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domingo, agosto 10, 2008

MEMÓRIAS CINEMATOGRÁFICAS

Na revista on line "Take", no seu número 6, de Agosto,
que surgiu agora AQUI, pode ler-se mais um artigo
de memórias cinematográficas minhas.
Aqui fica o início, para abrir o apetite. A revista vale a pena ser lida.
A maioria dos redactores são jovens entusiastas que fazem um bom trabalho, muito profissional, apesar de serem todos amadores, duplamente amadores, no sentido de amarem a coisa amada e de nada receberem por esse amor,
a não ser .. isso mesmo: amar a coisa amada, neste caso o cinema.

A GRANDE ILUSÃO, III (MEMÓRIAS)
ESCREVER SOBRE CINEMA


I
Subiam-se umas escadas de madeira, castanho-escuro, a madeira escalavrada nas bordas dos degraus, algumas tábuas já a darem de si e a chorarem cada vez que eram pisadas. Uns ruídos sofredores que deviam ser réplicas de noites de tortura ou de dias de perseguição ou clausura. O corrimão era de ferro, lasso nas ligações à parede. Quando se chegava ao primeiro andar, o ambiente não mudava, surgia um cubículo que servia de triagem e devia impedir os estranhos de entrar directamente na redacção ou nos demais serviços do jornal. O director era Carvalhão Duarte, que morava no prédio onde eu vivia e a quem eu pedira uma apresentação para ir falar com o Baptista Bastos, então jornalista nesse diário, e que diria uma das raras páginas dedicadas ao cinema que por esses anos existia em Portugal.
À entrada da redacção disse ao que ia, dei o nome e disseram-me para avançar. Entrar numa redacção de jornal diário de Lisboa era um acontecimento. Eu já escrevia há anos para jornais de Portalegre, como já recordei noutra altura, mas “A República” era outra coisa, não só um jornal diário, como um símbolo da resistência, um reduto da oposição. Subir aquelas escadas era já de si uma aventura. Um arrojo, que impunha alguma temeridade. É o que relembro agora, certamente com muito de lenda e mito à mistura. Pode não ser a verdade, mas é a minha verdade hoje em dia. Foi isso mesmo que me veio à memória, quando o Baptista Bastos foi ao “Vavadiando” aqui há dias – a sua imagem mítica de jornalista, a sala da redacção do jornal, as mesas de madeira, as máquinas de escrever, as folhas de papel amarelado, cortadas de forma irregular (os linguados, como lhe chamávamos), o clima de uma agitação interior (e exterior) que extravasava do exíguo cubículo onde se concentravam vários jornalistas, muitos deles nomes sonantes da época.
Nessa altura, início dos anos 60, “A República” era um dos poucos jornais que tinha uma página semanal, “Bastidores”, dedicada ao cinema e dirigida por Baptista Bastos. Não havia crítica diária nos jornais diários. Existia uma resenha efectuada normalmente por um velho jornalista que percorria as salas com filmes em estreia, pedia o programa com o resumo do argumento, via quinze minutos de filme, e desandava para outra sala, ou regressava ao jornal para escrevinhar algumas linhas assinadas por iniciais que normalmente não correspondiam a nada. Alguns jornais tinham uma página ou uma crónica semanal assinada por uma personalidade ligada ao cinema. No “Diário Popular” era o António Lopes Ribeiro quem assinava uma “Crónica do Retardador”. Mas havia revistas, algumas muito populares, como a “Plateia”, dirigida pelo Baptista Rosa, tendo como chefe de redacção Vitoriano Rosa, o “Estúdio”, ou a “Imagem”, esta ligada ao cineclubismo e com uma outra orientação, muito mais exigente culturalmente (e politicamente!).
Pouco depois haveria a “Filme”, do Luís de Pina, onde também colaborei. Mas foi na “República” que me iniciei a escrever, à borla, sobre cinema. Depois passei por um antepassado da “TV Guia”, a “Rádio Televisão”, revista de televisão e espectáculos onde durante algum tempo tive uma coluna, com retrato e tudo, que acabou no dia em que recebi uma carta a chamar-me comunista por defender um filme italiano, julgo que interpretado pelo Totó, num texto onde eu tecia algumas considerações sobre a Itália da época. Recebi guia de marcha, que naquele tempo as coisas eram assim. Passei pela “Plateia”, onde escrevia sobre realizadores e entrevistava personalidades do cinema, do teatro, e onde lancei uma série sobre novos cineastas, emergentes então (e eram muitos, estávamos no rescaldos da “nouvelle vague” e dos “novos cinemas” em França, Inglaterra, Itália, Espanha, Portugal...).
Passei por muitas revistas e jornais. Em fins de 1967, eu e o Eduardo Prado Coelho fomos convidados pelo Ruella Ramos a escrever diariamente no prestigiado “Diário de Lisboa”, então possivelmente o melhor jornal português, uma espécie de “Le Monde” à escala portuguesa. Ruella Ramos era o director, mas o homem que comandava as finanças era Lopes do Souto, que nos contratou por vinte e cinco tostões a crónica, mais direito a bilhetes à borla para as salas de cinema onde os filmes se estreavam. Começámos a escrever e, no início de 1968, estalou uma bronca monstruosa, que fez de nós dois “heróis nacionais” de um dia para o outro.
Nessa altura os cinemas de Lisboa encontravam-se associados numa organização chamada “Cineasso”, que o Eng. José Gil (administrador dos cinemas Império e Estúdio) dirigia. Essa “Cineasso” estava habituada a recensões benignas a todos os filmes. Nós entrámos feio e forte a dizer bem ou mal do que víamos, segundo a nossa opinião. A “Cineasso” não gostou e escreveu ao jornal, cortando a publicidade dos cinemas enquanto houvesse crítica independente no “DL”. O jornal não se acobardou e a censura não percebeu o alcance do que deixava passar. Nesse dia, na primeira página, o “DL” publicava a carta e registava o atentado à liberdade de expressão. Apoiou-nos e continuou a publicar as nossas críticas.
Durante semanas o jornal encheu páginas e páginas de telegramas, missivas, cartas, textos de todo o género, desde os vultos mais eminentes da cultura até ao mais anónimo cidadão, a solidarizarem-se connosco, a saudarem a atitude do jornal, e a acusar a “Cineasso” de ingerência abusiva. Com tão poucas ocasiões para se manifestar, e logo a favor da liberdade de expressão, os portugueses aproveitaram a oportunidade para descarregarem neste episódio as suas fúrias acumuladas. Não esquecer que estávamos em 1968 (em Maio ia explodir a França). De um dia para o outro, e um tanto involuntariamente, éramos reconhecidos em toda a parte. O Eduardo depois inflectiu mais para a área da literatura, nunca abandonando o cinema, mas eu mantive-me no “Diário de Lisboa” durante quase uma década. Num tempo em que a crítica tinha um poder enorme, sobretudo a do “Diário de Lisboa”, que reunia um conjunto de críticos de invulgar qualidade: Carlos Porto (teatro), Mário Castrim (televisão), Mário Vieira de Carvalho (música), Rocha de Sousa (artes plásticas), etc.
A importância da crítica era mais do que evidente. Uma boa crítica a um filme podia desencadear uma carreira de várias semanas. Num dia estreou-se “O Soldado Azul”, no Berna, quase sem público, dois dias depois saía uma crítica minha no “DL”, elogiosa, e mostrando como, através de um western, se podia abordar a guerra do Vietname, e nessa mesma noite a sala esgotava (com imensos “DL” debaixo do braço, confidenciou-me depois um dos porteiros) e mantinha o filme em estreia longas semanas. Um distribuidor, tempos depois, informava-me que “O Pequeno Grande Homem”, de Arthur Penn, tinha sido totalmente proibido pela censura, apenas porque “depois o Lauro António escreve por aí que o filme se refere à guerra do Vietname e é um problema.” O filme haveria de ser libertado com cortes, depois de recurso da distribuidora Rivus, ligada ao cinema Monumental. Um filme admirável de Altman, “Nashville”, passou uma rápida semana no Berna. Quando a minha crítica saiu o filme já estava a sair de cartaz. Mas foi reposto no Nimas, com um excerto da crítica no anúncio, e fez quase três meses de excelentes lotações. A crítica tinha um poder que hoje em dia não tem.

segunda-feira, maio 19, 2008

REVISTA "TAKE" COM "MEMÓRIAS"

Saiu mais um número da revista "Take" onde se recolhem mais umas páginas das minhas "Memórias à Solta". Desta vez recordo os tempos passados em Portalegre, entre os meus 8 e 15 anos, a propósito do documentário "Humberto Delgado: "Obviamente, Demito-o!". Deixo aqui apenas uma passagem, mas o melhor é mesmo ler o texto todo na revista, que merece inteiramente a visita. Magnificamente paginada, bem ordenada, escrita com entusiasmo e boa informação por um conjunto de, julgo, jovens, eis uma boa aposta. Mais de cem paginas para cinéfilos do todas as cores. O director é José Soares. Vale até a pena imprimir toda a revista para se ler com mais calma e melhor se apreciar.
Pode ser vista aqui: http://www.take.com.pt/
MEMÓRIAS DE PORTALEGRE

"(...) Foi em Portalegre que tive a minha primeira paixão por uma mulher, curiosamente uma Laura que partiu um dia da cidade e me deixou lavado em lágrimas a ver desaparecer o carro onde a família seguia rumo ao norte. O pai era Juiz, fora colocado noutra cidade, e a perca da Laura foi irremediável. Devíamos os dois andar pelos doze ou treze anos, mas foi imagem que não mais perdi (nem achei). A seguir a essa Laura, outras paixões se seguiram e me marcaram profundamente, ainda por essa cidade de ruas estreitas e serpenteantes, apesar da principal se chamar “Direita”. Colegas de liceu, houve algumas. Conservo a recordação de todas que me despertaram, nas emoções do espírito e na tentação da carne, para os prazeres do amor.
Foi também em Portalegre que comecei a escrever. Textos curtos, notícias sobre cinema, entrevistas breves, enfim, o que me ia interessando e os dois jornais da terra onde eu colaborava iam permitindo publicar. O que me apaixonava mais era “A Rabeca”, do senhor Casaca (João Diogo Casaca) velho republicano, que tinha a tipografia na rua 19 de Junho (antiga rua da Carreira). Fora na juventude actor dramático e cantor, e depois instalou-se como tipógrafo, editor e director de jornais. Foi nessa gráfica, de ambiente antigo, soturno, pesado, mesmo com o seu quê de misterioso, pejada de móveis escuros, onde se compunham jornais com letras de chumbo que se iam juntando até formarem palavras, frases, artigos, foi ai que comecei a escrever. Via os empregados a compor, com ágeis movimentos de mãos, trabalhando de pé, encostados a banquetas recheadas de gavetas de alto a baixo, com tipos de letra diferentes, e ficava fascinado com essa actividade mecânica, febril, incansável, que dava lugar a textos que se liam e transmitiam ideias, factos, pesadelos ou esperanças. Foi aí que aprendi, com dificuldade extrema, é certo, a manusear as letras de chumbo, e a compor as minhas próprias notícias sobre filmes e actrizes. Foi nas páginas de “A Rabeca” que vi as primeiras palavras escritas por mim circularem em folha de jornal. Assinava o nome que hoje uso ou as iniciais LA, ou ainda, sobretudo no outro jornal da terra, O…TAL (que era a inversão de Lató, diminutivo que reunia os meus dois nomes iniciais e pelo qual os meus pais por vezes me chamavam).
Um outro jornal da terra era “O Distrito de Portalegre” (o único desses tempos que ainda hoje se publica), ligado à diocese, onde pontificava o Cónego Anacleto, amigo da casa de meus pais. A tipografia era muito mais arejada, luminosa, ficava situada em frente à Sé Catedral. Os textos eram sobretudo de cariz religioso, e a linha do jornal era muito mais conservadora na sua orientação ideológica. Havia ainda um terceiro semanário na terra, “A Voz Portalegrense”, órgão da “União Nacional” no distrito, mas aí nunca escrevi nada, vá-se lá saber porquê. Não me puxava a mão para esses desígnios.
Escrever era já uma paixão, mas ler era compulsivo. Desde as revistas em quadradinhos, “O Papagaio”, “O Mosquito”, quando era mais novo, o “Mundo de Aventuras” e o “Cavaleiro Andante”, em meados dos anos 50, até romances de certo fôlego que ia desencantar na biblioteca dos pais, ou que eles me ofereciam, em doses massivas sobretudo pelos anos ou no Natal. Como o meu pai era pintor e se interessava muito por livros sobre arte, havia vários lá por casa que me fascinavam. Uns, de bolso, monografias sobre pintores. Outros, álbuns de certo peso. Um, sobre o “Aleijadinho”, o escultor desse fabuloso Santuário de Bom Jesus de Matozinhos, obra inspirada em santuários portugueses, que se encontra em Congonhas do Campo, no Estado de Minas Gerais, impôs mesmo um desvio de rota, aquando da minha primeira viagem de férias no Brasil, tal era a admiração que me provocava desde essa altura.
Mas “Os Miseráveis”, “O Príncipe e o Pobre”, “O Romance de um Rapaz Pobre”, “A Dama das Camélias”, “Oliver Twist”, “As Pupilas do Senhor Reitor”, “Os Maias”, um pouco de tudo ia passando sob os meus olhos maravilhados. E a poesia de José Régio, lida em livros autografados pelo próprio, e que ainda hoje conservo religiosamente. Por essa altura tinha jeitinho para desenhar e pintei, a lápis de cores, uma “Fuga para o Egipto” que ofereci a José Régio, tendo recebido em troca “O Príncipe das Orelhas de Burro”, autografado (“Ao Làtó, em troca duma sua pintura que representa a “Fugida para o Egipto”, sem burro, oferece o seu amigo Zé Régio, Portalegre, 1952), num volume cartonado que abre com um belíssimo desenho a cores que o romancista me ofertou também. Eu tinha dez anos.
E já gostava de futebol, nesses anos iniciais de liceu. Havia dois clubes em Portalegre, um, o “Portalegrense”, outro, o “Estrela de Portalegre”, com rivalidades óbvias. Apesar do verde ser a minha cor a nível nacional (Sporting Clube de Portugal, claro, e desde sempre e para sempre!), em Portalegre as simpatias penderam sempre mais para o azul do “Portalegrense”. Como desde miúdo fui alto, já nessa altura andaria pelo metro e oitenta, empurravam-me invariavelmente para a baliza, ignorando a minha ânsia de “meter golos”. Fui parar a guarda-redes da equipa do liceu, e ainda fiz alguns jogos nos juniores do “Portalegrense”, até que um frango monumental me afastou irremediavelmente de uma carreira gloriosa na selecção nacional, quiçá. Mas confiar no golpe de vista nunca foi apanágio de bom guarda-redes, e a bola entraria por entre as mãos despreocupadas de quem olha o esférico e pensa que ele passa por cima, e não tem em conta o movimento descendente de última hora. Nesse jogo perdeu-se um guarda-redes, marcado pela íntima ignomínia de um frango colossal. Nunca deixei, porém, de assistir aos jogos do Portalegrense, e ainda hoje procuro nas páginas dos desportivos os resultados dos clubes da terra. Infelizmente, não muito brilhantes.
Muito mais interessante foi a minha dedicação às salas de espectáculo da cidade. Quando cheguei a Portalegre, a que existia era o magnífico (enfim, assim o recordo, apesar de algo arruinado) “Teatro Portalegrense”, situado numa pequena praceta no centro da cidade. Era um teatro antigo, construído à italiana, na vertical, com plateia, frisas, camarotes e por aí acima. Havia normalmente quatro sessões semanais, às terças, quintas, sábados e domingos, e ocasionalmente teatro. As companhias de revista, de comédia ou mesmo de drama, faziam digressões pelo País e Portalegre estava inscrito no mapa. Passavam, portanto, inicialmente pelo palco do “Teatro Portalegrense”, depois pelo do “Cine Teatro Crisfal”, localizado ao cimo do Jardim da Corredoura, edifício típico dos anos 50 e da febre dos Cine Teatros que se espalharam pelo País em réplicas mais ou menos inspiradas do Cinema e Teatro Monumental de Lisboa. Assisti à inauguração do Crisfal, com uma actuação da companhia do Teatro Nacional de D. Maria II, de Amélia Rey Colaço que, para assinalar o facto, ali permaneceu uma pequena temporada com duas ou três peças do seu reportório. (...)

segunda-feira, abril 14, 2008

TAKE (AWAY)

Uma revista sobre cinema, on line, feita por malta nova que me convidou a colaborar. Aí começam as minhas memórias cinematográficas, numa secção chamada "A Grande Ilusão". Neste número 2, "Manhã Submersa" em Hollywood."
Link: http://www.take.com.pt/

Um excerto desse texto para abrir o apetite (o texto integral só na revista):

No aeroporto de Los Angeles, uma “voluntária” do festival espera-me de cartão na mão com o meu nome e a indicação de pertencer ao Filmex. Para reconhecimento recíproco. Leva-me ao hotel que a organização marcou e pelo caminho vou descobrindo, primeiro um amontoado de armazéns dos arredores incaracterísticos de uma cidade sem história, depois uma metrópole estranha, invulgarmente diferente de tudo quanto conhecia na Europa, estendendo-se na horizontal, por milhares de quilómetros, carregada de referências que o cinema há trinta e tal anos me vincava na memória. O hotel é em Sunset Boulevard. Escusado será dizer que procuro (em vão) traços de Gloria Swanson e do seu imperturbável mordomo, que o rosto de Erich Von Stroheim imortalizou Não só eles não aparecem, como são raros os vestígios desse tempo, ainda que William Holden e Billy Wilder ali tenham regressado depois, à procura do tempo perdido e de “Fedora”. Mas o suave aroma do mito, esse lá está. É irresistível.
Numa América que convencionalmente conhecemos pelos seus arranha-céus, Los Angeles é uma cidade que sai desse mapa. Avenidas que chegam a ter mais 50 quilómetros, larguíssimas, moradias de não mais de dois andares, refugiadas atrás de pequenos jardins, o cimento por todo o lado, os desperdícios e o lixo, as luzes a incendiarem a imaginação. É conveniente não esquecer que estamos em 1981. A globalização era algo que se não imaginava ainda, tal como hoje a conhecemos. As distâncias eram uma realidade e as diferenças do modo de vida surpreendiam ainda. No conjunto, a primeira impressão é de uma certa hostilidade. Venho na perseguição de um sonho que a “fabrica” põe a circular há 80 anos e não encontro nada disso. É sempre desconfortante confirmar o que já se sabia, mas se julgava possível continuar a ignorar. Hollywood é aqui nome de “boulevard” e letras brancas a recortarem-se na encosta de uma colina. Tudo o resto vive somente na nossa imaginação. Os pés e as mãos das estrelas embutidos no cimento da entrada do Chinese Theatre são bicadas de um pássaro que ninguém consegue agarrar. E, no entanto, à medida que os dias irão passando, há qualquer coisa no ar que me vai habituando à cidade, que me atrai, que lentamente me fascina e me prende. Irremediavelmente.
Entrar no Chinese Theatre, o mais mítico cinema de todo o mundo, e ali assistir à estreia de “Excalibur”, de John Boorman, com um ecrã monumental, uma qualidade de imagem e de som nunca sequer pressentidos nas salas portuguesas, é uma experiência única. À saída andar alguns quilómetros em passeios atapetados por estrelas onde se encontram os nomes (e as mãos eternizadas no cimento) de todos os grandes actores e actrizes que povoam a nossa memória e aquecem os nossos sonhos desde criança, é algo que eleva até ao sufoco. Foi aqui que se filmou uma sequência célebre de “Serenata à Chuva”, lembram-se? Imaginamos as bancadas, as teenagers, os gritinhos, Gene Kelly. Mas quantas estreias mundiais, quantas entregas de Oscars, quanto da história do cinema e da história do mundo.
O “Grauman's Chinese Theatre” vem dos anos 20, julgo 1927, e foi a concretização de um sonho de um dos grandes homens do espectáculo dos EUA, Sid Grauman. Em 1958 foi ampliado, tornando-se mais confortável, mais amplo e melhor dotado de equipamento técnico, de imagem e som. Em Setembro de 2001 fechou para obras de recuperação e reabriu para os “Academy Awards” de 2004, depois de ali se terem gasto sete milhões de dólares em melhoramentos de vária ordem. Dizem que está um brinquinho. Por mim fico-me pela memória de 80.
O Hyatt on Sunset Hotel fica na parte alta da cidade. É um dos raros edifícios com mais de dois ou três andares. O nosso quarto (meu e da Eduarda) é no décimo primeiro andar, virado para a cidade. Esta estende-se até ao horizonte, para onde quer que me volte, juncada de pontos luminosos. As avenidas principais são fileiras compactas de luzes. Mesmo por debaixo da varanda, um anúncio enorme ao último filme de Jerry Lewis, que acabava de se estrear nos EUA: “Hardly Workíng”. Na Europa, Jerry era considerado um génio, na América, pouco menos que um palhaço.
Estamos em 1981. Voltamos a sublinhar. Em Portugal havia dois canais de televisão. Sento-me com a Eduarda aos pés da cama, uma cama com mais de dois metros de largura, e acendemos o televisor, com capacidade para mais de oitenta canais, apanhando nessa noite a funcionar mais de quarenta, com treze emissores principais, onde se sucedem os filmes, as séries, os concursos, os anúncios, as “news”. Em Hollywood são onze horas da noite. Em Lisboa, porém, são já oito da manhã seguinte. Sobrevivo ainda pela hora de Lisboa, e toda a possível magia do local e o ineditismo da situação não impedem o cansaço de avançar. Adormeço. Em Hollywood.
É difícil apercebermo-nos, à primeira, da configuração da cidade que se conhece por Los Angeles. Esta não é apenas “uma cidade”. É um espaço sem fim que reúne várias cidades. Uma avenida como a Wilshire vai atravessando diversos distritos (ou cidades), corno Downtown, Beverly Hills, Hollywood, Westwood, até ir morrer na praia de Santa Mónica, São, ao que recordo, mais de setenta quilómetros de avenida. Todos estes nomes (e muitos outros) correspondem a pequenas cidades que cresceram e se encontraram, misturando num mesmo tecido as suas veias. Hoje em dia, Los Angeles, com quase cerca de três milhões de habitantes, refere um espaço de metrópole que, em superfície ocupada, é o maior do mundo. Assente sobre uma crosta de forte actividade sísmica, os prédios não crescem na vertical, como em Nova Iorque, por exemplo, mas estendem-se na horizontal, Percebe-se que apesar de ser uma zona caríssima, onde existem as ruas mais valiosas de todo o mundo, não há falta de terreno, que ninguém economiza.
Tudo isto transfigura por completo a fisionomia da cidade, multiplicando as distâncias de forma inacreditável. Já me tinham avisado, ainda em Lisboa, que em Los Angeles quase não se podia andar a pé. Tudo fica longíssimo. Acredito, no entanto, que não há melhor processo de conhecer uma cidade do que percorrê-la a pé, um pouco à deriva. Quis fazer a experiência na primeira manhã passada em Los Angeles. Munido de um pequeno mapa que o Festival facultava aos convidados, com a indicação da localização dos diversos cinemas e hotéis onde se centralizavam pessoas e actos do certame, saí do hotel, em Sunset Boulevard em demanda do Fairfax Theatre, onde, no dia seguinte, iria passar a “Manhã Submersa”. O mapa era de fácil leitura. As ruas e avenidas estendiam-se direitas, cruzando-se numa textura rectilínea. Descia-se Sunset Boulevard até ao cruzamento com a Fairfax, tomava-se por esta abaixo e logo surgiria o cinema. Deixei o hotel por volta das oito e meia da manhã, cerca do meio-dia não tinha avistado ainda o cinema e, como combinara um almoço com a representante do Centro de Turismo de Portugal, telefonei-lhe para casa em busca de auxílio. O cinema escondia-se dois quarteirões a baixo (percorrer cada quarteirão levava cerca de dez minutos), mas descobri então que em Los Angeles não se anda mesmo a pé. Por isso as ruas permanecem quase sem peões, enquanto nas faixas de rodagem, se atropelam os automóveis e carrinhas de toda a espécie e feitio, mas sempre de largas dimensões.
No hotel, quando fizemos o check-in, um empregado da recepção entregara-me uma nota assinada por Warren Beatty e Buck Henry, que pedia para os procurar no secretariado do Festival logo que eu pudesse. Foi, claro, a primeira coisa que fiz. Falei com Buck Henry, nessa altura muito conhecido como argumentista e actor, nomeadamente de filmes de Warren Beatty, que me explicou o porquê da missiva: queria explicar-me algo de estranho que acontecera durante as votações para a eleição dos nomeados para o Óscar de “Melhor Filme de Língua Estrangeira”. Relatou-me então as peripécias e os arranjos políticos que estiveram na base do afastamento de “Manhã Submersa”, de que ambos gostavam muito e defenderam até final. Numa primeira votação, três filmes tinham tido votos que os destacavam dos outros: Kurosawa, Truffaut e Szabo. Depois, para dois lugares, surgiram três filmes com o mesmo número de votos, um espanhol, um soviético e o português. Fizeram-se tantas votações, quantas as necessárias para que o filme português ficasse de fora. Assim foi que um filme português não foi nomeado em 1981. Registei a explicação e as palavras de apreço.

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

LIVROS: GORE VIDAL


GORE VIDAL:“NAVEGAÇÃO PONTO POR PONTO”

Gosto de ler biografias, mas prefiro-lhes ainda os livros de memórias. Por quê? A biografia contada pelo próprio é duplamente interessante. Porque, além de ser uma biografia, ou se aproximar disso, relatando aspectos relevantes de uma vida, momentos críticos, situações que merecem, ser recordadas, é ainda particularmente interessante porque revela o que o autor pensa de si próprio e o que quer que os outros pensem dele. Nada numa "memória" é simples, linear, directo. Por que se escolhe para falar de um episódio e se esquece outro?, por que se recorda uma frase e se abafa outra?, porque se relata uma atitude tomada e se não fala de outra? Tudo tem a sua razão de ser. As memórias são selectivas, por muito imparciais que os seus “donos” procurem, honesta e deliberadamente, ser. As "memórias" remetem sempre para uma "pose". É essa pose que me interessa mais. É a faceta mais reveladora de uma personalidade. A pose no retrato. A pose na escrita. A forma como queremos que os outros nos vejam e nos julguem. Muito interessante. Um dia, se tiver tempo, hei-de escrever um livro de "memórias".
Mas por agora refiro-me a um que acabei de ler, “Navegação Ponto por Ponto”, de Gore Vidal. Excelente escritor, excelente memorialista, cheio de um charme muito especial que muitas vezes só os gays sabem ter. Porque são um pouco mais exuberantes, porque tem normalmente uma língua viperina e uma "maldade" crítica sui generis. Estas memórias são para saborear ponto por ponto, sobretudo para quem gosta de cinema, teatro, literatura ou política norte americana.

Gore Vidal teve uma vida agitada e nesta obra aborda os mais variados temas e analisa com um olhar crítico, por vezes fatal, personalidades as mais diversas, desde Jacqueline Kennedy, Tennessee Williams, Eleonor Roosevelt, Orson Welles, Johnny Carson, Greta Garbo, Federico Fellini, Rudolf Nureyev, até Elia Kazan ou Francis Ford Coppola. Homossexual assumido, enfrenta a perca de um amigo (Howard Auster, o seu companheiro de sempre, o homem com quem viveu mais de cinquenta anos) com delicadeza, pudor e subtileza. Com uma escrita elegante, mas nunca de elogio fácil, oferece-nos um retrato brilhante de uma certa época e de uma certa sociedade norte-americana, envolta em humor, ironia e um toque pessoal inimitável. Um belíssimo livro de memórias.
Eduardo Pitta, numa resenha aparecida no “Público”, afirmou certeiramente: “Abarcando os mais de quarenta anos que o escritor viveu em Itália, país onde se fixou em 1963, o frequente recurso ao flashback ilumina algumas zonas de sombra. Num ápice, somos transportados da Roma do imediato pós-guerra para a descoberta precoce do cinema. É hilariante a passagem em que Vidal descreve o dia de 1929 (aos 4 anos, portanto) em que, sentado ao lado dos pais num cinema de St Louis, responde em voz alta à pergunta que uma actriz faz no ecrã... O ritmo mnemónico não poupa nada nem ninguém: o arrivismo da mãe, a zanga com Jackie Kennedy, os engates de rua (onde cabe a explicação do motivo que levou Paul Bowles a fugir para Marrocos), o rapto e assassínio de Aldo Moro em 1978 (mero pretexto para falar das Brigadas Vermelhas), a dor sentida pela morte de amigos muito queridos (entre outros: Susan Sontag, Saul Bellow e Barbara Epstein), o desprezo pela Junta que governa a América - Vidal refere sempre como Junta a tríade formada por Bush, Cheney e Rumsfeld -, as guerras monitorizadas pela CNN a partir dos anos 1990, e assim sucessivamente.”

quinta-feira, junho 14, 2007

TEMPO DE LICEU EM PORTALEGRE


Isto de andar a vasculhar "nas arcas" (agora é nos arquivos dos PCs) é o que dá. Aparecem sempre coisas que achamos interessantes. Por exemplo, um entrevista concedida ao jornal da Escola Secundária Mouzinho da Silveira, de Portalegre, onde fiz os primeiros anos de Liceu, em finais da década de 50. Quase quarenta anos depois faziam-me a entrevista e eu respondi assim:

1. Conhece a Escola Secundária Mouzinho da Silveira como ela é actualmente? O que mudou?
- Conheço-a mal. Apenas lá estive, creio que por duas vezes, para colóquios com professores e alunos, o que não deu para ter uma ideia completa da Escola, mas, mesmo assim, posso dizer que mudou muita coisa, a começar desde logo pelo edifício. Eu ainda andei no velho liceu que ficava defronte do antigo mercado, edificio onde hoje é, segundo julgo, a Escola Superior de Educação. As mudanças são profundas, já lá vão mais de 35 anos desde que deixei Portalegre. Espero, isso sim, que o que mudou tenha sido para melhor.
2. Em que é que esta escola o influênciou?
- Creio que não foi só a Escola que me marcou para todo o sempre, mas o Alentejo, e particularmente Portalegre. Vivi nesta cidade entre os meus 7 e 15 anos, uma época muito importante na definição da personalidade de qualquer pessoa. Depois, o que mais me marcou na escola, foi o factor humano, os professores que tive, entre os quais é óbvio que tenho de destacar José Régio, mas também muitos outros, que, de uma maneira ou de outra, positiva ou negativamente, me ajudaram a definir como pessoa, nos meus gostos e apetências. O que veio a conjugar-se com o lado familiar, essencial também, como se deve calcular.
3. Como é que relembra a escola?
- Um casarão enorme, que hoje sei não ser assim tão enorme, para onde se ia diariamente com um misto de prazer e de terror. Muita coisa, boa e má, por lá se passou, das amizades aos primeiros amores, das torturas provocadas por certos professores aos ensinamentos que outros nos ofereciam com generosidade. O recreio, que ficava lá para trás, era o momento de relaxe por que se ansiava...
4. Qual a sua recordação mais querida?
- Lamento dizer, ou talvez não o lamente, que as melhores recordações do liceu foram os primeiros amores. Duas ou três raparigas por quem me fui sucessivamente apaixonando, uma delas que a meio do curso deixou Portalegre e me ia destruindo de dor. Devia ter para aí 14 anos, mas esses namoriscos de meninice são fatais. A descoberta do amor ficará em mim para sempre ligada áquela velha casa. Não há recordação mais querida, como se deve calcular.
5. Como era a relação professor / aluno?
- Falo dos anos 50, precisamente entre 1950 e 1958, e, nessa altura, como hoje, havia de tudo, professores que eram companheiros mais velhos e mais sabedores, e carrascos que faziam valer o seu poder para literalmente aterrorizarem quem lhe passava por perto. E havia ainda uma massa de professores e alunos mais ou menos indiferentes, que não recordo, nem pela positiva, nem pela negativa. Mas, apesar de tudo, o balanço é favorável.
6. E a relação aluno /escola?
- A escola, por aquele tempo, era "o sítio onde se ia ter aulas". E ter aulas, por aquele tempo, não era algo que a escola transformasse numa actividade excitante. Dependia radicalmente dos professores, do seu saber e da sua generosidade. Ou da ausência de tudo isso. Gostava que hoje a escola fosse um local para onde os alunos fossem com vontade de irem aprender, conviver com os colegas e ouvir os amigos mais velhos ensinarem-lhes coisas importantes para a sua vida. Mas será que já mudou tanto? Essa, de Portalegre, e todas as outras, em Portugal?
7. Conte-nos algo que se tenha passado na escola, que o tenha marcado?
- Um sinistro interrogatório, verdadeiramene inquisitorial, que um professor de moral um dia me fez, depois de me fechar à chave numa sala de aula. É uma recordação que ainda hoje não esqueço, e que um dia, anos mais tarde, revi num filme de Fellini, creio que em Amarcord. Nesse dia aprendi o que era o terror.
8. Quando concluiu o liceu, o que sentiu?
- Primeiramente, alívio. Anos depois, algumas saudades do que de bom por lá fui vivendo. Mas acabei o liceu, já em Lisboa, no Pedro Nunes. Em Portalegre, no Mouzinho da Silveira, andei até concluir o 4º ano. Já fiz o 5º ano em Lisboa, no Gil Viente, e o 6º e o 7º, no Pedro Nunes. Mas o alívio tinha apenas a ver com uma étapa já ultrapassada. Do Pedro Nunes transitei depois para a Faculdade de Letras de Lisboa, onde fiz o Curso de História, e na Faculdade senti já o sabor da liberdade e o gosto de aprender matérias e conceitos que escolhera e de que gostava.
9. Gostaria de rever algo ou alguém do tempo em que esteve na Escola Secundária Mouzinho da Silveira? Quem ? O quê?
- Tanta gente, a começar pelo meu pai (agora também a minha mãe), e pelos tempos que com ele vivi em Portalegre - acompanhei-o tantas vezes, quando ele ia de cavalete e tintas, pintar para o campo -, continuando por tantos amigos, e tantas coisas que me deram um real prazer em passar esses anos da minha vida em Portalegre. Os jornais, A Rabeca e o Distrito, onde comecei a rabiscar uns escritos e a compô-los em chumbo, sob os olhares amigos do Sr. Casaca e do cónego Anacleto, os filmes vistos no velho Teatro Portalegrense e no Cine Parque, a inauguração do Crisfal, as idas ao futebol, torcer pelo Portalegrense e pelo Estrela (eu torcia por Portalegre), os passeios pelos arredores, as festas populares, nas capelinhas que havia à volta da cidade e em São Mamede, o Café Alentejano e o Central, onde ia tantas vezes com os meus pais, os passeios pelas alamedas que partiam do Platana até lá cima, o jardim da Corredora e os versos de José Duro, os bailes na Casa Amarela, a Páscoa na Sé e a visita pascal anunciada por um sininho que descia a rua de Elvas, a casa de José Régio, que visitava com regularidade com os meus pais, enfim tanta coisa... tanta gente e tanta coisa que afinal revejo na memória agora mesmo, enquanto estou a escrever estas linhas.
10. Gostaria de transmitir alguma mensagem aos alunos da actual Escola Secundária Mouzinho da Silveira?
- Ajudem a preparar uma escola melhor para vocês e para os vossos filhos. Uma escola é um edifício, mas é sobretudo um encontro de pessoas, uma comunhão de vidas, onde alunos e professores aprendem uns com os outros a viver melhor. Serão os alunos e os professores que obrigarão os Ministérios da Educação a governarem melhor. Agora e no futuro. Por isso, coragem! A escola precisa de ti, não és só tu que precisas dela. (25 de Maio 1995).

segunda-feira, abril 09, 2007

OUTRAS PÁSCOAS

Descida da Cruz- Rubens

Corre na televisão “Quo Vadis”. A imagem inesquecível de Peter Ustinov, de polegar virado para baixo, na figura do louco imperador romano, faz-me recordar as Páscoas da minha infância e adolescência.
Antes ainda de mergulhar nas recordações de infância, esta exibição evoca-me Semanas Santas passadas em salas de cinema, nos anos 50 e 60, e ainda na década de 70, onde devorava filmes bíblicos, de “Os Dez Mandamentos”, de Cecil B. De Mille, a “Ben-Hur”, de William Wyller, deste mesmo “Quo Vadis” a “A Maior História de Todos os Tempos”, de George Stevens, de “O Rei dos Reis”, de Nicholas Ray, até “O Evangelho segundo São Mateus”, de Pier Paolo Pasolini, passando por outros que tocavam ao de leve a vida de Cristo, mas se ocupavam de outras personagens laterais à sua história, como “A Túnica”, por exemplo, mas também “Demétrio, o Gladiador”, “Barrabás” e tantos outros.
Depois, as salas de cinema deram lugar aos ecrãs de televisão, onde, por esta altura do ano, se atropelavam filmes bíblicos e séries, como o “Jesus de Nazaré”, de Zeffirelli. Devo dizer que me sabia muito bem ter a certeza de que, por esta altura do ano em que se ouvia falar mais do “Carneiro de Deus, que tira os pecados do mundo”, eu podia sempre ver nos canais de televisão obras que já sabia de cor nalguns casos, outras que descobria com ansiedade, algumas ainda que se estreavam com estridência. A competição entre canais retirou-nos essas certezas, na Páscoa e no Natal, e não nos trouxe infelizmente nenhuma outra compensação à altura. Muitos dos nossos prazeres são repetir prazeres já experimentados. Que interessa saber que já tínhamos visto vezes sem conta Nuno Salvação Barreto a pegar o touro na arena de Roma, se a repetição do olhar nos proporcionava um duplo prazer, o de rever algo de que gostámos e o de recordar esse outro prazer de anos atrás? Se não fosse legítimo esse prazer ninguém leria duas vezes o mesmo livro, todos se escusavam a ouvir duas vezes a mesma ópera ou sinfonia, ninguém olharia duas vezes para o mesmo quadro. O prazer da re-descoberta, o gosto de saber que algo vai acontecer no momento já esperado, é algo que não se deve perder. Que a maioria dos humanos aprecia, e que o gosto pela novidade não deve destruir. O equilíbrio entre o já visto e o novo pode, e julgo deve, coexistir.

Dez Mandamentos, de Cecil B. De Mille

Tenho, todavia, que me interrogar sobre este gosto pelo filme bíblico. Sempre gostei de História, é certo, e não foi contrariado que cursei História, em Letras, na Universidade de Lisboa. Fi-lo por gosto. Não sei mesmo, se, havendo na altura um curso de Cinema (que não havia!), não teria, à mesma, preferido História, ainda que não seguisse profissionalmente essa estrada. Mas o curso de História permitiu-me privar com grandes professores e obter uma base humanista e metodológica preciosa, inclusive para o que pretendia fazer em cinema. Sempre achei que o mais importante era desenvolver (e possuir) capacidades intelectuais, que as tecnológicas logo viriam, ou não, por acréscimo. Por isso frequentei História, por isso sempre gostei de História. Quem gosta de História gosta de histórias, de enigmas, de mistérios a decifrar. Deverá ser por essa via que me advém o gosto pela vida de Cristo, aliado aos mistérios da Sua Paixão.
A verdade é que numa sala de cinema ou no dia a dia, a Páscoa me tocou sempre fundo. A minha família não seria de católicos assumidamente praticantes, daqueles que vão à missa todas as semanas, mas tive pai e mãe que não descoravam os ensinamentos da Santa Madre Igreja e me procuraram incutir o que de melhor havia na moral. Foi talvez a educação que me aproximou da religião e dos seus grandes mistérios, mas algo em mim sempre me fez sentir fascínio por duas épocas muito particulares, o Natal, em primeiro lugar, que sinto sobretudo como uma grande festa de família, a Páscoa, logo a seguir, por razões que se devem prender a muitos aspectos. Por ser, de certa forma, a festa da ressurreição, o mesmo é dizer da primavera, mas por ser também um período de quase terror a envolver as igrejas, o cerimonial religioso, o luto. Nestes dias a proximidade do mistério da morte é muito maior, o que para uma criança é algo que aterroriza, mas igualmente fascina, pelas interrogações que provoca.
Da Páscoa mais recuada que me lembro, situo-a em Portalegre, na década de 50. Terra de província, fechada, perdida num Alentejo profundo, rodeada “de oliveiras e sobreiros”, como cantava o poeta, era terra de algum desespero e muita miséria para o trabalhador rural que não raro fugia dessa desesperança atirando-se do alto do ramo forte de uma árvore, pendurado numa corda. Como um dia, pela manhã, eu surpreendi um, numa azinhaga que corria ao fundo da rua de Elvas onde eu morava. Partia para a escola, quando vi ao fundo da rua grande alarido e ajuntamento de populares. A curiosidade falou mais alto que a necessidade de chegar a horas às aulas e lá fui furar entre o pessoal que rodeava uma vetusta árvore, donde pendia inerte um homem. Enforcado. À minha volta segredava-se o desespero que o levara a ficar com os pés bem acima da minha cabeça, balouçando-os com o vento suão, o tal “que atira a corda aos desgraçados”. Era um Inverno bem pesado, e a cabeça pendia de lado. Ouvia eu dizer que estava azulada, não do azul do céu sem nuvens, mas de um azul cinza chumbo. Terá sido a primeira vez que vi a morte e um cadáver à minha frente. Tinha, sei lá, dez, doze anos e uma completa inocência existencial, bem aquecida até aí pelo carinho da família.
Foi por essa altura, nessa terra que, mesmo sem mistérios de Páscoa, continha já uma súmula de desespero grande, que comecei a tomar contacto consciente com a paixão e a ressurreição de Cristo. As igrejas, paramentadas de roxo, começavam por encobrir as imagens, as famílias percorriam as ruas, entrando em cada templo que encontravam e ali se detinham em oração, havia fúnebres procissões que percorriam as ruas da cidade, ou as de algumas freguesias quase fora de portas, chegando depois o domingo da boa nova, sendo a ressurreição anunciada de casa em casa pelo senhor prior que vinha acompanhado pelo sacristão, precedido de campainha anunciadora. As portas das casas estavam abertas, as do rés-do-chão, mas também as de prédios de vários andares, que o padre subia ofegante, para se sentar depois à volta de um cálice de Porto e de um bolinho, caseiro, confeccionado na véspera com particular cuidado para a ocasião. Um bolinho, ou um sortido de bolos secos, dispostos em pequenos pratos, chamados pires (designação que sempre odiei), com “naperons” por baixo, garrafa de Porto e cálice ali bem ao lado, tudo em cima de uma engalanada camilha que, durante o Inverno, era o refúgio para o frio gélido que soprava dos lados da serra de São Mamede.
Serra de São Mamede: boas recordações de tardes de Abril primaveris e domingos de Páscoa em que as famílias partiam de farnel aviado para comer o cabrito em piqueniques que rolavam dolentes pela tarde toda. Uma tarde dessas de domingo de Páscoa lembro-me de partirmos serra acima, num carro alugado para o efeito, eu, os meus pais, e um amigo da casa, o poeta José Régio. Desdobrava-se a toalha, lá onde havia a sombra de uma árvore, estendia-se o pano sobre a terra, depois colocavam-se talheres e pratos, uma assadeira grande onde fora assado o cabrito e onde viajara connosco serra acima, acompanhado de boas batatas novas bem embebidas no molho, havia garrafas e copos, pão, folares e muita conversa à solta. Pela encosta da serra viam-se famílias e mais famílias, grupos de amigos, enquanto a tarde ia caindo… lentamente, ao ritmo de uma província alentejana dos anos 50.
O pai era alto, de careca luzidia desde muito novo (não me lembro de o ter visto com mais cabelo), com uns olhos azuis límpidos, e umas mãos largas que pintavam coisas maravilhosas, como, por exemplo, retratos dessa mãe loura e bonita como não havia outra, ou paisagens como a serra de São Mamede. Havia ainda retratos meus que me obrigavam a estar quieto horas a fio, “a posar”, dividido entre o tédio de nada poder fazer e a observação quase obsessiva de ver pintar, de assistir à tela branca que lentamente vai sendo riscada pelo carvão, depois esboçada pela tinta, coberta pelas cores, trabalhada pelo pincel.

Era assim a Páscoa em Portalegre, mas não só. Num ano ou dois, a família viajou até Sevilha para assistir à Semana Santa. Foi o triunfo do terror, mas de um terror libertador, se assim o posso chamar. Assistir nas calles de Sevilla à passagem das procissões, o que normalmente acontecia à noite, era um espectáculo indescritível. Dos dois lados das avenidas estendiam-se bancadas que se apinhavam de gente, conversadora, aberta, generosa. Enquanto se esperava pela passagem dos andores (os palos), a gente ia comendo e bebendo e oferecendo entre si o que cada um possuía. Lembro-me de uma Espanha pobre, triste, cansada pela guerra que acabara há pouco e deixara pesadas marcas, mas lembro também que os rostos se iluminavam e as mãos se estendiam. Sentia-me bem naquele calor humano que invadia as ruas e se prolongava noite dentro. No meio dos meus pais, aconchegado entre ambos, via aproximarem-se os peregrinos, nos seus trajes sem rostos, martelando dramaticamente o empedrado com bastões de madeira, e o medo crescia em mim. Os capuzes negros, brancos ou roxos, consoante as cores das congregações, o ritmado do estrondo dos sons, a música religiosa, os coros que ecoavam pelas ruas, as imagens de Cristo da cruz, dilacerantes de dor, a noite sobre a cidade, as portas das igrejas abertas, como cavernas escuras, que vomitavam às centenas, aos milhares os peregrinos misteriosos, tudo isso se repercutia em mim de forma avassaladora. Sentia um misto de medo e conforto, medo pelo que via, conforto por ver o que via no meio dos meus pais, entidades que sentia protectoras e apaziguadoras. Se ali estava, levado por eles, nada daquilo que poderia fazer mal, ainda que as ameaças surgissem a cada passo. Essas imagens nunca mais as vou esquecer, são espólio de uma vida que procuro transmitir aos que mais quero. Por isso, teria o meu filho Frederico mais ou menos a minha idade nessa altura, lá o levei a descobrir também a Semana Santa em Sevilha, para ele sentir o mesmo, ou algo parecido ao que eu sentira três décadas antes. Procurei que o conforto fosse idêntico também, a sua mão na minha e na da mãe, enquanto via passar pelas ruas da cidade as mesmas procissões, agora um pouco mais abrilhantadas pela necessidade turística, agora mais sumptuosas pelas possibilidades que são outras, muito diferentes das por que se passava no pós-guerra. Aliás, nesses anos que se seguiram à Guerra Civil, ao triunfo do franquismo sobre o anti-clericalismo da República, as cerimónias religiosas em Espanha espelhavam naturalmente essa “vingança” surda da Igreja (e do próprio Estado) contra aqueles que a tinha perseguido, exibindo sem pudor a sua força, a sua grandeza, a sua tradição opressiva na liturgia e no cerimonial. Por essa altura de Guerra Civil eu pouco sabia, apenas uma ou outra informação que os adultos iam deixando cair, mas essa dimensão sobre-humana de algo que se não entende, de um mistério que nos ultrapassa e nos inflige um medo oculto e silencioso, paralisava-me de terror, mas também causava algum prazer, um frisson miudinho que alimentava a imaginação.
A Semana Santa passei-a depois, ao longo da vida, em várias cidades e locais diferentes. Vi (pela televisão) flagelações brutais nas Filipinas, mas fiquei-me pacatamente pelas procissões em Évora (a Páscoa para mim ficou para sempre ligada ao Alentejo) ou em Braga. Há dois dias, da janela da minha casa, em Lisboa, vi passar uma estranha e insólita procissão, na Av. de Roma. Meia dúzia de paramentados de branco a abrir, um sacerdote, meia centena de fiéis com velas, um carro com auto-falante a fechar, a total falta de mistério, apenas o inesperado. Caminhando rumo a quê? À sobrevivência da religião, numa sociedade predominantemente materialista e isenta de valores? Ou, pelo contrário, rumo ao progressivo apagamento, à dissolução por entre arranha-céus, supermercados, canais de televisão generalistas, multinacionais sem alma (desalmadas), violência expedita e vagas de insensibilidade?