Mostrar mensagens com a etiqueta Steven Spielberg. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Steven Spielberg. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, janeiro 30, 2013

CINEMA: LINCOLN


LINCOLN
 
 

Quem espere um filme sobre a Guerra da Secessão nos EUA, apenas irá encontrar uma ou outra cena de batalha, que localiza historicamente o período, que enuncia os adversários e a questão em discussão (a abolição da escravatura nos EUA) e que coloca o problema visto dos dois lados dos contendores. Na verdade, o que interessa essencialmente a Spielberg é um outro aspecto, complexo e pouco conhecido, e que se debate em gabinetes e no Congresso. Ao mesmo tempo que a guerra se aproxima do seu fim, com os estados do sul próximos da rendição, no Congresso irá votar-se a 13ª Emenda que proclama o fim da escravatura. Para Lincoln este é o propósito primordial. Para fazer passar no Congresso este diploma, mostra-se capaz de tudo. Quer que todos os Republicanos (o partido que na altura defende a abolição) assumam esse voto e necessita de pelo menos mais vinte senadores Democratas (que recusam o fim da escravatura), para atingir a percentagem necessária. Portanto, no segredo dos gabinetes, há que fazer mudar o sentido de voto de uns quantos, prometendo-lhes o que for preciso, empregos, promoções, possivelmente benesses. Trata-se de corrupção ao mais alto nível. Tony Kushner, o argumentista desta obra e de “Munique” e “Anjos na América”, baseia-se parcialmente na obra de Doris Kearns Goodwin, "Team of Rivals: The Political Genius of Abraham Lincoln", onde tudo isto estará documentado.
O filme começa por uma rápida cena de batalha, nocturna e lamacenta, violenta e feroz, que relembra a brutalidade de iguais cenas de “O Resgate do Soldado Ryan” ou “Cavalo de Guerra”. Mas rapidamente se passa para a intimidade de uma conversa entre Lincoln e alguns soldados negros que reivindicam direitos e igualdades. Lincoln ouve e está de acordo. Esse será o seu caminho. Obstinadamente irá cruzá-lo até à votação final, derrubando todos os obstáculos que encontra no acidentado percurso. Mas a questão é mais complexa. A guerra tem de ser a pressão necessária para impor a Emenda. Se a paz chegar, se as tropas sulistas se renderem antes do dia da votação, é muito possível que a votação lhe seja contrária. Não pôr fim à guerra é um argumento poderoso para levar avante os seus intentos. Por isso, não pode aceitar a rendição do exército confederado antes da hora certa.
Talvez seja oportuno relembrar um pouco da história: a guerra civil norte-americana começou em 1861, depois de Abraham Lincoln ter sido eleito Presidente da República no ano anterior, com um programa abolicionista, e só terminaria em 1865. Em consequência desta eleição, dez estados do Sul, que se baseavam numa economia latifundiária, estribada no trabalho escravo e na produção de algodão, revoltaram-se, pois viam a sua sobrevivência ameaçada. Criaram em Richmond uma confederação, à frente da qual se encontrava Jefferson Davis. Por outro lado, o Norte, que defendia a abolição da escravatura, tinha interesses igualmente comerciais e lucrativos: a sua economia era sobretudo industrial e tornava-se mais rentável com operários livres do que com o trabalho escravo. Este conflito de interesses desencontrados conduziu à guerra. Morreram mais de 600 mil pessoas. Os confederados sulistas, comandados pelo general Lee, venceram batalhas importantes, como Richmond ou Fredericksburg, mas perderam em Gettysburg ou Petersburg. Os federados nortistas tiveram no general Grant o seu chefe máximo, que mais tarde viria a ser também Presidente da República. Quanto a Abraham Lincoln, dias depois da rendição de Robert Lee a Ulisses Grant, ocorrida no Palácio da Justiça, em Appomatox, na Virgínia, foi assassinado num camarote do Teatro Ford, em Washington, no dia 15 de Abril de 1865. Seria o primeiro Presidente dos EUA a ser assassinado.
 
 
No plano das ideias e da reconstituição histórica, o principal interesse do filme de Steven Spielberg é precisamente desenvolver esta teia de interesses que se desenhava durante a guerra e perante o debate no Congresso. Pondo a claro os processos corruptos que levaram um congressista, precisamente o chefe da ala radical dos Republicanos, a afirmar que “a lei mais importante do século XIX tinha sido aprovada com base em corrupção.”
Desenvolvendo-se numa escrita clássica, sóbria, rigorosa, “Lincoln” traça um retrato da época, nos cuidados ambientes, nos cenários plasticamente de grande beleza, nos adereços e guarda-roupa, na direcção de actores, servida por um magnífico elenco, onde avultam dois soberbos intérpretes, Daniel Day-Lewis, um Lincoln de antologia, sereno, confiante, discreto, impositor, e Tommy Lee Jones, um radical Thaddeus Stevens absolutamente deslumbrante. O filme está nomeado para 12 Oscars e trará para casa certamente alguns deles, tanto mais que a obra se encontra imbuída de um espírito americano que faz apelo a algumas das suas mais celebradas virtudes democráticas, a esperança no potencial humano, a crença nos valores da liberdade e da democracia, os ideais de igualdade e, neste caso, a perseverança de um presidente ciente da justeza de uma luta, o que de certa forma pode ser extrapolado para a actualidade, e ver ali reflectir-se Obama e as suas lutas pelo serviço de saúde. Não se trata tanto de um filme de acção, mas mais de um ensaio cinematográfico sobre os meandros da política, com uma ou outra incursão pela vida privada de certas figuras preponderantes, o que funciona quer para explicitar certos traços psicológicos quer para sublinhar simbolicamente algumas situações. Curioso é ver como a política mantinha uma certa transparência ingénua, onde tudo, ou quase tudo, era permitido dentro dos quadros institucionais. Já falámos da corrupção por uma boa causa, mas haverá ainda que citar um episódio magnífico e para nós hoje verdadeiramente estranho. Mal acaba a votação no Congresso da 13ª emenda, o chefe da ala radical dirige-se à mesa, pede emprestado papel onde esta está redigida (“amanhã trago-o, apenas com um vinco a mais”) e leva-o para casa, para o mostrar a uma senhora negra que o lê. Plano seguinte: ambos se encontram na mesma cama. Afinal o congressista tinha mesmo motivos ponderosos para ser tão radical.
A morte de Lincoln não nos é evitada no final da obra, mas Spielberg opta por uma solução extremamente engenhosa, colocando a sua câmara num outro teatro, onde a notícia é dada aos espectadores, entre os quais se encontra o filho mais novo do Presidente. Spielberg continua igual a si próprio, mestre no entretenimento inteligente, agarrado a ideias e valores que não descura, senhor de um estilo importado dos maiores e que ele cuida de forma devotada. Belo filme sobre um grande homem e uma excelente ideia, mesmo que argamassada sobre vícios e maus costumes. Mas essa é, igualmente, uma das características do cinema norte-americano: repensar erros e dá-los a conhecer, sobretudo se do seu espectáculo puder retirar dividendos económicos. 

 

LINCOLN
Título original: Lincoln
Realização: Steven Spielberg (EUA, 2012); Argumento: Tony Kushner, segundo obra de Doris Kearns Goodwin ("Team of Rivals: The Political Genius of Abraham Lincoln"); Produção: Kathleen Kennedy, Steven Spielberg, Jonathan King, Daniel Lupi, Kristie Macosko, Jeff Skoll, Adam Somner; Música: John Williams; Fotografia (cor): Janusz Kaminski; Montagem: Michael Kahn; Casting: Avy Kaufman; Design de produção: Rick Carter; Direcção artística: Curt Beech, David Crank, Leslie McDonald; Decoração: Jim Erickson, Peter T. Frank; Guarda-roupa: Joanna Johnston; Maquilhagem: Leo Corey Castellano, Kay Georgiou, Dean Jones, Mo Stemen, Mo Stemen;  Direcção de produção: Robert Bella, Susan McNamara, Corey Sklov, John Burton West; Assistentes de realização: Adam Somner, Ian Stone, Eliot John Hagen; Departamento de arte: Richard Blankenship, Alex Brandenburg, Jimmy L. Carmickle, Christina Garnett, Steven Harris, Jim Hewitt, Keith S. Jackson, Tina Allen Pleasants, Josh Sheppard, Karen Teneyck; Som: Ben Burtt; Efeitos especiais: Steve Cremin; Efeitos visuais: Ben Morris, Lee Chan Popo, Sara Trezzi; Companhias de produção: DreamWorks Pictures, Twentieth Century Fox Film Corporation, Reliance Entertainment, Participant Media, Amblin Entertainment, The Kennedy/Marshall Company, Imagine Entertainment, Office Seekers Productions, Parkes/MacDonald Productions; Intérpretes: Daniel Day-Lewis (Abraham Lincoln), Sally Field (Mary Todd Lincoln), David Strathairn (William Seward), Joseph Gordon-Levitt (Robert Lincoln), James Spader (W.N. Bilbo), Hal Holbrook (Preston Blair), Tommy Lee Jones (Thaddeus Stevens), John Hawkes (Robert Latham), Jackie Earle Haley (Alexander Stephens), Bruce McGill (Edwin Stanton), Tim Blake Nelson, Joseph Cross, Jared Harris (Ulysses S. Grant), Lee Pace, Peter McRobbie, Gulliver McGrath, Gloria Reuben, Jeremy Strong, Michael Stuhlbarg, Boris McGiver, David Costabile, Stephen Spinella, Walton Goggins, David Warshofsky, Colman Domingo, David Oyelowo, Lukas Haas, Dane DeHaan, Carlos Thompson, Bill Camp, Elizabeth Marvel, Byron Jennings, Julie White, Charmaine White, Ralph D. Edlow, Grainger Hines, Richard Topol, Walt Smith, Dakin Matthews, James 'Ike' Eichling, Wayne Duvall, Bill Raymond, Michael Stanton Kennedy, Ford Flannagan, Robert Ayers, Robert Peters, John Moon, Kevin Lawrence O'Donnell, etc. Duração: 150 minutos, classificação etária: M7 12 anos; Distribuição em Portugal: Big Picture; Estreia em Portugal: 31 de Janeiro de 2013.

segunda-feira, junho 25, 2012

CINEMA: CAVALO DE GUERRA


CAVALO DE GUERRA
“War Horse” começou por ser um romance assinado por Michael Morpurgo que foi adaptado a teatro por Nick Stafford, e esteve duas temporadas esgotadas no National Theatre, passando depois para o New London Theatre no West End e tendo sido estreado posteriormente na Broadway, em Nova Iorque, no Lincoln Center Theater, e depois noutros teatros, com igual sucesso de público e crítica. A encenação era espectacular, contando com cavalos mecânicos idealizados pela Handspring Puppet Company.
A obra parecia feita de encomenda para Steven Spielberg, que rapidamente a adaptou a cinema, criando um épico melodramático, oscilando entre o intimista e o grandioso, tendo um jovem como protagonista, no que relembra o Império do Sol, e tendo os horrores da guerra como cenário privilegiado, o que também é tema caro ao cineasta (quem não recorda “A Lista de Shindler”, por um lado, ou “O Regresso do Soldado Ryan”, por outro). Emoção e coragem, a denúncia da brutalidade da guerra, tudo visto numa perspectiva invulgar, pelos olhos de um adolescente apaixonado pelo seu pónei Joey, que cresce e é requisitado para entrar na I Guerra Mundial, mas igualmente observado pelo prisma do próprio animal. Não me lembro de ter visto a guerra e a sua violência gratuita descoberta pelo sentir de um cavalo que a atravessa de forma absurda. Tão ou mais absurda do que a forma como os homens para ela são atirados. 
Tudo se passa numa Inglaterra de início do século XX, a partir de uma pequena propriedade rural, onde uma pobre família compra um pónei, Joey, um animal rebelde e orgulhoso, que no entanto cria uma evidente amizade com o adolescente Albert, filho do casal de agricultores. Depois de algumas peripécias, o cavalo é incorporado no exército, quando Inglaterra e Alemanha declaram guerra uma à outra, e é enviado para terras de França, onde o conflito se trava, por entre trincheiras e arame farpado, gazes fatais e artilharia pesada. O cavalo vai sobrevivendo a tudo, chamam-lhe miraculoso, e Albert, que a princípio não tinha idade para se alistar, acaba por perseguir o “seu” cavalo pelas frentes de batalha. Há sequências memoráveis, como o cavalo preso no arame farpado enquanto fugia entre o fogo cruzado, ou a cena que junta ingleses e alemães num cessar-fogo acordado entre trincheiras para libertar o animal dos arames que se enterram na carne. Spielberg consegue imagens de uma beleza esplendorosa, mantém o filme quase sempre a um nível de melodrama contido muito bem explorado (excepção talvez à sequência francesa onde o rodriguinho se insinua) e, na globalidade, oferece-nos uma magnífica lição de coragem e audácia, de amizade e abnegação, com um excelente elenco, uma fotografia brilhante e uma banda sonora inspirada.
CAVALO DE GUERRA
Título original: War Horse
Realização: Steven Spielberg (EUA, 2011); Argumento: Lee Hall, Richard Curtis, segundo romance de Michael Morpurgo; Produção: Kathleen Kennedy, Steven Spielberg, Revel Guest, Kristie Macosko, Frank Marshall, Tracey Seaward, Adam Somner; Música: John Williams; Fotografia (cor): Janusz Kaminski; Montagem: Michael Kahn; Casting: Jina Jay; Design de produção: Rick Carter; Direcção artística: Andrew Ackland-Snow, Neil Lamont; Decoração: Lee Sandales; Guarda-roupa: Joanna Johnston; Maquilhagem: Lois Burwell, Jon Henry Gordon, Charlotte Rogers; Direcção de Produção: Geoff Dibben, Mark Graziano, Samantha Knox-Johnston, Nick Laws; Assistentes de realização: Phil Booth, David Cain, Robert Grayson, Adam Somner; Departamento de arte: Joel Chang, Lynne Divers, Paul J. Hayes, Jodie Jackman; Som: Gary Rydstrom; Efeitos especiais: Neil Corbould, Anna Krawczyk; Efeitos visuais: Rachel Faith Hanson, Nick King, Ben Morris; Companhias de produção: DreamWorks SKG, Reliance Entertainment, Amblin Entertainment, The Kennedy/Marshall Company, Touchstone Pictures; Intérpretes: Jeremy Irvine (Albert Narracott), Peter Mullan (Ted Narracott), Emily Watson (Rose Narracott), Niels Arestrup (Avô), David Thewlis (Lyons), Tom Hiddleston (Capt. James Nicholls), Benedict Cumberbatch (Maj. Jamie Stewart), Celine Buckens (Emilie), Toby Kebbell (Geordie), Patrick Kennedy (Charlie Waverly), Leonard Carow (Michael), David Kross, Matt Milne, Robert Emms, Eddie Marsan, Nicolas Bro, Rainer Bock, Hinnerk Schönemann, Gary Lydon, Geoff Bell, Liam Cunningham, Sebastian Hülk, Gerard McSorley, Tony Pitts, Irfan Hussein, Pip Torrens, Philippe Nahon, Jean-Claude Lecas, Justin Brett, etc. Duração: 146 minutos; Distribuição em Portugal: Zon Lusomundo; Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal: 23 de Fevereiro de 2012.