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quarta-feira, janeiro 06, 2016

CINEMA 2015: HOMEM IRRACIONAL



HOMEM IRRACIONAL


Abe Lucas (Joaquin Phoenix) é um atormentado professor de filosofia que entra numa universidade norte-americana em estado de depressão, desespero, futilidade, frustração e impotência. O melhor amigo morreu há pouco vítima de uma bomba no Médio Oriente e a mulher deixou-o. Nas aulas cita Heidegger e Kierkegaard, fala de liberdade e mentira e afirma mesmo que a filosofia são tretas, apenas “palavras”. Ele procura a acção directa. E vai encontrá-la, enquanto namorisca com Rita (Posey), uma colega professora, e Jill (Emma Stone), uma jovem aluna. A sua terá de ser uma escolha existencial que altere toda a sua persectiva de vida. A ambição do crime perfeito? Possivelmente.
“Homem Irracional” é Woody Allen a 100% o que não deixa de ser uma afirmação que é um lugar comum. Todos os seus filmes o são. Uma comédia que lentamente se transforma numa tragédia. Crime e castigo, com Dostoiévski de permeio, um pouco na linha de “Match Point”, “Crimes e Escapadelas”, “O Sonho de Cassandra” ou “O Misterioso Assassínio em Manhattan”, para só citar alguns dos seus títulos. Todos iguais e todos diferentes. As obsessões e os fantasma de Woody Allen, escritos com a leveza e a eficácia de quem domina a sua arte como poucos.


Não será do melhor Woody Allen, mas é um Woody Allen estimulante. Sobretudo pela forma nada convencional como combina a ligeireza da escrita, a superficialidade do tema musical, a aparente banalidade do tom inicial com a gravidade do que se vai avizinhando. O primarismo dos conceitos filosóficos que Abe Lucas vai enunciando marcam o primarismo dos seus conceitos pessoais e conduzem-no à divagação irracional, ao comportamento aberrante. “Heidegger e o fascismo” é o título do novo ensaio que prepara e que o deixa suspenso sobre a escrita. Compreensivelmente.
O filme é muito interessante, mas extremamente valorizado pelas excelentes interpretações de Joaquin Phoenix, Emma Stone e Parker Posey e ainda pela notável fotografia de Darius Khondji, deliberadamente de um romantismo de tonalidades e de cenários que envolve o espectador e contrasta como o percurso final e o desfecho.


HOMEM IRRACIONAL
Título original: Irrational Man

Realização: Woody Allen (EUA, 2015); Argumento: Woody Allen; Produção: Letty Aronson, Ron Chez, Helen Robin, Jack Rollins, Adam B. Stern, Allan The, Stephen Tenenbaum, Edward Walson; Fotografia (cor): Darius Khondji; Montagem: Alisa Lepselter; Casting: Patricia Kerrigan DiCerto, Juliet Taylor; Direcção artística: Carl Sprague; Decoração: Jennifer Engel; Guarda-roupa: Suzy Benzinger; Maquilhagem: Judy Chin, Jason Joseph Sica; Direcção de Produção: Helen Robin; Assistentes de realização: Mike McGuirk, Danielle Rigby, Brad Robinson; Departamento de arte: Lindsay Boffoli, David Rotondo, Carly Serodio, Shann Whynot-Young; Som: Ryan Baker, Matthew Haasch, Robert Hein, Darrell R. Smith; Efeitos especiais: Adam Bellao; Efeitos visuais: Alex Miller; Companhia de produção Gravier Productions; Intérpretes: Joaquin Phoenix (Abe), Emma Stone (Jill), Parker Posey (Rita), Joe Stapleton (Professora), Nancy Carroll (Professora), Allison Gallerani (estudante), Brigette Lundy-Paine (estudante), Katelyn Seme (estudante), Betsy Aidem (mãe de Jill), Ethan Phillips (pai de Jill), Jamie Blackley (Roy), Leah Anderson, Paula Plum, Nancy Giles, Henry Stram, Geoff Schuppert, Robert Petkoff, Alex Dunn, Ron Chez, Tamara Hickey, Sophie von Haselberg, Susan Pourfar, Tom Kemp, etc. Duração: 95 minutos; Distribuição em Portugal: Pris Audiovisuais; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 17 de Setembro de 2015.

sábado, setembro 21, 2013

CINEMA: BLUE JASMINE


BLUE JASMINE

Ao contrário de alguns, que acham que os filmes de Woody Allen rodados fora dos EUA são destituídos de interesse, com uma ou outra excepção, eu acho que quase todas as obras deste cineasta são particularmente interessantes, ainda que obviamente nem todas por igual. Mas concordo que Woody Allen se sente muito mais à vontade em Nova Iorque do que nas cidades europeias que o convidam a ir ali rodar um opus da sua filmografia. Woody Allen respira o ar de Nova Iorque, sobretudo o smog de Manhattan, e ali ele é de uma certeza quase infalível. “Blue Jasmine” marca o regresso de Woody Allen a casa, depois de andanças por Londres, Barcelona, Paris e Roma, e afirma-se desde logo como um dos melhores títulos da sua obra mais recente. Há mesmo um aspecto que me parece relevante e que por isso merece ser sublinhado. Neste seu último trabalho, Woody Allen toma-se mais a sério, ou pelo menos leva mais a sério personagens e situações, reflectindo não só questões pessoais, como ambientes sociais muito precisos. Ou seja: as personagens de “Blue Jasmine” continuam a ter os seus problemas pessoais muito concretos, amores e desamores, frustrações e esperanças, traumas e falta de dinheiro, grandes empregos ou trabalhos menores, grandes casas ou pequenos apartamentos, amantes de ocasião ou grandes amores, mas tudo isso se integra num tempo e espaço determinados, que lhe conferem um outro significado. Este é um filme do nosso tempo. Fala da América de 2012/13, mas também nos diz respeito a nós, europeus, mais precisamente, no nosso caso, portugueses. Todos estamos envolvidos no mesmo clima e nas mesmas circunstâncias políticas, económicas, sociais. Mais directamente: este é um filme que aborda personagens em crise, num tempo de crise.


Woody Allen já havia criado uma obra-prima a recriar o tempo da Grande Depressão, dos anos 30 do século XX, em “Rosa Púrpura do Cairo”. Digamos que este “Blue Jasmine” é o duplo, adaptado a estes anos que vivemos agora. Há questões que se sobrepõem entre as duas crises, há outras que se alteram consideravelmente. Em tudo, Woody Allen parece estar certo no seu diagnóstico.
Jeannette Francis (Cate Blanchett), que gosta mais de ser conhecida por “Jasmine”, porque dá mais estilo à mulher, foi casada com Harold "Hal" Francis (Alec Baldwin), levando uma vida de classe A-alta, sobretudo à custa das trafulhices financeiras do esposo, que é descoberto, e passam ambos rapidamente à penúria pelo arresto de bens desviados pelo Estado. Da 5ª Avenida de Nova Iorque, Jasmine é obrigada a mudar-se para um bairro económico de São Francisco, para o modesto apartamento da irmã por afinidade, Ginger (Sally Hawkins), que a recebe de braços abertos, na sua inocência e generosidade. Mas Jasmine vem muito traumatizada pela despromoção social, dificilmente aceita trabalhar num consultório de dentista, dificilmente se vê a dormir e habitar naquela casa apertada para as suas ambições, dificilmente aceita esta nova realidade em que caiu. Muitos comentadores falam de uma nova versão de Blanche Dubois, a protagonista de "Eléctrico Chamado Desejo", de Tennessee Williams, e há obviamente muitos pontos de contacto, sobretudo no comportamento de ambas, hipersensíveis à dolorosa realidade que as rodeia, roçando mesmo o quadro clínico da patologia.


Para lá deste magnífico enquadramento social que o realizador nos oferece de forma subtil e discreta, como quem nem sequer fala nisso, existem ainda personagens brilhantemente desenhadas por Woody Allen e magnificamente corporizadas por um elenco brilhante. Todos os actores são de primeira água, mas Cate Blanchett é aqui de um outro oceano. O seu trabalho é absolutamente espantoso, na forma quase imperceptível como nos vai oferecendo o desenvolver da sua figura, como vai discretamente acentuando certos tiques, como faz esbarrar a sua arrogância e altivez com o dramático do dia-a-dia em São Francisco. Como se empenha em arranjar um novo bom casamento que a salve do descalabro em que se precipitou, como inventa o impossível para tornar possível a sua megalomania. Mas, simultaneamente, vem ao de cima o lado humanista de Woody Allen que, não se furtando a apresentar o lado negro de Jasmine, não a deixa afundar-se num estereótipo de egoísmo e malvadez. Absolutamente fascinante é o termo. O que se estende a todo o filme, que voga numa toada de drama, entrecortada por sorrisos sóbrios que o tornam invulgarmente sugestivo. Tudo isto ao som de “Blue Moon”.
Não tenho muitas dúvidas em dizer que o Oscar de Melhor Actriz de 2013 está desde já atribuído, e “Blue Jasmine” é igualmente um sério candidato a muitas outras estatuetas.

BLUE JASMINE
Título original: Blue Jasmine

Realização: Woody Allen (EUA, 2013); Argumento: Woody Allen; Produção: Letty Aronson, Helen Robin, Jack Rollins, Leroy Schecter, Adam B. Stern, Stephen Tenenbaum, Edward Walson; Fotografia (cor): Javier Aguirresarobe; Montagem: Alisa Lepselter; Casting: Patricia Kerrigan DiCerto, Juliet Taylor; Design de produção: Santo Loquasto; Direcção artística: Michael E. Goldman, Doug Huszti; Decoração: Kris Boxell, Regina Graves; Guarda-roupa: Suzy Benzinger; Maquilhagem: Gretchen Davis, Yvette Rivas; Direcção de produção: Debbie Brubaker, Marcelo Gandola, Helen Robi; Assistentes de realização: Sarah Fairchild, Ted Leonard, John M. Morse, Danielle Rigby, Brad Robinson; Departamento de arte: David Hendrickson, Kelli Lundy, Joel Morgante; Som: Brian Copenhagen, Brendan Jamieson O'Brien, Adam Sanchez, Nelson Stoll, Thomas Varga, David Wahnon; Efeitos Visuais: Jake Braver; Companhia de produção: Perdido Productions; Intérpretes: Cate Blanchett (“Jasmine” Francis), Alec Baldwin (Harold "Hal" Francis), Bobby Cannavale (Chili), Louis C.K. (Al), Andrew Dice Clay (Augie), Sally Hawkins (Ginger), Peter Sarsgaard (Dwight Westlake), Michael Stuhlbarg (Dr. Flicker), Tammy Blanchard (Jane), Max Casella (Eddie), Alden Ehrenreich (Danny Francis), Joy Carlin, Richard Cont, Glen Caspillo, Charlie Tahan, Annie McNamara, Daniel Jenks, Max Rutherford, Kathy Tong, Ted Neustadt, Andrew Long, Lauren Allan, John Harrington Bland, Leslie Lyles, Glenn Fleshler, Brynn Thayer, Christopher Rubin, Emily Bergl, Barbara Garrick, Ali Fedotowsky, Dean Farwood, Conor Kellicut, Colin Thomson, Val Diamond, Joe Bellan, Catherine MacNeal, Irit Levi, Diane Amos, Shannon Finn, Tom Kemp, Emily Hsu, Maurice Sonnenberg, Martin Cantu, Daniel Hepner, Al Palagonia, etc. Duração: 98 minutos; Distribuição em Portugal: Pris Audiovisuais; Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal 12 de Setembro de 2013.

sábado, outubro 08, 2011

CINEMA: MEIA-NOITE EM PARIS

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MEIA-NOITE EM PARIS

“Meia-Noite em Paris” é um excelente divertimento, inteligente e bem saboreado pelo seu autor, Woody Allen. Não está, porém, segundo a minha perspectiva, muito acima de alguns outros filmes rodados recentemente por este cineasta, e que parece que caíram na desdita de alguma crítica, vá-se lá saber porquê. Isto não quer dizer que “Meia-Noite em Paris” seja fraquinho, porque está ao nível de alguns outros títulos recentes. Muito pelo contrário. Quer dizer que Woody Allen não faz maus filmes, pode desiludir aqui e ali, mas muito raramente, e que a qualidade geral é sempre boa ou muito boa. Compreendo que se ressalve “Match Point” (2005), mas não percebo por que razão não se valoriza devidamente obras tão interessantes como “Scoop” (2006), “Vicky Cristina Barcelona” (2008) ou “Tudo Pode Dar Certo” (2009).
“Midnight in Paris” começa desde logo por apresentar um óbice grave à partida: o nome de Owen Wilson como protagonista não augurava nada de auspicioso. É um actor medíocre, de comédias tão idiotas (duas ou três das quais tive a desdita de ver), que fazia prever o pior. Acontece que Woody Allen consegue o milagre de tornar suportável este génio da inexpressividade e da parvoíce, transformando-o numa espécie de alter ego seu. Depois coloca-o a contracenar com actores tão bons que ele sai valorizado: em vez de parvoíce parece inocência e candura a sua pose.
A ideia é interessante, mas nada original. Woody Allen já tinha experimentado o efeito em “Rosa Púrpura do Cairo”, uma das suas obras-primas indiscutíveis. Nos anos 30, uma dona de casa desesperada faz do cinema a sua tábua de salvação e acaba por passar para o outro lado do ecrã, e trazer consigo personagens do filme para a realidade. Era uma nova versão de “Alice no Pais das Maravilhas”. Agora, Gil Pender (Owen Wilson), argumentista de sucesso em Hollywood e aspirante a escritor boémio em Paris, volta a viajar para fora da sua realidade, entrando na Paris dos loucos anos 20. Mas como Woody Allen gosta de contos de fadas, desta feita acrescenta-lhe um cheirinho de “Gata Borralheira”: é à meia-noite que passa o automóvel que o conduzirá à sua época de eleição.
Gil Pender está noivo de Inez (Rachel McAdams), filha de um casal de republicanos radicais. Andam todos a visitar Paris, mas Gil prefere uma Paris que lhe recorda a inspiração e a boémia dos anos 20, e todos os outros membros da família optam por compras e visitas guiadas a museus, conduzidos por um emproado amigo universitário que vem à cidade luz dar uma lição à Sorbonne. Não há muito a esperar do casamento, mas há muita deambulação pela capital de França então povoada pelo mais intenso brilho do génio internacional.
Numa noite em que percorre sozinho os bairros de Paris, Gil apanha uma boleia e vai parar à conversa com Scott Fiztegearld e Zelda, numa festa dada por Jean Cocteau, onde aparecem ainda Cole Porter, Hemingway e Gertrud Stein. Nas noites seguintes, lá continuará a peregrinação pelos cenáculos da cultura e da arte dos anos 20, encontrando Picasso, e a sua paixão do dia, Adriana, Dali, Josephine Baker, Buñuel (a quem oferece a ideia para um filme, que será precisamente “O Anjo Exterminador”), Man Ray, T. S. Elliot, Matisse, etc.
Gil passeia extasiado por estes ambientes de devaneio estético e de efervescência cosmopolita, mas descobre que Adriana, por quem se apaixona secretamente, vive obcecada pela “Belle Epoque”. Afinal ninguém está satisfeito com a realidade que vive e todos sonham com tempos passados. Adriana consegue mesmo viajar com Gil até à “Belle Epoque”, onde se cruzam com Toulouse Lautrec, Degas e Gauguin, mas estes suspiram, por sua vez, pelo Renascimento. A mensagem está dada: o presente é insatisfatório, sobretudo entre artistas que aspiram sempre a “outra coisa” e, neste caso, a um paraíso perdido, onde, todavia, ainda não existe nem valium nem penicilina. Que podem ser muito úteis em certos casos.
“Meia-Noite em Paris” é divertido, sensível, sensual, traumatizado e angustiado como todo o cinema de Woody Allen, mas agora sereno em relação à vida: afinal não é preciso ir buscar a felicidade ao passado, porque Cole Porter continua entre nós e há embaixadoras suas bem interessantes. A viagem por Paris é seguida pelo olhar apaixonado do cineasta e pela câmara de tons nostálgicos do iraniano Darius Khondji. Um belo filme sobre o amor e a vida, com um Owen Wilson, quase irreconhecível, e excelentes aparições de um elenco de luxo: Rachel McAdams, Michael Sheen, Carla Bruni (uma cativante guia turística), Marion Cotillard (a sedutora Adriana), Alison Pill, Kathy Bates, Adrien Brody (fabuloso Dali), Corey Stoll, Tom Hiddleston,  Kurt Fuller, Mimi Kennedy, David Lowe ou Léa Seydoux. Quase no final, um irresistível gag protagonizado por um detective encerra de forma brilhante esta viagem na máquina do tempo.

MEIA-NOITE EM PARIS
Título original: Midnight in Paris.
Realização: Woody Allen (EUA, Espanha, 2011); Argumento: Woody Allen; Produção: Letty Aronson, Raphaël Benoliel, Javier Méndez, Helen Robin, Jack Rollins, Jaume Roures, Stephen Tenenbaum; Fotografia (cor): Johanne Debas, Darius Khondji; Montagem: Alisa Lepselter; Casting: Stéphane Foenkinos, Patricia Kerrigan DiCerto, Juliet Taylor; Design de produção: Anne Seibel; Direcção artística: Anne Seibel; Decoração: Hélène Dubreuil; Guarda-roupa: Sonia Grande; Maquilhagem: Catherine Leblanc, Thi Thanh Tu Nguyen, Jean-Christophe Roger, Olivier Seyfrid; Direcção de Produção: Matthieu Rubin; Assistentes de realização: Mallorie Ballestra-Duquesnoy, Delphine Bertrand, Aurore Coppa, Gil Kenny; Departamento de arte: Tatiana Bouchain, Hélène Dubreuil, Georges Kafian; Som: Jean-Marie Blondel, Lee Dichter, Matthew Haasch; Efeitos especiais: Georges Demétrau; Efeitos visuais: Ryan Duffy, Marika D. Litz, Chris MacKenzie; Companhias de produção: Gravier Productions, Mediapro, Televisió de Catalunya (TV3), Versátil Cinema; Intérpretes: Owen Wilson (Gil), Rachel McAdams (Inez), Kurt Fuller (John), Mimi Kennedy (Helen), Michael Sheen (Paul), Nina Arianda (Carol), Carla Bruni (guia de museu), Maurice Sonnenberg, Thierry Hancisse, Guillaume Gouix, Audrey Fleurot, Marie-Sohna Conde, Yves Heck (Cole Porter), Alison Pill (Zelda Fitzgerald), Corey Stoll (Ernest Hemingway), Tom Hiddleston (F. Scott Fitzgerald), Sonia Rolland (Joséphine Baker), Daniel Lundh (Juan Belmonte), Laurent Spielvogel, Thérèse Bourou-Rubinsztein  (Alice B. Toklas), Kathy Bates (Gertrude Stein), Marcial Di Fonzo Bo (Pablo Picasso), Marion Cotillard (Adriana), Léa Seydoux (Gabrielle), Emmanuelle Uzan (Djuna Barnes), Adrien Brody (Salvador Dalí), Tom Cordier (Man Ray), Adrien de Van (Luis Buñuel), Serge Bagdassarian (Detective Duluc), Gad Elmaleh (Detective Tisserant), David Lowe (T.S. Eliot), Yves-Antoine Spoto (Henri Matisse), Laurent Claret (Leo Stein), Sava Lolov, Karine Vanasse, Catherine Benguigui, Vincent Menjou Cortes (Henri de Toulouse-Lautrec), Olivier Rabourdin (Paul Gauguin), François Rostain (Edgar Degas), Marianne Basler, Michel Vuillermoz, Kenneth Edelson, etc. Duração: 94 minutos; Distribuição em Portugal: Zon Lusomundo Audiovisuais; Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal: 15 de Setembro de 2011.

segunda-feira, janeiro 31, 2011

CINEMA: UM NOVO WOODY ALLEN

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 VAIS CONHECER O HOMEM DOS TEUS SONHOS 
Um novo Woody Allen pode ser muito bom ou simplesmente bom, mas nunca é mau. “Vais Conhecer o Homem dos Teus Sonhos” não é um Woody Allen da melhor cepa, mas é um bom aperitivo enquanto se espera por um novo “vintage”. De resto tem muitas das características que fazem do cineasta um “autor” que se reconhece à légua. Os temas constantes, as personagens que passam de obra para obra, as situações que se multiplicam, mas sobretudo o “olhar” inconfundível de um humanista com uma ponta de cinismo, um pessimista cheio de ternura pelas pessoas com quem se cruza, um ateu “graças a Deus”, um hipocondríaco com a sedução da eternidade, um desajeitado eterno sedutor que sabe muito bem escolher as mulheres com quem trabalha…
“You Will Meet a Tall Dark Stranger” confirma todos estes preceitos. É mais um daqueles puzzles com muitas figuras que procuram a felicidade e não a encontram, mas não desistem de a desejar. Nem que para tal tenham de recorrer a videntes!
É mais uma daquelas intrincadas histórias em que A ama B, que deseja C, ou D, casada com E, que seduz F, e assim por diante. O mundo é um local de solidão e desencontro, com alguns belos encontros pelo meio (é o que vale!).
Helena (a excelente Gemma Jones) anda amargurada porque o seu companheiro de sempre, com quem casara há quarenta anos, a deixou. Alfie (Anthony Hopkins) atravessa um período difícil, vê a velhice chegar e não a aceita, preferindo antes acreditar no “amor” desinteressado de uma acompanhante de luxo, Charmaine (Lucy Punch). Para aguentar a situação, Helena procura conforto no Além e nas “experimentadas” e oportunistas palavras de uma charlatã que se faz passar por vidente. Até encontrar aquele que lhe é anunciado como “o príncipe dos seus sonhos”.
Mas enquanto este “drama” acontece, outro se desenvolve com a sua filha Sally (Naomi Watts), que mantém um casamento desinteressante com Roy (Josh Brolin), um falhado escritor, que se apaixona pela vizinha da janela da frente, Dia (Freida Pinto), uma estudante de música. Mas Sally também não deixa vazio o seu coração (será o coração?) e começa a lançar olhares sôfregos ao seu patrão e dono de uma galeria de arte, Greg (Antonio Banderas), que por sua vez a ignora e inicia uma relação com Iris (Anna Friel), uma artista plástica, que Sally sempre acompanhou.
É assim a vida, sem nada de muito novo ou original. Woody Allen baralha e volta a dar, mas o seu sentido de observação, o seu humor discreto e por vezes ácido, a sua magnifica direcção de actores, a sua mestria a acompanhar e interligar as diferentes narrativas faz de “Vais Conhecer o Homem dos Teus Sonhos” uma comédia a não perder.
Com Woody Allen já sabemos ao que vamos. Jamais nos engana. Esse é um dos fascínios dos autores. Podem não estar muito inspirados, mas encontramos neles sempre o amigo que nunca nos atraiçoa.

VAIS CONHECER O HOMEM DOS TEUS SONHOS
Título original: You Will Meet a Tall Dark Stranger
Realização: Woody Allen (EUA, Espanha, 2010); Argumento: Woody Allen; Produção: Letty Aronson, Nicky Kentish Barnes, Mercedes Gamero, Jack Rollins, Jaume Roures, Stephen Tenenbaum; Fotografia (cor): Vilmos Zsigmond; Montagem: Alisa Lepselter; Casting: Patricia Kerrigan DiCerto, Gail Stevens, Juliet Taylor; Design de produção: Jim Clay; Direcção artística: Dominic Masters; Decoração: John Bush; Guarda-roupa: Beatrix Aruna Pasztor; Maquilhagem: Sharon Martin; Direcção de Produção: John Crampton, John David Gunkle; Assistentes de realização: Dan Channing-Williams, Ben Howarth, Olivia Lloyd; Departamento de arte: Paul Duff, Heather Pollington, Richard Selway; Som: Matthew Haasch; Efeitos especiais: Stuart Brisdon; Companhias de produção: Mediapro, Versátil Cinema, Gravier Productions, Antena 3 Films, Antena 3 Televisión, Dippermouth; Intérpretes: Gemma Jones (Helena Shebritch), Pauline Collins (Cristal), Anthony Hopkins (Alfie Shebritch), Naomi Watts (Sally Channing), Josh Brolin (Roy Channing), Freida Pinto (Dia), Antonio Banderas (Greg), Lucy Punch (Charmaine), Zak Orth (Narrador), Rupert Frazer, Kelly Harrison, Eleanor Gecks, Ewen Bremner, Christian McKay, Philip Glenister, Jonathan Ryland, Pearce Quigley, Neil Jackson, Lynda Baron, Fenella Woolgar, Robert Portal, Jim Piddock, Celia Imrie, Roger Ashton-Griffiths, Anna Friel, Theo James, Christopher Fulford, Johnny Harris, Alex MacQueen, Anupam Kher, Meera Syal, Joanna David, Geoffrey Hutchings, Natalie Walter, Shaheen Khan, Amanda Lawrence, etc. Duração: 98 minutos; Distribuição em Portugal: Zon Lusomundo Audiovisuais; Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal: 20 de Janeiro de 2011.

quarta-feira, janeiro 28, 2009

CINEMA: VICKY CRISTINA BARCELONA

VICKY CRISTINA BARCELONA
Duas jovens americanas aterram em Barcelona para umas férias de Verão. Vicky (Rebecca Hall) vem estudar a cultura catalã e a arte de Gaudi, por que se apaixonara aos 14 anos, e está noiva de um executivo norte-americano, tendo o casamento aprazado para daí a meses; Cristina (Scarlett Johansson) parece ser o inverso da “bem comportada” amiga, inquieta e instável, quer sorver a vida sofregamente, a goles de paixões que se sucedem. Instalam-se em casa de amigos que as convidaram e, numa inauguração de uma galeria de arte, conhecem Juan Antonio Gonzalo (Javier Bardem) que as convida, na primeira conversa que mantêm, para uma visita a Oviedo, um jantar e uma cena de amor a três. Claro que Vicky, chocada, protesta o seu puritanismo e invoca o próximo casamento, enquanto Cristina acaba por levar todos até Oviedo, onde tudo se passa ao contrário do que se poderia pensar. Cristina vai ao quarto de Juan António, mas acaba doente, a sopas e descanso, sozinha no “seu” quarto, e a preconceituosa Vicky, secretamente, e sem dar conhecimento do caso a ninguém, nem à melhor amiga (nem, sobretudo, ao namorado, futuro marido), dá livre curso à sua libido desenfreada. Nem tudo o que parece é, e as mais sonsas são as que mais prevaricam, já se sabe. Nomeadamente as que mais invocam a sua incorruptível moralidade. Este o início de “Vicky Cristina Barcelona”, uma deliciosa comédia de costumes que Woody Allen escreveu e foi rodar a Barcelona, cidade que se afirma igualmente como personagem nesta trama de amores lícitos e ilícitos. O mais divertido neste filme é que parece que estamos a assistir a uma obra concebida a quatro mãos: Vicky e Cristina são personagens de Woody Allen; José António e a sua fogosa e fatal ex-mulher Maria Elena (Penélope Cruz) são personagens de Almodóvar; o diálogo tem o brilhantismo próprio de um certo humor judeu nova-iorquino, que Woody Allen tão bem desenvolve, numa ironia fina e numa inequívoca ternura pelos seres humanos, as suas fraquezas e as suas forças, mas o cenário, de Barcelona a Oviedo, parece o “décor” de uma obra de Almodóvar.
Filme sobre a imponderabilidade da vida e os caprichos do amor, rodado numa Barcelona de cores doces e voluptuosas, cuja arquitectura de Gaudi ajuda a moldar numa perspectiva arrevesada e tortuosa, “Vicky Cristina Barcelona” é mais uma daquelas obras onde o confronto de duas civilizações, e de dois comportamentos quase inconciliáveis cria o conflito e mantém a expectativa. De um lado, os americanos planificados, pragmáticos e algo puritanos, por muito que afirmem que “não julgam ninguém”. Por outro lado, a vida boémia e libertina dos artistas europeus, herdeiros de um contexto histórico muito diferente, e que exerceu sempre um enorme fascínio nos companheiros do outro lado do Atlântico (veja-se por exemplo, a dita “geração perdida” dos anos 20, que emigrou quase toda para o Velho Continente, por longas temporadas, em busca de inspiração e vivência intensa). Cristina é um caso desses, americana como Vicky, mas sequiosa de novidades e pronta a entregar-se aos mais díspares triângulos e duetos amorosos. A sua franqueza irá talvez fazê-la sofrer mais, cada nova paixão equivale a um novo desgosto, mas, para quem assim vive, a dor é o equivalente ao prazer e tudo vale a pena se a vida não é pequena. Inteligentemente escrito, na narrativa em off, bem como nos diálogos, inventivo nas situações, subtil no humor, magnificamente encenado em cenários que percorrem os lugares essenciais de Barcelona, sem cair no rodriguinho do bilhete postal turístico, “Vicky Cristina Barcelona” impõe-se ainda pela qualidade do trabalho dos actores Javiem Bardem é o fulgurante artista romântico por excelência (a ex-mulher tem a teoria, quem sabe se certa?, de que só são românticos os amores impossíveis ou condenados ao fracasso, no caso dela, aos sucessivos fracassos, porque volta sempre ao lugar do crime, repetindo a dose); Penélope Cruz, é uma espanhola que gosta de “touros de morte” e avança de faca ou pistola em punho para qualquer ajuste de contas emocional; Scarlett Johansson mantém o nível a que nos habituou ultimamente, mas continua a desiludir um pouco, e Rebecca Hall torna-se a grande surpresa do filme, ela que se impõe nos últimos anos de título em título (em exibição igualmente em “Frost/Nixon”).
Vicky Cristina Barcelona
Título original: Vicky Cristina Barcelona
Realização: Woody Allen (EUA, Espanha, 2008); Argumento: Woody Allen; Produção: Letty Aronson, Stephen Tenenbaum, Gareth Wiley, Bernat Elias, Charles H. Joffe, Javier Méndez, Helen Robin, Jack Rollins, Jaume Roures; Fotografia (cor): Javier Aguirresarobe; Montagem: Alisa Lepselter; Casting: Patricia Kerrigan DiCerto, Juliet Taylor; Design de produção: Alain Bainée; Direcção artística: Iñigo Navarro; Guarda-roupa: Sonia Grande; Maquilhagem: Robert Fama, Manolo García, Ana Lozano, Jesús Martos, Eva Quilez; Direcção de Produção: Bernat Elias, Oriol Marcos; Assistentes de realização: Daniela Forn, Murphy Occhino, Richard Patrick, Anna Rua; Departamento de arte: Marina Pozanco; Som: Robert Hein; Efeitos visuais: Randall Balsmeyer, J. John Corbett; Companhias de produção: Mediapro, Gravier Productions, Antena 3 Films, Antena 3 Televisión; Intérpretes: Rebecca Hall (Vicky), Scarlett Johansson (Cristina), Javier Bardem (Juan Antonio Gonzalo), Penélope Cruz (Maria Elena), Christopher Evan Welch (Narrador), Chris Messina (Doug), Patricia Clarkson (Judy Nash), Kevin Dunn (Mark Nash), Julio Perillán (Charles), Juan Quesada (Guitarista), Richard Salom, Manel Barceló, Josep Maria Domènech, Emilio de Benito, Maurice Sonnenberg, Lloll Bertran, Joel Joan, Sílvia Sabaté, Jaume Montané, Pablo Schreiber, Carrie Preston, Zak Orth, Abel Folk, Jordi Basté, Michael Bennett, Paco Mir, Rodrigo Rojas, etc. Duração: 96 minutos; Distribuição em Portugal: Lusomundo; Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal: 22 de Janeiro de 2009;