Nuno Meira, este espectáculo do Teatro Nacional de D. Maria II, último da era Diogo Infante, conta com uma encenação sóbria, mas não muito inspirada, de Ana Luísa Guimarães e um elenco esforçado, com Virgílio Castelo e Maria João Luís, no casal que se auto destrói, e Romeu Costa e Sandra Faleiro nos visitantes inexperientes que assistem a um perigosos jogo de revelações, de mentiras e de ilusões perdidas.
“Se existir uma história daqui a alguns anos e eu fizer parte dela, atrevo-me a dizer que “Quem tem medo de Virginia Woolf?” será a peça que melhor se identifica com o meu nome”. Estas foram palavras proferidas por Edward Albee, no programa do espectáculo apresentado em 1996, em Londres. Ela é indiscutivelmente uma das grandes peças de teatro da dramaturgia do século XX. Só por isso valeu a pena a sua releitura pelo TNDM II.

QUEM TEM MEDO DE VIRGINIA WOOLF?
Título original: Who's Afraid of Virginia Woolf?
Realização: Mike Nichols (EUA, 1966); Argumento: Ernest Lehman, segundo peça teatral de Edward Albee; Produção: Ernest Lehman; Música: Alex North; Fotografia (p/b): Haskell Wexler; Montagem: Sam O'Steen; Design de produção: Richard Sylbert; Decoração: George James Hopkins; Guarda-roupa: Irene Sharaff; Maquilhagem: Gordon Bau, Ron Berkeley, Sydney Guilaroff, Jean Burt Reilly; Assistentes de realização: Bud Grace; Departamento de arte: Craig Binkley, Harold Michelson, Joseph Musso; Som: M.A. Merrick; Direcção de Produção: Richard Barr, Doane Harrison, Clinton Wilder; Genérico: Wayne Fitzgerald; Coreógrafo: Herbert Ross; Companhias de produção: Warner Bros. Pictures, Chenault Productions; Intérpretes: Elizabeth Taylor (Martha), Richard Burton (George), George Segal (Nick), Sandy Dennis (Honey), Agnes Flanaganm Frank Flanagan, etc. Duração: 131 minutos; Distribuição em Portugal: Astória Filmes; Classificação etária: M/ 17 anos; Estreia em Portugal: 1967.

sábado, janeiro 19, 2008

CINEMA: JOGOS DE PODER

JOGOS DE PODER
Em “Jogos de Poder” aparece um agente da CIA que por várias vezes tenta contar uma história que nós só ouviremos, na integra, no fim do filme. Uma história metafórica, é óbvio, sobre uma criança e um mestre Zen. A criança conta que lhe ofereceram um cavalo, o que, diz, é óptimo. O mestre acrescenta: “Veremos!”. A criança caiu do cavalo e partiu uma perna e lamentou-se da desgraça. O mestre Zen: “Veremos”. As crianças foram chamadas para a guerra, excepto aquela que estava com a perna partida, e ficou feliz: “Veremos!”, voltou a concluir o mestre. Concluir, não, suspender, esta a verdade que o mestre Zen procurava difundir. Ou seja, nada é definitivo, ou se preferirem, nunca se sabe o eco dos nossos actos. Julgamos por vezes estar a fazer algo muito preciso, e as circunstâncias futuras se encarregarão de demonstrar que não é bem assim que as coisas serão nesse tal futuro.
Por exemplo: em inícios da década de 80, nos EUA, em pleno reinado do republicano Ronald Reagan, existiu (existiu mesmo, assim como existiram os actos descritos no filme, asseguram argumentista e demais responsáveis) um senador democrata do Texas, de nome Charlie Wilson, solteirão, pouco conhecido da comunicação social, mas não nos corredores do poder, dado a mulheres e álcool, e sem problemas de o assumir. Foi Tom Hanks quem explicou as pretensões de Charlie Wilson quanto á forma de ser apresentado no filme: “Não me importo que me mostrem bêbado, a consumir drogas ou a dormir com mulheres. Nada disso me importa porque, provavelmente, fiz essas coisas. Mas, acima de tudo, quero que se retrate de forma fiel a importância da missão." A “missão” era a sua assumida luta contra o comunismo internacional. Por essa altura os soviéticos estavam metidos no Afeganistão até às orelhas, mas a guerrilha “mujahidina” não desarmava, resistia, apesar dos milhares de baixas que a aviação moscovita provocava. Eram aviões e helicópteros de último modelo contra armas da I Guerra Mundial. Um massacre.
Charlie Wilson (Tom Hanks) dirigia uma comissão para apoio a guerrilhas anti-comunistas. Depois de falar e ser (duplamente) seduzido pelas palavras (e não só!) da multimilionária texana Joanne Herring (Julia Roberts), que organizava soirées muito concorridas para angariar fundos para a luta contra a URSS, Charlie compreende que a luta do povo do Afeganistão tem de ter um outro apoio e percebe igualmente que uma derrota soviética nas montanhas rochosas do Médio Oriente poderia ser o início do fim para o inimigo nº 1 dos EUA.
Com o apoio de Gust Avrakotos (Philip Seymour Hoffman), um irado e subaproveitado agente da CIA, consegue duplicar, quadruplicar, e voltar a quadruplicar o orçamento de apoio aos afegãos, permitindo-lhes um armamento à altura da situação, que inverteu por completo os dados da questão. Poucos anos passados, os soviéticos saem daquele País com o peso de um derrota humilhante, e não faltou muito para a queda do muro de Berlim, da própria URSS e do pacto de Varsóvia. O Leste Europeu desmoronava-se perante esta vitória em toda a linha de alguns falcões americanos. Verdade? “Veremos”, teria dito o mestre Zen. E viu-se. A URSS acabou-se, mas os americanos descobriram um novo 31, abastecido por armas por si oferecidas. Começou no 11 de Setembro, passou pelo Afeganistão, onde re-encontraram os “talibans”, antes por si armados e treinados, já vai no Iraque, nada dos diz que não atravesse o Irão e assim por diante. “Catastrófico?” “Veremos”, mas nada de bom se augura.
Esta história de três pessoas combativas e muito persuasivas parece ficção política, mas é verdade. Ao que nos dizem tudo aconteceu assim. O que mostra também de que forma se pode fazer (e se faz!) política. Se acontece assim nos EUA, por que não acontecer um pouco por todo o lado? Uma dama bonita e rica, muito dada a guerras em nome de Deus, um senador fogoso, um agente da CIA que se julga injustamente colocado na prateleira. Uma guerra por aí e uma louca necessidade de nela intervir. O que teria sido melhor para o futuro da Humanidade? “Veremos!”
O que já vimos foi uma brilhante comédia assinada por um realizador de fina ironia e de brilhante direcção de actores. O mesmo brilhante realizador que há anos era vilipendiado por alguma crítica que agora exulta. O mesmo que se iniciou no cinema, em 1966, com uma adaptação da peça de Edward Albee, “Who's Afraid of Virginia Woolf?”, a que se seguiram, entre outros, “The Graduate” (1967), “Catch-22” (1970), “Carnal Knowledge” (1971), “The Fortune” (1975), Silkwood (1983), Biloxi Blues (1988), “Working Girl” (1988), onde descobriu Julia Roberts, “Postcards from the Edge” (1990), “Regarding Henry” (1991), “Wolf” (1994), “The Birdcage” (1996), “
Primary Colors” (1998) “Angels in America” (TV) (2003), até chegar ao cintilante “Closer” (2004). Um homem de grande cultura e inteligência, com um humor corrosivo e uma ironia fina, um dos melhores encenadores de teatro americanos, e um fantástico director de actores.
Com argumento de Aaron Sorkin, Segundo obra de George Crile, “Charlie Wilson's War: The Extraordinary Story of the Largest Covert Operation in History”, “Jogos de Poder” (que se chama no original, “Charlie Wilson’s War”, “A Guerra de Charlie Wilson”, numa tradução à letra) mostra a elegante eficácia do cineasta, e a mestria do seu trabalho com três actores de eleição, Tom Hanks, Julia Roberts, e Philip Seymour Hoffman. Se todos aparecerem nomeados nada espanta. São três interpretações magníficas, de um virtuosismo invulgar, marcadas por (quase) imperceptíveis expressões, por gestos e olhares esboçados, por sorrisos de um breve sarcasmo que nos enche de alegria e prazer. Representar assim é uma sublime arte. Mas todo o elenco é óptimo e todo o filme é um regalo para a inteligência e o espírito. Não é uma obra-prima? Pois talvez não. Mas que importa? Quanto ao resto: “veremos!”

Mike Nichols
JOGOS DE PODER
Título original: Charlie Wilson's War
Realização: Mike Nichols (EUA, 2007); Argumento: Aaron Sorkin, segundo obra de George Crile; Música: James Newton Howard; Fotografia (cor): Stephen Goldblatt; Montagem: John Bloom, Antonia Van Drimmelen; Casting: Ellen Lewis; Design de produção: Victor Kempster; Direcção artística: Maria-Teresa Barbasso, Brad Ricker, Alessandro Santucci; Decoração: Nancy Haigh, Alessandra Querzola; Guarda-roupa: Albert Wolsky; Maquilhagem: Luisa Abel, Janice Alexander; Direcção de produção: Moncef Belam, Gregg Edler, Nigel Marchant, Cristen Carr Strubbe; Assistentes de realização: Noureddine Aberdine, Rosemary C. Cremona, Antoine Douaihy, Basil Grillo, Mustapha Grumij, Michael Haley, Matthew Heffernan, Mohamed Nesrate, Mark Trapenberg, Nathalie Vadim; Departamento de arte: Martin Charles, Gina B. Cranham, Charlotte Raybourn, Marco Trentini, Bruce West; Som: Christopher Atkinson, Ron Bochar, Nourdine Zaoui; Efeitos especiais: Wesley Barnard, Caimin Bourne, John C. Hartigan, Andy Williams; Efeitos visuais: Richard Edlund, Helena Packer, Liz Radley, Liz Ralston, Robert Skotak, Sarah Vinson; Produção: Tom Hanks, Gary Goetzman, Michael Haley, Mary Bailey, Celia D. Costas, Edward Hunt, Ryan Kavanaugh, Paul A. Levin, Jeff Skoll; Companhias de produção: Good Time Charlie Productions, Universal Pictures, Playtone, Participant Productions, Relativity Media;
Intérpretes: Tom Hanks (Charlie Wilson), Amy Adams (Bonnie Bach), Julia Roberts (Joanne Herring), Philip Seymour Hoffman (Gust Avrakotos), Terry Bozeman, Brian Markinson ... Paul Brown), Jud Tylor ... Crystal Lee), Hilary Angelo, Cyia Batten, Kirby Mitchell, Ed Regine, Daniel Eric Gold, Emily Blunt, Peter Gerety, Wynn Everett, Mary Bonner Baker, Rachel Nichols, Shiri Appleby, P.J. Byrne (Jim Van Wagenen), John Slattery (Henry Cravely), Thomas Crawford, Joe Roland, Patrika Darbo, Amanda Loncar, Salaheddine Ben Chegra, Om Puri (Presidente Zia), Faran Tahir (Rashid), Rizwan Manji (Mahmood), Maurice Sherbanee, Salam Sangi, Navid Negahban,Mozhan Marnò, Habib Saba, Nadia Miller, Michelle Arthur, Shila Vossugh Ommi, Edward Hunt, Michael Haley, Denis O'Hare (Harold Holt), Michael Spellman, Russell Edge, Christopher Denham (Mike Vickers), Joseph Sikora, Gabriel Tigerman, Patrick Bentley, Marc Pelina, Ken Stott (Zvi), Tracy Phillips, Aharon Ipalé, Ned Beatty (Doc Long), Mary Bailey, Trish Gallaher Glenn, Ron Fassler, Enayat Delawary, Nancy Linehan Charles, Daston Kalili, Pavel Lychnikoff, Ilia Volokh, Alexander Lvovsky, Sammy Sheik, Moneer Yaqubi, Gabriel Justice, Siyal Mohammad, Quill Roberts, Jim Jnsen, Harry S. Murphy, Spencer Garrett, Kevin Cooney, Ambria Miscia, Dan Rather, Rachel Style, etc.
Duração: 97 minutos; Distribuição em Portugal: Lusomundo; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia:3 de Janeiro de 2008 (Portugal)