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sábado, abril 19, 2008

TELEVISÃO: OS TUDORS RE-INVENTADOS


Teria D. João III sido assassinado pela mulher e nós não sabermos?
OS TUDORS E A PSEUDO-HISTÓRIA

Uma série sem nenhum rigor histórico e muito aberta a outras motivações.


“Os Tudors” é uma série de televisão que, produzida por canadianos e irlandeses (Peace Arch Entertainment / Showtime, Reveille Eire), e apresentada em Portugal pela RTP-2, no Outono passado, viu agora ser colocada no mercado a sua primeira série. À partida gosto de séries históricas e há que reconhecer que a BBC e alguns canais ingleses se têm notabilizado por certos bons empreendimentos. Se esteticamente podem ser por vezes demasiado convencionais, costumam ter algum rigor histórico e as liberdades ficcionais nunca ultrapassam o compreensível
Fui ver “The Tudors” com redobrado interesse, e acabei de os ver com redobrada irritação. Ainda podia compreender a flagrante transformação do reinado de Henrique VIII numa “quente” historieta de “Playboy”, com muita cena de sexo privilegiada em detrimento de uma análise histórica mais séria e rigorosa. Mas chegou uma altura em que a historieta descambou em palhaçada e não se percebe muito bem como em Portugal quase ninguém se revoltou publicamente com esta versão imbecil da História. Como é que a RTP-2 compra e exibe uma tal monstruosidade, não se percebe. Como historiadores, e portugueses em geral, não verberam esta versão televisiva de factos que têm a ver com Portugal e deturpam a verdade histórica de forma tão vil e deselegante, enfim, não compreendo.
Dos factos atraiçoados apenas comento um que julgo suficiente para mostrar o “rigor” desta série: em determinado momento, uma tal Margarida, irmã de Henrique VIII, é casada pelo rei, muito contra sua vontade, com um monarca português. Mandada para Lisboa, aqui descobre que o monarca tem avançada idade, nunca é tratado pelo nome, é esquelético e horroroso, escorre espuma libidinosa pelos olhos e a boca, atira-se à jovem rainha numa fornicação contínua, que lhe provoca um nojo convulsivo, até que, numa noite em que o rei se encontrava dormitando como um porco no seu real leito, a já rainha de Portugal e ainda Margarida de Inglaterra resolve abafar o esposo com uma pesada almofada até ao estertor final. Morto o rei de Portugal, a dita Margarida entrega-se ao abraço viril de um nobre inglês que tinha vindo de Inglaterra com o fito de a “auxiliar em tudo quanto a dama precise”. Ok, percebe-se.
Visto isto, eu que me formei em História, desconhecia por completo a existência deste rei português assassinado por uma malvada inglesa. Mas, tudo bem, deixa ver que rei será, fui vasculhar a cronologia e apenas D. João III poderia enquadrar-se na época. Cognominado O Piedoso ou O Pio pela sua devoção religiosa, nasceu 6 de Junho de 1502 e viria a falecer a 11 de Junho de 1557, tendo reinado desde 13 de Dezembro de 1521. Casado com Catarina da Áustria, infanta de Espanha (1507 - 1578), irmã mais nova do imperador Carlos V, dela teve nove filhos, tendo falecido todos. Este não foi de certeza. Teria sido o pai, e haveria um erro de datas? Dom Manuel I, nascido em Alcochete, a 31 de Maio de 1469, e falecido em Lisboa a 13 de Dezembro de 1521? Este foi mais casadoiro. Do primeiro matrimónio, com Isabel de Aragão, infanta de Espanha, teve um filho; do segundo casamento, com a sua cunhada Maria de Aragão, infanta de Espanha, teve dez filhos; do terceiro matrimónio, com Leonor da Áustria, igualmente infanta de Espanha, irmã do imperador Carlos V, teve mais dois filhos. Não consta que tenha sido casado com inglesa e menos ainda que tivesse sido assassinado. Chamavam-lhe O Venturoso, O Bem-Aventurado ou O Afortunado, pelos eventos felizes que ocorreram no seu reinado, designadamente a descoberta do caminho marítimo para a Índia e a do Brasil.
Ou seja, despudoradamente, inventam uma Margarida inglesa, irmã de Henrique VIII (existiram duas irmãs, uma era realmente Margarida, mas casou com um rei escocês) e inventam um rei Português e um assassinato que nunca existiu. E com base nestas invenções tratam Portugal como um reino de fim do mundo, bárbaro e mesquinho, troglodita na sua corte, com um rei idiota e etc. Não bastam já os reis idiotas que existiram em Portugal e Inglaterra, não bastam já os assassinatos que por essa altura se multiplicam pelas cortes europeias, era ainda preciso inventar?
Vergonhoso e indigno de ser visto numa qualquer série televisiva de um país civilizado em pleno século XXI. Não fossem estes (e outros) erros grosseiros, a série até era visível, boa fotografia, guarda-roupa e direcção artística aceitáveis, interpretações boas (com especial relevo para Sam Neill (Cardeal Wolsey) e Jonathan Rhys Meyers (Henrique VIII). O pendor sensacionalista e de apelo fortemente erótico não ajudava muito, mas ainda se poderia “compreender”, como “liberdade” poética que a ficção desculpa. Mas numa série que tem por base a História (e que por isso mesmo se chama “The Tudors”!), por favor, poupem-nos! É demais.

A segunda série já em exibição promete mais do mesmo.

terça-feira, abril 15, 2008

CINEMA: DUAS IRMÃS, UM REI

DUAS IRMÃS, UM REI


“Duas Irmãs, Um Rei” (The Other Boleyn Girl), de Justin Chadwick, retirado de um romance histórico da autoria de Philippa Gregory, Não é efectivamente uma obra-prima da mais recente cinematografia inglesa, mas também anda longe de ser uma obra tão inferior como alguns nos querem fazer crer, sob a designação crítica (de “má critica” entenda-se) do labelo “produção televisiva da BBC”. Ora procurar denegrir uma obra de cinema dizendo que ela tem tudo o que caracteriza a produção corrente da BBC não me parece muito justo, por várias razões. A primeira é que a BBC, apesar de ser televisão, faz muito bons programas, alguns deles estreados inicialmente o cinema e só depois passados no pequeno écran. Depois, porque muitas vezes o que acusam certos filmes de mais não serem do que telefilmes da BBC, depois vão enaltecer alguns produtos da mesma BBC por comparação (neste caso, fala-se muito da série “Os Tudors” que, sim senhor!, é bem interessante, mas nalguns aspectos fica abaixo deste filme de Justin Chadwick, ele próprio um experimentado realizador da BBC que ganhou diversos importantes prémios com séries aí dirigidas).
Ora bem, vejamos atentamente este filme. Desde logo há que sublinhar alguns aspectos verdadeiramente notáveis: o guarda-roupa, com a assinatura de Sandy Powell (que já conta com Oscars e demais prémios no activo), é verdadeiramente assombroso. Raras vezes vimos no cinema um guarda-roupa com tal qualidade e requinte, de uma sumptuosidade e um bom gosto magníficos. Sem ostentação, apenas com a marca de um talento admirável. Para ver este guarda-roupa vale a pena ver o filme, tanto mais que a direcção artística é também toda ela de grande talento, desde os cenários aos adereços. Digamos que a fotografia em HD, recusando o bonitinho e procurando uma densidade de atmosfera que por vezes roça a obscuridade, concorre para o bom desempenho visual da obra. Entra-se então na realização, que é a forma de organizar narrativamente todos estes elementos, e aí haverá que ressaltar uma certa desigualdade de tratamente que por vezes põe em causa o bom desempenho global do filme. O filme procura ter uma certa intencionalidade de escrita, jogando com panorâmicas laterais e enquadramentos á distância (através de portas ou janelas que se entreabrem, ou através de movimentos de câmara que vão descobrindo fragmentos de uma situação), colocando o espectador na posição daquele que descobre algo, que espia ou surpreende algo de intimo ou privado. Digamos que é uma forma de penetrar nos segredos de alcova de um período histórico que, por ser de interesse público (e de que maneira!), deixou de ser privado para se justificar que sobre ele se lance o olhar da História.
Na verdade, e mesmo tendo em conta algumas “liberdades poéticas” que julgo tanto o livro (que não li) como o filme comentem, esta história das irmãs Bolena tem mesmo muito que se lhe diga, sob diversos pontos de vistas. Para os velhos do Restelo que insistem que o mundo vai caminhando para pior, é bom que se lhes recorde episódios edificantes como este que se passou na (dizem!) fleumática Inglaterra, onde um rei, de libido congestionado, e todo poderoso na sua governação, põe em causa o destino de uma nação, para satisfazer caprichos de menino mimado. O rei é Henrique VIII, cuja fama já vem de longe, casado com Catarina de Aragão, rainha que lhe deu vários varões que não sobreviveram, e depois definhou num convento. Entretanto, sob o pretexto da Inglaterra precisar de um herdeiro varão, amantizou-se com Maria Bolena, que era casada, mas que foi oferecida por pai, tio e marido, para a família progredir na vida e subir na hierarquia social. Como a Maria não foi além de uma menina, Henriqe VIII voltou-se para a irmã desta, Ana também Bolena, mulher pragmática e intriguista que não precisou sequer do impulso da família (que lho deu, obviamente, e em coro) para se colocar sob o régio dorso do monarca. Mas com Ana as coisas fiavam mais fino, e ela só se entregou de alma e coração ao prazer do rei, depois deste se ter divorciado de Catarina de Aragão, e de ter casado consigo. Ana era mulher de moralidade irrepresentável: podia passar por cima de legitimas esposas e atraiçoar irmãs a quem pede depois sacrifícios extremos, mas não se entrega nas mãos do amante, a não ser casada. Sai a todos o tiro pela culatra e ninguém fica bem neste retrato de época: Ana e o irmão, que são acusados de cometer incesto, para assegurar um herdeiro a Henrique VIII, acabam de cabeça decepada. O rei não consegue um varão para a sucessão e terá de se contentar com uma mulher, a filha de Maria Bolena, que será coroada Elizabeth, conhecida por “a rainha virgem” (não há fome que não dê em fartura, ou o inverso!), e a família dos Bolena acaba os dias na pior das desditas. Quem tudo quer, tudo perde, e nestes tempos de absolutismo despótico, o rei fazia o que queria e ainda lhe sobrava tempo para cortar relações com Roma e o Papa, por este não lhe dar o divórcio pretendido. Assim passou a Inglaterra ao Protestantismo. È evidente que nem tudo terá sido tão simples quanto o filme deixa antever, há outras razões (recontidas) para a Inglaterra se ter afastado de Roma e criar a sua própria Igreja, mas o filme, apesar de um pouco primária na sua análise romanesca da História, abeira-se de alguns aspectos curiosos que sabe bem recordar. Tanto mais que o argumentista que adaptou ao cinema o romance de Philippa Gregory, chama-se Peter Morgan e assinara um belíssimo argumento real não há muito tempo. Fora ele que escrevera “A Rainha”, de Stephens Frears, sobre a actual Rainha de Inglaterra e as suas relações politicas dom o primeiro-ministro Tony Blair. Excelente retrato da monarquia, com algum olhar de simpatia para com a casa real, o que desta vez não acontece de forma nenhuma – o olhar é do mais radical menosprezo, dada a manipulação, a hipocrisia, a intriga rasteira, a ambição mesquinha, o despotismo feroz que tresanda de toda esta história.
As duas irmãs são interpretadas por duas actrizes em alta: Ana (soberbamente encarnada por Natalie Portman) e Maria (uma Scarlett Johansson algo em baixo de forma, num papel de boa menina que lhe não vai muito bem). Eric Bana mais uma vez não convence, num Henrique VIII um pouco enjoativo. O restante elenco é eficaz. Resumindo: filme desigual, mas interessante como referência para debate posterior, a merecer ser recordado lá para fins de Fevereiro próximo, pois não acredito que lhe fuja a nomeação (nem o Óscar) para melhor guarda-roupa, pelo menos.
DUAS IRMÃS, UM REI
Título original: The Other Boleyn Girl
Realização: Justin Chadwick (Inglaterra, França, Canadá, 2008); Argumento: Peter Morgan, segundo romance de Philippa Gregory; Música: Paul Cantelon; Fotografia (cor): Kieran McGuigan; Montagem: Paul Knight, Carol Littleton; Casting: Karen Lindsay-Stewart; Design de produção: John Paul Kelly; Direcção artística: David Allday, Matthew Gray, Emma MacDevitt; Decoração: Sara Wan; Guarda-roupa: Sandy Powell; Maquilhagem: Paul Gooch, Ivana Primorac, Nikita Era, Heba Thorisdottir; Direcção de produção: Tania Windsor Blunden, Mally Chung, Rachel Neale; Assistentes de realização: Paul Bennett, Paul Mindel, Alex Oakley, Samar Pollitt, Deborah Saban; Departamento de arte: Remo Tozzi; Som: Julian Slater; Efeitos Especiais: Stuart Brisdon, Paul Clancy, Mark Haddenham; Efeitos Visuais: Lucy Ainsworth-Taylor, Angela Barson; Produção: Mark Cooper, Alison Owen, Jane Robertson, Scott Rudin, Faye Ward; Companhias de Produção: BBC Films, Focus Features, Relativity Media, Ruby Films, Scott Rudin Productions;
Intérpretes: Natalie Portman (Anne Boleyn), Scarlett Johansson (Mary Boleyn), Eric Bana (Henry Tudor), Jim Sturgess (George Boleyn), Mark Rylance (Sir Thomas Boleyn), Kristin Scott Thomas (Lady Elizabeth Boleyn), David Morrissey (Thomas Howard - Duke of Norfolk), Benedict Cumberbatch (William Carey), Oliver Coleman (Henry Percy), Ana Torrent (Katherine of Aragon), Eddie Redmayne (William Stafford), Tom Cox, Michael Smiley, Montserrat Roig de Puig, Juno Temple (Jane Parker), Iain Mitchell (Thomas Cromwell), Andrew Garfield (Francis Weston), Lewis Jones, Corinne Galloway (Jane Seymour), Alfie Allen, Tiffany Freisberg, Bill Wallis, Joanna Scanlan, Brodie Judge, Oscar Negus, Maisie Smith, Daisy Doidge-Hill, Kizzy Fassett, Finton Reilly, Emma Noakes, Poppy Hurst, Constance Stride, Rebecca Grant, etc.
Duração: 115 minutos; Classificação etária: M/ 12 anos; Distribuição em Portugal: Lusomundo Audiovisuais (cinema e DVD); Locais de filmagem: Bath, Somerset, England, Inglaterra; Data de estreia: 6 de Março de 2008 (Portugal)

segunda-feira, janeiro 14, 2008

quarta-feira, outubro 31, 2007

COMEÇOU NO DIA 15 DE OUTUBRO


AR.CO.

Cinema/Imagem em Movimento

Curso regular de 3 anos com opção de desenvolvimento posterior com candidatura a Projecto Individual, Curso Avançado de Artes Plásticas ou outra.
Frequência opcional de workshops ou ateliês em módulos autónomos.

Localização: Rua de Santiago 18, Lisboa.
Responsável do departamento: Marcelo Costa
Professores: Amândio Coroado, Cláudia Tomaz, Gustavo Sumpta, Hugo Brito, José António Leitão, Lauro António, Manuel Castro Caldas, Manuela Correia Braga, Marcelo Costa, Maria João Branco, Maria Jorge Martins, Maria Mire, Ricardo Matos Cabo.

Nível 1
15 Out 2007 a 27 Jun 2008
256 horas
Programa anual. Inscrição anual.
Condições de admissão: Sem requisitos. Por ordem de inscrição.

· AULAS PRÀTICAS:
Laboratórios I
· WORKSHOPS:
“Vídeo e formas breves cinematográficas”
“Faça você mesmo”
“Inter-Act”
“Movimento Fixo
· AULAS TEÓRICAS:
“A História do Cinema”
“Realismos”
“Transversalidades – Cinema e outras disciplinas”
“Imagem em Movimento”
· Outros Workshops a selecionar pelo aluno (20 horas).

Nível 2
15 Out 2007 a 27 Jun 2008
256 horas
Programa anual. Inscrição anual.
Condições de admissão: Nível 1 ou formação equivalente. Apresentação de portfolio. Entrevista.

· AULAS PRÁTICAS:
Laboratórios II
· WORKSHOPS:
“Vídeo e formas breves cinematográficas”
“Faça você mesmo”
“Inter-Act”
“Movimento Fixo"
· AULAS TEÓRICAS:
“A História do Cinema”
“Realismos”
“Transversalidades – Cinema e outras disciplinas”
“Imagem em Movimento”
· Outros Workshops a selecionar pelo aluno (20 horas).

Nível 3
15 Out 2007 a 27 Jun 2008
186 horas
Programa anual. Inscrição anual.
Condições de admissão: Nível 2 ou formação equivalente. Apresentação de portfolio. Entrevista.


· WORKSHOPS:
“Vídeo e formas breves cinematográficas”
“Faça você mesmo”
“Inter-Act”
“Movimento Fixo
· AULAS TEÓRICAS:
“A História do Cinema”
“Realismos”
“Transversalidades – Cinema e outras disciplinas”
“Imagem em Movimento”
· Outros Workshops a selecionar pelo aluno (40 horas)

(Nota: com a conclusão do Nível 3 é conferido o Certificado do Plano de Estudos Básico em Cinema/Imagem em Movimento).

HISTÓRIA DO CINEMA I

o cinema mudo

Plano das aulas e visionamentos:

15 de Outubro apresentação e 1º filme
O LIRIO QUEBRADO, de Griffith

18 de Outubro 1ª aula (excepcionalmente o início desta aula é às 17h00)
O nascimento do cinema
Filmes dos Lumiére e Méliès

22 de Outubro 2º filme
FANTOMAS, de Louis Feuillade

25 de Outubro 3º filme
CABÍRIA, de G. Patrone

29 de Outubro 2ª aula
O nascimento da narrativa clássica
Filme “O Nascimento de uma Nação”, de David Griffith.

5 de Novembro 3ª aula
O Expressionismo
Filmes “O Gabinete do Dr. Galigari”, de Robert Wiene, e “Nosferatu”, de F.W. Murnau

8 de Novembro 4º filme
O TESOURO DE ARNE, de Mauritz Stiller

12 de Novembro 4ª aula
O Expressionismo
Filmes “O Gabinete do Dr. Galigari”, de Robert Wiene, e “Nosferatu”, de F.W. Murnau

15 de Novembro 5º filme
OUTUBRO, de Serghei Eisenstein.

19 de Novembro 5ª aula
Surrealismo e Vanguardas
Filmes “Le Chien Andalous” e “L’ Age d’Or”, ambos de Luís Buñuel, e “Berlim, Sinfonia de uma Cidade” de Walther Ruttmann.

22 de Novembro 6º filme
A MÃE, de Pudovkin

26 de Novembro 6ª aula
Surrealismo e Vanguardas
Filmes “Le Chien Andalous” e “L’ Age d’Or”, ambos de Luís Buñuel, e “Berlim, Sinfonia de uma Cidade” de Walther Ruttmann.

29 de Novembro 7º filme
METROPOLIS, de Fritz Lang.

3 de Dezembro 7ª aula
O Construtivismo soviético
Filme “O Couraçado Potenkine”, de Serghei Eisenstein, e “O Homem da Máquina de Filmar”, de Dziga Vertov

6 de Dezembro 8º filme
AURORA, de F. W. Murnau

10 de Dezembro 8ª aula
O Construtivismo soviético
Filme “O Couraçado Potenkine”, de Serghei Eisenstein,
e “O Homem da Máquina de Filmar”, de Dziga Vertov

13 de Dezembro 9º filme
CHAPLIN DESCONHECIDO (série, 3 H)

17 de Dezembro 9ª aula
O burlesco americano
“A Quimera de Ouro”, de Charles Chaplin, e “Pamplinas, Maquinista”

18 de Dezembro 10º filme
O ANJO AZUL, de Sternberg

19 de Dezembro 10ª aula
O burlesco americano
“A Quimera de Ouro”, de Charles Chaplin, e “Pamplinas, Maquinista”

20 de Dezembro 11º filme
MATOU, de Fritz Lang

Nota:

para os meus alunos criei o blogue

A MEMÓRIA DAS SOMBRAS

sexta-feira, agosto 31, 2007

Cinema: A ÚLTIMA LEGIÃO

A ÚLTIMA LEGIÃO

“A Última Legião” começa por ser um romance de Valerio Massimo Manfredi, o mesmo autor que já nos dera a trilogia dedicada a “Alexandre, o Grande” (e de quem se encontra ainda editado em Portugal um outro título, “Quimera”, todos pertença da colecção “Grandes Narrativas”, da “Presença”).
Valerio Massimo Manfredi (nascido em Piumazzo di Castelfranco, Itália, 1943) é arqueólogo de formação, formado pela Universidade de Bolonha, com especialização em topografia do mundo antigo pela Universidade Católica del Sacro Cuore, de Milão, onde iniciou a sua actividade docente, passando ainda pelas Universidade de Veneza, Universidade Loyola de Chicago, Ecole Pratique des Hautes Etudes da Sorbone, em Paris, e finalmente pela Luigi Bocconi, em Milão.
Publicou centenas de artigos em jornais e revistas de Itália (Il Messaggero, Panorama, Archeo, Focus, etc.) e internacionais, e escreveu diversos romances históricos (cerca de seis milhões de exemplares vendidos em todo o mundo), tendo ainda trabalhado no cinema e na televisão. No canal LA7, dirige um programa de televisão, "Stargate - Linea di Confine". Em 1999 foi considerado "Man of the Year" pelo "American Biographical Institute". Carreira de sucesso para um escritor de “best sellers” de cariz histórico, com alguma propensão para o êxito mais ou menos fácil. A sua escrita é escorreita, a sua imaginação fértil, mas pouco dada a voos de inspiração, os seus romances são longas descrições de fantasiosas intrigas de aventura, tendo por cenário um fundo histórico, entretecido com referências míticas e, quando estas não chegam, com extravagantes lucubrações sobre hipóteses muito pouco prováveis (como acontece neste caso de “A Última Legião”).
Devo reconhecer que tanto a trilogia sobre “Alexandre o Grande” como este “A Última Legião” os li mais na diagonal, do que na horizontal. A escrita não me prende, os pormenores históricos não me seduzem, tão emaranhados estão numa teia de aventura primária, com rodriguinhos de fácil manejo. Por exemplo, neste “A Última Legião”, confessadamente escrito a pensar numa provável adaptação ao cinema, o aparecimento de uma guerreira de nome Lívia, que ali se encontra unicamente para propiciar o “romance”, começa desde logo por indispor contra a obra e a sua seriedade. A partir desta cena começamos logo a pensar mais num “peplum” popularucho do que numa reconstituição histórica de seriedade assegurada. Acontece, porém, que o “peplum”, de vasta e honrosa tradição no cinema italiano (e que dá origem, depois de “Cabíria” e “Os Últimos Dias de Pompeia”, ainda no mudo, a uma torrente de obras divertidas e de assegurado entretenimento, nas suas limitadas e honradas intenções: honradas porque nunca pretendem ser mais do que são, e assim mesmo se apresentam), tem carta de nobreza no cinema e pouca credibilidade na literatura. Talvez por isso o filme seja suportável, ainda que relativamente medíocre, e o livro não tenha justificado leitura atenta.
Desta maneira chegamos ao filme de Doug Lefler, um antigo assistente de Sam Raimi, que aqui assina a sua segunda obra como realizador de longa metragens, depois de “Dragonheart: A New Beginning” (2000), e após longa passagem pela televisão, em séries de aventuras fantásticas, e vasta experiência no campo da direcção artística e na animação. Percebe-se o seu gosto por um imaginário de aventuras predominantemente popular. As cenas de guerra e de duelos apontam nesse sentido: nenhuma necessidade de credibilidade, apenas de espectáculo: um herói sozinho chega para dizimar uma companhia de inimigos, tanto mais que só defronta um de cada vez, quanto muito dois, enquanto os outros ficam a ver no que param as modas. Então se o herói for uma heroína, indiana, ex-Miss Mundo, lindíssima, estrela de Bollywood de nome Aishwarya Rai, com um corpo escultural, uns olhos faiscantes e uma desenvoltura notável, quem não fica a olhar até sofrer o golpe fatal? Ficam os companheiros e os adversários, neste caso os ingleses Colin Firth e Ben Kingsley, e os escoceses John Hannah e Peter Mullan, entre muitos outros.
A história conta-se rápido. Estamos em Roma, corre o ano de 476 d.C. O Império Romano está à beira da queda, sobretudo o Império Ocidental. No dia em que Rómulo Augusto (Thomas Sangster), um puto de 13 anos, é coroado Imperador, na presença dos pais, de Ambrosinus (Ben Kingsley), seu mentor e tutor, e de Aurélio (Colin Firth), comandante da quarta legião, ordenado guarda pessoal de Rómulo, o godo Odoacro e o seu exército invadem Roma e, após uma batalha devastadora, conquista a cidade, mata os pais do Imperador, captura Rómulo e Ambrosinus, que são mandados prisioneiros para a fortaleza da ilha de Capri. Aurélio consegue sobreviver e reunir um grupo de leais guerreiros, a que se acrescenta uma não menos leal Mira (a Lívia do romance) para tentar libertar o jovem Rómulo Augusto. O que se faz num ápice. Depois, como os únicos aliados são a Nona Legião que se encontra na Britânia, é para lá que vão, perseguidos por Wulfila, o vilão de serviço, de quem nem o seu general Odoacro gosta (corta-lhe um dedo a sangue frio). Em terras britânicas a saga continua, pois Ambrosinus tinha umas contas antigas a ajustar com um tal Vortgyn, de máscara dourada e muita maldade por detrás. Mais batalhas e cercos a castelos, a virtude triunfa e, no final, sabemos que Ambrosinus também é conhecido por Merlin, e o puto que consegue erguer a espada de César que estava reservada a um único libertador, vai talvez erguer também Excalibur, ligando-se assim os últimos dias da queda do Império Romano à lenda do rei Artur, de Excalibur, dos Cavaleiros da Távola Redonda e de Camelot. Uma tentativa que já fora ensaiada com maior credibilidade em “King Arthur”, filme de Antoine Fuqua.
Quanto aos actores, além da beleza exótica já referida da indiana Aishwarya Rai, há ainda a salientar a presença de Colin Firth, a quem a aguerrida indiana se atira por todas as formas conhecidas, do arco e flecha até literalmente para a cama, nunca parece deixar de pensar: “o que é que eu faço com isto?”, já que, obviamente, não está dentro do “seu” filme. Ben Kingsley, a quem convidaram a vestir uma batina branca de sacerdote para realizar esta “visita de estudo” pelos locais da História, lá vai passeando de varapau. Thomas Sangster, o puto César, é muito simpático. Irrequieto e ladino, mesmo assim é daqueles que apetece ter em casa. Já o mesmo não se dirá dos maus da fita, Peter Mullan (Odoacro), Kevin McKidd (Wulfila), ou Harry Van Gorkum (Vortgyn).
A ÚLTIMA LEGIÃO
Título original: The Last Legion ou La Dernière Légion ou L’ Ultima Legione
Director: Doug Lefler (EUA, Inglaterra, França, Eslováquia, Itália, 2007); Argumento: Jez Butterworth, Tom Butterworth, Carlo Carlei, Peter Rader, seundo romance de Valerio Massimo Manfredi; Música: Patrick Doyle; Fotografia (cor): Marco Pontecorvo; Montagem: Simon Cozens; Casting: Lucy Bevan, Lenka Stefankovicova; Design de produção: Carmelo Agate; Direcção artística: Roberto Caruso, Viera Dandova, Elio Luciano, Ján Svoboda; Decoração: Francesco Postiglione, Alberto Tosto; Guarda-ropa: Paolo Scalabrino; Maquilhagem: Jana Carboni, Giannetto De Rossi, Lorella De Rossi, Mirella De Rossi, Anna De Santis, Blazena Dollingerova, Alessandro Durante, Katka Horska; Direcção de produção: Amel Becharnia, Aziz Ben Chaabane, Viliam Richter, Piergiuseppe Serra, Stefano Spadoni, Milan Stanisic, Simona Vescovi; Assistentes de realização: Senda Anane, Moez Ben Hassen, Gerry Gavigan, Steve Griffin, Sallie Anne Hard, Peter Palka, Gemma Powley, Emma Stokes, Gareth Tandy, Paul Taylor, Paula Turnbull; Departamento de arte: Ron Downing, Giorgio Postiglione, Terry Royce, Fero Turna; Som: Andy Kennedy; Efeitos Especiais: Simon Cockren, Stefano Pepin, Trevor Wood; Efeitos visuais: Alain Carsoux, Séverine De Wever, Hamery Laurent, Jeremie Leroux, Rossi Sébastien; Produção: Tarak Ben Ammar, Dino De Laurentiis, James Clayton, Chris Curling, Martha De Laurentiis, Raffaella De Laurentiis, Lorenzo De Maio, Hester Hargett, Salvatore Morello, Duncan Reid, Phil Robertson, Lucio Trentini, Harvey Weinstein; Companhias de produção: Dino De Laurentiis Company, Ingenious Film Partners, Quinta Communications, Zephyr Films Ltd.
Intérpretes: Colin Firth (Aurelius), Ben Kingsley (Ambrosinus/Merlin), Aishwarya Rai (Mira), Peter Mullan (Odoacro), Kevin McKidd (Wulfila), John Hannah (Nestor), Iain Glen (Orestes), Thomas Sangster (Romulus Augustus), Rupert Friend (Demetrius), Nonso Anozie (Batiatus), Owen Teale (Vatrenus), Alexander Siddig (Theodorus Andronikos), Robert Pugh (Kustennin), James Cosmo (Hrothgar), Harry Van Gorkum (Vortgyn), Beata Ben Ammar (Flavia), Murray McArthur, Ferdinand Kingsley, Rory James, Lee Ingleby, Andrew Westfield, Alexandra Thomas-Davies, Zarrouk Brahim, Robert Brazil, Ouerghi Chedly, Kathleen Segal, Tasha Bertram, Igor De Laurentiis, Vladimir 'Furdo' Furdik, Trevor Lovell, Mark Sangster, etc.
Duração: 110 minutos; Distribuição em Portugal: LNK; Locais de filmagem: castelo de Cerveny, Pezinok, Eslováquia, Tunísia; Data de estreia: 17 de Agosto de 2007 (EUA); 15 de Agosto de 2007 (Portugal); Classificação etária: M/12 anos;

sexta-feira, julho 20, 2007

A JUVENTUDE DE HOJE


Enviaram-ma por email, portugueses que vivem em Valência (Espanha), e a história vem com sabor a samba. Coisas da globalização. (Abraço para o Zé, a Josefina e respectiva prole):

“Falando sobre conflitos de gerações, o médico inglês Ronald Gibson começou uma conferência citando quatro frases:

1.) "A nossa juventude adora o luxo, é mal-educada, caçoa da autoridade e não tem o menor respeito pelos mais velhos. Os nossos filhos hoje são verdadeiros tiranos, não se levantam quando uma pessoa idosa entra, respondem mal aos pais e são simplesmente maus."

2) "Não tenho mais nenhuma esperança no futuro do nosso país se a juventude de hoje tomar o poder amanhã, porque essa juventude é insuportável, desenfreada, simplesmente horrível."

3) "O nosso mundo atingiu o seu ponto mais crítico. Os filhos não ouvem mais seus pais. O fim do mundo não pode estar muito longe."

4) "Essa juventude está estragada até o fundo do coração. Os jovens são malfeitores e preguiçosos. Jamais serão como a juventude de antigamente. A juventude de hoje não será capaz de manter a nossa cultura."

Após ter lido as quatro citações, ficou muito satisfeito com a aprovação que os espectadores davam às frases. Então, revelou a origem delas: A primeira é de Sócrates (470-399 a.C.); a segunda é de Hesíodo (720 a.C.); a terceira é de um sacerdote do ano 2000 a.C. e a quarta estava escrita em um vaso de argila descoberto nas ruínas da Babilónia (actual Bagdad) e tem mais de 4000 anos de existência. “

Conto-a pelo preço por que a comprei. Até parecem autênticas as citações, mas todo o historiador sabe que deve fazer “crítica de fontes”, o que não fiz. Recebi assim, e assim coloco no blogue. Se não for verdade, podia ser. Estou plenamente de acordo com o que ali se diz. Não sou de forma nenhuma um catrastrofista, muito pelo contrário, acho que a Humanidade vai melhorando. Podia era fazê-lo mais rapidamente, é verdade, e, sobretudo, não ter tantas recaídas periódicas.
Acontece que o que antigamente era do conhecimento de uns tantos, hoje é do conhecimento de milhões, através desta sociedade da informação e do seu espectáculo. Se, há um século atrás, um filho batia no pai ou na mãe, só eles os três sabiam; hoje vem no jornal e passa na televisão.
Podem, pois, os pais ficar mais descansados. Mas não relaxar. Os filhos, porém, não devem agarrar no pretexto para se manterem ao mais baixo nível, mas… podem desanuviar um pouco o ambiente.

terça-feira, junho 26, 2007

CINEMA:OS INIMIGOS DO IMPÉRIO

OS INIMIGOS DO IMPÉRIO
“Ye Yan” (Os Inimigos do Império), do chinês Feng Xiaogang, parte de uma adaptação livre da tragédia “Hamlet”, de William Shakespeare, transpondo-a para os tempos caóticos do século X (entre 907 e 960), na China, num período da Dinastia Tang em que existiam Cinco Dinastias e Dez Reinos. Para quem viu “A Maldição da Flor Dourada”, de Zhang Yimou, as semelhanças não passarão despercebidas. Trata-se de novo de um conflito familiar que envolve uma luta pelo poder, desta feita protagonizada por um Imperador que assassinara o irmão para assim conseguir chegar ao poder, uma Imperatriz que está apaixonada pelo Príncipe, filho do seu ex marido, mas não seu, e que aceita casar com o cunhado para se salvar e poupar o legítimo herdeiro, e ainda por um numeroso séquito de ardilosos conspiradores e inocentes amantes. Ministros, generais, filhos e filhas de ministros, todos os seus destinos se entrelaçam neste jogo mortal que tem como fito o trono do Império.

Um dia, depois de muitas armadilhas e traiçoeiras ciladas, com muitos duelos de uma olímpica beleza e proverbial agilidade, com os guerreiros a esgrimir na terra e no ar, evoluindo por entre espadas, lanças e punhais que se cruzam e descruzam e vão provocando rios de sangue-vermelho-vivo, o Imperador resolve oferecer um banquete, num dia que o Camareiro-mor não acha o mais auspicioso para semelhante ocorrência. Mas como as vontades do Imperador são para cumprir, assim seja. E assim foi que num espaço de um palco frente ao trono do Império, se sucederam as mortes, com um compasso feroz, marcado pela cobiça dos homens e executado através de múltiplos expedientes, salpicados por fatalidades e equívocos sem retorno. A Imperatriz tenta envenenar uns, mas acaba por ver desviada a taça, e a partir daí o morticínio é total. No palco desse jogo de poder nefasto, jazem corpos que tombam num bailado fúnebre.
O filme é basicamente mais uma meditação sobre a febre do poder que tudo corrói e corrompe. O talento de Feng Xiaogang é inequívoco, ainda que uns pontos abaixo da genialidade de Zhang Yimou. Será aliás curioso comparar como dois filmes tão semelhantes quanto ao seu argumento, podem ser tão diferentes, mesmo contraditórios, quanto à estética, ao ritmo, ao estilo de ambos os cineastas. Numa escola de cinema, mostrar “A Maldição da Flor Dourada” e “Os Inimigos do Império” um a seguir ao outro, é uma boa maneira de “explicar” o que é um estilo, um tom pessoal, um olhar diferente. Feng Xiaogang é mais denso, mais soturno, mais nocturno nas suas imagens. Mais lento na forma como conduz a obra. Mais “intelectualizado”, mais “artístico”, sem que nada disso sejam virtudes só por si. Como já dissemos, preferimos a limpidez kurosaweana (e fordeana) de Zhang Yimou. Não é por querer ser mais “intelectual” que se é melhor.
Mas é evidente igualmente que este é um filme fascinante, inclusive por essa necessidade de se afirmar mais reflexivo. Desde as primeiras imagens que Feng Xiaogang aproxima a sua narrativa do palco teatral. O seu Príncipe, angustiado pelo que vai no palácio, afasta-se para longe da corte e vai aprender arte de representação, utilizando máscaras e túnicas brancas que tornam todos os actores iguais. Explica-se mesmo que representar com máscara é que é a autêntica forma de representar, pois se torna mais difícil mostrar as emoções. É ai que os primeiros enviados do Imperador usurpador o vão tentar assassinar pela primeira vez. Aí se vai iniciar o bailado bélico que acompanha toda a obra. Aí principia igualmente a “representação” ostensiva desta tragédia que se envolve num melodrama passional de umas proporções de tal forma excessivas que chega a surpreender. Feng Xiaogang não recusa um plano mais extenso (o longo travelling acompanhando o caminhar da Imperatriz, de costas!) ou uma fixidez de uma duração insuspeita (vários exemplos ao longo do filme). Mas a estes seguem-se cenas de um ritmo avassalador, verdadeiros ballets organizados em função de lutas corpo a corpo, onde a beleza, a brutalidade, a elegância e a violência se cruzam (há muito de “O Tigre e o Dragão” nesta obra que é produzida por um dos responsáveis pela coreografia do filme de Ang Lee).
O que mais impressiona nesta obra é objectivamente a forma como o realizador cria uma atmosfera quase doentia, patológica, através de ambientes pesados e sombrios, jogos de luzes e sombras, cores densas e magoadas, cenários sumptuosos que oprimem, e uma “encenação” (os franceses chamam-lhe “mise-en-scène” com muito rigor) que vai buscar influência ao teatro e o transporta com eficácia e rigor para a narrativa cinematográfica que, não descolando do estilo “wuxia”, não deixa de ser uma obra de grande beleza e severidade estética.
Conhecido internacionalmente como “The Banquet” esta obra de Xiaogang Feng, que conta com interpretações de Ziyi Zhang (excelente, e continua a ser uma das mais belas presenças do cinema asiático) e Daniel Wu, possui uma admirável fotografia que ajuda a criar esse clima poético de viciada decadência moral, sendo ainda o todo muito ajudado pela direcção artística e o guarda roupa de uma qualidade estética invulgar.
OS INIMIGOS DO IMPÉRIO
Título original: Ye Yan ou Banquet
Realizador: Feng Xiaogang (China, 2006); Argumento: Chiu-Tai An-Ping, Sheng Heyu; Música: Tan Dun; Fotografia (cor): Zhang Li; Director de cenas de acção: Yuen Woo Ping; Montagem: Miaomiao Liu; Direcção artística: Timmy Yip; Guarda-roupa: Timmy Yip; Coreografia: Wang Yuanyuan; Departamento de arte: Li Ji Qing; Som: Danrong Wang; Efeitos visuais: Phil Jones, Tracy Lefler, Persis Reynolds, Sarah Wormsbecher; Produção: John Chong, Zhonglei Wang, Woo-ping Yuen; Companhias de produção: Huayi Brothers & Taihe Film Investment Co.
Intérpretes: Ziyi Zhang (Imperatriz Wan), Daniel Wu (Principe Wu Luan), Xun Zhou (Qing Nu), You Ge (Imperador Li), Jingwu Ma (Ministro), Xiaoming Huang (Filho do Ministro), etc.
Duração: 131 minutos; Distribuição em Portugal: Vitória Filmes; Classificação etária: M/ 12 anos; Filmagens: Setembro de 2005 até Fevereiro de 2006, em Beijing, Montanhas de Altay, Xinjiang; "Mar de Bamboo", Zhejiang; Orçamento: 20 milhões de dólares.

Feng Xiaogang é um dos mais cotados realizadores chineses da actualidade. Nascido em Beijing, em 1958, Xiaogang é filho de um professor de um colégio do Partido Comunista e de uma enfermeira. A sua formação cinematográfica foi adquirida na televisão. Primeiro como assistente de produção, omo argumentista, como pintor de cenários num grupo teatral, etc. Em 1991 adaptou a televisão um romance popular sobre emigração chinesa nos EUA, de que resultou uma série de TV muito popular, "Beijingers in New York", estreada na China em 1992. Rapidamente surgiu o sucesso, e outras séries que estabelecem um novo género de teledramáticos na China "Hesui Pian (贺岁片)" ("New Year Celebration Movies"): “Dream Factory” (Jiafang yifang, 1997), “Be There or Be Square” (Bujian busan, 1998), “Sorry, Baby” (Meiwan meiliao, 1999) ou "A Sigh” (Yisheng tanxi, 2000). No cinema o seu reconhecimento dá-se com “Big Shot's Funeral”, “A Sigh” e, sobretudo, “Cell Phone”, afirmando um cineasta um pouco diferente de camaradas como Chen Kaige ou Zhang Yimou. Feng Xiaogang é casado com a actriz chinesa Xu Fan. Nos seus filmes Ge You é a sua actriz fetiche.

segunda-feira, junho 25, 2007

MURALHAS DE CACELA-A-VELHA

Recebi, via terceiros, um mail que julgo merecer ser do conhecimento público (tanto mais que dirijo em Portel um festival sobre castelos, "O Castelo em Imagens"). O texto de "Os Amigos dos Castelos" reza assim, e assim aqui fica, apesar de um pouco confuso e de não se perceber muito bem o que está a acontecer, como e porquê. Calculo que estejam a tentar destruir a muralha em nome de interesses particulares. Quem souber mais e melhor, é favor acrescentar dados. Mas a verdade é que o nosso património histórico e cultural não pode estar à mercê de um quaqluer interesse particular.

Caros Associados
Os Amigos dos Castelos tiveram informação, em Maio passado, de uma situação deveras preocupante sobre o nosso património monumental fortificado. Em causa está a manutenção física da muralha da cerca da vila de Cacela-a-Velha no concelho de Vila Real de St.º António. Esta é um importante vestígio da ocupação Islâmica de uma das mais emblemáticas localidades do Sotavento Algarvio. Acrescente-se que esta construção está inserida na área classificada de Cacela e, como tal, constitui um monumento classificado. A existência deste elemento é essencial para compreendermos, apreendermos e divulgarmos o nosso património histórico.
Os Amigos dos Castelos fizeram já várias diligências junto das entidades responsáveis, quer centrais (IGESPAR) quer locais (Câmara Municipal de Vila Real de Santo António) para tentar salvar a Muralha Islâmica da cerca do Povoado de Cacela. As últimas informações recebidas aumentam as nossas preocupações no que se refere às medidas que o IGESPAR tem que tomar para emendar erros cometidos por pessoas que estão identificadas, num processo que é pouco claro.
Não nos parece aceitável que a prática do facto consumado continue a ser uma solução considerada razoável. A Muralha está numa zona classificada e à face da lei não pode ser demolida. Não nos parece correcto manter como bom o argumento de que um despacho de uma entidade pública se possa sobrepor à lei e continuar a satisfazer os interesses dos promotores das obras novas com manifesto prejuízo do Interesse Público.
Temos sido prudentes e dialogantes porque as questões do Património são muito delicadas e devem ser resolvidas por consenso, mas este caso passa os limites. Gostaríamos que fosse encontrada uma solução razoável urgentemente. Pedimos a colaboração de todos os associados para uma intervenção rápida no sentido de impedir a destruição deste elemento. Se formos activos conseguiremos mobilizar as atenções e as vontades políticas. Contamos com a ajuda de todos! Com amizade
Francisco Sousa Lobo, Eng. (Presidente)

Associação Portuguesa dos Amigos dos Castelos
Rua Barros Queirós, 20, 2º 1100-077 Lisboa
t 218885381 f 218885342
www.amigosdoscastelos.org.pt
fsousalobo@amigosdoscastelos.org.pt

fotos retiradas, com a devida vénia, do blogue “Local & Blogal”, de António Baeta Oliveira

sexta-feira, junho 08, 2007

CINEMA: "DIAS DE GLÒRIA"

“DIAS DE GLÓRIA” PARA “INDIGÉNES”


História comum em países colonialistas, mas história pouco contada, tanto por colonizadores como por colonizados, esta do recrutamento e intervenção militar de milhares de cidadãos das colónias na defesa “das Pátrias mães”, quando estas se encontram em risco e entram em guerra. Com “Dias de Glória” (Indigènes), de Rachid Bouchareb, olha-se o caso dos soldados africanos do Magreb que lutam contra os alemães na Europa invadida, em defesa da Mãe-França. Em Portugal poderia estudar-se e documentar-se fenómeno idêntico, sobretudo nas Guerras Coloniais, a partir de 1961, quando milhares de africanos, recrutados nas diferentes “províncias ultramarinas”, são instruídos e enquadrados nos contingentes militares portugueses para defender “a integridade do território nacional”. Esta é uma situação vulgar em quase todos os países com colónias, mas uma situação que deixa certamente um travo bem amargo em todos os participantes, o que tem levado a que seja tema a evitar. Um sentimento de culpa deve estender-se a todos os campos intervenientes que parecem preferir esquecer os factos a abordá-los frontalmente. A polémica que o filme de Rachid Bouchareb provocou em França, antes mesmo da estreia oficial, e posteriormente (depois da sua apresentação no Festival de Cannes, onde o elenco masculino conquistou, em bloco, o Prémio de Melhor Interpretação), não deixa de ser significativa. Falou-se um pouco de tudo e falou-se quase sempre mal, não deixando de vir ao de cima ressentimentos e fantasmas. Por seu turno, a maioria da crítica cinematográfica portuguesa, remetendo o filme para a banalidade académica das obras de guerra que não ficam na História, e dedicando-lhe pouco mais do que meia dúzia de linhas a despachar o filme, acabou por prestar um mau serviço ao público em geral: o filme passou despercebido na voragem dos “blockbusters” de Verão que o engoliram por completo entre um “Homem Aranha” e um “Piratas das Caraíbas”. Na noite em que o vi, numa sala do “El Corte Inglés”, estavam 5 pessoas na plateia. A obra, não sendo esteticamente um produto brilhante, nem de arrojada concepção, merece todavia muito mais e vai figurar, desde já, entre os filmes que fizeram História, não apenas História do Cinema, mas História na sua acepção mais vasta. O cinema tem essa vantagem, a de não ser apenas arte e estética, mas poder ser olhado sob muitos outros prismas.

Soldados africanos na Europa
Em 1943, muitos milhares de homens são recrutados em territórios magrebinos para ingressarem nas fileiras do exército francês e defenderem a divisa da Revolução Francesa, “Igualdade, Liberdade e Fraternidade”, contra a invasão nazi da Europa. Nos acontecimentos que nos são relatados, essas tropas entram na Europa por Itália, passam por Marselha, onde têm uns dias de descanso, voltam a intervir na Provença e mais tarde defendem uma aldeia nos Voges até à chegada dos americanos. São já apenas quatro soldados (um deles promovido a cabo, em desespero de causa) e um sargento, ferido e acamado. Lutam até à morte, com pistolas e espingardas contra bazucas. Sobrevive um que conta o feito e o preserva para a História.
Com argumento escrito pelo próprio realizador Rachid Bouchareb, de colaboração com Olivier Lorelle, “Dias de Glória” centra a sua atenção particularmente em cinco personagens precisamente aquelas com que o filme termina no episódio de Voges: Abdelkader (Sami Bouajila), um soldado corajoso e determinado que sabe enfrentar e vencer os obstáculos e tenta ultrapassar os preconceitos de superiores e da própria instituição militar. Facilmente assume a situação de um comandante e, por isso mesmo, quando o sargento é gravemente ferido, passa a ser o cabo que chefia o reduzido grupo e aceita defender uma aldeia da investida dos “boches”, resistindo até à chegada dos americanos. Não hesita também, anteriormente, em confrontar-se com o sargento Roger Martinez (Bernard Blancan), um árabe que passa por francês, mas que, apesar da sua aparente conduta desapiedada e fria, procura sempre defender “a sua gente”, ainda que não colocando em jogo a sua situação de assimilado. Para além destas duas figuras que predominam pela personalidade há ainda a referir os outros três companheiros sobre que repousa igualmente a obra: Messaoud (Roschdy Zem), um romântico que se apaixona por uma belíssima francesa durante a licença que passa em Marselha, e que irá desencadear uma das mais conseguidas cenas desta obra; Yassir (Samy Naceri), que perde o irmão quando são surpreendidos num campo minado, e cuja grande meta é ganhar dinheiro com os despojos deixados nas trincheiras pelos inimigos mortos; finalmente, Saïd (Jamel Debbouze), homem complexado e carente (que faz toda a guerra sem um braço), que deixa na terra natal um mãe que o não quer deixar partir, e que será “adoptado” pelo sargento Martinez, advindo daí situações complexas nem sempre resolvidas de forma airosa. Said oscila entre uma dedicação que roça o amor e o desejo de morte, que rapidamente contradiz e que o leva ao acto de generosidade total. São estas figuras e a forma como argumentistas, realizador e, sobretudo, actores as defendem com um brio inexcedíveis que consolidam um dos trunfos da obra, precisamente essa forma convicta de crer na veracidade das personagens e no seu comportamento psicológico.
Julgo que a personagem central de “Dias de Glória” é o sargento Martinez que é desenvolvido a vários níveis e numa multiplicidade de direcções que o tornam verdadeiramente fascinante, por ser contraditório, nada simplista, inesperado, complexo: tão depressa é o sargento brutal de uma recruta desapiedada, como o companheiro nos momentos difíceis, tão rápido é o arrogante e brutal muçulmano cujas raízes são descobertas pela sua ordenança, que logo desanca e expulsa do seu convívio, como é o arauto dos direitos ofendidos (veja-se a cena dos tomates, que se destinam somente a soldados continentais, os muçulmanos não os podem comer, e que o sargento Ramirez resolve com a ajuda de um superior hierárquico).

Indígenas
De resto, o filme não traz efectivamente nada de novo a nível de estrutura narrativa, de estilo, de arrojo formal. Plasticamente interessante a forma como evolui de uma foto a preto e branco para uma paisagem a cores, de cada vez que se introduz um novo capítulo nesta sequência que avança à base de episódios históricos que se sucedem cronologicamente, “Indigènes” fala-nos precisamente de “Indígenas” que, segundo os dicionários, são seres oriundos de uma determinada região, mas que, na gíria militar e colonialista, se referem de forma depreciativa a seres oriundos de uma determinada região colonizada.
Explique-se ainda que o termo tem proveniência biológica: indígena representa inicialmente em biologia “um adjectivo que qualifica uma espécie endémica cuja evolução se faz no local onde nasceu.” Mas os franceses, no seu dia a dia, chamavam “indigène” a "um indivíduo não civilizado" ou "alguém que não era cidadão de pleno direito da República". Também militarmente o termo teve conotações pejorativas. Para identificar o mesmo, sem carregar o peso depreciativo, usa-se “natural”, “autóctone”, “local”, “aborígene” ou “nativo”, por exemplo.
“Indígenas”, no filme a que nos referimos, são aqui os muçulmanos do Norte de África, os negros de África, os asiáticos do Vietname. Ou seja, todos os povos colonizados, então a lutarem pela França. Nós por cá também falávamos dos “indígenas” de Angola, de Moçambique ou da Guiné. Os “Indígenas” forneciam trabalho braçal barato em tempo de Paz, serviam de “carne para canhão” na guerra: eram eles que iam à frente, que abriam caminho, que saltavam pelos ares com as minas, que eram dizimados pelo fogo inesperado dos inimigos entrincheirados, eram eles os mais sacrificados, em suma. À distância, os coronéis e os generais seguiam as operações de binóculos, avançavam com o campo já mais livre, desbravado, passeavam de jeep por entre as tropas a quem dirigiam palavras de apreço quando colhiam os louros da operação coroada de sucesso. Quando um jornalista pergunta o número de baixas, eles desviam sabiamente a conversa para o sacrifício que esta heróica gente acabou de cometer, e insistem: “Não se esqueça de escrever isso! Não se esqueça!” Mas também os jornalistas levam a lição bem sabida: quando ao americanos chegam a Voges, as fotografias para a posteridade são tiradas aos “bravos franceses”, brancos e continentais, esquecendo-se totalmente os muçulmanos que deram a vida por aquele monte de terra que não era a sua, mas que defenderam em nome da França. Até á morte. Quem vai comprar o “Paris Match” são franceses continentais que poderiam chocar-se com fotos de árabes.
Neste ponto há ainda um episódio que merece ser sublinhado, pelo seu significado: como já vimos, um dos soldados magrebinos tem uma fugaz história de amor com uma marselhesa. Prometem esperar um pelo outro, e escreverem-se. Mas nenhum deles recebe as cartas que um e outro sistematicamente vão escrevendo. Uma censura intermédia anula o diálogo. Com que intenção? Possivelmente a primeira será evitar que se dêem a conhecer pormenores secretos das operações militares. Mas haverá uma segunda, seguramente: eliminar qualquer hipótese de se prolongarem “romances” de todo em todo mal vistos futuramente, depois da guerra acabar. “Franceses” sim, mas só até certo ponto.

excerto de um artigo a aparecer no número de Julho da revista "História"

terça-feira, maio 29, 2007

LIVROS, FILMES E HISTÓRIA

O VÉU PINTADO

“.. esse véu pintado a que os que vivem chamam Vida.”


“The Painted Veil” é um excelente romance de W. Somerset Maugham e resulta num agradável filme de John Curran (2006). O mesmo romance já merecera várias adaptações ao cinema, duas das quais bastante citadas, uma de 1934, interpretada pela divina Greta Garbo, ao lado de Herbert Marshall e George Brent, numa realização de Richard Boleslawski, outra dirigida por Ronald Neame, em 1957, com Eleanor Parker, Bill Travers, Jean-Pierre Aumont, George Sanders e Françoise Rosay, que nas salas de cinema se chamou, de forma bem mais picante,"The Seventh Sin".
O romance "The Painted Veil" encontra-se ao nível do melhor de W. Somerset Maugham, podendo colocar-se ao lado de “A Condição Humana” ou “O Fio da Navalha”, na mesma linha de “As Paixões de Júlia” ou “Um Gosto e Seis Vinténs”. W. Somerset Maugham é, aliás, escritor de múltiplos talentos que sempre entusiasmou os seus leitores e deixou uma marca profunda no cinema, onde muitos trabalhos seus tiveram vida prolongada e, por vezes, saudáveis adaptações. Durante algum tempo era dos escritores contemporâneos mais conhecidos do universo da escrita anglo-saxónica, dos mais traduzidos por esse mundo fora. Depois atravessou uma zona de obscuridade, durante a década que terminou o século XX, mas ressuscitou em força com o dealbar do século XXI, com clara intenção de se estabilizar novamente entre os nomes mais correntes da literatura e dos autores mais vistos no cinema. A sua obra tem não só qualidade como uma actualidade resistente, uma elegância de estilo que cativa, uma temática eterna.
Esta nova adaptação de “O Véu Pintado” parece ficar a dever-se essencialmente ao actor Edward Norton que, conjuntamente, com a colega Naomi Watts são co-produtores do filme. Ele vivia entusiasmado com a perspectiva de interpretar em cinema a personagem do bacteriologista Walter Fane. Boa aposta, diga-se desde já, pois a sua composição, de um rigor e disciplina inexcedíveis, é uma das bases do sucesso desta obra, encabeçando aliás um elenco muito homogéneo, onde se contam ainda os nomes de Naomi Watts, Liev Schreiber, Toby Jones, Diana Rigg ou Juliet Howland. Mas foi Edward Norton quem batalhou para que o realizador John Curran e o argumentista Ron Nyswaner conseguissem levar a sua ávante.

Em meados dos anos 20 do século XX, em Inglaterra, Kitty Fane (Naomi Watts), filha de família remediada, mas com problemas de afirmação social, mãe dominadora e pai demissionário, descobre que a única forma de se libertar dessa tentacular rede de humilhação familiar é mesmo aceitar casar com o primeiro pretendente que lhe apareça. Ele é Walter Fane (Edward Norton), um bacteriologista que trabalha num laboratório governamental inglês na China. Ela não gosta dele, para ser sincera ele é-lhe completamente indiferente, acha-o mesmo algo estranho, metido consigo e distante, mais tarde dir-lhe-á que sempre o achou “fisicamente repulsivo”, mas, talvez por todo esse conjunto de impressões, aceita o pedido de casamento e parte para Xangai.
Em Xangai não demora muito a afeiçoar-se a Charlie Townsend (Liev Schreiber), vice-cônsul, uma homem sedutor e galante que rapidamente leva Kitty para a cama, ainda por cima uma cama em casa do bacteriologista, onde são pressentidos, mas não descobertos. Walter prefere não abrir a porta do quarto, apenas rodar a maçaneta e deixar a mulher perante o dilema da dúvida: será que fui apanhada ou não? Mas tudo se precipita a partir daí: numa aldeia chinesa a cólera explode com intensidade inusitada, o médico local morre, é preciso alguém para o substituir e Walter, apesar de não praticar clinica, é especialista em epidemias, e oferece-se para o lugar. Mas é nesta altura que irá estabelecer a sua vingança. Kitty terá de o acompanhar. Ela protesta, “que loucura, não quero ir, já viste a situação em que me colocas?”, mas ele não desiste. “Julgas que não sei do teu adultério?”, pergunta. Kitty cai em si. Percebe que não terá nenhum divórcio amigável, fica desorientada. Walter faz-lhe uma proposta irrecusável: “Vai ter com Charlie Townsend, se ele se divorciar para casar contigo, no prazo de uma semana, eu dou-te o divórcio e parto sozinho para Mei-tan-Fu.” Kitty corre para Charlie Townsend mas este descarta-se do caso, não pode abandonar a mulher, a carreira, etc. Kitty percebe que investiu demasiado num homem que apenas se queria divertir. Regressada a casa, aceita partir para a morte: – “Suponho que não devo levar mais do que meia dúzia de roupas de Verão e uma mortalha, pois não?”
Partem, por terra, dez longos dias de sofrimento físico e moral, levados pelas montanhas em liteiras, cruzando-se com cadáveres em busca de sepultura, até chegarem ao âmago do desespero e do pânico. Mei-tan-Fu é no fim do mundo e o fim do mundo não poderia ter cenário mais apropriado. No convento local, improvisada enfermaria, morre-se às dezenas; no cemitério local, que bordeja o rio, não há já espaço para sepultar mais ninguém, os corpos invadem a água, que fica contaminada; nas ruas os enterros cruzam-se com grupos de revolucionários que mandam para casa os colonialistas ingleses. “Go home!” As lutas anti-colonialistas na China estão no seu auge, ninguém se sente seguro, mesmo na mais longínqua aldeia, mesmo o mais abnegado médico que tenta salvar vidas não olhando à cor da pele. O cenário é de majestoso caos. Como em muitos outros romances de W. Somerset Maugham o caminho é o da aprendizagem da redenção: Kitty vai aprender a olhar para o sofrimento alheio, vai deixar de ser a menina mimada que fora até ali, vai descobrir os outros e vai descobrir-se a si própria, e vai sobretudo “descobrir” Walter Fane. Esse percurso, que é a essência do livro, e deste filme, é o caminho que o espectador irá percorrer, acompanhado por uma pitoresca personagem, o comissário Waddington (Toby Jones, o mesmo de “Infame”), e por uma madre superiora de um convento de religiosas francesas (Diana Rigg, a mesma de “Os Vingadores”, de há trinta anos), sendo ambos figuras indispensáveis no amadurecimento intelectual e sobretudo espiritual de Kitty. A fotografia de Stuart Dryburgh (que assinara "The Piano") é outro elemento importante para a definição de um espaço geográfico e humano propício ao desenrolar do drama, bem assim como a partitura musical de Alexandre Desplat.


Assim se passa este melodrama que é uma trágica história de desencontros amorosos no alvorecer de uma China nacionalista. Acontece que tanto o livro como o filme reflectem não só esses aspectos intimistas e individuais como o fazem integrando-os em contextos colectivos, com base histórica e evidente interesse sociológico. Muito curioso será referir a forma como é esboçado o ambiente social inglês de início do século XX, que empurra a jovem Kitty a afastar-se de uma família asfixiante e gananciosa nem que, para tanto, tenha de aceitar um casamento de conveniência. Kitty pensa que Walter a ama e julga que esse amor bastará para ultrapassar a sua indiferença e crê que essa situação é muito melhor que o desamor da família. Engana-se parcialmente, mas só o descobre tarde de mais. É, no entanto, um interessante retrato de uma mulher que se procura impor numa sociedade cujas regras limitam a sinceridade e espontaneidade e apontam para a hipocrisia e os interesses materiais. Não tanto uma sociedade machista, curiosamente, pois a prepotência é exercida fundamentalmente por uma mulher, a mãe. Os homens até se mostram dóceis, nesta sociedade matriarcal. Vejam-se os casos do pai de Kitty, completamente dominado pela vontade da mulher, e posteriormente Walter que, apesar de ter um comportamento rigoroso e de poucas palavras, absorto sempre na sua vida científica e nos livros, se apresenta igualmente como um homem tranquilo e sensível. Mas a diferença de maneiras de ser revela-se fatal. Kitty é uma mulher-criança que gosta de reuniões sociais, bailes e festas, enquanto Walter aprecia o silêncio e o retiro. Transpostos para a longuínqua e misteriosa China, primeiro surge a leviana traição, depois cresce a maturidade, imposta pelo isolamento e pelas circunstâncias adversas. W. Somerset Maugham, cosmopolita na sua sociabilidade, mas espiritualista na essência, aponta o caminho da renúncia e da redenção como forma de descobrir o amor na convivência profunda das pessoas e não no usufruto de um prazer imediato, mas sem futuro. No sacrifício e na contrariedade se caldeiam os sentimentos. Visão religiosa e mística, obviamente, mas que a sobriedade e o rigor de escrita do escritor tornam legítima. Aliás, W. Somerset Maugham não defende uma religião, tanto que aponta o Tao oriental como um “Caminho” possível, ao lado da fé das freiras francesas. A ideia é, sobretudo, valorizar o conhecimento profundo em detrimento do efémero, a experiência por vezes traumática em vez da facilidade e do comodismo. O que, nos dias de hoje, não deixa de ser uma aposta contra a corrente do imediatismo. Aliás, o filme parece até sublinhar com alguma argúcia certos aspectos que no livro aparecem somente indicados. Deve dizer-se que globalmente a adaptação é boa e inteligente, mantendo, na sua essência, o espírito do romance, ainda que aqui e ali necessite de condensar certas passagens (sobretudo na parte final do romance, que é muito mais extensa que o filme) ou, noutros casos, alterar a ordem da sua apresentação. Um exemplo: o livro inicia-se já na China com a cena de adultério; o filme prepara-a com uma longa sequência em Inglaterra, durante a qual vamos assistir à aproximação de Walter de Kitty, e onde se descobre toda a teia de humilhações familiares que levam Kitty a tomar a decisão de casar para se libertar dessa tentacular opressão diária. É evidente que o livro também descreve estes acontecimentos, mas posteriormente, e a alteração da ordem, no filme, é sintomática de uma outra perspectiva.
De resto, o filme apresenta uma narrativa inteligente e ágil, há momentos de certa inspiração na montagem (como quando se ligam, através de uma mesma imagem, lugares e tempos distintos) e os contornos históricos e sociais saem reforçados no filme, à luz de uma compreensão contemporânea do colonialismo. Mas a este aspecto voltaremos mais tarde.

(...) William Christened Somerset Maughan, um dos mais conhecidos e disputados escritores ingleses do século XX, nasceu a 25 de Janeiro de 1874, em Paris, França, de pais ingleses, e veio a falecer em Cap Ferrat, Nice, França, a 15 de Dezembro de 1965, vítima de pneumonia. Apesar de ter nascido em Paris, W. Somerset Maugham foi desde sempre um súbdito inglês. O pai, Robert Ormond Maugham, que era advogado da Embaixada inglesa na capital francesa, fez para que tal acontecesse, a fim de impedir que o filho fosse mais tarde considerado francês e tivesse de combater sob a bandeira deste país.
A mãe de Maugham, Edith Mary, morreu ainda nova, aos 41 anos, depois de um parto. Este facto traumatizou para sempre o jovem Somerset Maugham, levando-o a não mais se afastar de um retrato da mãe que manteve no seu quarto até ao dia da sua morte, com 91 anos. Mas dois anos depois da morte da mãe, morre o pai, vítima de cancro, e Wlllie é enviado para Inglaterra, para casa do seu tio Henry MacDonald Maugham, vigário de Whitstable, em Kent, um homem frio e cruel que transforma a juventude do futuro escritor num negro episódio de um romance de Charles Dickens. A sua fraca figura e o seu mau inglês (o francês tinha sido a sua primeira língua) foram argumentos suficientes para ser humilhado e perseguido nos seus tempos iniciais de estudante. Estuda na The King's School até que, aos dezasseis anos, recusa continuar ali, parte para a Alemanha, onde se inscreve na Universidade de Heidelberg. Estuda literatura e filosofia e conhece John Ellingham Brooks, um inglês mais velho dez anos, que o inicia na sua primeira experiência sexual. De regresso a Inglaterra, oscila entre a carreira de armas e a medicina, mas acaba por optar pela segunda. Durante cinco anos estuda medicina em Londres, no hospital de St. Thomas. Vários dos seus livros se refe­rem a essa época, nomeadamente a sua obra-prima “Servidão Humana” (Of Human Boundage, 1915).
O sucesso dos primeiros livros, “Liza de Lambeth” (Liza of Lambetll, 1897) e “Mrs Craddoek”, 1902, inscritos numa corrente de um certo realismo social, persuadiu-o a abandonar a medicina para se con­sagrar inteiramente à literatura. Durante uma década não voltou a ter um triunfo idêntico, mas, em 1907, a sua peça de teatro “Lady Frederick” obteve um êxito absolutamente invulgar. Viaja por Espanha e Capri, e, em 1914, tinha escrito 10 peças e outros tantos romances. Durante a I Guerra Mundial, Maugham serviu em França como membro da Cruz Vermelha inglesa, num grupo de 23 personalidades, conhecido por "Literary Ambulance Drivers", onde se incluíam nomes como os Ernest Hemingway, John Dos Passos, ou e. e. cummings. Foi nesse período que conheceu Frederick Gerald Haxton (1892 – 1944), um jovem de São Francisco, que se torna seu companheiro, secretário e amante, até à morte deste, em 1944 (Haxton surge mesmo na figura de Tony Paxton, na peça de Maugham, de 1917, “Our Betters”). Para fugir a perseguições puritanas como as que destruíram Oscar Wilde, o casal, terminada a guerra, instalou-se numa vivenda, “Mauresque”, na Riviera Francesa. Só dali saiu quando os alemães avançaram sobre a França, retirando-se para Nova Iorque, onde Haxton viria a falecer vítima de alcoolismo. W. Somerset Maugham dedica-lhe, em 1949, uma compilação de ensaios: “A Writer’s Notebook: In Loving Memory of My Friend Frederick Gerald Haxton, 1892 -1944”.
Apesar do seu assumido homossexualismo, S. Somerset Maugham teve vários “affairs” com mulheres, nomeadamente um que se tornou particularmente polémico, com Syrie Wellcome, filha de Thomas John Barnardo, fundador de um orfanato, e mulher do milionário farmacêutico Henry Wellcome, de quem teve uma filha, Liza (baptizada Mary Elizabeth Wellcome, 1915-1998). Henry Wellcome impôs o divórcio e, em Maio de 1917, Syrie, então uma decoradora de interiores de grande celebridade, e Maugham casaram-se. Em 1922 Maugham dedica a Syrie “On A Chinese Screen”, uma colectanea de 58 histórias reunidas depois de uma viagem pela China e Hong Kong. Divorciam-se de forma tempestuosa em 1928, em parte por causa das constantes viagens do escritor e do seu romance paralelo com Haxton.
Quer como romancista, quer como dramaturgo, Somerset Maugham sempre soube despertar a simpatia do público, permitindo-lhe esse seu constante êxito de vendas viver de harmonia com os seus gostos: viajou não apenas pela Europa como ainda pela América e pelo Oriente e, durante a primeira guerra mundial, foi encarregado de uma missão secreta na Rússia, donde resultou uma personagem de espião, “Ashenden”, que irá justificar a publicação de um volume de curtas histórias que muitos julgam estar na base da criação de Ian Fleming, James Bond.
“Of Human Bondage”, a sua obra de consagração, não foi inicialmente muito bem recebido nem pela críitica nem pelos leitores, mas tornou-se uma obra inquestionável a partir da altura em que o influente escritor norte americano Theodore Dreiser lhe chamou “obra de génio”, comparando-a a uma sinfonia de Beethoven.
Retirado em St. Jean-Cap Ferrat, na costa francesa, Somerset Maugham aproveitou as suas experiências pessoais e as observações que foi fazendo ao longo das viagens que o levaram a todos os cantos do mundo. Foi visto como o mais cosmopolita dos escritores ingleses contemporâneos e, sob certos aspectos, poderia considerar-se mais francês do que inglês (Somerset Maugham confessou que, antes de iniciar a escrita de uma nova história, lia invariavelmente “Cândido”). Somerset Maugham, como muitos outros romancistas anglo-saxónicos seus contemporâneos, vivia obcecado pelos problemas morais e religiosos: “O Véu Pintado” (The Painted Veil, 1925) é um bom exemplo dessa mensagem de regeneração e em “O Fio da Navalha” (Tlle Razor's Edge, 1944) faz a exaltação do misticismo ascético, não deixando no entanto de ser um homem mundano, tolerante mas, simultaneamente, um crítico austero e compadecido dos humanos pecados. Em 1938, Maugham confessou: "It must be a fault in me that I am not gravely shocked at the sins of others unless they personally affect me." Há quem veja nesta confissão uma forma do escritor absolver vícios privados, sobretudo o seu proverbial apetite sexual, desculpando fraquezas alheias. Muitas vezes transferia para o universo feminino a sua voluptuosidade homossexual, pois os tempos não lhe permitiam exprimir livremente a sua própria experiência. Isso explicaria a existência nas suas obras de tantas mulheres que se deixam seduzir pelas fraquezas da carne. Mas que, na maior parte das vezes, por elas são marcadas negativamente, apesar de haver invariavelmente um momento de regeneração e sublimação do pecado.
Escritor de grande saber oficinal e de requintada sensibilidade, ostentava uma malícia fina e cáustica, envolvida por uma ternura e compreensão humana igualmente invulgares. No “Dicionário dos Autores Universais”, pode ler-se: “Nos livros autobiográficos, “O Exame de Consciência” (The Summing Up, 1948) e “Apontamentos do Autor” (An Author's Notebook, 1949), Somerset Maugham fala franca­mente, embora de maneira desligada, das suas experiências, das suas leituras, das suas preocupações ético-filosóficas; as conclusões que tira da vida são, no fundo, as mesmas que colheria um protestante liberal, um moralista dramático. A crí­tica nem sempre lhe foi favorável, gostando de rotulá-lo de “superficial”, apesar de “competente”; porém, a sua habilidade de narrador, uma clareza de espírito quase francesa e a verosimilhança dos personagens e dos ambientes fizeram dele um ben­jamim do público.” É conveniente não esquecer que S. Somerset Maugham lutou contra titãs que impunham uma nova literatura e abriam caminho à modernidade, tais como William Faulkner, Thomas Mann, James Joyce ou Virginia Woolf, entre muitos outros.
Da sua produção devem citar-se ainda, entre alguns outros: “Um Gosto e Seis Vinténs” (The Moon and Sixpence, biografia de Gauguin, 1919); “Destino de um Homem” (Cakes and Ale, que retrata, apenas veladamente, certos personagens do mundo literá­rio contemporâneo, 1930); “Cavalheiro de Salão” (The Gentleman in the Parlor), belíssimo livro de viagens. Entre as obras teatrais, numerosas e varia­díssimas mas um tanto próximas, recordamos: “Os Nossos Superiores” (Our Betters, 1917); “The Cir­ele” (1921); “The Lelter” (1923). Das suas novelas, em grande número, existe uma colectânea: “As Novelas Completas” (The Complete Short Stories, 1951).” Na literatura de viagens também é de sublinhar a sua contribuição, sobretudo com dois títulos, “The Gentleman In The Parlour”, uma viagem pela Birmânia, Sião, Cambodja e Vietname, e o já citado “On A Chinese Screen”. Publicou igualmente, em 1949, uma selecção de apontamentos de diários pessoais, "A Writer's Notebook".

Durante a II Guerra Mundial refugiou-se nos Estados Unidos da América, inicialmente em Hollywood, onde escreveu vários argumentos e foi um dos primeiros escritores a viver desafogadamente de adaptações de romances seus. Depois passou para o Sul, onde permaneceu alguns anos. Após a morte de Gerard Haxton voltou a Inglaterra, mas em 1946 instalou-se definitivamente em França, alternado permanências e viagens até à data da sua morte.
A sua vida amorosa conheceu nova relação, mantendo-se agora ligado a Alan Searle, que conhecera em 1928, mas que se tornou seu novo secretário e companheiro, depois da morte de Haxton. Um amigo comum definiu a diferença entre Haxto e Searle do seguinte modo: "Gerald era colheita especial, Alan era vinho ordinário." A existência amorosa do escritor nunca foi simples. Num momento de maior sinceridade, escreveu: "I have most loved people who cared little or nothing for me and when people have loved me I have been embarrassed... In order not to hurt their feelings, I have often acted a passion I did not feel."
Em 1947 Maugham instituiu o “Prémio Somerset Maugham”, para o melhor jovem escritor publicado no ano anterior. Por este galardão já passaram vários escritores que se tornaram particularmente notados, como V.S. Naipaul, Kingsley Amis, Martin Amis ou Thom Gunn. Em testamento, Maugham ofereceu os seus direitos de autor à Royal Literary Fund.




excertos de um artigo sobre "O Véu Pintado" a aaprecer na revista História", de junho de 2007.

sexta-feira, maio 04, 2007

IVA DELGADO VAVA.DIANDO

IVA DELGADO FALA
DAS ELEIÇÕES DE 1958
E DE SEU PAI, HUMBERTO DELGADO


Casa cheia para ver e ouvir Iva Delgado,
no Vává, em Lisboa, na noite passada.
Uma comunicadora nata,
numa lição de História ao vivo.
A simpatia e a eficácia
de uma contadora de histórias da História.

quarta-feira, abril 25, 2007

quinta-feira, abril 19, 2007

CINEMA - 300

300 ESPARTANOS

“Estrangeiro, vai contar aos Lacedemónios que jazemos
aqui, por obedecermos às suas normas.”
- Simónides de Céos

“Estrangeiro que passas, diz a Esparta teres-nos visto aqui jacentes,
obedecendo às santas leis da Pátria.”
- Cícero

“Aqui combateram um dia, contra três milhões, quatro mil homens do
Peloponeso.”
- Simónides de Céos

“Ou quem, com quatro mil Lacedemónios,
O passo de Termópilas defende [...]”
- Luís Vaz de Camões

“[...] Earth! render back from out thy breast
A remnant of our Spartan dead!
Of the three hundred grant but three,
To make a new Thermopylæ!”
- Lord Byron, The Islands of Greece


Quadro de Jacques Louis David, "Batalha das Termópilas" (1814)

“300”, de Zack Snyder, é uma produção norte-americana de 2007 que aborda um acontecimento de relevo no constante confronto entre Ocidentais e Orientais, no Médio Oriente. Esse episódio bélico ficou conhecido pela designação de batalha das Termópilas e integra-se obviamente num contexto mais vasto das Guerras Médicas, ou Persas, que opuseram durante muitos anos Persas e Gregos.

(...) A resposta das cidades-estado gregas, perante a ameaça, foi colocar de lado as habituais divergências e reunirem-se numa conferência pan-helénica no Istmo de Corinto (481 a.C.). Quase todas aderiram à confederação, com excepção de Argos, inimiga de Esparta, Cirenaica, Massália ou Siracusa. A Leónidas, rei de Esparta, estado militarista por excelência, onde todos os cidadãos eram soldados profissionais, sendo exclusivamente educados para a vida militar, foi entregue a defesa da Grécia. Em finais de 481 a.C., Xerxes avança sobre a Grécia, iniciando a II Guerra Médica, dominando a Macedónia, a Calcídica e a Tessália, na qual fixou as suas bases, rumando de seguida para o centro da península helénica, onde se irá travar a batalha das Termópilas. Quem vai contar esta façanha heróica é Heródoto, obviamente sob um olhar e uma perspectiva parciais, descrevendo este conflito entre o Ocidente e o Oriente, entre os Cidadãos, habitantes das democracias gregas, e os Bárbaros, nome por que eram, depreciativamente, conhecidos os persas, entre europeus e asiáticos. Pela primeira vez na História da Humanidade, julga-se, há uma verdadeira consciência da distinção entre duas culturas e duas civilizações, separadas por dois continentes. Aqui se jogou também o destino da Civilização Ocidental. Mas Heródoto de Halicarnasso, e também Esquilo, em “Os Persas”, mais não fazem do que seguir os estereótipos da época, convocando uma tradição que remonta à “Ilíada”, de Homero, onde o Oeste (os aqueus) e o Leste (os troianos) já se chocavam entre si. Segundo a descrição de Heródoto (que viveu a guerra pessoalmente, segundo uns, que teria apenas quatro ou cinco anos nessa data, segundo outros), no Verão de 480 a.C., no desfiladeiro das Termópilas, na Grécia Central, 300 espartanos, sob o comando de Leónidas, acompanhados por pouco mais de 7 000 aliados de outras cidades-estado helénicas, enfrentaram “milhões de persas” (uma enormidade: julga-se que não iriam além de 160.000 homens, no máximo) chefiados por Xerxes. 300 ou sete mil, a desproporção era fantástica. Mas não deixa de ser curiosa a referência a 300 espartanos, pois só estes eram soldados profissionais e só estes eram considerados cidadãos da mítica cidade guerreira. Quando morreram foram os únicos a serem celebrados. A “ralé” que os acompanhou, não contava, nem em número. Por outro lado, celebrar 300 espartanos era erigir uma lenda à coragem de um povo e de uma cidade. Era lançar na História um mito que se celebra até hoje.
Quanto ao desfiladeiro das Termópilas era uma estreita língua de terra entre o Golfo de Mália e os Montes Eta e Calídromo. Perfilava-se como uma zona montanhosa, seleccionada de forma notável de um ponto de vista estratégico, longe de Atenas, que ficava preservada, longe da Tessália, base de apoio de Xerxes. Este rei observou do alto do seu trono dourado a resistência dos Gregos. Primeiro esperou que fossem estes a atacar. Durou cinco dias a espera. Depois resolveu-se a atacar. Impossibilitado de lançar a cavalaria, mandou avançar homens armados somente com um pequeno escudo e uma lança. Ao tentarem penetrar no desfiladeiro, foram completamente rechaçados. Lamentava-se Xerxes, segundo Heródoto, de ter “muitos homens, mas poucos soldados”, o que era verdade. Do lado espartano também era verdade. A seguir, choveram do céu milhões de flechas, que os gregos receberam protegidos pelos seus escudos. Conta-se que um soldado terá dito a Leonidas que “as flechas eram tantas que tapavam o Sol”, ao que este terá respondido: “Melhor assim. Se os persas taparem o Sol, combateremos à sombra”. Mas há outras tiradas célebres relativas a essa batalha, toda ela mítica. Diz-se que Xerxes procurou evitar o confronto e que teria enviado mensageiros a Leónidas pedindo a este para depor armas e que se juntasse aos persas, ao que Leónidas teria respondido simplesmente: “Vinde buscá-las!”.

Ao fim do segundo dia de batalha, apareceu no acampamento dos persas um tal Efialtes, dirigindo-se a Xerxes na esperança de obter uma compensação pecuniária a troco da traição: revelar um caminho secreto que conduzia à retaguarda das Termópilas, através da montanha. Foi assim que os espartanos foram derrotados, apanhados entre dois fogos, não sem antes venderem cara a derrota. Leónidas mandou retirar quem o quisesse fazer, e aguentou firme até à morte com os seus 300 bravos (e mais uma centenas de outros bravos que também ficaram, mas dos quais não reza a História, pelo menos a mítica). Diz a História recente que terão morrido na batalha cerca de 2000 gregos e mais de 30000 persas. Este tempo que pausa no avanço de Xerxes permitiu a Atenas evacuar a cidade, que seria pilhada, e reorganizar a defesa ao longo do Istmo de Corinto. Tempos mais tarde, a pesada armada persa foi obrigada a penetrar no estreito de Salamina, onde foi massacrada pelas ágeis embarcações atenienses. No ano seguinte, viria a derrota final, que acontece em Plateias. A Pérsia desiste então de invadir a Grécia continental. A paz é decretada em 449 a.C., com a assinatura da Paz de Cálias. Mais tarde, Alexandre, o Grande, invadiu o Próximo Oriente e conquistou o império de Dario III. Mas isso já pertence a outro filme…

Foi com base neste episódio que Frank Miller, autor norte-americano de banda desenhada, escreveu e desenhou “300”, em 1999, agora adaptada a cinema por Zack Snyder. Já em 1962, um polaco, Rudolph Maté, dirigira em Itália, “The 300 Spartans”. Sobre a sua actividade, Frank Miller contou: “O meu trabalho são as histórias em quadradinhos. Já escrevi e desenhei histórias para personagens clássicas, como “Homem-Aranha”, “Batman”, “Elektra” e “Demolidor”, sempre com um estilo mais sombrio. A minha primeira BD individual, “Sin City”, foi fielmente adaptada para o cinema e fez muito sucesso. Agora, está em cartaz mais um filme baseado numa história minha: “300”. Sempre me interessei por História e guerras, por isso me inspirei na verdadeira Batalha de Termópilas, ocorrida na Grécia, para escrever essa BD que mostra a saga dos 300 soldados de Esparta.”
A BD é uma coisa, o filme surgido em 2007 uma outra. O universo de Frank Miller é já de si um universo de violência machista, que Robert Rodriguez, em “Sin City” transpôs para o cinema com alguma ironia e uma excelente “adaptação” de linguagens. No caso do filme de Zack Snyder fia tudo muito mais fino. O filme é plasticamente muito bonito, criando uma notável equivalência entre os quadros da BD e as imagens de cinema. Deve dizer-se que mais uma vez as novas tecnologias digitais se mostram à altura para conseguir resultados brilhantes, desta feita como que interligando desenho e pintura e fotografia e imagem em movimento. Cada imagem do filme pode muito bem funcionar isolada, como um quadro, a fotografia é fabulosa, com predominância de ocres, castanhos avermelhados e cinzas azulados, conferindo ambientes de tonalidades românticas que a obra justifica amplamente.
Este é obviamente um filme de acção, onde não interessam tanto as explorações psicológicas ou os estudos sociológicos, o que se entende. O desenvolvimento da acção prevalece e a violência explode em várias cenas rodadas em câmara lenta (à boa maneira de Sam Peckinpah!), fazendo explodir o sangue e como que suspendendo no tempo alguns actos particularmente sádicos (cortes de cabeças, de membros, etc.). Tudo isso se pode apreciar como uma forma de fazer render o espectáculo com resultados plásticos de bom efeito.
É por demais óbvio que o filme se quer militarista, aguerridamente bélico, defensor do homem como animal belicoso por excelência. Os espartanos que vão para a guerra, e que são preparados desde a infância para esta actividade, são os bons da fita, morrem pela Pátria e por altos valores de coragem e sacrifício. Nada a opor. Morrem lado a lado, homens brancos e sadios (os estropiados, deformados e outros que tais são anulados à nascença, o que dá uma boa ideia de métodos pré-nazis de depuração da raça branca!), numa confraternização muito musculada que tem algo de homossexualidade à mistura (por muito que sejam os próprios espartanos a brincar com o gosto ateniense por efebos!). Mas homossexualidade era comum entre gregos de todas as cidades estados e não só de Atenas. Passemos, portanto, ainda que cautelosamente, por cima de tudo isto, desta mentalidade guerreira militarista, para-homossexual. Nada a opor.
Que nos reserva ainda “300” para comentarmos?
Pois o mais discutível de tudo, a apologia da guerra, a apologia da guerra Ocidente-Oriente, onde curiosamente os persas são o inimigo, persas que hoje em dia se chamam iranianos, e ficam por ali perto do Afeganistão e Iraque. Não será estranho aparecer agora um filme que defende o heroísmo de uns tais ocidentais, ditos muito democráticos (mas que vivem rodeados de escravos, que utilizam também para adestrar a espada nas suas aulas de guerra – Leonidas exercita-se a matar escravos, não lobos!), que defendem a Liberdade e a Democracia contra persas tirânicos? Creio que não nos foi dado ver até hoje filme mais abertamente pró-Bush do que este.

texto integral pode ser lido na revista "História", de Maio de 2007.